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Circo Picolino O papel transformador das artes circenses na capital baiana

Rumpilé Ancestralidade expressa em forma de música

ANO 1  N° 1  Abril 2012

O ARTISTA INQUIETO De política a incentivos culturais, Gerônimo tem opinião formada para tudo


EDITORIA

A idea surgiu em 2006, a partir de inquietações comuns a vários profissionais do meio cultural baiano. Porque nem todos os artistas dessa terra abençoada conseguem ter acesso as mídias e consequentemente ao grande público? Por que, apesar da nossa multiplicidade cultural, apenas algumas poucas manifestações artistícas conseguem ser pautadas na imprensa? Um ponto de partida no mínimo instigante, que deu ao produtor Bruno Cássio e seu amigo, o designer Lauro Jr., embasamento suficiente para criar a Plano B. E por que Plano B? É a alternativa, é o trunfo dessa classe artística oculta, quase desconhecida, de alcançar novos ares e invadir novos territórios. Os artistas, produtores, apoiadores e técnicos que (sobre)vivem das suas artes terão espaço para narrar suas estórias. E o grande público ficará sabendo da existência de musicalidades e manifestações até então desconhecidas, de traços seculares e contemporâneos. O objetivo maior da Plano B é propagar a diversidade cultural da Bahia de forma isenta. Em pouco tempo temos a pretensão de sermos mais que um veículo de comunicação.

Queremos ser o centro de lançamento e um agregador de possibilidades para o que está acontecendo de novo. Inclusive quando outras linguagens forem apropriadas, como o uso das redes sociais, para quebrar fronteiras, chegando a todo o mundo. A Plano B será uma referência na divulgação da arte baiana. Estaremos no mercado para propagar o que está acontecendo de melhor na cena cultural, sem modismos, sem continuísmos. Sem anarquia contra os artistas midiáticos ou contra governos. Apenas com ideias originais e vontade de mostrar ao mundo a força daqueles que fazem uma das culturas mais admiradas do nosso tempo. Boa leitura!

EXPEDIENTE EDição ABRIL 2012 TiragEM 5.000 ExEmplarEs DistRiBuição gRatuita

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PATROCÍNIO Projeto contemplado pelo EDITAL DE APOIO À PUBLICAÇÃO DE PERIÓDICOS 2009


CAPA

ARTES CÊNICAS

As inquietações sempre bem-humoradas do compositor, cantor e folclórico Gerônimo, o criador da música 'É D'Oxum'.

Picolino garante a continuidade das artes circenses na Bahia.

PATRIMÔNIO Rumpilé, a sonoridade que saiu dos terreiros.

MÚSICA

MODA

TURISMO

OPINIÃO

ARTES VISUAIS

PROFISSÃO

O resgate do samba baiano por Juliana Ribeiro.

Bata: de veste sagrada a roupa casual.

Os encantos quase esquecidos de Maragogipe.

Malu Fontes fala sobre a "ditadura" do pagode.

O outro olhar de Alice Ramos através da fotografia.

Entre a Arquitetura e as Belas Artes, o cenógrafo.

ENTREVISTA

OPINIÃO

MUSEU

CIDADANIA

planoB indica

OPINIÃO

Joilson Santos descreve a atuação do Feira Coletivo.

Gica Nussbaumer explica o mercado da cultura.

Irmã Dulce, o legado e a obra da 'Mãe dos Pobres'.

Projeto resgata traços culturais brasileiros em cantigas e brincadeiras.

Confira nossas sugestões sobre o que rola pela Bahia.

Manno Góes nega a acomodação da zona de conforto.


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Picolino ARTES CÊNICAS

Quem passa pela orla de Salvador e observa a lona do Picolino reinando solitária naquela região, duvida do seu funcionamento e, mais que isso, desconhece a preciosidade do trabalho que ali acontece diariamente e a luta para mantê-lo ativo. 9


Uma escola de circo que não prepara palhaços? Isso mesmo. O Picolino é uma escola voltada para o trabalho com o corpo, onde os participantes aprendem artes como equilíbrio, saltos, voos e malabares. Debaixo daquela lona, já foram preparados inúmeros instrutores e artistas – exportados até para o Cirque du Soleil. Além disso, ainda existe a grande força do trabalho social: Mais de 2.000 pessoas já passaram por ali. Segundo Anselmo Serrat, um dos fundadores do Picolino, infelizmente o circo ainda é visto como uma arte menor. “É só olhar os editais e as leis de incentivo. Cinema é elite. Na sequência, teatro, dança... O circo fica com a migalha da migalha. Isso é discriminação”, lamenta. E ainda sugere: “O circo precisa de uma campanha de reparação do governo como acontece com os índios e os negros”. O universo do circo teve um ganho muito grande com a fundação das escolas. Há 25 anos eram somente três em todo o Brasil, hoje, mais de cem. Assim, passaram a ser exigidas políticas públicas para o circo, que sai dos limites do picadeiro e ganha a cidade. “O circense agora deixa de ser apenas o filho do dono do circo e passa a ser um jovem de qualquer camada social que aprecia essa arte”, relata o fundador do Picolino. O sustento do circo vem, hoje, dos inúmeros trabalhos que acontecem fora das lonas, como inaugurações e festas, assim como do aluguel do espaço. A Companhia do Circo que realiza as apresentações é outra forma de angariar fundos. “A palavra é sobrevivência. Temos uma linha de produção que dá para pagar a manutenção. Além disso, há os alunos particulares e a parceria com uma instituição que financia o trabalho social”, enumera Serrat. Sem dúvida, as apresentações têm maior força no interior do Estado. A TV chega na maioria das casas, mas o circo é a opção de entretenimento ao vivo. “Os cirquinhos costumam preparar dublagens das atrações do momento e encantam a molecada por estarem ali perto, presentes em centenas de pequenas cidades”, argumenta.

Em Salvador, são mais de dez companhias de circo estruturadas e em atividade, contudo, os circos com lona são apenas dois. Entre eles, o resistente Picolino.

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Picolino ARTES CÊNICAS

Em 1985, foi criada a Escola Picolino para fornecer aulas de circo particulares. Já em 1997 nasceu a Organização Não Governamental sem fins lucrativos, chamada Associação Picolino de Artes do Circo, voltada para o trabalho com arte-educação, disseminando a magia do circo e contribuindo para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Um dos grandes desejos de Anselmo Serrat é a realização de um encontro e uma mostra com importantes nomes do mundo circense, que seja capaz de lançar a pedra fundamental para a criação de um centro de memória do circo na Bahia. Ele sonha ainda em levar o circo para as universidades como uma disciplina acadêmica.

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Papel transformador Sempre em busca de renovação, o circo tem vida própria e foi pioneiro no trabalho com arte-educação. “Você não vê isso tão forte nos outros seguimentos de arte”, alfineta Anselmo. O circo costuma assumir o papel de transformar a sociedade. A vertente social no Picolino foi implantada no começo da década de 1990. Desde aquela época, o picadeiro funcionou como catalisador do desenvolvimento do potencial artístico nos jovens das mais diversas classes sociais. Mas por conta das dificuldades, desde 2010 a população do entorno do Picolino, que vive em situação de risco social, deixou de ser beneficiada pelos projetos desenvolvidos pela trupe. “Não podemos desenvolver um trabalho de formação ou alfabetização porque não temos certeza se vamos poder continuar. O único trabalho social que está sendo feito é através da parceria com o programa Conexão Vida”, explica o fundador. A maior tristeza dele é que a oportunidade de participar do circo seja oferecida para tão poucas crianças. “Aí deixa de ser transformação social para ser assistência social. Gostaria de atender todas as crianças, comunidades inteiras”, sonha.

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A falta de dom, no caso do circo, não impede o aprendizado. Circo é técnica. São coisas que qualquer pessoa pode fazer com treino. É preciso desenvolver concentração, domínio corporal e equilíbrio. Muita gente procura o circo por estar com dificuldades na vida pessoal. Conseguir equilíbrio no arame, por exemplo, ajuda a criar equilíbrio em sua vida. O palco ajuda a vencer a timidez, a vergonha. Você trabalha também o psicológico.


Picolino ARTES CÊNICAS

Endereços A lembrança da primeira casa, o Circo Troca de Segredos, em Ondina, traz brilho nos olhos. Sobre o período no Espaço Xis (segundo endereço), as lembranças já não são tão doces: “Aquilo era um porão abandonado, cheio de entulho, e nós o transformamos em um espaço habitável”, conta Serrat. Contudo, após a participação em um festival infantil na França, a trupe não pôde retornar para o Xis. “Voltamos de viagem felizes e famosos, tínhamos saído em vários jornais franceses... Quando chegamos, encontramos todo nosso material do lado de fora. Fomos expulsos”, narra ainda com mágoa. A próxima parada foi no Bar Vagão, localizado no Rio Vermelho. De lá, ficaram instalados no Aeroclube até 1996. Desde então, o Picolino está em Pituaçu e quem pensa que o caminhão de mudanças já foi aposentado se engana. Em setembro de 2009, Anselmo Serrat foi informado pela prefeitura que o circo precisaria trocar a lona de endereço mais uma vez, por conta do processo de revitalização da orla de Salvador - vide

Decreto Municipal nº 19.251, que determinou que 41 imóveis situados na Av. Octávio Mangabeira passariam a ser de utilidade pública. A previsão era que em alguns meses fosse feita a transferência para o Parque da Cidade, no Itaigara, onde haveria uma nova estrutura. A promessa já fez aniversário e o fundador do Picolino está completamente descrente: “Nessa história eu já nem acredito mais!”. Nesse período, ficaram impossibilitados até de alugar o espaço para eventos. “Passamos um ano muito difícil em 2010. Tivemos que parar os shows e as apresentações por pressão da prefeitura, mas em 2011 retomamos com força total até eles resolverem".

