Page 1

O espetáculo da superação nos palcos baianos

Patrimônio

Artes Visuais

Sabores regionais invadem as mesas no período mais festejado do ano

Quadrinhos baianos: de profissionais premiados à falta de investimento


EDITORIA

Muitos dos agentes artísticos classificados como alternativos têm sempre uma queixa em comum, a falta de visibilidade. Mas será que essa visibilidade midiática e social se restringe somente ao campo das artes? A pergunta fixou no lugar mais profundo da mente e estimulou não apenas uma resposta, mas uma verdade real e cotidiana. Nessa edição sobrevoamos um espaço maior que o campo cultural e chegamos a um universo amplo, divertido e com centenas de estórias de superação e força de vontade. Descobrimos que talvez seja sempre necessário fazer um pouco mais e que nossas atitudes determinam sim os rumos das nossas caminhadas por este planeta. E encontramos personagens que demonstram o poder transformador da arte enquanto elemento de socialização – que permite-nos olhar e sermos olhados pelos outros para além do simples conceito de sociedade. A cultura pode dar oportunidade. No entanto, acima de tudo, é necessário que se permita ao seu semelhante agarrar essa chance. E a dimensão que esse simples gesto pode tomar, pode desencadear uma revolução sem precedentes na história humana, bem como despertar o fôlego de esperança para

EXPEDIENTE EDIÇÃO JUNHO 2012 TIRAGEM 5.000 EXEMPLARES DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

que aquele que se percebe excluído do contexto social possa superar os condicionamentos impostos pelos outros. Logo, compreender o processo de formação da nossa sensibilidade enquanto indivíduos – trata-se da sensibilidade no sentido amplo da palavra – contribui diretamente para que possamos aceitar o diferente, como membro da nossa própria realidade. Por fim, vale levantar alguns questionamentos. Qual o seu conceito de inclusão? Porque é tão difícil entender esse conceito de maneira coletiva? Será que somos condicionados ou nos deixamos influenciar para a não aceitação do que nos parece diferente? A resposta para cada uma dessas perguntas, no fim das contas, vai parecer mais fácil do que realmente é. Boa leitura!

facebook.com/RevistaPlanoB twitter.com/RevistaPlanoB revistaplanob.com.br

CONSELHO EDITORIAL GUAXE PRODUÇÕES E PIPA COMUNICAÇÃO COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO GUAXE PRODUÇÕES E PIPA COMUNICAÇÃO ATENDIMENTO COMERCIAL BRUNO CÁSSIO LEAL (71) 3381-4656 | contato@revistaplanob.com.br RELAÇÕES PÚBLICAS KAUANNA ARAÚJO imprensa@ revistaplanob.com.br EDITOR CHEFE FABIO FRANCO CHEFE DE REPORTAGEM MAIARA BONFIM REPORTAGEM PIETRO RAÑA, MAIARA BONFIM E FABIO FRANCO REVISÃO PIPA COMUNICAÇÃO EDIÇÃO DE TEXTOS PIPA COMUNICAÇÃO FOTOS ERICK OLIVEIRA E MARCELO SANTANA PROJETO GRÁFICO RAFAELA PALMA E PIPA COMUNICAÇÃO DIAGRAMAÇÃO RAFAELA PALMA E PIPA COMUNICAÇÃO ILUSTRAÇÕES RAFAELA PALMA E PIPA COMUNICAÇÃO IMPRESSÃO GRASB - GRÁFICA SANTA BÁRBARA www.grasb.com.br ERRATA_Na edição numero 01 da revista Plano B as matérias foram produzidas por mais de um repórter. A seguir, informamos os nomes dos jornalistas que tiveram participação efetiva na construção do conteúdo: Fabio Franco, Maiara Bonfim, Mariana Miranda, Meiryelle Souza, Ricardo Neiva e Tarsilla Alvarindo. *A PlanoB não se responsabiliza pelos conteúdos dos artigos assinados e as opiniões e conceitos emitidos não refletem necessariamente a opinião da revista. GUAXE PRODUÇÕES Rua Luiz Anselmo, 115, térreo – Luis Anselmo | Salvador, BA | CEP 40260-485 CONTATO (71) 3381-4656 | www.guaxe.com.br

REALIZAÇÃO

PIPA COMUNICAÇÃO Rua Belo Horizonte, 90, sala 15 – Barra | Salvador, BA | CEP 40140-380 CONTATO (71) 3264-0006 | www.pipacomunicacao.com.br

PATROCÍNIO Projeto contemplado pelo EDITAL DE APOIO À PUBLICAÇÃO DE PERIÓDICOS 2009


CAPA Deficientes físicos surpreendem o universo da dança baiana

MÚSICA

OPINIÃO

Festivais oferecem boa estrutura e abrem portas para artistas locais

Aline Marianne explica como a cultura pode facilitar a inclusão social

CIDADANIA

TURISMO

Oficinas culturais promovem integração entre idosas do AMMA

Monte Santo preserva incontáveis estórias em meio às montanhas do Norte da Bahia

MODA

ENTREVISTA

Customização: exclusividade e estilo que começam nos pés

Samuka revela os segredos que o transformaram no mago das fotografias

MUSEU

planoB indica

A trajetória do povo sertanejo exposta na Princesinha do Sertão

Confira nossas sugestões sobre o que rola pela Bahia

PROFISSÃO

OPINIÃO

Puro talento e criatividade nas hábeis mãos dos maquiadores

Marlúcia Mendes discute o processo de formação do público para produtos culturais

ARTES VISUAIS

PATRIMÔNIO

HQ baianas: o contraste entre profissionais premiados e a falta de investimento

Tradição junina tem ponto forte nos sabores da culinária típica

6


7


ARTES VISUAIS Quadrinhos

TEXTO

8

FABIO FRANCO


Quadrinhos ARTES VISUAIS

Quem, quando criança, nunca ficou horas e horas se deliciando com as aventuras, os poderes e os desfechos daquelas narrativas quadro a quadro, repletas de imagens e diálogos em balões? Pois é, as histórias em quadrinhos fazem parte do imaginário de jovens e adultos desde o século XIX e ao longo do tempo sofreram modificações de conteúdo deixando de ser uma linguagem exclusiva do universo infanto-juvenil para despertar o interesse em um número cada vez maior de leitores. Nas duas últimas décadas, a produção de quadrinhos nacionais deu um salto impressionante, principalmente por conta do advento da internet e suas inúmeras possibilidades de divulgação, permitindo a autores consagrados e anônimos chegar a um público maior e diversificado. A turma que apresentava seus trabalhos para um grupo restrito conseguiu, enfim, atravessar incólume por um mar de dificuldades. “Para divulgar minhas criações, recorri às redes sociais. Hoje movimento blogs e perfis que já contam com mais de 50 mil se-

Apesar da qualidade dos trabalhos, muitos ilustradores reclamam da falta de investimento.

guidores, mas quero chegar a 100 mil”, revela William Leão, criador da série Magarefe. “Na Bahia existem ótimos profissionais, premiados nacionalmente e que mantêm uma produção reconhecida, como é o meu caso, de Cedraz (Turma do Xaxado), Luis Augusto (Fala Menino) e, mais recentemente o pessoal das revistas Lucas da Feira e São Jorge da Mata Escura, que ganhou prestígio e projeção na mídia especializada e em outros centros como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro”, pontua o cartunista Flávio Luiz, criador das HQs “Aú, o capoeirista” e “O Cabra”. Entretanto, inversamente ao número cada vez maior de super-heróis e personagens, o mercado brasileiro não cresceu o suficiente para difundir toda a produção de HQs. Além disso, publicações estrangeiras ainda povoam maçicamente as prateleiras das livrarias e bancas do país. “Existe uma ideia geral de que a produção nacional não presta, ainda mais em se tratando de quadrinhos nordestinos. Enquanto isso, as HQs americanas e japonesas lotam as livrarias. Ao mesmo tempo, mais e mais leitores estrangeiros vêm buscar o que é nosso. Só como exemplo, a Turma do Xaxado já chegou ao Canadá, França, Itália...”, revela Antonio Cedraz, cartunista baiano com mais de 40 anos de profissão e vencedor por seis vezes do HQMIX, maior premiação do gênero no país. Apesar de todo o reconhecimento, os investimentos aqui ainda são escassos. “O artista independente ainda tem que arcar com todos os custos para publicar sua revista e, muitas das vezes, acaba engavetando ótimos projetos”, desabafa

9


ARTES VISUAIS Quadrinhos

Franklin Mendes, nome da nova geração que recentemente recebeu “menção honrosa” no Salão Internacional de Desenho para Imprensa 2012. William acredita que a falta de interesse do público local também interfere na produção dos cartunistas baianos. “O público daqui é muito fraco. O pessoal desconhece a maior parte dos nossos cartunistas. Outra coisa é o lance do ‘politicamente correto’ que hoje está em toda parte. Essa limitação também prejudica, porque acabamos todos engessados e perdemos algo crucial em nosso trabalho, a criatividade”, conta. Flávio Luiz vai mais longe, em se tratando do mercado baiano: “Acho que o consumo da produção baiana tem sido mantido pelos aficionados e admiradores de quadrinhos que sempre existiram, mas que é uma parcela pequena do público potencialmente consumidor. Também temos o desrespeito com o profissional por parte de quem contrata, que é algo a ser lamentado. Aquela estória de ‘isso não é trabalho’, ‘coisa de criança’, ‘enquanto uns trabalham você só faz desenhar’, entre outras, são posturas que teimam em existir no mercado contratante baiano”. E entre tantas questões, a turma premiada e a nova geração concordam em uma em especial: a falta de editoras e distribuidoras de quadrinhos na Bahia. Franklin pontua que é necessário criar grandes eventos que contribuam efetivamente para projetar o trabalho dos autores locais. Cedraz e William apontam a falta de editoras especializadas como entrave. E Flávio Luiz complementa: “Não existe uma grande editora, nem distribuidora interessada nesse tipo de material por aqui. Além disso, Salvador, e acho que toda a Bahia, sofre com o que chamamos de setorização, que é a distribuição de revistas em quadrinhos com até três meses de defasagem em relação ao lançamento no Sul/Sudeste do país. É como se só chegassem as ‘sobras’ das publicações”.

