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Philos PORTUGUÊS CATALÀ ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO ROMÂNĂ REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA 3 abril 2016 · REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA 3 abril 2016

JOSÉ HENRIQUE ZAMAI MARCOS EVANGELISTA ALBANO BRACHT LENICE MELO BENEDITO TEIXEIRA PIRES PAULO EMÍLIO AZEVÊDO FRANCIS DIEGO AMARAL IAGO PASSOS HELENA BARBAGELATA LAILA DE MAURO MIRIAM KRECZYNSKI REGINA GOUVEIA EDUARDO ALEIXO PAULO ENRIQUE FREITAS HOZANA BIDART

NEOLATINA


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JOSÉ HENRIQUE ZAMAI MARCOS EVANGELISTA ALBANO BRACHT LENICE MELO BENEDITO TEIXEIRA PIRES PAULO EMÍLIO AZEVÊDO FRANCIS DIEGO AMARAL IAGO PASSOS HELENA BARBAGELATA LAILA DE MAURO MIRIAM KRECZYNSKI REGINA GOUVEIA EDUARDO ALEIXO PAULO ENRIQUE FREITAS HOZANA BIDART

NEOLATINA


PORTUGUÊS CATALÀ ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO ROMÂNĂ REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA 3 abril 2016 · REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA 3 abril 2016

EXPEDIENTE

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA

Souza Pereira

EDITOR CHEFE | EDITOR EN JEFE

Sylvia de Montarroyos

COMITÊ EDITORIAL | COMITÉ EDITORIAL

Lucrecia Welter

REVISÃO DE TEXTOS | SUPERVISIÓN DE TEXTOS

Maus Hábitos

DESENHO E DIAGRAMAÇÃO | DISEGÑO Y DIAGRAMACIÓN

SOBRE A OBRA DESTA EDIÇÃO | SOBRE LA OBRA DE ESTA EDICIÓN

Publicado originalmente em abril de 2016 com o título Philos, Revista de literatura da União latina. Os textos desta edição são copyright © de seus respectivos autores. As opiniões expressas e o conteúdo dos textos são de exclusiva responsabilidade de seus autores. Todos os esforços foram realizados para a obtenção das autorizações dos autores das citações ou fotografias reproduzidas nesta revista. Entretanto, não foi possível obter informações que levassem a encontrar alguns titulares. Mas os direitos lhes foram reservados. Philos, Revista de Literatura da União Latina é registrada sob o número SNIIC AG-20883 no Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais com Certificado de Reserva outorgado pelo Instituto Nacional de Direitos do Autor sob o registro: 10-2015-032213473700-121. ISSN em trâmite. Revista Philos © 2017 Todos os direitos reservados. | Publicado originalmente en abril de 2016 con el título Philos, Revista de literatura de la Unión latina. Los textos de esta edición son copyright © de sus respectivos autores. Todos los esfuerzos fueron hechos para la obtención de las autorizaciones de los autores de las citaciones o fotografías reproducidas en esta revista. Sin embargo, no fue posible obtener informaciones que llevaran a encontrar algunos titulares. Pero los derechos les fueron reservados. Philos, Revista de Literatura de la Unión Latina es registrada bajo el número SNIIC AG-20883 en el Sistema Nacional de Informaciones e Indicadores Culturales con Certificado de Reserva otorgado por el Instituto Nacional de Derechos del Autor bajo el registro: 10-2015-032213473700-121. ISSN en trámite. Revista Philos © 2017 Todos los derechos reservados.

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Philos, Revista Philos Revista de de Literatura Literatura da da União União Latina Latina || Revista Revista de de Literatura Literatura de de la la Unión Unión Latina. Latina.


EDITORIAL

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA A Philos de outono vem menos colorida, deixando de lado os tons amarelados e as folhas caídas, reinventando-se. Nossa voz ergueu-se consciente e agora caminha entre vos para fazer-se presente. Estamos na terceira edição, escrevendo sobre as notas riscadas, na sombra dos discursos, nos horizontes desviados, nas memórias esparsas aqui e acolá. As nossas obras são, muito honradamente, acompanhadas das ilustrações da artista Maysa Louzada. Não nos preocupamos com as próximas palavras, queremos degustar a literatura dos novos autores, pouco a pouco, dando espaço em nossas almas para conjugar de diversas maneiras o verbo sentir. Nas palavras de Zeh Gustavo: «O futuro todo ainda pode desacontecer». Os nossos autores rabiscam com o coração, com os olhos saltando ao infinito ante o desejo incontido de escrever. E a partir do verso, da simples métrica, da rima, da conversação das palavras, dos contos, dos experimentos linguísticos; é que a vida vale grandemente a pena. Esta publicação é parte do Philos Reposter, um projeto de republicação de todo o material lançado pela editora Camará Cartonera em novo formato gráfico, com colaborações de novos ilustradores, fotógrafos e artistas visuais. Desejamos uma ótima leitura,

