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O doente no centro da decisão Deve ser repensada uma estratégia de uma nova gestão em saúde com um investimento claro na capacitação das associações de doentes e a reavaliação dos outcomes em saúde que devem ser baseados em valor para o doente; O sistema de financiamento dos cuidados de saúde deve estar assente no valor que os cuidados de saúde produzem para o doente; Devem ser utilizadas estratégias de marketing social na promoção da saúde e prevenção da doença, como ferramenta para aumentar a literacia em saúde da população portuguesa e promover a adoção de comportamentos saudáveis para o cidadão/comunidade e para o Sistema Nacional de Saúde. Investir nas pessoas! As pessoas como gestoras do seu processo de saúde/doença; Deve ser reforçado o investimento na formação e implementação de equipas de gestão de risco e segurança do doente, em todas as unidades de saúde. Deve haver uma integração da satisfação dos doentes, devidamente validada, na avaliação e financiamento das unidades de saúde; É premente a definição da figura do gestor/consultor do percurso, dentro da equipa de saúde (ex. Médico de Família ou Enfermeiro de Família) que possa aconselhar e acompanhar os utentes e familiares ao longo da sua doença, nos diversos momentos de interação com o sistema de saúde e os seus profissionais, sempre que adequado, em questões de âmbito clínico ou social. Michael Porter apresenta uma nova estratégia que tem no seu núcleo maximizar valor para os utilizadores, ou seja, alcançar os melhores resultados em saúde ao mais baixo custo através de uma “Value agenda”. Isto implica a tal restruturação do modo como se organizam, medem e reembolsam os cuidados de saúde. O objetivo é aumentar valor para os utentes, em que o valor é definido como os resultados de saúde alcançados (e que interessam aos utentes) sobre o custo de obter estes resultados. Este valor pode ser obtido com a seguinte fórmula: Valor=Resultados/Custo. Torna-se

assim claro que melhorar o valor implica melhorar os resultados sem aumentar os custos, ou reduzir os custos sem afetar os resultados. A medição rigorosa do valor (resultados e custos) é, provavelmente, a medida que, por si só, permite melhorar os cuidados de saúde. Quando se mede sistematicamente os cuidados de saúde, os resultados dos cuidados de saúde melhoram. As verdadeiras medidas de qualidade conseguem medir os resultados que interessam/ têm impacto nas pessoas. Medir o conjunto de indicadores que interessam às pessoas é indispensável para atender às necessidades das pessoas, mas é igualmente um dos veículos mais poderosos para reduzir os custos em cuidados de saúde, reconhecendo e premiando os melhores prestadores. Alterar a forma como medimos os resultados que produzimos é o primeiro passo para gerar valor para a população e fugir de ciclos, pouco virtuosos e efetivos, de redução de despesa à custa da qualidade. O valor, enquanto resultado em saúde combinado com os custos, deve definir a estrutura de melhoria de desempenho no sistema de saúde. O foco no valor em saúde permite libertar o potencial de inovação existente na sociedade portuguesa. Esta sociedade mais inovadora será necessariamente mais saudável, mais produtiva e mais resiliente a futuras crises financeiras. Michael Porter defende uma nova forma de pensar o sistema de saúde, assente na criação de valor para os doentes. A organização dos sistemas de saúde tem de estar centrada nos doentes e não nos serviços. Segundo Michael Porter, a preocupação das autoridades não deve estar centrada no custo específico de uma consulta ou de um medicamento, mas devem sim preocupar-se com o custo total. Os países tentam diminuir o custo de um serviço individual e não do todo. Tem que se encorajar a criação de valor. Os cuidados primários devem ser adaptados às necessidades dos doentes e mais focados em determinados tipos de doentes. A melhor forma para acrescentarmos valor é, sem dúvida, melhorar os resultados, melhorar a qualidade. É a fraca qualidade que aumenta os custos e o desperdício. A qualidade não é dispendiosa, a falta dela é que é. Existe atualmente uma maior evidência na relação resultados de saúde/satisfação da vivência do doente sempre que e quando estes recebem cuidados de saúde. Neste sentido, os profissionais de saúde vão comprometer-se cada vez mais para tornar a experiência

“A sua serenidade, doce amabilidade, clarividência e faculdade de comunicação transcendia largamente a do homem comum. As suas palavras, de profundo saber e reflexão, tornavam-no um ‘porto de abrigo’ e uma ‘luz’ orientadora para todos.” António Araújo Presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos

IN MEMORIAM

O doente é que deve ser o centro da ação médica, não a unidade ou o sistema de saúde. O sistema de saúde tem sido gerido por métricas quantitativas, mas precisamos de olhar para os resultados obtidos, para quantas pessoas ficaram restabelecidas e puderam viver mais e melhor. Além de se conseguirem melhores resultados para o doente, conseguem-se reduções de desperdício e mitigação de ações redundantes (com custos) muito significativas.

D. António Francisco dos Santos [1948-2017]

Nortemedico 72  
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