10

NO BRASIL E NO MUNDO

Os diversos prêmios em eventos nacionais comprovam o talento dos quadrinistas baianos.

A popularização das HQs não é um processo tão recente. Oficialmente, a primeira história em quadrinhos do mundo (com balões nos diálogos) foi The Yellow Kid (1896), do desenhista americano Richard Felton Outcault. No Brasil, a primeira aparição da linguagem quadrinística foi no ano de 1855, com "O Namoro", criação do litógrafo francês Sebastian Auguste Sisso. Posteriormente, o italiano Ângelo Agostino criou "As


Quadrinhos ARTES VISUAIS

Aventuras de Nhô Quim", que mostrava as peripécias de um caipira no Rio de Janeiro. No entanto, o marco mais importante na história dos quadrinhos brasileiros foi o lançamento da revista Tico-Tico, em 1905, que tinha como herói o personagem Chiquinho, inspirado em personagens americanos. Mas se engana quem acha que o papel das HQs é unicamente entreter. Alguns exemplos ilustram bem a abrangência e o grande poder comunicacional desse meio. O personagem Zé Carioca foi criado durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de difundir o ideal e o estilo de vida norte-americano entre os brasileiros. Outro que merece destaque quanto à difusão de um conceito é o personagem Lucas, da HQ Fala Menino, do baiano Luiz Gustavo. Pela primeira vez, um deficiente físico (mudo) é retratado como personagem principal em quadrinhos no Brasil, causando grande impacto sócio-educacional ao discutir temas como deficiência e discriminação. “No meu caso, optei por retratar um personagem com os traços típicos do nordestino, a exemplo do chapéu de couro no Xaxado, que é algo que remete a Luiz Gonzaga, grande defensor de nossa cultura. E no fim das contas, o Xaxado é muito parecido comigo. Nasci e fui criado no interior e acabei incorporando essas características nele”, conta Cedraz, que faz

questão de avisar que a turma vai virar desenho animado: o projeto já está em fase de execução e deve ser veiculado pela TV Brasil em intervalos de um minuto de duração. Recentemente, as HQs também caíram nas graças do público adulto, especialmente com a difusão das graphic novels, com temas mais complexos e um toque literário. Outra opção é o chamado Jornalismo em Quadrinhos, difundindo em todo mundo pelo maltês Joe Sacco. No Brasil, ambas as linguagens ganharam fãs e adeptos. Franklin inclusive participou da primeira reportagem em quadrinhos do Brasil, realizada em Salvador, intitulada “Vanguarda: Histórias do movimento Estudantil na Bahia”. “Foi uma experiência bastante enriquecedora. É uma receita mágica, juntar a linguagem objetiva do jornalismo com a poesia visual dos quadrinhos, transformando um acontecimento real, às vezes duro e frio, em algo novo e belo”. Flavio Luiz conseguiu mesclar as duas nuances em um único trabalho: O Messias, de autoria do jornalista baiano Gonçalo Jr. “Foi uma honra ter sido convidado para desenhar o roteiro de Gonçalo. A receptividade foi a melhor possível, na época que foi lançado, concorrendo inclusive a melhor álbum nacional no HQMIX”, finaliza.

11


MÚSICA Festivais

FESTIVAIS DE MÚSICA:

com mérito e sem jabá

12

É ínfimo o espaço oferecido para os músicos do chamado “cenário independente”, que produzem música de qualidade. Contudo, quando eles conseguem alcançar o público, costumam surpreender e conquistar. Pensando nisso, são lançados os festivais de música, uma tendência mundial, para mostrar a diversidade e ajudar a dar visibilidade a esses artistas locais. TEXTO

MAIARA BONFIM

FOTOS

MARCELO SANTANA LEO DE AZEVEDO


Festivais MÚSICA

Quem não conhece um artista que atua sem nenhuma visibilidade, que tem o maior talento e qualidade musical, mas não “emplaca” por falta de investimento? Diversos músicos baianos, que estão na estrada há muitos anos, caminham durante longos períodos no anonimato. Isso não quer dizer que eles não têm admiradores ou que não consigam atrair o público. Eles apenas não fazem parte da agenda midiática em geral. Os veículos de grande audiência ocupam suas pautas com modismos. Seguindo uma lógica, até cruel, entende-se que é impossível ser reconhecido sem aparecer nos meios de comunicação, sem propaganda, sem compor a escalação dos grandes eventos.

Aí a situação vai ficando mais difícil. O sucesso e o público vão parecendo cada vez mais distantes. Alguns programas com características menos comerciais e mais alternativas, vez em quando, convidam uma ou outra banda da terrinha, um ou outro cantor local para uma entrevista. O certo mesmo é um breve aviso só pra compor a chamada ‘agenda cultural’, que funciona como serviço, para ajudar a programar o fim de semana. Apesar de serem considerados “independentes”, por não estarem ligados a uma gravadora, para todos aqueles que vivem ou desejam viver de música é importante vender discos, fazer shows, mostrar seu som. Na terra do axé, ano após ano é possível acompanhar o sucesso meteórico que alguma banda jamais vista é capaz de alcançar às vésperas do carnaval. A maioria não consegue sustentar a carreira e com a mesma velocidade desaparece do cenário.

Se por um lado parece que a cena musical baiana já tem donos e donas, por outro lado, novos palcos vão surgindo na capital e no interior para mostrar a variedade de caras e ritmos. Para o produtor Marcus Ferreira, sócio-diretor da Putzgrillo! Cultura, a participação em festivais de música soa como a melhor forma de uma banda circular, mesmo com os baixos cachês oferecidos.

Com os festivais, os artistas independentes têm a chance de aparecer para o grande público.

“Os artistas que participam de festivais tem a facilidade de encontrar toda uma estrutura (que atenda a sua necessidade) já montada: sonorização, iluminação, palco, divulgação, cachê e público. Quando o artista não tem projeção suficiente para cobrar altos cachês, a melhor opção são os festivais, principalmente em uma cidade na qual não é conhecido. Assim, acaba havendo interação com o público de artistas locais ou até mesmo da principal atração do evento”, explica Marcus, que atua há oito anos na área de eventos.

13


MÚSICA Festivais

MERITOCRACIA O esforço, a dedicação e a produção de qualidade são requisitos para Marcus Ferreira. Para ele, o mérito deve empoderar os artistas. “Na minha empresa, temos um lema quando o assunto é contratação de atrações: ‘meritocracia’. Não adianta ser amigo de fulano e muito menos nosso, se não estiver produzindo CD, realizando shows e projetos, gravando ou lançando clipe, fomentando o mercado de alguma maneira, certamente não terá espaço em nossos palcos”, sentencia. Assim, uma das preocupações na hora da escolha é a busca por aqueles que fazem um trabalho diferenciado. A Putzgrillo! está organizando o Recôncavo Jazz Festival que acontecerá no mês de agosto, em Cachoeira. “A principal diferença entre os festivais na capital e interior está na facilidade estrutural, seja ela física ou técnica. A capital já possui, naturalmente, uma série de opções de bares, casas de shows, além de prestadores de serviços que facilitam muito a execução de um grande evento. Por outro lado, no interior, todas as bandas querem participar, pois sabem que são raras as oportunidades”, explica.

14

NA PROGRAMAÇÃO, SEM JABÁ

Premiações em dinheiro e CD ainda são os principais atrativos dos festivais.

Há dez anos acontece um dos mais tradicionais eventos do ramo na Bahia: o Festival de Música Educadora FM. “O Festival foi criado com o objetivo de garantir um espaço para a produção musical baiana de qualidade, ensejando ao participante a oportunidade rara de viabilizar a veiculação de sua gravação na programação, sem pagamento de jabá — como costuma acontecer na grande maioria das emissoras de rádio”, alfineta o coordenador Tom Tavares. O elevado número de inscritos aponta a proporção do Festival. Cerca de 700 gravações têm sido recebidas pela Rádio Educadora a cada edição e de acordo com Tom Tavares, o ponto alto é a oportunidade que o artista tem de expor a sua obra: primeiro, através da programação da Educadora; depois, em sendo um dos 14 finalistas, tendo a sua gravação incluída no CD do festival. Mas, quando questionado sobre qual seria o maior chamariz desse tipo de evento, Tom não foge da raia: “Seria falso dizer que os prêmios em dinheiro (62 mil reais ao todo) não atraem. Afinal, o artista é gente. E gente precisa comer”. E, por fim, acrescenta: “Vale lembrar que os prêmios têm sido frequentemente utilizados pelos agraciados nos festivais para a realização dos seus projetos musicais”.


Festivais MÚSICA

Localmente, um incentivo original São inúmeros os tipos de festivais, alguns reúnem artistas brasileiros, outros até artistas internacionais. Ano após ano surgem novos e empolgantes eventos para dar espaço para essa turma. O Festival de Música Instrumental já passou da sua 17ª edição, o Festival Phoenix Jazz da Praia do Forte reúne artistas de várias partes do mundo e no Festival de Música da Bahia músicos de todo o Brasil vão para Vitória da Conquista levar a diversidade musical. Outro bom exemplo foi o Origem da Terra, realizado em 2010, que além dos shows de nomes como Enio e a Maloca, Baiana System e Juliana Ribeiro, abriu espaço para a participação dos artistas num CD promocional.