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MÚSICA Juliana Ribeiro

Léo de Azevedo

JULIANA RIBEIRO SAMBA cOM ReFeRÊNciA O samba é mais uma mistura bem-sucedida entre África e Brasil. Novos cantores, como Juliana Ribeiro, defendem, estudam e acreditam no samba. “se você tem verdade no que faz - seja o trabalho que for - e prima pela qualidade, as pessoas vão acreditar nisso e comprar sua ideia. Não existe fórmula para o sucesso, e sim verdade, amor e dedicação”, defende a cantora Juliana Ribeiro. Personagens como a soteropolitana surgiram nos últimos anos com o propósito maior de vivificar o espaço do samba de raiz, com suas matrizes africanas, na cultura contemporânea brasileira.

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Aos 32 anos, Juliana é historiadora por formação, foi aluna da Faculdade de Canto Popular da UNiCAmP, em são Paulo, e tem formação técnica em canto lírico pela Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora nata, recentemente ela conquistou o título de mestre pelo Programa multidisciplinar em Cultura e sociedade da Faculdade de Comunicação da UFBA, com uma dissertação sobre o samba. A sambista defende a música como objeto de estudo e apropriação: “interpretar é dar vida a uma canção, para tanto é preciso saber de onde a canção veio, quem foi seu pai ou sua mãe (compositores), e, através de sua ‘história de vida’, tornar aquilo orgânico”.


Juliana Ribeiro MÚSICA

A qualidade da voz, o timbre marAs referências e a inspiração para a realização desse disco cante, a presença de palco e a potência vêm da pesquisa realizada por ela. E não poupa o conselho: vocal são algumas das características “É hora de acordar para o que é belo no nosso cotidiano, anque encantam o público e a crítica. Grantes que virem relíquias de museu”. Em “Amarelo” estão imde prova do reconhecimento da jovem arpressas marcas de três séculos de manifestações musicais. tista, que já trabalha com música há dez “tudo que está ali me emociona. Ouvir cânticos de louvaanos, foi sua indicação à categoria Cantora ção e manifestações feitas nas senzalas me faz vibrar e Revelação do troféu Caymmi 2007. me move como artista”, conta. A baiana explica que é Em 2010 participou do projeto Origem preciso muita entrega para cantar a ancestralidade e, da terra, cujo objetivo principal era revelar nesse ponto, sua doação é completa: de corpo e alma. artistas e bandas locais sem inserção direta se o cenário parece abraçar os novos talentos do no circuito comercial e pouco conhecidos pelo samba como aconteceu com a conterrânea mariene grande público. O projeto culminou com a grade Castro, Juliana faz um alerta: “Ainda temos muivação de um CD com a participação dos artistas to que conquistar. sinto que o samba, ainda é visto revelados. “A troca nesse caso é o maior saldo. E como algo ‘menor’ no Brasil. É nosso ranço coloniatrocar vivências musicais, além de prazeroso, é lista de pensar que ‘o que vem de fora’ é melhor. extremamente gratificante”, relata. mas isso é um processo identitário, cultural, logo De lá pra cá, a sambista também se apresentou passível de mudanças. E percebo que estamos cano Conexão vivo, evento que valoriza a riqueza culminhando para uma melhor aceitação”. tural do Brasil, e lançou o seu primeiro CD solo, “AmaQuando o assunto é cantar fora do País, relo”, na consagrada arena do Parque da Cidade, em Juliana é categórica: “Ao que parece, há um salvador, que já recebeu grandes nomes da música, maior respeito à música brasileira lá fora do como Belchior e Nana Caymmi. O álbum harmoniza que aqui, mas conquistar o público local é variações rítmicas como maxixe, lundu, jongo, umbigaalgo único e de que não abro mão. A Bahia é da e ijexá. “Precisamos lembrar que não somos mais ‘Cominha ‘régua e compasso’ e possui um púlônia’ e que podemos escolher nosso próprio repertório. blico quente, participativo”. E arremata, “CoAdoro manifestações culturais como caboclinho, samba nheço muitos artistas estrangeiros que são de roda, nego-fugido, a barquinha etc.”, afirma. loucos para tocar aqui”.

Léo de Azevedo

« Conquistar o público local é algo único e de que não abro mão » « Sinto que o samba ainda é visto como algo ‘menor’ no Brasil » juliANA RiBEiRO

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MODA

Santa, festeira, charmosa e democrática,

A BATA Traje que veste homens e mulheres indistintamente é peça que compõe a indumentária de folguedos e vestuário específico para membros do povo de santo. Ela é peça indispensável no guarda-roupa dos que gostam de looks confortáveis, mas que não abrem mão da identidade no estilo. Vendidas aos mais diversos preços, as batas ganharam releituras diversas e se adaptaram também aos mercados de compras mais populares. Seja com traços e estampas africanas ou com tecidos popularmente denominados “indianos”, as batas desfilam sem restrição de horário e local. Mas o uso da bata vai muito além. Você sabia que ela é indumentária de algumas festas da nossa cultura popular e indicativo da hierarquia no candomblé? O antropólogo Raul Lody, uma das maiores referências em estudo da cultura e religião afro-brasileira, diz em seu Dicionário de Arte Sacra e Técnica Afro-Brasileira que a peça “é no candomblé um distintivo de alta hierarquia, sendo prerrogativa das iniciadas que tenham cumprido sete anos de obrigações específicas”. O babalorixá José Raimundo de Ogum, responsável pelo terreiro Ilê Axé Obá Nirê, ratifica: “A bata indica respeito e sabedoria para quem está vestido. São pessoas que têm idade e formação na cultura africana”. A origem da vesti-

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menta é outra questão interessante. “O traje que costumamos chamar de ‘baiano’ reflete a influência da cultura africana no Brasil, aliada à supremacia da cultura islâmica predominante do norte da África”, explica. Nos folguedos, festas populares que fazem parte do folclore brasileiro, as batas compõem o repertório visual de congadas e maracatus, como cita Raul Lody em seu dicionário. Tanto no candomblé como nos folguedos, a presença das batas nos faz imaginar que sua origem é mesmo inspirada nos trajes de sacerdotes e reis. Fora dos armários reais, santos ou dos artistas de nosso folclore, a bata, tal como conhecemos hoje, é uma vestimenta para todos. Feita com tecidos leves, estampas e adereços inspirados na cultura africana ou indiana, as peças fazem parte das coleções de lojas de departamento a alta costura. “A moda hoje é mais democrática. Alguns criadores escolhem a produção em massa, outros prêt-a-porter e alta costura. Porém, muitos bebem na referência étnica e são objetos de campanhas publicitárias. É claro que as classes A e B provavelmente usam marcas que fazem a releitura das batas, transformando-as em objeto de desejo”, diz Goya Lopes, designer têxtil, referência dentro e fora do país por seu trabalho com foco nas raízes africanas. Goya acredita que o gosto contemporâneo pela vestimenta é sinal de identificação e afirmação. “Vejo o uso da bata como uma apreciação dos valores e estética de uma cultura. O uso dos afrodescendentes com seu orgulho étnico e consciência social e os criadores de moda com uma releitura da bata para o mercado”. Dona de uma grife que produz peças étnicas para moda e decoração, Goya faz um desenho de quem procura por batas em sua loja: “São profissionais liberais, professores... Principalmente aqueles que se vestem de branco às sextas-feiras. E também os que frequentam a religião dos orixás”.


MODA

Com o passar do tempo a bata se tornou uma peça cada vez mais versátil. Ela pode desfilar por aí, compondo os mais variados estilos. Dos mais simples aos mais sofisticados, pode ser usada na praia ou balada. Tudo vai depender do tecido da bata e dos acessórios que compõem o look. Veja algumas dicas:

Trabalho Por ser uma peça democrática, vai perfeitamente ao ambiente de trabalho tanto em homens quanto em mulheres. Podem ser lisas, em estampas discretas, em tecidos com pouca transparência e fazem ótima parceria com o jeans.

Praia A bata de tecido de algodão é mais leve e pode ser utilizada como saída de praia. Proporcionando elegância e conforto. Nesse ambiente podem-se explorar bem as cores e estampas.

Casual Acompanhadas de shorts ou bermudas vão bem para ir ao cinema ou num passeio de fim de tarde. Para as meninas, os modelos mais longos podem ganhar um ar mais moderno e ficar com cara de vestido se utilizadas com um cinto marcando a cintura. Para finalizar o look, uma sapatilha ou sandália rasteira. Os meninos podem abusar das bermudas e sandálias para compor a produção.

Balada Para a balada as opções ganham glamour com aplicações de bordados, pedrarias, paetês e tecidos nobres como a seda. Cores e estampas estão liberadas. São permitidas as combinações com short, legging, jeans e o queridinho das mulheres, o salto alto.

