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Nº3 | outubro

Singular Inah Irenam

Luciana Galeão e sua trajetória na moda

Lia Robatto abre o Ponto de Referência

Martin Shankar solta o verbo : “preto e branco”


REVISTA: A Revista Digital Ponto Art pretende oferecer um espaço digital onde os artistas e afins, possam compartilhar pesquisas artísticas-culturais, prestigiar ideias e processos coletivos e individuais, conhecer produção de outras linguagens e dividir experiências.

PORTAL: www.ciapontoart.com.br

VITRINE VIRTUAL: www.passoponto.art.br HISTÓRIA: A Cia Ponto Art foi criada em 2011 por Jaqueline Elesbão e Pedro Ivo dos Santos, com o propósito inicial de ser a marca representativa dos eventos e/ou ações desenvolvidas e executados pela Cia.


Editorial Esta edição traz algumas novidades, primeiramente queremos comunicar que estamos em plena mudança para o escritório Ponto Art – agora temos um ponto certo de encontro, estão todos convidados para tomar um cafezinho com a gente. Outra novidade é que tem matéria nova na área, o Ponto de Referência, que já começa com a presença maravilhosa de Lia Robatto. Vocês poderão ver também a produtora e bailarina Inah, “arrasando” em nossa capa, dentre outras pessoas que compõem o cenário da arte em Salvador e que nos presenteiam com suas participações em nossos “Pontos”. É de fato um todo, formado pela arte de uma galera fazendo parte. Boa leitura!

Entre Aspas Entender e reconhecer a dimensão do outro, me fez crescer muito como artista e como pessoa. O outro como inspiração, como parceiro, como aprendizado, como motivação, como complemento. Uma obra de arte não inicia, nem é executada, muito menos se eterniza sem o outro.

Jaqueline Elesbão

Bailarina e Diretora da Cia Ponto Art.

Conselho Editorial: Cia Ponto Art Projeto Gráfico, Design Editorial e Revisão Editorial: Mel Campos Diagramação: Inaíra Mendonça Textos Ponto Art: Jaqueline Elesbão e Anderson Gavião Texto jornalista: Camila França DRTBA 3047 Revisão de texto: Cazzo Fontoura

Inaíra Mendonça

produtora executiva

Contato Jaqueline Elesbão, Inaíra Mendonça e Anderson Gavião.

Geral contato@ciapontoart.com.br Comercial comercial@ciapontoart.com.br Produção producao@ciapontoart.com.br

/ciapontoart Foto: Ives Padilha


Índice

LogoArt Bruna Matos, traz suavidade e realismo para a LogoArt

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pronto e ponto Kátharsis Cia de Dança conta algumas estratégias para driblar as dificuldades e realizar suas produções

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Singular Inah Irenam, produtora, bailarina e dona de uma alegria contagiante, enche de beleza a capa dessa edição

Passo ponto Conheça as ofertas imperdíveis das lojas no Passo Ponto.

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Ponto de referência 22

Lia Robatto, referência no cenário da dança, conta em entrevista sobre sua trajetória artística e a contemporaneidade

vIA LITTERARUM Lançamento do Box Literário de Carlos Kahê

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Ponto de Encontro O coletivo Projeto Ativa Salvador promove encontros e experimentações em uma programação de múltiplos segmentos artísticos

Soltando o verbo Martin Shankar solta o verbo e diz “O discurso do preto e branco não me representa”

Comé Mulher? 30

diia d

A Design de Moda Luciana Galeão fala sobre seu trabalho e o estímulo à conscientização da mulher através do design sustentável

contaí

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Cazzo Fontoura, poeta e escritor, critica a banalização da imagem e o comportamento atual onde os filmes são vistos, mas não lidos.

Alex Dudread , técnico em alturas, explana sobre sua profissão e a adrenalina do seu trabalho

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tá dentro

O Instituto Mídia Étnica completa em novembro 10 anos e faz programação especial de 12h para comemorar