Souza Pereira

EDITOR CHEFE | EDITOR EN JEFE

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Philos Revista de Literatura da União Latina | Revista de Literatura de la Unión Latina.


EDITORIAL

REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA La Philos de otoño viene menos coloreada, dejando de lado los tonos amarelados y las hojas caídas, si reinventando. Nuestra voz se levanta consciente y ahora camina entre vos para hacerse presente. Estamos en la tercera edición, escribiendo sobre las notas riscadas, en la sombra de los discursos, en los horizontes, en las memorias dejadas aquí y allí. Nuestras obras son acompañadas de las ilustraciones de la artista Maysa Louzada. No nos preocupamos con las próximas palabras, queremos degustar la literatura de los nuevos autores, poco a poco, dando espacio en nuestras almas para conjugar de diversas maneras el verbo sentir. En las palabras de Zeh Gustavo: «El futuro todo aún puede desacontecer». Nuestros autores rabiscam con el corazón, con los ojos saltando al infinito ante el deseo incontido de escribir. Y a partir del verso, de la simple métrica, de la rima, de la conversación de las palabras, de los cuentos, de los experimentos lingüísticos; es que la vida vale grandemente la pena. Esta publicación es parte del Philos Reposter, un proyecto de republicación de todo el material lanzado por la editora Camará Cartonera en nuevo formato gráfico, con colaboraciones de nuevos ilustradores, fotógrafos y artistas visuales. Deseamos una óptima lectura, Souza Pereira

EDITOR CHEFE | EDITOR EN JEFE

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SUMÁRIO | SUMARIO CONTOS | COLUNAS | ARTIGOS CUENTOS | COLUMNAS | ARTÍCULOS