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TURISMO Maragogipe

Preciosidade esquecida no

Recôncavo Habitada inicialmente pelos índios da tribo maraj-jip, que significa “braços invencíveis”, o município de Maragogipe resiste ao descaso e ao esquecimento.

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Jr. de Major


TURISMO Maragogipe

A pérola do Recôncavo, Maragogipe, situada a 133 km da capital baiana, ainda está no fundo das águas do rio que a espreita, à espera de exploradores destemidos e hábeis ao reconhecimento do seu inesgotável potencial. De uma riqueza histórica inquestionável, suas terras estavam incluídas no território da Capitania do Paraguaçu, que foi doada a D. Álvaro da Costa, filho do Governador-geral D. Duarte da Costa. Posteriormente foi desmembrada e elevada à categoria de cidade, com a denominação de “Patriótica Cidade de Maragogipe”. Um de seus visitantes mais ilustres foi D. Pedro II, que a apelidou de “Cidade das Palmeiras” pela imponência das árvores que a circundavam. Contudo, a falta de orientação levou os moradores a dizimarem essa parte da história sob a alegação de que as plantas comprometiam a estrutura de suas casas. A indiferença daqueles que, ano após ano, negligenciam o resgate dos valores históricos, tolhem o desenvolvimento da autoestima do seu povo, necessária ao florescimento de um turismo sustentável capaz de restituir os tempos áureos de crescimento e opulência outrora experimentados. Seu acervo histórico está entregue ao abandono e infortúnio. Nem mesmo a grafia do seu nome foi poupada. Pelo acordo ortográfico de 1943, as palavras de origem tupi que eram grafadas com a letra “g” passaram a ser escritas com “j”, alteração apenas para os nomes comuns, o que excluiria o nome da cidade. Todavia, o grafema “j” do nome Maragojipe foi imposto de forma autoritária para a população, por desconhecimento do acordo, ocasionando insegurança sobre a correta nomenclatura. Seu carnaval passou a ser considerado Patrimônio Imaterial da Bahia após tombamento da festa em fevereiro de 2009, contudo, seu potencial vai além dos festejos momescos. O Rio Paraguaçu, que banha suas terras, propicia o Turismo Náutico. As fazendas, remanescentes de uma região de engenhos, possibilitam o Turismo Histórico. Já a religiosidade do seu povo e suas tradições seculares, a exemplo da Festa de São Bartolomeu, são chamarizes para o Turismo Religioso. Vale ressaltar, ainda, o Alto do Cruzeiro, as Cascatas do Guimarães e da Mutuca, Gruta do Cantagalo, Manguezal, Parque da Cidade, Praia de Coqueiros, Praias de Pina e Ponta de Souza, dentre outros que compõem seu patrimônio. Atrativos naturais e culturais não lhe faltam, porém, os equipamentos de hospedagem apresentam um serviço deficiente e obsoleto que não acompanharam a evolução dos tempos e que representam a decadência financeira que o município vem experimentando, com exceção apenas do recém-inaugurado “Hotel Maragojipe”. A união da “natureza e sua biodiversidade” e “história edificada” constitui uma junção perfeita para o desenvolvimento turístico e sua reversibilidade em prol daqueles que habitam o

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município e seu entorno. No entanto, os setores público e privado necessitam promover uma ação conjunta de cooperação, no intuito de empreender os esforços necessários à consolidação de Maragogipe como um forte e atraente polo turístico.

economia

Maragogipe viveu ciclos econômicos distintos: cana-de-açúcar, café, fumo e, atualmente, sobrevive dos mariscos.

o fumo

Superstições que alimentaram o ciclo do fumo por mais de duas décadas, a exemplo dos “poderosos” charutos enrolados nas coxas das charuteiras, considerados afrodisíacos, hoje, estão esquecidas nas ruínas das edificações da Suerdick – antiga fábrica de fumo – e deterioram-se ao longo dos anos, desmoronando junto com os fatos que se tornaram lenda.

VIRADA CULTURAL

O sucesso da “Virada Cultural” de Maragogipe, evento de música que misturou atrações locais e nacionais, em novembro de 2011, dá uma pequena mostra da força que a cidade possui para adentrar o cenário turístico brasileiro.


Fica a dica Lorena Magalhães, de 24 anos, é filha de uma maragogipana e adora visitar a terrinha. Ela não perde a festa do padroeiro São Bartolomeu em agosto e, nos últimos anos, está trocando o carnaval de Salvador pelo de Maragogipe. Para quem é marinheiro de primeira viagem ela deixa a dica: “Não pode deixar de visitar a ponte do Cajá e Ponta de Souza”, paisagens que misturam praias e manguezais e, para perdição dos turistas, uma culinária rica, regada a moquecas, bobós, caldos e farinha da melhor qualidade.

Carnaval maragogipano resgata o clima poético dos antigos bailes de máscara, tão comuns nos festejos realizados em salões nos séculos XIX e XX.

Jr. de Major

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Bem-humorado, polêmico, irreverente - Gerônimo fala sobre arte, carreira e política. Um passeio pela história da música através do testemunho de uma personalidade da Bahia.

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Ger么nimo CAPA

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CAPA Gerônimo

Ele garante: o extinto Balé Brasileiro da Bahia foi a porta de entrada para o estudante de composição e regência da UFBA iniciar a sua vida profissional como artista. Em meio a uma fechada ditadura política, a notícia de que o Balé estava agenciando músicos para compor a orquestra durante uma turnê na Europa espalhou-se. Gerônimo não teve dúvidas - inscreveu-se e embarcou numa viagem que mudaria a sua vida. Foi assim que começou a carreira daquele que viria a ser um dos mais brilhantes compositores do Brasil. Autor de hinos como “É D’Oxum” e “Eu Sou Negão”, o artista foi descrito por Jorge Amado como “completo e único na criação”. Após a viagem, foi dada a largada para um caminho repleto de surpresas e desafios. Voltou com novas ideias, com outra visão de mundo. Infelizmente, havia perdido a vaga na universidade, pois seu pedido de trancamento da matrícula foi indeferido, talvez por seu envolvimento com movimentos estudantis. “Muitos amigos meus, que continuaram na escola, hoje são bons compositores e também professores. A profissão de mestre, de professor, é muito legal, mas quando a pessoa gosta de ser. Eu não sei se todos gostam de ser professores”, explica, garantindo que foi convidado até para dar uma aula pública na universidade sobre ritmos brasileiros. A trajetória de sucessos, sempre ligados a temas baianos, ganhou projeção e suas músicas passaram a ser gravadas por artistas reconhecidos. “Eu fui para a Ilha (Itaparica) para fazer uma música para Alcione. Não tinha ideia que música faríamos para ela (eu e Vevé Calazans). Ficamos a noite toda

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« Para mim, foi uma honra ter sido escolhido por Caymmi » chupando manga, olhando pra Salvador... Lá pra quatro e meia da manhã demos o primeiro acorde e, em quinze minutos, nós fizemos ‘É D’Oxum’. E amanhecemos o dia cantando a música", narra. Infelizmente, a cantora achou que o estilo da composição parecia com as canções de Clara Nunes, que havia falecido há pouco tempo, e decidiu não gravá-la. A fita com a obra, segundo sabe-se, ficou perdida pelos balaios da gravadora Som Livre até a produção da minissérie global ‘Tenda dos Milagres’. A fita foi encontrada por Dori Caymmi, na época responsável pela seleção da trilha sonora, que encantado, levou a canção para uma avaliação do pai. Ao ouvir, Dorival Caymmi disse ao filho que se tratava de uma música que tinha tudo a ver com Salvador. O próprio Caymmi havia composto uma canção para a cidade, mas achou “É D’Oxum” melhor. "Para mim, foi uma honra ter sido escolhido por Caymmi", orgulha-se. A música entrou para a minissérie, na voz de MPB4, e foi um sucesso. Desde então, passou a ser gravada por nomes da música nacional - como Gal Costa e Elba Ramalho. “É a música que me sustenta até hoje. Toca no mundo inteiro. Eu só sei disso porque recebo as planilhas de direitos autorais”, revela. Quando perguntado sobre qual foi o momento mais mar-


« Carnaval pra mim é sofrimento. Se eu pudesse tocava o ano todo e no carnaval eu ia curtir » cante de sua carreira, ele não vacila: "Estava em casa inocente, puro e besta, quando recebi um telefonema de Maria Bethânia, a artista mais completa do Brasil, querendo ouvir minhas músicas. Eu fui humildemente para a casa dela, um pouco nervoso, é claro – quando a gente é fã de uma pessoa, a gente fica com medo de espirrar fora do penico – (risos). E, de cara, ela gravou duas músicas minhas!”.