15


CIDADANIA

16


CIDADANIA

AMMA

REÚNE ACOLHIMENTO, FRATERNIDADE, CULTURA E VIDA SOCIAL Apenas mulheres são abrigadas no AMMA – lar de idosas, no centro da capital baiana – e cada uma possui seu espaço, como se fossem diversas casas dentro de uma maior, com todo o cuidado e o acolhimento necessários para a tranquilidade durante os últimos, porém não menos intensos, anos de vida. TEXTO

MAIARA BONFIM

FOTOS

MARCELO SANTANA

O Abrigo Mariana Magalhães (AMMA) é um asilo curioso. Apenas mulheres são recebidas na casa, doada pela senhora Mariana (que dá nome à instituição), que sonhou para suas irmãs uma velhice tranquila. No AMMA, cada idosa vive em sua unidade. Ali, elas montam o seu espaço individual, de acordo com suas preferências. Auditório, capela, áreas para a convivência e refeitório são alguns espaços oferecidos para o uso comum. Cheguei ao AMMA em um dia festivo. Aconteceria ali uma feijoada beneficente para angariar fundos para a reforma da área de lazer do abrigo. Fui carinhosamente recebida por senhorinhas enfeitadas e todas visivelmente muito preocupadas com a organização da festa e com a recepção dos convidados. A faixa etária varia de 60 a 98 anos. Era visível a expectativa pela chegada das visitas. Envolvida no clima de alegria, dona Alice Miranda, 96 anos, me ofereceu um lugar no sofá, ao lado dela e de um pequeno aparelho de som que tocava o melhor de Gonzagão. Enquanto respondia minhas perguntas, ia se balançando sem perder o ânimo. O AMMA é prioritariamente um lugar destinado à longa permanência. “Eu vivo aqui há 23 anos”, conta dona Alice. Ela pretende fazer como a grande maioria, que só deixa o abrigo quando falece.

17


CIDADANIA

Quem pensa que a vida das idosas se resume ao convívio dentro do abrigo está enganado. Elas vão para museus, teatros, participam de romarias e até realizam viagens. Dona Alice relembra as festas na Casa D’Itália, sempre regadas a muita música e dança. Hoje, ela já não tem força física para participar dos passeios, contudo guarda aqueles festejos, que participou, em um lugar especial na memória. No AMMA, o contato com a cultura ajuda a manter e até despertar sensações, desejos, melhorando o ânimo das assistidas. Nesse sentido, são realizadas diversas oficinas recreativas e culturais que visam, entre tantos objetivos, trabalhar a integração, convivência e a memória – não é à toa que, das 70 vagas disponíveis na casa, 68 estão ocupadas.

Dona Alice não perde a oportunidade de falar dessas atividades: “Aqui tem muita coisa para a gente fazer – tem palestras, oficinas de arte, dominó e muita diversão”. E o leque de ações culturais realizadas na instituição é grande. Tem aulas de dança, artesanato e música, realização colaborativa de jornal, além de atividades para estimular a memória e a capacidade motora, como alongamento, ginástica, palestras e exibição de vídeos. As idosas também não deixam de lembrar, orgulhosas, das apresentações da Orquestra Sinfônica da Bahia, em concertos ao vivo nas instalações do abrigo. Bach, Vivaldi e Mozart foram alguns dos visitantes que chegaram através dos violinos, baixos e violoncelos para levar música e muita emoção. Tantos momentos e tantas Histórias de vida também chegaram aos ouvidos do cineasta Rafael Jardim, que por duas ocasiões se utilizou das memórias e das narrativas de algumas das residentes do AMMA como base para suas criações. Após breve

São realizadas diversas oficinas recreativas e culturais que visam, entre tantos objetivos, trabalhar a integração, convivência e a memória

No AMMA, as idosas participam de atividades culturais e sociais durante todo o ano.

18


CIDADANIA

visita ao local, Rafael Jardim produziu dois curtas: em “Muitos Anos de Vida”, o enfoque é nas trajetórias de quatro senhoras do abrigo, que rememoraram os melhores momentos de suas juventudes; na ficção “Breve Passeio”, o enredo gira em torno de uma personagem que se vê abandonada pelo único filho às vésperas do nascimento de sua primeira neta.

LIVRE ESCOLHA OU ABANDONO O AMMA funciona de acordo com as indicações expressas no estatuto do idoso no que diz respeito à convivência fora do seio familiar. “Para viver no abrigo, elas não podem estar sendo obrigadas pela família”, explica a ministra Lygia Margarida de Argollo, responsável jurídica e social da instituição. Para evitar inconvenientes desse tipo, são realizadas entrevistas com assistente social, antes da entrada, para sondar se realmente é do desejo da idosa viver no local. “Se nós percebemos que é uma imposição dos familiares, não recebemos. Nosso objetivo é acolher as pessoas que não podem mais viver em seus lares, que não tem mais família ou que foram abandonadas”, pontua Lygia. No curso dos 17 anos em que acompanha o AMMA, a ministra conta que existem algumas moradoras que jamais receberam a visita de sequer um parente. O abrigo possui toda a documentação legal, contudo, isso não lhes garante nenhuma parceria. As idosas que vivem no AMMA são associadas e pagam taxas diferenciadas, de acordo com o tipo de acomodação que utilizam (há algumas com banheiros privados, outras com banheiros coletivos; pequenos apartamentos e ainda a opção da enfermaria para aquelas que carecem de assistência durante todo o dia). Uma estratégia para adquirir recursos foi abrir o Brechó Beneficente do AMMA, que possui uma lojinha logo na entrada da casa. Lá, são vendidos sapatos, roupas, bijuterias e bolsas. Doações compõem outra parcela para a manutenção do espaço, além dos eventos realizados com intuito de angariar fundos. “Realizamos todas as festas do calendário civil e religioso”, explica a ministra

A instituição só acolhe pessoas que chegam ao local por vontade própria.

PARA COLABORAR A vice-ministra Maria Duque explica que toda ajuda é bem-vinda. Não é apenas financeiramente que se pode ajudar o asilo. “Estamos abertos para propostas de voluntários. Cada um ajuda como pode”. Para isso, basta fazer uma visita ao AMMA, ou entrar em contato. Ladeira dos Barris nº 4A| Salvador - Ba CEP 40070-310 | Telefone: (71) 3329-4161

19


MODA

TEXTO FOTOS

FABIO FRANCO NELSON DE CASTRO

Nova febre entre os jovens que buscam estilos próprios, a customização de calçados, em especial o tênis, dita moda e demonstra o conceito criativo da nova geração, que se apropria de cores e materiais do mais diversos para dar cara às suas criações. Não se sabe ao certo como a ideia surgiu, mas, principalmente no mundo da alta costura, a customização faz parte do dia-a-dia de costureiros e estilistas. O hábito é comum também entre os jovens das grandes cidades, que buscam uma identidade própria e se favorecem de diversos elementos para criá-la. Essa mania de modificar as peças do vestuário não é nova, mas quando se tratam de calçados, especialmente tênis, a tendência é relativamente recente. De canetas esferográficas coloridas a tintas para tecidos, o que vale mesmo é a criatividade na hora de dar forma ao desenho que estampará o calçado. Há os que usam gliter, resíduos de materiais recicláveis, metais. Também tem a turma que recorta, cola, rabisca. A intenção final é sempre a mesma: modificar o original para torná-lo exclusivo. E como era de se esperar, em se tratando das gerações Z e Y – nascidos nas décadas de 1980 e 1990 e no início do sé-

20

culo XXI, a internet é a porta de entrada para esse tipo de mercado, que se caracteriza basicamente pela informalidade e pelo trabalho artesanal, realizado em sua grande maioria por artistas plásticos e profissionais da área de Design. “Essa ideia de customizar remota ao tempo do colégio, quando pegávamos os cadernos para fazer colagens, desenhos, etc.”, conta o publicitário e fotógrafo Nelson de Castro, 33 anos, que customiza tênis desde 2009. “Sempre busco criar algo relacionado à arte, que seja fora do contexto da realidade do computador ou das mídias digitais. E numa dessas buscas, resolvi criar algo diferente para presentear minha namorada no Dia dos Namorados. Vi um tênis na rua todo colorido e comecei a pesquisar. Comprei o material e fiz na cara e na coragem”, relembra Nelson. Ele, como tantos outros, começou customizando seus próprios tênis, mas logo se viu criando para amigos e clien-


tes. “A partir desse primeiro tênis, os amigos e pessoas conhecidas começaram a pedir novas criações. Depois coloquei algumas imagens na internet e o leque de pedidos cresceu demais. E o processo de criação não é algo simples. Dá muito trabalho. Fico pelo menos cinco dias trabalhando no tênis, mas é algo que me dá prazer”.

FAÇA VOCÊ MESMO Hoje já é possível adquirir calçados preparados para a customização, ou seja, crus, sem nenhum tingimento ou detalhe. Há também grifes e empresas calçadistas de olho nesse filão – algumas começaram a desenvolver peças cheias de estilo e atitude. Mas o grande lance é criar seus próprios projetos. “Gosto desse método de customização, porque o cliente acaba se envolvendo diretamente no processo criativo, já que sugere temas, desenhos, cores e formas que serão impressos no calçado”, comenta o publicitário. Nelson conta que essa febre é algo muito vivo na turma mais jovem, que busca exclusividade da hora de compor um estilo. “Posso te dizer com segurança que existe um bom mercado para quem quer customizar. A galera mais nova quer algo somente seu, que não seja produzido em larga escala. Quer algo que não tenha outro igual. E isso é bacana, porque até uma falha durante a criação dará uma característica nova ao resultado final”.

