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Philos PORTUGUÊS CATALÀ ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO ROMÂNĂ

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA #1 · REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA #1 · RIVISTA DE LETTERATURA DELL’UNIONE LATINA #1


Philos PORTUGUÊS CATALÀ ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO ROMÂNĂ

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA #1 · REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA #1 · RIVISTA DE LETTERATURA DELL’UNIONE LATINA #1

CAIO LOBO CUERA MARQUES MAGNO MELO LUCAS DANTAS LUISA BENEVIDES ADRIANA CALABRÓ HOZANA BIDART EMANUELA RODRIGUES THAÍS AMARAL JULIEN HOFF ROGELMA SOUZA NATHALIE LOURENÇO FLÁVIO COSTA PÂMELA CÔRTES AIDIL ARAÚJO LIMA LEONARDO RICHNER VAGNER SILVA VINÍCIUS PEREIRA ALDENOR PIMENTEL ANTÔNIO FERNANDES ANA WELTER LUIZZA JULIANELLI SAMMIS REACHERS VICTOR CRUZEIRO JOSÉ HENRIQUE ZAMAI FRANCISCO CARVALHO DANIELA BALESTRERO MARCELO PROENÇA MACIEL ANDRÉ KAIRES LUIGI RICCIARDI RODRIGO BITTENCOURT LUCIANE SOUZA LETÍCIA COPATTI DOGENSKI CINTYA NUNES RÂNDYNA DA CUNHA DAVID JUNIOR LUCAS DANTAS RITA DE KASIA AMARAL HERBERT DO NASCIMENTO IVANILSON SANTANA VICENTE DE MELO MUNIQUE DUARTE ASTRID RAMOS MIGUEL SEPÚLVEDA MARCELA SAYURI RAFAEL VIANNA SEBASTIÃO RIBEIRO GUSTAVO SOUZA PAULO EMÍLIO AZEVÊDO ESTER CHAVES PALOMA SAINTS ÀNGEL GABREGAT MORERA


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EXPEDIENTE

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA RIVISTA DE LETTERATURA DELL’UNIONE LATINA

Souza Pereira

EDITOR CHEFE | EDITOR EN JEFE

Sylvia de Montarroyos

COMITÊ EDITORIAL | COMITÉ EDITORIAL

Lucrecia Welter

REVISÃO DE TEXTOS | SUPERVISIÓN DE TEXTOS

Maus Hábitos

DESENHO E DIAGRAMAÇÃO | DISEGÑO Y DIAGRAMACIÓN

Mario Daniel Gimenez ILUSTRADOR | DIBUJANTE

SOBRE A OBRA DESTA EDIÇÃO | SOBRE LA OBRA DE ESTA EDICIÓN

Publicado originalmente em 2017 com o título Philos, Revista de literatura da União latina. Os textos desta edição são copyright © de seus respectivos autores. As opiniões expressas e o conteúdo dos textos são de exclusiva responsabilidade de seus autores. Todos os esforços foram realizados para a obtenção das autorizações dos autores das citações ou fotografias reproduzidas nesta revista. Entretanto, não foi possível obter informações que levassem a encontrar alguns titulares. Mas os direitos lhes foram reservados. Philos, Revista de Literatura da União Latina é registrada sob o número SNIIC AG-20883 no Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais com Certificado de Reserva outorgado pelo Instituto Nacional de Direitos do Autor sob o registro: 102015-032213473700-121. ISSN em trâmite. Revista Philos © 2017 Todos os direitos reservados. | Publicado originalmente en 2017 con el título Philos, Revista de literatura de la Unión latina. Los textos de esta edición son copyright © de sus respectivos autores. Todos los esfuerzos fueron hechos para la obtención de las autorizaciones de los autores de las citaciones o fotografías reproducidas en esta revista. Sin embargo, no fue posible obtener informaciones que llevaran a encontrar algunos titulares. Pero los derechos les fueron reservados. Philos, Revista de Literatura de la Unión Latina es registrada bajo el número SNIIC AG-20883 en el Sistema Nacional de Informaciones e Indicadores Culturales con Certificado de Reserva otorgado por el Instituto Nacional de Derechos del Autor bajo el registro: 10-2015-032213773700-121. ISSN en trámite. Revista Philos © 2017 Todos los derechos reservados.

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Philos de de Literatura da União Latina Latina | Revista de Literatura de la Uniónde Latina | Rivista de Letteratura dell’Unione Latina Philos,Revista Revista Literatura da União | Revista de Literatura la Unión Latina.


anhã de primavera em Olinda. Apresento um projeto editorial na Festa Literária Internacional de

Pernambuco (Fliporto). Apesar da suposta multiplicidade temática que pretendia expor, o projeto não havia sido criado a mil mãos, eram unicamente os meus anseios de ser múltiplo, máximo, mas nunca comum. Pouco depois, numa tarde de verão em Camaragibe, com a ajuda de alguns amigos e alguns telefonemas para uma grande amiga em Lisboa, a Revista Philos toma forma e lança uma primeira edição com trabalhos de autores ibero-americanos, até então, desconhecidos do grande público. Hoje, um ano depois de iniciado o projeto, o mesmo e inquietante desejo de transformar a sociedade através das artes, mas com uma diferença: a aceitação deste projeto por leitores e colaboradores de todo o mundo. Esse mesmo anseio, que se desdobra em tantos outros, levou-nos ao reconhecimento de algumas instituições culturais e nos permitiu a nomeação de Revista Literária da União Latina, como parte de uma organização de escritores, artistas, críticos e acadêmicos de diversos países que faziam parte da extinta União Latina (Unilat), mas que continuam trabalhando em prol de uma latinidade plural. Com muita alegria, leituras críticas, correspondências, críticas e trabalho em conjunto, lançamos o nosso caderno especial de aniversário. Há aqui uma empatia involuntária entre textos e ilustrações; ambos tendem a falar da solidão, dos ciclos da vida, de gêneros, sofrimentos, da idiossincrasia, da literatura como refúgio: fenômeno constante do indivíduo. Dar a esta revista um sentido que a caracterize ou defina sua identidade dependerá de quem a ler.

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añana de primavera en Olinda. Presento un proyecto editorial en la Fiesta literaria Internacional de

Pernambuco (Fliporto). A pesar de la supuesta multiplicidad temática que pretendía exponer, el proyecto no había sido creado a la mil manos, eran únicamente mis anhelos de ser múltiple, máximo, pero nunca común. Poco después, en una tarde de verano en Camaragibe, con la ayuda de algunos amigos y algunas llamadas para una gran amiga en Lisboa, la Revista Philos toma forma y lanza una primera edición con trabajos de autores ibero-americanos, hasta entonces, desconocidos del grande público. Hoy, un año tras iniziado el proyecto, el mismo e inquietante deseo de transformar la sociedad a través de los artes, pero con una dife rencia: la aceptación de este proyecto por lectores y colaboradores de todo el mundo. Eso mismo anhelo, que se desplega en tantos otros, nos llevó al reconocimiento de algunas instituciones culturales y nos permitió el nombramiento de Revista literaria de la Unión latina, como parte de una organización de escritores, artistas, críticos y académicos de diversos países que formaban parte de la extinta Unión Latina (Unilat), pero que continúan trabajando a favor de una latinidade plural. Con mucha alegría, lecturas críticas, correspondencias, críticas y trabajo en conjunto, lanzamos nuestro cuaderno especial de aniversario. Hay una empatía involuntaria entre textos e ilustraciones; ambos tienden a destacar la soledad, lo ciclos de la vida, los géneros, sufrimientos, la idiossincrasia, la literatura como refugio: fenómenos constantes en el individuo. Dependerá de quien lea esta revista dar un sentido que la caracterice o la defina identidade.

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attina di primavera a Olinda. Presento un progetto editoriale nella Festa letteraria Internazionale di

Pernambuco (Fliporto). Nonostante la supposta molteplicità tematica che voleva di esporre, il progetto non era stato creato alle mille mani, erano unicamente i miei aneliti di essere multiplo, massimo, ma mai comune. Poco dopo, in un pomeriggio di estivo a Camaragibe, con l'aiuto di alcuni amici ed alcune chiamate ad una gran amica a Lisbona, la Rivista Philos prende forma e lancia una prima edizione con lavori di autori ibericoamericani, fino ad allora, sconosciuti dal grande pubblico. Oggi, un anno dopo aver iniziato il progetto, lo stesso ed inquietante desiderio di trasformare la società attraverso le arti, ma con una differenza: l'accettazione di questo progetto da parte di lettori e collaboratori di tutto il mondo. Quello stesso anelito che si moltiplica in tanti altri, ci portò al riconosci mento di alcune istituzioni culturali e ci permise la nomina di Rivista letteraria dell'Unione latina, come parte di un'organizzazione di scrittori, artisti, critichi ed accademici di diversi paesi che facevano parte dell'estinta Unione Latina (Unilat), ma che continuano a lavorare a beneficio di una latinità dalle molteplici sfacettature plurale. Con molta allegria, letture critiche, corrispondenza, critiche e lavoro di gruppo, lanciamo il nostro quaderno speciale di anniversario. C'è un'empatia involontaria tra testi ed illustrazioni; ambedue tendono a parlare di la solitudine, cicli della vita, generi, sofferenze, idiossincrasia, della letteratura come rifugio: fenomeno costante nell'individuo. Dipenderà di chi legge questa rivista dane un senso che la caratterizzi o ne definisca l’identità.

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EDITORIAL EDITORIALE

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ÍNDICE | INDICE

CONTOS | COLUNAS | EXPERIMENTAIS | RACCONTI CUENTOS | COLUMNAS | EXPERIMENTALES | ARTICOLI

8. Reflexões sobre a sociedade do espetáculo, por Caio Lobo 10. Ossos, por Cuera Marques 11. A legitimação da Homoafetividade, por Magno Melo 12. O abismo da fome, por Lucas Dantas 13. A poesia das roupas, por Luisa Benevides 14. Por que Frida?, por Adriana Calabró 15. Lei de descaso e efeito, por Hozana Bidart 16. E as borboletas, onde se escondem?, por Emanuela Rodrigues 17. As lentes da vida, por Thaís Amaral 18. D'Alma, por Julien Hoff 19. Amor à primeira vista, por Rogelma Souza 20. A arte de correr pegando fogo, por Nathalie Lourenço 21. Benedito, por Flávio Costa 22. Balas, chicletes e salgadinhos, por Pâmela Côrtes 24. Contas sagradas, por Aidil Araújo Lima 25. 210693, por Leonardo Richner 27. Desamor, por Vagner Silva 28. Abandono, por Vinícius Pereira 29. Olhar, por Aldenor Pimentel 30. Deitados, por Antônio Fernandes 31. Minha mãe modista, por Ana Welter 32. Noites de madrugadas de farsas, por Luizza Julianelli 33. A segunda vida de Gregor Sansa, por Sammis Reachers 34. As águas, por Victor Cruzeiro 37. Há outros universos além deste, por José Henrique Zamai 38. Tinha, por Francisco Carvalho 39. Il paesaggio con le lanterne, da Daniela Balestrero 40. Garota pianista, por Marcelo Proença Maciel 42. Encontro, por André Kaires 45. Traços de um retrato, por Luigi Ricciardi 47. Doce de cidra, por Rodrigo Bittencourt 50. Anjos da noite, por Luciane Souza 52. Longe dos olhares de Amélia, por Letícia Copatti Dogenski 54. De dar inveja na Marcela Temer, por Cintya Nunes 55. Frágil corpo de pomba, por Rândyna da Cunha 56. O muro, por David Junior 57. Os olhos marejados da menina, por Rita de Kasia Amaral 59. Trailer, por Herbert do Nascimento

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ÍNDICE | INDICE

CONTOS | COLUNAS | EXPERIMENTAIS | RACCONTI CUENTOS | COLUMNAS | EXPERIMENTALES | ARTICOLI

61. O Louva-Deus e a borboleta, por Ivanilson Santana 62. Vidas perdidas em chamas, por Vicente de Melo 64. O embrulhinho, por Munique Duarte 66. Decantación de un diario, por Astrid Ramos 68. O outono, por Miguel Sepúlveda 69. Nunca fomos nós, por Marcela Sayuri 70. O caos, por Rafael Vianna 72. Saturn return, por Sebastião Ribeiro 73. A morte do poeta, por Gustavo Souza 74. Ode ao autor, por Paulo Emílio Azevêdo 75. O gênese da anfitriã, por Ester Chaves 76. Vontade ou condição, por Paloma Saints 78. La levedad del ser, por Àngel Gabregat Morera

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LITERATURA BRASILEIRA

ENSAIOS

Rotas da lusofonia

REFLEXÕES SOBRE A por Caio Lobo SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

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Acabo de ler um pequeno livro fantástico: A sociedade do espetáculo, de Guy Debord. Não vou fazer propriamente uma resenha do livro, embora trate, aqui e ali, de algumas de suas ideias. Ou do que interpretei como sendo as ideias do livro. Digo isso porque o texto não é simples, está escrito ao estilo de Nietzsche, em parágrafos que delimitam insights particulares, completos em si mesmos, e não como uma teoria formulada passo a passo ao longo da obra. Para completar, a linguagem é extremamente figurada, o que sujeita sua compreensão a um esforço interpretativo intenso do leitor. Ilustrando essas dificuldades iniciais, Debord, por exemplo, não define o que é a sociedade do espetáculo. O livro inteiro são tentativas de lançar luzes sobre suas características, sem que, no entanto, se chegue a um conceito bem delimitado, ou sequer a uma tentativa de conceituação. A primeira impressão que se tem é que o espetáculo é a mídia moderna. Ou melhor, que a mídia moderna é um instrumento da sociedade do espetáculo. Essa sociedade representaria o ápice do capitalismo, o momento em que o sistema capitalista vira imagem constante, executada num “presente eterno” para o conjunto de seus espectadores. Ao criar o espetáculo, ocorre uma verdadeira cisão: agora há um mundo – representado pelas mídias – dissociado do universo das pessoas. Esse novo mundo se apresenta como o verdadeiro mundo, como a realidade da vida, como o que se deve ser e desejar. Essa divisão não é notada pelo espectador, que passa a adotar a visão do espetáculo como sendo o real, de maneira que sua própria existência deixa de ter qualquer significado. O sentido de existir não é mais uma indagação do sujeito, mas uma imposição de terceiros, imposição que não é questionada. A imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, diz Debord. De fato, é impressionante a passividade do espectador diante do espetáculo. O mundo apresentado é aceito como sendo o mundo real. Não costumamos atentar para o fato de que o apresentado são trechos, partes do mundo real. E que são partes escolhidas para serem apresentadas. Alguém efetua uma escolha sobre o que apresentar aos espectadores, mas não se questiona, no final, por que se fez tal escolha, e não outra. A se acreditar nessa escolha, o mundo necessariamente é visto como uma sequência de tragédias e atos violentos, um eterno lançar de mísseis entre israelenses e palestinos. É claro que o mundo também é isso, mas não exclusivamente. Quando não se questiona a escolha, o espectador se aprisiona na visão de mundo dos outros e passa a agir como se o mundo fosse tão somente violento, como que se devesse desconfiar sempre da raça humana e tantas outras maneiras distorcidas de enxergar a realidade. Sem perceber, agimos influenciados pela visão do espetáculo. Debord não aprofunda a análise desses aspectos, diríamos “sociológicos”, porque está mais preocupado com a lógica do espetáculo como instrumento do capitalismo. O espetáculo promove a uniformidade que deixa o espectado psicologicamente atado a sua ideologia. Segundo Debord, o sujeito vive na falsa consciência da realidade, que é o espetáculo, já que a realidade em si está impedida de vir à tona. O fascínio que o espetáculo exerce, seu poder, seu alcance criam a sensação de que ele é o detentor da verdade. De que sua visão de mundo é a única visão de mundo possível, de que seus valores são os valores das pessoas. O espetáculo é um rolo-compressor de individualidades. No campo dos costumes, isso ainda é mais flagrante. O autor também não entra em detalhes sobre o assunto. Mas é evidente que os que vivem no seio de uma sociedade capitalista são bombardeados pelas imagens de como o indivíduo deve ser, como deve se vestir, que produtos tem que possuir (a mercadoria, segundo Debord, substituiu insidiosamente a necessidade biológica de sobrevivência, mantendo seu apelo), que padrão estético deve apreciar, que locais precisa visitar. O espetáculo oferece todas as respostas, e o indivíduo, confortável em sua preguiça intelectual, vai engolindo tudo sem questionar. Não é preciso ir muito longe para observar como os comportamentos, de modo geral, são a imitação desse modelo espetacular. E é óbvio, estar no olho do furacão, ser apresentado pelo espetáculo ao espectador, torna-se a realização suprema do sujeito que não questiona o espetáculo, mas que, ao contrário, está inserto em sua realidade pa-

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ralela. Não é necessário realizar mais nada de realmente importante para se viver o frisson da exposição. Basta, por exemplo, participar de reality shows como o Big Brother Brasil. A ascensão social é imediata, sem requisitos. Feios tornam-se belos de um segundo a outro; “fãs” surgem do nada. O mundo real, e todas as suas benesses, se oferece incondicionalmente ao indivíduo que colocou os pés na realidade irreal – no entanto, real para os iludidos. Debord faz também uma análise sobre a mercadoria, mas, provavelmente por não ter presenciado o momento atual, não levou o raciocínio até as últimas consequências. Teria visto, nos dias de hoje, que tudo é produto. Que tudo é realizado nos moldes capitalistas. Que, até em hospitais, o atendimento é realizado segundo procedimentos típicos de uma indústria. Que médicos se parecem cada vez mais com operários: não se vê em seus olhos mais uma preocupação genuína com seus pacientes. Sem falar nos absurdos que advém da necessidade de se ser dono de posses para ter acesso a esse médico-proletário. Todos os empregos imagináveis, inclusive os intelectuais, viraram linhas de montagem. Montagem de textos, de discursos, de partes do corpo, de qualquer coisa que se imaginar. Não há diferença alguma – a não ser no campo da autoafirmação orgulhosa de algumas carreiras – entre o cara que executava uma única ação no fordismo e qualquer trabalhador, de qualquer área, do mundo atual. Os médicos são só o exemplo mais flagrante. A alienação, agora, é generalizada; não pertence propriamente a uma classe restrita. E é claro que o motor dessas ações, muitas vezes insuportáveis para certos espíritos, é o espetáculo. Porque ele precisa de você para consumir. Porque ele te ensinou que só isso importa. Mas não para por aí. Debord teria visto, no mundo atual, que pessoas também se tornaram produtos. A forma de seus corpos, diz-nos o espetáculo, deve obedecer a determinado padrão, taxa de gordura, altura, peso. Que cabelos femininos devem ser lisos; que algumas cores de peles são mais aceitas; que olhos, melhor tê-los claros. Evidentemente, todos os acessórios – a mercadoria ou produto no seu sentido usual – continuam aí: marcas, produtos, gadjets, aparelhos, comidas, destinos turísticos. O diferente, me parece, é essa expansão da qualidade de produto para as próprias pessoas. E quando uma pessoa se torna, espontaneamente, produto, como convencê-la de que não é? E quando tudo é mercadoria, que escolha resta ao indivíduo, para ser aceito, a não ser tornar-se uma? É claro que as consequências psicológicas de uma realidade como essa sobre a personalidade do indivíduo não são insignificantes, embora não sejam absolutamente claras. Debord aposta numa aniquilação da personalidade, o que me parece um tanto exagerado. Diz que a supressão da personalidade acompanha fatalmente as condições da existência submetida às normas espetaculares – cada vez mais afastada da faculdade de conhecer experiências autênticas e, por isso, de descobrir preferências individuais. Acho que a consequência mais plausível é uma certa dissociação da própria personalidade, que se vê em conflito entre o que ela deveria, em tese, almejar, e o que lhe dizem que deve almejar. Ao pressionar o indivíduo a sempre adotar as escolhas propostas pelo espetáculo, o resultado há de ser a infelicidade de muitos, que se encontram aprisionados em destinos que não enxergam como seus, exercendo atividades nas quais não encontram qualquer satisfação ou sentido. Bem, talvez nem haja tantos assim. Porque é preciso admitir que muitos não se sentem divididos. Adotaram a realidade ilusória do espetáculo como constituição real de suas existências. Debord não parece considerar que a imersão completa na lógica do sistema espetacular pode representar certa libertação individual, certo sentido de unidade, ainda que esta se dê em comunhão com uma realidade forjada, ficcional. Talvez ele não tenha notado – ou o notou muito bem, mas não quis dizer – que a maioria das pessoas necessita de um sistema que lhes diga o que querer, eximindo-as do difícil e doloroso processo de escolha. Isso em qualquer época. Talvez tenha se recusado a ver que agir assim, em qualquer cenário ou momento histórico, é o que se considera, até num sentido etimológico, normal.

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Caio Lobo (Recife, 1979). Colunista da Philos, é formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Leitor compulsivo e romancista. Autor de Trôpegos Visionários pela editora Kazuá. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

OSSOS por

Cuera Marques1

Seguro suas mãos enrugadas. Percorro com o indicador o caminho de suas veias salientes enquanto as lágrimas mornas acompanham meu carinho. Eles dizem que é chegada a hora. Mas eu não quero acreditar. Deveria ser mais fácil. Deveria ser simples quando todas as folhas do calendário já foram riscadas. Tudo começa e termina; sabemos disso desde quando descobrimos pela primeira vez na vida que algo amado não voltará. Desde quando um pedaço de vazio se abre e passamos todos os nossos anos tentando achar a peça que se perdeu. Sabemos o fim desde o princípio dos tempos, mas não é o bastante. Por que não pode ser mais fácil? Eu não sei. – Não chore… – sua voz rouca e fraca arrancou-me das profundas reflexões. – Minha menina... Eu quero isso... – Eu sei. – segurei com mais força suas mãos, como se meu toque pudesse manter sua alma aqui. – Eu sei, mas eu não quero. Vovó sempre me avisava que saudades demais causam câncer nos ossos. Ela sabia bem. Vovó viveu com saudades no corpo desde quando meu avô partiu para lutar na Segunda Grande Guerra, deixando-a com uma filha pequena. Ela criou minha mãe com a força de uma guerreira, mas a lembrança dele sempre foi o seu calcanhar de Aquiles. Ela sempre dizia esperar o dia de sua partida para que pudesse estar com ele outra vez. Pessoas não acreditam ser possível quando eu digo com o maior orgulho que ela sempre esperou e ainda espera por ele até o último suspiro. Mas é sim. Vovó viveu esperando a morte por tanto tempo que o diagnóstico veio cedo demais. Ela tinha apenas 60 anos. Todos choramos pela iminência de perder o sustento de nossas vidas. Porém não ela. Nem sorriu, nem chorou. Apenas continuou vivendo o resto de seus dias da mesma forma com que sempre viveu após saber-se viúva. Quando o dia final se aproximava, a dor era tanta que os gritos eram excruciantes e intermináveis. Ficávamos desesperados e bolando mil formas de aplacar a sua dor, mas não havia muito a ser feito. Ela apenas dizia não haver motivos para alarde. O que estava sentindo nada mais era do que a saudade acumulada durante todos esses anos se manifestando em seu corpo. Existe uma ponte que liga a alma ao corpo: tudo o que começa em um, termina no outro. Essa era a saudade terminando com ela. Vovó queria isso desde o começo, desde quando ele cruzou a porta, desde o momento em que recebeu a carta com as profundas condolências de sua partida. Ela queria, é verdade, entretanto eu não sabia como aceitar o fim. Talvez fosse genético todo esse inconformismo. Está claro que nossa família não lida muito com términos. Nunca aprendemos a dizer adeus. Eu nunca aprendi. Era hora, mas não podia deixá-la ir. Ao segurar suas mãos nos minutos finais, acreditava estar passando alguma lembrança, algum pedaço de sua vida para mim. Uma transfusão de fluidos, de almas, de sentimentos, o que quer que fosse. Eu só queria algo dela para sempre dentro de meu corpo. Para que algo seu vivesse em mim quando não houvesse mais ela. Sua respiração vai se tornando mais lenta. Seguro suas mãos enrugadas como se minha própria vida dependesse disso. De fato, dependia. Deveria ser mais fácil. Deveria. Quando os olhos de vovó se fecharam para este mundo naquela primeira hora da madrugada, todos os ossos do meu corpo começaram a doer.

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Cuera Marques (Rio de Janeiro, 1991). Carioca de nascimento e mineira de alma. Vive para ouvir e contar histórias e acredita que palavras podem mudar o mundo. Atualmente trabalha na construção de seu primeiro romance. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CRÔNICA

Rotas da lusofonia

A LEGITIMAÇÃO DA HOMOAFETIVIDADE

por

Magno Melo1

Sou heteroafetivo e quanto a isso nada posso fazer; se eu fosse outra coisa já estaria lá, sem dúvida. Mas torço pela felicidade de todos os gays do mundo, pelo menos dos que fazem mais bem do que mal à sociedade e ao planeta. Sinceramente, por mais que reflita, não consigo entender o que uma pessoa tem a ver com a sexualidade da outra, a não ser que se esteja num relacionamento amoroso com essa outra pessoa; no máximo. Motivos religiosos? Aqui para nós e para quem quiser ler: ninguém que frequenta uma igreja é religioso. Sem querer ofender, honestamente, é no que acredito: religioso é quem possui religiosidade inerente e não quem vai buscar uma de concreto, de palavras, postiça, junto a meros homens que se dizem representantes de Deus na Terra. Fazendo uma analogia, não tão barata: cantor é alguém como Milton Nascimento. É quem abre a boca e canta, não quem precisa se concentrar ou raciocinar para cantar. Religioso, portanto, é quem é, e não quem tenta ser. É quem existe rezando, não quem vive rezando. Não há igreja que torne alguém religioso. E gay, da mesma forma, é gay, e pronto. Não pode, simplesmente, não ser. E nisso não há culpa, não há vergonha, nem imoralidade. Não há desrespeito a ninguém, muito menos a Deus. Desrespeito é alguém achar que quem é, não deve ser, ou não tem o direito de ser, em toda sua plenitude. Quanto a um que não se diz religioso e ainda assim condena a homoafetividade, só posso perguntar: o que exatamente o agride? O mesmo tipo de preconceito que se tinha e ainda se tem contra os negros? Talvez não. Nenhum branco preconceituoso contra negros tem medo de se tornar – ou lá no fundo é – negro. Ou, de outro modo, achar que os gays são mais promíscuos que os não gays, e por isso, de algum modo ameaçadores à moral e aos bons costumes, e não perceber esse fato (mas o corpo é de quem?) apenas como um reflexo temporal, pela marginalidade na qual os homoafetivos foram obrigados a viver ao longo da história, é declarar-se burro. Uma vez aceitos com naturalidade, os homoafetivos de forma alguma serão mais promíscuos que os heteroafetivos; e boa parte já não é. Ou será que os héteros acreditam que o sexo gay é mais prazeroso? De resto, só consigo imaginar o preconceito estético. Que, no entanto, não se sustentará por mais de duas décadas. E, com relação a isso, nada melhor que se divulgar, em todas as mídias possíveis, belas e humanas demonstrações de afeto entre gays, lésbicas, travestis, transexuais e qualquer outro tipo de gente (exceto crianças) em suas inclinações e opções sexuais, e afetivas; evitando-se, é claro, o erotismo banalizado, que só presta um desfavor à libido dos povos. Dois últimos recados aos preconceituosos: achar-se dono da moral é a coisa mais cara-de-pau que existe neste mundo, basta se olhar no espelho para ver o tamanho do ridículo, as bochechas moles, o olho de peixe morto. E condenar a afetividade alheia, simplesmente, é nada entender sobre o amor. Vai dizer que ama seus filhos?

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Magno Mello (Brasília, 1966). Compositor, escritor, educador e livre pesquisador. Prêmio Interações Estéticas, MinC/Funarte, 2010. Vencedor da Maratona Literária 2016, concurso nacional de publicação, da Editora Oito e Meio. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

O ABISMO DA FOME por

Lucas de Carvalho Dantas1

O inverno mal acabara e o sol já deixava marcas pelo chão. Um mosaico de rachaduras se expandia por todo o leito de um rio antes transbordante. O inverno fora insuficiente e o verão surgia com mais força. A mandioca estava chegando ao fim e a fome começava a tomar a região. Em uma humilde residência - um barraco de taipa caindo aos pedaços - Rômulo lamenta a falta de sorte e a miséria. - Meu Deus, o que darei de comer aos meus filhos? Exclamava ele sentado num velho banco de madeira, olhando para os pequenos correndo pela frente da casa à beira da ruína. O seu olhar era de um tom tão triste, sentia-se inútil e impotente. Sua esposa não resistira ao parto do último filho, e as duas crianças, uma com dez e a outra com oito anos, não têm perspectiva de vida. O que havia da farinha foi servido no almoço com os dois ovos que restavam da magra e raquítica galinha. Na hora da refeição, com as porções bem medidas, um dos filhos indaga ao pai: - Estou com fome! Quero mais. Rômulo com os olhos encharcados, responde: - Meu filho, só tem isso, não temos mais nada... O garoto conformado abaixa a cabeça e sai da mesa ao mesmo tempo em que o pai se rompe num choro silencioso. A situação estava difícil e ainda iria piorar. Passam-se dois dias sem que nem sequer uma migalha de pão chegasse à mesa. Sentado no seu banquinho, Rômulo observa um de seus filhos arriado, aos prantos, num velho colchão, no chão da casa. O garoto mais novo mal conseguia ficar em pé. A fraqueza percorria sua carne e a fome não o deixava em paz. Restava apenas dormir, a única coisa que lhe trazia paz, apesar das turbulências e a febre que consumia o seu corpo. Lá fora, o chão torrado pelo sol e os ossos da única galinha que tinham. Morrera de fome, pois nem no chão encontrava algum alimento. E o filho mais velho, ao lado do animal morto, misturava o barro com água e, da mistura, fazia o seu pão. O sol já se punha no horizonte. Mais uma noite e novamente um novo dia, uma nova luta contra a fome. O garoto doente delirava de febre, a sua pobre dieta dos últimos meses minara suas energias. Seu coração pulsara lentamente até dar a última badalada num suspiro de desespero e, ao mesmo tempo, de alívio, pois acabava o seu sofrimento. O pai atordoado vê a cena e verte lágrimas que encharcam o chão. O outro menino, em profunda diarreia, mina-se no chão encostado ao pai. O seu gemido de dor só é interrompido quando o vento ecoa no velho telhado, todo furado pela ação do tempo. Novamente o menino chora ao mesmo tempo em que, sem força de se levantar, faz suas necessidades ali mesmo. O sofrimento perpetua-se por toda manhã. Uma escuridão toma a vista de Rômulo, que sente, no seu íntimo, o fim próximo. Levanta-se, vê a casa rodar, segura-se na parede, vai ao fundo da casa e pega uma enxada. Sai rumo à vasta imensidão vermelha, o verdadeiro vale da morte. Abutres o sobrevoam. Ossadas de animais, acompanhadas de restos da carne, são ornamentos da funesta paisagem. Num determinado ponto, para e começa a cavar três buracos. Ao terminar, quase desfalecendo, retorna à sua casa e encontra o menino dando os últimos suspiros ao lado do corpo frio do irmão. O pai toma o mais novo em seus braços e sai da residência em direção aos buracos. O garoto é molhado com as lágrimas do pai que deposita o cadáver no buraco e o cobre de terra. Torna a casa para pegar o segundo garoto e novamente voltar ao jazigo. O segundo garoto é posto na cova ainda quente e coberto de uma rala camada de terra. Por fim, Rômulo se deita em sua vala para esperar o beijo da morte. A procissão funesta durara a manhã toda. Ao meio-dia, Rômulo definhava. Um abismo se abria abaixo dele e o sol a pino escurecia. O calor, antes insuportável, dissipava-se em leve brisa de outono. Os seus olhos abertos perdiam o brilho enquanto uma gota de chuva caía em seus lábios ressequidos pela sede. E um sono profundo o tomou. Quando acordou, entre uma bela campina florida rodeada de uma pomar, o seu sofrimento passara e o seu corpo debilitado recobrara as energias. Ainda meio zonzo, levanta e, quando apruma a visão, vê ao longe a sua esposa e os dois filhos sorridentes, vindo ao seu encontro. Emocionado os abraça com ternura. E de mãos dadas, adentraram naquele paraíso de múltiplas cores.

