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Vol. 4, Nº. 1 - Janeiro/2019

ISSN 2595-7473

Mestre Moa do Katendê “Quem vai quebrar a máquina do mal?”


Editorial O papel fundamental da arte é provocar a reflexão no cenário político -social, promovendo revoluções/ evoluções através de expressões críticas e analíticas plurais. Iniciamos o ano de 2019 cheios de motivos para falarmos e fortalecermo-nos no coletivo da diversidade. E numa revista que acolhe vozes tão potentes e cheias de identidade não poderia ser diferente. Nesse cruzamento de espaços de falas latentes lançamos a nossa 10° Edição, atravessando e se deixando atravessar pelas questões políticas-culturais de Salvador. Te desejo uma leitura repleta de conexões!

Quem faz? Conselho Editorial: Jaqueline Elesbão, Anderson Gavião e Nai Meneses Projeto Gráfico e Design Editorial Mel Campos Diagramação: Nai Meneses Revisão de texto: Alana Falcão Colunistas: Alana Falcão, Daniel Arcades e Felipe Ferreira. Editor do site Coletivo Ponto Art: George Ian

Contato pontoartelesbao@gmail.com

Produtor e assessor de comunicação Anderson Gavião Coletivo Ponto Art www.coletivopontoart.com.br

Foto: Dandara Daltron


Índice 12

cinema Moara Rocha ( +1 Filmes): Ela e o cinema baiano

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teatro O teatro e seu público: A cena negra cresce e o público vem junto

teatro Márcia Limma: Medeia Negra

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ponto de vista Jaguar Carvalho: Fotografia

Cultura Mestre Moa do Katendê: Quem vai quebrar a máquina do mal?

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literatura O ARTISTA TEM DE IR ONDE O POVO ESTÁ: Resistência Poética e sua poesia afrocentrada no buzú

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cinema

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Moara Rocha cinema +1, Baêa! Com esse hino clamado exaustivamente pela fanática torcida tricolor, soltamos um spoiler da entrevistada da sessão de Cinema desta edição da Revista Digital Ponto Art.

Ela Faz Cinema (Chico cantou essa bola),mas também atua, produz, dirige e roteiriza. Moara Rocha é uma artista de múltiplas facetas que tem se destacado na cena audiovisual baiana. Com uma produção autoral, independente, pintada sob as cores de uma baianidade ge-


foto: Deo-Uelter Ribeiro

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cinema

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nuína e bem humorada, ela faz o discurso do cinema feito por elas reverberar com mais força e representatividade. 1. Você é atriz, produtora e sócia da +1 Filmes (@maisumfilmes). Numa análise abrangente de estrutura, produção e conteúdo, qual balanço você faz do mercado audiovisual baiano de 2010 (ano de nascimento da +1) até os dias de hoje? Ficou mais “fácil” ter uma ideia na cabeça, colocar a câmera na mão e fazer conteúdo audiovisual na Bahia? Muita coisa mudou no mercado nacional de forma geral de 2010 pra cá. O mercado audiovisual baiano cresceu muito em número de produção e conteúdo, mas o investimento ficou mais escasso. O avanço da tecnologia e a democratização de exibição que a internet promove torna realidade o conceito de Glauber Rocha. De uma forma mais contemporânea podemos dizer que com um celular na mão e muitas ideias na cabeça é possível fazer grandes produções. Mas, infelizmente, o mercado baiano não está preparado para investir e acabamos não conseguindo criar um mercado audiovisual, de fato.

2. A +1 explodiu na internet através de cenas e esquetes que retratavam situações cotidianas com o humor e o escracho tipicamente baianos. Oito anos se passaram, a pro-

dutora ampliou seu leque de conteúdo e, no lugar dos vídeos semanais, tem apostado na produção de curtas de ficção, documentários, clipes musicais e webséries. Esse reposicionamento da marca no mercado independente foi importante para a continuidade do projeto? Como se deu essa transição de conteúdo e o processo de diversificação de público da produtora?


Na verdade, em 2015, decidimos investir em longas-metragens. Realizamos o nosso primeiro longa de ficção “O Amor dos Outros” e hoje já temos 6 longas licenciados e

rodando festivais pelo Brasil e pelo mundo. Essa transição se deu de forma muito natural, como uma nova fase profissional e também por uma análise mais apurada do mercado da internet. 3. Mesmo com a mudança de formatos, a +1 não abriu mão do gênero que caracteriza sua identidade audiovisual:

o humor baiano. Retratar essa verve cômica sem trilhar o caminho do estereótipo é difícil? Você, os profissionais da produtora e o elenco ao iniciarem cada projeto têm a preocupação artística de não endossar um imaginário linguístico e comportamental que as outras regiões do país construíram e cristalizaram do “ser baiano”? O humor sempre foi um caminho muito natural pra gente. Nós costumamos dizer que o que não é natural é mais natural do que parece, ou seja, a vida real pode ser mais performática que a ficção. Nossa maior preocupação é com a história que está sendo contada e tudo que pode somar tecnicamente a ela. Aos que cristalizaram um comportamento estereotipado do ser baiano eu ofereço 400 vídeos de pura loucura soteropolitana, com algumas pitadas de interior da Bahia para que passem a ter um novo olhar (risos). 4. Além de tocar os trabalhos da +1 Filmes, você é uma das organizadoras do Lugar de Mulher é no Cinema ao lado das cineastas Lilih Curi e Hilda Lopes Pontes. A Mostra segue para sua 3ª edição que acontecerá de 25 a 31 de Março de 2019. O evento dá visibilida-