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logoart Bruna Matos Uma bela criação do mundo das artes. Bruna é uma daquelas meninas de fala mansa e tom decidido. Nascida em Salvador, crescida no município de Esplanada, atualmente reside na cidade de Candeias, região metropolitana de Salvador. Atualmente, é estudante do último ano de Design Gráfico na Faculdade Ruy Barbosa, localizada no bairro do Rio Vermelho (Salvador). Ela confessa que já teve dúvidas se, de fato, esta seria sua área de atuação. Hoje, já tem certeza: “Percebi que nasci pra isso”, comenta a jovem de 23 anos. Desde cedo demonstra aptidão pelas artes, seja pelos desenhos abstratos nas folhas, pelos rabiscos nas paredes de casa ou pelo interesse pelos desenhos animados. Seus pais foram seus maiores incentivadores e a von-

tade de vencer sua maior referência. Sua atuação profissional e artística é guiada pela curiosidade e pelo desafio de se superar, embora ainda esteja trilhando seus primeiros passos na área. Talvez, por isso, Bruna não tenha definido um estilo como o preferido. Sobre isto, ela destaca que procura “desenhar com a maior precisão possível, sempre buscando a perfeição da imagem e realismo no desenho.” Em seu trabalho atual, Bruna ministra aulas de desenhos realistas, no Studio Hector Junior. O dono do espaço, Hector, é um marco na vida profissional da designer, que ainda desabafa sobre a complexidade que há nos traços de um desenho real – estilo que vem explorando em suas atividades mais recentes.

“A carga que há na reprodução é enorme e a cada trabalho vejo que encontro um novo desafio. É o que me faz querer continuar a melhorar meu traço, aplicando todo o esforço”, conclui a estudante. Para ela, “a evolução de uma pessoa independente da área que ela esteja atuando depende do seu esforço”. Por isso, pretende ainda iniciar o curso de artes plásticas na Universidade Federal da Bahia e adianta que já foi aprovada uma vez. Agora é tentar de novo. Mais um belo traço no caminho de um desenho da vida, de uma jovem artista, que tem sua carreira começando. texto: Camila França drtba 3047 Foto: Og Marcelo


ponto de vista 8


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Foto: Marcelo Reis Série “Corpos” Veja mais em: www.ciapontoart.com.br


pronto e ponto

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Kátharsis Fundada em Julho de 2011, pelo coreógrafo e diretor da companhia Filipe Monte Verde, a Kátharsis Cia. de Dança desenvolve em Salvador um expressivo movimento através do Contemporany Jazz. A Cia. se destaca pelos traços dramáticos em narrativas contemporâneas, conduzidas pelos 12 bailarinos que integram a cena. Assistir a Kátharsis é, como seu próprio nome sugere, uma explosão de emoções internas. O grupo que há cinco anos trabalha arduamente na difusão do Jazz Dance em Salvador, rompe as fronteiras de nossa

cidade, recebendo premiações em diversos Festivais Nacionais de Dança. Mas, não é à toa que isto acontece, acompanhamos a rotina do grupo, afim de entender o que destaca a Cia. de Dança no cenário da arte soteropolitana. E logo percebemos o forte envolvimento emocional dos seus intérpretes durante os processos criativos, onde religiosamente reúnem-se todos os sábados, a partir das 8h da manhã (e por vezes durante todo final de semana) para as montagens e promoções da Companhia. “Assim como os grupos e companhias de Salvador que lutam para se manter a cada dia, e expandir seus trabalhos, a Kátharsis ambiciona valorizar e expor a diversidade artística de nossa terra” fala com orgulho Filipe Monte Verde, mentor do grupo. E completa revelando as dificuldades enfrentadas na produção artística em nosso Estado: “as dificuldades são múltiplas, a maior delas, sem dúvidas, é a falta/escassez de patrocínio privado e/ou incentivo do Governo. Estamos passando por uma ‘crise artística’ das mais complicadas, verba vetada, confusão política;

dificultando todo processo de incentivo.” A estratégia adotada pelo grupo, atualmente, para driblar as dificuldades financeiras inerentes a sua produção. Tem sido a promoção de eventos alternativos para arrecadar verbas. A exemplo, do “Kátharsis Acontece”, em sua 7ª edição, realizando workshops em diferentes segmentos de dança, por profissionais convidados, há preços simbólicos e atrativos. A bailarina Jéssica Seixas, intérprete na Cia., nos conta que começou a dançar desde os 9 anos de idade e é a dança que a impulsiona para a vida.


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“Eu não consigo separar minha vida da minha dança, elas se misturam o todo tempo”.

