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do doente num grau de satisfação positivo e melhor avaliado. As novas tecnologias e a sua adoção pelos profissionais de saúde vão permitir uma maior e desejável interligação entre as diversas especialidades, contribuindo para uma multidisciplinaridade. As organizações prestadoras de cuidados de saúde com a adoção destas equipas multidisciplinares que terão o seu focus no doente, terão como objetivo o acompanhamento, durante todo o percurso assistencial, quebrando definitivamente as barreiras entre departamentos. Esta dinâmica organizacional constituirá o processo e o valor com centralidade no doente, como identifica Michael Porter. Apenas medindo os resultados é possível introduzir melhorias no sistema e perceber em que áreas se pode intervir. Michael Porter defende o pagamento diferenciado, ou seja, o pagamento associado à criação de valor e não em função de um determinado serviço (outputs). Os serviços de saúde devem ser remunerados pela totalidade de tratamento e não por um serviço individual. Este modelo de pagamento por serviço (outputs) e não por “criação de valor”, gera um efeito perverso do primado da “produção” com a subsequente indução de custos e não na redução por criação de valor para o Doente/utente. Michael Porter defende ainda uma maior utilização das tecnologias de informação no sector da saúde, reforçando a criação de plataformas tecnológicas. O melhor sistema de saúde é aquele em que todos, inclusivamente os doentes, podem ter acesso, através de bases de dados, a informações sobre todas as intervenções e cuidados a que foram sujeitos. Com ressalva para aspetos ligados à proteção de dados, privacidade e utilização de um tipo de linguagem acessível. A título de conclusão, de referir que é preciso uma nova organização do sistema de saúde e maiores avanços tecnológicos. Assim, é possível reduzir custos em saúde nos próximos anos. Deve, assim, existir uma nova forma de pensar o sistema de saúde, assente na criação de valor para os doentes e fazer algumas recomendações para o futuro e a sustentabilidade do sistema nacional de saúde. A organização dos sistemas de saúde tem de estar centrada nos doentes e não nos resultados de um serviço ou de um hospital. Reitera-se a ideia de que criar valor é pensar em todo o ciclo do doente/ utente e que o pagamento tem de deixar de ser por ato. Deve ser pago por todo o pacote de cuidados. O cidadão tem que ser sempre o centro da decisão. n

A dignidade na vida humana

Dalila Veiga médica Anestesiologista no Centro Hospitalar do Porto e membro do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos

A morte, ou a finitude da vida, foi desde tempos ancestrais motivo de angústia e forte inquietação do Ser Humano. O princípio da liberdade individual e autodeterminação de cada pessoa humana enceta uma enorme responsabilidade individual e social quando se debatem questões como a Eutanásia.

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complexidade inerente às questões éticas subjacentes a esta temática não se pode nem deve esgotar apenas em opiniões pessoais ou movimentos cívicos veiculados pela comunicação social. A herança cultural e a consciência coletiva moral da sociedade dos dias de hoje exigem de todos nós uma postura de responsabilidade, conhecimento, esclarecimento, reflexão e ponderação quando, como ser coletivo, somos confrontados com dilemas éticos como a eutanásia.

O respeito pela dignidade da Vida Humana exige que este problemática seja amplamente explorada e explicada à Sociedade Civil. Uma resposta representativa da sociedade portuguesa sobre esta matéria exige que seja, no mínimo, promovido um referendo a nível nacional. Mas, o mesmo deverá ser precedido por um adequado período de discussão alargada e reflexão individual e coletiva sobre as múltiplas questões inerentes à eutanásia e as suas reais repercussões sociais e humanas. Neste âmbito, importa também sensibilizar a sociedade sobre as deficiências vigentes no sistema de saúde que levam a situações dramáticas do ponto de vista humano e de sofrimento no momento da morte. Muitos doentes terminais e suas famílias são as vítimas anónimas destas mesmas insuficiências e, como tal, é chocante que se foque a discussão exclusivamente no “direito à morte medicamente assistida” e não se fale abertamente sobre o direito à morte sem dor, sem sofrimento e com dignidade. A dignidade da vida deve igualmente existir na morte. O direito ao tratamento da dor e do sofrimento são direitos universais de todos os seres humanos. No entanto, no nosso sistema as respostas estruturadas e organizadas são escassas e claramente insuficientes perante o elevado número de solicitações. As redes de cuidados paliativos no nosso país são escassas em termos de recursos humanos e técnicos apesar de trabalharem no limite das parcas possibilidades que possuem para dar resposta ao sofrimento e à dor. Muitas vezes, quando esgotada esta capacidade de resposta destes profissionais, são muitas vezes os profissionais de unidades de dor, dos cuidados de saúde primários ou dos próprios serviços médico-cirúrgicos hospitalares a tentarem colmatar as insuficiências do sistema. No limite, muitas vezes, estas situações de drama e sofrimento culminam com o recurso

Nortemedico 72  
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