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de a curtas dirigidos e/ou protagonizados por mulheres num mercado ainda predominantemente masculino e machista que é o cinema. Criar e manter espaços de troca, criação e representatividade é importante para quebrar os obstáculos de gênero no audiovisual brasileiro? Como o “Lugar de Mulher” foi idealizado e como a mostra vem transformando o discurso feminista da sua primeira edição, em 2017, até os dias atuais? Os festivais de caráter feministas que acontecem em todo Brasil/Mundo são de extrema importância para o aumento da produção feminina, para que mais mulheres se sintam representadas nas telas, para que mais histórias sob o olhar da mulher sejam contadas e isso é revolucionário. A história da mulher no cinema (só para ser mais específica) foi sistematicamente apagada desde a criação. E hoje o nosso cinema é masculino por conta desse apagamento forçado. Nós precisamos trazer de volta esse lugar que também é da mulher e fazer a Mostra Lugar de Mulher é no Cinema (@mostramulhernocinema), pra mim, é poder fazer parte dessa história. A Mostra foi criada dessa urgência de

juntar em um mesmo lugar as diretoras, produtoras, atrizes e técnicas da área, além de estudantes e apaixonadas por cinema. De 2017 pra cá muitas coisas mudaram sob a perspectiva da transversalidade do feminismo. Não existe apenas um feminismo, são feminismos. Por isso precisamos pensar em uma curadoria mais heterogênea. Especificamos e ampliamos a cada ano as categorias da Mostra trazendo filmes para o cenário baiano de diretoras negras, indígenas, lgbts e também fazendo inclusão de mães e crianças, com uma sessão de filmes infantis.

texto: Felipe Ferreira Escritor, poeta e jornalista


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teatro

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A CENA NEGRA CRESCE E O PÚBLICO VEM JUNTO 2018, com certeza, foi um ano controverso. Ao mesmo tempo em que vimos uma onda conservadora se alastrando pelo mundo digital - realizando o desejo de um mundo real - através da coragem seletiva de sujeitos que se sentem à vontade em propagar o ódio pelas diversas mídias sociais, espaços físicos de encontro humano nos mostram que há uma possibilidade de reverter o quadro opressor que parece se aproximar cada vez mais de nós. Exemplo disso é o efeito que o teatro de Salvador está tendo nos últimos meses. Acho que nunca uma coluna entrou em contradição em tão pouco espaço de tempo. Nesta mesma seção, na edição passada, discutimos a falta de público no teatro soteropolitano ou a realidade de um teatro desenvolvido para que poucas pessoas assistissem às suas sessões. Ora, parece que o universo quis que o colunista pagasse a língua rapidamente, e esta eu faço questão de pagar com honras e juros. O fato é que estamos tendo a presença massiva de público nos diversos espetáculos da cidade e um fator tem chamado minha atenção e a dos amigos artistas: parece que o tea-

tro de Salvador começa a entender a importância da representatividade negra na cena soteropolitana e isso tem reverberado em uma presença da comunidade negra (a maior da cidade, diga-se de passagem) nas plateias dos espaços de espetáculo. É importante lembrar que esta coluna não se trata de uma matéria baseada em pesquisas científicas, tampouco fez um estudo amiúde de todas as obras cênicas que estiveram em cartaz em Salvador. Escrevo aqui a partir da percepção como espectador e como um faze-


dor das artes cênicas e dos diálogos estabelecidos com as falas de alguns representantes desta coluna. É óbvio que esta constatação pode ser ligeiramente contestada, visto que temos sucesso de público em espetáculos onde a representatividade negra não é uma questão, mas gostaria de me ater a este fator como provocação para, principalmente, celebrar a diversidade de projetos cênicos com a presença negra e seus respectivos sucessos. Em geral, temos a presença de temáticas que envolvem políticas da subalternidade em voga no teatro e parece que, o que antes era visto com maus olhos pelo público (muitas vezes chamado de panfletário, pouco artístico e até pobre) hoje começa a se consolidar com a pre-

sença dele, o público, nas plateias. Existem algumas questões que deveriam ser analisadas - como a presença já massiva de um público de classe média alta nos teatros com as comédias típicas – mesmo que, os artistas que realizam este tipo de trabalho também tenham relatos de uma queda de público nas casas com tal tradição¹ . Há quem afirme que não existe essa de teatro negro ou teatro branco nas artes e, sim, há a qualidade do produto; mas aqui existe a vontade de posicionar a presença destes corpos negros, da temática negra e da produção negra. Portanto, partimos deste lugar para falar de uma possível retomada de público. É óbvio que sabemos que este é um dos fatores, mas para nós,

é talvez, o mais importante, pois estamos falando da presença do público que deveria ser soberano na arte soteropolitana. Listei sete trabalhos que se tornaram exemplos positivos na produção teatral da cidade e se enquadram no ‘fator X’ escolhido por esta coluna para pensar na presença deste público.

¹ É importante dizer que esta coluna também valida a presença destes espetáculos no circuito teatral e entende sua importância. E é importante também falar da importância da comédia como um gênero teatral que DEVE transitar pelas diversas casas de espetáculos.

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Tragam-me a cabeça de Lima Barreto, da Cia dos Comuns; Quaseilhas, da Plataforma Araká; Na rédea curta, de Sulivã Bispo e Thiago Almasy; Madame Satã, do Teatro da Queda; Medeia Negra, do grupo Vilavox; a Oficina de Perfomance negra, do Bando de Teatro Olodum; e o Festival de Dramaturgia de Melanina Acentuada, da Melanina Acentuada Produções artísticas. Cinco obras teatrais, um evento formativo e um festival com programação diversificada. A partir de agora apenas falaremos sobre estas obras para que possamos nos reconhecer enquanto potência criativa, diversidade de trabalhos e, principalmente, capacidade de relação e recepção do público.

foto: Adeloyá Magnoni - Traga-me a cabeça de Lima Barreto

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Traga-me a cabeça de Lima Barreto é um solo do ator Hilton Cobra, escrito por Luiz Marfuz e dirigido por Onisajé. Apesar de ser uma realização da Cia dos Comuns, grupo criado pelo ator no Rio de Janeiro, a equipe toda é baia-

na e o espetáculo acabou de realizar sua terceira temporada de sucesso em Salvador. Recebeu três indicações ao prêmio Braskem de Teatro: melhor ator, melhor espetáculo e melhor texto, sendo vencedora esta última. “Com-


“É um outro jeito de se ver na cena, estamos agora diante do protagonismo”

preender a genialidade, a relevância e a força de Lima Barreto na história faz com que a plateia possa se referendar. A força que as montagens vêm colocando na história negra tem feito a plateia ir ao teatro se reconhecer.”