Jéssica, formada pela Escola de Dança da UFBA e bailarina na Companhia há 5 anos, revela que a

só pensar em me afastar dela, já me bate um desespero.” “Acreditamos que toda essa nuvem nebulosa se afaste e que dias bons estão por vir! Merecemos ser respeitados, merecemos dignidade e muita valorização.” Diz Filipe que se mantém firme diante dos propósitos com a arte. Veja mais fotos da Cia Kátharsis em nosso site www.ciapontoart.combr

companhia contribui para expressar suas ideias pessoais através da arte. “A dança me ajuda, então

Texto: pONTO aRT fotos: Júlia Lima e Ricardo Castro veja mais: WWW.CIAPONTOART.COM.BR


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ponto de ação


capa

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Inah Irenam


Percebi que sempre gostei de fazer as coisas acontecerem. �

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capa

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O

que falar de uma pessoa que se chama Inah Irenam, nascida em 06/07/89 (números sequenciados sinalizados pela mesma), canceriana, com ascendente em Aquário e lua e vênus em Leão. Espiritualmente, filha de Yemanjá, Oxum e Oxóssi. Será esse o segredo do sucesso desta produtora cultural e bailarina, que por meio de várias facetas vem desenvolvendo uma carreira plural mediante tanta singularidade? “Me considero singular” Como produtora Inah vem se destacando na cidade de Salvador e colaborando com muitos projetos, tornando possível a realização de uma produção bem feita que muitas vezes desenvolve sem estrutura (como manda a cartilha de um bom produtor), porém, com muita excelência, tudo isso com um carisma contagiante.

“A minha realização como produtora é ver o projeto sair do papel.”

É dar vida e suporte para quem precisa, com um mínimo qualquer. Percebi que sempre gostei de fazer as coisas acontecerem. Quase não paro, a cabeça toda hora inventa alguma coisa. Preciso estar em movimento sempre.”

Revela Inah. E completa sobre a crescente de seu ofício: “As partes burocráticas sempre gostava de fazer. E fui tomando pela responsabilidade de resolvê-las.” Denomina sua dança como ancestral, que a mantém conectada com lugares que não tem acesso de


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capa

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nenhuma outra forma, que posiciona sua vida de jeito diferente, que desorienta e desestabiliza da zona de conforto. “É uma dança por vezes triste, mas forte e vigorosa, pela labuta intensa de manter a continuação das atividades num país que boicota a todo tempo os artistas.” “É um samba acelerado, cheio de contratempos e improvisos, dialogando com o atabaque (vida) em compassos e jogos coreográficos, que ainda não sei onde vai se findar.” Linda, simpática, eficiente, multiplicadora... qualquer adjetivo é pouco para compor esta mulher que há anos vem contribuindo com a arte de maneira efetiva. “Estudo francês, sei um pouco de violino, quero ser perita criminal (na velhice... rsrsrs), sou louca pelo carnaval baiano. Sou muito curiosa e quero saber de quase tudo. Isso me ferra, às vezes (rsrs).”

Cabelo: “A diversidade e a inovação no campo da estética estimulam o meu trabalho.”

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Mariana Desidério Salão Milmar

Foto: “A fotografia é essecialmente uma via de expressão onde o mundo vira matéria-prima desse texto imagético feito de formas, luzes, cores, emoções e ideias.”

Ives Padilha Fotógrafo

Acessórios: “Somos guiados pelo desafio de sempre inovar e criar algo que um cliente deseje, dando personalidade a cada trabalho, tornando este único e exclusivo.”

Duma Ateliê Criativo

Maquiagem: “Maquiar é arte sútil e delicada de transformar rostos, rostos que encantam aos que admiram e aos que são admirados” Gustavo Mareli Maquiador

Locação: Teatro Gamboa Nova Rua Gamboa de Cima, 3 Aflitos, Salvador-Ba

Texto: Ponto Art www.ciapontoart.com.br


passo ponto

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E LAÇO M A IR E S L U P R$: 30,00 LIÊ DUMA ATE MA.ATELIE / DU

CAFTA R$: 180,00 NEGRIF / LOJANEGRIF

SACO O H QUIN A C A M 5,00 R$: 4 TED ART D / ARTED.AR

acesse WWW.PASSOPONTO.ART.BR


Penteados PREÇOS so SALÃO M b consulta ILMAR / SALÃ ODEBELE ZAMILMA R

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CIO 2 ÍP G E R A L O C R$: 72,00 SIL PRETA BRA ABR / pRET