Axé e Carnaval “A Bahia sempre foi apartheid, sempre foi racista”, fala sobre o contexto carnavalesco. E na sequência, ironiza: “Aí fazem os camarotes para as pessoas estarem ali olhando a arena. Você se debruça e vê aquela plebe suja, mijada, tomando porrada da polícia. É uma diversão”. Gerônimo admite não ser carnavalesco e diz que só toca por necessidade. “Carnaval pra mim é sofrimento. Se eu pudesse tocava o ano todo e no carnaval eu ia curtir igual a Caetano, ir para camarote, subir no trio, dançar, beijar na boca. Carnaval é sinônimo de consumição. Tenho de ver se eu estou na escala, se eu tenho trio para tocar, discutir com os músicos qual é o cachê. Eu sou igual a Osmar (Macedo), quando começa o carnaval, eu fico doido para que chegue quarta-feira de cinzas”. O cantor ainda cita que para artistas bem assessorados, as coisas são mais fáceis. “Eles até choram de emoção no carnaval. Eu não, as minhas lágrimas são de sangue!”, desabafa. Então, Gerônimo sonha: “Eu quero ver o carnaval pacífico daqui a dez anos: os Afoxés Filhos de Gandhy desfilando, os trios elétricos pequenos tocando na rua, bandas com instrumento de sopro, uma volta às raízes”. E sentencia. “O Axé Music é um senhor que está morto”, explicando que a projeção do gênero hoje é fora da Bahia, tornando o carnaval uma mera vitrine. “Por isso aquela briga de bloco de artista querer passar na frente da televisão”, critica. Quando indagado sobre seu mais novo projeto, no qual toca para "patricinhas" e "mauricinhos" em um barzinho voltado para a classe alta soteropolitana, ao lado de axezeiros como Durval Lelys, explica: “Aquela galera, toda fofinha, bonitinha que está lá... coitados! Eles precisam enriquecer a cabeça deles. E Gerônimo tá lá pra isso! Vou lá para pregar uma forma de música que eles desconhecem. Estão acostumados com muito ‘beijo na boca’ e muito ‘sai do chão’. Eu quero que todo mundo fique com o pé no chão!”.

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CAPA Gerônimo

Política versus arte Nesta história de talento e sucesso, nem tudo são flores. Hoje, Gerônimo vive uma espécie de entresafra de visibilidade - está fora da mídia e questiona o porquê. Insatisfeito com a falta de apoio à cultura e a falta de espaço na mídia, ele vive desafios diários. Mesmo assim, o cantor faz, todas as terças-feiras, o show “O Pagador de Promessas”, na escadaria da igreja do Santíssimo Sacramento (Rua do Passo), no Pelô. E questiona um fato curioso sobre a sua atuação no atual cenário artístico baiano: a invisibilidade. “Estou nessas escadas há oito anos e ninguém sabe que eu existo. É uma coisa que eu até brinco: se alguém conhece o secretário de Cultura, manda ele vir aqui ver a gente; se alguém conhece o secretário de Turismo, manda ele vir aqui, tem turistas aqui”, desafia. “Eu não sei por que eu não tenho patrocinador, eu gostaria de saber. Talvez porque eles não façam o fomento necessário. Talvez seja uma culpa minha por não fazer papel...”, referindo-se ironicamente aos projetos. E sugere: “Você coloca um bocado de coisa no papel, aí o cara vai na última folha e vê quanto custa o projeto. Ele não lê. Bote bastante figurinha, bastante foto e pouca letra, porque aí talvez convença”. Sete, dos oito CDs gravados por Gerônimo, são produções independentes. Sobre esse tema, profetiza: “Gravadora, para mim, é um projeto em extinção. Desde sempre, já existia a artimanha da pirataria. Fazer CD é o mesmo que fazer massa de pão”. Mas pondera. “Claro, eu não vou dizer que estar em uma gravadora é ruim. Não é. Estar com uma gravadora levanta o status, mas isso vai morrer. Hoje, veio para nos salvar, nos derrotar e matar, a internet. O cara pode virar sucesso, com um som que ele fez no violão e colocou na internet". E anuncia candidatura nas próximas eleições. "Eu quero estimular as

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« Estou nessas escadas há oito anos e ninguém sabe que eu existo » pessoas que não querem se envolver na política a entrar nela também”. Quando questionado se não seria perigoso canalizar o seu prestígio artístico para o meio político, um campo cheio de vícios e corrupções, ele rir-se: "Eu quero saber qual a diferença entre o meio artístico e o meio político. Uma vez eu tinha conseguido um trio elétrico para tocar no carnaval e eu estava na boca de cena para entrar na Barra, quando eis que, de repente, me vem um coronel tenente capitão e manda parar e dar passagem a outro artista. Não há diferença". E acrescenta: “Eu não tenho medo da pobreza. Eu vim de uma família pobre, sou um artista pobre. E não tenho medo também do sucesso. O sucesso veio e se saiu de mim que eu nem senti. Eu não enlouqueci, não tirei onda, não caguei na cabeça das pessoas. Estamos tentando algo diferente na Bahia. Para o artista não morrer é que eu decidi fazer esses shows aqui. E estou aqui resistindo. Vamos ver o que vai acontecer", conclui.


OPINIÃO

A gente não quer só pagode Malu Fontes Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com | @malufontes Tayse Argôlo / Labfoto

Quando se trata de falar criticamente de qualquer produto cultural, hoje, no Brasil, todo cuidado é pouco. Este é o país do elogio, das relações de comadre e de aplaudir sempre o famoso do bairro, mesmo que a sua música seja um lixo auditivo, seu filme seja uma sequência filmada de clichês e sua obra escrita provoque vergonha alheia. Quando se vive em Salvador e o assunto da conversa é música, todo cuidado deve ser multiplicado à enésima potência. Na verdade, se você é baiano, tem nível superior, tem uma rendinha razoável para não precisar recorrer aos empréstimos financeiros da moça do balcão da propaganda da TV e não é muito chegado aos ritmos onipresentes do axé e do pagode, uma advertência: se em qualquer espaço público onde estiverem mais de duas pessoas lhe pedirem sua opinião sobre os ritmos baianos, não pense duas vezes: diga que não tem opinião, que gosta de tudo e saia da conversa como entrou, como um peixe ensaboado. Somente assim você poderá livrar-se da pecha de arrogante, intelectualóide e, principalmente, de ser uma pessoa com forte pensamento de classe. VALÃO – Em Salvador, não há outra opção entre gostar de axé e pagode ou ficar calado. Todas as outras equivalem a atrair desaforos. Para piorar o desconforto, nos últimos anos emergiu e se fortaleceu uma certa associação entre correntes culturais que privilegiam o relativismo (cultural e de tudo) e os movimentos sociais afirmativos que, juntos, atiram toda e qualquer declaração crítica sobre algo considerado popular no valão comum do preconceito contra os mais pobres. O que

há de errado, esteticamente feio ou desqualificador no axé e no pagode? Absolutamente nada. Cada um produz, consome e apega-se afetivamente à cultura que pode e sabe fazer. O que está por trás da maioria das críticas feitas à hegemonia desses ritmos nos meios de comunicação é o modo massivo como ambos são privilegiados em detrimento de outros ritmos musicais. Para além do Arrocha e do Arrocha Universitário, que fique claro. O problema (nem tampouco a solução) da música baiana não é o axé, o pagode, o arrocha ou seus semelhantes, mas o fato de haver toda uma geração de baianos abandonada em termos de formação cultural a quem sequer foi dado o direito de fazer escolhas estéticas. O sistema educacional na terra de todos os santos não tem conseguido suprir sequer as necessidades mais elementares da escolarização formal. Imagine-se, então, proporcionar esclarecimento suficiente para que a população trafegue por diferentes ramos e correntes estéticas, musicais, artísticas e possa fazer suas escolhas culturais em leques mais amplos. Há quem ache que o pagode é a mais linda das manifestações musicais do Século XXI de uma cidade que tenta, há uma dúzia de anos, e não consegue colocar um metrô nos trilhos. Mas será que, mesmo o gênero sendo tudo isso, dá para falar da dominação dele sem ser linchado por aqueles que consideram essa crítica um sinônimo de intolerância contra a cultura dos mais pobres? Não é. Só pede-se um pouquinho de chance para as pessoas aprenderem a gostar não apenas do que já gostam, mas também de outras formas de fazer música. A gente não quer só pagode...

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PATRIMÔNIO

a musicalidade sagrada do rumpilé

Oferecer ritmo e marcação às canções ou abrir um canal de comunicação com os deuses: os tambores têm uma função essencial na arte e na religião. Entre eles, um conjunto de atabaques possui um papel de destaque: o rumpilé. Madeira de lei, couro de boi curtido e argolas de metal - são estes os elementos responsáveis pela composição da maioria dos instrumentos percussivos. Ingredientes simples que, somados, representam um dos itens mais marcantes da cultura baiana. Em princípio, eles podem parecer todos iguais, mas possuem sons e representações simbólicas diferentes. Entre os mais importantes, está o conjunto de três tambores tipicamente usados nos rituais de Candomblé e Umbanda, o rumpilé. Trata-se de três tambores de tamanhos diferentes, cada um com um timbre: o maior deles é o rum, mais grave e solista, responsável em dar o tom à canção entoada durante a cerimônia religiosa; o rumpi é o médio, que mantem a marcação iniciada pelo rum, e o lé é o agudo. Considerados sagrados pelas nações Nagô e Ketu, os três instrumentos são responsáveis pela convocação dos deuses durante as cerimônias, representando órixas distintos em cada terreiro. A importância é tamanha que chega ao ponto de se interromper o ritual caso um dos instrumentos venha a cair ao chão. Co-idealizador da Orkestra Rumpilezz - nome que vem da junção da palavra rumpilé com a adição do termo “zz”, em referência ao jazz, o percussionista Gabi Guedes pontua que os três tambores são instrumentos seculares importantíssimos dentro do terreiro, seja pela evocação do orixá ou pela marcação dos cânticos entoados durante cada cerimônia. “São os instrumentos mais significativos da cultura afro. Os três sempre estão presentes em qualquer terreiro, além do gã, que é mais conhecido como agogô”, conta o músico. O rumpilé também é usa-

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do na capoeira, sendo tocados com as mãos ou com uma baqueta de madeira fina, erguidos de pé em estruturas com bases de aço. Nos cultos afros, os tambores possuem papéis fundamentais, sendo o principal deles a manuntenção de uma sonoridade única no ambiente para que todos os membros permaneçam em sintonia. Devido a seu valor simbólico, os atabaques somente podem ser manejados pelo *Alabê. “O alabê é escolhido pelo orixá. O cara tem que começar a tocar, aprender os cânticos, a sonoridade. E em certo momento o orixá vai apontar se ele será ou não alabê. Acima de tudo isso, o cara precisa ter vontade de aprender, de praticar, porque todo o conhecimento é passado de maneira oral”, revela Gabi.