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Lucas de Carvalho Dantas (Sergipe, 1994). Poeta, músico e contista. 1


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CONTOS

Rotas da lusofonia

A POESIA DAS ROUPAS por

Luisa Benevides1

Há um tempo, fui à Chapada Diamantina descalçar os pés. Voltei com a câmera abarrotada de fotos e a mala encrostada de lama. Lavei blusas, shorts e cangas. Deixei roupa de molho e descobri o poder do Vanish. Um short, porém, teimava em sua cor de trilha. Lavei-o uma, duas, três vezes, mas o danado era tinhoso: “Por que ser branco se posso ser da cor da Bahia?”. Enfim, dei-me por vencida e o deixei num canto do armário… “Depois-vejo-o-que-faço-com-você”. Meses depois, numa limpa de roupas, deparei-me com ele: “Ainda com esperança de me ver com cara de loja?”, desafiou-me com um risinho de vencedor. Num derradeiro cala boca para seu nariz em pé, coloquei-o no Vanish. Esfrega daqui, esfrega dali – o short chorava lágrimas de lama. No campo de batalha, o barro pingava e escorria pelos braços. Até que… Tcharam! Ei-lo branco outra vez! Eu devia ficar feliz com a vitória. Mas, olhei “praquela” água cor-de-burro-quando-foge e ah! Veio-me um sentimento de “balão estourado, de filme que acaba, uma tristeza de gol contra”… As palavras de Vargas Llosa, que me acompanharam na viagem, vestiram certinho minha nostalgia da Bahia. Aquela lama era meio mágica: escavada por escravos à procura de diamantes, esfregada no rosto em banhos medicinais, fotografada por turistas e pisoteada por guias em seu ganha-pão. Eu possuía um tiquinho dela, e agora um pedaço de Bahia escorria pelo ralo. Aprendemos desde cedo que roupa não é importante – importa o que vestimos por dentro. Enjoou? Doe. Encardiu? Jogue fora. Perdeu? Compre outra – e outra. Filosofia hippie na embalagem – por dentro, consumista até dizer chega. “O que fizemos com as coisas para devotar-lhes tal desprezo?”, Peter Stallybrass se pergunta, em seu ensaio O casaco de Marx, roupas, memória, dor. De onde tiramos a noção de que somos formados pela pureza das ideias, e não pelo despudor das coisas? Antigamente, chamavam o puído das roupas de “memória”. Bonito, não? É como dizer que roupa tem poesia – e não tem? Panos se casam no corpo: a calça pega o formato do quadril, a saia gasta ao se esfregar na bolsa, a blusa amarela debaixo do braço. Em silêncio, o armário conta pedaços de uma vida. Quem mais, afinal, tem as mesmas roupas que você? O pensamento ia longe enquanto pendurava o short no varal. Coloquei-o sobre a face – cheirava à loja e a sabão. Cheio de malícia, porém, sussurrou: “me vira do avesso”. Devagar, obedeci. Junto à etiqueta cortada, o short exibia um restinho de triunfo: encardida, a borda de dentro sorriu para mim.

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Luisa Benevides (Rio de Janeiro, 1986). Escritora e psicóloga. Está entre os autores da antologia Mapas literários: o Rio em histórias, da editora Ninfa Parreiras. 1


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CONTOS

Rotas da lusofonia

POR QUE FRIDA? por

Adriana Calabró1

Não olhe agora, mas tem um punhado de rosas, um macaquinho e um útero cortado olhando para você. Não é uma exposição da Frida Kahlo, é a superfície de um espelho que foi colocado na sua frente e, que, neste exato momento, espera interação. Eu sei. É preciso falar de outras coisas também, de instintos, de ferocidade, de sobrevivência, de direitos, só não de bestialidade. Você já aguentou demais. Tem aguentado demais. Melhor falar de Frida. E das mulheres. E do momento em que estamos tão expostas que fomos expulsas do museu por atentado ao pudor. Agora somos uma exposição ao ar livre. E falar da Frida por quê? Porque ela virou cool? Porque seus lábios cerrados e olhos bem recobertos ilustram cadernos, agendas, mochilas? Porque virou ícone de manifestações feministas? Ou será porque ela é uma das maiores representantes da arte latinoamericana? Tudo isso. Ou nada disso… talvez ela não aprovasse. Nós, as mulheres dos pós-tudo, temos visto passar, vertiginosamente, os dois últimos dígitos do milênio. Ao mesmo tempo, queremos mostrar ao mundo nossos talentos (como Frida), queremos experimentar nossa sexualidade (como Frida), queremos amar e ser amadas (como Frida). Mas espera, queremos tais obviedades, mas não queremos sofrer como Frida, certo? Afinal uma lança perpassou seu sexo, um amor algoz lancetou seu coração, um corpo mutilado impediu alguns de seus mais fortes desejos. Não. Não precisamos mais da via sacra. Não queremos nenhum soldado romano nos oprimindo. Ela, nossa cordeira de Deus (existe cordeiro no feminino?), já fez o caminho. Como um cristo de saias bordadas, mostrou as nossas chagas, o nosso corpo crucificado, ressuscitado pela arte. Agora ela olha para nós bem de frente dizendo: “eu, mulher, latino-americana, passei por dor, traição, sexismo, preconceito e ainda assim morri feroz, morri por vós. Eu as liberto. Eu vos dou a minha chama” Se falo de Frida é por isso, porque a vejo como símbolo. E como todo símbolo, dirige-se a todos e a cada um em particular. O que mais chama a atenção? O útero cortado? As rosas? Ou o olhar meio humano meio selvagem de um macaco? Em qualquer um emerge Frida, a força avassaladora que vai além do sofrimento, além da norma. Dizem que até no crematório ela fez a sua última instalação artística, com os cabelos em chamas como girassóis. Haja pulsação, haja presença. Olhando em um ponto, bem no meio de sobrancelhas grossas está o espelho. E dentro dele, o nosso reflexo, com buço, roupas típicas, feridas, desnudamentos, desdobramentos, rendas, chagas e flores. Uma mescla de abstrações e concretudes que pode explicar o desejo de Frida Kahlo de “nunca mais voltar”. Ou se preferirem, a vocação e o talento que a obrigaram a ficar para sempre.

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Adriana Calabró (São Paulo, 1968). Escritora, dramaturga, coach de escrita, premiada no Concurso João de Barro de literatura infanto-juvenil, finalista nos concursos Off Flip e Livre Opinião, ganhadora da Bolsa de Criação Literária o ProAc do Governo do Estado de São Paulo. 1


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Rotas da lusofonia

LEI DE DESCASO E EFEITO por

Hozana Bidart1

O sangue que escorre do meu peito ainda tem o gosto de poeira, da areia lamacenta do navio negreiro. A minha favela disfarça a senzala, minhas crianças magricelas têm ainda a mesma cara. Substituíram as chicotadas por balas perdidas que nos encontram, que a gente tropeça já na descida para não conseguir chegar ao asfalto. Aonde quem chega é sempre vigiado, onde se ouve nos rádios da Polícia: «Está tranquilo, ele está cercado», e te esperam dar o primeiro passo errado para jogar no camburão. E ser o primeiro a enfiar a mão na nossa cara, e chicotear com cassetete… A gente, acostumado a apanhar de vara, onde desde cedo nos algemam no seu fuzil, que nem fazem o favor de virar para o lado enquanto a gente fala e se explica e gagueja e fraqueja. Porque a justiça para a gente é calada. Nos tribunais, vendem a nossa cabeça e a entregam em leilão numa bandeja. Eles põem a gente em cativeiro cada vez mais cedo para não dar tempo de crescer e aprender a dizer tudo isso, que mal dão oportunidade de a gente entender, pois não dá para chegar nem à porta da escola sem ser acuado a traficar droga. E cada vez mais jovens nossas crianças são tomadas, cada vez mais pobres mantêm suas prisões lotadas, cada vez mais nobres exibem suas mãos manchadas do sangue das nossas crianças que tem que dividir cela com marmanjo de idade, que promete futuro e identidade. Até porque a gente não sai dali para a faculdade. Nossos filhos, fadados a nascer em cativeiro, a construir a própria senzala – sem dinheiro, com o entulho que sobra da sua mansão de luxo e se veste com os remendos da sua pele de cordeiro. Desde cedo, a gente ouve: segue o fluxo e torce para conseguir dormir à noite, com a Polícia revistando nossa senzala, com a Polícia justificando a sua falha de matar um inocente a 15 balas, que acertaram de raspão no coração. E eles não são culpados, não. Culpada é toda esta nação, que culpa a gente de nascer em cativeiro, que não oferece educação ou mesmo emprego, onde os meus filhos eu tenho que fazer bem cedo para conseguir ver os meus netos nascendo já com esse olhar de medo. Porque até lá com 10 já pode ser preso, e vão recrutar cada vez mais cedo, e a arma que nos dão não é de brinquedo, e a vida roubada nunca foi segredo para ninguém. Porque favelado é tudo sem educação e não merece conviver com a sua estirpe de senhorzinho e sinhazinha, que o livro de história prega. Mas cada história é contada de um jeito e, enquanto enchem a cidade de bustos, de um monte de sujeitos ditos justos, vocês esquecem que há dois lados na moeda e que existe uma lei de causa e efeito, e essa é a única lei que existe na favela.

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Hozana Bidart (Rio de Janeiro, 1997). Encontra na poesia uma forma de desconstrução da LGBTfobia, do machismo, do racismo, de preconceitos sociais e culturais. Luta pela sua ideologia de que a poesia nasceu para ser acessível a todos, como uma espécie de voz e alento, sem perder uma delicadeza poética única. 1


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Rotas da lusofonia

E AS BORBOLETAS, ONDE SE ESCONDEM? por Emanuela Rodrigues 1

Troveja lá fora. Aqui, do lado de dentro, sinto prazer em ouvir o ruído dos trovões. Este som, acompanhado do frescor que anuncia chuva, remete-me ao conforto e à segurança que eu sentia quando chovia, em minha infância: Aquela sensação, jamais revivida, de que o lar é uma fortaleza e os pais são eternamente jovens e grandes. Até que súbita tristeza me acometa ao dar-me conta de que, lá fora, alguém não tem onde refugiar-se da mesma chuva que me conforta. Eu me cubro e penso nas gotas frias tocando o corpo de um vagabundo, de algum cachorro sem dono, ou de um menino de rua. Um fio de água cai, gota a gota, sobre uma superfície ruidosa. Não tarda para que o som intercalado se torne constante. O ruído não me soa incômodo. Ao contrário, me dá a dimensão da força física que um composto fluido adquire quando concentrado. É a metáfora viva sobre a força da união. O cheiro de terra molhada desperta em mim a nostalgia de tempos que sequer reconheço haver vivido, tempos em que a natureza era o meio ambientado. Contemplo as gotas que escorrem pelo vidro da janela. Parecem lágrimas de algum ser invisível, habitante de fora e de dentro de mim. As folhas de uma planta próxima estremecem-se ao menor peso de água caindo. Um pássaro pousa sobre o muro, pia algum comentário sobre o tempo, sacode o corpo intentando secar as penas impermeáveis, e segue voo. Pergunto-me se ele não terá frio. E as borboletas, onde se escondem? A paisagem acinzentada parece compor-se bem com meu estado de espírito. Sim, minha aura é cinza. Fecho os olhos e ouço o som da vida a reciclar-se. Especulo sobre o cheiro da chuva chorada nos campos de concentração nazista. Imagino a chuva ácida mergulhando nas areias de algum deserto. Penso em enxurradas, enchentes, rios transbordantes, bueiros entupidos e na seca do nordeste. Por que a chuva cai desigual, meu Deus? Quando criança, eu dizia que deveria chover todos os dias, mas só à hora de dormir. Hoje sei que toque de recolher é inapropriado à democracia. Deitada sob a coberta, desejo que a chuva caia até o fim do dia, seguido de noite, seguido de outro dia. Mas, ao fim da tarde, quando o sol já se prepara para despedir-se, a chuva se cala. Pelas grades do portão vejo crianças rabiscando sóis infantis no chão. São sóis sorridentes. As nuvens densas parecem comover-se com a inocência dos pequeninos. Sobre a fina cortina esfumaçada, um pálido brilho arredondado promete voltar resplandecente em momento certo, mas indeterminado. Ofendo-me com aquela presença que, falsamente, me corta a apreciada solidão. À noite, estrelas têm o brilho ofuscado pelo céu ressaqueado. Cadê a chuva aconchegante que o tempo me prometeu? Veio com hora certa para acabar. Nem tudo o que é previsível, é aceitável. Calço um par de sapatos fechados, agarro o guarda-chuvas e saio a caminhar. Eu gosto do cheiro de chuva, mas tenho medo de me molhar.

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Emanuela Rodrigues (Goiás, 1983). Escritora do livro Metamorphose de Sophia e fotógrafa responsável pela direção de arte da 4° edição do primeiro volume da Philos. 1


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CONTOS

Rotas da lusofonia

AS LENTES DA VIDA por

Thaís Amaral1

Um Natal de talvez 1997 entremeado pela novidade do vale-CD, com aquela tia baixinha vestida de Papai Noel e um abajur em forma de peixe de presente para sua vó. Uma tarde ensolarada no centro de Jaú. Aspirador de pó e tapetes sobre o muro em uma tarde de sábado, com os tios lavando o carro, as crianças correndo e as mulheres cozinhando na cozinha ao som de um pagodinho hoje desconhecido. O primeiro banho da irmã. O cachorro da sua infância, ainda filhote, quase do seu tamanho. O último dia de faculdade do seu pai. Sua formatura do pré-II. Você e seus primos brincando no quintal daquela casa que hoje já nem existe mais. Cenas como estas surgem de vez em quando para nos acordar, bem naquele momento em que se está procurando algum arquivo antigo numa gaveta velha e então depara-se com uma fita cassete intitulada “Cenas da Vida III”. Meu pai tinha essa mania de gravar o tempo na filmadora, super tecnológica para época, e nomear as fitas desse jeito assim, tão cru e vero. Assisti-las é sentir o tempo deslizar sobre os dedos das mãos num instante. É tentar ver no seu comportamento, aos cinco anos de idade, tentando abrir uma caixa de ferramentas, algum traço psicológico que se mantenha até hoje. Teimosia, autoridade, talvez até algum desrespeito e “Olha só, você ainda chora fazendo isso com a sobrancelha!”. É querer achar um fundo de personalidade quando já não se conhece mais tão bem assim. Tentamos encontrar um fundo de nossa própria personalidade em tempos em que se tem de tudo menos hora marcada para refletir sobre a própria vida. Closes intimidantes, olhares profundos, sorrisos roubados. Uma tarde de sol numa piscininha de mil litros quando você ainda nem sabia nadar, e encontra-se a paz novamente. Vozes infantis de pessoas que hoje já são até casadas, gente que já não vemos mais por motivos banais da rotina e do cotidiano, brigas de Natal e bate então aquela saudade de quem percebe que a vida pode ser muito curta para se perder tempo com certas coisas. Dinheiro, riqueza, fama, status: nada disso importa aos olhos das lentes que recordam os reais detalhes da vida, marcadas ainda com leves traços de cor à luz do sol, cores levemente desgastadas que dão o ar totalmente próprio da saudade e da nostalgia- coisa que os atuais filtros e programas de fotografia de celulares tentam imitar, mas que nunca chegará nem aos pés da naturalidade das lentes de antigamente. Elas captam as reais cenas da vida que se escondem por trás da banalidade do dia a dia. Afinal, é para isso que servem as lembranças: para reviver a importância daquele amigo tão especial que hoje você nem sabe mais onde mora, e pra quem você deveria ter ligado no aniversário mas não ligou por “vergonha de incomodar”. Porque a vida não passa no Natal, no Ano Novo, nas festas importantes, nos casamentos. A vida passa no cotidiano, meu caro, e saber perceber a importância desses momentos detalhados na aura da memória é para poucos os corajosos que aceitam enfrentar o desafio de encarar a morte a cada instante. É mais do que uma questão de carpe diem, use filtro solar. É sobre saberdosar o olhar, as palavras, dosar quiçá as pessoas e deixar de lado tudo aquilo que te embaça o olhar. Essa é uma das maiores mágicas da fotografia. Por mais clichê que isso soe, essas filmagens, fotografias, objetos e cheiros antigos, mesmo aqueles nem tão antigos assim, lembram que a vida da gente passa, que a gente passa, e que no fim nada mais disso tudo importa, além das pessoas e das relações em torno delas. Nada, absolutamente mais que nada, importa além do amor- que aliás um dia também irá passar, e ficará então marcado apenas nas fotografias guardadas em caixas antigas de pessoas que se perguntarão quem diabos são estes parentes distantes das fotos. Seremos nós, sorrindo pelo tempo, marcados pela nostalgia e imersos na nossa própria existência pontual dessa vastidão que continuará a fluir sem nós.

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Thaís Amaral (Mogi Mirim, 1993). Estudante de Biologia tentando dar mais espaço às palavras em sua vida. 1


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EXPERIM.

Rotas da lusofonia

D’ALMA por

Julien Karine da Rosa Hoff1

Faça um favor a ti mesmo: ouse brindar pelos risos incontidos que der, até mesmo quando o tempo ou as pessoas não estiverem a favor de teus atos. Brilhe, cante, dance, fale, ouça, brigue, discuta. Não importa o quão vago sejam as tuas palavras, ou quão descoordenados sejam teus passos, apenas tente. Não desista da vida, tampouco de percorrer o caminho que lhe parece viável traçar. Corra atrás do que quer, une a ti mesmo a serenidade, a paciência e a prudência que se faz ausente. Decida o que achar melhor, enfrente quem lhe for oposto. Se achas coerente fazer de teus dizeres história, guerreie. Transforme-se não em apenas um humano ou talvez uma máquina de recursos, mas seja além, um possuidor da sabedoria, dos dons da magnificação, da amplitude. Seja eufórico, brinde a ousadia, clame a Deus se ele existir. Peça, implore, chore, desabe em soluços e lágrimas. Engrandece-te nos pesares e cresça. Mude e evolua. Mas acima de todas as coisas que nos dignificam, seja você mesmo. Talvez sagaz, talvez rude, talvez incoerente, talvez tolerante, paciente ou então, frustrado, decepcionado. Negativista ou positivista. Seja tudo, seja nada, seja terno, seja denso. Seja simples, seja complexo. Mas, seja. E jamais se permita manter-se vazio por um longo período, não se mantenha estável. Mude, reorganize, ou então, apenas erre. Talvez caia, mas levante-se e siga em frente. Sozinho. Sem pesos e empecilhos.

Julien Karine da Rosa Hoff (Seara, 1994), escritora amadora e admiradora dos devaneios humanos. 1

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LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

AMOR À PRIMEIRA VISTA por

Rogelma Souza1

Era uma manhã de inverno, o céu estava nublado, as flores pareciam chorosas no jardim de sua casa, ela estava quentinha em sua cama confortável quando ouviu o despertador tocar as 06h00minutos. Embora ela gostasse do calor de sua cama, preferiu levantar-se para mais um dia de aula, principalmente porque era aula de sua matéria preferida: Matemática. Chamavam-na de “nerd”, pelo simples fato de ela se dar bem não só em matemática, mas em todas as matérias, conseguia boas notas só pelo seu esforço de estudar, não porque queria ser mais do que ninguém, esse era o discurso dos preguiçosos da sua turma. Ela não dava muita importância para todo esse falatório e continuava a curtir sua matéria, os números para ela eram como se fosse seus filhos, amava-os indiscutivelmente. Adorava os desafios que seu professor lhe dava para serem resolvidos, sentia-se fascinada por aqueles problemas considerados dificílimos, ela decifrava-os como um enigma, isso só fazia com que ela se apaixonasse mais ainda pelos cálculos. Certa vez, quando estava na biblioteca da sua escola resolvendo seus cálculos matemáticos, era lá que se sentia mais segura, o silêncio lhe proporcionava uma paz para que pudesse resolver com calma cada operação. Não percebeu que do outro lado da biblioteca, estava acontecendo uma roda de leitura, lá estavam sendo declamadas as mais diversas poesias, dos mais diversos poetas, desde Carlos Drummond, Fernando Pessoa até o sensualismo de Florbela Espanca. Ela ouvia as poesias atentamente, esqueceu até de seus cálculos, por um instante, aquelas palavras soaram como músicas aos seus ouvidos, pôde sentir uma sensação de prazer indescritível, cada palavra declamada lhe causava arrepios, fechou os olhos para se imaginar naquelas poesias. Foi amor à primeira vista, pensou ela. Levantou-se de sua cadeira e caminhou até a roda do grupo de leitura. Havia um banco vazio e resolveu sentar-se devagarzinho para não atrapalhar. Mas um rapaz que a viu se aproximar, chamou-a para participar, ela ficou um pouco apreensiva, pois não tinha muito contato com as palavras, gostava de ler, mas não tinha nenhuma intimidade com livros de literatura. Lia com entusiasmo apenas os enunciados das questões de matemática. Mesmo assim, aceitou e leu uma poesia que lhe indicaram. Começou a ler baixo o primeiro verso. A cada palavra declamada, uma onda de excitação lhe invadia o corpo. Aumentou o tom da voz nos versos seguintes, sem perceber, se encontrava de pé, gesticulando, andando de um lado para outro, franzia o cenho em uns versos incrédulos, sofria com os pensamentos descritos, sorvia cada sentimento escondido naqueles versos poéticos. Ao terminar de declamar as últimas palavras daquela poesia, estava deitada no chão, extasiada, anestesiada, fascinada. Lágrimas de emoção escorriam pela sua face quente. Naquele momento, pôde sentir as mais belas sensações que as palavras causavam a quem lhe admirava. Despertou do seu êxtase com o barulho dos aplausos daquele grupo, todos sorriam admirados para aquela jovem que há pouco fez amor com as palavras e nem percebera. Ela levantou-se e deu sorriso, meio envergonhada, se ajustou no banco e não conseguiu falar nada, apenas segurava aquele livro com toda sua força, abraçava-o como se estivesse abraçando um amante, como uma mãe abraça um filho amorosamente, como a princesa que encontrou seu príncipe. Ela não sabia, mas essa experiência com as palavras seria a primeira de muitas que estavam por vir. A ponte apenas foi construída para novos caminhos serem percorridos. Uma nova jornada de encantamento poético se iniciava. O amor que sentia pelos números, agora teria que ser dividido com as palavras.

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Rogelma Sousa (Itapipoca, 1987). Graduanda em Letras pelo Instituto de Estudos e Pesquisas do Vale do Acaraú, professora de instituição privada. Amante da leitura, apaixonada pela vida, lê nas horas vagas e escreve por inspiração, autora do conto Amor à primeira vista. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

A ARTE DE CORRER PEGANDO FOGO por Nathalie Lourenço

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Era você quem tinha ficado de trazer a gasolina. Eu te esperava sentada na beira da piscina vazia, que meu pai tinha deixado secar porque achava que eu não nadava o suficiente. Eu gostava da piscina vazia mais do que quando ela era cheia. Era como um quarto secreto, subterrâneo e, por um tempo, foi o nosso quarto de casal, suíte-lua-de-mel-presidencial onde deixei você tirar minha calcinha pela primeira vez, confiante no poder hipnótico da novela que passava na sala. Mesmo com o moletom grosso e a meia calça por baixo da calça jeans, o frio do piso gelado se infiltrava até minhas coxas, fazia os meus dedos endurecerem e azularem. Você tava demorando. Fiquei culpada de não ter lembrado de roubar dois ou três litros do tanque do Corolla antes dos meus pais saírem para Ubatuba. Lembro de imaginar a cara deles, voltando do feriado e encontrando nossas cinzas misturadas no fundo da piscina. Lembro de sorrir. Fantasiar o arrependimento dos dois em me proibir de ver você, em dizer tanta merda sobre “mundos diferentes”. Como se o Grajaú fosse marte. O pai queria fazer você ser expulso da escola e, quando não conseguiu, ameaçou chamar a polícia, ia dizer que você tinha roubado uma porcaria qualquer. Mas agora eles iam ver. Iam ver que não era uma fase não. Que eu não estava querendo chamar a atenção. Você queria fugir, mas eu achava que morrer era mais bonito. É a vida que estraga o amor. Meus pais não se amavam porque estavam vivos. Os anos vão desgastando o amor, deixando ele laceado, frouxo, imprestável. Levou um tempo para você querer morrer também. Tinha que ser junto, senão não adianta nada. Foi só depois que o pai te humilhou na minha festa de aniversário, mandando você toda hora buscar cerveja para ele, te trazendo os guardanapos sujos e os copos vazios, só no fim da noite que você tirou o boné, olhou pro chão e disse que sim. A campainha tocou. Corri pra abrir a porta para você. A porta da frente. Você estava bonito, de casaco de Nylon e cheirando a gasolina, um galão grande pendendo da mão. Te deixei descansando na sala enquanto eu arrumava tudo: o uísque gold label com os copos de cristal, os dois isqueiros BIC coloridos novinhos, o maço de cigarros que comprei junto com eles. Nenhum de nós fumava, mas tive pena dos isqueiros, deles serem usados apenas uma vez. Bebemos metade da garrafa. Os cigarros, só conseguimos fumar um. Eram muito ruins. Trepamos na mesa da cozinha e no tapete da sala e na cama dos meus pais e em cima da máquina de lavar e na pia do banheiro. O frio poupou as plantas do jardim. Era a nossa festa de casamento. Eu me sentia grande, como se o mundo estivesse guardado em mim e tentando escapar. A gente se olhou por muito tempo. Você tremia. Eu derramei gasolina em você, no rosto, nos ombros, deixei escorrer pelas suas pernas. Você fez o mesmo para mim, e a violência do cheiro e do frio colando minhas roupas no corpo me fez despertar. Descemos os degraus da piscina com os isqueiros na mão. Conseguia, pela primeira vez, ouvir meu sangue correndo sem descanso dentro do corpo. A gasolina gotejava da minha mão, do meu cabelo. Você tremia. Eu apertei a sua mão. Esse era o nosso final feliz. Polegares a postos na alavanca do isqueiro. Se não for ao mesmo tempo, não vale nada. 3, 2, 1, click! O meu dedo escorregou. O seu, não. Você se acendeu por inteiro, ficou vestido de chamas. O grito foi horrível. A voz não parecia sua. Acho que você entendeu que estava indo sozinho. Não era tarde pra ir junto, o isqueiro, minha mão. O sangue pulsando nos meus ouvidos. Não quis. Tentei subir pela borda da piscina e correr para buscar água, ajuda, um extintor. A chama explodiu na minha perna antes de eu sentir o seu corpo encostar no meu. Corri com a labareda no calcanhar, tentando me alcançar, como a sua mão tentando me puxar de volta. O fogo me seguia, deixava rastros, se dependurava nas cortinas, populava os tapetes. Quando consegui entrar no chuveiro, as chamas tinham subido até o quadril. Encharquei duas toalhas e corri de volta. Você tinha parado de gritar. Sua fumaça subia do fundo da piscina. Chamei a ambulância, não os bombeiros. Queria ver a casa queimar. Me arrependi de não ter a coragem de ir com você. Mas aqui na prisão não me deixam chegar perto de nada inflamável. Não tem problema. Agora eu aprendi a fumar. Isso eles deixam, desde que um guarda acenda para mim. Então espera mais um pouco. Estou me incendiando, um cigarro de cada vez.

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Nathalie Lourenço (São Paulo, 1984). É redatora publicitária e tem contos publicados nas revistas Flaubert, Vacatussa, Parênteses, Blecaute! e Quincas. Também é parte do coletivo literário 9s/fora. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

BENEDITO por

Flávio Costa1

Benedito sentia vergonha das mãos, retornadas à maciez da primeira infância porque estava aposentado. Esfregava as palmas contra o ralador da cozinha e, sob qualquer pretexto, feria o quintal com uma enxada velha. Os olhos pretos e pequeninos visualizavam uma rua de canos de esgoto à mostra; não, não essa em que vivia triste desde a volta. Naquela outra rua tão feia e tão mais suja, vivia feliz e tinha bem menos do que tem. Suspirava por toda uma cidade cada vez mais distante, onde aprendera aquele jogo esquisito e sua força era requisitada. Os calos encaixavam nos bastões lisos e ele rebatia mais forte do que qualquer um. Aqui ninguém entendia como é que se jogava, aqui ninguém entendia a necessidade e o prazer do combate, aqui as missões acabaram, pensava Benedito. – Não faça nada. Já volto. Não mexa em nada. Não saia do lugar. A mulher saiu para comprar os ingredientes do cozido. Benedito gostava de mastigar um pedaço de carne de sertão, lambuzado no caldinho, ao mesmo tempo em que a língua dissolvia uma batata macia. Salivava. Mal as pernas tatuadas pelas varizes saíram de seu campo de visão, Benedito levantou-se, deu dois petelecos na gaiola do bem-te-vi derrotado pela canícula; o silêncio do pássaro o irritava. Saiu da varanda em direção ao quintal, nos fundos da casa. Pegou um porrete repleto de calombos ao pé de carambola. Era o cabo sem a lâmina da enxada. Deslizou-o por entre as mãos. A ausência dos calos o impedia de segurá-lo com firmeza. A puída bermuda de algodão ameaçava escorregar pelas pernas finas. Puxou-a até a ponta da barriga oval e endurecida. Quando finalmente ajeitou-a, fez aquele movimento pendular. O porrete criou uma fenda no ar e ele recordou que o céu de Havana, em julho, era tão límpido como o de Salvador, em janeiro. As mãos estavam menores, disso ele tinha certeza. O rim direito acusou uma pontada; olhou com desgosto para o caramboleiro. Nem tudo que se tem veio de coisa errada e nada pode ser dado. Ele aprendeu quando voltou. É preciso ensinar essas coisas. Decidiu se esconder atrás do tanquinho, no fim do quintal. Poucos minutos depois, Cotinho surgiu trotando sem camisa. Usava um short preto curto e manchado de lama. O peito afundado estava coalhado pelo pano branco. Ligeiro posicionou o corpo em perfil, o cotovelo direito servia como mira, e a brita zuniu feito bala até alvejar uma carambola. A munição estava aos pés descalços. Cotinho agachou-se rapidamente, pegou outra brita, cuspiu nela, estancou de perfil, mirou e… acertou outra carambola. A mão esquerda catou as duas carambolas. Cravou os dentes amarelados nas amarelas hélices agridoces. O sumo banhava o peito do menino. Só era gostoso comer muito rápido. Só era seguro comer muito rápido. – Pivete! As carambolas são minhas! Benedito surgiu por detrás do tanquinho com o porrete em riste. – Só comi duas. – É tudo meu, filho da desgraça! – O senhor nem come. Nem gosta… O senhor é gente ruim! As mãos de dedos longamente tortos deslizaram pelo porrete. Em Havana, dizia-se que ele era capaz de rebater uma bola até bem depois do Malecón tão distante. Benedito ajeitou os braços como um pêndulo. Abriu a boca de gengivas enegrecidas sugando o ar. Cotinho agachou; uma brita na única mão. Uma hora depois, a mulher encontrou Benedito esparramado de costas, sob o resguardo da sombra do caramboleiro.