7 Há outros

universos além deste, por JOSÉ

HENRIQUE ZAMAI

8 O sacrifício das flores,

por

MARCOS EVANGELISTA

12 Poema opaco,

por PAULO EMÍLUO AZEVÊDO

13 Lógica,

por

FRANCIS DIEGO AMARAL

9 Musa,

por ALBANO BRACHT

10 Marear,

14 Aceso

observa, por

LENICE MELO

PASSOS

15 Páralo,

por

por

BENEDITO TEIXEIRA PIRES

16 Dádiva do

verão,

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desbravadoras,

por

MIRIAM KRECZYNSKI

19 Numa esquina do tempo,

por

REGINA GOUVEIA

20 Um soneto inacabado,

por

EDUARDO ALEIXO

por IAGO

HELENA BARBAGELATA

11 O vento,

17 Mulheres

por LAILA DE

MAURO

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21 O amor tem gênero,

por PAULO ENRIQUE FREITAS CRUZ

22 O que diabos

a baiana tanto tem?, por HOZANA BIDART


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

HÁ OUTROS UNIVERSOS ALÉM DESTE José Henrique Zamai por

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(…) O gordo, com sua redonda face corada, acordou para a manhã cinza. Chovia fraco. Defecou logo sua tonelada de detritos. Vestiu suas botas encouraçadas, esgarçadas pelo peso e seguiu pela rua de pedras. (…) Jamais dormia, muito embora somente tivesse conhecido o escuro. O calor era insuportável e o cheiro era morno e podre. Sentia solavancos. Gemidos? Algo estranho ao escuro. Luz? Escorregava para o nada (?) e nadava. A água espirrava e molhava o esfíncter maiêutico, conforme parecia subir, subir, subir e desvanecer-se no infinito além da porcelana. As conjecturas desapareciam em um redemoinho que anunciava a próxima escuridão. (…) Não escolhia se ia ou vinha. O mundo é que girava, muito embora o Sol parecesse correr. Com ele, as nuvens e um pouco de chuva. Cinza. Observava os seres irracionais que se escondiam de suas rajadas ferozes. Tanto mais corriam, tanto mais bradava. Cinza virava azul. A Lua vinha. Aquietava-se até se agitar novamente. Era algum tipo de deus antigo que, com o Tempo, destruía tudo ao seu alcance, bastava insistir. (…) Lembrava-se de uma floresta. Era um animal. Lembrava-se das pastagens e do gosto da grama fresca. De repente uma dor repentina e a escuridão. Dormia? Não acreditara nos dogmas da religião da cura, mas ainda sentiu, cegamente, a navalha lhe cortar a pele dos músculos. Não resistiu, afinal, o próximo passo seria tornar sua consciência em vestimenta e possuir um humano para si. Esgarçada hemorragia de arrebatamento. (…) No início, era o nada. Sim, o nada existe, contra o que há, que é tudo. Então a explosão. Bósons especializando-se em matéria. Expansão e calor. Então frio e constância. Longa constância. Nova explosão. Seres miúdos retiravam suas partes descoladas e as trincavam ainda mais. Assentaram-lhe na lama. Lentamente diluía-se nas tempestades. Lentamente, desgastava-se nos pisões. Lentamente escorria para os esgotos, rios, mares e então empanava com o fruto da criação as nádegas de um gordo, com sua redonda face corada. (…)

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José Henrique Zamai (Divinolândia, São Paulo, Brasil, 1991). Advogado e escritor. 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

O SACRIFÍCIO DAS FLORES Marcos Evangelista por

1

Foi lá no jardim querido, de orquídeas, rosas, jasmins e outras tantas Contemplando quão belas flores Onde imperavam a paz, a quietude; e o dia parecia eterno Distante do corre-corre da vida E dessa mesma forma, a quilômetros, afastado da ganância, do ódio, do sofrer, do amor desprovido Costumava recostar-me no banco e simplesmente olhar Acompanhar a simples e complicada arte do Criador Foi nessa observação que concluí o óbvio Que também as flores lindas, perfumadas, sejam elas, de beleza comum ou incomum, exóticas Quase que todas, sacrificam-se antes do tempo Percebi num menino arrebanhando verbenas para uma mãe aflita Sua esperança? Libertá-la da dor de uma tristeza incontida Uma senhorinha pesarosa, preferindo aos jasmins que as brancas rosas, e, dessa forma, embelezar um corpo frio sem a beleza da vida, jazendo exposto num ataúde Pouco tempo lhe falta para a multidão conduzi-lo ao seu destino derradeiro. Um jovem esperançoso, de coração partido Ansioso em reatar o laço que o unia àquela que fora sua amada, preferia às margaridas as vermelhas rosas Essas expressariam um “eu te amo” colorido, naturalmente perfumado, na esperança de reparar seu coração condoído, gravemente amargurado São nesses momentos, como em tantos outros que compõem a história humana, que as flores se sacrificam Sacrificam-se para apaziguar o aflito vitimado por uma tristeza incontida Sacrificam-se para, em vã tentativa, “embelezar” o cenário funesto de um corpo sem vida Sacrificam-se, verbalizando, exprimindo amor, do que vai a busca daquela de antes, alma gêmea de muitas juras trocadas As flores também se sacrificam para o bem de todos nós mortais O Criador ilustrando nas pétalas multicoloridas de um ramalhete exalando perfume A pretensão sublime há muito promulgada De, como, no sacrifício das flores, a natureza vai bem representar a expressão maior do amor de Deus, como exemplo, em reparar as chagas de todas as almas perdidas, desamparadas.

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Marcos Evangelista (Camaragibe, Pernambuco, Brasil). Poeta. 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

MUSA por

Albano Bracht1

Eu não sei que segredo tem o seu semblante, Que me atrai e que me prende, tal qual a medusa. Não consigo viver, sequer por um instante, Sem que me lembre dela, meu ser se recusa. A uma estrela nas trevas, ela é semelhante. Traz-me maravilhado, sua aura difusa. É minha inspiração, coração palpitante, A mulher que escolhi, sublime e terna musa. Criatura invulgar, essência feminina, Imagem de mulher e jeito de menina, Entre joias, precioso e rútilo diamante, É como gota d’água, pura e cristalina, Dona de um meigo olhar, que acalenta e ilumina. Nunca a descreverei, por mais que escreva ou cante.