21


MUSEU

22


MUSEU

ENDEREÇO Rodovia Transnordestina, s/n Campus UEFS – Novo Horizonte. Feira de Santana ATENDIMENTO AO PÚBLICO das 08h às 11h30 e das 14h às 17h30 ENTRADA GRATUITA

A HISTÓRIA DO

POVO SERTANEJO EM FEIRA DE SANTANA TEXTO

FABIO FRANCO FOTOS

MARCELO SANTANA

Casa do Sertão reúne rico acervo de peças, livros, jornais e material fonográfico com conteúdos históricos, dando um indicativo de como a herança popular influencia diretamente na formação de uma sociedade culturalmente organizada. A formação da sociedade baiana está diretamente interligada aos usos e costumes do homem sertanejo, personagem habituado ao suplício da seca, aos espinhos dos cactos e a aridez das terras nordestinas. Sempre acompanhado de uma montaria (cavalo ou mula), com seu tradicional chapéu de couro, o sertanejo acabou incorporado a um universo que ultrapassa os limites do sertão, com ramificações na gastronomia, na cultura, na linguagem, na religião... Com o propósito de resgatar e preservar essas tradições sertanejas, o professor e escritor Raimundo Gonçalves Gama recomendou a construção de um espaço cultural no município de Feira de Santana, que abrigasse artefatos e a memória do povo feirense. Em 1978, após a execução do projeto por parte do Lions Clube, foi inaugurado o Museu Casa do Sertão. Hoje, administrado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o museu guarda um acervo riquíssimo, composto por objetos em couro, madeira, argila e palha; brinquedos; livros e documentos históricos; além de um arquivo fonográfico. De acordo com a museóloga Joseane Macedo, que trabalha no local, atualmente a Casa do Sertão abriga aproximadamente 28 mil peças e traz exemplos de produção voluntária, individual ou coletiva realizadas, principalmente, na região de Feira de Santana. “O acervo é composto por objetos que evidenciam o cotidiano do interior baiano, expressos nos candeeiros e fifós, nos instrumentos que simbolizam o dia a dia do trabalho, nos móveis e utensílios domésticos, nos brinquedos populares que nos contam histórias do mundo infantil, entre tantas outras peças que singularizam o universo sertanejo”, revela a museóloga, que destaca também a utilização do local para a realização de exposições temporárias ou itinerantes.

23


MUSEU

« Esse conjunto visa resgatar informações sobre a memória histórica, cultural, econômica e geográfica da microrregião de Feira de Santana e, sobretudo, valorizando o papel desempenhado pelo homem sertanejo na formação social do Estado da Bahia » JOSEANE MACEDO, MUSEÓLOGA RESPONSÁVEL PELA CASA DO SERTÃO

O acervo do museu conta com quase 30 mil peças, incluindo jornais digitalizados.

JORNAIS E ÁUDIOS Grande diferencial da Casa do Sertão, seu acervo fonográfico é composto por materiais de áudio como fitas cassete, discos musicais, gravações de cantos, entre outros, que conferem uma representatividade ainda maior ao papel da cultura sertaneja na constituição da sociedade baiana. “Esse conjunto visa resgatar informações sobre a memória histórica, cultural, econômica e geográfica da microrregião de Feira de Santana e, sobretudo, valorizando o papel desempenhado pelo homem sertanejo na formação social do Estado da Bahia. Cada peça, mais do que objetos estanques, pode e deve ser estudada como elemento de uma produção histórica e cultural”.

24

Desde 2010, o museu também disponibiliza o acesso a manuscritos e jornais antigos de Feira de Santana, que foram catalogados e digitalizados. O visitante pode "folhear" digitalmente periódicos datados dos séculos XIX e XX, como “O Município” (1892-1894) e “Gazeta do Povo” (1891-1893). “O acervo é composto por livros, manuscritos, periódicos, documentos, literatura de cordel, somando mais de 2.000 títulos, alguns raros. Também foram doados uma coleção de ‘O Pasquim’, das décadas de 1970 a 1990, e diários feirenses que circularam entre 1960 e 1970, a exemplo do Tribuna Popular, Folha da Feira e Jornal da Feira”, pontua Joseane Macedo.


MUSEU

ILUSTRE DESCONHECIDO Apesar de toda a qualidade material do acervo, muitos dos visitantes reclamam da pouca – quase inexistente – divulgação do museu, que passa despercebido pelos moradores de Feira. A jornalista Calila das Mercês, 23 anos, que viveu grande parte da vida na cidade é categórica ao apontar esse descuido. “Infelizmente falta divulgação do local. Poucas pessoas conhecem ou já tiveram a oportunidade de visitar a Casa do Sertão, que, por sinal, tem uma ótima proposta de preservação da cultura feirense”. A jovem, que costuma visitar exposições e atividades culturais, conta que ‘descobriu’ o museu por conta própria. “Adoro cultura. Sempre saio com amigos para eventos desse tipo, buscando novas percepções, novos conhecimentos. Mas nem todos os jovens têm esse hábito. Por isso, acredito que os responsáveis pelo local, a Secretaria de Cultura e órgãos correspondentes precisam chamar a atenção desse público, em especial, para que se possa criar o costume de visitação do museu”, aponta.

25


PROFISSÃO

´ MAGICOS

DA VIDA REAL TEXTO

PIETRO RAÑA FOTOS

MARCELO SANTANA

A profissão de maquiador é pouco lembrada, mas na prática o trabalho é o diferencial para quem atua nas TV e nos palcos. A maquiagem tem o “poder” de transformar e criar novas características, sendo elemento fundamental na vida de profissionais. Cantora, ator, jornalista. O que esses três personagens têm em comum? Pensou? Então vamos lá... nos três casos, figura pelos bastidores de suas carreiras um profissional que é pouco visto, pouco lembrado, mas que faz uma diferença e tanto nas vidas de todos: o maquiador “Por mais que um apresentador/repórter saiba se maquiar, o profissional da maquiagem sempre sabe o que é melhor, quais os tons mais adequados e o que pode e deve ser valorizado”, diz a jornalista e apresentadora Camila Marinho. Seu “anjo da guarda” é a maquiadora Rose Brito, que diariamente está ao seu lado e cuida de cada detalhe antes de Camila sentar na bancada para transmitir as notícias ao público ou até mesmo de ir às ruas para fazer reportagens. “Camila é uma pessoa amorosa, parceira e amiga! Super tranquila e escuta minhas idéias e opiniões. Às vezes resolvo ousar um pouco e ela sempre topa”, conta Rose, que

26

completa: “ela só não gosta mesmo de batom e tons fortes”. Rose é maquiadora há oito anos, mas a curiosidade pela área é mais antiga. “Desde pequena eu sempre prestava atenção nas produções das novelas, filmes e em casa me maquiava e me via nesse mundo da fantasia”, explica. Ela fez o primeiro curso ainda na adolescência e logo depois se profissionalizou. “O maquiador bem preparado agrega valor ao produto. Para mim é sinônimo de valorização mesmo. Digo isso porque a gente faz com que a pessoa rejuvenesça ou envelheça, emagreça ou engorde. Se for feito com conhecimento técnico, a maquiagem é uma arte”. “Em qualquer look a maquiagem tem um papel crucial. Inclusive vemos nos


A História da Maquiagem O INÍCIO A maquiagem começou a mais de 30 mil anos atrás. Contudo, o uso desses elementos para fins estéticos só começaria cerca de 4000 A.C., no Egito. Escavações apontam que os faraós pintavam os olhos para evitar que as pessoas os olhassem diretamente. Era simbologia de respeito. Mas havia quem se maquiava por vaidade, como Cleópatra, que usava pó khol nas pálpebras e se banhava em leite de cabra. Tempos depois, na Roma Antiga, as mulheres passaram a usar máscaras de farinha, miolo de pão e leite, durante a noite, sobre o rosto, para melhorar a pele. No Japão, do século IX ao XII, a valorização da pele branca era regra geral. As mulheres aplicavam um pó feito de farinha de arroz, chamado oshiroi. Depois passaram a usar uma pasta feita do extrato de açafrão, para colorir as maçãs do rosto. Em 157 A.C., o médico grego Galeno, criou o primeiro creme facial do mundo, o Unguentum Refrigerans, resultante da mistura da cera de abelha, óleo de oliva e bórax (composto derivado do Boro). Com o passar dos anos, o óleo de amêndoas substituiu o de oliva, tornando o creme mais cremoso, cuja fórmula básica ainda é utilizada atualmente em emulsões de água em óleo.

desfiles de moda, as experiências mais loucas, que acabam chamando mais a atenção que as próprias roupas. Para o artista que está no palco, na TV e em eventos de todo tipo, a meta é ficar sempre deslumbrante e aí mora o desafio”, afirma a cantora Carla Visi, que confessa: “apesar de toda minha linha zen, adoro uma boa maquiagem!”. Carla é cuidada, desde 2008, por Afonso Henrique – apresentado a cantora por outro grande maquiador baiano, Zezinho Santos – que além de maquiagem, cuida do cabelo da cantora. “As produções mais recentes têm o seu toque de mestre e sinceramente, me vejo maravilhosa”, finaliza. Embora seja uma profissão de bastidor, com importância mais do que ressaltada, infelizmente o maquiador muitas vezes é relegado a planos inferiores. “A profissão ainda não é tão valorizada quanto deveria ser! O caminho vem sendo trilhado, mas ainda há muito que percorrer. Os maquiadores vêm se especializando cada vez mais, mas ainda precisam do reconhecimento, especialmente pelas pequenas empresas,

que muitas vezes não contratam o profissional por considerar um luxo”, diz Camila. O ponto de vista é confirmado pelo ator Danilo Martins. “Apenas grandes produções têm maquiadores profissionais. Nos espetáculos e companhias menores é o próprio ator que faz sua maquiagem, por uma questão financeira. Ou o maquiador faz a primeira fase da temporada e depois os atores é que continuam”, conta. Para Rose, o maquiador é desvalorizado quando se analisa individualmente a profissão. “Num salão, as pessoas terminam fazendo a maquiagem como resultado de um pacote com o cabelo. Mas na maior parte das vezes, vemos mulheres que vão a salões para fazer penteados e voltam para casa para se maquiarem antes de festas”, conta. E todos são unânimes quanto a importância desse profissional: “Não resta a menor dúvida de que o maquiador é um artista! Ele esconde as ‘imperfeições’, transforma... Basta um pincel e o orgulho do que se faz!”, conclui Camila.