PATRIMÔNIO

Como diferenciar o rumpilé de atabaques comuns? Este tem sido o desafio de muitos religiosos: zelar pela divindade destes tambores e evitar que sejam confundidos com simples instrumentos percussivos, usados em festas e eventos de entretenimento. Sobre a utilização “profana” do instrumento, em festas como o carnaval, Gabi Guedes não avalia que seja um problema. Para ele, o atabaque utilizado dentro do terreiro tem uma conotação religiosa que remete a ancestralidade dos cultos afro. “O atabaque que está no terreiro não será utilizado em festa profana e o de festa não participa dos rituais. O rumpilé passa por uma intensa preparação antes de ser usado no candomble”. De acordo com o pesquisador e escritor Mário D. Frungillo, em seu ‘Dicionário de Percussão”, a palavra atabaque deriva-se do termo arábe “at-tabaq”, que significa tambor. Esse vocábulo teria sido incorporado pelos negros africanos, a partir da influência da cultura arábe na África, para designar os instrumentos utilizados em seus rituais, inclusive o trio rumpilé. Contudo, por sua conotação sagrada, esses atabaques passam por algumas etapas diferentes de contrução: em alguns casos determina-se o dia do corte da árvore para a sua fabricação e o couro passa por uma solução oleosa para dar mais resistência e timbre ao produto final. *Nota do editor: Na ‘Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana’, a palavra Alabê significa “músico ritual da orquestra do Candomblé. É necessariamente um Ogã submetido aos rituais de iniciação”.

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ARTES VISUAIS Alice Ramos

PELAS LENTES DE

Alice

Confiante, versátil, polêmica, apaixonada e bem-humorada: a fotógrafa baiana Alice Ramos surpreende a cada novo click. “No meu caso, é 99% inspiração e apenas 1% transpiração”, com essa frase intrigante que Alice Ramos descreve o seu trabalho. Fotógrafa autônoma desde 1992, ela explica que as ideias para suas produções vêm de experiências pessoais. “Sou motivada pela paixão”, pontua sorridente. Realização é uma palavra que ajuda a descrever o encantamento com que Alice fala sobre sua profissão. E nas páginas do seu trabalho mais recente, o seu primeiro livro autoral, “Alice de Passagem”, estão algumas provas que revelam a alegria que ela sente em fotografar. A maneira como surgiu a proposta para esse projeto é um curioso capítulo à parte. No fatídico dia 12 de junho de 2007, data em que é comemorado o Dia dos Namorados no Brasil, Alice foi presenteada com o término do relacionamento amoroso. Arrasada, procurou Isolda, uma amiga astróloga, e foi aconselhada a passar seu próximo aniversário em Amsterdam, já que uma ‘revolução solar’ (seja lá o que isso quer dizer) melhoraria a situação. Alice partiu. E desde então continuou partindo. Foi a sua primeira investida fora dos estúdios, descobrindo o prazer em registrar o espontâneo e o imprevisto. As fotografias di-

A combinação do olhar sensível com o domínio da técnica já rendeu a Alice o Prêmio Nacional de Fotografia da Funarte (o mais importante do País no gênero) em 1997. Suas fotografias também foram selecionadas para o acervo particular de Gilberto Chateaubriand, Coleção Pirelli/MASP, Museu Afro-Brasil e Museu da Fotografia da América Latina. Suas exposições viajaram pelo Brasil, Holanda, EUA e França.

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vulgadas são apenas um recorte de quatro anos de lembranças e curiosidades. No livro, a fotógrafa reúne belas imagens dos registros em nove países: Bélgica, Brasil, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Panamá e Tailândia. Os títulos das fotos, apenas eles, já são capazes de expressar o cuidado e dedicação dispensados a esse projeto. A obra, realizada pela Guaxe Produções, é fruto de um edital de apoio à publicação de ensaios fotográficos da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. “Fotografia é um produto muito caro e o livro é mais acessível”, pondera Alice, ressaltando a importância do material.


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R. Alonso


ARTES VISUAIS Alice Ramos

ESTACIONAMENTO CENTRAL Amsterdam Holanda | 2007

MULHERES GIRAFAS/ REFUGIADAS PADAUNG Chiang Mai Tail창ndia | 2009

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Alice Ramos ARTES VISUAIS

PrOjEçãO se hoje é tímido o número de cursos superiores de fotografia na capital baiana, há duas décadas o cenário era ainda mais difícil. O despertar do interesse por essa área vinha de cursos como jornalismo e desenho industrial. Assim aconteceu com Alice Ramos. seu primeiro contato com a fotografia foi no curso de Design da Escola de Belas Artes da UFBA, onde se apaixonou pela mágica da revelação. Posteriormente, adquiriu experiência em estúdios e laboratórios, além de atuar como repórter fotográfica. O destaque no meio artístico veio como resposta ao tino para desenvolver projetos autorais que põem em xeque valores sociais e estéticos. seu nome passou a ser conhecido ainda nos idos de 1995, com o trabalho intitulado “Redondamente Enganado”. Nesse ensaio, poses de mulheres rechonchudas pesando entre 70 e 130 quilos, todas nuas, provocando e provando que a sensualidade não está perdida nos corpos volumosos. “Alice de Passagem” expõe uma nova etapa da vida e da carreira de Alice Ramos, recheada de desafios pessoais e profissionais. “Foi um parto. Agora é uma felicidade muito grande ver o trabalho se espalhar”, arremata.

livrO Alice de Passagem (115 páginas) Editora » Romanegra vendas » Livraria Cultura (salvador shopping) Preço sugerido » R$ 40,00

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PROFISSÃO

?

TRABALHO DISPENSÁVEL

Para saber um pouco mais sobre profissão de cenógrafo, desconhecida até pelos arquivos que não vão além de explicar que essa atividade surgiu na Grécia antiga, entrevistamos Zuarte Júnior, que atua na área há quase três décadas. Você já parou para se perguntar como surgem aqueles belos ambientes que ilustram os palcos das peças de teatro ou as cenas nas telas do cinema? A profissão do cenógrafo é pouco conhecida pelo público, mas chama atenção de quem se depara com o resultado do trabalho. Basicamente, o cenógrafo é o profissional responsável pela concepção e pelo projeto de criação de ambientes e atmosferas para espetáculos artísticos tais como filmes, shows, peças, desfiles de moda, teledramaturgia (novelas e séries televisivas), entre outros. Cabe ao cenógrafo o gerenciamento da realização e montagem de todos os espaços necessários à percepção cênica, a partir de pesquisas e criação de um conceito artístico sobre a obra que será representada. O cenógrafo idealiza, elabora, supervisiona e acompanha todo o processo de construção de projetos cenográficos. E como trabalha por demanda, o cenógrafo

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pode faturar entre R$ 3 mil e R$ 8 mil. De acordo com especilistas da área, os melhores salários são pagos pelo cinema. Há casos em que os profissionais mais reconhecidos ganham até R$ 50 mil pela criação de um único projeto. Quem atua no meio artístico revela que o cenógrafo é aquele profissional inserido entre as artes e a arquitetura. É um meio termo. “Dizem que o cenógrafo é aquele cara que não foi macho o suficiente para fazer arquitetura e nem gay o bastante para fazer decoração. Sempre ouvíamos isso lá em Belas Artes. Não diante do cenógrafo, mas perante o cara que optava por Arquitetura ou por Artes Plásticas. Claro que é uma brincadeira”, descontrai Zuarte Júnior, o baiano de


PROFISSÃO

Yuri do Val / Centro Técnico TCA

Morro do Chapéu que é considerado o “mago” da cenografia na Bahia. Em meio à descontração, Zuarte deixa clara sua indignação sobre a forma com que os investimentos são designados à sua área: “Acho que o sistema dos editais e o vício orçamentário e de mídia é que não contemplam com mais consideração esse ser chamado cenógrafo”. Embora a tecnologia esteja tomando grande parte do espaço dos construtores de cenários, com programas de computadores que barateiam os custos com mão-de-obra e material, Zuarte acha que tudo pode ser casado, combinado e integrado, sem que a profissão do designer necessariamente tenha que anular a do cenógrafo. Isso porque, hoje em

dia, a cenografia exige do profissional conhecimento em programas para a elaboração de projetos em 3D, cálculos matemáticos e desenho técnico. Quando questionado se a invasão das peças no formato stand-up comedy podem ser um problema na vida de quem sobrevive da construção de cenários, Zuarte Júnior faz uma declaração sincera: “Não vejo como ameaça. A cenografia (e eu sempre digo isso para meus alunos) é dispensável. O que não pode faltar é o ator. Sem ele, nada. O cenógrafo precisa ter essa humildade, do não necessário”, explica. Um de seus trabalhos mais aclamados pelo público foi a criação do cenário para o show do cantor Luíz Caldas, em 2010, que remete ao inesquecível clipe Triller, de Micheal Jackson. Ele garante que não tinha a pretensão de copiar nada e completa que a analogia é um grande elogio, já que a sua criação contou com recursos muito menores que os do vídeo. E será que “dói” ao final de uma temporada ter que acabar com cenários que encantaram o público? “Sim. Isso é cruel. É a pior parte. Eu confesso que não tenho um pensamento formado e desprendido sobre o que fazer: reciclar tudo? Transformar? Fica no nosso imaginário, já que não podemos ter um Museu da Cenografia (ou Podemos?). Pelo menos, guardamos algumas peças, objetos...”, conforta-se o artista.