Albano Bracht (Rio Grande do Sul, 1946). Integrante do Clube da Poesia e fundador da cadeira nº 23 da Academia de Letras de Toledo (PR). 1

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MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

MAREAR por

Lenice Melo1

Amar… traz um mar dentro de si Explicação simplória para estar assim invadida de ti Porque por vezes afogo-me de saudade e anoiteço E quando enfim mergulho em tuas ondas amanheço

Lenice C. de Melo Lima, Le Melo (Osasco, 1967). Educadora e poetisa, publicação independente em 2015 do livro Janelas Entreabertas… de luz e paixão, participação na Antologia Poética Poetize 2016. 1

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MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

O VENTO por

Benedito Teixeira Filho1

O vento sussurra ao vento que modifica tua alma inflamada pelo nada que te perturba, o nada que ficou para trás, que fugiu para bem longe, e que se escondeu em algum lugar que eu nunca soube encontrar. Tu és uma pessoa invisível, Que vive às forças de uma saudade inexistente, É você o Vinícius invisível, Melancólico, poético, sensível, Que se esconde atrás das folhas de papel. Outra vez tentas, te desligar do mundo, Queres apagar um passado que não podes controlar e tirar da mente. O vento sussurra e te traz as lembranças inconscientemente, Lembranças que, para viver, tens que morrer eternamente.

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Benedito Teixeira Pires Filho (Itapipoca, Ceará, 1992). Acadêmico de Enfermagem da Universidade Estadual Vale do Acaraú. 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

POEMA OPACO por

Paulo Emílio Azevêdo1

Percebo no tempo (que vem antes do aplauso) que o mito se evapora. Planície, tato no teto, ausência de chão? Pode ser que sim, mas também pode ser que, talvez, não. Fugazes saltos nos altos. Ferozes autos de solidão. Multa para quem estacionar no colo do outro. Prisão para quem demorar no abraço. Pena de morte para quem disser que ama. Altitude, vazio, expressão do ator, diria o poeta: - "suspenso"! O palco repleto de ecos. Opaco, ó palco, tão pleno de mim! Máscara, mas cara a cara com o espelho. Ato insensato de ficar na ponta dos pés. Não é pássaro, mas voa. Não é anjo, mas flutua. Não é Deus, mas nos faz envergar diante do que se desconhece. É feito de gente, a outra metade era mito. Mas isso, já havia dito no prólogo. O movimento tem música, mas o corpo onde está?

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Paulo Emílio Azevêdo (Rio de Janeiro, 1975). Professor, Doutor pela PUC-Rio em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (201112) no âmbito da Escola Brasil/Ministéri o da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014). Seu mais recente livro, O amor não nasce em muros (2016), tem prefácio assinado pelo editor chefe da Philos. 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

LÓGICA por

Francis Diego Amaral1

Lá se vai mais um ano Sobrevivendo entre o sagrado E o profano Dialogando com o racional E o insano Me envolvendo com quem não gosto, Com quem amo Eu Só me arrependo do que não fiz, Do que só foi mais um entre outros planos Por isso, Pretendo só me apegar ao tempo Quando tiver 80 anos.

Francis Diego Amaral (São Paulo, 1990). Publicitário e escritor. 1

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MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

ACESO OBSERVA por

Iago Passos1

brilho da brasa também te assiste em chama o soco devolve ao corpo a mesma força que dá arruma a casa que a casa te arruma planta na terra um alecrim que a terra planta um alecrim em ti o sopro que te atravessa é irmão do teu vento de dentro

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Iago Passos (Minas Gerais, 1996). Graduando em letras pela UFMG. Desenvolve pesquisas e experimentos acerca das relações entre poesia, artes gráficas e performance desde 2013. Em artes gráficas, produziu e publicou três livros artesanais e independentes: Mínimo (2013), Luzes em trânsito (2014) e Xirê (2015). 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

PÁRALO por

Helena Barbagelata1

Os cais sonham com a partida, todas as horas numerando e dinumerando, o dobrar e desdobrar das velas, encharcando as ladeiras com os restos cinéreos e estancos de marés de gente forânea, (desfloram os ilhéus virgens, pausando a morte com o suor rugado dos nossos campos, em vícios, numerários e dívidas imperdoáveis. Onde estão os filhos de Posídon, os navios perderam os ascendentes, a fuscina enferrujada, já não nomeia o seu largo herdo e os rostos amados das mulheres; Alguém dizia, os mares doem, numa alantíase de azuis impossíveis, o mediterrâneo dói, em cercados de alfazemas a amparar os golpes, doí-me o meu país sempre que viajo; Os cais amodorram ao entardecer, com o sangue clandestino dos homens nas proas fugidas, com o hálito da noite roubado à boca dos jasmins, e os sarcófagos silenciosos das águas tracejamos as coleções maiores e menores de estrelas, aquelas que movendo estereógrafos e astrolábios, nunca sonhara Hiparco.