sobre vivências

“Sou Marcelo Santana, soteropolitano, 37 anos, sou mecânico de automóveis e funileiro automotivo, atuando na área há 16 anos. Mas, também sou maquiador e designer de sobrancelhas nas horas vagas. Filho de mecânico, segui a profissão por herança paterna. Ao longo da minha carreira, senti que a rotina de cuidar de carros se tornou cada vez mais estressante. Vi a necessidade de buscar uma válvula de escape e ao mesmo tempo fazer uma grana extra. Daí eu pensei: chega, tô ficando coroa, mas vou ser um coroa em cima (rs). Começava aí minha corrida por: sabonete facial, tônico, serum, hidratante, anti-idade prime e etc. Passeando no mundo da estética, vi que se eu podia cuidar de um carro, também poderia cuidar de um rosto. Então, entrei numa conhecida escola de maquiagem e fiz o curso de designer de sobrancelha e maquiagem. Há 2 anos nesta área, aprendo mais a cada dia. Tem sido muito gratificante, foi onde conheci pessoas legais e fiz muitos amigos. É maravilhoso quando me perguntam como é tirar um motor de um carro e, logo depois, passar batom em uma boca. Eu digo que é só lavar bem as unhas que dá tudo certo! E assim ganho a vida nesta dualidade, com mãos grosas e pesadas nos carros, mas leves e delicadas dando contornos a expressões faciais.”


ponto de referência

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Lia RB obatto

ailarina e coreógrafa

Filha da professora e artista plástica Hebe Carvalho e do poeta concretista Pedro Xisto, recebeu as primeiras aulas de balé aos 7

anos, na Escola de Bailados do Teatro Municipal de São Paulo, e aos 12 anos passou a estudar dança moderna com a polonesa Yanka Rudzka. Em 1956, Rudzka mudou-se para Salvador, convidada por

Koelreuter para fundar a Escola de Dança da UFBA. No ano seguinte, chamou Lia Robatto para trabalhar como sua assistente, inicialmente por um período de três meses. Porém, acabou ficando na Bahia. Integrou o Conjunto de Dança Contemporânea da universidade e em 1958 tornou-se professora. Entre 1960 e 1964, criou suas primeiras coreografias para a companhia de dança da universidade: Móbile, Águas glaucas e Antônio Conselheiro. No entanto, após a saída de Rudzka, ficou um tempo afastada e depois voltou à Escola de Dança, onde lecionou até se aposentar, em 1982. Em 1983, tornou-se diretora do Departamento de Dança da FUNCEB, onde criou uma Escola de Dança. Foi ainda gestora na Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Dirigiu e coreografou cerca de 40 espetáculos, encenados por companhias profissionais como o Balé da Cidade de São

foto: Ives Padilha


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Paulo, o Balé do Teatro Castro Alves e o Grupo Experimental de Dança. Com uma carreira marcada por contribuições e dedicação à dança, Lia não poderia fazer diferente e surpreende a todos com um ato de generosidade e colaboração à cidade, com a doação de seu acervo e o do Silvio Robatto, para o Centro de Memória da Bahia, vinculado à fundação Pedro Calmon/ Secult BA. Lia Robatto recebeu a equipe Ponto Art em sua casa para uma entrevsta descontraída, regada à muitos risos e reencontros. No bate papo Lia fala sobre o contexto atual da dança, a arte e as questões políticas e outros assuntos. Confira o resultado do vídeo nas nossas redes sociais e no site da Companhia www.ciapontoart.com.br. Está imperdível!!!

Minha Referência “Caetano Veloso desde uns 5 ou 6 anos de idade, que ouvi e nem sei explicar, bateu imediatamente a sensação de entender algo novo, de que a minha vida que estava só começando teria muita coisa boa. Uma dimensão da possibilidade de criar sentido, que a música dele tão justamente me fez enxergar.”

foto: Divulgação

Isbela Faria trigo

Cafélier Texto: Ponto Art Foto: Ponto Art


Box Literário

Carlos Kahê

Eu não conseguiria me lembrar de um evento em que um autor lançasse um box literário, inédito, contendo 5 obras; um feito possível somente às barrigas generosas. No dia 2 deste dezembro, a região cacaueira, que já entregou ao mundo filhos como Adonias e Jorge Amado, ratifica a sua vocação de mãe literária dando à luz a mais um nome vocacionado pelo sacerdócio das letras: Carlos Kahe. Ele é jornalista pós-graduado, economista, professor de literatura e compositor. A sua mais nova obra é O DIA EM QUE O DIABO VEIO MORAR EM NOSSA RUA, cuja ideia inicial seria recontar a história de Abraão, patriarca hebreu, entretanto, a impulsividade corrosiva da personagem obrigou-o a unir a originalidade com a universalidade das coisas interessantes, cuja equação descortinou o homem atual, seduzido pelo poder e pela capacidade de destruir quem se