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Flávio VM Costa (Salvador, 1983). Poeta e escritor. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

BALAS, CHICLETES E SALGADINHOS por Pâmela Côrtes

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Moça, me dá um salgadinho desses», passa ele trôpego e maltrapilho, um trapo humano que ainda

«

vagueia. Embora seu olhar não acompanhe o movimento, ele passa e pede um salgadinho. Não dou não, diz ela aflita, com as mãos nervosas e suadas, passando-as pelos salgadinhos do carrinho e protegendo suas moedinhas de todo dia. Não dou não, foi o que ela disse com a boca crispada e sem olhar nos olhos dele. Outra consumidora, com salgadinhos nas mãos, oferece-lhe um. Já havia sujado o suficiente os dedos com farelo amarelo e com o excesso de sal dos salgadinhos baratos, que mais pareciam isopor com corante. Pode ficar com um meu, disse ela. Ele sai, pernas bambas sob a força do álcool, sob a força do mundo, das responsabilidades, desabando sob a força da solidão. Ele e o salgadinho vão embora, trôpegos. Ele mantendo-se em pé por um equilíbrio quase sobrenatural e o salgadinho ficando pelo caminho a cada bambeada. Se ele tem dinheiro para cheirar e para beber, ele tem dinheiro para comprar um salgadinho, diz a senhora sem muita convicção, olhando ainda do chão para o carrinho de balas, angustiada e pesarosa por não ter podido oferecer o salgadinho. Um pouco mais resoluta, com voz de quem se convence com o argumento, diz: fica aí gastando o dinheiro com porqueira, pode comprar comida da minha mão. O ponto de ônibus está cheio, há muita gente, e é preciso vender as balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos. Ela não diz, mas pensa, justificando sua recusa. É preciso ganhar a vida. Olha, minha filha, tenho 63 anos e já vivi muita coisa. Eu mesma empurro meu carrinho, ando quase uma hora com ele para poder vender minhas coisas neste ponto. Se ele quisesse, faria como eu: compraria umas coisas e as venderia e teria dinheiro né, ela conversa com a moça sentada no ponto de ônibus, a do salgadinho, embora no fundo ela tenha começado um diálogo com o passado. Eu sou da época em que se valorizava o trabalho. Minha mãe e meu pai trabalharam duro. Não era como hoje em dia que esses marginais acham que podem viver assim, não. A moça que aguardava o ônibus rende o assunto, essas conversas que se tem ao longo da vida, mas que quase nunca se dá importância. Embora muito provavelmente seja importante para uma das partes, decerto não o é para a moça que só aguarda seu ônibus passar, doida para chegar em casa no domingo à tarde, ver a família, talvez ainda dê tempo de assistir um pouco de televisão, mas ela diz: é, minha mãe fala mesmo que era muito diferente, né. Ô minha filha, eu ainda me lembro de quando eu tinha 15 anos. Era mamãe quem penteava meu cabelo. Tinha muito cuidado a mamãe. Esse tópico não tem nenhuma relação com o salgadinho, mas é preciso compreender que o diálogo é com o passado, e não com o ponto de ônibus. Na minha época, a gente usava um vestido rodadinho assim, e ela mostra na cintura o pregueado do vestido, era de uma chita bonita, de flores, não tinha isso de usar calça não, só calça de pijama, ela diz, e repete o gesto do vestido como se pudesse vesti-los naquele momento, o vestido e o passado. Mamãe sempre dava um jeito de comprar uns vestidos bonitos, ou então ela mesma os fazia. O ponto de ônibus é um espaço rotativo. A essa hora, quem acompanha já não é mais a moça do salgadinho, mas a que estava sentada logo ao lado, com a filha de uns 8 anos, também sentada, com os pés balançando sem alcançar o chão, tentando entender o vestido de chita e o mundo do trabalho de antes. Não havia essas coisas de colocar no cabelo, não, a gente usava laço de fita, ela tenta explicar para a mocinha como era o outro lado da conversa, o muito tempo atrás que a espreitava ali e agora. Você acredita, hoje em dia, a minha filha quer sair para uma festinha e quer usar salto alto, veja só, a infância não é mais como antigamente, faz o seu papel a mãe que aguarda o ônibus, quem sabe a situação não lhe permite um momento de educação e repreensão da filha, boas mães não perdem a oportunidade. Ela quer usar salto alto e maquiagem, vê só. Mas a senhora não quer ver, não quer entender, ela ainda está tentando ajustar o vestido e o laço de fita. Ela ainda quer percorrer todos os quilômetros rodados com aquele carrinho para vender suas balas. Ela quer fazer o trajeto de novo. Desta vez, com os cabelos penteados pela mãe e com um lindo laço de fita que os segura no lugar, já não sei mais se o cabelo e o passado. Nesse momento, a veste é do corpo e da alma, é como

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se calçasse a dor da solidão com os tamancos baixinhos que ela usava quando criança, e não com salto alto. Ela queria apenas que a mãe voltasse a penteá-la. Quem sabe quisesse afugentar esses perigos da venda a que está submetida, como ter de negar comida a um bêbado ou suportar a rotatividade do ponto de ônibus que insiste em levantar e se ausentar e se sentar e soltar meia dúzia de palavras sobre o clima e o passado idealizado antes de se assentar numa poltrona e seguir viagem, ela queria usar seu vestido de chita que era rodadinho assim, e ficar sentada, com os pés balançando sem alcançar o chão, pedir bala para a mãe e ouvir a mãe negar dinheiro. Ela leva o mundo naquele carrinho, embora só venda as balas, os chicletes, pirulitos e salgadinhos. Ela anda quase uma hora com o mundo inteiro ali, naquela caixa de isopor, que também leva refrigerante e água mineral. Ela recarrega a bateria do mundo todos os dias ao reabastecer com a bala preferida do ponto de ônibus, provavelmente aquela que se paga com o troco da passagem. Ela reabastece o mundo inteiro todos os dias. Ela encara o mundo de frente a cada vez que diz não a um pedinte. Ela carrega 63 anos de história, de solidões, de decepções, de dores na lombar. Mas ela queria mesmo era passear com o vestidinho de chita, com o mundo todo à sua frente. Sem carrinho, sem pedintes, sem ouvintes desatentos. Ela, o passado, o vestido, o tamanco baixinho e o laço, servindo de veste para o ponto de ônibus, deixando um pedacinho de solidão com cada um dos viajantes, muito além das balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos. Muito além.

Pâmela Côrtes (São Paulo na teoria, Minas Gerais na prática, 1989). Colaboradora da Philos, é mestre e doutoranda em Direito. Atriz e dramaturga. 1

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LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

CONTAS SAGRADAS por

Aidil Araújo Lima1

Minha mãe era uma mulher dura, de força moral, de respeito. Ela não falava de meu pai, que a deixou bem cedo. Ainda éramos bem pequenas. Vivíamos as três na casa, eu, minha irmã e minha mãe. Minha irmã seguia os passos de minha mãe, acompanhava-a na missa, nas compras. Eu vivia em um mundo distante das certezas de minha mãe. Ela tinha certeza de muita coisa, eu me calava, silenciava as certezas que davam vida à existência de minha mãe. Quando criança, depois da partida do sol, sabia que a noite chegaria. Muitas vezes, o céu tinha pontinhos brilhantes. Algumas vezes, buscava por esses pontos e eles sumiam. O medo se aproximava de mim. Pensava nas histórias que minha mãe contava de assombrações. Escondia-me sob a coberta e, assim protegida, eu adormecia. Em vésperas de domingo, minha mãe escolhia a roupa da missa. Lembro que gostava de sentir seus dedos acariciando os vestidos, como se admirasse a vida, como se cada vestido tivesse a lembrança de um tempo que ela guardava escondido. Entre um vestido e outro, avistei uma caixa amarrotada pelo tempo. Ninguém nunca teve ocasião de ver o interior da caixa. Quando perguntei o que havia lá dentro, ela disse serem documentos da casa. Que era uma caixa importante, não poderia ser mexida. Certo domingo, depois de minha mãe e minha irmã saírem para a missa, minhas mãos foram ao invés da obediência. Mesmo sabendo que elas ainda se devotavam, fui pé a pé ao quarto de minha mãe. Uma lufada de vento abriu a porta do guarda roupa num convite secreto. Peguei a caixa com zelo, com medo que se desmanchasse nas mãos trêmulas. Abri a caixa… umas flores secas, papéis e um colar de contas azuis. Meu corpo se arrepiou quando toquei nelas, uma energia forte, era algo sagrado, instintivamente pedi licença e levei para meu quarto. Escondi em lugar invisível. Quando dei por mim, havia crescido, era gente grande. Minha mãe ainda no controle das contas, da vida, minha irmã estudando longe. Um dia vi uma estátua de bronze. Lembrei que lá em casa havia uma parecida, uma das obras que meu pai deixara. Interroguei a minha mãe e ela disse que eu estava inventando coisas que nunca existiram. O pensamento dela escolhia as lembranças, ganhou liberdade. Ela rejuvenesceu o pensamento, perdeu a frieza, perdeu as certezas. Uma noite, em seu quarto, sentadas na cama, conversávamos. Ela disse: “menti o tempo todo, nunca tive nenhuma certeza na vida, era uma necessidade de ter firmeza para criar as duas filhas. Agora, te falo, livre dos valores que me forçaram a fugir da passividade. Não devemos criar raízes, pois a vida nos interrompe num vai e vem do tempo, trazendo lembranças que estão escondidas na caixa”. Levantou-se vagamente, sem nenhuma pressa, pegou a caixa e deu ocasião às lembranças, fotos de meu pai, cartas de amor, flores secas, um lindo vestido amarelo. Só faltou o colar de contas azul. Confessei minha traquinice de menina. Corri ao meu quarto. “Esse colar, minha filha, foi o que restou comigo da crença de seu pai. Esse azul representa o orixá que a acompanha desde o seu nascimento. Não respeitei sua mãe-do-corpo, desencantou-se de mim e partiu. Lembro-me de você dentro do meu corpo, protegida pelas águas. Fui a um terreiro com ele. Seu corpo balançou bem forte dentro de mim quando Ogum, o orixá da justiça apareceu, tocou em meu ventre e disse — “essa é minha filha”. As coisas que aprendi com o mundo em que eu habitava eram crenças que segui sem entender muita coisa. Nunca questionei, acreditando ser o único caminho a ser percorrido em busca da luz. Passei dias de trevas quando seu pai se foi. Andei buscando um rumo, voltei à missa. A dor me abriu entendimento, arrependimento e muita saudade. Sabe, filha, hoje tenho uma certeza que a vida me ensinou, ela nos guia para lugares de nossa vontade”. Passados os dias, fui à procissão de encantados, chamada de Boitá. Meu coração se abriu ao me deparar com o meu orixá. Senti certa familiaridade. Lembro-me de tê-lo visto nos meus sonhos. Certa vez, ele me livrou de uma agressão. Andava distraída quando me vi diante de um atacante. Foi quando ele apareceu. Era um homem de roupa azul, tinha duas espadas no corpo. O rapaz fugiu assustado e eu pensei que era uma visão sem realidade, nascida do medo. Mas agora ele está aqui pertinho de mim e me abraça. Esqueço o medo da noite escura. Encontrei um novo prazer: sair pela noite admirando estrelas e vultos luminosos.

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Aidil Araújo Lima (Cachoeira, 1958). Autora multipremiada, participa de diversas antologias nacionais. Recebeu Menção Honrosa com o conto Resistência e é também uma das cinco premiadas na Feira Literária Internacional de Serra do Itapeti, é participante da Antologia Jubileu de ouro 2015. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

210693 por

Leonardo Richner1

Por último, decide andar até o metrô. Tira o cigarro torto do maço amassado. Traga, embirrando com o pulmão e sente a febre do corpo inflamado de ressaca. Uma dor na nuca, evita olhar para os lados. A rua espirra gente, amontoa cheiro. Na porta da estação, uma barraca de cachorro quente fumegando água de salsicha; do outro lado, a velha de lenço na cabeça estende a mão grossa. À frente, o vendedor oferece quinquilharias: corrente de metal vagabundo, móveis em miniatura feitos de arame, lanterna, chaveiro, Papai Noel do Paraguai que acende a vela presa na mão Ho! Ho! Ho! E o cachorro movido à pilha que late, late, late e dá cambalhota. Prende o cigarro com o dedão e o dedo do meio. Arremessa numa só tacada para fora da calçada. Enfia as mãos no bolso. O vendedor fala, refala, explicando as muambas. Compra o cachorro. Sobe as escadas da estação. A sacola de plástico azul batendo na perna. Senta e coloca a sacola com o cachorro entre as pernas. Encosta na janela e o galo na cabeça estala e o afasta. Não sai nunca. Desde a pancada. No banco da frente, lateral, percebe a intenção de uma conversa. Um gordo, com os botões estourando a camisa azul esgarçada pela barriga, segura um folhetinho. Nossa senhora de Guadalupe. Já no “Posso Te Fazer Uma Pergunta”, a mão com desenho de cruz, salmo e ramo de arruda interrompe uma possível conversão religiosa. A bobeira de querer ser moço novamente. Moço para beber sem doer a cabeça ou enjoar o estômago, para andar insone pela rua, moço para cheirar pó barato sem os brônquios chiarem, como estão agora, sem adormecer a ponta dos dedos, como sente agora. Ser moço para meter em todas, gozar com o mesmo prazer do primeiro jato de porra da primeira punheta. Ser moço e não ter passado pesado nas costas, tatuagens feitas à força ou escolher os desenhos, pelo menos. Ser moço para não ter de olhar tudo e ver só passado. No espelho, o cabelo branco saindo do couro cabeludo aqui, ali, e mais aqui. Ser moço novamente. Quem precisa de cabelo branco? O trem sai do túnel. Considerando que o Conselho de Sentença, ao apreciar a primeira série de quesitos, referente ao crime de homicídio qualificado que vitimou Silmara Queiroz de Almeida, reconheceu a materialidade e a autoria delitiva; inspira fundo. O estridor no peito. O gordo ouviu. Tenta decidir entre andar todas as estações. Ida e volta. Para aonde ir primeiro, visitar quem? Tira o cachorro da sacola. Um leve sorriso involuntário no rosto. A porta abre e fecha. Não entra ninguém. Esqueceu que hoje é feriado. A luz do trem pisca. Considerando que o Conselho de Sentença não absolveu o acusado; ajeita o corpo no banco. Difícil achar posição. Banco duro. Fazem de propósito. Assim, ninguém fica tempo demais sentado. O ar abafado começa a suar na sobrancelha. Que diabos! Tira o casaco. Um furo debaixo do sovaco. Nem percebeu. 210693 no pulso. O aniversário. Do outro lado, “Deus Tudo Pode” embaralhado numa cruz, perto de uma sereia com a cauda que vai até o ombro, desce para o peito, na águia nazista. De onde o gordo está, só dá para ver a cabeça. A suástica fica mais pra baixo. Desfigurada de queimadura. Considerando que o Conselho de Sentença não reconheceu que o réu agiu sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima; o trem chega à estação Tietê. Levanta, o apito da porta fechando e a sacola com o cachorrinho à pilha quase se prende ao fechar. Passa a catraca. Entra na rodoviária. Repara aqui, ali, mais outro lá e mais outro. Todo mundo olhando. Uma senhora passa e fecha o casaco com as mãos. Idiota, tem medo até de pernilongo. Tira do bolso o dinheiro, uma nota de dois rasgou-se na ponta. Considerando que o Conselho de Sentença reconheceu que o crime foi cometido por motivo torpe; Embola o casaco para servir de travesseiro. Olha as imagens rápidas como quem não vê nada. Tudo novo. A tatuagem “Amor Só de Mãe” nas costas coça. Não dá para alcançar. Que vida! Ir sem rumo. Enfia a mão no bolso e retira o documento: DIP/SP2905-06/10741. Sente a coluna doer. Tenta endireitar-se na poltrona. Sente o estalo. O corpo todo quebrado. O cu dói. Redói, ainda da despedida. O ônibus sai de São Paulo. Considerando que o Conselho de Sentença reconheceu que o crime foi cometido com emprego de meio cruel; anda pela calçada da praia.

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EXPERIM.


A brisa meio morna, meio laranja. Bate a sacola na perna. É outro ar. Sem suor da cambada. Sem bafo de cárie. Sem cheiro de vômito. Sem cheiro de mijo. De bosta socada com o pau. Sem cheiro de gente desgraçada. Encontra um pedaço de sol caindo. Fecha o olho e deixa bater na cara. Sol sem ser quadrado, sem as sombras das linhas das grades. Sol amarelo, quente. Considerando que o Conselho de Sentença reconheceu que o crime foi cometido mediante recurso que impossibilitou defesa das vítimas; senta no banco. A linha de mar à frente. Coloca a sacola do lado. Desamarra o cadarço. Tira a meia e guarda dentro do tênis. Sente os grãos de areia no chão. O chão. Quente de sol. O concreto morno. O cu para de doer, o fogo nas costas apaga. O pulso coça 210693. O três torto cai para a direita. Os pés no chão. Considerando que o Conselho de Sentença reconheceu que o crime foi cometido contra pessoa menor de catorze anos; em quinze anos. A primeira delicadeza: a onda molha o dedão do pé. Um arrepio sobe. A perna meio bamba. Deixa a cabeça cair para trás e ouve a lembrança do menino falando “Me dá Um Cachorrinho Papai”! Pelo exposto e considerando a vontade soberana do Conselho de Sentença, condeno o réu Carlos Queiroz de Almeida. O sol se esconde no céu roxo. Acinzentando. As nuvens grossas. Vai chover daqui a pouco. Silmara pede “Por Favor”! Silmara fala “Não Foi Eu Quem Pegou O Dinheiro”. Silmara explica: “Eu Num Tava Fugindo”. Silmara grita: “Pensa No Menino”. A faca entra. A pele na lâmina parece papel. O estômago enche de sangue. A faca sai. Entra. Sai. Entra. Sai. Entra. Sai. Entra. Sai. O sangue gruda poucos segundos depois. Melaço escorrido no cabo e na mão (em relação a vítima Silmara Queiroz de Almeida). Água fria. A sensação de que isso aqui é vida. O mar encostando na pele. O mar, e não pele suada, ranço de sujeira grudando nos pelos, respingo de baba no rosto, porra vazando do cu, sangue espirrado na testa. O mar. O mar encostando no primeiro milímetro. Abre os olhos. (em relação a vítima Ryan Queiroz de Almeida). Ryan acordou. “Papai Você Trouxe Meu Cachorrinho”? Aniversário de seis anos. Levanta da cama. Os braços abertos. “Papai, Meu Cachorrinho”. O pijama do Frajola. A cara de traição de Silmara. O quarto turvo. A faca corta as cordas vocais. Um engasgo. Corta os tendões, veias, artérias do pescoço. A cabeça cai para trás. Um engasgo. O Frajola molhado de sangue grosso e escuro. À pena privativa de liberdade de 44 (quarenta e quatro) anos e 06 (seis) meses de reclusão, no regime inicialmente fechado, o que faço com fundamento no artigo 386, inciso I, do Código de Processo Penal. Tira o cachorro da sacola. Vira o botão para a direita. Começa a latir. Uma. Duas. Três vezes. Uma cambalhota. Volta a latir. Tira do bolso o documento. Livre! Deixa cair na areia. O padre perguntando: “Está Arrependido Do Teu Pecado Meu Filho”? Já nem dá para ver o fim do mar perto do céu. Escureceu. O padre contrai os lábios. Olha para trás, aquele quadrado de janelinhas. Joga o casaco no chão, o portão da penitenciária abre. Publicada no Salão Nobre do Tribunal Popular do Júri da Comarca de São Paulo/SP, aos 20 de agosto de 1999, às 17h30min, saindo as partes intimadas para os efeitos recursais. Registre-se. Cumpra-se. Água limpa. O corpo imerso na primeira água do mundo. Sal e Deus. Prende a respiração. O menino tenta abraçar o pai. A água batendo no queixo. Afunda no adeus. Na areia, o cachorro late. Uma. Duas. Três vezes. Dá uma cambalhota.

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Leonardo Richner (São Paulo, 1981). Publicou o livro de contos “Você, que nunca mais apareceu” pela editora Penalux. Também publicou com o coletivo 9s/fora o livro de contos “Nove História – Nove Autores”. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

DESAMOR por

Vagner Silva1

Admito que, de fato, você mudou muito. Mas, parece que se esqueceu de uma coisa: eu também me metamorfoseei. Então, vir com todo esse discurso, que permeia o arrependimento e se debruça na sua falta de maturidade, não vai mais funcionar comigo, com o meu novo eu. Só estou te ouvindo agora, porque ainda resta certa consideração. Realmente, não sei o que passou pela sua cabeça quando resolveu sair, desvairado, por aquela porta. Porém, mesmo com esse desconhecimento, vejo que não sopesou as consequências das suas falas e ações. Naquele dia, eu fiquei te esperando por algumas horas… Ai se você retornasse a tempo… Com certeza, receberia o meu perdão. Fico extremamente incomodado em ouvir que a nossa atual situação se concretizou em razão da ironia do destino. Não adianta, neste momento, torná-lo culpado. Na realidade, o destino é coerente. Ele rege as nossas vidas conforme o fluxo de verdade que exalamos na terra. Ele traça o nosso caminho equacionando os elementos x, y e z contidos no nosso ser e estar no mundo. Aliás, o mundo dá voltas, meu caro! O luto é superável. As lágrimas, um dia, secam. A ausência deixa de ser sinônimo de dor e passa a ser de livramento. A autoestima se reestabelece, é fortalecida. A vida nos presenteia com alguns ombros amigos. Ou, simplesmente, nos surpreende com um novo amor. Caso reatássemos a nossa relação hoje, tudo seria diferente entre nós… O beijo irreconhecível. O abraço distante. O sexo forçado. A nossa união já não se justificaria. E o “Eu te amo” deixaria de ser representativo dos meus sentimentos. Portanto, reconheça, o desamor é a melhor decisão.

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Vagner Silva (São Lourenço, 1994). Graduando em Direito e bolsista do Programa de Educação Tutorial Institucional (PETI) pela UFLA. Publicou, em 2015, o poema “Mudo (n)o mundo” no livro “15º Concurso de Poesias”, organizado pela CNEC de Capivari/SP. Colaborou com a Revista Subversa e a Revista Philos. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

ABANDONO por

Vinícius Pereira1

Há dias que estou sem uma boa ideia ou alguma alternativa para dar sequência ao meu livro. Em outras épocas, era tudo mais fácil. As palavras surgiam todas de forma desordenada. A mim só restava dar algum sentido a elas, e isso eu conseguia de um jeito todo particular e compulsivo, sem pontos, sem traços ou parágrafos. Acho que foi na sexta-feira que começou esse bloqueio. Acordei com a ressaca habitual, caminhei em direção à cozinha, tomei um café puro, apanhei um cigarro, acendi-o e o traguei bem lentamente até que a fumaça atingisse, em cheio, os meus pulmões. Voltei ao quarto com os pés descalços, e pus-me diante da máquina de escrever. Olhei para ela e, em seguida, desviei meu olhar às paredes por alguns minutos, esperando as palavras chegarem como de costume. Mas dessa vez elas não vieram. Já tive algum prestígio com meus textos. Ascendi rapidamente a um patamar desnecessário. Escritores, poetas, até mesmo músicos da época diziam que meus textos “exalavam sentimentos”. Nunca tive pretensão alguma de obter sucesso, reconhecimento, fama. Nunca me deixei levar por tudo isso. Eu continuava a agir da mesma forma de quando eu era um garoto magro, com o cabelo espesso e cheio de espinhas pelo corpo, um garoto irônico e contestador que não agia sobre convenções, condicionamentos ou pretextos. Decaí na mesma velocidade e proporção em que tive minha ascensão. Mergulhei de cabeça no ostracismo, o que, de certa maneira, me pareceu muitíssimo mais um alívio do que um dolo. Aprendi, desde cedo, a conviver com os erros, muito mais do que com os acertos. Acho que isso se deve ao fato de eu não aceitar as imposições a que era submetido. De uma forma ou de outra, eu sempre conseguia sair das mais diversas situações. As palavras sempre me apeteceram. Traziam-me conforto e paz. Foi delas que eu mais senti falta em minha vida acadêmica. Por algumas circunstâncias, acabei trocando-as pelos números. Todavia, sempre as levava paralelamente junto às minhas funções. Mantive-me preso, por conta própria, durante quatro anos. Elas nunca me abandonaram, nem mesmo no momento em que decidi largar tudo do vazio cíclico em que me encontrava. Agora, aqui absorto em meus pensamentos, tentando entender o porquê me faltam, ao mesmo tempo em que tento encontrá-las, vejo o quanto elas foram gratas comigo. Proporcionaram-me descobertas intangíveis e atenderam as minhas necessidades transcendentais. Despretensioso, poético e – liricamente – credito a elas a minha permissão para o amor. Em determinado instante, julguei conveniente materializá-las, transformá-las fisicamente, demandar uma vida comum a dois, mesmo que de forma simbiótica, deixando de lado as intransigências, pautando-me no sentir subjetivo. Decididamente, entreguei-me, desenfreei-me sem cautela, abdicando das estabilidades. Irrestrito, desloqueime vagarosamente, despindo-me de suposições receosas, sobretudo à noite, hora em que as angústias e mazelas batiam contundentes, intensificadas com o mais alto grau de veemência. Fui sacado das divagações ininterruptas, mares cheios. A porta se abrira. Espreitei-a com grande esmero, a ponto de reconhecer-me com uma inocência débil. Ela entrou e, sem demora, sentou-se no sofá. Caminhei com passos silenciosos, seguido pelo olhar de quem abandonara a iminente carreira. Pus-me ao seu lado e logo me sentei. Recostei minha cabeça em seu colo, estiquei minhas pernas que ficaram para fora do sofá. Suas mãos encontraram o topo de minha cabeça, os afagos me enterneciam. A solidão de outrora – cuidadosamente – dava lugar ao preenchimento inteligível de meu coração. Ela. O retorno tardio pôs-se em curso. Objetivamente, as importâncias sem sentido posicionavam-se perante as lacunas. Os resguardos de minhas técnicas ideológicas esvaíam-se pelo proeminente apego. Era dia que seguia, era dia que não chovia, era dia em que o amor de sereno jamais terminaria.

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Vinícius Pereira (São Paulo, 1990). Estudante de Jornalismo e escritor por conveniência. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

OLHAR por

Aldenor Pimentel1

Eles andavam nus. Sempre andaram. E nada de errado viam nisso. Olhar o corpo nu do outro era tão corriqueiro e puro como contemplar o pôr do sol ou responder a um sorriso com outro. Naquele povoado, não havia escrita, não havia papel. Tudo o que aprendiam registravam no próprio corpo. Tatuavam na pele sinais de fácil compreensão. E aprendiam uns com os outros pelo olhar. Os corpos nus eram como livros abertos, prontos para serem lidos. Assim, tudo era partilhado e nenhum saber se perdia. Quando alguém morria, repetia-se o ritual. O corpo era exposto na praça central e todo o povoado se reunia para ver. Passavam dias e dias olhando o corpo exposto, até terem certeza de que nenhum sinal tatuado passara despercebido por ninguém. Em seguida, cobriam todo o corpo com fibras de uma árvore e o enterravam onde não pudesse ser visto. Depois de uma vida inteira, sua missão estava cumprida. Com o tempo, o inevitável contato com outros povos aconteceu. Um deles, em especial, que se instalou pelas redondezas, cobria-se dos pés à cabeça. Não se olhavam nos olhos. Aliás, não se olhavam. Acreditavam que todo olhar é invasivo e, por isso, deve ser evitado. Pouco a pouco, os mais jovens daquele povoado passaram a sentir vergonha do próprio corpo. Começaram a esconder as partes íntimas, as pernas, o tórax, o abdômen e, no final, já cobriam o corpo todo. Quando, entre eles, alguém, por deslize, deixava à mostra algum pedaço de pele, os demais desviavam o olhar. E se o distraído não se emendasse, voltando à mesma conduta, era duramente repreendido. O conhecimento daquele povo, preservado por gerações e gerações, estava ameaçado. Eles já não aprendiam nada novo. E, assim, a extinção de todos eles parecia tão certa quanto o apagamento para sempre dos sinais tatuados, em um passado distante, no corpo dos mais velhos. Quando morreu o mais velho dos seus anciãos do povoado e um grupo já preparava o seu enterro em um caixão lacrado, um dos jovens decidiu não fechar os olhos para o que acontecia. Ao cair em si, rasgou as próprias vestes, ficando nu diante de seus pares. Aos olhos que o evitavam, gritou para que todos ouvissem: – Amigos, olhem aqui: sempre andamos nus e isso nunca nos pareceu feio ou sujo. De uma hora para outra, fomos convencidos de que devemos sentir envergonha do nosso corpo e de que nos olharmos mutuamente é repulsivo. Com isso, deixamos de aprender com o outro e com tudo aquilo que o nosso corpo tem a oferecer. Assim, negamos a nós próprios. Desfiguramo-nos. Tornamo-nos irreconhecíveis. Envergonhados, não mais por causa do próprio corpo, mas pelo comportamento que tiveram nos últimos tempos, despiram-se todos, deixando à mostra corpos vazios de tatuagens. Juntos, tiraram de dentro do caixão o corpo do ancião. Toda a sua pele estava tatuada. Ao vê-lo, deram-se conta do quanto ele era sábio e do quanto perderiam se o enterrassem sem lê-lo. Fizeram o ritual. Todo o povoado reunido olhava cada detalhe do corpo do ancião coberto de tatuagens. Como era de se esperar, dessa vez, o ritual demorou mais do que o costume. Afinal, havia muito que aprender, ainda mais depois de tanto tempo sem exercitar o olhar para o outro. Naquele dia, aprenderam muitas coisas. Principalmente, que nunca mais deveriam se envergonhar de quem eram. Nos olhos de cada um, era possível ler o quanto estavam felizes por ainda viverem e do quanto estavam certos de que só estavam vivos porque não deixaram de ser eternos aprendizes.

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Aldenor Pimentel (Boa Vista, 1984). É escritor e poeta, autor do livro Deus para Presidência. Colaborador da Philos na sessão de poesia lusófona. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

DEITADOS por

Antônio Fernandes1

Não tenho vontade de viver. Pelo menos essa vida. Eu sei e você sabe que estamos deitados com o cobertor da angústia e com a cabeça encostada no travesseiro da agonia. E você do meu lado não me ajuda. Afundamos juntos na imensidão do colchão coberto com um lençol de devaneios e colocado na cama do cinismo. E, por mais que eu tente me levantar, você não deixa. E vice-versa. A minha alma foi trocada pela sua naquele dia em que nos torturamos diante do espelho. Eu não me vi, você não se viu. O nosso reflexo estava imerso em nosso oposto. E nessa loucura toda não nos desgarramos. Ficamos, então, afogados nos nossos próprios erros e achamos melhor permanecermos deitados. Simplesmente deitados. Deitados na inércia que é esta vida.

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Antônio Fernandes (Taguatinga, 1997). Mora em Recife e é estudante de Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

MINHA MÃE MODISTA por

Ana Welter1

Era nos finais de tarde que minha mãe se sentava para costurar. Lá de fora, enquanto eu brincava faceira, ouvia o barulho da máquina “Leonam” que hoje descansa sobre o gabinete de madeira marfim. Atraída pelo som, logo me despertava a curiosidade de querer saber se ganharia um vestido novo. Deparava-me com minha mãe costurando no quarto da bagunça, onde guardávamos os brinquedos e passávamos o maior tempo curtindo nossa memorável infância. Lá estava ela, cortando e costurando barras de lençóis, toalhas, roupas do dia a dia; fazendo remendos, bainhas, trocas de elásticos. Porém, as roupas de festa eram modeladas por uma profissional contratada de papai que passava vários dias entre nós, anotando as medidas, provando os modelos que saíam da mesma peça de tecido, que chamávamos de fazenda, com pequenos detalhes que diferenciavam um traje do outro: golinha redonda, grega na barra da saia, mangas princesa, lapelas com botões. Perguntei à minha mãe, quem a havia ensinado a costurar. Disse-me ela que fora a nona. E que se sentira insegura ao lidar com a primeira camisa e o primeiro bolso. Sabiamente a nona a confortava, dizendo que não se importasse com as falhas, pois na próxima tentativa faria melhor. As mesmas mãos que alinhavavam ajudaram-nos a ajustar nosso caráter e nossos ideais. No traço dos moldes, ela delineava o composto da família, sua união, encontros e desencontros e a visão de um futuro atraente. Nos remendos, os laços afetivos eram fortalecidos e as mágoas compensadas. Nas casinhas de botões, a medida exata das correções aplicadas às nossas travessuras e o limite a nós impostos. Na reposição dos elásticos, a lição de flexibilidade diante dos contratempos era visível. Soube nos mostrar que o alinhavo da fé, da sabedoria, do discernimento são pontos e pespontos perfeitos para nos adaptarmos às circunstâncias. Nos bordados, as cores expressavam a alegria da alma, as qualidades e as atitudes benfazejas que teciam o belo da peça terminada. Assim, pela composição da costura, sigo sabendo que seus ensinamentos estão estampados nos mais belos retalhos, perfeitamente alinhavados no tecido que me veste a índole. Sei que a honestidade, a justiça, o respeito, são bainhas fundamentais para qualquer ser humano. E essa costura trago perfeita em meu coração. Na vitrine das minhas lembranças, ainda desfila a fineza da educação que nasceu da modista que me vestiu com o bom gosto da polidez. E as marcas de suas faces e mãos não poupadas pelo sofrimento me cobram gratidão pelo que sou. Quando a tampa da máquina se fechava e o som da costura não mais se ouvia, as mãos postas de minha mãe rogavam bênçãos para os filhos e esposo que, com ela, se uniam em oração. E adormecíamos em paz.

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Ana Welter (Paraná, 1960). Integrante do Clube da Poesia e fundadora da cadeira número 13 da Academia de Letras de Toledo (PR). 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

NOITES DE MADRUGADAS DE FARSAS por Luizza Julianelli 1

A noite espreita, pela varanda, seus pontilhados esparsos de estrelas. Meu pequeno livro de consulta, meu vinho, meu caderno e meu cigarro. Eu olho para o silêncio lá fora por um momento e procuro me lembrar do que eu fui. Tento me esquecer do que me invade nos dias vazios. Eu não poderei saber o que seria se não tivesse sido com você. E isso me assusta. Tenho horror da certeza de que você moldou quem eu sou, de que eu jamais poderia ter sido esta – que escreve, que chora, que ama – se você não tivesse existido. Eu te amei. E amei e, digo assim, no meio do parágrafo, porque essa certeza me corrói, me destrincha, me estrinça. Eu jamais poderei esquecer-me de você. Você me fez. Estive olhando para a noite nublada, de prédios encardidos. Desço o elevador, saio à rua. Os carros quase não passam na madrugada quente. As pessoas não existem. Existem apenas as almas solitárias, os bêbedos desiludidos, as crianças desamparadas, as moças que trabalham. E essas almas não são na noite o que se pretendem no céu claro. Elas são escravas da rotina, e procuram fugir dos pensamentos incômodos. Queria poder fingir nas horas vagas, mas sou feita de verdade. E a verdade me atormenta, não me permite aproveitar as madrugadas nos sonhos. É porque, eu digo, preciso escrever, preciso me libertar e me ferir. Preciso me desnudar e mutilar e manchar o papel com meu suor, minha saliva. E digo: escrever sempre me dói. Mas é dor que me liberta do mundo de farsas. Somos todos artistas desprovidos de sua arte. Vagamos pelo mundo sem um mundo para vagar. Eu poderia sentar num belo Café, pedir um pouco de chá. Sim, senhor, obrigada. E polidamente tirar meu caderno preto da bolsa, uma caneta (bonita, sempre bonita) e anotar com parcimônia os meus mais profundos e belos pensamentos. Mas a verdade é que não é com tal facilidade que as palavras surgem no meu papel. Eu sofro. E não sei viver sem sofrer. E é assim que escrevo. E de tal melancolia tiro proveito. Eu me sento no meio-fio. Um homem robusto vem se aproximando na calçada. Não tenho medo. Nunca tenho medo dos homens quando se aproximam em sua brutalidade sincera. Tenho medo dos que – sim – parecem muito suaves no andar. Ele se senta ao meu lado. Oferece um cigarro. Quero dizer que não fumo, mas aceito. Ele não me olha. O som perturba a rua. Os cães ladram. Tomo mais um gole de vinho. O homem do meio-fio vai se esvaindo. Primeiro, seu rosto sem fisionomia, depois seus dedos, suas pernas e seus cabelos negros. Minha boca está seca, minha língua áspera. Sinto-me cansada, mas otimista. Uma melancolia afaga meu peito e sinto vontade de correr. Correr, correr, correr. Não queria ter esse ímpeto da escrita, a maldita arte de qualquer um. Não são todos que se fazem pintores ou escultores, muito menos músicos, mas quantos e quantos se dizem escritores. E sou mais um deles, traça de livros empoeirados. E o que me diferencia dos demais? Minha dor. Minha dor? O sofrimento e a necessidade, a força que sinto em cada sílaba, em cada instante que meu punho corre o papel? Pois sinto que minha alma se esfacela, que morro aos pedaços, que vou me deixando, me empoeirando, me matando, me corroendo. Sinto que o que escrevo é nada, que é tudo, o mundo distorcido dentro de mim. É confuso. É íntimo. É eu. E parece que estou afogada nas mesmas feridas, emaranhada de perversão, de obsessão, de submissão. O que restará disso tudo? Quem lerá o meu fim? Quando meu coração se cansar, todo o mundo irá com ele?