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Foto divulgação Feira Coletivo

COLETIVO PROMOVE CULTURA EM

FEIRA 38

A gestão pública não dá conta da crescente demanda cultural da Bahia. Ano após ano, grupos de diversas linguagens artísticas criam uma série de produtos que carecem de oportunidades para serem vistos. Nesta entrevista, a PlanoB traz a experiência do Feira Coletivo, que está dando palco para os artistas de Feira de Santana mostrarem sua arte. Ligados ao Circuito Fora do Eixo, rede artística brasileira que atualmente atua na América Latina, o Coletivo desenvolve trabalhos com base na economia solidária e cooperativismo, entre outros. Joilson Santos, músico e membro do Feira Coletivo, é quem traça um panorama das atividades na cidade.


Feira Coletivo ENTREVISTA

Como eram as condições de trabalho para os artistas do município antes do Feira Coletivo? E o que mudou com a adesão ao Fora do Eixo? Feira de Santana sempre teve altos e baixos na produção independente, mas sempre foi importante no circuito alternativo. Com a formação do Coletivo, começamos a nos organizar melhor. Montamos uma equipe que pensa a comunicação, produção e circulação de artistas. Conseguimos crescer muito em pouco tempo. Fazer parte do Fora do Eixo foi fundamental, pois vários coletivos já haviam passado por essas mesmas dificuldades. Além disso, o Fora do Eixo (FDE) viabilizou a vinda de diversos artistas da cena independente nacional e internacional para Feira, o que vem dando grande visibilidade ao nosso trabalho e aos artistas locais que participam de nossas produções. “O Feira Noise Festival” que oportuniza a apresentação de diversos segmentos artísticos, acontece anualmente com o objetivo de fortalecer a cadeia produtiva local e incentivar o trabalho em rede. Como se dá esse processo? Ele é construído durante o ano inteiro, é a aglutinação de tudo que produzimos nos meses anteriores e é realizado com a cara e a coragem. Temos uma enorme dificuldade de captar recursos. São raras as empresas interessadas em associar sua marca com eventos culturais na cidade. Ele é fruto deste trabalho colaborativo. E só é possível por conta de uma carência muito grande de eventos como esse na cidade. Sempre abrimos inscrições para o Festival. Em 2011, por exemplo, foram 236 artistas inscritos, de todo o Brasil. Ficamos intrigados em saber sobre a questão do cooperativismo entre os artistas. Como funciona esse conceito em meio a profissionais de diferentes áreas de atuação e às vezes com propósitos artísticos diferentes? Na verdade a grande dificuldade dos artistas independentes sempre foi a falta de grana. Então o Fora do Eixo veio e pensou na troca de serviços, que é algo que todo mundo já fez em algum momento de sua carreia artística, mas com uma diferença. Por exemplo, o artista é músico e design gráfico, então ele faz a logomarca de um estúdio em troca de horas para ensaiar com sua banda. O Fora do Eixo organizou e sistematizou essas trocas, parou de ser “brodagem” e começou a ser uma troca com valores definidos. E isso foi primordial para o crescimento da rede e para viabilizar a execução de vários projetos. Essa forma de trabalhar foi compartilhada por toda rede e, graças a ela, em 2011 o Fora do Eixo investiu mais de 40 milhões na cultura brasileira só em moeda complementar, que é toda pautada nestas trocas de serviços. Como foi dito, o trabalho é baseado no colaborativismo. Todos que se encontram envolvidos nessa perspectiva de tra-

« São raras as empresas interessadas em associar sua marca com eventos culturais na cidade » JOILSON SANTOS, MÚSICO E MEMBRO DO FEIRA COLETIVO

balho entendem que atualmente somos um coletivo de tecnologia social. Quando deixamos de entender cultura como uma única e exclusiva linguagem artística, tentamos estabelecer em cada um dos agentes a noção de construtor de uma série de linguagens, que não necessariamente precisa estar dentro do campo da arte. Com isso, aumentamos o número de serviços e produtos circulando dentro da rede, diversificamos esse cardápio e tornamos cada vez mais viável a realização de ações culturais no município. Muito mais que fomentar a cultura, as propostas do Circuito Fora do Eixo têm o objetivo de formar agentes culturais. Feira de Santana e região têm essa necessidade suprida? Não. Investir na formação desses agentes é um passo importante a ser dado. São poucas pessoas empenhadas, este número é tão reduzido justamente porque são poucos os estímulos e investimentos. Em Feira de Santana só temos o Pró Cultura, que é uma Lei de incentivo e fomento a cultura, mas que pouco incentiva e muito menos fomenta. É algo que precisa ser revisto, necessita de mais clareza. Não sabemos como os projetos são analisados, quais critérios são aplicados, o que é prioridade ou não. Você citou o fato de haver uma única lei de apoio a cultura em Feira de Santana. Mas quanto às esferas estadual e federal? Na verdade o maior empecilho para que se cheguem investimentos no município é a política cultural que temos em vigor na cidade, que não estimula e nem fortalece esse mercado de economia criativa. Algumas verbas chegam, mas não são investidas em ações que ampliem e estimulem este nosso mercado. Não temos nenhum edital que tenha um repasse direto de verbas, a Lei de Incentivo (Pró Cultura) é de dedução em impostos, mas é burocrática e de difícil captação dos recursos. Não temos um conselho de cultura ativo, estamos atrasados em relação à implementação do Plano Municipal de Cultura que tanto foi discutido no ano passado nas conferências municipais e também estamos atrasados em relação à criação do Fundo Municipal de Cultura.

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Foto divulgação Feira Coletivo

Participei da comissão que estava discutindo a minuta de lei para implementação do fundo e não tivemos a presença do secretário em nenhuma das vezes. Acabou ficando empacada. Ou seja, a visão ainda é aquela de cultura de massa, a Secretaria acaba funcionando como uma produtora de eventos sem nenhuma preocupação social, sem preocupação com a democratização do acesso a cultura, sem planejamento de médio e longo prazo, etc. Feira de Santana tem uma verba para investimentos em cultura, usada apenas em três eventos anuais: Micareta, São João e no ExpoFeira. Enquanto isso, o resto do ano a população fica carente de atividades culturais e pior, a classe artística fica sem incentivo nem espaço para apresentações. A nossa Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, não abre diálogo com a sociedade, o que é outro problema sério. Em sua opinião, enquanto militante do movimento cultural, os recursos não chegam aos artistas do município por não estarem na capital ou por que também falta buscar informação sobre outros meio de fomento, tais como editais disponibilizados por órgãos governamentais? Em relação aos editais federais e estaduais, do jeito como vem sendo feito, de forma bem mais democrática é algo muito recente. A própria divisão de recursos estaduais é muito recente e eu ainda acho injusta, mas é melhor do que era há 15 anos. Então é muito complicado ainda encontrar pessoas com essa habilidade para elaborar projetos, apesar dos esforços

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do Governo do Estado e Federal para ensinar e preparar as pessoas para apresentarem projetos nestes editais. Estamos passando por um processo de facilitação e estamos aprendendo a transitar no espaço burocrático dos editais públicos. Não é fácil, nem tampouco simples, porém, justo e necessário, principalmente por se tratar de Brasil, onde qualquer brecha é motivo para desvio de recursos públicos e/ou corrupção. Como vocês do Feira Coletivo viabilizam as ações sem a ajuda financeira do poder público e da iniciativa privada? Você acredita que o projeto se sustente a longo prazo sem essa injeção de verbas? Viabilizamos as ações da mesma forma que todos os coletivos do Circuito Fora do Eixo fazem, de forma colaborativa, com horizontalidade, ou seja, ninguém é mais especial que ninguém, do bilheteiro ao artista que se apresenta no evento, todo mundo de alguma forma contribui para que o evento seja realizado. O fator desse êxito é precisamente porque adotamos, em nosso trabalho e cotidiano, valores e lógicas contra-hegemônicas. Colaboração, ao invés de competição. Nesse sentido, a implantação de uma moeda complementar será nosso próximo passo para a manutenção consciente dessa troca de serviços e produtos. Esse tipo de moeda social tem sido um projeto bem sucedido em todo o país, sobretudo dentro do Circuito Fora do Eixo, onde já foi criado um banco solidário pautado na perspectiva de gestão autossustentável que se tornou referência para os coletivos ligados a rede.