Afirma Onisajé. A peça nos mostra o famoso autor Lima Barreto (1881-1922) tendo de enfrentar uma conferência de eugenistas que não entendem a inteligência presente no cérebro de um negro como Lima. O espetáculo está

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rodando o Brasil e por onde passa, é sucesso de público e crítica. Onisajé enfatiza: “É um outro jeito de se ver na cena, estamos agora diante do protagonismo. Existe também uma modificação na linguagem. Estamos


Famosos na internet, os artistas Sulivã Bispo e Thiago Almasy, tomam as rédeas do seu produto e desdobram o sucesso da web para o teatro. Mais voltado para o entretenimento, o espetáculo Na rédea curta virou uma febre na Bahia e os causos entre um filho da periferia de Salvador e uma típica mãe baiana são sucesso por onde

“Descortinar preconceitos é muito importante. São espaços majoritariamente brancos, frequentado por brancos e feito para eles.” passam. Com talento para o mainstream, a obra fez duas temporadas lota-

das em teatros que não tinham como costume a presença da população negra em sua plateia. E acreditem, a população negra estava lá presente, sentada em cadeiras de um teatro de um shopping center a rir e se deliciar com Mainha e seu filho. Recentemente, o trabalho participou de um projeto de democratização de acesso às artes no Teatro Castro Alves e, com ingressos a um real,

foto: Divulgação - Na Rédea Curta

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encontrando o nosso jeito de fazer.”


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foto: Divulgação - Quaseilhas

fizeram duas sessões devido à fila quilométrica que se formou na frente do teatro. “Descortinar preconceitos é muito importante. São espaços majoritariamente brancos, frequentado por brancos e feito para eles. E quando a gente chega nesses espaços, parece que a gente invade esses lugares.” Ressalta Sulivã Bispo. Além disso, a dupla tem circulado muito no interior da Bahia e feito muita publicidade do Estado. “Nossa equipe é majoritariamente negra e tudo que a gente pensou foi para o nosso público. A importância de estarmos nestes lugares reafirmando o tempo todo é um trabalho árduo, mas necessário. Quando a gente mete o pé na porta e diz que estes espaços também são nossos, com muita elegância, como faz o bloco afro, por

exemplo, é um tapa na cara do racismo. A gente sabe colocar uma coroa na cabeça e retomar nossos postos de reis e rainhas.” Afirma o ator de 25 anos. Com uma proposta contemporânea, a plataforma Àràká de criação artística construiu no Forte do Barbalho uma enorme palafita para fazer uma linda homenagem operística ao bairro de Alagados. Quaseilhas estreou no mês de maio e já é uma obra de reconhecimento inter-

nacional graças à sua ousadia estética, política e artística. A obra de Diego Pinheiro é uma ópera toda escrita em yorubá onde se homenageia a ancestralidade presente no bairro de Alagados, onde o artista nasceu. O espetáculo nem um ano completou e já participou de importantes festivais nacionais como o FIT, de Belo Horizonte, além de realizar um intercâmbio na Flórida. Viagem e estadia foram possíveis graças ao financiamento coletivo em


plataformas digitais e, durante três semanas, os oito artistas puderam disseminar seu processo criativo no Atlantic Center for the Arts (ACA). A vida do boêmio carioca Madame Satã também fez muito sucesso nos palcos baianos. O musical Madame Satã montado sem patrocínio, com direção de Thiago Romero, dramaturgia de Daniel Arcades

(o que aqui vos escreve), e produção do Teatro da Queda teve uma primeira temporada com ingressos disputados pelo público baiano. Madame Satã revisita a história do lendário personagem através da estética do teatro musical e de revista, percebendo as amarras sociais e raciais que tanto violentaram o protagonista. A montagem levou uma diversa plateia ávi-

foto: Divulgação - Medeia Negra

foto: Diney Araujo - Madame Satã

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da para ver Sulivã Bispo, famoso pela personagem Mainha em Na rédea curta, na pele do negro homossexual mais famoso da Lapa, junto a mais 14 artistas em cena em uma montagem de pré-formatura da Escola de Teatro da UFBA. Por fim, o grupo Vilavox estreou agora em setembro o trabalho solo de Márcia Limma, Medeia Negra. Os primeiros

finais de semana do espetáculo tiveram seus ingressos esgotados antes dos dias das apresentações e têm arrancado o fôlego de quem vê a fúria de Márcia ao interpretar uma Medeia construída a partir de sua pesquisa com as mulheres negras encarceradas de Salvador. O projeto já foi apresentado em cinco cidades do interior da Bahia, na própria penitenciária onde a atriz

desenvolveu a pesquisa e seguiu em cartaz até o final do ano em Salvador. Segundo Márcia Limma, esse “fenômeno se dá porque não se trata de um processo solitário. Os movimentos entenderam que se existem obras artísticas com temáticas que defendem a sua pauta, eles também precisam estar presentes, valorizar, chamar gente e fortalecer o trabalho.” Ela percebe a

“fenômeno se dá porque não se trata de um processo solitário. Os movimentos entenderam que se existem obras artísticas com temáticas que defendem a sua pauta, eles também precisam estar presentes”valorizar, chamar gente e fortale-

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ampliação do teatro negro como um crescimento proposital a partir do movimento dos próprios artistas para fortalecer o discurso. “Medeia [negra, o projeto solo] se envolveu com o movimento social, com grupo de pesquisa, com a universidade, com grupos de teatro, com a penitenciária, com o empoderamento individual. Com todas essas relações, o trabalho sai fortalecido.” Afirma Márcia.

uma demanda de público na cidade, mas também existe uma demanda de formação em artes para artistas que vivem distante do centro. Existem milhares de grupos de teatro atuantes na periferia de Salvador e que devem ser a pauta daqui qualquer dia desses. O bando, felizmente, reconhece a necessidade deste trânsito para a construção de representatividade e de visibilidade da arte negra.