27


28


29


CAPA Danรงa

30


Dança CAPA Marcelo Santana

Reconhecida como uma das artes ditas de primeira grandeza, a dança talvez seja aquela que represente, na sua totalidade, toda a perfeição e graciosidade do ser humano. Os movimentos rápidos e sincronizados parecem impossíveis para uma pessoa comum, quem dirá para alguém que tenha limitação de movimentos. Para provar que talento e força de vontade podem superar qualquer obstáculo, pessoas com deficiência física se transformam em dançarinos profissionais e expandem sua arte por todo o país. TEXTO

FABIO FRANCO

31


CAPA Dança

Cada passo, movimento, olhar, revela um estado de leveza e simplicidade, que ofusca, pelo menos por alguns instantes, as horas e horas de ensaio e o sacrifício do dançarino para representar bem o seu papel no palco. Considerada uma das três principais artes cênicas da antiguidade, além do teatro e da música clássica, a dança, infelizmente, ainda se restringe a um público pequeno, às vezes erudito, mas o desejo de ampliar o acesso à sua arte é algo cada vez mais vivo nas companhias de dança locais. Nos últimos anos essa representação artística também se transformou em ferramenta das mais substanciais para a inclusão social e, porque não dizer, para a melhoria da vida de pessoas com deficiência. De terapeutas a neurocirurgiões, é unânime a opinião de que a dança seja mais que um método que proporcione ao corpo benefícios extraordinários. A dança é, antes de tudo, um instrumento de transposição de barreiras e afirmação de conquistas perante a sociedade. “A Dança, de fato, traz inúmeros benefícios, desde a melhoria da autoestima, estímulo à criatividade, contato com o outro, reconhecimento das possibilidades e eficiências, consciência corporal, quebra de padrões corporais, entre outros”, opina Edu O, coreógrafo, diretor artístico e intérprete-criador do ‘Grupo X de Improvisação em Dança’ e dançarino da ‘Candoco Dance Company’ (Londres). No alto dos seus 35 anos, Edu é um personagem singular. A deficiência em nada atrapalhou o seu desenvolvimento no meio artístico, pelo contrário, foi a força propulsora para que sua arte tivesse reconhecimento.

“Me interessa a dança como expressão artística, onde dialogo com o mundo, me coloco, externo minhas inquietações e pensamentos. Sou artista da Dança Contemporânea”. Sua desenvoltura resultou num projeto pioneiro na Bahia. Desde 2010, Edu reúne profissionais da dança (com ou sem deficiência) no encontro “O que é isso? de Dança”, para analisar e ampliar as discussões sobre questões ligadas à acessibilidade e profissionalização do artista com deficiência. Ninfa Cunha também é entusiasta dessa representação artística. Hoje com 43 anos, a dançarina e produtora, que é cadeirante, conta que ingressou no universo da dança por indicação médica, mas acabou se descobrindo uma apaixonada pelo fazer artístico. “Costumo dizer que a dança é como um bichinho que te morde e invade teu corpo. Quando comecei pensava apenas em trabalhar meu corpo e acabei descobrindo novas sensações. Não tinha a intenção de me tornar dançarina”. E revela: “Meu início nos tablados não foi fácil. Pelo contrário, foi extremamente difícil. Imagina eu, naquele palco imenso, sozinha, de frente para aquele público? Tremi. Mas minha amiga e incentivadora, Marcia Abreu, me chamou e disse ‘você pode’. Encarei o desafio e digo que foi uma das melhores sensações que tive na vida”.

« A Dança, de fato, traz inúmeros benefícios, desde a melhoria da autoestima, estímulo à criatividade, contato com o outro, reconhecimento das possibilidades e eficiências, consciência corporal, entre outros »

Gabriel Guerra

EDU O

32


Dança CAPA

« A deficiência é, antes de tudo, uma experiência estética, é um modus de pensar (...) Aquele que tem uma deficiência tem uma ‘impotência’ a ser explorada, degustada, confrontada e, acima de tudo, uma experiência assumida » CAROLINA TEIXEIRA

LIVRO DEFICIÊNCIA EM CENA Livraria LDM | (71) 2101 - 8000 R$ 35,00 Marcelo Santana

SEM LIMITAÇÕES Para a pesquisadora Carolina Teixeira, que iniciou na dança em 1995, como substituição a fisioterapia na reabilitação de um AVC, não existem limites para o deficiente. “A deficiência é, antes de tudo, uma experiência estética, é um modus de pensar, insuflar por meio das impossibilidades, ela estimula a apropriação. Aquele que tem uma deficiência tem uma ‘impotência’ a ser explorada, degustada, confrontada e, acima de tudo, uma experiência assumida, desvinculada do fetiche especulativo-espetacular que a sociedade ao longo dos tempos cristalizou”. Confrontando o conhecimento próprio e as experiências de vários outros indivíduos, Carolina se debruçou sobre o universo das pessoas que atuam, trabalham e se divertem com a

dança, apesar das possíveis limitações, num livro que acaba de ser lançado, intitulado “Deficiência em Cena”. “A arte pode oferecer uma infinitude de possibilidades, mas não tem uma função específica. A arte é dialética e em constante devir, não deve ser pensada enquanto uma fonte de resultados, missões, redenções. Neste sentido, cabe ao artista (com ou sem deficiência), apropriar-se de suas impossibilidades ou não. Isso dependerá de seus projetos estéticos e de não querer ser visto sob a ótica da especialidade, superação heróica de limites ou do desejo social de uma salvadora promessa de cura para o mundo”, revela. O que talvez seja o grande obstáculo para os profissionais da dança com deficiência seja a falta de planejamen-

33


CAPA Dança

« a dificuldade de acessibilidade, no sentido pleno, é apenas questão atitudinal. Quando você muda sua atitude, acaba se ajudando além do que pode imaginar e faz a diferença » NINFA CUNHA

Basílio Boarin Neto

to e investimento em ações de inclusão e promoção desse tipo de atividade social e artística. “Somente a dança ou a arte não é capaz de fazer uma real inserção social da pessoa com deficiência. Para isso é necessário um conjunto de coisas que começam no acesso à boa educação, passando pela acessibilidade arquitetônica e cultural, real participação no mercado de trabalho e não as migalhas dadas pelas empresas. Um verdadeiro reconhecimento das capacidades e eficiências da pessoa, enfim, muitos pontos para serem levantados”, comenta Edu O. Ninfa concorda e toma como exemplo dois projetos criados por ela – Casulo de Artes Inclusivas e Perspectivas em

34

Movimento, nos quais teve a oportunidade de lidar diretamente com agentes que deveriam estar preparados para atuar ao lado de pessoas com deficiência. “Me espanta a falta de conhecimento e a ausência de experiência em lidar conosco. No Casulo, ouvi uma professora dizer que a educação inclusiva oferecida pelo Estado é de faz de conta. Por isso, eu luto pelo ideal de acessibilidade plena, não somente para nós, que temos deficiência, mas para todos os indivíduos. Porque alguns acreditam que acessibilidade é você colocar uma barra de apoio ou uma rampa. Não se trata disso. Trata-se de capacitação, de conhecimento no trato diário, de políticas públicas de ação afirmativa”.


Dança CAPA

OS DA DANÇA B E N E F Í CI Os benefícios para quem pratica a dança são inúmeros, em virtude dos movimentos potencializarem as capacidades e habilidades corporais do praticante. Por exemplo, para quem tem deficiência nos membros inferiores, a dança proporciona uma melhora significativa da musculatura, da resistência física, da circulação sanguínea e da função cardiorrespiratória. A dança também favorece os deficientes auditivos e visuais, otimizando a percepção de espaço, influenciando positivamente na sensação de equilíbrio e integração dos sentidos. Nota do editor: O grupo X de Improvisação em Dança é pioneiro no Brasil em audiodescrição de cenas de Dança para cegos, além de realizar tradução para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), nos espetáculos que têm textos, para contemplar o público com deficiência auditiva.

Carolina Teixeira, que elege os editais como uma das poucas possibilidades de fomento de grupos artísticos na Bahia e no Brasil, reflete. “A falta de investimentos e, acima de tudo, de profissionais que discutam o tema sem a ótica analítica de quem está fora da experiência da deficiência, também compromete, em grande parte, as discussões necessárias para a promoção de um pensar menos assistencialista acerca do trabalho do artista, de sua obra e de sua circulação no mercado nacional e internacional”. E com um humor cativante Ninfa finaliza. “Para mim, a dificuldade de acessibilidade, no sentido pleno, é apenas questão atitudinal. Quando você muda sua atitude, acaba se ajudando além do que pode imaginar e faz a diferença”.