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Helena Barbagelata (Lisboa, Portugal, 1991). É licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. É curadora de Literatura lusófona e de artes visuais da Philos. 1


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

DÁDIVAS DO VERÃO por

Laila de Mauro1

Luminoso E ardente O verão seduz Esparrama Por toda parte Poderosos raios de sol A nos bronzear E encantar! Espicha os dias Quentes Oferece longas E preguiçosas Tardes douradas Até vislumbrar a lua A nos iluminar E abençoar!

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Laila de Mauro (Serra dos Aimorés, 1953). Professora aposentada da Secretaria de Estado da Educação do DF. Mestre em Educação, nos últimos anos tem atuado no Ensino Superior. 1


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MULHERES DESBRAVADORAS por

Miriam Krenczynski1

Com seus Joões, apearam as Marias, Crendo na promessa de futuro radiante, Quiçá um afável oásis? Quiçá a alforria? Diferente da terra natal, ora distante. Com júbilo e propósitos, toda a família, Carregou o que pôde no caminhão. Avante! A roça, a casa, em busca de novos dias, Venderam, trocaram, para seguir adiante. As preciosas mulheres chegaram à Vila, Com simplicidade em seu trajar rural. Com tantos afazeres e modestas lides, Sentiram, noite e dia, a carga desigual. Antes mesmo do despertar da prole, Lavada, no braço, toda roupa no varal. Sotaque italiano na saudosa melodia, Lançada ao vento, em salva matinal. Preconceitos, trabalho, um pesado fardo, Compunham o novo cenário das pioneiras. Desde a vassoura, a enxada, o machado, E lenha lascada para o fogão, à sua maneira. Nos intervalos do afã, a alegria da colheita, O chimarrão, a pipoca, em tardes fagueiras. Sentavam-se as vizinhas trocando receitas Abaixo das árvores, à sombra de amoreiras. Delegavam à sorte os riscos da gravidez, Longe do olhar de suas mães e das avós. Os filhos vieram à luz, todas as vezes, Pelas mãos de parteiras, de pouca voz.

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POEMAS


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

As desbravadoras herdaram a ordem De atender ao homem, sem lamentos. Na saúde, na doença, por todas as horas, Segui-lo com os filhos, era o pensamento. Foram acalentados os tantos moradores, Pelo feito grandioso do exército feminino. Aplausos às mulheres, mães desbravadoras, Protagonistas da história contada no ensino. Com justa imortalidade e leal reverência, Deixaram fortes marcas de audácia e refino. Constando em ricos anais, cada veterana, Consentiu dos legados, o mais genuíno. Àqueles que ficaram no berço amado, No peito, feito dor, o último abraço. Deixaram para sempre o coração marcado Pelas raízes, pela história de tantos passos.

1Miriam

Krenczynski (Toledo, 1951). Membro do Clube da Poesia e fundadora da cadeira 14 da Academia de Letras de Toledo.

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Dossiê de Literatura Neolatina

NUMA ESQUINA DO TEMPO por

Regina Gouveia1

Luxuriosas, as estrelas crepitam no céu negro. Voluptuosos, os ramos das árvores afagam a escuridão. Quais garças, miríades de sonhos esvoaçam ledos. Titubeante, o amor deambula por entre apaixonados. Helena ama Demétrio, que ama Hérnia, que ama Lisandro. Errante, a paixão… Titânia ama um ser com cabeça de animal. Duendes e fadas volteiam por entre a bruma esquiva. Gorjeia a poesia. No ar, o róseo perfume da madressilva. A noite estremece. De flautas e oboés, refulgem os trinados. Amores reencontrados… Flutuam acordes da marcha nupcial. Cúmplice, a magia… Florescem os sonhos na noite de verão. Numa esquina do tempo, Shakespeare, Mendelson e Chagall. Subtil, a aurora desliza noite adentro. Vénus regressa. Ao amanhecer, esvai-se a fantasia. Balbuciante, o dia… rumoreja o bosque, despertando lento.