OPINIÃO

A cultura do mercado e o mercado da cultura Gica Nussbaumer Professora do Curso de Produção Cultural e do Programa Pós-Cultura e membro do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura/CULT da FACOM/UFBA. gica.cultura@gmail.com Foto divulgação

O mercado da cultura, apesar de estar na pauta de estudiosos e intelectuais há muito tempo, tem se tornado cada vez mais difícil de ser acompanhado e compreendido devido a sua complexidade e, sobretudo, a velocidade das mudanças que ocorrem nas formas de produção, divulgação e consumo da cultura na contemporaneidade. Parte significativa de nossa produção cultural depende essencialmente do mercado (é o caso da Axé Music), embora o Estado hoje em muitos aspectos possa ser considerado como parte desse mercado e interfira de maneira significativa no seu modo de funcionamento (com as leis de incentivo e em casos de eventos como o carnaval soteropolitano). Considerando a complexidade das relações no mercado da cultura é que, já na década de 1990, o francês Claude Mollard propôs que a cultura fosse analisada sob uma perspectiva que abrangesse todos os atores sociais envolvidos no que ele chama de “sistema cultural”. As mudanças que vem acontecendo no mercado da cultura nas últimas décadas refletiriam, segundo ele, a passagem de um “sistema artístico” para um “sistema cultural”, sendo este último constituído, essencialmente, por “quatro famílias” que determinariam as relações no mercado da cultura: artistas, públicos, financiadores e mídia. Para Mollard, esse jogo de quatro famílias é ao mesmo tempo arcaico e simbólico. Arcaico porque remete aos quatro elementos da natureza: fogo, terra, água e ar; simbólico porque remete também a quatro conceitos do mundo moderno: energia, matéria, tempo e espaço. A energia e o fogo representariam os artistas; a matéria e a terra os financiadores; o tempo e a água os públicos; o espaço e o ar a mídia. O jogo se estrutura a partir de dois eixos: artistas e públicos podem jogar juntos, mas financiadores e mídia se nutrem da presença dos primeiros – daí sua importância fundamental, nem sempre reconhecida pelos próprios artistas e públicos. Na “república das artes e das letras”, segundo expressão do autor, o sistema cultural poderia se limitar a uma relação intensa, única, passional, entre artistas e públicos.

Na contemporaneidade, o número de artistas é consideravelmente maior e todo cidadão é público potencial. Com isso, em torno dos artistas e dos públicos se estabelece um conjunto de trocas, competições e transações; e em torno dos financiadores e da mídia se constrói o conjunto de articulações que condicionam e interferem cada vez mais nas relações entre artistas e públicos. Apesar de as relações entre artistas e públicos constituírem uma espécie de sistema utópico de referência, na medida em que a intervenção cresce por parte dos financiadores e mídia, predomina no jogo a lógica de mercado e surgem novos atores sociais. Assim, além das quatro famílias do sistema cultural já indicadas, podemos incluir pelo menos outra, a dos agentes ou produtores culturais, que ampliam cada vez mais sua presença e poder no momento em que vivemos uma compreensão expandida de cultura e o reconhecimento de seu potencial e transversalidade. No entanto, o esquema continua ainda simplificador. Isto porque certos atores chegam a participar de várias famílias ao mesmo tempo, do jornalista que é também empresário; ao financiador ou gestor, que depois de ter sido artista, aprendeu a utilizar as alavancas do sistema. Esses são os grandes protagonistas. Em contrapartida, aqueles que ficam isolados, sem dominar ou refletir sobre as regras do jogo, o momento em que vivem e sobre suas transformações, acabam ficando à margem. O acesso a criação e a circulação de produtos culturais dá-se mediante um jogo de poder, representação e sedução no meio. Um jogo no qual é preciso que cada um dos participantes esteja consciente de seu papel e de sua posição, bem como do papel e da posição do outro. Um jogo no qual artistas e públicos podem vir, cada vez mais, utilizando-se, entre outras formas, das tecnologias e redes sociais disponíveis, a estabelecer novos modos de relação, passando a ter mais autonomia e, até mesmo, desestabilizando o que mais comumente se pensa sobre o mercado da cultura e a cultura do mercado e seus protagonistas.

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MUSEU

a casa de

DULCE

Endereço Avenida Bonfim, 161 Largo de Roma, Salvador – Ba Funcionamento de terça a sábado, no horário das 10h às 17h, e aos domingos, das 10h às 15h. Entrada gratuita

Acervo Núcleo de Memória Irmã Dulce

Empreendedora, ousada, visionária - quem conhece Irmã Dulce apenas pela sua vocação religiosa e fraterna, ainda sabe muito pouco sobre uma das personalidades mais carismáticas e complexas da história baiana do último século. Responsável por um acervo de forte participação popular, seu legado tem sido preservado e ampliado através do Memorial Irmã Dulce. Fotografias feitas por anônimos, imagens esculpidas por romeiros, objetos doados por pacientes - este não é um museu como os outros. Inaugurado em 1993, um ano após a morte da freira baiana, o Memorial Irmã Dulce (MID) possui uma exposição permanente de peças reunidas por familiares e amigos. Mas não é só isso: a cada ano, são feitas centenas de contribuições de uma multidão de admiradores. Atualmente, a coleção já possui mais de nove mil peças - legado que ajuda a manter e expandir suas obras. Em geral, a casa recebe doações de pessoas que, em algum momento, conviveram com a religiosa – cartas, depoimentos, objetos pessoais, fotografias – ou obras de artistas devotos, como esculturas em barro, pinturas, composições, livros. Peças que nem sempre possuem valor comercial, mas são consideradas relíquias culturais e afetivas, combustível capaz de acelerar o fluxo de visitantes nos portões do MID e de fazer do espaço um dos museus que mais cresce no estado. Para Osvaldo Gouveia Ribeiro, museólogo e assessor de Memória e Cultura das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), este crescimento é mais que necessário para a manutenção do complexo. Segundo ele, os museus desempenham um papel fundamental na formação da identidade de uma sociedade. "Objetos são códigos, a ação museológica os decodifica. Nada se sabe sobre o que não foi preservado. Toda sociedade vive em função dos seus mitos e heróis. Buenos Aires possui Evita, Paris possui Victor Hugo. Nós não temos a mesma capacidade de consolidar nossos heróis, até porque os heróis políticos da nossa história são muito questionáveis". E exemplifica. "Hoje, na Bahia, as pessoas não sabem quem foi Cosme de Farias porque há pouco acervo sobre ele. Se não houver um museu, elas também não saberão quem foi Irmã Dulce".

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MUSEU

« Não se trata de uma simples religiosa, mas de uma pessoa que quebrou dezenas de paradigmas, de uma figura de importância histórica que deve e precisa ser estudada » Osvaldo Gouveia RiBEiRo, MusEólogo E AssEssoR DE MEMória E CultuRa Das OBRas Sociais IrMã DulcE

A preocupação de Ribeiro é fundamentada: logo depois da morte da religiosa, houve um grande recuo de investimentos e doações. Até voluntários abandonaram os postos de trabalho, sem garantias de que as ações iriam sobreviver com a ausência da freira. "Houve uma crise de credibilidade que só foi superada com a criação do museu. Foi a nossa forma de garantir que haveria um depois, que a história dela teria continuidade", explica. Na mesma época, foram dados os primeiros passos para a beatificação, marco que elevaria o número de visitantes de 41 mil, em 2010, para 57 mil só no primeiro semestre de 2011.

Carisma apartidário Fundadora de três cinemas sem fins lucrativos, do Círculo Operário, do Banco de Leite, dos bandejões, enfermarias, hospitais e de muitas outras obras, Irmã Dulce ficou conhecida como referência de empreendedorismo. Segundo o museólogo, sua obra a coloca ao lado de personalidades marcantes da cultura baiana, como Mãe Menininha e Dona Canô. “A academia evita citá-la por sua imagem estar ligada ao catolicismo, que está vivendo um momento de impopularidade. Não se trata de uma simples religiosa, mas de uma pessoa que quebrou dezenas de paradigmas, de uma figura de importância histórica que deve e precisa ser estudada", pontua. De acordo com os documentos do museu, seu carisma ganhou devotos entre o povo e, também, entre os poderosos. Importantes nomes da sociedade baiana confessaram sua devoção

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à beata, através de visitas e doações. Nomes como Norberto Odebrecht, Mamede Paes Mendonça e Antônio Carlos Magalhães listavam entre os colaboradores. Existe até um ambulatório batizado de José Sarney - um dos maiores patrocinadores desta construção. Quando questionada sobre este envolvimento com a política, a Irmã respondia: "Não vou cometer injustiça, vai ser este nome mesmo. Meu partido são os pobres". Segundo a direção do hospital, hoje não há nenhuma empresa que seja ‘sinônimo de doação’. A ajuda possui origens diferentes - de pessoas da sociedade, da igreja, da política e do comércio - de maneira equilibrada. Mas a importância do museu é sempre ratificada: "É a memória da mentora desta obra que a mantém viva, inclusive, em forma de doações", garante Ribeiro.