35


OPINIÃO

Cultura: elemento de Inclusão Social! Aline Marianne Magalhães Farias Comunicóloga, especialista em administração e planejamento de projetos sociais e gestora da Mana Agência de Inovação, Cultura e Desenvolvimento. comunicacaoedesenvolvimento@gmail.com Arquivo pessoal

Pessoas contam estórias. São histórias. Tesouros inestimáveis de uma experiência que os livros não ensinam. Aliás, pessoas são como livros: precisam ser lidas, visitadas, preservadas. Mas, o que são os livros, sem as mãos e os corações inquietos que bebem de suas páginas? Que anseiam pelo desfecho da trama? O que dizer então das pessoas, se no seu processo de feitura, no seu caminho de se fazer gente, não encontra a oportunidade de ver as cortinas se abrirem para um mundo novo, de ver a si mesmo nos picadeiros, nas cordas-bambas que não seja a costumeira do labor cotidiano? E a cultura, é um bem popular? Ora, meu Senhor, a festa das cores, dos ritmos, das formas e texturas exibe uma faixa indicativa em formato subliminar, mas ao mesmo tempo, incisivo que diz em som velado e grito seco que a cultura ainda não está para todos – apesar de ser o povo e dele nascer. É no mínimo curioso que o Brasil lidere posições em número de usuários na rede mundial de computadores e a Bahia ainda não conheça “o que a Bahia tem”. Mas é no mínimo solitário que comunidades e populações inteiras nunca tenham assistido a uma produção nacional, ido ao teatro ou tivesse acesso a qualquer manifestação artístico-cultural. Ao visitar esta realidade, não é difícil conectar a tímida acessibilidade à cultura com os índices de marginalidade, escolaridade e as taxas de desenvolvimento de um povo, já que a cultura é condição inalienável do ser e se vista como um valor, um recurso que deve ser reconhecido, valorizado, mobilizado e articulado de forma complementar com outros conhecimentos, pode se transformar em instrumento multiplicador do nosso potencial de crescimento e resolução de nossos problemas sociais.

36

Salve a Bahia de Todos os Santos, pois nesse estado-nação temos a graça de exibir um povo, com suas formas e manifestações tão variadas que, por si, já constituem patrimônio. Este povo merece ver e ser visto e a cultura é um espelho de grande clarividência no processo de inclusão social e garantia de direitos, pois com ela é possível qualificar as expressões e práticas da arte e do saber popular, transformando-as em promoção do bem estar social. Fazer com que o homem se conheça, reconheça e estabeleça vínculos consigo é o que a cultura, este legítimo instrumento de inclusão proporciona. Proporcioná-la ao povo é torná-lo livre! Ao recorrer ao significado da palavra livre, uma das referências encontradas define como aquilo que não apresenta obstáculos, caminho livre. Oxalá, ou seja, tomara! Faço votos que a cultura ande por caminhos livres, sem obstáculos! Que adentre cada vez mais não só o campo estético, mas também se cerque de medidas necessárias de valoração, profissionalização e seriedade que necessita. Que artistas, entidades, organizações possam se valer desse meio de erradicação da miséria como forma de reduzir as desigualdades sociais e uma das piores espécies de pobreza: a pobreza do conhecimento! Utilizemos, pois, os veículos que permitem este acesso: editais, incentivos, políticas públicas, patrocínios, parcerias público-privadas. Permitamos que todo o artista vá onde o povo está, mas, de igual forma, que todo povo também possa ir ao encontro desse artista: encantar-se com ele, identificarse com ele e nele vislumbrar a perspectiva de um mundo múltiplo e generosamente possível.


PATRIMÔNIO

Especialmente no Nordeste baiano, as festas do mês de junho são celebradas com forró, fogueiras, quadrilhas, fogos de artifício e, é claro, muita comida. Com o passar dos anos, as referências prioritariamente europeias foram ganhando outros elementos, novos ingredientes, cores e sabores graças à mistura dos costumes de brancos, índios e negros. TEXTO

MAIARA BONFIM

37


PATRIMÔNIO

Se o Carnaval não tem nada a ver com culinária e no Natal, para rechear a mesa, é preciso importar ingredientes e até frutas que vão compor a ceia, o São João é completamente diferente. Nas festas de junho, a mesa é farta e composta por pratos típicos à base de ingredientes bem regionais. Laranja, milho e amendoim disputam a atenção mesmo nas menores expressões da festa. Nas cidadezinhas do interior da Bahia, as comemorações acontecem, praticamente, durante o mês inteiro. Por influência portuguesa, desde os idos da colonização do Brasil, três conhecidos santos católicos são celebrados em junho. O 13º dia é do casamenteiro Santo Antônio. Dia 29 é destinado ao manda-chuva, aquele que decide quem entra ou não pela porta do céu, São Pedro. Mas o mais famoso é mesmo o primo do menino Jesus, São João, que nasceu no dia 24. Vítimas constantes da seca, os nordestinos aproveitam esse período para agradecer pelas chuvas que ajudam a fertilizar a terra. Festejos não faltam. Mas e a comida, de onde vem? A explicação para a milharada reinar soberana na mesa está no calendário agrário. Junho é o mês em que se colhe o milho que foi plantado lá no dia de São José, em 19 de março. Cozido ou assado na brasa, ele não carece de muita intimidade com a cozinha e já conquista paladares. O milho é um produto natural do continente americano, muito apreciado, principalmente pelos povos indígenas. Contudo, não era muito valorizado pelos índios que povoavam o Brasil. Aqui, eles tinham a mandioca (ou aipim ou macaxeira) como base das suas refeições. Os europeus

38

também não incluíam o milho em sua dieta, pois o consideravam de segunda categoria. Sendo assim, era oferecido para os animais e estava farto nas senzalas. Justamente ali é que foram criados diversos pratos, juntando à maioria deles o leite de coco. Ainda hoje, quem tem mais traquejo na cozinha prepara bolos, canjicas, pamonhas, mingaus, lelês, curaus e broas, especialidades que são verdadeiros manjares para os amantes desse cereal. Para quem não tem habilidade ou busca profissionalização, na capital baiana, muitas escolas de culinária e até grandes empresas distribuidoras de alimentos oferecem cursos para ensinar o preparo das iguarias juninas não apenas feitas à base de milho, mas incluindo também o amendoim, o aipim e a carimã. “Com esses quatro ingredientes você faz praticamente todas as receitas para a sua festa junina”, ressalta a culinarista Regina Gantois, que trabalha nessa área há quase 40 anos.


PATRIMÔNIO

OPORTUNIDADE Alguns buffet da cidade também oferecem em seus catálogos kits juninos para entregas domiciliares e eventos corporativos. “Os orçamentos começam a ser realizados antes mesmo do carnaval”, conta a doceira Jaciara Delmar, que é responsável por uma empresa que oferece esse tipo de serviço. A demanda começa a aumentar a partir dos meses de abril, quando são feitos diversos agendamentos para festas. Jaciara aprendeu com sua mãe a cozinhar todo o cardápio de comidas regionais. “Tudo isso já fazia parte dos festejos juninos e do dia a dia da minha família”, conta, relembrando como eram as refeições no café-da-manhã, almoço... Tudo era feito em casa, de uma forma bem artesanal. Essa é a fórmula para o sucesso do seu buffet atualmente. Ela enumera quais são as comidas mais pedidas que não podem faltar em qualquer cardápio junino: “Bolos de aipim, carimã (que em alguns lugares chamam de puba), milho e tapioca, canjica, mungunzá, amendoim cozido e os licores”. Ela ainda conta que, ao longo do tempo, foram acrescentando outras iguarias: “pé-de-moleque, paçocas doces e salgadas, bombom de genipapo, pipoca, maçã do amor, doce de leite e doce de abóbora em compota”. Hoje, os festejos de São João costumam ser um verdadeiro chamariz que contribui para a propagação da imagem do Brasil no exterior, bem como movimentam o turismo e a economia nos pequenos municípios nordestinos. Na capital, especialmente as feiras são responsáveis por trazer os produtos vindos do interior para compor as mesas das famílias soteropolitanas. Nos shoppings, escolas e até nas igrejas são montadas barraquinhas e realizadas festas comemorativas, sempre repletas de comidas típicas do período junino.

Curau? Mingau? Lelê? (Por Regina Gantois) Curau é o que chamamos de canjica, ou melhor, é a nossa canjica no sul do Brasil. Mingau de milho é feito com milho verde ou fubá de milho, acrescido de leite, leite de coco e açúcar, que devem ser levados ao fogo para dar o ponto. E o melhor é consumi-lo ainda quentinho. E por fim, o lelê é um prato feito com milho pilado, coco e açúcar: é quase um mingau que na proporção que vai esfriando, vai endurecendo e fica em ponto de corte.

39


40


TURISMO

As diversas facetas da cidade de

Monte Santo Município baiano se destaca pelo turismo religioso, rica arquitetura do período colonial e situações insólitas, a exemplo da descoberta em suas terras do maior meteorito do Brasil. E além de tudo isso, a cidade, que recebeu personagens históricos como Lampião e Antonio Conselheiro, também serviu de locação para o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, do cineasta Glauber Rocha. TEXTO

FABIO FRANCO FOTOS

ACERVO MONTESANTO.NET

41


TURISMO

Incrustada na região Nordeste da Bahia, a cidade de Monte Santo guarda segredos incontáveis, capazes de encantar até o visitante mais informado. Entre as edificações do período colonial, se esconde uma rica história com personagens e acontecimentos no mínimo inusitados, que influenciaram diretamente a construção da cultura brasileira. A começar pela sua fundação: os mais antigos contam que a cidade começou a sua caminhada por volta de 1755, quando o frei Apolônio de Todd, ao passar pela região onde hoje se encontra o município, percebeu a semelhança das terras com o Monte Gólgota, localizado em Jerusalém. Anos depois, o lugar passou por mudanças, sofreu alterações na nomenclatura, mas finalmente em 25 de julho de 1929, por conta da Lei Estadual nº 2.192, foi elevado à condição de cidade, oficialmente com o nome de Monte Santo. Dois séculos depois de sua criação, Monte Santo ainda preserva boa parte do seu conjunto arquitetônico, que abriga casarões construídos entre os séculos XVII e XVIII. O município também é um expoente do chamado turismo religioso, característica que remota a grande peregrinação de romeiros, tão antiga quanto o surgimento da localidade. “Queremos mostrar ao mundo o devido valor histórico e cultural que a cidade tem e também promover o turismo religioso, que é sinônimo de gerações. Com isso, realizamos um trabalho com comprometimento e amor que nos torna ainda mais ricos culturalmente”, conta o repórter Anderson Silva que, ao lado de amigos, criou um site (www.montesanto.net), contando causos e fatos marcantes sobre o lugar.