colocar como obstáculo aos seus desejos e realizações. Em A ORQUESTRA DOS MORTOS, a história é ambientada num estado de sonhos. Kahe imagina um Estado dentro de outro Estado. Dá vida ao território sonhado da Bahia do Sul. Estado criado na Mata, berço do descobrimento, cuja capital, Armação, outrora um rio de peixes ariscos, malha natural da selva, hoje deflorada, sempre se desflorindo; dilapidada, sempre se reconstruindo, serviu de paraíso aos homens de almas livres, no fim da inconsistência social da era hippie. A ORQUESTRA vem ratificar a ideia de que somos eternos; que mais cedo ou mais tarde, reis ou filósofos, artistas ou poetas, conceberemos o nosso mérito, e que da realeza terrestre, nada levamos, além das certeza das esterilidades. Se a literatura nada pode indagar às almas sobre o bem que fizeram, ou

quantas lágrimas enxugaram, ela pode imaginar as inquestionáveis harmonias entre vivos e mortos, que nem os muros da eternidade foram capazes de quebrar. Em O SANTO SELVAGEM o autor levanta questionamentos sobre as insatisfações do ser humano, afirmando que pobres não são os que têm pouco, mas os que precisam de muito. O ter para um jovem jamais será o parâmetro, se um dia ele tiver de partir. Pensando na teoria da insatisfação, o livro levanta questões sobre as decisões emocionadas; impulsividades que acarretam desvios e surpresas de toda a natureza. À frente de tudo isso, a saga de Theo um dissidente que acreditou na poética do verso mutante: “as árvores sabem procurar pelo sol”, porém, bastou-lhe uma atitude impensada para ele perder o controle de sua vida. Os adeptos da boa literatura podem com-


parar este livro ao “Lobo das estepes”, pelas descobertas, desafios e pela ânfora religiosa que guardamos em nós e que muitas vezes somos obrigados a desvendá-la quando a profundidade requer o exercício. Em SALVADOR TERRITÓRIO AFRICANO? o livro poderia se chamar Memória de um menino sem nome; no entanto, as luzes estariam acesas somente para o adolescente narrador que, sentado no trono magnífico da sua solidão, passa a julgar o mundo. Acontece que o autor vai mais além, quando resolve retratar uma Salvador emergente, início dos anos 70, e os seus inúmeros problemas sociais acontecendo tão próximos às mansões dos ascendentes bairros como a Vitória e a Graça. Quanto ao HOMEM DO TERNO AZUL, os livros de contos sempre inspiram um cesto de frutas pela diversidade de sabores, cores e cheiros: no final,

o leitor terá a sensação de ter mergulhado em diversas águas sem a devida transposição. Kahe dialoga com a tradição literária utilizando a intertextualidade para renovar vozes dos clássicos, embora esteja sempre antenado com o moderno. Ao concluir a leitura teremos a sensação de ter escutado a canção literária do mundo, sentados num lugar distante, longe dos clichês, e esperançosos de que a literatura que tentamos apresentar aos jovens e aos interessados em prosseguir, finalmente começa a voar pelo

mundo. por Cyro de Mattos –, O Avô e o Rio, O Pescador e O Sabor das Nuvens, entre outros. São peças primorosas que garantem, como assinala a professora Rita Aparecida Coêlho Santos, no posfácio, a permanência do narrador – o mesmo do qual se vaticinou a morte, mas que está mais do que nunca vivo e atuante. As contradições – muitas vezes ilusórias – entre tradição e modernidade, regional e urbano ou local e universal desaparecem, aqui, na alquimia que une experiência e linguagem. Experiência profunda, linguagem depurada – eis a base sobre a qual se constrói o edifício ficcional do autor. Os tijolos são os velhos e inextinguíveis temas: a solidão, a loucura, o amadurecimento, a amizade, o ciclo de nascimento, amadurecimento e morte, o amor.

Texto: Carlos Kahê


projeto

Ativa Salvador

ponto de encontro

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O Projeto Ativa Salvador tem se tornado um Ponto de Encontro recomendado na cidade. As ações do Ativa acontecem na Ladeira da Misericórdia, no Antigo Zanzibar, entre terças e domingos, reunindo programações de múltiplos segmentos artísticos. Sua estrutura foge do convencional. A onda alternativa que embala o espaço é notada desde sua arquitetura urbanista surpreendente, até a maneira como as instalações artísticas dialogam com o público presente. Os eventos desta galera trazem como fio condutor a força da produção coletiva. E nós, é claro, não poderíamos estar de fora desta. Viviane Jacó, produtora executiva do evento, nos fala que desde a abertura do espaço muitos artistas da cidade têm procurado o local para apresentar seus processos criativos. E com muito prazer a equipe vem fazen-

do a curadoria para agregar estes projetos, aproximando -os do seu público. No Ativa, o encontro é marcado pela boa música, a poesia, a dança, as artes visuais, o teatro e, obviamente, o bom papo. O coletivo não define um público específico, para

eles todos são bem-vindos, o espaço é de todos. Em nossa visita encontramos com Orlando Pinho, organizador do Dominicaos, e figura importante na cena de Salvador, que nos contou sua opinião sobre a iniciativa: “Reunir as pesso-