O Bando de Teatro Olodum, um dos grupos mais importantes de artistas negros do país, neste ano resolveu investir em formação na periferia de Salvador. A oficina de performance negra aconteceu nos bairros de Plataforma e Alagados e resultou numa mostra cênica no Teatro Vila Velha, mostrando não só como existe

O Festival de Dramaturgia de Melanina Acentuada acontece durante o mês de setembro na cidade com espetáculos, atividades de formação, entrevistas públicas, leituras dramáticas, além do lançamento de uma plataforma com perfis e obras de dramaturgos negros de todo o país. O Festival já está na sua quinta

edição e comprova que atividades continuadas consolidam a presença do público e têm efeito positivo na arte local. Esses são apenas alguns exemplos para percebemos o quanto, apesar de tudo de sombrio que nos ronda, escurecemos a cena e fomos ouvidos pela parcela que queria ouvir e se ver nos diversos palcos da cidade. E ainda falta tanto, mas tanto...

texto: Daniel Arcades Ator


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a i c r a á m M Lim

“Chega o momento to em que você nã porque você não se sente incapaz [.. transformar essa do cias cotidianas e e com toda essa dor. Outras mulheres nã

Márcia Limma em “

A R EG

ME

N A DEI


o em que você começa a se sentir um bicho, chega o momenão consegue falar mais. Você é capaz de cometer um crime consegue ser enxergado, porque você se sente invisibilizado, ..] o que fazer com essa necessidade de matar? [...] Eu consigo or, esse conjunto de violências históricas, esse monte de violênesse cansaço imenso. Eu tenho a possibilidade de criar coisas . Eu posso fazer isso porque sou artista, porque eu tenho a arte. ão conseguem.”

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foto: Adeloyá Magnoni

“Voz sem medo”, do Coletivo Ponto Art, episódio 10


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O mote “o que fazer com essa vontade de matar?” da fala de apenas oito minutos da atriz Márcia Limma na websérie “Voz sem Medo” foi um dos socos de palavras mais bem dados que eu já vi. Desde ali, aquela presença continha algo de diferente para mim, um negócio não-decorativo, o mundo que roda depois que a gente toma um chacoalhão nos ombros. Ou o zumbido que repercute nas ideias depois de um grito no pé do ouvido. E voltei a sentir o gosto de soco ao fim do espetáculo na noite de sábado do dia dez de novembro, penúltimo dia da temporada de Medéia Negra na nova Sala do Coro do TCA. O público respondeu à montagem lotando as sessões, esgotando os ingressos: inegá-

vel a demanda por representatividade e a urgência em reposicionar narrativas. Saí do teatro abordando pessoas e colhendo impressões e, ao menos no dia em que assisti ao monólogo musical chamemos assim a plateia era ampla maioria feminina e maioria esmagadora negra. Das cinco pessoas com quem conversei, quatro estavam repetindo a dose. A obra, assinada por Márcia Limma junto ao Vilavox, sob a direção de Tânia Farias, com direção musical de Roberto Brito, dramaturgia de Márcio Marciano e Daniel Arcades, atualiza o texto clássico do grego Eurípides. O espetáculo solo é o objeto de pesquisa do mestrado da atriz e tem relação com a vivência das oficinas de literatura na Colônia

Penal Feminina. Os encontros semanais “sempre às quintas, independente de Medeia”, conta Márcia, são atividade do Corpos Indóceis, Mentes Livres, projeto de extensão coordenado há mais de sete anos pela professora Dra. Denise Carrascoza (UFBA) com mulheres em situação de encarceramento. Durante as oficinas de contação de história no presídio, já no processo de concepção, ambos os textos, o mito e o material de Márcio Marciano foram discutidos com as internas e fomentaram debates, confissões, levantamento de memórias e desejos. Em seguida essas mulheres foram motivadas a escrever cartas para Medeia e, por fim, receberam uma carta resposta da Medeia-Márcia como retorno, que


foto: Adeloyรก Magnoni

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é também uma junção de toda a vivência comum, do laço forjado dentro das experiências da oficina no complexo penitenciário. O material foi fundido com texto original dos dramaturgos, além de outras intervenções de Tânia Farias e da própria Márcia Limma.

foto: Adeloyá Magnoni

<< ESCUTE AQUI, JASÃO. SE PREPARE PARA O QUE VIRÁ>> O feminino terrível e furioso presente em Medéia, porque traído e desamparado, cria um desejo por sangue no escrito original de Eurípides. Neste, a vingança contra o marido Jasão é materializada por ela na forma do crime mais horrendo e inadmissível: o assassinato premeditado dos dois filhos do casal. Embora tal enredo já tenha sido interpretado como uma expressão de atitudes misóginas, também foi


lido como pré-feminista por apresentar a negação da maternidade como a maior vingança contra as desvantagens de ser mulher num mundo dominado pelos homens. Através de Márcia, a fúria feminina, o desejo de morte, vingança e transfiguração atravessam 2500 anos da tragédia grega e adquire um alvo tão imenso quanto o patriarcado, o racismo, o machismo, o classismo, o abandono de Estado, as estruturas sociais inflexíveis, o espólio escravocrata e a solidão da mulher negra. É uma versão explicitamente feminista da diáspora negra para repensar e atualizar as qualidades daquela primeira Medeia, a um só tempo abandonada e furiosa, expatriada e perseguida como estrangeira, encurralada e ainda assim, vingada. Com o auxílio da luz e execução musi-