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Luizza Julianelli (Rio de Janeiro, 1998). Quase escritora de Nada, premiada pela revista ôxe! na categoria Poesia e, no Colégio Pedro II, ganhadora dos Troféus Ariano Suassuna em Artigo de Opinião e Poesia e do troféu Mário de Andrade em Contos. Participante da Revista Desenredo 2015. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

A SEGUNDA VIDA DE GREGOR SANSA por Sammis Reachers 1

Não posso ver: tudo é sensação, para além ou de antes do visual, transcendência táctil: energias? Não lembro completamente quem sou. Lembro trechos. Pedaços de rostos, cadeias de palavras que já não entendo, e são música boa ou ruim. Estou nalguns braços. Alguém me move. Energias fluem, posso senti-las quase como odores. Atravessamos linhas de campos magnéticos. É magnífica este novo sentido, este meu único multisentido, seu caudal de silenciosa epifania. Lembro-me de destruir o jardim. Apanhei o taco e destruí as roseiras de alguém de quem não me lembro, alguém muito importante, alguém que importava. Destruí todas aquelas plantas de nomes débeis e frescos que não sei, aqueles nomes inúteis que sempre mantive aquém de mim. Espalhei as terras, derribei as pequenas contenções, como meios-fios, que delimitavam aquele inferninho verde. Estranho como disso me lembro bem. Cada movimento acertado. Parei de ser movimentado: sinto o vento, quentura. Ela é como uma canção. Suas ondas borrifam o que quer que sejam meus receptores, me deitam num torpor adocicado. Sou feliz. A pulsação que me movimentou aproxima-se, sinto seu avanço pelas linhas do campo magnético, ela deita água em meus pés. Não posso movê-los, nem tento: não anseio o movimento, anseio os movimentos que me vêm: flutuações do campo, comunicações que ainda não decodifico – mas o farei – a viscosidade do calor solar que me banha, e este furor, esta fome consumindo meus pés: este fausto manjar de águas. Água. Água. Como nunca percebi? Como ela pode ser tão doce, e ter me passado incógnita, obscurecida? Para cada nova sensação faltam-me as palavras, conceitos de perfeito encaixe, mas tal abismo se avoluma ao toque da água. Fruição, tepidez… uma quase promiscuidade, coquetel de psicotrópicos conflitando e equalizando-se, a um só tempo, em meu corpo possuído. Agora percebo que o céu é feito de água, e para ela e para a luz é o meu desejo. Os campos magnéticos ondulam. O sol cintila. Meus pés alimentam-me. Dormi furioso ontem, não falei com Maria (agora me aflora tal nome), mal lavei as mãos sujas de terra, rolei como um diabo antes de conciliar o sono. Acordei dentro da paz. Sou planta.

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Sammis Reachers (Niterói, 1978). Poeta, escritor, antologista e editor. Autor de cinco livros de poesia e um de contos. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

AS ÁGUAS por

Victor Cruzeiro1

Uma manhã, assim que colocou o pé no chão, ela pensou sentir algo molhado. Primeiro, pensou ser seu gato, mas como nunca teve gato, pensou ter deixado a janela aberta para uma chuva noturna. Mas a janela estava fechada e trancada. Com um pano, enxugou a poça, e não acordada ainda, foi ao banheiro despertar-se com um pouco de água fria. A água escorreu pelo seu rosto, seus cabelos e molhou seus pés. Enxugou-os no tapete e foi até a cozinha fazer a primeira refeição do dia. Curiosamente, enquanto tomava uma xícara do seu café, lhe pareceu que estava muito aguado, o que era estranho, pois ela sempre fazia seu próprio café da mesma maneira todos os dias. Era difícil manter-se feliz em um dia que começava assim, então foi resignar-se irritada na sala de estar. Surpreendeu-se ao ver, em um canto, uma pequena poça. Mas não houve chuva, e as janelas estavam fechadas e trancadas. Foi até a cozinha, intrigada, buscar algo para a poça. Voltando para a sala, qual não foi sua surpresa ao escorregar em uma poça que se formava em volta da geladeira. Caída, atirou todos os panos que encontrou na poça e resolveu que aquele não era um bom dia para sair da cama. Esquecendo-se da água na sala, foi direto ao quarto. Jogou-se na cama e cobriu-se com o cobertor, sentindo-o incomodamente molhado próximo aos pés. Impressionada com o azar que lhe tomava nesse dia, sentou-se na cama e olhou para o fim do cobertor, onde havia uma mancha redonda molhada, como se gotas houvessem caído ali. Pensou que houvesse uma goteira no teto, mas o teto estava intocado. Vindo de nenhum lugar, algo lhe importunava. Puxou o cobertor para se afastar da possível goteira e tentou dormir de novo, mas não conseguiu porque um frio tomou conta do seu corpo. Estivesse realmente frio ou estivesse impressionada por todos os episódios com água que lhe apareceram hoje, levantou-se, com o intuito de buscar outro cobertor. Pisou no chão e molhou os pés, mais do que antes, como se houvesse mais água que antes. Talvez esteja vindo do chão, pensou. O pano que havia colocado ao acordar estava encharcado, e havia mais água em volta. É o encanamento, pensou, embora isso não explicasse o cobertor. Tentando evitar a água, cruzou o quarto até o armário, onde pegou outro cobertor. Deu meia volta, e o chão continuava molhado, então pulou a poça e voltou para a cama. Maldito encanamento, pensou enquanto se aninhava no espaço menor que escapava à goteira impossível. Para sua surpresa, onde o cobertor estava havia outro círculo molhado, e então pensou que realmente era uma goteira. Virou para o lado e tentou dormir. Dormiu por 3 minutos ou horas, mas definitivamente fechou os olhos. E talvez tenha despertado por cansaço, mas definitivamente o que lhe motivou foi o frio, desta vez por sentir seu cobertor encharcado, como se houvessem jogado um balde de água sobre ela enquanto dormia. Mas isso não fazia sentido, pois ela mesma estava completamente seca. Tocou seus cabelos, seu rosto, seus braços e tudo estava normal. Era impossível. Então concluiu que ainda dormia. Levantou-se e deu com água nos tornozelos. O simples barulho do encontro da água com seus pés a assustou, e voltou imediatamente à cama, pondo os pés molhados no lençol que já começava a ficar molhado. De onde isso era possível? O único lugar de onde viria tanta água seria do banheiro. Haveria um enorme vazamento lá, então. Correu até o banheiro, espirrando água com seus passos rápidos e, quando entrou, concretizou seus temores, vendo água escorrendo pelas paredes e grandes manchas no teto, da água que se acumulava e caía ora em gotas, ora em fios. Apavorada, correu à cozinha para avisar que um vazamento de proporções destruidoras acontecia no vizinho de cima. Mas nunca pôde ligar, porque ao apanhar o fone, sentiu-o molhado e viu que, quase imperceptivelmente, água saía de onde deveria sair som. Gritou e largou o fone, que caído começou a pingar. Correu para a sala. Ainda havia água até seus tornozelos, mas agora por toda a casa, e ela lançou-se ao sofá tentando não se molhar, mas quão não foi maior seu espanto, embora já devesse esperar isso, ao perceber que o estofamento estava encharcado, assim como o cobertor. Olhava para todos os cantos, talvez buscando uma solução, mas talvez somente evitando olhar para o chão onde a água se acumulava. Sem sucesso, deu com a água que parecia subir e viu, flutuando, uma folha, agora seguida de outra, e depois outra. Um calafrio tomou seu corpo e correu para seu quarto. Soltou mais um grito ao ver em sua estante uma cachoeira, de onde a água acumulada jorrava e levava junto seus livros, precipitando-os na represa que agora já lhe alcançava dois dedos ou mais acima dos tornozelos.

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CONTOS


Iam se encharcando aos poucos, até que afundavam, e alguns desistiam completamente e soltavam as páginas, irrecuperáveis, ao menor toque com outro livro que caía ou com algum móvel para onde eram atirados pelo estranho fluxo que as águas começavam a assumir. Correu de volta para o sofá, sabendo que não aguentaria ver a perdição dos seus livros caso ficasse ali. Na sala, seus olhos foram atraídos pela parede oposta a ela, de onde água escorria por veios, como bombeada de algum lugar, vindo de algo vivo, acima do teto. Explicava-se porque o sofá estava molhado, e este relance rápido de sentido acalmou-a um pouco. Poderia ter sorrido, mas um estalo a distraiu e virou-se com tempo suficiente de ver a televisão explodir em faíscas e fumaça, provavelmente por estar cheia d’água. Viu que a água vinha também pela parede atrás da estante de televisão, e da outra, e da outra. Estava cercada. Era preciso escoar a água. Correu até a janela mais próxima e tentou destrancá-la, abri-la, mas seu esforço mais doloroso não foi capaz de movê-la um centímetro, pois viu que a água também escorria pela moldura de metal e havia endurecido o trilho, enferrujado as trancas e impedido que ela abrisse. Estava presa. Correu até a cozinha e tentou escancarar a porta e gritar por socorro. Talvez outras pessoas estivessem passando por isso e até mesmo já houvessem pedido socorro. Pensou que abriria a porta e encontraria os bombeiros prontos para levarem-na para fora. Mas a porta não abriu, a maçaneta pingava e não girava, as dobradiças estavam visivelmente enferrujadas, e aproximando-se da madeira, viu-se os veios de água correndo. Olhando para cima viu que a água não descia do teto, mas vinha do vão superior da porta, escorrendo contínua, como se grande quantidade de água se represasse do outro lado. Mais um calafrio lhe correu, e a ideia de abrir a porta não lhe pareceu mais tão boa. Retrocedeu, de costas, temendo que a porta rompesse sobre ela. Ao tocar a parede, sentindo a água escorrer por entre seus dedos, percebeu que tremia e mordeu os lábios, temerosa de olhar para alguma janela e ver o mundo lá fora tomado de água, como se vivesse em um aquário gigante, e fosse ali o último reduto de oxigênio. Deu graças às cortinas que a impediam de ver lá fora, mas por via das dúvidas, fechou os olhos. Sem perceber ou poder controlar, sentouse ali mesmo, entre a água, e com as costas na parede e as pernas esticadas, percebeu que a água já lhe cobria as coxas. Deveria gritar por socorro, mas quem iria ouvir se estavam todos submersos a essa hora? Sentiu o rosto molhado, e não soube se era água ou lágrimas. Limpou-se com as costas das mãos, mas o fluxo continuou. Um repentino incômodo lhe tomou o corpo e percebeu que a água já lhe alcançava o peito. Abriu os olhos assustada e levantou-se. Já tinha as roupas tão molhadas que não se importava com o frio, mas o toque da água ainda lhe incomodava. Sentou-se em um banco, ali mesmo. Recolheu as pernas e abraçou os joelhos, tentando não ter contato com a água que subia. Nenhuma expressão passou por seu rosto, e a água continuava subindo. Tremia. E a água subia mais. Não podia precisar a velocidade, e claro, não fazia diferença. Subiu até que o banco se nivelasse perfeitamente com a água, como se formasse um novo piso. Pensou que se andasse sobre as águas, se levantaria e tocaria o teto, e esse pensamento sem propósito a fez rir, por um momento e pronto. A água chegou aos seus tornozelos de novo, e ela pôs-se em pé no banco, ficando mais uma vez com a sensação incômoda dos pés molhados. Pensou no que fazer. Não havia o que fazer. Esticou os braços e tentou tocar o teto. Não conseguiu. Viu a mesa à sua frente e subiu. A altura não aumentou muito, e assim que se acomodou sobre o móvel, a água já havia submergido o banco e logo se nivelaria com a mesa. Sentada com as pernas cruzadas, encarava com curiosidade a parede à sua frente, de onde a água saía das quinas com o teto, e corria por toda a superfície, como uma fina cascata que, vista dali, formava um espetáculo peculiar. Pensou mais uma vez em como isso era possível. E penso se não estaria já a casa do vizinho de cima completamente submersa. Não conhecia seu vizinho, o que agora era uma pena. A água alcançou sua cintura. Com um sorriso simples, que não era realmente um sorriso, levantou-se e pôs-se de pé, agora mais próxima do teto. Olhando para cima, sentia que podia tocá-lo agora, se quisesse. E ficou ali parada, pois não havia mais para onde subir, os armários estavam do outro lado e a água se acumulava e descia deles como fortes quedas d’água. O toque da água, lá em torrente, seria ainda mais incômodo. Permaneceria onde estava, em pé, esperando. Não teve que esperar muito e, mesmo em pé, a água logo chegou às suas canelas, depois aos seus joelhos e às suas coxas de novo. Agora pensava que poderia sair flutuando pela casa, para ver como estavam os outros cômodos. Mas não quis, por medo de ver o teto do banheiro tomado pela grande infiltração ou sua estante sem nenhum livro. Teve medo de ver seus livros todos destruídos, afundados em seu quarto, como tesouros que nunca serão recuperados em um mar do sul insólito. Sorriu, lembrando-se dos seus livros preferidos, e foi surpreendida por ver páginas flutuando no fluxo incrível que não tinha origem nem final. Passaram por ela e dobraram para a área contígua à cozinha, onde já não os via mais. Lembrou-se de novo dos seus livros preferidos e sorriu. A água tocou suas mãos e ela estremeceu.

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Outras coisas passaram por ela, o controle remoto da TV que há tempo já explodira, um par de meias, pequenas estátuas de vidro que mantinha na estante para embelezar discretamente sua sala de estar, e muitas outras coisas pequenas que não afundaram e flutuavam, como destroços de um navio. O naufrágio do navio de todos os dias, pensou, tonta. Soçobro. Deve ser isso que querem dizer com a sua vida passar na frente dos seus olhos, pensou ela sentindo a água lhe tocando, de maneira estranha, os cotovelos. Estava fria, mas ela não tremia mais. No fundo, sentiu alguma coisa, mas não manifestou com um sorriso ou uma palavra e, ao invés disso, suspirou. A água lhe alcançou os ombros. Se tudo congelasse, não ficaria mais imóvel do que agora. Respirou fundo. Começava a respirar mais longamente e a considerar quanto tempo conseguiria segurar o fôlego, caso necessitasse ficar submersa. Sentiu algo no rosto, frio, talvez agora estivesse chorando, pensou enquanto olhava para o teto, que parecia mais próximo, e realmente estava, pois a água subiu mais e agora lhe fazia flutuar. Não sentia mais a mesa sob seus pés. Em um raro movimento, agitou os pés na água e isso até lhe pareceu divertido. Agora sim, lançou um pequeno sorriso, antigo, de criança, do tipo que não usava há muito. E até mesmo uma risada pode se ouvir, quando tocou o teto com as mãos. Nem sequer precisava esticar os braços, com os cotovelos dobrados alcançava o ponto mais alto da sua casa. Não entendia que alegria havia nisso, mas havia. E logo se foi. Tocou o teto, de onde não parecia vir água, mas já não confiava mais em seus sentidos, seu semblante se fechou e não demonstrou mais emoção nenhuma, a não ser que de pouco em pouco mantinha a respiração presa por alguns segundos. Não havia tempo para pensar no que lhe acontecia, mas era verdade que havia se resignado, desistido, por todos seus esforços, inúteis, o de tentar abrir a porta, de tentar abrir a janela, de tentar secar a poça no seu quarto. E até mesmo o erro no seu café, levou-a a renunciar. A água lhe alcançou o pescoço, e já não era possível subir mais. Ela não sabia que havia decidido, mas algo fora decidido por ela. Respirando fundo, com a boca aberta para expelir a água que, em eventuais ondas lhe cobria o rosto, teve medo que sua testa batesse contra o teto. E assim como o último pensamento que passou pela cabeça de John Locke foi que não entendia, ela não entendia, e segurando o fôlego até o máximo que pôde, se afogou sozinha, junto com todos os outros que se afogaram deixando que as águas entrassem e lhes tomassem tudo.

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Victor Cruzeiro (Brasília, 1989). É escritor, ensaísta, crítico e roteirista de cinema. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

HÁ OUTROS UNIVERSOS ALÉM DESTE por José Henrique Zamai

1

(...) O gordo, com sua redonda face corada, acordou para a manhã cinza. Chovia fraco. Defecou logo sua tonelada de detritos. Vestiu suas botas encouraçadas, esgarçadas pelo peso e seguiu pela rua de pedras. (…) Jamais dormia, muito embora somente tivesse conhecido o escuro. O calor era insuportável e o cheiro era morno e podre. Sentia solavancos. Gemidos? Algo estranho ao escuro. Luz? Escorregava para o nada (?) e nadava. A água espirrava e molhava o esfíncter maiêutico, conforme parecia subir, subir, subir e desvanecer-se no infinito além da porcelana. As conjecturas desapareciam em um redemoinho que anunciava a próxima escuridão. (…) Não escolhia se ia ou vinha. O mundo é que girava, muito embora o Sol parecesse correr. Com ele, as nuvens e um pouco de chuva. Cinza. Observava os seres irracionais que se escondiam de suas rajadas ferozes. Tanto mais corriam, tanto mais bradava. Cinza virava azul. A Lua vinha. Aquietava-se até se agitar novamente. Era algum tipo de deus antigo que, com o Tempo, destruía tudo ao seu alcance, bastava insistir. (…) Lembrava-se de uma floresta. Era um animal. Lembrava-se das pastagens e do gosto da grama fresca. De repente uma dor repentina e a escuridão. Dormia? Não acreditara nos dogmas da religião da cura, mas ainda sentiu, cegamente, a navalha lhe cortar a pele dos músculos. Não resistiu, afinal, o próximo passo seria tornar sua consciência em vestimenta e possuir um humano para si. Esgarçada hemorragia de arrebatamento. (…) No início, era o nada. Sim, o nada existe, contra o que há, que é tudo. Então a explosão. Bósons especializando-se em matéria. Expansão e calor. Então frio e constância. Longa constância. Nova explosão. Seres miúdos retiravam suas partes descoladas e as trincavam ainda mais. Assentaram-lhe na lama. Lentamente diluía-se nas tempestades. Lentamente, desgastava-se nos pisões. Lentamente escorria para os esgotos, rios, mares e então empanava com o fruto da criação as nádegas de um gordo, com sua redonda face corada.

José Henrique Zamai (São Paulo, 1991). Advogado e escritor. 1

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LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

TINHA por

Francisco Carvalho1

Tinha aquela mesa de metal, coberta por uma toalha branca manchada de carne, com quatro cadeiras de plástico. Tinha aquele ventilador barulhento soprando ar quente por toda a sala. Tinha aquela televisão de tubo que por vezes desligava sozinha e só voltava a ligar com um tapa. Tinha aquele rádio-relógio que sintonizava apenas AM. Tinha aquela poltrona para três pessoas com o couro dos braços rasgado. Tinha aquela foto do Djavan com uma dedicatória quase apagada pela infiltração da parede da casa ao lado. Tinha aquele recorte de um poema meu publicado no jornal, colado na porta de vidro da cozinha. Tinha aquela geladeira pequena que eu comprei por uma barganha de um traficante do meu antigo bairro. Tinha aquele fogão de mesa com apenas duas bocas e que só podia ser aceso com uma chave inglesa. Tinha aquela cama que ganhei naquela festa da igreja e que fora de um padre que acabara de morrer. Tinha aquela caixa grande de bolacha que usávamos como guarda-roupa. Tinha aquelas cuecas de elástico frouxo, aquelas calcinhas desbotadas, aquelas camisas que ganhei do meu pai, aqueles vestidos que você ganhou da sua mãe, aquelas calças, aquelas saias, aquele meu par de sapatos marrom, aquela tua alpercata que fazia barulho quando andava, aquela corrente de Nossa Senhora e aquele brinco de ouro falso. Tinha você, linda, de cabelos soltos, com a sua pele negra refletindo a luz da lâmpada de quarenta volts, enquanto sentada no meu colo conduzia a nossa dança disfarçada de transa. Tinha eu, balbuciando teu nome, encantado com o brilho da tua pele, hipnotizado pelo balançar dos teus seios, e pensando que, naquele momento, não tinha no mundo homem mais rico e feliz que eu.

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Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Escritor e professor de história, pela Universidade Federal de Alagoas. 1


LETTERATURA ITALIANA

RACCONTO

Per una latinità plurale

IL PAESAGGIO CON LE LANTERNE da Daniela Balestrero

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La mano di Adele si muoveva in modo frenetico ed armonioso, la mina della matita lasciava segni decisi e lievi come vivesse di vita propria Adele era il suo prolungamento. Come una medium, faceva da “tramite” creando schizzi di figure e paesaggi sorti dal nulla, essi prendevano vita sorgendo dalla carta, impadronendosi della realtà diventandone parte. I suoi disegni si trovavano ovunque: un’abitudine per lei, un talento per altri. Aveva perfino tentato di allontanare questo istinto, ma il richiamo era sempre più forte, assomigliando ad un’ossessione che riempiva la sua mente, le sue giornate. Poi si era arresa… Arresa alla dolce sensazione di trasmettere e vivere emozioni attraverso i suoi disegni, una traccia e l’infinito prendeva forma… “Eh, se disegno doveva essere…disegno sia!”, decise Adele cercando qua e là fra Gallerie d’Arte e Corsi di Pittura. Decisa a capire se la sua era solo una mania nevrotica che nulla avesse da spartire col talento: quello vero. Voleva fare un nuovo tentativo: visitare una mostra, sicura di annoiarsi e fuggire pochi minuti dopo. Ma la Galleria la rapì in un turbinio di colori e sfumature, immagini e paesaggi. Adele si guardava attorno come una bimba in un paese magico dove le figure prendevano vita e interagivano con lei. Infondo ad un corridoio, nella penombra un quadro solitario, a cui ben pochi prestavano attenzione, anche se di notevole bellezza, portava in basso un biglietto appoggiato alla cornice dalla scritta frettolosa con un pennarello blu, “In vendita”. Col cuore in tumulto, senza leggere l’autore né la descrizione, prese il biglietto e si diresse dal Responsabile della Galleria, decisa ad acquistarlo: «Speriamo non sia troppo caro…» pensò solo. Pochi minuti dopo era in strada con il quadro sotto il braccio. Lo fece avvolgere nella carta, tanta carta, come se volesse nascondere qualcosa…neanche l’avesse rubato! L’emozione le saliva su su fino alla gola e li bloccava il respiro. Si sentiva messa a nudo, come se la donna del ritratto fosse lei e in qualche modo sfiorasse coriandoli del suo inconscio. Chiuse la porta alle sue spalle ed appoggiò il quadro sul divano, incominciò a scartarlo lentamente come un amante spoglia la sua donna. Lo appoggiò sopra la mensola e si allontanò di qualche passo: ora poteva ammirarlo meglio. Una donna solitaria, di spalle, con un lungo abito scuro, guardava in lontananza un funerale, assorta. Si notava appena, ma Adele ne sentiva tutta la malinconia e la suggestione, una sofferenza silenziosa e sottile. Forse un amore finito tragicamente…forse uno sconosciuto… Le lanterne accese illuminavano la strada davanti alla donna che restava immobile, facendo risaltare il bianco delle case nel buio della notte. Adele si sentiva quella donna, in bilico tra la vita e la morte, la luce e il buio, ferma ad aspettare. “Paesaggio con le lanterne” lesse in un angolo del quadro. Avrebbe illuminato il suo talento, se davvero c’era…

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Daniela Balestrero (Torino, Itália, 1960). Membro del Comitato editoriale della Rivista Philos. Dal 2015 collabora con un giornale locale web scrivendo articoli di spettacolo e attualità. Alcuni dei suoi scritti si possono trovare anche su il Blog di Ramingo.it. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

GAROTA PIANISTA por

Marcelo Proença Maciel1

O amor se manifesta de maneiras misteriosas. Os dias passam lentamente e de forma grosseira, quando sem ela, fazendo com que amar seja uma maldição desesperadora, charmosa. Meu espírito raivoso chove tempestades quando sente que não pode ter aquilo que deseja. Meus ouvidos fazem greve de surdez, porque pensam que ouvir algo além de sua música é uma tortura sem valor. Naquela noite, eu rastejei pela cidade procurando uma dose letal de inspiração. Busquei Ginsberg nas vielas escuras. Olhei fixo nos olhos de estranhos, quis que meus olhos relampejassem ao encontrar outros olhos, mas não aconteceu. Fiz da solidão um verso concreto e sujo. Até que finalmente cedi e me rastejei até onde estaria a garota que me embriagaria só com seu olhar cravejado de pólen e inspiração (néctar dos poetas). Cheguei ao teatro. Eu conseguia ver o aroma doce exalando pelas paredes. A pequena abelha voou em busca de sua flor. As graves batidas do meu coração ecoavam pela plateia como explosões intensas, vibrantes. A surdez de abstinência abafava meus pensamentos, eu só conseguia ouvir meus próprios momentos, de forma cinza, como a justa medida do tempo. Foi quando, de longe, ouvi uma trovoada. Senti o cheiro de terra molhada e devastada pelo vento. – Ela entrou. A pianista estava usando a noite como vestido e as estrelas como brincos, ela tinha cabelos longos, liso aos dedos, que acertavam seus ombros como as ondas noturnas quebram nos barcos, rosto fino e acariciado pela perfeição, com lábios cor-de-estrela-cadente, penetrando na atmosfera terrestre, e o talento fértil como a terra. Ela sentou-se em frente ao seu piano, estendeu os braços e deixou que os dedos dançassem sobre as teclas como as árvores dançam ao vento. – Eu me embriaguei. Ela deslizava pelas notas assim como eu deslizo pela poesia. Ela construía melodias assim como eu construo silêncios. Ela acalmava meus caos. Eu lutava contra isso. As estações não são claras quando estou me drogando com suas melodias, nem o tempo, nem a vida, nem as memórias, nem nada. Eu me deitei sobre seu perfume de mulher e apoiei meu corpo na doce intensidade daquele momento. Fiquei alto o suficiente para pensar em tudo que até aquela hora havia me afligido. Lembrei-me de histórias próprias que nunca havia contado, pessoas de quem ousei me esquecer, areia, balanços. Mastiguei seco para não sentir amargo. Mesmo alto, consegui sentir o frio de realidade acariciando minhas costas. Saber dessa realidade foi perder minha garota até mesmo na imaginação e, naquele instante, eu percebi que em vida temos pouco, mas fora dela temos nada. Quis congelar o tempo para viver como nada ao lado dela. E o frio visceral foi tomando conta de todos os labirintos do meu corpo, até que chegou aos meus olhos, e eu, como quem cai de uma escada, os abri de forma ríspida como um tiro no vácuo e eles relampejaram ao encontrar dois olhos… os olhos da pianista. Ela sorriu mudando o curso da maré dos meus pensamentos. Aquele sorriso ofuscou todos os meus sentidos e abençoou minha poesia. – Agora, eu vivia. Desejei que aquele sorriso fosse a primeira e a última coisa que veria na minha vida. Os relâmpagos pararam quando ela voltou os olhos para seu piano, e eu me fiz uma pergunta: “Como posso sentir mais frio do que este inverno permite’’? Não encontrei uma resposta nem mesmo nos meus sonhos. Então mudei a pergunta, mas essa eu sussurrei em direção a ela: “Posso amar-te no inverno quente mesmo com o vento indiferente”? Só encontrei a resposta nos meus sonhos. Minha alma queria tanto estar com a pianista que, mesmo se eu fechasse os olhos e ignorasse sua presença, as palavras sairiam do meu corpo e cercariam sua silhueta me fazendo sentir cada curva e textura, como um sexto sentido, uma defesa natural do meu corpo, um instinto poético, algo tão natural quanto o voo de uma águia. Eu era dependente químico daquele amor. Sem ele correndo pelas minhas veias, faltavam-me palavras na mente e cor nos olhos. Eis o meu fim; para sempre não seria. O frio chegara ao meu coração. Fez bombear neve para todo o meu corpo. – Minhas asas queimaram. Eu caí de alma no chão do mundo.

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CONTOS


Já com dores de cabeça, ouvi com dificuldade palmas abafadas por todo o teatro, só consegui bater minhas mãos três desajeitadas vezes. O silêncio grudou nas paredes e as luzes se acenderam. Eu estava tentando me levantar em todos os sentidos, quando meus olhos tocaram a silhueta fina da minha pianista. Pela primeira vez, eles choveram ao invés de relampejar. Eu vi a noite amanhecendo a cada degrau do palco que ela descia em minha direção. Quando ela estava próxima o suficiente para não conseguir fugir dos meus braços, eu amanheci. Entrelacei-me na noite gélida do seu corpo e ela repousou a cabeça sobre meu coração mais calmo. Tive minha garota pianista em minhas mãos por alguns minutos e ela me teve como uma estrela em sua noite… só por sempre. Para sempre.

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Marcelo Proença Maciel (São Paulo, 1999). Escritor e poeta nascido no dia 21 de março na cidade de Tatuí, SP. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

ENCONTRO por

André Kaires1

Era madrugada fria. A chuva escorria fina e interminável. A cidade dormia cansada e doente. O som provocado pelo salto do coturno de couro preto de André explodia-se em choque com as ruas desertas e repletas de poças d´água. Um passo em falso, e tudo seria revelado… Chovia sem parar. Vez ou outra, um carro cortava a longa avenida. Enquanto isso, o rapaz miúdo, vestindo tons pastéis, caminhava a passos largos e confusos e indecisos. Na boca, aquele gosto amargo da decepção, aquele maldito gosto de uma descoberta dolorosa e sufocante e dilacerante. Soluçava baixinho, como quem estivesse cometendo um crime, e fosse isso um perigo muito grande. Parou por um instante, olhou para o céu imenso acima de si. Se pudesse fazer carícias e afagos e confortar suas feridas que agora rasgavam a camada de ozônio… - O-zô-nio… – O rapaz miúdo, de barba delineada, balbuciava sem parar. Dentro dele, alguma coisa mudara, movera-se, tornando aquele momento um verdadeiro tormento. E, quando a vida se torna insuportável, temos o direito de enfiar bem fundo o dedo na garganta, e mandarmos para longe qualquer possibilidade que não nos permita seguir em frente. – Ca-ma-da! – Continuou André. Um carro passou mais perto, e um transeunte apressado passou por ele, deixando vestígios de vida naquela cidade. Mas, subitamente, o mesmo transeunte, que momentos antes passara pelo rapaz miúdo, virou-se e estacionou seu corpo entre um poste e uma bifurcação da longa avenida. Por um momento, entreolharam-se e tudo parecia ganhar um sentido, uma nova perspectiva. A chuva amansara. O silêncio era angustiante. A respiração de ambos inquietara-se: até a menor criatura apercebia-se daquele pequeno assassinato: aquele encontro inevitável consigo mesmo. Nada acontecia. Nenhum passo, nenhuma palavra. Ambos permaneciam ali, parados no tempo da contemplação. Um passo em falso, e tudo seria revelado… – E queriam? A chuva cessara completamente. A madrugada já era profunda e aguardava os primeiros raios solares iluminarem a terra, para que ela, escura, pudesse cavar novos abismos, escurecer novos horizontes. De repente, o aceno… E todo aquele impasse pareceu perecer, esvaziar. O inevitável, enfim, aconteceu. O rapaz miúdo pigarreou e esboçou um terno sorriso: “era um bom começo…” – pensou. Na contramão, vinha o transeunte apressado, tão próximo, e era assim que se movia: gracioso e conquistador, desbravando aquela madrugada fria, chuvosa, deserta, com inexatidão e com certo desespero agradável. Agora tão perto que, enfim, pude decifrar sua fisionomia: altivo, sombrio, olhar penetrante, a cara linda e fria. – Me dá um cigarro?! – Um deles pediu. – Filtro branco... Pode ser? – Respondeu o outro. Era o início da descoberta daquilo que, horas antes, rompera o coração de ambos e trazia aquele gosto amargo na boca; a bile pedindo socorro....Um passo em falso, e tudo seria revelado. – Claro! E fogo... Você tem? O riso cínico e contido de ambos. A respiração inflando o peito cada vez mais. Usavam gestos pequenos para coisas grandes demais. Um deles estendeu o cigarro para o outro, e tirou do bolso profundo da calça o isqueiro barato. Aproximou-se e suspendeu, por um breve momento, a chama do isqueiro, e acendeu o cigarro de filtro branco preso nos lábios do outro. Um vento soprou mais forte e apagou a chama. A chuva dava indícios de seu retorno. E foi então que, sem nada dizerem, as mãos daqueles dois encontraram-se…, tudo tão rápido e confuso e estranho. “O choque. A válvula. O espasmo… Eu não sei se a vida é pouca ou demais para mim.” – Pessoa, em minha mente, boca e ouvidos. A chuva retornara mansa e incansável. As mãos, agora afastadas, escondiam-se nos bolsos da calça de ambos, buscando conforto, calor e o aniquilamento de qualquer possibilidade de um novo encontro. O outro acendeu um cigarro para si.