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ponto de encontro

“Reunir as pessoas

as no sentido de favorecer o encontro e realizar um acontecimento de experimentação cria um contraste incomum, que dá muito certo.” Para Daniel Cruz, artista e colaborador do evento, é de suma importância perceber de que forma os artistas podem desenvolver trocas com seu público, e buscar inovações nestas relações. Washington Drumont, músico instrumentista, apresentou seu trabalho neste Domingo (16) e completou: “Mais do que fixar um ponto, multiplicar os pontos, porque com a arte ninguém tem a verdade, . então é um campo enorme de experimentação.” Assim, através da reunião Orlando Pinho, Dominicaoss de pensamentos, todos complementam a ideia do encontro, tornando a sua programação super eclética e agradável aos que contemplam. Curtam a página Ativa Salvador e fiquem por dentro da programação que vai até o mês de dezembro.

no sentido de favorecer o encontro e realizar um acontecimento de experimentação cria um contraste incomum, que dá muito certo ”

Texto: Ponto Art Foto: Pablo Lucena veja em

www.ciapontoart.com.br


ponto de vista

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Foto: Marcelo Reis Série “Corpos” Veja mais em: www.ciapontoart.com.br


S OLT A N DO O

VERBO O discurso do “preto e branco” não me representa. Eu nasci num berço de várias identidades étnicas, na cidade de Eunápolis, originada de fortes influências de povos indígenas (Pataxós, Camacãs, Tupinambás), brancos, ciganos e negros. Como a maioria das famílias da época, a minha também passou pelo complexo de embranquecimento e negação de sua identidade original, é doloroso assumir, mas é o que continua acontecendo. As fazendas de café e cacau da região são historicamente reconhecidas como caldeirões destes povos que perpetuam não só o Sul da Bahia, mas todo Brasil. O discurso do “preto e branco” nunca me coube. Como minha família é majoritariamente indígena, eu logo percebi a dificuldade de aceitação e resistência às populações aborígenes no processo de ocidentalização. Sabemos que os índios foram forçados a

migrarem devido aos conflitos, e a se adaptarem às novas condições do terreno onde viviam, exterminados

pelo genocídio; além de terem a soma da imagem folclorizada e deformada. Sou resultado de todo este processo histórico. Impulsionado a enxergar a vida com um olhar mais crítico, sou mais um dos sobreviventes do massacre europeu no Brasil. Busco compreender como ecoar a minha fala, diante de tantos bombardeios de in-

formações levianas. Hoje desenvolvo um trabalho nas Aldeias Pataxó de onde minha família saiu, levantando minha árvore genealógica, trazendo à tona processos de migração e urbanização de povos tradicionais, com pautas e demandas de aldeados e não aldeados, remontando este quebracabeça histórico. Faço levantamentos a partir de entrevistas, sobre mudanças e conflitos durante os últimos 16 anos na região, assim como fotografias que mostram a realidade do povo, a partir de um olhar interno de pertencimento. Sou Martin Shankar, em minhas veias circulam sague guerreiro, por herança. Sou Pataxó, Camacã, Tupinambá, sou a continuidade!!!

Martin Shankar Artista Visual/Performer


comé

ponto de equílibrio

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foto: Marisa Vianna Luciana Galeão, baiana, 41 anos, formada em gestão e desing de moda pela Unifacs.