cal ao vivo, vemos a performer apenas em corpo e voz blueseira se insurgir contra algo muito maior que um único Jasão. Para tanto, divide a platéia entre homens e mulhe-

a criatividade tem de surgir do simples, pelo menos é no que eu acredito res e usa o cansaço histórico que sente a seu favor. Sevícia, Violência, Estupro e Morte é o hino sombrio que a vemos repetir. Qual o crime cometido, afinal? Quem cometeu? Contra quem? A performer se dirige, então, a cada setor do público, ora como acusadora dos ho-

mens, ora como advogada de si e de sua condição, ora como alguém que pede “bença” à ancestralidade (no dia que a assisti, em momento oportuno, Medeia imergia no público e deitava a cabeça no colo da senhorinha negra mais idosa de toda a audiência. Certamente ultrapassava a casa dos 80 anos. Abordei-a na saída, ela estava emocionada, altiva e elogiou muito o espetáculo). BEBENDO DO UNIVERSO DO BLUES E DO RAP Roberto Brito, autor e executor da trilha ao vivo na cena, conta um pouco do processo de pesquisa musical e de sonorização: “Márcia tinha o interesse no texto musicado, como o Blues, e criar a partir disso. A música para Márcia deveria passar por esse universo, por isso também o

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foto: Adeloyá Magnoni

teatro

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foto: Adeloyá Magnoni

piano [...] tinha uma voz que arranhava dentro do texto, começamos a utilizar isso, a pensar como a voz poderia indicar algo que incomoda. A gente começou a pesquisar e trabalhar consoantes, investigamos no cajón também, partindo da idéia de ranhuras presentes não só no blues, mas da própria música negra ameri-

cana, o rap... Ella Fitzgerald, Nina Simone, Billie Holliday eram referências fortes, mas também Kendrick Lamar e Childish Gambino. [...] Tivemos muito tempo para pesquisar, isso foi muito importante. Foi muita pesquisa, criatividade e intuição. Os instrumentos usados eram o que havia à mão. O espetáculo a princípio não

tinha grana, então a criatividade tem de surgir do simples, pelo menos é no que eu acredito.” TEMPO E TEMPORADAS Além das temporadas locais, o monólogo Medeia Negra esteve presente na Alemanha para participar da II edição do Internationales Frauen theatherfestival em


foto: Adeloyá Magnoni

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Frankfurt. O festival internacional de mulheres no teatro é um evento que encoraja mulheres a compartilhar seu papel no teatro do futuro, por meio de apresentações e trocas de trabalhos. Que Medeia Negra ecoe como essa voz coletiva, visceral, mitológica e se faça ouvir por muitos espaços mundo

afora. Ela soa como atemporal, embora acumule temporalidades diversas até o ponto de sentirmos que carrega todo o Tempo histórico consigo. Medeia queima a História em nossa frente, sob o teto imenso do tempo, prestes a despencar sob nossas cabeças. Saio do espetáculo com o meu ouvido

ainda sob efeito da voz de Márcia. Aindo ouço um sonoro e duradouro fogo crepitando. Deixa queimar.

texto: Alana Falcão bailarina, professora de dança e dramaturgista


ponto de vista

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Jaguar Carvalho Fotografia é essa troca de beleza, de olhares, de amor, uma interação, uma cumplicidade que só a arte nos abre para tanto. Sempre digo que a fotografia é feita à dois ou mais, e nunca sozinha. Ela é comunista em todos os sentidos.

Instagram: @jaguarsc foto: Divulgação

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“Bié de Igatu e sua bela galeria” Igatu-Bahia


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“Limão” Feira de São Joaquim


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â&#x20AC;&#x153;Firmeza Na Certeza â&#x20AC;&#x153; Modelo : Taiguara Carvalho, meu filho


CULTURA

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Mestre Moa do Katendê

“Quem vai quebrar a máquina do mal?” Não me recordo exatamente onde e quando conheci o Mestre Moa. Creio que na Associação Brasileira de Capoeira Angola, da qual foi diretor, onde gravou CD e criou o bloco Gunga, o primeiro bloco de capoeira da Bahia, em 2003. Posteriormente ele se afastou da ABCA, mas comecei a frequentar as famosas rodas do Dique, que ele realizava em parceria com o Mestre Valdec. Ali fiz alguns registros fotográficos e participei de bons papos em um boteco na entrada do Dique Pequeno, onde acontecia o social pós-roda. Estimulado por leituras e conversas prévias, cutucava pra ver sair o ouro, histórias do Mestre Bobó e do Afoxé Badauê. No dia 26 de agosto, conduziu, como um


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CULTURA

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bom maestro, sua última Roda do Dique. Vários mestres e amigos se fizeram presentes, como que a adivinhar uma despedida. Mestres Valdec, Plínio, Ratinho, Olhos de Anjo, Saúva, China, Iran, diversos contramestres, professores, capoeiristas. Seu filho, Raniere, não participou da roda, de luto pela morte recente da mãe, cinco dias antes. Depois de bater o ponto no boteco do Dique Pequeno, subimos as escadas até sua casa pra comer uma feijoada e pudemos ver os materiais comprados para a construção do centro cultural, que pretendia inaugurar neste verão. Nos animamos coletivamente com a realização do Mestre e com o potencial deste novo espaço de cultura. As eleições foram duras e todos saímos do primeiro turno apreensivos com o assustador crescimento do fascismo. Ao acordar na segunda-feira, dia


08/10, recebemos no peito uma bomba: o assassinato do Mestre Moa do Katendê, com 12 facadas, por um eleitor de Bostonazi. Imediatamente articulamos o Conselho Gestor da Salvaguarda da Capoeira na Bahia, produzimos nota denunciando o caráter político do crime, acompanhamos a família no IML e no DHPP. Fiz então um convite ao cineasta Carlos Pronzato, documentarista experiente nas lutas e movimentos sociais, com cerca de 80 filmes produzidos de forma independente entre Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Uruguai e Paraguai. No enterro, gente de terreiro, capoeira, samba, afoxé, bloco afro, grandes personalidades da cultura afro-baiana. Em meio ao cortejo de berimbaus, tomados pela emoção, o famoso corrido de capoeira “olha lá o nêgo” ganhou uma nova versão: “mataram o nêgo - eu não