PERSONALIDADES A cidade de Monte Santo também ganhou fama através dos séculos graças às constantes visitas de personagens dos mais folclóricos da história brasileira. O primeiro deles e talvez o mais intrigante, foi Antônio Conselheiro, que criou em 1893 a comunidade de Canudos, num local em que anteriormente havia apenas uma fazenda. De acordo com documentos da época, Monte Santo era o centro das atividades do exército brasileiro que lutou e derrotou os seguidores de Conselheiro. Outra aparição que deu o que falar foi a de Lampião. Mas antes mesmo de se tornar o “Rei do Cangaço”, Virgulino Ferreira já havia dado as caras pelo município baiano — na época o jovem sertanejo comercializava peles de animais em um mercado local. Anos depois, o já famoso cangaceiro sempre passava por Monte Santo para reabastecer seu bando. Mas não foi somente na área política que a localidade se tornou conhecida. A cidade também serviu de expoente, em solo baiano, na divulgação da cultura regional por diversas ocasiões. Em uma delas, recebeu de braços abertos o cineasta

42

Legenda legenda legenda legenda legenda legenda legenda legenda .

Glauber Rocha, que a utilizou como locação e set de filmagens para o longa-metragem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, considerado um marco do movimento denominado ‘Cinema Novo’. Anos depois foi a vez de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, levar a sua sanfona e seus trejeitos típicos do povo nordestino para o município. Conta a estória popular que Gonzagão foi contratado para comandar os festejos juninos e acabou se tornando amigo do então prefeito Ariston Andrade. E como forma de retribuir o carinho do novo amigo, Luiz Gonzaga ofertou a sua sanfona, que hoje se encontra em exposição no Museu do Sertão. “Monte Santo se desenvolveu baseada na história de grandes personagens, mas também vale lembrar que outras personalidades locais divulgam e muito a nossa cidade, a exemplo do cantor e compositor Gereba e do escritor Padre Enoque”, conta Anderson.


TURISMO

METEORITO E ARTE RUPESTRE Não bastasse tudo isso, Monte Santo também recebeu visitas intergalácticas. Mas não se tratam de extraterrestres ou naves espaciais. No ano de 1784, foi encontrado, às margens do Rio Bendegó, aquele que seria classificado como o maior meteorito já localizado em terras brasileiras. A rocha, que pesa mais de cinco toneladas, está exposta no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Mas o visitante ainda pode visualizar a imponente relíquia espacial por meio de uma réplica em exposição no museu da cidade. Outro atrativo dos mais procurados são os sítios arqueológicos da região. Pelo menos cinco fazendas — Maria de Lima, Pedra Branca, Riacho da Onça, Caixão e Santa Rita — abrigam inscrições rupestres em suas terras. Além disso, também existe um povoado chamado Pedra Vermelha, onde foram encontrados fósseis de animais do período pré-colombiano. “Existem várias opções de lazer para quem visita a cidade como o Museu do Sertão, onde está inserida grande parte da história local e da Guerra de Canudos; o Centro de Lazer e Cultura Amélia Andrade, onde o visitante poderá relaxar e comer algumas comidas típicas da região; o Santuário Santa Cruz, que apresenta uma grande riqueza não só religiosa, mas também cultural e natural. Também podemos citar as belas praças Monsenhor Berenguer e Professor Salgado, além das trilhas da Serra da Santa Cruz, que apresentam fontes naturais como a conhecida ‘Simão’ e uma diversidade de fauna e flora”, finaliza Anderson.

A cidade costuma receber milhares de turistas para visitar o Santuário Santa Cruz.

43


ENTREVISTA Samuka

MÃOS ENTRE A TÉCNICA E A

ARTE

“Se você se refere ao mercado de Salvador, basta ter um computador com Photoshop e pronto. Qualidade ainda não é o primordial para se trabalhar aqui”. A afirmação é de Samuka Marinho, que se batizou de ‘Tratador de Imagem’ e há sete anos criou seu próprio estúdio. Em um panorama sobre o mercado baiano de pós-produção de imagens, Samuka critica, aconselha e desmistifica. Idealista, defende que “é preciso conhecer o real para só depois fazer o fantástico ou o fantasioso. Assim você começa todo o trabalho com técnica e termina com arte”. E conta: “Já tive que entregar oito imagens em menos de duas horas. E claro que deu problema. Não ficou tão bom como poderia”. TEXTO

44

FABIO FRANCO IMAGENS

ACERVO DESCONSTRUTORA


Samuka ENTREVISTA

Talento e muitas horas de trabalho são imprescindíveis para o pós produtor de imagens.

Quais são as qualidades essenciais para quem deseja trabalhar nessa área? É correto denominar esse profissional como “pós-produtor”? Eu trabalho com pós-produção fotográfica, mas me intitulo “tratador de imagem“. Trabalho exclusivamente para publicidade. Para trabalhar nessa área, se você se refere ao mercado de Salvador, basta ter um computador com Photoshop e pronto. Qualidade ainda não é o primordial para se trabalhar aqui. A pinça ainda seleciona pelo preço. Mas para ser um bom profissional é preciso muito mais do que ter um bom equipamento. Como tudo na vida, para se colocar entre os melhores é preciso viver o ofício, se privar de tempo, pesquisar e fazer por gostar. Se não for assim, você nem vai ser chamado.

pele amarelada ou algo dessaturado em suas imagens. A galera sabia que existia uma diferença gritante entre os trabalhos de fora e os daqui, mas não sabia ainda o que era e não abria a mente para o que estava aparecendo. Com o tempo e depois de muito encher o saco, consegui pegar algumas imagens e trabalhar em cima delas, deixando um resultado diferente, que conseguia ir muito além. Com a demanda, tive que abrir uma empresa, a Desconstrutora, já que finalmente o mercado estava aceitando e pagando pelo novo serviço. Hoje, o estúdio completou sete anos e nesse período eu pude presenciar quando os fotógrafos começaram a trabalhar atrás das lentes da câmera e em frente às telas de computador.

Como surgiu a vontade de fazer esse trabalho? Tem um simbolismo artístico? Na verdade não foi muito planejado viver exclusivamente disso. Em 2004, voltando de um período de trabalho como assistente e diretor de arte em São Paulo, comecei a oferecer esse serviço de cortesia nas agências. Ainda que “de grátis”, eram poucos os que aceitavam imagens com céu esverdeado,

Ainda é possível desvincular a manipulação de imagens do mundo publicitário? Atualmente, sem manipulação, uma foto publicitária não está completa. É possível existir tratamento de imagem sem fotografia? Não. Mas, sem o tratamento, tem foto que não existe. Hoje, fotógrafo e artista gráfico devem (ou poderiam) trabalhar sempre juntos.

45


ENTREVISTA Samuka

« Como tudo na vida, para se colocar entre os melhores é preciso viver o ofício, se privar de tempo, pesquisar e fazer por gostar. » SAMUKA

O trabalho de pós-produção de fotos se resume ao tratamento e manipulação de imagens ou existe algo mais? Normalmente uma única pessoa da conta do recado ou há casos onde é necessário auxilio extra para trabalhar em apenas uma foto? O que dá margem para o meu trabalho são as produções complicadas, verbas limitadas e uma falta de tempo cada vez maior entre o criador e a peça criada. Eu já trabalhei em agência e posso te dizer isso por experiência própria. Um efeito digital depende muito do efeito físico que foi incluso ou que faltou lá na hora da fotografia. Por isso, eu sempre acompanho a produção das fotos nas quais irei fazer o tratamento para poder programar alguns facilitadores. Essa seria a primeira etapa do serviço. Depois que as fotos são selecionadas, começo o tratamento no computador. Começo recortado as imagens, mesmo quando essas não precisam necessariamente de outro fundo. No recorte, a parte do cabelo é a mais delicada. Em seguida faço a limpeza da foto. Tiro rugas, multiplico, diminuo, tiro ou acrescento elementos. Por último eu faço a parte mais artística que é dar os efeitos visuais e realces. O que realmente fará diferença na imagem. Existem trabalhos que consigo fazer sozinho. Para outras, divido as partes mais técnicas, mas sempre dou o toque final. Qual foi o tempo máximo que você já dedicou a um trabalho? E qual foi o seu maior desafio? Na verdade minha briga é contra o tempo mínimo. As coisas são muito rápidas hoje em dia. Já tive que entregar oito imagens

46

em menos de duas horas. E claro que deu problema. Não ficou tão bom como poderia. O meu maior desafio sempre foi o último trabalho que fiz. Apesar de fazer isso quase que diariamente, ainda fico muito ansioso e muito realizado com o resultado. Qual a real interferência da tecnologia no seu trabalho? Como era antes do boom tecnológico e da chegada de programas para tratamento de fotografias? O Photoshop é o software mais profissional que existe. Ele virou substantivo para coisas modificadas. Todos já sabem o que é, como usar e está aí para todo mundo. Justamente por isso, por ser uma ferramenta fácil, barata e que todos podem ter, fica parecendo que é fácil fazer um tratamento de imagem. Mas ter um carro não torna qualquer pessoa um piloto ou ter uma câmera fotográfica não torna qualquer um fotógrafo. O computador mais caro, a maior tela, o processador mais rápido e mais avançado sempre serão apenas ferramentas. Antes do Photoshop tudo era feito através de processos químicos, durante a revelação. Esse era o tempo em que não bastava ser técnico ou somente artista. O profissional tinha que ser os dois para poder dar um bom resultado. Com a popularização desse tipo de programa, você diria que houve uma banalização da “estética pela estética”? Achar que a fotografia representa a realidade passou a ser um pensamento poético. Ao menos na publicidade. Todos os clientes esperam seus produtos com mulheres lindas, homens bonitos, estátua sem sujeira de pombo e objetos si-


Samuka ENTREVISTA

É de suma importância para o pós-produtor ter um olhar artístico ao tratar as fotografias.