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1Regina

Gouveia (São Paulo, Brasil, 1945). Nacionalidade portuguesa, professora aposentada, escritora com vários livros publicados e prémios obtidos em concursos.


MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA

POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

UM SONETO INACABADO por

Eduardo Aleixo1

Se a cortejei, não foi senão porque amiúde Ela tratava a mim tal qual a quem se ama Ou então conheço o assunto apenas pela rama E tomo por amor mera solicitude Pois sim, andei às voltas com uma dama Tão bela como pura, embora rude Procurei esquecê-la o quanto pude Sem imitar nenhum verso de fama Pois sim, sempre que dou com os murros n’água Reúno, de contínuo, a minha mágoa E, pondo-a no papel, não raro, apago-a.

1Eduardo

Aleixo Monteiro (Recife, 1987). Escritor pernambucano.

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Dossiê de Literatura Neolatina

O AMOR TEM GÊNERO por

Paulo Enrique Freitas Cruz1

Um olhar furtivo nos corredores da escola E a pergunta sem resposta “e agora?” Olhar inocente e ao mesmo tempo com culpa Que não vai embora, que não se desculpa. O tempo passou e nós crescemos, O tempo das coisas nós não demos. Aqueles olhares se misturaram Às mãos e pernas que se embaralharam. Até que um dia meu pai descobriu E nosso encontro jamais se repetiu. Você devia ter nascido mulher… O que fazemos agora? E agora, José?

1Paulo

Enrique Freitas Cruz (Minas Gerais, 1990). É escritor e advogado.

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MOSTRA DE POESIA LUSÓFONA Dossiê de Literatura Neolatina

O QUE DIABOS A BAIANA TANTO TEM? por

Hozana Bidart1

O que diabos a baiana tanto tem que todo mundo quer cantar? É rabo de saia, pois é e tem um gosto de mar… Lava meu perfume importado com seu suor a me banhar tira do meu baticum esse fado ao me tirar pra sambar pôs no meu pescoço umas guias e esse tal de patuá me explicou dessas suas magias falou de cada um orixá depois, das noites de euforia essa bastou me mostrar e a seriedade da Bahia pra além de qualquer mar. A baiana enfeitiça, verdade e eu, que nem sinto saudade das negas do além-mar quero plantar nessa terra umas crianças que berram pra minha alma acordar. Agora fala do mundo de frescura que fez minha alma desamar não ouse não chamar de cultura essa baiana que tanto faz rebolar é tanta raça e brandura que a nega perde a cintura de tanto se deslocar enquanto seu moço do lado bate um pandeiro inspirado o bicho só falta falar! 22

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POEMAS

Dossiê de Literatura Neolatina

Ela me chama estrangeiro e brilha os olhos pro mundo de lá mal sabe a baiana da festa que eles nem sonham existir, suas plantas e ervas são ouro sem contar que nunca me derramou um choro baiana só sabe sorrir.

Hozana Bidart (Rio de Janeiro, 1997). Encontra na poesia uma forma de desconstrução: da LGBTfobia, do machismo, do racismo, de preconceitos sociais e culturais e, acima de tudo, luta pela sua ideologia de que a poesia nasceu para ser acessível a todos, como uma espécie de voz e alento, sem perder uma delicadeza poética única. 1

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Philos PORTUGUÊS CATALÀ ESPAÑOL FRANÇAIS ITALIANO ROMÂNĂ REVISTA DE LITERATURA DA UNIÃO LATINA 3 abril 2016 · REVISTA DE LITERATURA DE LA UNIÓN LATINA 3 abril 2016

JOSÉ HENRIQUE ZAMAI MARCOS EVANGELISTA ALBANO BRACHT LENICE MELO BENEDITO TEIXEIRA PIRES PAULO EMÍLIO AZEVÊDO FRANCIS DIEGO AMARAL IAGO PASSOS HELENA BARBAGELATA LAILA DE MAURO MIRIAM KRECZYNSKI REGINA GOUVEIA EDUARDO ALEIXO PAULO ENRIQUE FREITAS HOZANA BIDART

NEOLATINA

Neolatina #3  

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