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CULTURA

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vou me calar”! Na quarta-feira, dia 10, o ato no Largo do Pelourinho, que teve início com um cortejo de berimbaus saindo da ABCA, tomou grandes proporções, e na outra terça, dia 16, ficou gigantesco, com a participação massiva de afoxés e blocos afro. Já estávamos em atividade

registrando as manifestações e entrevistando pessoas para o documentário. Não tínhamos a pretensão de tratar de sua vida e obra, sabendo que para isso seria necessária uma pesquisa mais longa e aprofundada, mas sim de denunciar seu assassinato político como um fruto da escalada

da violência fascista no Brasil. Uma grande decepção, no meio do processo, foi constatar que havia capoeiristas relativizando o crime pra defender o “lá ele não”. A mim, pareciam um personagem de 1984 praticando o “duplipensamento”, embora alguns se pareçam mais com Stephen, o


personagem representado por Samuel L. Jackson no filme Django Livre. Romualdo Rosário da Costa foi iniciado cedo na cultura, através da convivência com sua avó, a Ialorixá Omin Bain, com quem se cuidava espiritualmente. Ainda na infância começou a praticar capoeira angola com o Mestre Bobó, exímio sambista, da época em que os carnavais da Bahia contavam com forte presença das escolas de samba, antes da era dos blocos afro. Mestre Bobó e seus alunos saíam nos Diplomatas de Amaralina. Muitas pessoas acreditam que Moa era filho de Katendê, mas ele era um homem de Xangô. O apelido veio após participação no grupo folclórico Katendê, organizado pela professora Lucia dos Santos no ICEIA. Entre 1976 e 1977 foi do grupo Viva Bahia, com Emília Biancardi, e da Orquestra Afro-Brasileira de Percussão,

que ajudou a formar Letieres Leite e toda uma geração de músicos baianos. Em 1977 venceu o Festival da Canção do Ilê Aiyê, com a música Badauê ou Bloco beleza. No ano seguinte

Que sirva como um grande alerta para os perigosos rumos que nosso país vem tomando com o aumento do racismo

fundou com amigos o afoxé Badauê, na Ladeira de Nanã, Engenho Velho de Brotas. O Badauê foi uma grande renovação no carnaval baiano, com composições próprias para além das cantigas de candomblé entoadas nos afoxés tradicionais. Em determinado ano, os participantes saíram todos tocan-

do caxixi, ampliando significativamente a base sonora do bloco. Em outra ocasião, saíram todos com xequerê, criando uma imensa e impactante massa percussiva. O Badauê foi campeão do carnaval, Caetano Veloso gravou sua música mais conhecida (Misteriosamente, o Badauê surgiu…) e muitos compositores fizeram canções se referindo ao bloco, como Baby Consuelo, Carlinhos Brown, Clara Nunes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Russo Passapusso e Saulo Fernandes. Na década de 80 o Badauê deixaria de desfilar pelas ruas de Salvador, e na década de 90 Mestre Moa criou em São Paulo o afoxé Amigos de Katendê, com posteriores núcleos em Porto Alegre, Florianópolis e Belo Horizonte, dentre outros lugares. Uma perda irreparável para a cultura baiana, seu assassinato não pode ter sido

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CULTURA

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em vão. Que sirva como um grande alerta para os perigosos rumos que nosso país vem tomando com o aumento do racismo, do ódio, da intolerância e da violência. Como faremos para esquivar dessa onda fascista e dar uma volta ao mundo para reiniciar o jogo democrático em melhores condições? Evoco aqui as palavras do saudoso Mestre Moa do Katendê, imortalizadas na canção Humanidade cruel: “Só um milagre humano anulará tantos projetos medonhos que matam e escravizam a sociedade e apagam nossos sonhos. Quem vai quebrar a máquina do mal?”

Paulo Magalhães foi o produtor do documentário “Mestre Moa do Katendê - A primeira vítima”. É jornalista, doutorando pelo Pós-Cultura – UFBA, autor do livro “Jogo de discursos: a disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana”. Contramestre de capoeira angola, membro da Associação Capoeira Angola e do Conselho Gestor da Salvaguarda da Capoeira na Bahia.


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Texto: Paulo MagalhĂŁes Fotos realizadas durante uma roda de capoeira angola pelo Coletivo Ginga de Angola no Sarau da Mata


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O ARTISTA TEM DE IR ONDE O PO P

Resistência Poética e sua poesia afrocentr


OVO ESTÁ POVO

“Já passamos dessa fase de ‘grupo de poesia’. Somos uma organização cultural pan-africanista artística, não nos comportamos apenas como um grupo de poesia. A gente visa, tanto quanto poeta, quanto ser político, uma perspectiva afrocentrada de posicionamentos [...] Mas para além disso, também somos uma família” e foi assim que Rilton Junior (22) e Negreiros Souza (28) definiram o Resistência Poética em um provocante bate bapo com a galera da Ponto Art num fim de tarde na praça Pedro Arcanjo. A rede de assuntos foi extensa: da descoberta da potência da poesia e da amizade para criar um dos coletivos mais instigantes de Salvador, passando por situações curiosas ou emocionantes que vivenciaram nesses anos de buzú; falaram de arte, de negritude, de racismo, feminismo negro (atualizado em mulherismo africana) e revolução. Confira!

rada no buzú

Foto: Divulgação

SOBRE O INÍCIO E OUTROS VOOS O Resistência Poética está caminhando para os cinco anos de fundação; surgiu oficialmente em 30 de junho de 2014, idealizado por Dricca Silva e Fabiana Lima , pelo desejo de fazer um slam, um sarau resistência. Dricca tinha idéia de fazer um grupo de poesia, “aí já uniu uma coisa com a outra”, conta Rilton. Entre saídas e adesões, tudo democraticamente construído – por-