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CONTOS


– Que faz sozinho nessa madrugada fria, perambulando por aí? Indagou um deles, e soprou a fumaça. O outro, antes de responder, riu aquele risinho cínico e contido, deixando transparecer alguns dentes sadios e brancos. Tirou a tímida mão do bolso e, suspenso no ar, respondeu: – Faço a mesma pergunta pra você. – Desviou o olhar para um cartaz pregado ao poste, e soprou a fumaça. “O Universo só pode caber dentro dos corações das pessoas…”– Ondjaki, num dos cartões-postais que recebi, após tê-lo conhecido em Luanda. – Estou perdido… Perdido! Tragou fundo. Quase tossiu. A mão inquieta na boca, buscando uma espécie de afago, compreensão. Jogou a bituca no chão e a esmagou com o pé esquerdo. Mais uma vez, aquele silêncio horripilante. Entreolharam-se profundamente e qualquer piscar de olhos levaria para longe toda a delícia daquele encontro... Um passo em falso, e tudo seria revelado… – Você tem mais um cigarro? – Pediu ainda mais desesperado. – Tenho. Estendendo o cigarro e entregando-o. Mais uma vez, o click seco e certeiro do isqueiro barato. A pequena chama iluminando brevemente o rosto dos dois. Um carro buzinou fugidio. Um cão latiu ao longe. Em volta, naquela avenida, onde ambos permaneciam imóveis há muito tempo, não havia nada além das inúmeras poças d’ águas desencadeadas pela chuva que caía. Caía... Caía... – Perdido? Em que sentido? O diálogo retomado após uma longa pausa. Era preciso um esforço muito grande para manter uma linha tênue naquele encontro brutal, para que ambos levassem, para bem longe, aquele gosto amargo da boca, que, horas antes, era apenas uma inquietação, uma angústia sutil. E, como numa coreografia ensaiada incansavelmente, entreolharam-se e sopraram a fumaça. O riso cínico e, cada vez mais, menos contido. A madrugada avançava no horizonte. – Em todos os sentidos... Sabe, cara? – Respondeu um pouco mais calmo. – Sei, sei, cara! – Olhou de relance e visitou, com o olhar, o resto do corpo do outro. – Então, talvez seja esta a nossa sina: este encontro patético e inevitável aqui nesta avenida vazia e alagada… E, enquanto fumamos este cigarro de merda e nos olhamos como dois cães famintos, tentamos de alguma maneira mandar para muito longe este gosto amargo das nossas bocas… Não é isso, cara? O estalo. Alguma coisa avançara e chegava perto demais. Era preciso cautela. Novamente o silêncio. Olhares mútuos. O confronto e a certeza cada vez maior de que, em breve, aconteceria aquele pequeno assassinato: o encontro inevitável comigo mesmo. Encharcados pela chuva que insistia em cair, tremiam de frio, pavor, alarmados pela doce esperança de: sobreviverem, talvez! Um deles chegou ainda mais perto. A mínima distância dissipara-se. Nada mais podia ser evitado. – Sei lá!… Da vida, só sei que ela é absurdamente linda! Mas, ela me dói tanto, tanto, bicho! Saca? A mão dele no ombro do outro. O rebento. O quebrantar de dois corpos que agora se moviam na mesma imensidão. Estavam unidos e exalavam bebidas alcoólicas baratas, sobras do fracasso, cartas fora do baralho… Sozinhos e perdidos e confusos, tentavam decifrar o mundo, com ideias pequenas, o coração patético. – Putz!… – Exclamou o outro, tocado pela resposta que recebera há pouco. Aquilo doeu. Penetrou e rasgou qualquer coisa fria que estava dentro dele. Ele não podia continuar ileso e bem assim, assim mesmo, o choro explodiu em meio àquela avenida longa, fria, alagada. Chorou um choro de vinte e oito anos… Um choro de alívio e gratidão. Meio sem jeito, o outro aperta ainda mais a sua mão no ombro do outro. O instante em que toda a verdade e o gosto amargo da boca de ambos seriam revelados… Colados, abraçaram-se simultaneamente. A cabeça de um, no peito largo do outro. Os olhos dos dois, em chamas, quebrantavam-se em lágrimas até então contidas. A madrugada dava seus últimos suspiros. O dia já pedia passagem. A chuva persistia fina, fria, incansável. A avenida ainda mais longa, deserta, alagada. “E depois de todo o meu esforço, finalmente estou de volta ao início.” – o amor em mim, em nós, naquela avenida. Naquela chuva. Naquele encontro inevitável daqueles Dois. O tempo passando, a cidade dormindo e os dois ali, unidos num abraço do tamanho do mundo. Choravam cúmplices, almas-reflexo, perplexos pela surpresa que a vida reservara para ambos… Aquilo era mais que piedade e compaixão, aquilo… Aquilo era… – Amor! – Disseram ao mesmo tempo. O abraço esmagador, revelando a fragilidade do peito de ambos. A mão de um, na barba do outro. A carícia abrindo espaço, possibilitando o próximo passo: as bocas unidas. Os olhos fechados. As mãos ardentes permeando e desbravando as nossas costas. “Minha velha Alma, cria Alma nova.” – Baleiro, acertando-me em cheio.

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Madrugada finda. Os primeiros raios solares clareavam o que estava adormecido, escurecido. A chuva ainda, fina. Alguns carros espaçados cortavam a avenida de vez em quando. Depois do beijo, tudo fora revelado… “A solidão é meu cigarro. Não sei de nada e não sou de ninguém.” – Baleiro, mais uma vez. – Me dá mais um cigarro!… O último! Depois eu vou embora – Sentenciou o pedinte. A mão no bolso. O maço quase vazio. A entrega. O click seco e certeiro do isqueiro barato. Os cigarros na boca de ambos, o roçar daquelas mãos. A pequena chama, suspensa no ar, iluminando a cara daqueles homens. Por fim, o riso cínico e estridente varava a cidade, agora amanhecida. Um passo em falso, e tudo seria revelado… Pela última vez, entreolharam-se profundamente e sopraram a fumaça. – E aquele gosto amargo na boca… Se foi? Um deles. Longa pausa… Um passo em falso, e tudo seria revelado. – Estamos perdidos… Não há nada que possamos fazer. Vai, siga a sua vida, que eu sigo a minha! Porque o tempo passa, e eu estou exatamente como deveria estar: silencioso e brando. – Revelou o outro. E sozinhos e perdidos e confusos, avançaram pela longa avenida que, aos poucos, ganhava movimento. Caminhavam em direções opostas e abriam lentamente os braços, olhando para o céu. A chuva fina ensopando ainda mais aqueles corpos. Os olhos bem fechados, a boca tremendamente aberta exibindo um sorriso de vinte e oito anos… Um sorriso de alívio e gratidão… Alívio e gratidão!

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André kaires (Tatuí, 1985). Um apanhador de sonhos e de loucas poesias. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

TRAÇOS DE UM RETRATO por

Luigi Ricciardi1

O mistério é o grande deus dos homens e o egoísmo, seu epitáfio. A frase que aqui disponho era a epígrafe de um dos livros dourados que foram dados por desaparecidos após séculos de invasão e domínio do principado de Seitão nas terras da Camúria Ocidental. A coleção, que dispunha de sessenta volumes, cada um possuindo em torno de mil e quinhentas páginas, tentava reconstruir todos os passos da história já registrada sobre a terra, desde os primeiros gritos silenciosos até o fechar choroso da última réstia de energia que se tem notícia. Os livros não possuem assinatura, não se sabe quem escreveu, tampouco se quem escreveu viveu boa parte da história ou se captou da tradição oral, ou mesmo de uma biblioteca secreta – da qual se desconfia da existência – escondida debaixo de um deserto escaldante. Metade da coleção contava a história do mundo humano sob a égide de cálculos matemáticos, provando que havia um arquiteto e administrador e que tudo saíra como planejado; e a outra, a partir de imperfeições, contando a evolução ao acaso. Da primeira leva, todos ainda restam desaparecidos. Da segunda, alguns foram recuperados após a batalha de Saint-Dîné, quando a Terra já não estava habitada, pelo menos das formas de vida que até então conhecíamos. Hoje, sabemos como está tudo diferente. Quando o novo jesuíta Moisés de Rio Branco encontrou um dos livros semiescondido pela areia fina, sob restos de uma antiga catedral, gritou aos camaradas que o seguiam: Finalmente, Platão e Nostradamus tinham razão. O livro não ficou com ele, foi parar nas mãos de um rei sanguinário que queria entender um pouco mais sobre a arte da guerra. Para preservá-lo, contratou sete copistas de índole clérica pré-reformista para manuscrevê-los e preservar suas pe-culiaridades. Uma de suas cópias me caiu em mãos uma vez. Tentarei ser fiel ao vos transcrever o que li. 2 No princípio, era o caos. A forma adquirida de Gaia veio assim, sem explicação, coisa monumentalmente grega, salvo aquela do verbo que por muito tempo foi aceita, mito da palavra que era Deus e que, séculos mais tarde, far-se-ia carne, carne de cordeiro. Tudo era móvel e disforme. Havia fogo? Tudo era suspenso. Havia monstros? Não me perguntem, pois essa onisciência é sempre falsa. Conto o que ouvi (ou não), modificada oratória clássica de tempos longínquos. Fico com o nada, que, isso sim, sempre esteve lá antes de tudo e lá estará após o fim de tudo, quando o que conhecemos for engolido, inclusive a tabacaria do Pessoa. Isso! Havia o nada, explicação sempre usada e reinventada segundo o mito e o tempo do qual se conta. O importante é que no dançar de cadeiras sensuais entre Gaia e Urano: viva o fiat lux, e assim se fez o céu, a terra e o submundo. Hoje, nesta fotografia que esquizofrenicamente tento descrever, vejo o novo caos, retornado, revivido, recriado. Contudo, vendo de cima com essa pseudo-onisciência de demiurgo, é nitidamente embaçada a consciência se estamos no apocalipse ou no novo gênesis. Talvez seja apenas um traço do retrato da história dos homens. Entretanto, aproveitando-me de um classicismo rude, sem fazer uso das novas linguagens da época, coube-me ser uma espécie de João Batista. Caso alguém se pergunte quem realmente é este que lhe entra vida adentro com uma estapafúrdia história irreal ou sonhada, digo-lhe que estou mais para um Saulo a caminho de Damasco. Fato é que Cronos nunca foi vencido senão por Zeus. E o titã pai de todos, filho de Urano, está ainda aí para não nos deixar mentir, vencendo e devorando quando acha que é necessário. Cronos tem face de Tânatos, foice que visita sem aviso, clichê de todos os tempos. Mas deixemos as coisas virem à tona no seu devido tempo. A curiosidade que muitos bens trouxeram à humanidade gerou também a ganância. E tudo isso, mais o que virá após, já foram previstos por Tânatos desde que o mundo é mundo. A questão é que nunca se sabe quando. É, amigos, viver é negócio muito perigoso, já dizia um certo neologista brasileiro. Em suma, com história mitificada ou não, dou início às minhas linhas.

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CONTOS


3 Muitas coisas foram as primeiras causas do quase desaparecimento da nossa espécie. Seria impossível elencar todas. Segundo algumas páginas amareladas e arrancadas de algum livro antigo, que foram encontradas pelos estudiosos pós-humanos. Nessa época, os seres que dominavam a terra eram chamados de homo sapiens, classificação deveras estranha, pois a sapiência desse povo era deveras relativa. Desde o momento em que perceberam o buraco no qual estavam se metendo, não passou trinta anos até que a sociedade e o planeta entrassem em colapso e sobrassem apenas alguns exemplares dessa espécie tão curiosa. Dizem que tudo ficou assim após a extinção da Amazônia, uma floresta tropical que possivelmente teria existido próximo à linha do Equador. Os anciãos do G-24 anunciaram as trombetas do fim. Apenas cento e quarenta e quatro sobreviveram. Dizem que a biblioteca interplanetária possui o único exemplar de sete mil páginas sobre esse furo histórico e, por motivos misteriosos, guarda-o dos olhares curiosos e nega veemente sua existência. Depois de todos os escândalos dos últimos tempos, não seria nenhum exagero, nem se entregar a teorias de conspiração, acreditar na existência de tal objeto e na postura dos curadores dessa biblioteca estapafúrdia. Nessa época, o pólo sul era na Antártida, terra que chamamos hoje de Nova Tebas. Conta-se que durante milhares de anos ali só havia gelo. Mas, na época da quase extinção do homo sapiens, houve um superaquecimento global, fazendo com que o gelo ali presente derretesse e permitisse que a vida se desenvolvesse. Os cento e quarenta e quatro sobreviventes levaram para lá várias espécies de plantas e alguns animais que restavam. Quase morreram, mas eis que se fazem novas todas as coisas! Mal sabiam eles que ainda havia muito choro e ranger de dentes. 4 A comunidade era baseada na divisão igualitária entre todos os seus habitantes. Tudo o que era produzido era dividido igualmente entre as pessoas que se dividiam em todo tipo de trabalho: plantio, construção de armas para caça, construção de casas, limpeza, trato dos animais etc. Eram divididos em casas que duravam apenas noventa dias. Moravam na mesma cabana para procriação. Se depois desse tempo, a mulher não engravidasse, havia um sistema de revezamento, ela ia para uma cabana e outra tomava o seu lugar. Era proibido qualquer tipo de posse. Um velho profeta insistia em não participar dos afazeres, pois dizia não acreditar no restabelecimento da raça humana. Décadas mais tarde, notou-se que um ou outro começou a roubar um pouco mais para si das cebolas que produzia, outro guardava um pouco mais de tomates e assim a discórdia começou a aparecer. Houve desentendimentos entre antigas nações, e os povos se separam em algumas divisões dentro da própria tribo, seguindo preceitos de língua: alemães, holandeses, austríacos; portugueses espanhóis e latino-americanos; ingleses e americanos; franceses e italianos; japoneses, chineses, coreanos; russos com ucranianos. Não demorou muito para a discórdia se instalar também dentro desses subgrupos. Com a superpopulação e o ódio entre os grupos, toda a Antártida acabou sendo explorada. Não sem consequências graves. Segundo consta, a África Unificada do Norte havia feito, secretamente, testes nucleares em uma área de Nova Tebas, então Antártida. A radioatividade do solo fez com que as plantas ali nascidas contivessem uma carga muito grande de radioatividade. Logo, além das doenças, a guerra pela água ou por qualquer outra coisa também levaria ao lançamento de inúmeras bombas atômicas, mas sem extinguir totalmente a raça humana. A guerra durou anos e terminou, obviamente, de maneira trágica. Ao longo da batalha final, seis estrondos foram ouvidos. O velho vidente afirmava que eram as sete trombetas do apocalipse judaico-cristão, crendices populares da época. Uma terça parte do oceano ficou misteriosamente vermelha, navios foram destruídos. Houve um clarão vindo do céu quando o velho anunciava novas pragas que viriam abater o homem. Segundo o mesmo livro guardado pela biblioteca interplanetária, nuvens gigantes de gafanhotos atacaram as tribos que se degladiavam até à morte. O sábio gritava de sua porta: “Naqueles dias, os homens vão correr em busca da morte, mas não saberão onde ela está. Vão querer a morte, mas a morte fugirá deles”. Um louco, no meio do fronte de batalha, gritava incessantemente “Lance sua foice e ceife. Chegou a hora da colheita, pois a lavoura da terra está madura. Lance a foice e colha os cachos da videira da terra, porque as uvas já estão maduras”. Então o velho gritou: “está realizado”, caindo morto fulminantemente. Segundos depois, os dois últimos Homo sapiens adultos se matavam mutuamente com duas espadas. No mesmo momento, o último bebê era resgatado por um macaco que adentrava a nova floresta Antártida. Dizem que o posfácio do livro escondido pela biblioteca interplanetária é o seguinte: “Não há monstro que habite dentro de nós. O que há é algo que habita em todos os recônditos cantos do mundo, e essa coisa não tem nome, mas nos obriga a fazer coisas irreversíveis”.

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Luigi Ricciardi (São Paulo, 1990). Nascido Luís Cláudio Ferreira Silva, é graduado em Letras Português/Franc ês (UEM), mestre em Estudos Literários (UEM) e doutorando em Estudos Literários (UNESP). Foi finalista do prêmio SESC em 2014. Publicou os livros de contos Anacronismo Moderno (2011), Notícias do Submundo (2014) e Criador e Criatura (2015). É fundador do projeto Mutirão Artístico e da revista literária Pluriversos. Atualmente é professor do Bacharelado em Língua Francesa da Universidade Estadual de Londrina (UEL). 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

DOCE DE CIDRA por

Rodrigo do Prado Bittencourt1

Depois de vinte anos, retorno à minha cidade, em Minas, com meus filhos. Ela tem um nome esquisito – Caxereamuçu – e é um ovo, mas é a minha cidade. Ah! Saudade! Infância, amigos, doces, alegria, brincadeiras… A vida às vezes é cruel em nos permitir relembrar o que passou. Eu sempre ia ver meus pais quando eles ainda moravam lá. Depois que eles se mudaram e minha irmã os trouxe para morar com ela em São Paulo, nunca mais voltei. Faz vinte anos que meu pai morreu – morreu de desgosto de ter que deixar sua terra. Ninguém me tira isso da cabeça. Sua doença foi mais da alma que do corpo. Os meninos ainda eram crianças, quando meus pais vieram de lá: o mais novo tinha uns dez ou onze anos e o mais velho uns treze. Foi muito triste e me desanimei. Não sou orgulhoso. Não é isso. A questão é: fazer o que lá, se todos que conheci estão mortos ou se mudaram também? Toda vez que volto sinto-me como uma múmia. Fico lembrando da infância, vendo tudo que mudou e isso só me faz mal. Há coisas do passado que, por melhor que tenham sido… aliás, justamente por terem sido tão boas, precisam ser esquecidas. Não viria sozinho. Não faz sentido. Ou melhor, faria todo sentido do mundo. Disso é que tenho medo. Estou na idade para enfrentar o juízo final? Isso é para crianças de catequese: os velhos não têm forças para isso. Por que acha que há tantos velhos nas igrejas? Falta do que fazer com certeza, mas também medo. Quanto mais velho, mais frágil a gente fica. Aquela história de sabedoria é conversa para boi dormir; ou então sabedoria é outra coisa; é não se preocupar com as bobeiras e se preocupar apenas com o que importa: seus próprios medos. Isso lá é vantagem? Preferia ser um moleque aproveitando a vida e pensando que o mundo se resume a jogar bola e comer doce que a Mãe faz. Ah! Os doces que minha mãe fazia: que delícia! Gosto de inocência e de descoberta. O doce de cidra, então… maravilhoso! Nunca comi um doce como aquele. Que saudade! Minha mãe morreu faz onze anos e, até hoje sempre que vejo um doce de cidra de um lugar que ainda não experimentei, compro para saber se acho um tão gostoso quanto o da Mãe. Nunca achei e nunca vou achar. Minha Mulher cozinha muito bem, mas doce de cidra igual ao da mãe não existe! Uma vez apanhei tanto! Comi o tabuleiro inteiro, escondido, e era pro meu irmão, Renato, vender. O Renato era deficiente e a Mãe fazia doces para ele vender e poder ajudar do seu modo no sustento da casa. O pai me bateu de tirar sangue. Quase quebrou a vara de marmelo nas minhas costas. A Mãe depois veio me dizer com aquela vozinha calma e amorosa para eu não fazer mais, que a gente precisava do dinheiro, que a situação estava difícil… Tadinha! Começou a chorar. Doeu tanto em mim, que chorei a noite toda sem conseguir dormir. Preferia muito mais a vara de marmelo. Eu já tinha doze anos. Não era mais tão criança. Depois disso, trabalhei feito nunca, sem corpo mole ou reclamação, para ajudar em casa, e comia o que tinha, sem fazer cara feia. Aprendi até a gostar de fubá suado. Isso foi pouco antes de eu ir pra Itu. Mas foi até bom: sempre lembrava disso no colégio interno e, quando sentia saudade e vontade de voltar para casa, pensava: “Não! Eles precisam de mim aqui, para eu aprender, ter uma boa profissão e ganhar dinheiro. Não quero nunca mais ver a Mãe chorar”. Minha mãe sabia viver: sempre amorosa com a gente, sempre nos defendendo das surras do Pai. Não era fácil para a gente: se batia em algum amigo, apanhava para não bater em filho dos outros; se apanhava do amigo, apanhava de novo para aprender a não apanhar de ninguém, mas ser homem. Rio disso, hoje e é mesmo engraçado. Os tempos eram outros. Não era só meu pai que fazia isso. Todo mundo era assim. Lembro uma vez quando o Zé da Porca, que era pouco mais novo que eu, amigo do Roberto, meu irmão, brigou com um dos Capetinhas (a gente chamava de “Capetinhas” os filhos do Paulo Capeta): o Zé apanhou feio e chegou em casa e apanhou de novo. No outro dia, na escola, ele foi brigar com o Capetinha mais uma vez porque o pai dele tinha mandado ele nunca abaixar a cabeça ou levar desaforo de ninguém. Apanhou do Capetinha e do pai, pela segunda vez. No terceiro dia, ele chegou todo mansinho para o Capetinha e falou:

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CONTOS


-vamos ser amigos porque eu não tenho medo de você, mas não quero apanhar do meu pai de novo. O Capetinha contou para todo mundo e todo mundo deu risada do Zé da Porca e mexeram com ele por um bom tempo, por causa disso. Mas acabou que deu certo e não é que daí os dois se tornaram os melhores amigos um do outro e depois o Zé até casou com uma irmã do capetinha e tudo?! Era assim. Ninguém guardava raiva: a gente era tudo criança. Eu não briguei muito na rua, pois era o filho mais velho e trabalhava mais que os outros, naturalmente. Tirava leite e depois que o pai abriu o armazém, tomava conta dele, mas não pense que perdi minha infância, ou algo assim. Aproveitei muito mais que meus filhos. Aproveitei muito mais ainda que essa criançada de hoje em dia, que é só televisão, internet e videogame. Trabalhei, sim, mas meu pai nunca me tirou da escola, porque sabia que era importante. O Pai batia muito, mas queria nosso bem. Também, coitado, não era fácil: imagine aquela filharada, tudo homem – tive uma irmã só e o resto tudo homem: 10 homens! E a gente era pobre e o Pai tinha que se virar para tratar de toda a família. Além disso, o pai era doente: tinha uma úlcera que quase o matava. Às vezes, eu estava em casa e pensava: “cadê o pai?”. Ia para o quarto e estava ele deitado na cama, encolhido, morrendo de dor. Ele tomava um litro de leite para acalmar a dor e não valia de nada. Naquela época, não tinha recurso. O negócio era sofrer. “Gente nasce mesmo é para pagar”, dizia o povo antigo. Talvez estivessem certos. O Pai aguentou isso dois anos antes de conseguir fazer cirurgia. Hoje, eu me pergunto se estou à altura de meu pai e minha mãe. Quando era rapazinho e fui estudar em Itu, já que na minha cidade só tinha escola de criança, tive vergonha deles, por serem da roça, pobres e ignorantes. Eu só estudava com gente rica, no colégio dos Irmãos e só estava lá porque a Congregação pagava tudo, já que eles esperavam que a gente se tornasse padre. Os meninos que moravam lá eram todos destinados ao seminário, mas havia também os que moravam com suas famílias e iam lá só para estudar. Estes eram os mais ricos. Tinha até filho de fazendeiro! E eu com apenas duas calças e duas camisas que a Mãe fez para eu passar o ano: uma verde-limão e uma abóbora. Para passar o ano: veja bem! Coitada da Mãe, costurava de noite, estragando a vista, depois de um dia inteiro de trabalho e ficou toda orgulhosa de me ver experimentando as camisas quando ficaram prontas. Depois, dobrou com tanto cuidado para pôr na mala e exigiu que eu tivesse tanto cuidado para transportá-las que parecia que se tratava das roupas de Jesus. Tadinha. A verdade é que, mesmo com tanto amor e empenho, tive vergonha dela; desta simplicidade. E vergonha do Pai. Meu Deus! Vergonha do Pai que sempre lutou tanto por mim e por todos nós. Via os meninos mais bonitos, mais bem vestidos e mais inteligentes que eu. Meninos que nunca tinham pegado numa enxada e eu não podia dizer que nunca tinha trabalhado pois todo mundo via que eu era pobre tinha as mãos e os pés grossos e calejados. É duro ser adulto quando se ainda é criança, mas isso me fez homem. Depois é que fui perceber o quanto estava errado e quando comecei a trabalhar no banco em São Paulo – e o negócio apertou e tive que comer o pão que o diabo amassou – aí dei valor. E até hoje tenho muito orgulho deles. Espero que meus filhos um dia tenham a minha idade e ainda tenham esse orgulho que eu tenho de meus pais. Agora, só não sei uma coisa: orgulho do que? Não enfrentei nem um décimo das dificuldades que meus pais enfrentaram; não tive tantos filhos (apenas dois); não vivi numa época sem hospitais, estradas, escolas… a minha cidade ainda não tinha tudo isso, mas saí de lá cedo, para estudar em Itu e quando saí do Colégio, com 18 anos, os Irmãos me arrumaram o emprego no banco, em São Paulo. Não passei o que o Pai e Mãe passaram... Se alguém deveria ter vergonha de seu pai são meus filhos e não eu. Por isso, trago-os aqui. Quero que vejam como era tudo, que respeitem meus pais, como eu faço. Quero que conheçam este mundo que se perdeu. Quero mostrar a eles os locais em que aconteceram as coisas engraçadas e felizes de minha infância. E foram tantas! Eles nem devem se lembrar muito bem de tudo que lhes disse sobre os lugares daqui e de quando vinham; faz tanto tempo... É bom estar com eles, aqui. Tudo fica mais leve quando se tem o apoio de quem te respeita e trata bem. Principalmente quando você não merece isso. Enquanto eles estiverem aqui, comigo, sou eu o foco de tudo e o objeto de interesse deles. Querem saber como se deu esta ou aquela história que lhes contei. Quando estou com eles, recebo o amor que deveria ter dado a meus pais. A gente vai andando e as lembranças me vêm e me assustam, mas o amor deles ajuda a diminuir um pouco este impacto. “Diminuir”. Não “extinguir”. Não adianta: é inevitável viver. Viver é lembrar: a vida não começa do nada e o presente é dado por quem se não pelo passado? Cada rua traz em si uma ameaça; cada casa, cada pessoa da minha geração que me aparece e que pode ser alguém que conheço e que traz consigo marcas do passado. Meus filhos me ajudam, porém, a me sentir mais forte. Afinal, eles vêm força em mim. Não sei de onde tiraram isso, mas é assim. Eles me protegem de mim mesmo e me protegem de meus pais, de encontrar com as lembranças que tenho deles. Não sei se funciona, mas acho que é isso: a gente só tem filho é para se proteger de nossos próprios pais. Só espero que eles não carreguem um dia as mesmas culpas e traumas que eu. “A filiação é bênção ou maldi-

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ção?”, pergunto-me. Diria que toda bênção é uma maldição. Aprendi isso com a vida. Pena que o oposto não seja verdadeiro. A vida é mesmo estranha e assustadora: quanto mais te amam e te fazem bem, mais te machucam e atormentam. Não se escapa das cadeias que se aprendeu a amar. Sobretudo se elas te geraram. Talvez seja egoísmo perpetuar essa prática, mas, como na brincadeira da batata quente, não se livra do mal se ele não for passado adiante. Viver é magoar, e amar é ferir, mas quem consegue abrir mão disso tudo?! Assim, até mesmo o doce de cidra torna-se veneno. O doce da Mãe.

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Rodrigo do Prado Bittencourt (Pouso Alegre, 1984). Doutorando em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra, colaborador da revista da Universidade de São Paulo, USP. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

ANJOS DA NOITE por

Luciane Souza1

Ela adormeceu. Presenciar os sepultamentos sempre a deixa triste, não sei o motivo de ela querer estar presente. E não sei o motivo de eu nunca a convencer a não vir. Olhando para ela, eu vejo em seu semblante sereno o amor que brota do seu ser, o amor que ela compartilha com os humanos; o amor que ela sente ao sentar-se em uma colina sobre a grama úmida de orvalho e sentir o calor do nascer do sol... Eu não sinto isso, não com a intensidade que ela sente. Acho que esse é o maior motivo das nossas discussões… Eu, apesar de ser um anjo da guarda, não sinto essa ligação com eles, não como ela, um anjo que leva suas almas depois da ceifa. - Ah Jael… - O que foi? – ela perguntou, passando as mãos nos olhos inchados do choro - Já acabou? - Sim – eu respondi, levantando-me e ajudando-a a se levantar – Devemos ir agora. Nosso próximo tesouro está prestes a nascer. Demos as mãos e, em um piscar de olhos, estávamos na sala de parto. A próxima alma que eu guardaria seria a de uma menina...Assim é bem melhor. Jael se emocionou, tocou levemente o rosto da menina que receberia o nome de Clara. Ela olhou para mim e se foi. Esse é o único momento em que ela tem contato com a alma antes de levá-la... Mas não foi assim com Rúbem. No momento da nossa criação somos divididos, duas partes de uma mesma alma. Enviam-nos para a terra, cada um com sua tarefa, eu sempre fico com a luz, ela sempre fica com as trevas. Nós nos vemos pouco depois que chegamos aqui, mas quando nos vemos, apenas por uma fração de segundo, somos capazes de nos entendermos, de ver o que a outra sente. As trevas sempre trabalham mais do que nós, os anjos da guarda. Enquanto ficamos guardando apenas um humano por vez, os anjos da morte levam dezenas de almas para o outro lado do véu. Acho que isso explica o motivo de eles serem tão sensíveis. Jael é diferente. Sempre foi. Ela parece não entender que não deve ser tão próxima deles, dos humanos. Tudo começou quando voltamos pela milésima vez à terra, eu fui designada para uma alma especial, sua missão na terra seria curta, ele não chegaria a completar três décadas. Todos nos reunimos em um acidente de carro, quando o melhor amigo de Rúbem fora levado. Jael apareceu para colher a alma e viu quando a morte beijou o rosto de Rúbem. Ela soube que ele seria o próximo. - Jael – eu a chamei, assustada por vê-la segurar a alma enquanto ficava encarando o rapaz caído no asfalto – Você tem que ir! Ela olhou para mim, seus olhos lacrimejantes me mostravam a tristeza que ela sentia ao levar uma alma tão jovem. - Por que eles devem voltar tão cedo? – ela me perguntou – Eu não entendo. - Não somos capazes de entender os planos, Jael. – eu me aproximei e toquei em seu ombro – Vá. Cumpra seu dever. - Me ajudem… – o rapaz gemeu e esticou uma das mãos. Nós nos viramos e vimos que o rapaz caído no asfalto falava conosco. Jael soltou a alma e se ajoelhou ao lado dele. - Não se preocupe Rúbem, você será salvo! – ela disse. - Jael! – eu a puxei. A alma que ela deveria levar para o outro lado estava perdida. Quando a morte beija um ser humano, ela deixa a marca da partida para que os seus anjos possam levar as almas para o lado do véu onde ficam os desencarnados. O véu é apenas um fino tecido transparente que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos e nenhum vivo é capaz de ver o véu ou através dele. As almas recolhidas que se perdem não passam pelo véu e ficam vagando pela terra. - A alma está perdida! – eu disse mais vigorosamente – Devemos recolhê-la imediatamente. Jael se levantou e fomos em busca da alma. Ela sentiu-se ligada a Rúbem e eu soube que aquilo causaria problemas. - Ele tem um coração puro. - Eu sei Jael, eu sei.