Acervo da simplicidade Um museu que cresce graças à participação popular: só de pinturas inspiradas na obra da beata já são 350. Para o visitante, há a opção de conhecer o acervo de arte, a história da freira e o quarto onde ela viveu - o que inclui a cadeira de madeira onde a religiosa dormiu por 30 anos, graças a uma promessa. Na primeira sala, fotos da infância e a imagem de um Santo Antônio do século XVIII, a quem ela chamava "tesoureiro da casa". Na segunda sala é possível conhecer o acordeão que a freira tocava nas ruas para arrecadar dinheiro e há também uma maquete que oferece ao espectador um pouco da dimensão da obra, que ocupa todo o quarteirão. Nos demais espaços, depoimentos, frases autorais e vestígios da vida simples daquela que é reconhecida internacionalmente como o ‘Anjo Bom do Brasil’.

Acervo Núcleo de Memória Irmã Dulce


Especialista em folclore e cantigas de roda cria projeto que renova o hábito das antigas brincadeiras entre as crianças.

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CIDADANIA

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Pular corda, jogar gude, brincar de roda. Se você acha que isso é do tempo dos seus avós e que ninguém mais se preocupa com essas coisas, está muito enganado! Há mais de 20 anos, a pesquisadora e artista Nair Spinelli Lauria, ou simplesmente Nairzinha, desenvolve o projeto “Cirandando Brasil”, que visa resgatar e manter as tradições esquecidas, como as brincadeiras antigas e o folclore, promovendo a integração e a autoestima das crianças.

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A criança fica confinada, sujeita à solidão de jogos eletrônicos.


CIDADANIA

Com a supressão das condições de ’brincantes’ criativos e simples, surgem divertimentos complexos e caros. O começo do projeto seria cômico se não fosse trágico. Um dia, a artista resolveu brincar com as crianças e gritou “boca de forno”, mas nenhuma delas respondeu. Então, ela concluiu que era hora de resgatar, atualizar e desenvolver a identidade multicultural brasileira com as crianças, seus pais e professores. Assim, nasceu o “Cirandando Brasil”. Diversos são os bloqueios impostos pela modernidade. “Na família, longas jornadas de trabalho e ausência dos pais. Na cidade grande, ruas violentas, barreiras arquitetônicas e a falta de áreas seguras. Nas comunidades populares, ruas estreitas cheias de esgotos, sem falar nas balas perdidas”, enumera Nairzinha. Diante desse quadro, a criança fica confinada, sujeita à solidão de jogos eletrônicos. Com a supressão das condições de “brincantes” criativos e simples, surgem divertimentos complexos e caros. A garotada fica dividida entre os que têm muitos brinquedos e não sabem brincar, e aqueles

que não consomem e se frustram. Mesmo assim, a pesquisadora afirma que as crianças não mudaram e continuam se encantando com pequenas coisas, basta provocação. Quando seu repertório musical é questionado por incluir músicas como “Atirei o pau no gato”, que incita a violência, conforme alega boa parte dos pedagogos, Nairzinha é taxativa: “Será que os gatos estão extintos? Essa é a cançoneta mais cantada em todos os países que falam o português. Completando, discordo da ‘maioria dos pedagogos’”. Sobre o antigo problema do consumismo sugerido pela mídia, a pesquisadora aponta um caminho: “Aí, meu amigo, vem o papel da família e da escola. O que importa é formarmos o senso crítico para que as crianças possam fazer suas escolhas”. A realização desse trabalho inevitavelmente traz à tona uma questão: o que leva uma sociedade a esquecer a sua própria cultura? “Sem querer ser grosseira, acho que é a ignorância”, finaliza a especialista.

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O projeto Cirandando Brasil se utiliza de diversas oficinas para transmitir as tradicionais brincadeiras às crianças. Com cerca de uma hora de duração, cada oficina se debruça sobre uma peculiaridade da nossa cultura – música, teatro, literatura brasileira e artes plásticas, além de aulas de capoeira e cultura afro. Se você quiser saber mais e também apadrinhar o projeto “Cirandando Brasil”, acesse o site http://www. cirandandobrasil.com.br ou ligue: (71) 3354-6594.

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planoB indica

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Música

Exposições

Show

O Deus que Devasta Mas Também Cura Lucas Santtana

Pedra da Memória Renata Amaral

Cris Mendez MPB

Apontado como uma das maiores revelações da música brasileira, o baiano Lucas Santtana anunciou o lançamento de seu quinto disco, 'O Deus que Devasta Mas Também Cura', e dessa vez com uma grande novidade para os fãs: o álbum está disponível para download na sua fanpage do Facebook (www. facebook.com/lucas.santtana.official). Com participações de Céu, Kassin e da Orkestra Rumpilezz, o álbum traz releituras e sucesso autorais.

Até o mês de maio, a CAIXA Cultural Salvador apresenta gratuitamente a exposição fotográfica ‘Pedra da Memória’, da pesquisadora Renata Amaral. Composta por 70 painéis em cores, a mostra traça um ponto de encontro entre as culturas do Brasil e do Benin, através de manifestações sociais e artísticas. A exposição pode ser visitada de terça-feira a domingo, das 9h às 18h, na Rua Carlos Gomes, 57. Informações pelo telefone (71) 3241-4200.

A cantora Cris Mendez faz show de MPB Tropical todas as quintas-feiras de abril no Sussa Forneria (Barra), às 21 horas. Nomes da música baiana como Gerônimo, Luciano Salvador Bahia, Cássio Calazans e Tito Bahiense são declaradamente as inspirações da jovem artista, que apresenta repertório com base no seu primeiro CD de carreira com lançamento previsto para maio. Ingressos a R$ 10. Informações e reservas pelo (71) 3264-3838.

Literatura

A primavera do dragão, a juventude de Glauber Rocha Nelson Motta O escritor Nelson Motta quis retribuir uma gentileza que o grande amigo Glauber Rocha fizera a pouco mais de 30 anos atrás. E a homenagem não poderia ser melhor. Nelson acaba de lançar um olhar sobre uma das mentes mais inquietas do cinema brasileiro. O livro ‘A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha’ descreve com sagacidade a história do cineasta baiano, que revoluciou toda a estética do cinema brasileiro com criatividade sem igual. “Minha meta foi escrever uma história que ressaltasse a importância do Glauber e pudesse criar curiosidade mesmo entre aqueles que não têm especial interesse pelo personagem”, disse Motta. Editora Objetiva. Preço sugerido: R$ 46. Foto divulgação

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OPINIÃO

Zona de Conforto Manno Góes Músico e compositor da banda Jammil e Uma Noites. @_mannogoes Foto divulgação

Jean de La Fontaine foi um poeta e escritor francês, criador de fábulas inesquecíveis da literatura mundial, pequenas obras-primas que encantaram leitores do mundo inteiro, através de gerações. Com textos simples, repletos de fantasia e valiosas lições de moral, como, por exemplo, a história da Lebre e da Tartaruga - aquela em que a Lebre cochila, e a Tartaruga, em lentos e curtos passos, vence a corrida. O grande barato desta fábula não é saber que a Lebre, segura de sua vantagem, bobeia e perde uma corrida que era sua, sem chances aparentes de derrota. O barato é perceber que somos, muito mais vezes do que pensamos, mais parecidos com a Lebre do que com a Tartaruga. Quanto mais nos sentimos seguros, mais cautela, atenção, foco e disciplina devemos ter. Muitas vezes, como a ‘Lebre de La Fontaine’, vacilamos feio porque entramos no que chamo de “zona de conforto”. Zona de conforto é aquele estágio que alcançamos quando nos acomodamos. Quando achamos que está tudo muito bem e que a nossa imutável e inexpugnável estabilidade jamais será abalada, transformada, virada de cabeça pra baixo. Já vi muito time que ganhava de dois à zero perder de virada porque se acomodou. Já vi muito lutador perder por nocaute no último round para rivais cambaleantes, porque se acomodou. Já vi muito artista perder o brilho e a criatividade porque se acomodou. E é justamente quando nossa “zona de conforto” se racha, e da noite para o dia o mundo se transforma, e o que

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era certo se torna incerto, e o que era fogo vira cinza, que mais somos tentados a virar Lebres: correr atrás do prejuízo, jogar todas as cartas na mesa e avançar como loucos pra retomada do jogo, das coisas, da vida de antes. E bem sabemos que sementes que germinam depressa demais custam a dar frutos. Em momentos de mudança, o importante é ter calma. Focar. Observar o jogo, ir devagar e sempre, preocupar-se em prosseguir, em perseverar, em não desistir. Perseverança é esforço, é dedicação, é paciência. É afeição ao empenho, a coragem, ao comprometimento. É a entrega por apego, por fé, por sabedoria. E a única coisa que nos faz ir em frente, sempre, é o amor. Ame o que você faz. Importe-se com o que você pensa. Ancore seus pensamentos em portos de paz. A arte de perseverar, de caminhar, de buscar, é o que nos alimenta de força, que impulsiona nossa inventividade, nosso poder de realizar e criar. Cuidado com sua “Zona de Conforto”. A vida começa, realmente, quando ela acaba. Melhor se ela nunca existir. Sem entusiasmo, sem paixão, sem ter porque seguir, nada vale à pena. “Apague e recomece. É sempre hora de mudar, de virar a página e se reinventar. Mesmo que doa, aprender não é um processo à toa.” – FERNANDA MELLO Namastê Manno Góes


Revista Plano B #01  

Na primeira edição da Revista Plano B, um bate-papo com o polêmico, e sempre irreverente, cantor Gerônimo. Além disso, o papel transformador...

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