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que desistências e cobranças também fazem parte da construção- o RP fechou com cinco pessoas: três mulheres (Negreiros Souza, Dricca Silva, Fabiana Lima) e dois homens (Rilton Junior e Lucas Silva), cada um de uma periferia diferente de Salvador. O grupo surgiu na perspectiva não só de ter um meio de “fazer uma moeda”, mas principalmente enxergando que a poesia deles nos ônibus tinha um

peso porque era produzida num recorte racial, de gênero e de classe. No início do projeto, em 2014, a grande massa de poetas que estavam nos coletivos era, nas palavras de Rilton Jr, “poetas burgueses, poetas brancos que iam recitar Drummond, Castro Alves, qualquer coisa fora da nossa realidade, sacou? Nada contra, mas a gente enxerga também que o Resistência foi um dos precursores da

literatura marginal, preta e periférica dentro dos coletivos. Por ser preta já é marginal, de denúncia. Com isso, não estamos dizendo que não existia literatura periférica em Salvador antes do RP. Existia. Mas eu creio que a gente trouxe essa vertente de enfrentamento direto ao racismo, sacou? De denunciar mesmo, de não abaixar a cabeça e para além de fazer poesia, se embasar...”. Os dois


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nos contam como o grupo foi um divisor de águas em todos os sentidos, como se para cada um deles houvesse uma versão “antes e depois” do RP. Por embasamento, leia-se: sentaram para estudar pensadores negros e buscar referências teóricas, conceituais e artísticas. Liam e discutiam Frantz Fanon, Racionais, Bell Hooks, além de letras de música

que pudessem ser fonte de reflexão, inspiração e diálogo com o público dos ônibus. Citaram Bezerra da Silva, Edson Gomes, Olodum e muito rap. Rilton, que veio do teatro, menciona também o TEN -Teatro Experimental do Negro do Abdias do Nascimento pra poder trabalhar na perspectiva afrocentrada com o teatro também.

E POR QUE O BUZÚ? “Olodum fala isso, né? Todo artista tem que ir aonde o povo está. Qual o palco hoje que tem mais público? É o buzú, tá ligado? Então a gente usa a noção de difusão de outro poeta, o Thiago Gato Preto, que faz uma contagem louca lá dele. Ele fala que se um poeta pega um buzú com trinta pessoas, depois de pe-


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gar 10 buzús são trezentas. Dez poetas alcançam três mil. Um alcance muito grande, por isso que o buzú é palco principal do poeta, dá pra cobrir Salvador toda nessa conta. Mas assim, eu creio que a gente não deve só se limitar ao ônibus. Muitas perspectivas de literatura de poetas que tem surgido agora têm se limitado apenas aos ônibus, mas o movimento literário em si não é fixo apenas aos coletivos. Existem os saraus que tem uma invasão muito grande dos poetas. Os slams, que são batalhas de poesia e já dão uma outra visibilidade pra quem tá nesse meio de literatura também”, coloca Rilton. “Na verdade o que a gente faz são escrevivências, um termo que a Conceição Evaristo usa. A gente fala das nossas vivências, de abordagem policial,

fala do racismo no ônibus, em casa... então é muito relacional”, articula Negreiros. Com o passar do tempo e do de s e n v ol v i m e n t o pessoal de cada um, os jovens do RP perceberam o quanto a poesia possibilitava a juventude a adentrar espaços que eram elitizados, porque além do trabalho nos coletivos eles já foram convidados a fazer oficinas, palestras e intervenções não só nas

comunidades, mas também em escolas municipais, faculdades e eventos artísticos. “A poesia nos permitiu ir pra muitos lugares: bienal da UNE no Rio de Janeiro em 2015, Chapada Diamantina no festival de Lençóis, festival Dorival Caymmi... A gente já foi pra Itacaré conhecer um quilombo numa vivência massa que a gente hoje já estabeleceu uma certa parceria. A poesia possibili-


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tou a gente de criar asas e voar pra váaarios lugares, não só Salvador” , enfatiza Negreiros. BUZÚ NÃO SE PEDE, BUZÚ SE CONQUISTA Negreiros nos conta um pouco de suas estratégias para lidar com um possível não do motorista ou uma recepção negativa dos passageiros: “Quando chega no buzu, vc tem que trocar com aquilo que o buzú

te apresenta. Tipo, se eu chego pra recitar e alguém me olha estranho eu já recito logo uma poesia pancada. Se tem muito coroa, eu recito ‘Tia Anastácia’ porque eu sei que é uma poesia que vai ter uma empatia. O buzú também dá muito pra gente. E você vai nas pessoas que você coopta. Fabiana mesmo tem várias poesias que falam sobre o sofrimento da mulher,

tem poesia que fala de racismo e a pessoa pensa ‘pô isso já aconteceu comigo’. Já teve buzú que rolou briga, já teve buzú que já rolou assalto. Já teve buzú que rolaram discussões saudáveis, desabafo, choro. No chapéu vem moeda, vem bala de gengibre para sua garganta, já botaram 100 conto no meu chapéu (risos), bilhetinho do tipo ‘continue fazendo seu trabalho, ele é muito importante’ ou mesmo ‘me apaixonei por um poeta...’. Muitos convites também surgiram a partir do buzú. Fora os motoristas que às vezes não permitem que a gente suba porque algum outro poeta com outra conduta injuriou os passageiros. Às vezes, ele tá mau humorado, então a gente trata ele logo como se o ele fosse o dono do buzú. Se ele tá na frente, pi-

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lotando, muitas vezes é assim que ele quer ser tratado, então é estratégico dar essa majestade a ele. Tem também gente que não gosta, que diz que a gente precisa fazer outra coisa, que isso não é trabalho, ou que racismo não existe, é coisa de nossa cabeça”. Rilton fala de uma situação emblemática que bem ilustra os conflitos no ônibus. Certa feita, uma determinada passageira, branca, se incomodou com a performance do Resistência.