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CONTOS


Quando avistamos a alma, eu voltei para o lado de Rúbem e Jael cumpriu seu trabalho. No dia seguinte, Rúbem já estava em casa quando ele se lembrou de Jael. Por ter recebido a marca da morte, ele pôde nos ver naquele momento tênue entre os dois mundos, e por algum motivo, ele se lembrava dela. O que não acontecia normalmente. Para meu susto, Jael apareceu no quarto onde ele descansava, ela sentou-se ao seu lado na cama e esperou que ele acordasse. - O que pensa que está fazendo? – eu perguntei. - Quero vê-lo. - Você o verá quando vier buscá-lo! - Não assim, quero vê-lo vivo. Ele acordou e a viu, seu semblante refletia a alegria que ela sentia. Mesmo já presenciado esse tipo de atitude dela, eu sempre me surpreendi por vê-la apaixonada, mas, ser correspondida é o problema. - Quem é você? – ele perguntou ainda sonolento – Como entrou aqui? - Não precisa se preocupar – ela respondeu passando a mão pelo rosto dele - Eu não vou te machucar… Estou aqui para te ajudar. - Jael – eu a chamei, andando de um lado para o outro, não me preocupei em chamar a atenção de Rúbem. Eu sabia que ele não era capaz de me ver… Ninguém vê seu anjo da guarda – Pare com isso! Agora você já o viu, vá embora! Ela parecia não me ouvir, mergulhados em um mundo só deles, Rúbem e Jael conversaram sobre céu e inferno, sobre o acidente que matara um de seus amigos e do fato de que Rúbem iria em breve deixar o mundo dos vivos. - E não há nada que você possa fazer? – ele se levantou, parecia que havia finalmente entendido o sentido da conversa, ele percebera que iria morrer muito jovem – Isso não pode estar certo… Quero dizer, eu ainda tenho muito que fazer… Estou quase me graduando e… - Não se preocupe! – Jael se levantou e o segurou pelas mãos – Tudo tem um propósito. - E qual é o propósito de um jovem morrer? – o temor de deixar o mundo deixou Rúbem agitado. - Não pense nisso agora, venha. – Jael o abraçou e juntos andaram em direção à janela. - Jael… Jael! – eu gritei para que ela parasse… Mas ela se foi, levando nos braços o seu novo amor. As consequências geradas pelo relacionamento entre um ser humano e um anjo são mais catastróficas do que as geradas por um ser humano e um demônio. Jael nunca se importou com os problemas que a alma sofre quando atravessa o véu, muitas vezes essas almas passam por um purgatório para pagar pelos pecados cometidos na vida terrena, e um homem que se relaciona com um anjo... Bem, essa alma pode nunca ir para o céu. Eu demorei muito para encontrá-los, sempre me importei mais com a vida que as almas seguem depois de atravessarem o véu e Jael se preocupa mais com a vida na terra. Talvez por ela não saber exatamente como seja a vida no mundo dos vivos. - Jael! – eu gritei quando a vi sentada em um pomar, Rúbem repousava a cabeça em seu colo – Você sabe que isso terá consequências! E não serão nada boas! - Ele não pode deixar esse mundo sem ver a beleza que o cerca! – ela dizia sem olhar para mim – Ele tem que conhecer o mundo antes de deixá-lo. Ela me olhou e eu pude ver o amor que ela sentia por ele… E pelo mundo! Eu nunca havia pensado nisso, talvez o amor que ela sinta pelos humanos seja – na verdade – por eles viverem plenamente os sentimentos. Sem que eu percebesse, eles haviam desaparecido novamente. Jael o levara para conhecer outro lugar especial. Quando os encontrei novamente, Rúbem estava deitado nas areias brancas de uma praia deserta, Jael estava paralisada olhando para o horizonte. - Jael? – eu perguntei, estranhando a energia que a rodeava – O que foi? Só quando me aproximei eu percebi que Rúbem não estava deitado, estava caído e Jael não olhava para o horizonte, ela encarava as costas da morte que se distanciava e ao lado dela, a alma de Rúbem. Ela não me respondeu, não olhou para mim ou para a alma confusa de Rúbem, simplesmente o pegou pelo braço e fez seu trabalho levando-o para o outro lado do véu. Eu sabia o que ela faria em seguida, por isso fui para o quarto de Rúbem. Não sei quanto tempo nós ficamos lá, olhando as fotografias que estavam coladas na parede. Eu não queria aborrecê-la, sabia que ela sofria e mesmo não entendendo direito eu sempre respeitei esse período que só acabaria quando ela visse os humanos se despedindo dele. Enquanto estávamos sentadas, observando os familiares de Rúbem velando seu corpo, ela me olhou e sorriu, como se pedisse desculpas. - Eu não consigo resistir. – ela disse – Eu os amo profundamente. Eles são seres complexos e simples ao mesmo tempo; são capazes das piores barbaridades e das maiores generosidades. Eles se importam com tudo, menos com o que realmente importa. Eles buscam beleza a todo custo, mas são incapazes de ver que a beleza está por toda parte... Eles são incríveis e assustadores. Quando ela deitou a cabeça no meu ombro, eu respirei fundo. Clara estava prestes a nascer e eu não queria interromper aquele momento. Eu a olhei e vi que ela havia adormecido.

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Luciane Souza (Brasília, 1983). Apaixonada pela literatura, começou a escrever contos quando ganhou uma máquina de escrever aos 14 anos. Desde então dá assas à imaginação. Seu primeiro romance intitulado Estrelas Artificiais foi publicado independenteme nte pelo Kindle Direct Publishing – Amazon. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

LONGE DOS OLHARES DE AMÉLIA por Letícia Copatti Dogenski 1

A multidão se reunia em frente à casinha ilhada pelo grande jardim, destinado à depravação pelo pisoteio dos presentes. As palmas rosadas se esticavam em seus caules como se temerosas de seu iminente e triste fim, enquanto os filhos da velha tentavam conter, de toda forma, a massa de gente que se aglomerava gritona, resmungava, reinava pela falta de notícias. Distinguiam-se, em meio aos gritos, aqueles desesperados, que a velha lhes havia salvado a vida, diziam, milagreira que era. Porém, mais alto bradavam os descrentes, clamando pela verdade e pela morte, que a velha os enganara a todos o tempo inteiro. Para tanto, chacoalhavam o portão de ferro que, por pouco, não cedia a tais investidas zangadas. O filho mais velho da moribunda, que pendia sua força contra as grades, encolerizava-se com a afluência, desgostoso ao pensar na pobre mãe acamada, enquanto ouvia tantos desagrados. “Mas que falta de compaixão” – ele gritava acima de todas as vozes, arranhando mãos e coiceando pés que teimavam em ultrapassar os limites que impunha. Sua irmã pranteava pela situação e pela mulher que, a cada minuto, definhava em seu pequeno quarto, como se escorrendo vagarosa para a urgência da morte. Corria para todos os lados, ora auxiliando o irmão em sua penosa tarefa, ora segurando a mão da velha, de modo a impedi-la de escoar ainda mais. A anciã era dita milagreira na cidadela, curando chagas para não restar nem cicatriz, revivendo rebentos natimortos de imediato após a paridela, curando de bebedeira a ciúme, mas, para tanto, deixando se esvaírem suas lágrimas prodigiosas. Há tempos que corriam pelas ruas as prosas de seus feitos aguados de lágrimas, e muitos do gentio tinham parte em propagar a conversa, enquanto tantos outros a procuravam para comprovar a teoria. Deveras, a sala em que a velha atendia seus pacientes era adornada de prateleiras na gestação de pequenos frascos de conteúdo aguado. Após análises, rezas e bênçãos, um dos numerosos frascos era designado ao enfermo, fadado ao ritual de banhar suas chagas ou seu estômago com o fluido. Mas era unânime a sentença: “uma vez aberto o vidro, o odor exalado era como o da flor mais bela e perfumada do mundo, ao desabrochar-se enrolando em seus sentidos”. E muitos bradavam, nos colóquios, que aquelas eram as lágrimas mais poderosas do mundo, enquanto outros desgostosos se incomodavam e diziam, solenes como esses sempre são, que os primeiros estavam tragando nada mais do que uma qualquer água de flor. E, por muito tempo, a cidade se dividiu entre “crentes e descrentes da velha Amélia”, fomentando as inimizades que mantinham para se socorrerem da aura densa de tédio que caía sobre eles, empurrando-os contra o chão, obrigando-os a acorcundar. Quando a velha então caiu de cama naquela manhã, a notícia correu furiosa e os portões da casinha atraíram, como ímãs, seus opostos que se aglomeraram aos brados, seguidos pelos crentes que cantavam serenos. Já parecendo sob os deslumbres de seus últimos momentos, tremia na cama à mercê do berreiro que se instalara logo além da janela do quarto, e se aborrecia com o azar de não ser deixada para morrer em paz. Diante de suas senhorinhas companheiras, reclamava que nenhuma alma deveria partir diante de tanto tumulto, nem ouvindo os choramingos de medo de seus filhos. Amélia mantinha sua voz forte e calma e seus olhos cristalinos, a despeito do corpo que parecia murchar sobre o colchão. Por fim, encontrou forças para se levantar uma última vez, zelar suas pupilas sobre as pessoas que se aglomeravam na rua, separadas de seu grande jardim pelo portão rangedor. Deixou-se olhar para cada um dos rostos, e muitos se calaram diante de sua face que parecia tão feroz naquele momento. Na iminência de sua última bênção ou da confissão de sua fraude, não disse palavra nenhuma, e só voltou para se deitar quando o silêncio, obrigado pela sua figura, já era quase completo. Ao mirar os seus, dentro do quarto, deu a sentença: “a morte às vezes é mesmo uma cretina” – e voltou para se espalhar tranquila sobre sua mortalha. Os ânimos se exaltaram na pequena casinha quando entendido que aquele piscar tão demorado dos olhos de Amélia era senão o derradeiro. Iolanda, sua filha, chegou das correrias a tempo de presenciar sua última olhadela ao esmo, antes de se esvair para sempre. Tentou impedi-la de findar, correndo para abrir novamente seus olhos curandeiros, e viu que, apesar de sua alma já ter se esticado para a eternidade, seus olhos permane-

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ciam vivos, brilhantes e videntes. No reflexo da íris apagada da idade, viu passar sua vida e algumas imagens a despeito de sua sabedoria sobre o tempo. Estava como pasma observando os olhos da mãe morta, vendo seu futuro que claramente se desfiava através de sua existência determinada, o que, somado com a recente perda, a fazia prantear baixinho. Diante da notícia, a multidão em frente à casa se acalmava: faziam silêncio os adoradores da velha e amenizavam suas cóleras os descrentes. Iolanda só então foi afastada do corpo que jazia em seus muitos anos e dores, para ser consolada noutro cômodo por Camilo, seu irmão, que enfim tinha a chance de largar os portões. “A morte é uma cretina, ela anunciou” – comentando o momento que apenas passara, dando vazão ao olhar quente que todos receberam da velha que, nem um pouco como uma despedida, parecia mais o olhar de alguém que se contenta com a enfim chegada. Iolanda permanecia em seu assento ainda visualizando na mente as imagens passadas dos olhos da mãe para os seus. Para explicar sua perplexidade tão insistente declarou a descoberta: “Vi minha vida nos olhos dela, vi o futuro”. As senhorinhas ali presentes, que já preparavam o corpo da defunta para o velório, se sobressaltaram. Não queriam abrir as pálpebras da defunta, que diziam dar má sorte para quem o fizesse, mas, no antro do afinco de Iolanda e da própria curiosidade, olvidaram suas superstições. Uma a uma fizeram o movimento que lhes mostrou aquilo que entendiam ser o futuro iminente, correndo depois para a janela anunciar o primeiro e tão recente milagre póstumo de Amélia. “Tem nos olhos os destinos” – gritavam – “Tem nos olhos as determinações de Deus”. O povo, que já desintegrava seu êmbolo, empacou nos passos, muitos já distantes, para ouvir as senhorinhas que proclamavam o acontecido. Aos poucos, o tumulto voltou a empurrar os portões da casa, ameaçando sua integridade, para amenizar os brios curiosos. As palmas rosadas do jardim foram colhidas para adornarem o corpo murcho e sem vida que ainda pesava sobre a cama, destinado a ter seus olhos abertos até onde suas pálpebras suportassem. Através da noite que já descera, os visitantes duravam suas presenças, esperando dar uma última olhadela na mulher, e acendiam candelabros para acalentar sua alma e confortar seus próprios olhos da escuridão da rua. Eram deixados para entrarem sozinhos, porém sob a vigília das senhorinhas, para ver o que as íris da velha lhes mostrariam. Muitos saíam perplexos e não diziam palavra sobre os seus futuros agora conhecidos, prometendo nunca mais chegar nem mesmo perto do casebre da velha. Outros saíam aliviados, mas nem por isso diziam o motivo para tal. A notícia da morte da curandeira e de suas vidências póstumas fez aumentar a afluência que se acumulava na porta, de modo que se passaram três dias até o povo enfim dispersar. E ainda assim, a cada hora, chegavam mais examinadores de olhos para ver seus destinos refletidos abaixo daquelas pupilas. O corpo de Amélia, porém, como temiam seus filhos, começava a se decompor enquanto ainda duravam as visitas dos curiosos, e as flores que lhe adornavam definharam, e mesmo as do jardim se fizeram acabar. Porém, o odor das enfloras continuava a se alastrar pela residência, até que encontrada sua fonte: o próprio corpo da velha. Apodrecia cheirando a flores, como as ditas lágrimas que observavam das prateleiras. E como as conversas que sempre correm, a de agora dizia que Amélia tinha mel no lugar de sangue, e por isso não fora surpresa quando certo dia a casa amanheceu infestada de abelhas e borboletas discutindo por um espaço sobre o corpo sem vida. Por fim, e para desespero de muitos crentes, Iolanda e Camilo deram a sentença de que o corpo deveria ser sepultado. Na mesma tarde, um enorme cortejo acompanhou o cadáver salpicado de insetos, calmamente carregado até o cemitério posto sobre uma beirada da cidadezinha. Para Amélia, fora destinado o pico do morro que abrigava a mortalha coletiva, para que, de longe, pousasse seus olhos sobre seus crentes. Mas os olhos da velha, na verdade, foram deixados em casa para serem conservados nos frascos de suas lágrimas, o que estranhamente aconteceu através dos anos que desde então se passaram. Ainda recebem muitas visitas de quem por acaso se vê no caminho da cidade de Amélia e ouve a história incomum. Para tanto, os interessados hão de seguir o odor de flores que se faz forte do nada para, subitamente, ir em frente até ver uma colina cheia de palmas rosadas que apontam para todos os lados. Abaixo dela, tem uma casinha bonita protegida por portões de ferro, que abriga um par de olhos azuis apagados, mostrando futuros enquanto nadam em suas próprias lágrimas para sempre.

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Letícia Copatti Dogenski (Sananduva, 1994). Autora da novelaOnde as Nuvens Fazem Sombra (Autografia, 2015). 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

DE DAR INVEJA NA MARCELA TEMER por Cintya Nunes 1

No meio da praça, ninguém sabe o poder de Lila. Lila é mulher, Lila usa uma corrente com dois bonequinhos pendurados. Lila acorda cedo todo dia, prepara o café, leva os filhos à escola. Depois vai para o trabalho. Depois volta para casa. Mas, antes de voltar para casa, passa no supermercado e faz umas comprinhas para o jantar. Lava a louça da noite, ajuda os filhos nas lições, confere a roupa lavada. Ajeita a casa, tira as meias jogadas e as peças de Lego do chão. Conversa com as crianças. Tenta. Fala dos deveres. É preciso fazer toda a lição, estudar, se aplicar. Conversa com o marido, sentimento de cafeteira, chinelo com meia. É preciso falar da relação. Estatísticas demonstram que 32% dos casais ainda não dividem as tarefas de casa na cidade de São Paulo. Deu na Cláudia. Ela lia Cláudia. Hoje lê autoajuda, mensagens de whatsapp e vê a capa da Cláudia na banca. No banheiro, no intervalo da descarga. Puxa metros e metros de papel do rolo, derruba o rosto sobre as mãos para abafar o barulho. O exame de tireoide deu alterado. Deve repeti-lo em um mês para ver se há mesmo algum problema. Repete a rotina todos os dias. Nos finais de semana, muda. Entra café da manhã na padaria, almoço com a sogra, visita aos pais, supermercado maior, ir ao shopping fazer os óculos do caçula. Segunda virou redenção. Segunda, às 8h: psicólogo do Tomás antes da reunião com o chefe. A empresa passa pela mais séria crise dos últimos anos, procure saber. A saída anunciada chama-se criatividade. Sente dó dessa palavra, ainda mais com cunho corporativo. Lila viaja a trabalho duas vezes por mês, abre seu laptop e projeta PowerPoints em muitas salas por aí. Lila se viciou no barulho da tampinha da lata de Coca-Cola e na Coca-Cola. Depois da cirurgia bariátrica, é a única coisa que pode beber quando acorda. Versão Diet. Lila está tomando muitos medicamentos e tranquilizantes. Passa no psiquiatra todo mês e no psicólogo toda semana. Hoje se orgulha de uma conta bancária folgada. SUV da moda, uma Paris ano sim, ano não, apartamento com sacada gourmet em bairro nobre paulista. No meio da reunião, sente uma dor estranha, percebe que anda trocando as palavras em reuniões, se esquece fácil da agenda, de combinados com os clientes. Só neste ano, perdeu dois guarda-chuvas, um par de óculos e três iPhones no táxi. Matriculou-se no pilates, cross-fit fez mal a ela, dava enxaqueca. Dorme 5 horas por noite, picado. Farol vermelho voltando do trabalho, sentiu uma dor estranha nas costas, a ponto de ficar difícil encostar-se ao banco do carro. Estacionou no meio da rua e desceu para ver o que era. De suas costas, havia brotado duas pequenas asas de uma cartilagem flexível, meio amarelada. Sentiu o peso e percebeu que podia controlar o movimento. Acelerou e acabou se afastando do chão, cerca de uns 20 cm – em Bruxelas, há um famoso cientista estudando a aplicação de genes de pássaros em humanos, que resultam no crescimento de articulações e asas em diferentes membros do corpo. A ideia de liberdade sempre perseguiu o homem. Seu corpo voltou ao solo. Na nova tentativa de flanar, conseguiu sair um metro do chão. Animou-se e largou o carro na rua. Largou tanta coisa… Só pegou a bolsa ­– era muito apegada a batons. Saiu voando pela cidade. Conseguiu atravessar a Marginal do Rio Pinheiros sem levar a sujeira. Bateu um cansaço, pousou no Shopping Morumbi. Viu o marido almoçando com a outra. Num voo rasante, entrou pelo restaurante e não deu um pio. Decidiu bicar o mundo.

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Cintya Nunes (São Paulo, 1974). Publicitária formada em Comunicações pela Universidade de São Paulo (ECAUSP). Tem na escrita seu ganha-pão e seu ganha-chão. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

FRÁGIL CORPO DE POMBA por

Rândyna da Cunha1

A manhã ensolarada era um grande convite a um feliz passeio. Os raios de sol, esparramados pelo céu azul e limpo, proporcionavam um calor carinhoso. Os ruídos matinais não incomodavam tanto como nos dias anteriores. Todos os aromas juntos tinham um cheiro macio de pão quente e café fresco. O dia parecia uma nova proposta, aliás, uma promessa de que tudo seria diferente. A diferença tocava suave a superfície que envolvia todas as coisas, rasgando de leve a capa surrada e opaca. O tempo escorria por dias iguais, dias que esperavam ardentemente a diferença, ainda que não-muda, mas tremendamente silenciosa. O grito estridente das buzinas misturava-se ao ritmo, aparentemente ensaiado, dos passos dos pedestres. Esses sons aconteciam de modo a simular uma canção urbana meio seca, um pouco dura e quase harmônica. O sol estava firme, seus raios eram braços delicadamente estendidos, prontos a abraçar o asfalto duro. Ela respirava com calma, sorvendo o ar em pequenos goles, sentindo o gosto amargo que saía dos carburadores quentes. Os olhinhos brilhantes piscavam atentos a tudo, imersos no nada. Captavam as pernas, indo e vindo, em uma onda chata e enjoativa. Via a distância escondida ao longe, pelo azul do horizonte. Talvez seu horizonte fosse mais baixo. A língua estava levemente umedecida, tremendo suavemente, fazendo cócegas no céu da boca. Céu fundo, céu mole. Era uma existência tão simples. Em dias como aquele, olhar para o chão era uma heresia. Bonito mesmo era o céu. Ela estava parada, face voltada para cima, olhos imóveis. Respiração tão despreocupada que apenas se ocupava com o olhar. Fazia dias que ela não se sentia daquele modo. Normalmente sua rotina era agitada, repleta de planos cumpridos pela metade, interrompidos, trocados por outros. Interromper seus planos não era proposital, mas era rotineiro. As circunstâncias da sua existência faziam com que ela substituísse a todos, um a um. Acontecia o mesmo com seus sonhos. Ficavam velhos e precisavam ser renovados. Talvez ela não fosse paciente. A espera parecia a longa ânsia pelo nunca. Esperar que os sonhos se concretizassem não estava em seus planos, ela só queria desejá-los tanto, até que ficassem velhos e precisassem ser substituídos. Era assim que se sentia viva: desejando. Ela era feliz, estranhamente feliz, em uma vida tão anônima e com momentos tão difíceis. Quando pensava na solidão, ela sabia que seria feliz, por isso não se desesperava e nem se agitava com a possibilidade de continuar assim. Era uma solidão acompanhada, afinal estava sempre em multidão. Em um dia tão simples, comum e agradável, mais uma vez a mudança inevitável chegou. Estava parada, no meio do asfalto e não pôde se livrar dos pneus pesados e brutos, que esmagaram seus ossos. De repente, todos os planos, sonhos e alegria daquela manhã estavam estendidos em um frágil corpo de pomba agonizando no asfalto. O bico se abria e fechava, ensaiando um grito impossível de se realizar, pois ela já não tinha forças. Era agora uma massa de carne, sangue e ossos quebrados debatendo-se no asfalto. As outras apenas bateram asas e saíram do chão. Por algum motivo torpe, ela continuou, e agora sentia o nada se aproximar. Através de seus frágeis olhos percebia o carro seguindo incólume. O asfalto era quente. Tudo ao redor era indiferente ao adeus que ela construía ao seu redor. Suas últimas visões, suas últimas sensações, tudo resumido a um diminuto momento. As asas brancas com manchas amarronzadas jamais alçariam voo novamente, sequer se moviam. Não havia mais domínio algum sobre elas. Os longos passeios, de telhado em telhado, sob o calor carinhoso dos raios solares, acabaram, e ela era ainda tão jovem, tão feliz, tão pronta para a vida.

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Rândyna da Cunha (Brasília, 1983). Graduada em Letras e Direito pela Universidade Católica de Brasília. Colunista na página “A Soma de Todos os Afetos”. Tem contos publicados em revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora.. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

O MURO por

David Junior1

Um pequeno garoto vivia numa comunidade afastada de todo o resto do mundo, cercada por altíssimos muros de tijolo e concreto e com um imenso portão que nunca se abria. Uma igreja, uma escola, algumas casas e várias plantações e criações. Um lago – lindo, por sinal. Uma pequena civilização, escondida num pequeno pedaço de mundo. Comum a tudo o que é material é a pequenez. Sabe-se lá o tamanho do que há além do universo, se é que essa teoria de algo além é válida e se é que o universo já não baste. Mas, mesmo que miúdos e marginalizados, eram todos os habitantes felizes, dentro da felicidade que lhes fora apresentada. Ali, um pequeno garoto vivia. Seu pai era cuidador de ovelhas. O homem gostava dessa denominação, não de outra. Tudo o que lhe remetesse a religiões entortava-lhe a alma. Santo Deus! Não que fosse ateu. Pelo contrário, tinha uma fé que os anjos invejavam. Mas não atribuamos pecados aos pobres angelicais, pois aqui esse capital toma um tom menos ofensivo, e já não sei se me faço entender… A semântica das palavras é o veneno e a vacina. Cabe-nos escolher entre a presa e a seringa. E de tanto moralismo nesta narrativa, esqueçome do importante, mas retomo o fato. A mãe do garoto, uma doce senhora que regava a pequena horta da família. A irmã era a cópia da mãe, e ajudava nos serviços domésticos. Já o garoto não copiava a ninguém, nem a si mesmo. Até mesmo o espelho se espantava. Todos os dias, o pequeno garoto ia até os muros que cercavam a cidadezinha e insinuava escalá-los. Não passava da metade da altura, pois a mãe lhe gritava e desaprovava toda aquela curiosidade pueril. Voltava o menino, então, aos árduos trabalhos entre o carrinho e a bicicleta. Quando o pai voltava das ovelhas, a mulher lhe contava o que fizera o menino, e o pai reforçava a reprovação ao pequeno. No fundo, o pai apenas queria manter sua autoridade e fazer-se cúmplice da mulher, pois admirava seu filho exercendo a curiosidade que ele também tinha. A irmã, ainda que mais velha, não reprovava nem aprovava. Não dizia nem desdizia. Não pensava. Apenas copiava. Certo dia, novamente em seu ofício de persistência, o garoto começou a escalar o muro, aquele altíssimo muro, ínfimo aos olhos do infinito. A mãe logo lhe repreendeu, como sempre acontecia. Mas, dessa vez, o menino não a ouviu e continuou a escalar. A cada centímetro acima, a mãe lhe prometia um castigo a mais. Mas ele estava disposto a aguentar a pena futura. Escalava, subia, suava. Chegou ao cimo. Olhou para baixo e viu sua mãe desesperada, junto de sua irmã não pensante. Do pequeno campo das ovelhas, o pai enxergava o filho, ao longe, e ria-se feliz, mas triste por não estar sobre o muro também. O garoto olhou para o outro lado do muro e viu a mesma altura entre ele e o chão, porém uma diferente extensão entre ele e o horizonte.

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David Edson de Camargo Junior (Votorantim, 1989). Professor e aspirante a escritor. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

OS OLHOS MAREJADOS DA MENINA por Rita de Kasia Andrade Amaral

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Eu andava por entre os carros estacionados na calçada e o fluxo contrário de pedestres, na tentativa de chegar ao ponto de ônibus a poucos metros. A caminhada não era confortável, como muita coisa nesta vida. Eu não me importava com os empurrões ou com os buracos no asfalto, muito menos com o calor insuportável que derretia a pouca maquiagem que me permitia usar. Na verdade, nada nesta vida consumia meus pensamentos ou me fazia suspirar à beira da cama, sobre o aconchegante travesseiro. Tudo era muito simples. Eu acordava às 6 da manhã, dava comida para o Hércules, meu pequeno pinscher, tomava meu café quente com pão amanteigado, escovava os dentes rapidamente e saía. Não existiam atritos familiares, porque morava sozinha, e muito menos questionamentos existenciais, porque tudo me era muito confortável. Mas voltemos ao ponto de ônibus. Eu estava, como de costume, observando o vai e vem matinal das pernas urbanas apressadas e dedos esquizofrênicos sobre telas cada vez maiores, quando notei algo incomum. Uma gota d’água caiu no chão, ao meu lado, no momento em que eu observava o sapato superengraxado de um senhor sentado, à espera da condução. Assustada, eu olhei para o céu e lamentei não ter trazido o guarda-chuva, afinal o jornal indicava um calor de 39º na cidade. Estranho, o céu estava azul, sem sinal algum de nuvens carregadas ou casamentos de viúvas. De onde caíra aquela gota? Meus olhos logo trataram de olhar tudo à volta. Foi quando eu a vi. Ela estava em pé, ao meu lado, de vestido branco e cabelos loiros cacheados. Uma menina que devia ter a minha idade, mas seu semblante era muito mais inofensivo. Notei que muitos homens a admiravam e muitas mulheres a olhavam torto, como quem expressasse grande aflição por não ser tão magra, ou tão alta, ou tão loira, ou tão, ou tão, ou tão…. Mas, até então, nada de diferente de tantas outras. A pergunta, porém, permanecia no ar, me rodeando. Eu me esforcei para olhar em seus olhos, uma ação difícil, pois ela permanecia com a cabeça abaixada, como quem admira as formigas “transitantes”. Eu a olhei. Eu olhei todos que a viam. Cheguei à seguinte conclusão: ninguém realmente a olhava. Todos viam suas pernas, seus braços, seus cabelos, mas ninguém os seus olhos. Ironia da cidade urbana, nós vemos, mas não olhamos. Nós reparamos, mas não nos importamos. Eu me importei. Mas o que deveria fazer? Seguir com a minha rotina? Afinal, o que me importava se a lágrima a tinha como dona? Entrei no ônibus lotado, em meio a tantos questionamentos, que há muito tempo não tinha, lutando a batalha diária contra a lei da física e sua afirmação de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Penso em um dia desmentir Newton com o exemplo da superlotação nos transportes públicos. Mas, enfim, estou a me perder novamente. Escolhi, um pouco forçada, o meu pequeno espaço. Reparava a vida fora da janela meio aberta, quando senti algo gelado tocar meu joelho. Virei-me assustada, podia ser um inseto, na melhor das opções. Mas não! Novamente vi a gota d’água, solitária, escorregar até se evaporar. Ao meu lado, espremida entre a minha velha mochila e a multidão, estava a menina. Seu rosto, agora levantado, fixado em uma imagem no além, como quem entrara em um mundo único e particular. Ali, solitária em meio à massa, em um momento quase que congelado no tempo, vi os olhos mais lindos, porém mais tristes, com que cruzara nesta minha jornada. Eles me prendiam. Nenhum barulho a minha volta, nenhuma parada brusca, nenhum empurrão desmedido me fazia parar de me afogar naquela imensidão. Quanto mais minha alma adentrava a dela, mais tristeza meu coração sentia. Era como se, por um breve e eterno momento, nossas vibrações se conectassem e nenhuma barreira me impedisse de sentir o que somente a ela cabia. Em um breve sussurro, perdi a minha identidade e queria apenas ser ela. Outra lágrima. Agora a gota, como já tinha alcançado seu objetivo de chamar minha atenção, se limitava ao queixo escorregar. Era brilhosa e transparente, tão pura e delicada. Em um impulso imperceptível, levei minhas mãos ao rosto dela. Meus dedos ganhavam vida própria, além, voz própria, me dizendo que seria sacrilégio deixar tamanha elegância se esvanecer, misturar-se ao ar e desaparecer. Mas… Mas… Mas meus dedos tocaram em terra seca… Cadê a lágrima?

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A menina me olhou, assustada. Seus olhos, antes tão aéreos e transcendentes, fitavam-me em profundidade e concentração. Eu não entendia nada. Onde fora parar a lágrima? Eu e ela nos olhávamos, em silêncio e perplexidade. Eu, por perder a lágrima, ela por nunca tê-la tido. – Me desculpa! – Sussurrei constrangida, tratando logo de abaixar o olhar. No momento em que estava pronta para ir-me, senti sua mão tocar meu ombro, pedindo mais alguns minutos do meu tempo.- Com licença! – ela disse em tom suave. – Você pode ver? Realmente pode ver? Aquelas palavras soavam mais inacreditáveis do que tudo até então. Não tive coragem de encarar aqueles olhos novamente, mantendo-me entretida com a velocidade dos carros que mais pareciam sons do que imagens sob a velha janela do ônibus. - A lágrima? Sim. Eu a vi e não queria deixá-la ir assim… Tão sem significado. Em meio à lotação diária, muitas mãos me esbarravam, muitos corpos me prensavam, e até pontapés me atingiam. Nenhum era pessoal. Mas, as mãos da menina eu senti. Seus dedos finos encostavam suavemente sobre os meus, soldando e pedindo permissão. Ela queria me tocar? Ela quer segurar minhas mãos? Eu não sabia o que sentir, como deveria reagir, muito menos o que estava acontecendo. - Porque você está sentindo tanto aperto no peito? Assim fica difícil de respirar – eu disse. Eu podia sentir o que se passava com ela. Não podia ouvir seus pensamentos, mas seus sentimentos. Em meio a toda dor que ela emanava, eu pude sentir um feixe de luz nascer. Era confuso demais entender o que ela sentia, o que eu sentia. Mas, mesmo na incerteza, algo me dizia que eu lhe fazia bem. Era eu a luz. Meus olhos não podiam mais resistir ao chamado dos dela, que permaneciam sobre mim. Quando me rendi à tentação de navegar, como pirata ilegal, em seu azul celeste, um lindo sorriso brilhou sobre a pele delicada. Eu era, definitivamente, a luz. Como pôr em palavras esse sentimento? Só quem teve a experiência de ser a razão do sorriso alheio sabe o valor desse momento. - Pode sentir o que eu sinto? Concordei. - Você realmente me enxerga, não é mesmo? - Isso não é algo tão difícil assim. Muitos te enxergam, hoje mesmo notei. Sentia um calor dominar todo meu rosto e orelha. Por que eu estava corando? - Não. Eles apenas reparam na menina bonita de vestido branco. Você foi a única que olhou meus olhos marejados. A única a olhar as lágrimas que meus olhos jamais ousaram derramar. Lágrimas que nem eu mesma tinha coragem de olhar. As pessoas que estavam coladas em nós nada entendiam daquela conversa. Os cochichos começaram a nascer lentamente e, quanto mais fazíamos silêncio e nos olhávamos, mais eles cresciam e aumentavam em volume. - Sua lágrima me chamou. Era como se eu pudesse ouvi-la me pedindo para não deixá-la apenas evaporar. O que eu devo fazer, então? O que ela realmente está me pedindo? – Não era a minha intenção, mas minhas palavras soaram como suplício. Ela silenciou. Novamente a feição triste tomou todo seu rosto. O sorriso deu lugar à boca cerrada. Seus dedos não mais faziam sombras aos meus. - Nada! – Ela respondeu. Em meio a um sorriso forçado me disse. – Foi suficiente. Não era suficiente. Pelo menos, não para mim. Eu não sentia a necessidade de salvá-la, muito menos de protegê-la. Muito pelo contrário, meu coração batia acelerado, disparando em meu peito, querendo criar pernas e se embrenhar dentro dela. A sua aflição eu não mais sentia, pois agora tinha as minhas próprias. Todo o meu conforto parecia que nunca mais existiria. A simplicidade de minha rotina cheirava como morte. A minha vida correu sobre meus olhos, como um filme de Tim Burton, uma mistura sinistra entre comédia e horror. Ela estava cada vez mais longe. Intocável. Inalcançável. Pela primeira vez, em toda a minha vida, eu senti medo. Não podia fazer nada. Ela se foi. Ela não podia ir, mas se foi. Eu realmente não queria, mas se foi. Assim, voltei meu olhar às pernas apressadas que corriam nas calçadas. “É melhor me conformar”, pensei, tentando me convencer. Os cochichos pararam. Ninguém mais se importava comigo. Voltei a ser apenas mais uma, comum. “Porque me importei tanto? Agora eu fico e eles se vão. A minha alma se parte e, para eles, apenas mais um excêntrico causo urbano”. “O que é isso?” Pensei. Novamente, um toque entre tantos, pude diferenciar. Não tive coragem de olhar. A dor ainda era muito forte, meu esforço muito grande para voltar à normalidade. Braços, que não os meus, envolveram-me pelas costas, em um abraço apertado e inquebrantável. Um corpo quente e macio, que não o meu, envolvia meu simples existir. Paz. A dor se fora como brisa no verão. A angústia deu lugar, como mágica, ao pulsar mais honesto de minha alma. Eu simplesmente sentia uma enorme vontade de sorrir. - Você vem? – Ela balbuciou em meu ouvido. Eu fui!