Luciana Galeão, baiana, 41 anos, formada em gestão e design de moda pela Unifacs. Em 1996, comecei o meu trabalho com a moda, iniciando uma relação que vai além da roupa – afinal, moda é comportamento, moda vem do latim “modos”. Moda é uma das formas de comunicação mais direta que temos. Poucos sabem, mas até o começo dos anos de 1920 a cor preta era utilizada somente por viúvas e empregadas domésticas. Quando, ao sofrer um luto secreto (pela morte do seu amante), Coco Chanel aparece para a sociedade usando um vestido preto, isso tornase revolucionário, cau-

mulher?

sando grande motivação entre as mulheres e até hoje devemos agradecer a coragem de Chanel por quebrar o tabu em sua época e, à frente de seu tempo, vestir o preto numa sociedade presa às mais antigas regras. Sem ninguém saber o motivo ou por achar que era somente manifestação de sua coragem, a história registrou ali, naquela mudança de costumes, um formidável momento do empoderamento feminino e da moda enquanto cultura. A minissaia também se faz presente entre peças de roupas que libertaram as mulheres de regras impostas pela sociedade, já que usar uma peça de roupa na altura do meio das coxas também causou uma revolução na década de 60. Entendo que o meu trabalho com a moda sempre buscou conscientizar as pessoas de que moda não se resume a roupa. É preciso impulsionar o diálogo entre o que queremos transmitir ao mundo, através dos costumes percebidos pelo que vestimos, e a banalização que parece entender o ato de vestir como algo sem significado.

Não procuro seguir tendências, faço roupas atemporais. Se a moda é um instrumento de percepção, desejo que minhas roupas contem histórias, que digam alguma coisa. Principalmente nos dias de hoje, onde o consumo, cada vez mais, precisa ser consciente. Por isso, pesquiso temas que considero interessantes para, através das minhas coleções, poder contar essas histórias para as pessoas, histórias sobre Gaudi, sobre pop art, sobre asas de borboletas, sobre a matemática do delírio... E acredito que com o meu trabalho posso fazer outras mulheres acreditarem em si mesmas, levando seus sonhos adiante. Estimulo a conscientização de mulheres de comunidades baianas, levando-as a entender como, através do design sustentável, podem agregar valor aos seus trabalhos e ressignificar suas vidas a partir de sua criatividade. Felizes ficam elas, feliz fico eu!

Texto: Luciana galeão Foto: marisa Vianna


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A banalização da imagem causada, de início, pela televisão – e sua pressa inevitável de ir ao intervalo comercial – ganha um novo aliado na internet – esta, mais apressada, pois nem se cogita a hipótese de que a audiência permanecerá diante de um vídeo por mais do que três minutos. Assim, há tempos, pelo grande público filmes têm sido visto, mas não lidos. A devida atenção sobre a criação imagética continua perdendo espaço para a mera absorção visual. Parece que, no mundo corrido em que vivemos, isso é caminho sem volta. Porque ler um filme (leia-se aqui “analisar um filme”) é decompô-lo em seus elementos construtivos, já que estes não podem ser vistos a olho nu, uma vez que tal obra é tomada pela sua totalidade: ângulo, cores, atuação. Para que façamos a leitura é preciso trabalhar alternadamente a descrição e a interpretação da película. É necessário encontrar um equilíbrio entre o modo de “olhá-lo”: ora com a rigidez de um senso crítico aguçado, ora com a espontaneidade do

espectador comum.

A devida Nos primeiros anos, um filme era apenas a atenção sobre sequência de tomadas estáticas (fruto a criação imagética da visão teatral). É a montagem que continua perdendo aciona a linguagem cinematográfica e espaço para a mera isto hoje já faz parte do nosso sistema perabsorção visual. ceptivo. Porém, as nuances – explicitas ou menos nos chamados filmes “cabeça”. Desse modo, o desafio da análise fílmica talvez seja reforçar o deslumbramento, sim, do espectador – quando merece ficar maravilhado diante da magia do cinema –, mas também torná-lo sujeito deslumbrado participante, a partir da leitura do filme, indo muito além do que simplesmente se vê.

acessíveis – criadas pelos cineastas acabam passando em vão aos olhos de um público mais vasto. Esta incapacidade de leitura ocorre tanto diante de filmes “hollywoodianos” quanto

TEXTO: Cazzo Fontoura poeta, escritor e dá aulas de roteiro de cinema e de linguagem cinematográfica.


ponto de equílibrio

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TÁ DENTRO.