47


ENTREVISTA Samuka

métricos. É real a necessidade de um tratamento de imagem na maioria das peças publicitárias. Por mais que a foto crua esteja impecável, está se criando hoje uma dependência da manipulação digital. Tanto que, devido a alguns exageros, já tem país criando leis para controlar o excesso. Existe até a possibilidade de regulamentar peças de publicidade com uma tarja similar a dos anúncios de cigarro: “Esta fotografia foi retocada para modificar a aparência física de uma pessoa”. Outros pensam em classificar uma fotografia manipulada como ‘ilustração’. Isso tudo para evitar que o consumidor não seja enganado, achando que aquele condicionador deixa seu cabelo igual ao da modelo ou que seu carro realmente vira um robô. Como está o mercado de trabalho para a área? Existem boas oportunidades?

48

Está crescente para quem vende e para quem compra. Ninguém é mais refém de ninguém. Existem inúmeros fornecedores e inúmeros clientes, cada um com seu perfil. Com a internet é possível trabalhar de qualquer lugar, para qualquer outro. Me orgulho em dizer que, no mercado que eu trabalho, fui um dos pioneiros e ofereci qualidade, conseguindo valorizar o serviço. Qual o conselho que você daria a alguém que quer atuar na manipulação de imagens? Desista, já está cheio demais (risos). Caso contrário, estude, dedique-se, inspire-se. É preciso observar o cotidiano. É preciso conhecer o real para só depois fazer o fantástico ou o fantasioso. Assim você começa todo o trabalho com técnica e termina com arte. E quando for pensar em cobrar pelo trabalho, venda valor e não somente preço.


planoB indica

Foto divulgação

Foto divulgação: Governo da Bahia

Foto divulgação

EXPOSIÇÃO

SHOW

POESIA

Olhar Cotidiano de Justino Marinho

Música erudita no Palácio da Aclamação

Poesia cantada no projeto Symbiose

A exposição “O Olhar Cotidiano”, com obras de Justino Marinho, pretende colocar, de forma plástica, as imagens que povoam o dia-a-dia do artista. São 30 obras em acrílico sobre tela, guache e pigmento sobre papel cartão. Justino Marinho também destaca-se no cenário cultural como produtor, crítico de arte e curador. Em 1998, recebeu o prêmio COPENE de Cultura e Arte pelos seus 30 anos de pintura. CAIXA Cultural Salvador Até 08 de julho, de terça-feira a domingo, das 9h às 18h Entrada Franca

O grupo Arena Companhia das Artes se apresenta no projeto ‘Música no Palácio’, realizado no Palácio da Aclamação, no Campo Grande. A iniciativa busca popularizar o acesso à música erudita com concertos gratuitos. Formado pelos cantores Antônia Bahia, Carlos Eduardo, Eduardo Ferreira, Francisco Meira, Ramon Sena, Verônica Santos e Vanda Otero, o conjunto apresentará os concertos “Ave Maria” e “Cantando o Brasil”. Palácio da Aclamação 27 de julho, às 18h Entrada gratuita

Com a proposta de unir poesia, teatro e música, o projeto Symbiose apresenta seu primeiro CD, que traz 10 faixas: nove composições próprias e uma do mestre Villa-Lobos. O trabalho, idealizado por Rodrigo Chianca (violão, Viola, Guitarra) e Pedrinho Faria (Voz e Textos), miscigena a essência da música (instrumental e cantada), com textos de autores consagrados e a entoação de mantras. Livraria Cultura R$ 14,90

MÚSICA

Novo CD do Cascadura de graça na internet Já está disponível para download o novo disco da banda Cascadura. O material pode ser baixado gratuitamente através da página www.facebook.com/cascadura. rock ou do site www.bandacascadura.com, por meio de login (aleluia) e senha (ALE07M5WX4K). O ponto alto do CD é a participação de grandes nomes da música nacional como Orkestra Rumpilezz, Móveis Coloniais de Acaju, Pitty e Jajá Cardoso (Vivendo do Ócio). Há também composições em parceria com Nando Reis, Ronei Jorge e Beto Bruno, sendo que os dois últimos cantaram junto com o vocalista Fábio. www.facebook.com/cascadura.rock www.bandacascadura.com/aleluia Download gratuito Foto divulgação

49


OPINIÃO

Quem produz e consome cultura? Marlúcia Mendes da Rocha Profª adjunta do curso de Comunicação Social (Rádio e TV) da UESC, Drª em Comunicação e Semiótica e coordenadora da Rádio e TVUESC. malu.mm@gmail.com Arquivo pessoal

Os artistas brasileiros, de maneira geral, se ressentem da dificuldade que é divulgar suas obras. No entanto, o problema não está só na divulgação, mas, também na própria produção. Vivemos um momento de incentivo à produção cultural, tanto nos grandes centros, como na periferia, enfim, onde houver pessoas capacitadas para concorrer aos vários editais das Secretarias de Cultura, nos órgãos de fomento à pesquisa e instituições em geral. No entanto, o que se vê é uma enorme dificuldade no cumprimento dos quesitos exigidos pelos editais. Há um excesso de burocracia no preenchimento dos formulários que acaba por torná-los um “bicho de sete cabeças”. É preciso empreender esforços para que qualquer produtor cultural possa participar democraticamente dos editais de cultura. O contexto cultural brasileiro apresenta grande aptidão para conectar séries culturais que em lógica cartesiana são excludentes. Tal contexto apresenta uma visão contrária do culturalismo dos EUA e do multiculturalismo das várias comunidades que se conflitam na Europa, tentando viver separadas com o intento de firmar sua proteção étnico-cultural. No Brasil, as séries e os objetos da cultura vivem se reinventando e estabelecendo novas conexões passando por processos de elaboração, reflexão, interpretação e transmissão de valores num permanente embricamento de interação cultural. Vários textos reverberam e dialogam em tramas narrativas que vão da ficção à realidade ficcionada e vice-versa. A exemplo, o estreito diálogo que a televisão mantém com os outros gêneros artísticos. Neste processo, a que chamamos de mestiçagem cultural, não há uma hierarquia entre as diferenças, não se busca uma relação de poder. Não existe uma cultura mais importante e outra menos importante. Os elementos entram em acordo, ampliando a capacidade de comunicação no convívio das diferenças. São novos modos de perceber o mundo. Todas as informações se reorganizam e as características dos elementos são aproveitadas e transformadas. Este processo é dinâmico, invenção criativa dos seres humanos e da participação dos indivíduos na aprendizagem social.

50

Hoje, portanto, a pergunta que é preciso responder é: o que é globalização, para nós, latino-americanos e brasileiros? Trata-se de um fenômeno de mera assimilação de ideologias e produtos culturais dos grandes centros ou é algo mais complexo que isso, que atinge de maneira equivalente tanto os países marginais quanto os países centrais, e onde é possível que os países centrais também acabem importando produtos culturais dos países marginais? São muitas as questões que precisam ser respondidas. Precisamos entender definitivamente que produzir manifestações artístico-culturais de valor implica em ter uma educação de qualidade. Os nossos jovens intelectuais na maioria das vezes não sabem sequer cumprir, a contento, as etapas exigidas pelos editais de cultura. Logo não é só uma questão de divulgação, mas, também, de produção cultural. As pessoas transitam por diversos códigos e registros culturais. A depender das circunstâncias em que se encontram, por exemplo, em nome do que a mídia estiver legitimando como moda, pessoas com alto nível de renda e escolaridade acabam por consumir práticas culturais que consideram pouco legítimas culturalmente. Há espaço para tudo, até porque democracia cultural implica na existência de públicos distintos e se ancora nos novos estudos que visam ultrapassar as questões relacionadas à classe social, faixa etária, centro-periferia como sendo os únicos quesitos para determinar um maior ou menor consumo das práticas culturais. É fundamental que se invista na formação de público e para que isso aconteça não basta dizer que ir a concertos, óperas, saraus, museus e exposições de arte de artistas consagrados seja suficiente, mais do que nunca é preciso investir em educação e priorizar a ampliação do repertório cultural de nossa gente, possibilitando-lhes tomar conhecimento das inúmeras linguagens e códigos culturais. ¹ Conceito criado pela antropologia cultural norte-americana que afirma a existência de características específicas de cada grupo étnico


51


52

Revista Plano B #03  

A Revista Plano B #03 traz um olhar apurado sobre a dança sem limites para a arte, a celebração e os obstáculos dos quadrinhos baianos, a fe...

Revista Plano B #03  

A Revista Plano B #03 traz um olhar apurado sobre a dança sem limites para a arte, a celebração e os obstáculos dos quadrinhos baianos, a fe...

Advertisement