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As escolhas de João Fernando Ramos Jornalista É natural da Lousã mas mudou-se para o Porto há 30 anos, onde iniciou uma carreira ligada à comunicação social – primeiro como jornalista, editor e diretor de informação na Rádio Nova; depois, em 1992, como jornalista de investigação, pivot e coordenador na RTP. Nesta altura é responsável pelo Jornal 2 da RTP. João Fernando Ramos tem uma pósgraduação em Direito de Comunicação pela Universidade de Coimbra e

frequentou o curso de Novas Tecnologias da Comunicação da Universidade de Aveiro. Autor do romace histórico “D. João I” e do livro “O Último Dakar” é ainda piloto de automóveis, com presença em inúmeras provas nacionais e internacionais. Nas horas vagas costuma “arranhar” a guitarra e ainda tem pedalada para umas corridas de... bicicleta.

Mandela: Autobiografia Nelson Mandela

Seara de Vento Manuel da Fonseca

Céus Negros Ignacio del Valle

Nelson Mandela faleceu em 2013 mas a sua vida continua a despertar um grande fascínio, sendo um dos mais interessantes “case study” do mundo. Neste “Longa Caminhada para a Liberdade”, o carismático líder político conta pormenorizadamente os altos e baixos de uma complexa jornada que levou a África do Sul a libertar-se do apartheid. Conhecido por Madiba (nome do seu clã) evitou aquilo que para muitos era inevitável: uma medonha guerra civil no período de transição de poder. A reconciliação multirracial não foi nada fácil e Mandela aborda neste livro uma série de episódios históricos, para além de aspetos da sua vida que mostram um ser humano com todos os seus defeitos e virtudes. O percurso do mais importante líder da África Negra e vencedor do Prémio Nobel de 1993 está todo reunido neste volume, recomendável em qualquer biblioteca caseira.

Manuel da Fonseca (19111993) foi um escritor oriundo de Santiago do Cacém que dedicou grande parte do seu trabalho ao retrato do povo alentejano. Ligado ao neorrealismo, a sua escrita foi muito marcada pelas paisagens rurais da região e pela tristeza e desesperança que assolou o Alentejo durante o Estado Novo. Seara de Vento (1958), segundo romance de Manuel da Fonseca, é considerada por muitos como uma das mais importantes obras do séc. XX. A segunda edição do livro foi proibida por Salazar e apreendida de livraria em livraria. Hoje é um clássico do romance neorrealista. Este livro exalta uma realidade social muito dura do ponto de vista humano, contando a vida de Palma, que entra no mundo do contrabando para conseguir sustentar a família. A obra despertou o interesse do cineasta Sérgio Tréfaut, que se apaixonou pela história (baseada em factos reais) e decidiu adaptá-la ao cinema, numa coprodução que juntou Portugal, Brasil e França.

Este é um daqueles livros de leitura ávida, que arrecadou vários prémios. Não se trata apenas de um “policial”. É também um impressionante romance de caráter histórico, cuja narrativa descreve a Espanha franquista da década de 50. Tudo começa com o misterioso assassinato de uma criança numa pequena aldeia perto de Badajoz. Mas logo se descobre que o caso é apenas a ponta do iceberg de uma rede de tráfico infantil, que envolve as mais altas esferas do regime. O caso da criança é apenas uma metáfora. Na realidade estima-se que cerca de 30 mil crianças tenham sido roubadas de famílias republicanas para serem reeducadas e doutrinadas por simpatizantes do regime franquista. O programa acabou por ser um complicado negócio que Ignacio del Valle descreve de uma forma arrepiante. O escândalo rebentou em 1980, quando muitas famílias começaram a vasculhar o passado e a procurar os parentes biológicos. Existe mesmo a possibilidade de algumas das crianças terem sido adotadas em Portugal.

Texto Rui Martins

Nortemedico 72  
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