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Rita de Kasia Andrade Amaral (São Paulo, 1990). Historiadora e poeta, escritora do livro Leve Mente Humana. Ganhadora do 24º Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista, SP (2016). 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

TRAILER por

Herbert do Nascimento1

Eu moro num apartamento na General Osório. Apartamento é maneira de dizer, trata-se de uma quitinete. Das mais feias, por sinal. O prédio é sujo, nada funciona, não há portaria e, na verdade, a porta da frente, do lado de uma padaria, não tem tranca. No prédio, além de morarem, algumas pessoas também tocam seus negócios nas quitinetes. Já conheci a menina que faz depilação com cera quente e linha no 38, uma outra, cliente da primeira, que se prostitui no 55, o rapaz que vende drogas no 22, um outro, cliente do primeiro, que faz manutenção em computadores e impressoras no 51. À exceção da moça da cera quente, eu já fiz negócios com todos os outros. No prédio, existe um microcosmo todo próprio, todo dele, a fauna, composta por essas figuras, entre outras que não me chamam tanto a atenção, seus cachorros e gatos, as baratas, pulgas, ratos e demais pragas mais ou menos toleradas, interage com uma flora composta de fungos, limo, trepadeiras, flores de plástico e samambaias de xaxim. É lindo, apesar da arquitetura dos fins dos sessenta tirar um pouco do tesão da coisa toda. É lindo, apesar da minha quitinete ser horrível. Mais do que tudo isso que contei, o que mais me fascina no meu quarto é um buraco de bala na parede, do lado de onde eu coloco o guarda-roupas. O buraco tem uns dois centímetros de diâmetro, alguns milímetros de profundidade. Ele me fascina. Como uma pequena cratera lunar, bem ao alcance das minhas mãos. A história dele eu conto daqui a pouco, assim que terminar de contar como eu vim parar aqui. Morava uma família aqui bem antes de mim. Um senhor muito obeso, de quem eu comprei a quitinete, que não andava em função da diabetes ter comido metade da sua perna. O peso era demais para outra perna, tomada pela gangrena, em vias de também ser devorada. Sua mulher que sofria, ela também, de males diversos, fumava um cigarro atrás do outro, literalmente acendendo um cigarro no outro, rescendia a cinzas de tabaco, dedos, lábios e dentes amarelos, e tinha uma voz de caminhoneiro, além de um bigode de mascate. Suas três filhas, a caçula, ainda uma criança, que eu jurava iria se tornar a coisa mais linda do mundo na idade adulta, mas que foi uma decepção para mim quando, conforme crescia, ia se parecendo mais e mais com os pais, tanto no tamanho quanto no bigode. A do meio, que já saía de casa para trabalhar e, sozinha, sustentava a todos. A mais velha, dezessete anos de idade na época em que eu comprei o apartamento, faltava-lhe um dos dentes da frente, era de longe a mais inteligente da família, hoje mora no 55 e potencialmente, conforme aferi recentemente, se depila no 38. O velho separava sua cama do que ele chamava ‘quarto das meninas’ por um lençol todo manchado e cheio de buracos causados por pequenos incêndios de cigarro. Venderam-me a quitinete depois de uma pequena tragédia na família. Eu trabalhava na construção civil, ora mexia massa, ora quebrava paredes, passava fio, carregava tijolo, essas coisas. Suava o diabo o dia todo debaixo do sol, mas valeu a pena. Na obra, eu conheci o Willy, que me apresentou à minha namorada. Willy era um peruano vivendo ilegalmente no Brasil, um misto de trabalhador e patranheiro, muito alto para um peruano, estava ele, naquela época, junto com a irmã da garota que viria a ser minha namorada. Ela ainda estudava, num colégio público no Parque D. Pedro, era magra demais, mesmo para uma menina de quinze anos, mas eu não me importava, achava-a linda. Não que ela fosse, mas eu assim pensava. Eu era inocente, ela também. Willy não era. Eu dormia numa chamada camaquente num dos cortiços do Glicério. De dia, enquanto eu trabalhava, dormia na minha cama um porteiro que trabalhava todas as noites. Aos finais de semana, quando nenhum de nós trabalhava, ele passava a noite nos bares, puteiros ou na casa de seus amigos para que eu dormisse. Eu passava os dias caminhando no centro, sentava-me na Praça da Sé para ver os pastores pregando para os transeuntes, conversava com um e outro que passava, ia no cinema, para que ele dormisse. Com o tempo, passei a andar com o Willy e com as duas meninas. A namorada do Willy era ainda mais nova que a irmã, mas fazia faxina em casa de família para sustentar os pais inválidos e as irmãs. Aconteceu automaticamente. Willy saía com a mais nova, eu com a mais velha. Começamos a namorar no primeiro dia. Logo fui conhecer seus pais, naquele apartamento da General Osório do qual falei antes. Em pouco tempo, pode-se dizer que viramos todos uma mesma família, o leão marinho que as meninas tinham por pai, a mãe, as meninas, Willy e eu. Todos juntos naquela quitinete de menos de vinte metros quadrados. A mãe não se importava, desde que colocássemos comida dentro de casa, o que geralmente fazíamos. Eu passava o tempo a minha pequena, Willy com a dele, brincávamos com a caçula,

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CONTOS


tomávamos café e fumávamos cigarros paraguaios com a velha. O pai, por outro lado, nos odiava, ficava ruminando na extremidade do cômodo, os olhos pregados na janela. Eu, por minha vez, o odiava. A falta de uma perna, o fedor das pústulas na perna que sobrava, a carne preta sempre à mostra, ele me enojava. O homem não tinha nenhum asseio, era um péssimo exemplo para as meninas. Não tinha também qualquer gratidão por Willy e eu colocarmos comida em sua mesa. Eventualmente eu trouxe minhas posses para a casa e passei a morar com eles, no quarto das meninas. O velho desaprovou, mas não disse palavra. Willy também. Minha relação com o peruano azedou rapidamente, afinal ele não saía da minha casa. Eu queria um pouco de privacidade com a minha nova família, mas o maldito estava sempre lá, todo dia, o Willy e a irmã do meio de cara fechada para mim, o velho rabugento olhando pela janela, a mãe fumando e assistindo à novela, a menorzinha, um anjinho de tão linda, brincando com uma boneca muito velha. Todo dia, a mesma cena. Por uns dois anos. Naquela época, todos os meus bens se resumiam a uma mala cheia de roupas surradas, material para fazer a barba, uns dois ou três livros e uma garrucha, que eu carregava sempre no bolso da jaqueta, porque São Paulo, além de ser uma cidade fria, é também perigosa. Tudo, exceto as roupas, herdado do meu pai. Eu não comprava coisas para poder poupar dinheiro. Queria comprar uma casa. Meu pai nunca teve uma casa. Por isso que, quando ele se foi, eu fiquei no olho da rua e acabei vindo parar nesta cidade. Até aquele gordo moribundo tem um teto dele, e meu pai, trabalhador e estudado, nunca teve. Eu ia mudar essa sina, custasse o que custasse. Por isso, poupava o máximo que podia. O único luxo que me dava era ir ao cinema. Eu ia para casa após os trailers, sempre. Desde que eu descobri o cinema e assisti ao meu segundo filme e me decepcionei, porque eu havia imaginado uma história completamente diferente quando assisti ao trailer na sessão anterior. Fiquei nervoso, quis meu dinheiro de volta, não me deram, chorei de nervoso. Decidi nunca mais assistir a um filme inteiro. Os trailers, porém, ainda me enchiam de assombro, eu tinha que os assistir, era quase como um vício. O maior ponto positivo de assistir somente aos trailers é que não há quaisquer pontos negativos. Um trailer deve te capturar logo de início, porque ele dura pouco, não há tempo a perder com introduções demoradas, ele vai direto ao ponto. A ação não para, não há monólogos infinitamente longos, cenas constrangedoramente entediantes onde nada acontece. Tudo acontece num piscar de olhos. E o melhor, você nunca se decepciona com o final da história porque não há um final, você pode criar tudo na sua cabeça. E é isso o que eu mais gosto. Certa vez, minha namorada insistiu tanto para que eu ficasse até o final do filme, dizendo que ela não queria assistir ao maldito filme sozinha, que queria passar mais tempo comigo que não fosse ‘dentro daquele quarto imundo ou perambulando por essa merda de cidade’ e toda essa baboseira, e eu já estava pressentindo mais uma briga, o velho ia me encher o saco, ia ser aquele drama; eu já podia ouvir a menorzinha chorando, a do meio ia ficar de cara fechada para mim pelo resto da semana, ia ser um tédio, que decidi assistir ao maldito filme até ao final. Foi um dos piores enganos que já cometi na vida. Eu havia visto o trailer daquele filme, havia gostado, tinha criado toda a história na minha cabeça, era perfeito. No fim das contas o filme me decepcionou, me entediou, eu queria ir embora, mas não podia por causa dela, tremia de raiva. Aquilo estragou o meu dia. Eu segurava a garrucha dentro do bolso da jaqueta para me acalmar. Caso você ainda não tenha entendido o quão grande é o prazer de não conhecer uma história até ao final, eu vou voltar ao caso do buraco de bala. Quando eu morava com aquela família, pouco antes de o pai morrer, carcomido de gangrena, da filha do meio se arrancar com a mãe, carcomida de desgosto, e com a menorzinha, a que se transformou numa baleia bigoduda; antes de o Willy ser enterrado como indigente no Peru, que, de certa forma, é uma tremenda ironia; antes de a minha namorada começar a fazer programa a troco de praticamente nada, antes de tudo isso acontecer, não havia buraco de bala algum na parede do meu quarto. Naquele dia em que assisti ao filme até o fim, eu fiquei extremamente contrariado. Eu cheguei em casa e me deparei com aquela cena de sempre.

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Herbert do Nascimento (São Paulo, 1987). Tradutor, mora em Dublin, na República da Irlanda. Escreve principalmente sobre os personagens anônimos das ruas das grandes metrópoles. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

O LOUVA-DEUS E A BORBOLETA por Ivanilson Santana

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Todos que passavam pelo jardim da casa de número 112 da tranquila Alameda São Rafael se encantavam com a beleza do lugar. O baixo muro de pedra mostrava uma vista com odor sonoro e colorido, que preenchia de paz a mais singela alma humana. Havia, no lugar, duas grandes craibeiras povoadas por pardais, rouxinóis e bem-te-vis; além de rosas, margaridas, girassóis, e tantas outras flores entapetadas no chão, que nos deixavam embriagados em meio à música e ao colorido daquela natureza. Que natureza! As cores, o cheiro, o som e a brisa do lugar geravam uma verdadeira fusão de sentidos e sentimentos, que nos faziam viajar para um recanto de sonhos, do mais puro equilíbrio e perfeição do universo, um lugar onde o que imperava era a vontade de sentir-se vivo, de aprisionar-se ali, tornando-se parte de um mundo maravilhoso. Em meio a esse cenário paradisíaco, moroso e calmo como a brisa que o cercava, um louva-deus, com seu belo verde, lentamente saciava sua fome com um pedaço de grama verdinha e brilhante, uma constante naquele lugar. Seus gestos desengonçados, sua cor e suas longas patas não se deixavam perceber em meio a tanta beleza do espaço que ocupava. Ao passo que se alimentava, ele devaneava sobre a vida solitária que levava; os pouquíssimos amigos que tinha, quase nenhum, e que aos poucos eram devorados por seus predadores (é a ordem natural da vida!); o tempo em que voava aos bandos ceifando lavouras e se divertindo eram momentos que as lembranças não consentiam autorização ao esquecimento. Repentinamente, ouviu um pequeno barulho e olhou para o lado; viu uma ala enfileirada de formigas desfilando com pequenos pedaços de sementes e folhas, entrando direto no minúsculo orifício, chamado formigueiro, e daí pensou consigo: – Tanto trabalho e ordem, e, no fim, a vida se vai num flash sem o prazer de ser vivida! Sua jornada no jardim se esvaía a passos de minhoca – se é que minhoca dá passos. Quando percebeu um click… outro click… e mais outro click. Era o romper de um pequeno casulo, pendurado como trapezista no tronco de uma bela margarida. Aos poucos, o casulo ia se rompendo, e ele, estático e curioso por descobrir o que estava por vir, parava de se alimentar. Seus olhos, congelados, eram presenteados com o surgimento de uma bela borboleta. As cores de suas asas o deixavam imóvel, hipnotizado com as formas, círculos e curvas que preenchiam o pequeno manto negro usado para que a mesma alçasse voo. Suas longas asas e antenas tentavam, aos poucos, coordenar seus primeiros movimentos. Ora pendia para a direita, ora pendia para a esquerda, e aquele vai e vem aprisionava toda atenção do nosso louva-deus. Após relutar por alguns minutos consigo mesma em meio à falta de equilíbrio, ela finalmente consegue dominar seu voo, fazendo círculos em torno de si mesma e das coloridas flores do jardim. Tanto a beleza de sua forma como a de seus movimentos não a faziam cultivar a vaidade – sentimento que envenena a mais nobre alma presente entre os habitantes do nosso belo planeta azul. Ela velejava ao vento, sorrindo para todos os bichinhos que ali estavam, menos para o louva-deus, que se camuflava em meio à grama. Sua vergonha e timidez o impedia de se aproximar daquele ser apaixonante e belo. Sua vergonha era pela sua aparência, uma vez que achava que Deus teria sido injusto ao dar-lhe pernas gigantes, desproporcionais ao seu franzino corpo, e por tê-lo pintado de forma monocromática. Mesmo assim, seus verdes olhos insistiam em perseguir o bailar da borboleta: ele a viu lançar-se entre as bromélias, rodopiar entre as rosas e seus verdes espinhos, girar em torno de um imenso girassol, até pousar suavemente de volta ao tronco da bela margarida, onde os escombros de seu casulo ainda estavam presos. Logo, seus olhos fitaram o olhar de nosso verde amigo. Ela, parada, olhava para ele, enquanto ele tentava disfarçar, escondendo sua face atrás de suas finas patas. A borboleta resolve então lançar-lhe um sorriso, e aquela bela imagem faz reluzir em sua imaginação a graça do dia mais ensolarado; sua mente e coração sentem o prazer semelhante ao de ver o mais doce orvalho que desce de uma pétala e beija a grama após uma fina chuva de primavera. Toda essa fluidez de sentimentos, aos poucos, vai transformando vergonha em orgulho, e timidez em coragem. Lentamente, ele começa a tirar as patas da frente dos seus olhos, e um sorriso ainda tímido começa a se desenhar em seu rosto. Então, ele enche seus pulmões de ar, ergue a cabeça, e, inesperadamente, sente o bico de um rouxinol faminto atravessar-lhe o peito, quase o partindo ao meio. Ele ainda vê uma lágrima descer dos olhos da platônica borboleta, enquanto rapidamente é levado para o ninho no alto da craibeira, servindo de alimento para dois filhotes da ave predadora. É a ordem natural da vida…

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LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

VIDAS PERDIDAS EM CHAMAS por

Vicente de Melo1

Logo de manhã, o sol escaldante já ardia sobre o pasto, maltratando as últimas mudas de milho e feijão ressecadas, totalmente sem vidas. A seca impetuosa, avassaladora e vingativa, castigava mais uma vez toda a região dos rincões do nordeste. Isso tudo, mesmo diante dos apelos dos bravos sertanejos, que gastavam seus últimos trocados em velas e suas últimas esperanças em preces e promessas para todos os santos. Meu pai, assim que acordou, me chamou para acompanhá-lo em visita à roça. Enquanto isso, minha mãe tentava tirar um pouco de leite de seu peito para amamentar meu irmão mais novo. Tudo em vão, pois seus seios há muito tempo ficaram secos e flácidos. Minha irmã de 11 anos, ainda dormia, tentando enganar a fome o maior tempo possível. Seguimos, eu, meu pai e o nosso cachorro, Vulcão, debaixo do fogo do sol que queimava nossas cabeças. Coloquei esse nome no cachorro, devido à sua cor meio avermelhada, depois que vi uma foto das lavas de um vulcão em erupção, numa revista da escola em que frequentei somente até a 4ª série primária. Ao apear do jumento, meu pai passou a olhar as plantações totalmente perdidas. O solo seco e rachado, de tão quente, queimava os meus pés descalços, pois eu caminhava atrás, junto com Vulcão, seguindo os passos lentos do jumento. No céu claro e límpido, sem nenhuma nuvem, destacavam-se apenas resquícios de fumaças negras, engendradas pelas queimadas que se espalhavam por todos os cantos, com suas labaredas destruindo tudo, como uma serpente voraz. Meu pai balançou a cabeça negativamente, coçando uma das sobrancelhas. Imediatamente, ao olhar para ele, percebi uma fisionomia de tristeza que se desenhava em seu rosto queimado e sulcado pelas rugas. Então adivinhei que as coisas não estavam nada boas. Tudo estava de mal a pior, numa situação desesperadora. Vulcão roçava nos pés de meu pai, sentindo também o seu desânimo, enquanto gania baixinho. No meio do caminho, deparávamos com urubus e carcarás que faziam festa nas carcaças dos animais mortos. Uma semana antes, a tristeza já rondava nossa casa, pois minha avó, mãe de meu pai, morrera. Não tivemos nem tempo para chamar o médico. Aliás, acredito que nunca houve médico por esses cantos, pois eu jamais vi ou conheci algum. O máximo que se vê são alguns curandeiros e suas ervas milagrosas. Pelo pouco que eu entendo, acho que a minha querida avó, que gostava muito de mim, morreu de desnutrição ou fome, apesar de todos os dias ela ser atacada por uma tosse crônica, que muitas vezes acabava em cusparadas de sangue. Ao retornar dos pastos e das plantações, passamos pelo curral para olhar os últimos animais que ainda nos restavam. A tristeza tornou-se maior, pois as duas vacas e um bezerro morreram de fome e de sede, um ao lado do outro. Aliás, uma das vacas foi um presente para Maria, a minha irmã mais nova, no dia de seu nascimento, oferecida pelo seu padrinho, que tinha algumas terras na vizinhança. Esse padrinho, que agora mora na capital, nunca mais voltou lá em casa, pois meu pai o tocara depois de o haver pegado com minhas duas irmãs mais velhas sentadas em seu colo, uma em cada perna. Enquanto beijava o pescoço delas, ele lhes mostrava algumas moedas. Meu pai só não matou o homem, seu compadre, porque minha avó, que agora está morta, não deixara. Ele perdoou as filhas, achando que elas estavam só brincando, na flor de suas inocências. No entanto, tempos depois, estando uma com quinze e outra com dezesseis anos, minhas irmãs passaram a fugir de casa à noite, e voltar com o dia clareando, ou, às vezes, passar dois ou três dias fora. Meu pai explicava para mim e para Maria que elas faziam isso porque estavam trabalhando. Eu não compreendia direito a conversa, mas, no âmago, sentia que algo estava errado. Na cidade, minhas irmãs começaram a andar com os homens e mulheres da pior espécie. Depois de aguentar por muito tempo as andanças delas, ouvindo chacotas por todos os lugares em que passava, meu pai, numa raiva súbita, expulsou-as de casa. Elas fizeram muita falta, pois, de qualquer maneira, sempre traziam algum dinheiro ou alguma comida para nós. Agora tudo se acabou. Elas foram para a capital, onde viraram putas num bordel da periferia. Enquanto fazíamos um buraco para enterrar pelo menos o bezerro, os urubus já voavam em círculos, de olho nas carniças. Ao chegar em casa, meu pai se entristeceu ainda mais. Maria, que gostava muito da vaca e a ba-

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CONTOS


tizara de Margarida, chegou correndo para o seu lado, perguntando por ela. Ao saber de sua morte, agarrouse à boneca sem cabeça com que estava brincando, passando a falar com ela com os olhos cheios de lágrimas, encostada no canto da parede de adobe. Meu pai saiu de perto de sua filha. O seu maior medo era de que Maria acabasse como minhas outras irmãs, também virasse puta. Volta e meia eu ouvia meu pai conversando com minha mãe sobre as filhas rebeldes. Minha mãe sempre repetia que só podia ter sido castigo de Deus por ter parido duas filhas assim, já que na nossa família as pessoas sempre foram corretas, honestas e trabalhadoras, apesar da pobreza. Ao mesmo tempo, minha mãe comentava que não conseguia entender e nem enxergar nenhum mal que fizera a alguém para receber um castigo desse tamanho. Sempre depois das conversas, já com meu pai bem longe do quarto, minha mãe começava a chorar baixinho, com o coração dilacerado, pedindo a Deus para abençoar as minhas duas irmãs putas. Ali eu começava a entender que todas as mães têm o coração bom. Enquanto Maria ainda chorava no canto, abraçada à sua boneca decepada, notei o quanto ela crescera rápido. Mulher tem dessas coisas, elas crescem e se desenvolvem primeiro que os homens, tornando-se mais adultas, mais responsáveis. Enquanto seu coração palpitava, nos movimentos que ela fazia durante o choro, observei seus pequenos seios brotando debaixo do vestido gasto, de tecido barato, como dois limões verdes. Meu irmão mais novo, também morrera de desnutrição, sendo enterrado no próprio quintal de casa, sem ao menos ter sido batizado, já que o padre nunca aparecia por esses rincões, até porque ninguém tinha condições de oferecer a ele algum óbolo. Morrera enquanto tentava, em vão, sugar algum resto de leite dos peitos secos de minha mãe. Triste, numa letargia inexplicável, minha mãe só percebera a morte dele pouco mais de meia hora depois. Sua boca ficara presa no bico de seu seio esquerdo, com ela achando que ele dormia. Certo dia, com a seca castigando cada vez mais o sertão da caatinga, queimando e ceifando vidas, como se tudo estivesse em chamas, meu pai chegou para minha mãe anunciando que iria para Brasília em busca de um emprego melhor. Depois, ele voltaria para buscar minha mãe, eu e Maria. No dia da partida, minha mãe olhou triste, porém sem nenhuma lágrima nos olhos, para a figura esquálida de meu pai montado no jumento. Somente com a roupa do corpo, sua silhueta desaparecera no horizonte, entre as nuvens de poeira deixadas para trás. Maria chorou novamente com a partida do meu pai. Eu me escondi no curral vazio para não me despedir dele. Sentindo raiva por ele nos abandonar, chorei baixinho sentado no capim seco. O Vulcão seguiu meu pai, mesmo correndo o perigo de virar alimento de algum faminto pelo meio do caminho. Meu pai jamais voltou e nem ao menos deu notícias. Depois da morte de meu irmão mais novo e da partida de meu pai, minha mãe nunca mais rezou. Estava sempre com um olhar triste e vazio, à procura de algo que nem ela mesma sabia. Passados mais de seis meses, sem dizer uma palavra, ela morreu de tristeza, deitada no catre duro. Sua morte acelerou-se a partir do dia em que ela vira minha irmã Maria, a mais nova, com o corpo já formado, as pernas torneadas e os seios intumescidos, entrar num caminhão de saltimbancos que passava pela estrada, depois de um espetáculo na cidade próxima. Ela fugia, literalmente, da tristeza e da miséria, mesmo sem saber para onde. Eu não pude fazer nada, pois fora assim a sua vontade. O líder do grupo, um homem de quase cinquenta anos, havia prometido à minha mãe que cuidaria bem de minha irmã mais nova. Porém, o medo de minha mãe era de que Maria também virasse puta. Fiquei sozinho em casa. Peguei meu velho facão, saindo sem rumo pelo mundo afora. Eu me envolvi com bandos de arruaceiros, que saqueavam retirantes pelas estradas e assaltavam fazendas pelo interior, escondendo-se na caatinga inóspita. Fui preso algumas vezes nas cidades em que passava, devido às noites de bebedeiras, brigas e quebradeiras em bares e bordeis. Depois de várias prisões, cansado de tudo, resolvi viajar para a capital em busca de uma vida melhor. Já no cais, observando algumas mulheres que esperavam avidamente por algumas horas de amor com marinheiros e estivadores, lembrei-me de minhas irmãs. O navio, ancorado no porto, balançava suavemente. As nuvens estavam carregadas, prometendo uma forte tempestade. As gaivotas, num barulho ensurdecedor, grasnavam em busca de restos de vísceras de peixes, jogadas pelos pescadores. Ao ver a figura imponente de Jesus Cristo com os braços abertos para a cidade, algumas lágrimas de emoção banharam meu rosto queimado pelo sol.

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Vicente de Melo (Uberaba, 1960). Nasceu em Minas Gerais, mas foi criado em Brasília, onde chegou aos dois anos de idade. É professor da rede pública. Contista e romancista, venceu o “Prêmio SESC de Contos Machado de Assis”, edição 2005, realizado pelo SESC-DF. A saga de um candango (romance), Contos Federais e Vidas Vazias (contos), são seus livros publicados. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

O EMBRULHINHO por

Munique Duarte1

Na Rua das Goiabeiras, ele quase enfartou ao colocar a mão no bolso da camisa e perceber que o embrulhinho não estava lá. Que suadouro! Fez o trajeto de volta até chegar a casa e, com a face branca, começou a revirar as primeiras gavetas da cômoda. A mulher não poderia pegá-lo ali, todo sôfrego, a fuçar em toalhas alvas dobradas. Fechou as gavetas. Abriu-as outra vez na esperança da olhadela mal dada. Perda de tempo! Apalpou o bolso já por instinto. O embrulhinho não estava lá. Caíra na rua, decerto. Saiu correndo, triplicando o suor colado no corpo. Andou como cão farejador que não levanta os cílios. Percorreu tudo, até parar outra vez diante da palmeira da Rua das Goiabeiras, onde tudo começou. Nada na calçada! Nada! Foi para o trabalho mesmo assim. Talvez o tivesse deixado sobre a mesa. Foi se consolando com mentiras de algodão-doce, até sentar-se diante da máquina de escrever e constatar que o embrulhinho sumira de fato. Datilografou tudo errado naquele dia. O cesto ficou cheio de papel amassado, e o café respingou na camisa bem passada. Abriu e fechou todas as gavetas da mesa de cinco em cinco minutos, até dar as cinco no relógio grande da parede encardida da repartição. Quem sabe, no trajeto de volta, ele encontre o embrulhinho tão particular. Quem poderia querer ficar com ele, tão pequeno e sem importância? Em casa, a mulher o estranhou. Roupa suja de café e cabelo desgrenhado. Cara de quem viu lobisomem. Pálido. Aquele não era seu marido. Jantaram sem diálogos. Pensava nas gavetas da cômoda. Abriria as outras também, além das duas verificadas pela manhã. Faria enquanto a mulher estivesse prendendo os cabelos antes de dormir. Empurrou uma a uma das gavetas para fora, com a língua entre os lábios. Sem ruídos. Passou a mão em cada dobra de lençol, fronha e toalha perfumados. Fez isso com todos os panos dobrados em todas as gavetas. Olhou até entre os perfumes sobre a cômoda. Nada! Dormiu gelado. A mulher suspeitava de febre. Teve pesadelos horríveis. Seu futuro estava perdido. Tomou café da manhã com olhos esbugalhados. A mulher quis chamar o médico. Ele fez que não. Parecia mais velho, com cara de lobisomem. Na Rua das Goiabeiras, lembrou que era sexta-feira. Dia da entrega do embrulhinho. Deixá-lo na repartição, para melhor segurança, até o ato da entrega, falhara. Agora tinha o coração aos saltos. Pensava em não derrubar café na camisa. E em manter os cabelos alinhados. Naquele dia, trabalhou muito. Houve vários imprevistos. Cólicas renais. Andava esquecido. Recomendaramlhe jabuticabas para refrescar a memória. E sopa de cebola antes de dormir. Isso lhe causou náuseas. Esqueceu-se de que era dia de ir mais cedo para substituir o colega que faltaria. Deixara o colega na mão. O serviço acumulara. O embrulhinho feito órfão no mundo. Almoçou pouquinho. Só um terço do bife e meia folha da alface. Tentava baixar mais as pálpebras para não mostrar os olhos esbugalhados de terror. Voltou para o trabalho e avisou a mulher que era dia de serão. Prometeu a si mesmo passar na farmácia depois do expediente para ver o remédio da memória.   Dali em diante, escreveria bilhetinhos para se lembrar das tarefas. Só não poderia se esquecer de escrever os bilhetinhos. Imaginava o embrulhinho aberto e a cara de espanto de quem o abrisse. Tão pequenininho e revelador. As mãos tremiam com os pensamentos. Disseram a ele que mãos geladas eram lombrigas. Quem sabe mais jabuticabas não lhe fariam bem? Terminou o serviço às sete da noite. Que dia longo e sofrido! Olhou-se no espelho do pequeno banheiro e viu que o cabelo estava alinhado e que os olhos estavam na posição normal. Também verificou que não havia café na camisa. Depois se lembrou que nem tomara café. Jabuticabas e sopa de cebola cortaram seu apetite. De volta às ruas, percorreu o trajeto, feito cão farejador. Nada de embrulhinho! Bateu na janela em frente à palmeira da Rua das Goiabeiras. Uma voz abafada respondeu lá de dentro que o ouvia bem. De fora, apenas respondeu que naquele dia não teria poesia e doce de amêndoa. A voz chorosa indagou o porquê. Ele, com o coração apertado, disse que depois explicaria. Apressou o passo e, em casa, a mulher já estava com os cabelos presos para dormir. Pediu a janta. Ela colocou sobre a mesa um prato tapado com o outro, e lhe deu “até amanhã”. A sós, pensava onde estaria o embrulhinho.

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CONTOS


Não estava em casa, nem no trabalho, nem jogado na rua. Nenhum vizinho o encontrou. Ninguém. Mais uma vez verificaria cada espaço das gavetas, entre as roupas lavadas, entre as esperanças brancas perdidas. Emagrecia a olhos vistos. O rosto estava fundo nas maçãs. Na sala, a vela acessa quase se apagando em frente ao santo fazia figura de lobisomem nas paredes. Não podia orar pelo embrulhinho. Tinha vergonha do santo. Tinha vergonha da falta de memória. E nessa sexta-feira não se lembrou de escrever nenhum bilhetinho para refrescar as tarefas do dia. Era um homem sem jeito, sem sorte e sem embrulhinho. Dormiu como pedra. A mulher já se acostumara com seu ar perdido de menino que sempre só observa os outros a brincar. Estranhou que ele chegara cedo ontem. Sexta-feira era dia de serão que durava até as onze da noite. Hoje faria diferente. Disse que precisava sair ainda de manhãzinha. Era melhor que ele respirasse ares puros matinais. Depois do café, percorreu o mesmo trajeto do trabalho até chegar à Rua das Goiabeiras. Bateu dois soquinhos na janela em frente à palmeira. A voz abafada lá de dentro custou a responder. Mais dois soquinhos. Escutou o ranger das dobradiças da porta. Depois de olhar para as duas direções da rua, entrou sem barulho no piso. Na sala, ela, ainda de cabelos com grampos, apertava-o em abraços sufocantes, dava-lhe beijinhos na testa e nas bochechas. Dizia que ele era a sua amendoazinha favorita. Largaram-se no sofá. Ele, com os olhos esbugalhados, não entendia nada. Ela, com o sorriso esbugalhado, disse que adorara a surpresa deixada na janela em frente à palmeira, na Rua das Goiabeiras. Não merecia surpresinha tão íntima. O embrulhinho estava lá, todo desfeito, sobre a mesinha de centro.