Reclamou o direito de pagante de não ser incomodada. Eis que, diante do incômodo solitário da moça, o restante do buzú entoou em uníssono, gritando em defesa da poesia: “GRUPO DE POESIA RESISTÊNCIA POÉTICA, GRUPO DE POESIA RESISTÊNCIA POÉTICA. E esse movimento espontâneo, sem o menor agenciamento ou inflamação por parte dos integrantes não parou até que a incomodada pedisse o ponto. Quanto às contrariedades, Negreiros pontua

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que o enfrentamento que a ação poética do grupo provoca às vezes é perigoso para eles. É importante e necessário, claro, mas ainda assim, perigoso. “Porque a gente está exposto. No momento que a gente sai de casa e vai para o buzú a gente pode se de-

parar com qualquer pessoa. Podemos ficar marcados. Por isso que é estratégica a mudança de roteiro. A gente pode estar ali hoje, aí um policial não foi com nossa ideia e ele convocar ou-


tras pessoas, a gente pode ser abordado e de repente vir a ter a nossa vida ceifada. De modo que, se hoje foi periferia, amanhã a gente faz orla, depois de amanhã outra periferia e assim vai” completa. POESIA E PERSPECTIVAS

O Resistência Poética é definido pelos integrantes como uma perspectiva de construção coletiva e individual, de modo que, para além do trabalho coletivo, cada um desenvolve seus

projetos particulares. E mesmo com trabalhos paralelos, o selo identitário “Resistência Poética” continua associado a eles, de modo até involuntário. Adriane trabalha com audiovisual, Fabiana tem o projeto “Nega Fyah” com um zine lançado e faz algumas intervenções; Rilton tem o projeto “Poeta com P de preto”, um espetáculo teatral e poético; Lucas faz faculdade de filosofia na UFBA; Negreiros tem nível superior em Comunicação Social com Relações

Públicas na UNEB e é técnica em produção cultural. “Mesmo estando distantes em corpo, a poesia se faz presente em nossas vidas.” Considera Negreiros. Para além do reconhecimento como sinônimo de sucesso, o grupo se autodefine por um certo marco ético: o compromisso com a modificação de mentalidades. Essa noção de sucesso pautada numa ética com a transformação social foi ilustrada pela situação em que a poesia “Feio é seu pre-

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conceito” sobre a estética do cabelo crespo, recitada durante uma semana no mesmo trajeto, acabou auxiliando na transição capilar de uma passageira. “Ela me disse que hoje era uma outra pessoa, que se reconhecia como mulher preta, então me deu um abraço e a gente chorou nesse momento. Foi muito único. Isso pra mim é sucesso porque as pessoas tem um entendimento da poesia e a partir disso o outro se modifica” conta Rilton, emocionado. E REVOLUÇÃO SEM DINHEIRO, ROLA? O RP é altamente politizado, e no entanto, apartidário. Dizem não se sentir contemplados pelos rótulos “esquerda” ou “direita” do espectro político. Dentro dessa outra lógica de mudança social, o grupo

“Acho que a gente faz revolução


Foto: Divulgação Foto: Divulgação

o sem dinheiro o tempo todo”

se propõe a fazer ações comunitárias. Em 2015, no aniversário de um ano, realizaram o “A arte invade a praça” na Tereza Batista, pelourinho. A partir disso tiveram a idéia de trazer pra dentro de outras comunidades o “A arte invade”. “Acho que a gente faz revolução sem dinheiro o tempo todo, até porque essas atividades que a gente faz são sem dinheiro, mano. Já tirei comida da minha casa para fazer evento da minha rua. De minha dispensa de comida estar vazia mas eu insistir que tem que fazer, tem que fazer, a comunidade precisa disso aqui”, relata Rilton. Negreiros completa: “ No ‘A arte invade a Baixa’ a gente conseguiu fazer café, almoço, merenda primeiro e segundo round e ainda teve grupo de teatro - e ima-

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gine pessoas que nunca tinham ido ao teatro na comunidade .Uma mulher cedeu a casa dela como ponto base, onde a gente pôde cozinhar e usar banheiro. A igreja foi onde a gente construiu palanque, botou som. Mas claro que, ao final do mês quando você precisa pagar o aluguel e depende exclusivamente desse dinheiro, é frustrante você ir pro buzú e não fazer dinheiro. Eu por já ter formação superior já fui muito criticada por continuar indo ao

buzú. A questão é que eu nunca fui pro buzú só pra fazer dinheiro, pra pegar a moeda. O que eu ia fazer no buzú é um trabalho psicológico até pra mim. Me ajuda a conseguir falar, encarar as pessoas, ir para os debates. Pra mim aquele momento é importante. Eu não faço mais buzú porque agora eu tenho uma outra lógica de vida. Minha formação acadêmica e a formação obtida ao longo dos projetos que eu já participei me possibilitaram estar em

outros lugares e não critico quem vai. O que eu acho é que a galera que tem ido pro buzú agora é uma galera que recita qualquer poesia, sem a preocupação em dizer que a poesia não é de sua autoria, é de outra pessoa. Deixamos de postar na nossa página porque nosso material não é todo registrado e a gente percebia que as pessoas pegavam, alteravam e saíam por aí recitando como se deles fossem. Essa falta de respeito de pegar nosso produto, transformar esse produto e não dizer que é seu.

texto: Alana Falcão bailarina, professora de dança e dramaturgista


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Revista Digital Ponto Art - Vol. 4, Nº. 1 - Janeiro/2019  

A Revista Digital Ponto Art é um projeto independente, construído com a colaboração dos artistas de Salvador e veiculado trimestralmente. Um...

Revista Digital Ponto Art - Vol. 4, Nº. 1 - Janeiro/2019  

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