com Instituto mídia étnica

16 NOVEMBRO INSTITUTO MÍDIA ÉTNICA COMEMORA 10 ANOS COM 12 HORAS DE PROGRAMAÇÃO ESPECIAL Imagine unir afroempreendedores, crianças, percussão, exibições de vídeos, hackers, performances musicais, performers e um escritor conhecido internacionalmente. É o que vai acontecer na Casa do Instituto Mídia Étnica (IME), no Dois de Julho, Centro de Salvador, no sábado, 21 de novembro. A agenda de atividades é parte das comemorações do aniversário do Instituto que celebra dez anos ‘denegrindo’ a mídia, recheada de convidados durante o dia inteiro. A programação começa às 9h e se estende até às 22h. Será uma oportunidade para inaugurar de fato a sede do Instituto que já vem funcionando no espaço há alguns meses. Toda a programação é gratuita e aberta a todos os interessados. #IME10anos O Instituto Mídia Étnica é uma organização da so-

ciedade civil, criada em outubro de 2005, que realiza projetos para assegurar o direito humano à comunicação e o uso das ferramentas tecnológicas pelos grupos socialmente excluídos, especialmente a comunidade afro-brasileira. Nessa década de existência, os projetos do IME foram desenvolvidos em três frentes estratégicas: Comunicação (Portal Correio Nagô, TV Correio Nagô etc), Inovação (Afro Hacker, Oguntec – esse em parceria com Instituo Steve Biko, entre outros) e Empreendedorismo (Jovens Empreendedores Culturais – JEC, Emerge Salvador, Ujamaa e mais). Programação Aniversário Mídia Étnica 9h – Programação Infantil: Mostra de filmes, Oficina Stop Motion, Afro Hacker, jogos e Contação de Histórias 13h – Cortejo com a banda percussiva do bloco afro Muzenza 14h – Feijoada Baiana 15h – Mostra de Vídeos Tela Preta 16h – Lançamento do

Projeto Emerge Salvador e do Escritório Compartilhado Ujamaa Coworking 17h30 – Performance da cantora Savannah Lima 18h30 – Lançamento do vídeo 10 anos do Instituto Mídia Étnica 19h – Noite de autógrafos com Carlos Moore 20h – Baile com as DJs Ovelhas Negras E uma Feirinha Afroempreendedora durante à tarde* Acesse

o site

Mídia Étnica

e

confira programação completa.

www.midiaetnica.com.br

= MATÉRIA: 10 Anos mídia étnica instituto mídia étnica Foto: divulgação


DIA D

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a r u t l a m e o c i n c é

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Alexandro Reis – Mais conhecido como Alex Dudread é um soteropolitano, alpinista e resgatista por profissão, instrutor de rappel e praticante de esportes radicais desde 2005. Com formação técnica em acessor por cordas (IRATA N1) em 2012, e em 2013 especializando-se em resgate técnico vertical (Task N1). O cara é fera, ele também atua na área de audiovisual, espetáculos e eventos culturais, fazendo linha de vida, movimentação de carga, montagem

de estruturas, sistemas de redução de força, tirolesa, escalada, rappel, movimentação com pessoas na vertical ou horizontal (usando corda, nó e amarrações, mosquetão, polia, descensor, trava-quedas e etc.) em conformidade com as normas brasileiras regulamentadoras (NR-35), que estabelecem os pré-requisitos mínimos e as medidas de proteção para o trabalho em altura, envolvendo o planejamento, a organização e a execução, de forma a ga-

rantir a segurança e a saúde dos trabalhadores envolvidos direta ou indiretamente com esta atividade. Considera-se trabalhador capacitado para ações em alturas, aquele que foi submetido e aprovado em treinamento, teórico e prático. “A adrenalina me estimula, não curto rotinas engessadas. Cada trabalho é diferente do outro, através deles supero meus próprios limites. Sempre fui apaixonado por artes e nesse meio não existe preconceito. O que vale são as suas experiências, seu comprometimento, sua dedicação. Amo o que faço e faço o que amo...” texto: Ponto Art Foto:


ponto de vista

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Foto: Marcelo Reis Série “Corpos” Veja mais em: www.ciapontoart.com.br


Ponto nos Is DE REFERÊNCIA

Entrevistas com referências de diversos segmentos artísticos.

Esse espaço é quatro em um, são eles: Comé Mulher?; Tá Dentro; Dia D e Contaí.

de encontro

ação

Cobertura de eventos artísticos-culturais, dando a chance de quem não foi, saber o que aconteceu, e quem foi conferir o que rolou.

O Ponto Ação é um espaço em nossa revista onde teremos a oportunidade de realizar eventos e atividades artistico-culturais.

O Passo Ponto é uma vitrine virtual que oferece serviços e produtos.

passo ponto

de equilíbrio

Ponto de Vista de quem oculpa o espaço de artes visuais da cidade.

de vista

Pensamos homenagear os grupos artísticos que estão nessa luta diária em manutenção do desejo de viver fazendo o que gosta.

Espaço de construção coletiva entre profissionais artistas de diversos segmentos.

pronto e ponto

capa


Revista Ponto Art 3ª edição  

Sua arte faz parte!!!

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