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Munique Duarte (Santos Dumont, Minas Gerais, 1979). Jornalista e escritora, autora dos livros “O salto do guepardo” e “Espelho oxidado”. 1


LITERATURA ESPAÑOLA Rutas Literarias de Iberoamerica

DECANTACIÓN DE UN DIARIO por

Astrid Ramos1

3 de enero. El primer día del año me sentí bien, el segundo vi un mosquitero cantar en un árbol, el tercero acepté, por un instante, mi desgracia. 4 de enero. Soy palomas para ti. Múltiple, cagona, pedigüeña. 6 de enero. La suciedad de los regalos. 14 de enero. Y luego dirán que la historia la escriben los vencedores. 21 de enero. No creas que eres tú ni tu carisma, es mi simpar atracción por lo malsano, lo obscuro, lo inefable. 13 de febrero. Maldito hijo de Urano. No asomarás tu cráneo. Tu bello cráneo. Tan cercano a la verdad, a la vida, a su desaparición. Tienes tanto miedo del infierno que no intentarás de nuevo el cielo. 20 de febrero. Ya no te veré más vivir. 21 de febrero. Dicen que también son especialmente bellos los arcoíris bajo la lluvia ácida. 3 de marzo. Todo debió acabar en 2006, ahora ya no acabará nunca. 7 de marzo. La vida y yo hemos empatado. Hay algo que ella no puede ni yo tampoco. Devolverte. El resto de lo que suceda será mera traca, olor a pólvora. 19 de marzo. Pretérito imperfecto del subjuntivo 2 de mayo. Gracias por cruzarte en mi camino. Nunca me gustaron las línea rectas. 5 de mayo. Soy los sitios que no veré, las lenguas que no hablaré, los hombres que no amaré. 13 de junio. Hoy, durante todo el día, solo contaré vencejos. 3 de julio. Tienes la suerte del planeta. 24 de julio. Tú, si quisieras, podrías ser el mismo durante milenios. Mi pasmo sería idéntico. Eso te debe de cansar, lo entiendo. 30 de julio. La vida es solo una metáfora de tu cuerpo. Insuficiente. Finita. Huidiza. Falsamente explorable. 31 de julio. Que yo haya volado y Leonardo no. Que yo haya visto las nubes desde arriba y William no. Eso, eso me ayudará. Un día de agosto. Felicidades. 3 de septiembre. Y no vienes, ni embarcado en la corriente del tiempo ni por los canales subterráneos de la culpa. Ni rastro de ti tampoco entre las luces pretéritas. 23 de septiembre. Lo que escribo desvela, tapa, señala o circunvala. 27 de septiembre. Tu pulso se debilita en insondables abismos hipotalámicos. 30 de septiembre: He estado con otro. Otros. Todos. Ninguno. 2 de octubre. Volverás repetidamente. Cada día. En las señales que solo yo sé puntuales. Retaguardia bicéfala de tu ejército semiótico. 15 de octubre. No fue real, pero fue verdad. 24 de octubre. No tienes ningún mérito. En menos de un año ya he visto miradas más ciertas que la tuya. Promesas que eran, antes de enunciarse, verdaderas. 1 de noviembre. Se ha roto el espejo y con él mi reflejo. Cicatrices de cristal recorren ahora mi rostro. 5 de noviembre. Pienso en ti. Floración intermitente, pienso en ti, floración efímera, pienso en ti, floración interna. Pienso en ti. 18 de noviembre. Tu sonora ausencia. Tan segura de su peso. 21 de noviembre. El infierno es un constante regreso. 25 de noviembre. Cuando otros logran franquear la puerta que deja atrás la indiferencia apareces tú, nítido, apoyado en el barandal. Con tu pullover de cuello de cisne azul marino, fumando lentamente. Tu presencia aun irreal hace burla de todas las palabras, de todas las presencias, de todos los cuerpos. 28 de noviembre. Rellena la línea de puntos o, mejor, pon tus puntos entre los míos. 1 de diciembre. Estamos vivos. Los dos. En la misma época. En el mismo planeta. ¿Cómo puedes desmerecer eso?

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EXPERIM.


2 de diciembre: Perdona por no haber bajado a comprarte aquella cajetilla de tabaco ese día en que llorabas rendido en el suelo. 23 diciembre. Cosas que tú y yo hablamos en sueños: - ¿Volver, para qué? - Para reeditar un clásico con ilustraciones nuevas. - ¿Volver? ¿Para qué? - Para acariciarnos las suturas. - No. - ¿Por qué? - El polvo que desprende la porcelana rota impediría que vuelvan a ajustarse los pedazos perfectamente. Además es venenoso. Permanece en los pulmones para siempre. 29 de diciembre. ¿Mesías trasnochado? Pase, le esperan. Siempre le van a estar esperando. 31 de diciembre. Aspiración palindrómica: que todo acabase tal y como empezó.

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Astrid Ramos (Isla de Gran Canaria). En 2011 obtuve el 2º Premio del IV Concurso de Poesía Poeta Bento de la Fundación Canaria Néstor Álamo, el primer premio del Concurso de Microrrelatos microMadrid del programa de radio A vivir Madrid, y fui finalista del IV Concurso de Relatos de Mujeres Viajeras en 2012 y en 2014. En 2013 recibí el primer premio del Concurso de Microrrelatos Twitter La Caixa y el segundo premio del 6º Concurso de Relatos de Literatura Romántica Do not Disturb. Ganadora del certamen de Relatos de la Revista Cultural Babelia de El Pais y del concurso Tu Viaje Más Sorprendente organizado por El Viajero de El País. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

O OUTONO por

Miguel Sepúlveda1

Como uma tarde crepuscular, de tons dourados e candura poética, é ele que está chegando, devagarzinho, o Outono... Com ele, os sinais de mudanças que a mãe Natureza traz no silêncio de sua beleza, quando começa a se manifestar este eterno fenômeno que se concretiza nas estações do ano: inverno, primavera, verão e ele, o doce outono. Cada estação marcada com suas características e nuances de esplendor e magia. São diversas alterações que acontecem, nas paisagens, nas cores e até nos comportamentos e no modo de viver e existir de tudo e de todos nós, influenciando nossos sentimentos e emoções. Com suas cores e toques de encanto, o outono está chegando. A brisa já sopra com mais frescor e amenidade. O verde das plantas manifesta os sinais da transformação com tonalidades de amarelo e dourado nas folhas secas que começam a cair, com leveza e encanto, o que nos faz lembrar o saudoso poeta Mario Quintana, em seus belos versos, no Hai-Kai de Outono: “Uma borboleta amarela? Ou uma folha seca Que se desprendeu e não quer pousar”. O outono não chegou, ele vai se fazendo presente aos poucos, como quem sabe o que quer, silencioso, como o passar do tempo e o envelhecer de tudo, do seu jeito maneiroso e em seus vários tons de saudade perfumada e colorida. O outono não tem pressa, ele tem calma e serenidade, como se fosse um dos momentos mágicos de um poente que se desfaz em luz, mas, docemente, cede lugar às sombras. Ele traz o sentimento da volta para casa, do caminho do ninho, do aconchego do lar. É a chegada, já prenunciando uma nova partida, hora de contemplar, com suspiros, lembranças de momentos passados, e se preparar para o milagre da renovação que certamente acontecerá, como certa também será a chegada de cada nova estação do ano, numa perfeita continuação da permanente transformação de tudo. O grande exemplo que o outono da natureza deixa para o homem é a aprendizagem de aprimorar e vivenciar a sua maturidade, seu estado outonal, o poente da Sua Vida, seu bem mais precioso, sua plenitude de corpo e alma. Celebrar o seu ser. Viver o prazer de se encontrar e de abraçar o outro, aceitando-o como é… O outono é a estação da essência, da alma. O que fica da grande lição é aprender a caminhar buscando sempre viver cada período da vida com a sabedoria e beleza do outono que a natureza constrói, numa perene jornada traçada com amor, harmonia, serenidade e persistência, que aprendemos a cultivar direcionados pela paz e pela fraternidade. A vida repete a grande arte da mestra Natureza, nas suas estações do ano. Assim, nos perpetuamos: nascer, crescer, brilhar, envelhecer e morrer, para depois renascer novamente... Assim também é a vida. Ela também tem seus vários tons de cores e sabores, que cada um deve aprender a ver e sentir, no seu tempo. Cada um de nós, no seu tempo próprio, vai viver sua experiência única dos momentos mágicos do seu outono, pois, como diz a sabedoria sagrada: “Tudo tem o seu tempo determinado… Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher… Tempo de chorar e tempo de rir, tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de guerra e tempo de paz...” Que o Outono seja, para todos nós, o tempo de cores suaves, doces sabores e plenas alegrias.

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Miguel Campos Sepúlveda (Rio de Janeiro, 1935), educador. Fundador da cadeira 09 da Academia de Letras de Toledo (ALT), Paraná. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

NUNCA FOMOS NÓS por

Marcela Sayuri1

Tínhamos uma promessa silenciosa de pertencer um ao outro para sempre. Se não fosse como jovens namorados, seríamos parceiros na arte. Se não fosse como amantes, seríamos confidentes. Sabíamos que uma vida convencional não nos traria felicidade. Sabíamos que a ideia romântica de uma cerimônia de casamento nunca esteve em nossos planos. Quando imaginávamos nosso futuro, era em volta de uma mesa de um café, bebericando e escrevendo versos, pois sempre soubemos que é a única coisa que sabemos fazer direito é escrever. A verdade é que éramos individualistas demais para dividir uma só vida. Dividíamos ideias, mas nunca planos. Dividíamos o hoje, mas nunca o ontem ou o amanhã. Porque pintávamos o céu até o amanhecer, mas partíamos antes de o sol atingir o topo do céu. Mas também sabíamos que éramos eternos um para o outro. Nos encontraríamos nesse pequeno mundo dos que morrem por amor. Nos encontraríamos nas estantes das livrarias, nos encontraríamos nos corações daqueles que amam. E no final sempre nos amaríamos. Não diríamos isso um ao outro, mas saberíamos como um voto secreto. Não tocaríamos um ao outro como se tocam os enamorados, mas estaríamos um apaixonado pelo outro. Beijaríamos bocas de outras pessoas e as faríamos nossa inspiração, mas acabaríamos voltando no final da madrugada um para o outro com as histórias da noite que acabariam virando relatos em nossos papéis mofados com as lágrimas que não derrubamos. E, às vezes, só às vezes, quando a saudade batesse à porta, ou a carência, ou depois de algumas taças de vinho em uma noite de deslumbramento, acabaríamos mostrando fisicamente toda nossa admiração pelo outro. E seria só por aquele momento em que nosso individualismo ficaria de lado, nossa forma não-verbal de amar seria posta para fora. E no final sempre acabaríamos questionando porque não escolhíamos o caminho simples e seguro. Porque não nos entregávamos, porque continuávamos caçando pequenas amostras de amor pelas ruelas mal iluminadas da cidade. Carinho nunca foi sinônimo de afeto. E não confundíamos mais um cafuné com promessas de permanência. Mas reconhecíamos que nossas vidas tinham mudado depois do dia em que nos conhecemos, que o que tínhamos era transcendental, grande demais para impor limites de compromisso ou casamento. E em minhas dedicatórias sempre teriam seu nome. E as suas dedicatórias, o meu. E procuraríamos um ao outro por ajuda. E às vezes nos confundiríamos com paixão. Mas não nos uniríamos de novo, porque sabíamos que sozinhos já pegávamos fogo, e juntos apenas destruiríamos tudo que conhecemos. Estaríamos eternamente juntos. Nas noites frias de melancolia, dividindo a mesma cama e o mesmo colo. Nos dias claros de conquistas, e no consolo. E você me veria de mãos dadas com outro alguém, e isso não te perturbaria. E eu te veria com seus braços na cintura de uma mulher sensual e mais bonita do que eu poderia sonhar em ser, e seu sorriso me traria alegria. Nascemos para ficarmos juntos, mas nunca para ficarmos presos. Nascemos para não nos acomodarmos e acostumarmos um com o outro. Nascemos para partir e voltar como se fosse a primeira vez. Nascemos para matar a saudade e espantar a dor que nós provocamos em nós mesmos. A única coisa que dividiríamos seriam nossos nomes iguais e os pensamentos, mas nunca o banheiro.

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Marcela Sayuri (Tatuí, 2000). Escreve por necessidade existencial e acredita que a arte e a poesia salvam. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

O CAOS por

Rafael Vianna1

O caos habitava a cidade, com crimes indecifráveis, violações, mortes, violências banais e impunidade. A poeira se espalhava por tudo, o cheiro de carniça e podridão dominava o ambiente. As moças não mais podiam sair às ruas. O lixo se acumulava. Poucos arriscavam andar pelas ruas. Nem mesmo policiais transitavam sozinhos pela cidade. Saíam sempre em grupo, fortemente armados, muito atentos, não permitindo que ninguém se aproximasse das viaturas. Toda profissão era perigosa. Faltavam alimentos nos poucos mercados que se mantinham abertos. As ruas lembravam as de uma cidade fantasma, abandonada por seus moradores. Sabia-se que não era. Um novo corpo logo surgia jogado em algum canto, um novo veículo queimado, uma nova lixeira que transbordava lixo fétido. E naquela sala subterrânea, um “bunker” escondido que só se chegava após cinco mudanças sucessivas de escolta e múltiplos trajetos – o protocolo mandava que a saída ocorresse do palácio do governo. Da primeira parte do itinerário, apenas o Inspetor Chefe da Polícia local tinha conhecimento. Era ele o responsável por designar os vinte e cinco policiais envolvidos na operação de escolta e segurança. A segunda parte do trajeto ficava a cargo do Serviço Secreto do Gabinete de Proteção a Chefes de Poder, órgão classificado como ultrassecreto e criado para proteger os dignitários sobreviventes. O procedimento operacional padrão adotado naquela situação era rígido. E todos os cuidados foram tomados para que nenhuma falha prejudicasse a segurança dos envolvidos ou a tranquilidade do local onde a reunião ocorria – os três discutiam e refletiam sobre o que fazer. Há dias, eles estavam ali, isolados do mundo, tentando pensar ou achar o que fosse uma saída para a situação em que a sociedade se encontrava. O bunker tinha estoque de alimento e água para até 10 pessoas, por aproximadamente 300 dias. Mas os três sabiam da urgência da decisão. Tinham que fazer! E não lhes fora permitido levar seus familiares, os quais continuavam desprotegidos e em perigo lá fora. O mais novo era o mais resistente à proposta, mas nada melhor lhe vinha à mente. Temia por seus filhos, que sequer existiam no mundo ainda. À época, os filhos já eram poucos na humanidade, mas foram décadas de reprodução descontrolada que deixaram a cidade daquele jeito. Contudo, ele sonhava com um mundo melhor, com algo possível, com uma retomada da bondade. Princípios cristãos ainda lhe comoviam, mas passavam a ser vistos apenas em aulas de história, via ensino a distância. Poucos colégios resistiram aos ataques dos grupos de arruaceiros que depredavam e incendiavam tudo. Sua alma era boa por natureza, tinha aversão ao mal e o mundo como se encontrava lhe provoca enjoo. Mas ele não conseguia encontrar qualquer novo caminho para a cidade. O mais velho dos três também guardava muitas dúvidas em seu espírito, mas, sob uma perspectiva pragmática, defendia firmemente a necessidade de a medida ser implementada. Não era o caminho que desejava, não era o que tinha sonhado para sua vida, não gostaria de tomar aquela decisão como governante. No entanto, outro caminho não lhe restava. A sociedade daquele lugar chegou à borda do precipício. Sua experiência lhe ensinou que, nesses momentos, apenas medidas enérgicas e contundentes podem mudar o rumo das coisas e impedir a queda. Não restavam alternativas. Precisavam decidir. Muitos dias já tinham se passado. As conversas duravam horas, entravam noite adentro. As discussões já se arrastavam demasiadamente. Toda população esperava a decisão daqueles três homens. Protestos de grupos organizados e de pessoas solitárias dominavam as redes sociais. Todos acompanhavam o desenrolar dos trágicos acontecimentos. O terceiro dos homens era o mais sóbrio dos três. Para ele, o que precisava ser feito deveria ser feito. Não existia qualquer sentimentalismo possível naquela situação. Situações extremas exigem medidas extremas. Era só. “A sombra do vale da morte já nos cobriu. Já não enxergamos por um instante sequer a luz do sol. A bondade já não existe neste mundo. Resta-nos apenas um mal menor para nos salvar do mal completo, profundo e irrestrito” – costumava dizer o terceiro dos governantes.

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CONTOS


Então decidiram. O Código Penal continuaria o mesmo em todos os lugares, mas seriam incluídos dois novos artigos em seu início: Artigo Supremo – Todo cidadão de bem deverá portar uma arma de fogo fornecida pelo Estado, 24 horas por dia, 07 dias por semana. Artigo Supremo Corolário- O cidadão de bem que presenciar um crime e não justiçar o delinquente imediatamente será ele punido com a pena de morte sumária, decretada pelo oficial da força de segurança mais próxima. Estava feito. A decisão possível foi tomada. Eles seriam reeleitos pelos ricos que conseguiam ir votar. Os desejos foram todos atendidos. A população encontraria paz. Almas foram retomadas e conquistadas.

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Rafael F. Vianna (Curitiba, 1990). É Delegado de Polícia, formado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, mestre e doutorando em Ciências JurídicoCrimina is pela Universidade de Lisboa. Possui 04 livros publicados. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

SATURN RETURN por

Sebastião Ribeiro1

face nunca transmuta ao espelho entendo agora a lonjura eu deveria ser um cavalo tantos coices que desfiro possível mudez de um perfume só achado na montanha facas bem postas próximas aos pulsos mas inacessíveis tanta história me estufa e paralisa medo de esquecer números do endereço no beijo dado sou Philippe Petit mas sem perícia meus amores têm gosto de cocaína duplo twist carpado em slow-mo toda manhã meu filho me corta os tendões mereço todos os livros que li pela metade

Sebastião Ribeiro (Maranhão, 1988). Escritor e poeta, integrante de Acorde (Scortecci, 2011) e autor de & (Scortecci, 2015) e Glitch (Scortecci, 2017). 1

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LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

A MORTE DO POETA por

Gustavo Souza1

Quando perecer, as ruas estarão límpidas. Ao obscuro fenecer, a multidão lacrimeja sua própria sombra nos recantos das paredes e cones de assentos. – Homens se embriagam em tom risonho, – ao belo vinho. Em prosas, falam sobre a infidelidade da vida, da traição… Falam do silêncio, que não tem fim…. Nas portas das casas, – homens e mulheres falam em tom baixo, daqueles risos, sonhos, alegrias constantes, e humildade. Que pereceram… E assim, o pôr do sol decai sobre o caixão, – aos braços amigos e familiares. Que deixam cair diversas lágrimas, – ao colorido fundo de flores; vermelhas, rosas e brancas… E, por fim, – as areias recaem sobre o caixão… E as meras quimeras da vida se volatilizam ao fundo do perecer.

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Gustavo Souza (Piranhas, 1992). Historiador pela Universidade Federal de Alagoas. Recebeu menção honrosa no concurso nacional Novos Poetas Sarau Brasil, da editora Vivara em 2015. 1


LITERATURA BRASILEIRA

EXPERIM.

Rotas da lusofonia

ODE AO AUTOR por

Paulo Emílio Azevêdo1

O texto se abre antes da cortina. O ator gagueja dentro de si, mas, bravio em excelência, toma a punho o gesto do não dito, do não representável. O ator não vacila. A luz aquece a pele que sua frio – o tremor não é medo, é gozo para além da carne. O porão de cada um parece querer revelar-se diante do abismo da lágrima contida. Já o sótão espera sua cena como uma criança espera o abraço dos seus amores. Olhares namoram entre si e lançam ao outro o desafio de projetar-se. Com fagulhas, entre duas espadas o saber ignora o proscênio e avança no ponto cego do breu. Nada dorme nesse palco. Agulhados pela sensação do hoje eternum, não pretendem acordar diante da plateia. Chega a hora apenas de tornar público o último suspiro antes de a realidade voltar a ditar regras torpes sem jogo. O absoluto se veste de cor, forma, palavra e corpo. Não há mais como voltar para casa sem as palmas que teimam em gritar nos ouvidos em nostalgia do presente. Projetos sociais disseram por aí que era para fazer arte para melhorar; efeito colateral: deu tudo errado; ficaram todos “piores”, e ora desejam mudar o mundo através de uma desobediência criativa. Pobres são os atores condenados a viver o relativo de um espelho que refrata a enfermidade a lhes silenciar. Mas, o teto sempre desaba anunciando um novo tempo. Agora é a vez de esse sótão brilhar; o céu é o verso do infinito em cada um de vós.

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Paulo Emílio Azevêdo (Rio de Janeiro, 1975). Professor, Doutor pela PUC-Rio em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (201112) no âmbito da Escola Brasil/Ministéri o da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014). Seu mais recente livro, O amor não nasce em muros (2016), tem prefácio assinado pelo editor chefe da Philos. 1


LITERATURA BRASILEIRA

CONTOS

Rotas da lusofonia

O GÊNESE DA ANFITRIÃ por

Ester Chaves1

Aquele era o dia perfeito para ela reagir, já que tantas vezes não havia tido tino para outros assuntos que não fossem relacionados à casa. Agora estava diante de uma oportunidade, ia receber visita. Logo ela que sofria tanto porque era sozinha, não sabia o que fazer de si e da sua solidão, imaginava-se ganhando uma amiga. Talvez futura cúmplice. Como se é quando se tem amigos? Nunca o soube. O que a gente faz após o chá? Jogam-se cartas, assiste-se a um filme ou joga-se um inocente dominó? A resposta era um fiapo de tecido preto na roupa preta. O exercício de lavar pratarias e deixá-las como espelhos d’água dava ao metal outra luz que não a iluminava nessa hora, era um brilho que não respondia a nada, apenas a confundia como a opacidade da pergunta. Ela era fanática anfitriã, dessas que fazem o próprio sabão e trazem os panos da cozinha asseados como roupa de baixo. A casa imitava direitinho o jeito dela e a expurgação dos antigos palácios. Era organizada como uma sinfônica. Os móveis negros e obedientes ficavam tão serenos enfileirados na sala que mais pareciam tocar o chão polido com perícia, na ponta dos pés. O único quarto trazia uma tela abstrata enorme, que ela mesma pintara num de seus rompantes de artista. A cama arrumada esperava pela hora da rendição de seu corpo miúdo. Os objetos da cabeceira ignoravam a soberba dos frascos de perfumes que se mantinham apáticos em cima da cômoda. A cozinha denunciava sem culpa sua solidão. Tão reduzida, escondia-se entre dois cômodos. Como um abismo entre duas montanhas. Talvez a visitasse mesmo só na hora da grande fome. Estendia-se um corredor cheio de fotografias ao longo de suas paredes e, no final, encontrava-se uma espécie de altar, onde se via o Cristo mutilado e outros santos cujos milagres se podia duvidar, pois eram de médio porte, ficando quase todos sumidos diante da grandeza da cruz do Salvador. Tão logo a visita entrou, a anfitriã perdeu a voz.

O fato de a visita ter comparecido a chocara, estava sendo engolida pela ansiedade de não saber o que vinha primeiro. O beijo de boas-vindas, o chá ou o jogo. Passeou pelas três possibilidades desordenadas, embaraçando-se um pouco. O beijo agora ou depois não faz muita diferença, pensou, também não posso beijá-la a todo instante. Se a convido para tomar um chá agora, ela pode recusar dizendo que acabou de tomar um no caminho. O jogo também não, pode soar como imposição. Não quero fazer papel de chata. Sentaramse, entreolhando-se um pouco, como se no calor da expectativa uma delas fosse arranjar coragem para se adiantar numa palavra ou num gesto. A anfitriã enguiçara, seus olhos perderam o foco, procuravam vestígios, ela estava colhendo cada resíduo da sombra da outra para poder enfim se restabelecer e voltar de novo a ser uma pessoa. Em vão, cada tentativa era um passo na enchente, que começou a transbordar, alagando o sorriso da convidada. A água invadindo o palácio, ela inundada até o meio das pernas, e a outra esperando. A enxurrada trazia à tona a sujeira que ela não conseguia sugar com seu olhoaspirador. Estava se afogando no próprio vício de querer ser limpa. Era inverno, e a mulher em meio ao dilúvio, tentando separar o que podia salvar. O destino todo ultrapassando o limite, derramando água suja no futuro da outra. O futuro era o baque, as mãos tateando a resposta, o rosto comprimido à espera do tapa, a porta aberta e, a essa altura, a água não era mais sinal de pureza. Pouco a pouco, se foi estabelecendo a ordem, a tarde voltava com esforço a seu início, a rua descoberta retomava seu ritmo, o vento dava uma trégua. Na casa, somente o silêncio… Era o gênese… A outra chance da anfitriã. A convidada, refugiada na sala, parecia rir-se toda ao folhear uma revista, enquanto a dona da casa, entre a montanha e o abismo, riscava o fósforo, certa de que serviria o café. 75

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Ester Chaves (Brasília, 1979). Escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pósgraduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poéticomusicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho deste ano, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora. 1


LITERATURA BRASILEIRA Rotas da lusofonia

VONTADE OU CONDIÇÃO? por

Paloma Saints1

À medida que o tempo batia “tic-tac” no relógio moldurado, intrínseca e perplexa ficava Marieta ao ver a mãe procrastinando serenamente o almoço. Devido às pencas de roupas sujas do odorante carvão, proveniente da queima de cana. Joaquim, o amasio, “paidrasto” de Marieta, ganhava a vida no surrado serviço de boia-fria. Tratava das duas mulheres da casa como suas irmãs mais novas. Mesmo não sendo o pai verdadeiro da moça, fazia de tudo para serem bons amigos. E deu certo. A fome de Marieta não era – para ela - o “ás” de sua preocupação. Tinha um livro novo de literatura que a professora, Dona Arménia, lhe indicou ao final da aula. Estava agitada, com medo que alguém o emprestasse primeiro. Mas a mãe repudiava a ideia de sua filha desmaiar de fraqueza por aí. E não a deixava sair enquanto não ingerisse pelo menos alguns bocados. Além de o baixo poder monetário envolver aquela casa, quando se comprava uma torneira nova, quebrava-se o chuveiro. O reajuste anual do salário se tornava, nos olhos retumbantes de Joaquim, um alento invisível ao brinde da inflação. Ainda assim, Lourdes e Joca acreditavam no futuro promissor de Marieta como um devoto acredita na ressurreição dos santos. Os sinais estavam nas notas altas na escola e o destaque de sua aplicação em meio àqueles alunos que mais enforcavam aula (e quase os professores também). Ela tinha total consciência sobre indisciplina em sala de aula. Colocou-se diversas vezes no lugar da Dona Arménia, que passava nervoso quando um aluno falava junto, ou quando ninguém queria copiar a matéria passada, ou ainda quando, do nada, saía uma briga entre as meninas por causa de “namoradinhos”. Após a refeição, Marieta pegou rapidamente a sua bolsa e se esvaiu porta afora, pela tarde ensolarada. Estava diferente naquele dia. Dera permissão ao sol para tostar a sua pele. Permitiu, aos ventos, desgrenharem os seus crespos cabelos. Queria ser o contrário do que o livro de História Geral contava sobre as escravidões e as classes dominantes: “Sou livre… Continuarei sendo” - disse pra si mesma, olhando em volta pra ver se alguém a havia escutado. Era o poder das palavras que a fizera formar uma poesia na aula de literatura, deixando todos boquiabertos. Marieta chega finalmente à biblioteca. Na entrada, perguntou para a jovem bibliotecária sobre o tal livro que lhe interessava. Então lhe é indicada a prateleira onde o volume estava. Com os dedos, começa a procurar pelas variadas lombadas de nomes e autores diversos. Quanto mais se adentrava entre as prateleiras, mais ficava fascinada com tudo que via. Mergulhava, sem medo, no mar de títulos e cores quando, na mesma hora, outra mão, em contrapartida, pegava o mesmo livro. Eram mãos finas e brancas. Marieta olhou devagar ao longo daquele delgado braço, aquela face simpática com grandes olhos verdes e cabelos castanhos. – Pode ficar com ele… – Disse a moça. As duas ficaram meio sem jeito com a situação. Ambas diziam até que não precisava do livro, e que poderia ser levado. Engraçado como o mesmo livro as trouxera à prateleira. Para quebrar aquele clima estranho, a moça estendeu a mão e se apresentou, deixando Marieta surpresa com a atitude. No entanto, fizera o mesmo. Ana tinha 25 anos e era professora recém-formada. Os bons modos, ao conversar, mantinham um tom cultural magnífico. Sabia dar o ponto de partida nos assuntos. Aparentava ser bem-aventurada e de espírito livre. Falava de poesias e de dificuldades ao mesmo tempo. Era mágico e liricamente bom ouvir aquelas coisas. Marieta estava em frente a alguém que falava com perfeição. Então, não pensou duas vezes, percebeu que encontrara uma conterrânea do seu pensar. Contou-lhe à Ana que tinha muita vontade de viver da arte das palavras. Mas tinha um obstáculo que talvez não fosse lhe ajudar: a condição monetária. Terminando o último ano do colegial, não sabia se continuaria estudando, ou se ajudaria a sua família no sustento da casa. A realidade era muito viva e pungente em sua vida. Estava em um momento de inquietantes dúvidas. De constantes “serás”. Da janela, via que o céu escurecia fazendo caretas. Os ventos entravam forte pelas brechas e folheavam bruscamente livros e jornais dos leitores, de uma só vez. As bibliotecárias corriam para encostar e resguardar todas as cortinas para que a chuva não as molhasse. Ana e Marieta adoraram, pois o ambiente refrescou com a mudança do tempo, e elas poderiam conversar mais até que a chuva parasse. Os dedos das mãos da garota faziam movimento de trocadilhos. Estava tensa e muito satisfeita também. A atenção de Ana, do nada, provocava-lhe uma ânsia infinita para falar do que sentia. Raramente estivera com pessoas assim. Ou talvez nunca. Então, a garota voltou seu olhar para o chão, dei-

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CONTOS


xando as suas madeixas à frente dos olhos, e fez uma reflexão. Uma pausa aconteceu ali. Entrava em seu mundo particular que, na verdade, já não era mais após conhecer Ana. Ela entendia tudo aquilo que estava fazendo e sentindo: “O que move nos seres humanos a vontade de serem felizes, de exprimirem bons sentimentos ao próximo, ou a condição favorável para consumir e comprar certas necessidades?” Ambas já se perguntaram, em alguma fase da vida, em que ponto o dinheiro chega a superar a felicidade. Como se lantejoulas fossem a beleza principal de um carnaval, ao invés dos foliões. Como se alguém, após comprar o céu, fosse dono da chuva e tivesse controle sobre ela.

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Paloma Saints (São Paulo, 1990). Poetisa, contista e desenhista, sua obra está disponível na página do facebook Paloma SaintsDe Versos pro Ar. 1


LITERATURA ESPAÑOLA

EXPERIM.

Rutas Literarias de Iberoamerica

LA LEVEDAD DEL SER por

Àngel Babregat Morera1

Gregorio S. evitaba cualquier superficie donde pudiera verse reflejado. Tenía la pierna derecha unos centímetros más larga que la pierna izquierda. Era especialmente feo. Su físico era difícil de encajar en el gusto de un ser humano. Desde que murieron sus padres, la única compañía que había tenido, era la de un gato callejero que un día acogió. Su madre desde pequeño le decía que en esta vida; Dios le da a cada uno la carga que puede soportar. Trabajaba de… sol a sol en las grúas que manejaban los contenedores del puerto. Solía llegar a casa andando. A menudo la gente cambiaba de acera unos metros antes de cruzarse con él. Siempre que podía se cubría con una capucha ya fuera de la sudadera o de la chaqueta. Una noche soñó que era una cucaracha. Entonces se despertó sobresaltado. Al verse reflejado en la ventana que daba a la calle, pensó: “¡Uf! Que susto menos mal que vuelvo a ser yo”.

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Àngel Gabregat Morera (Lleida, Cataluña, 1965). Empezó a escribir a los diecisiete años. Su escasa obra, en catalán, se centra en la poesía y el relato corto, con los que ha cosechado más de ochenta prêmios literarios. Tiene publicado el libro de poesía Antologia d’un Onatge (Columna, 1990). 1


Philos v.3 n°.11 (2017)  

Volume 3, Número 11, Ano 3. Ilustrações de Mario Gimenez.

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Volume 3, Número 11, Ano 3. Ilustrações de Mario Gimenez.

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