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Revista Mulher Africana | #testemunhoscomvida

À passagem de mais um Outubro Rosa, mês dedicado à sensibilização para a importância da prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama, a Revista Mulher Africana ‘faz o despiste’ da doença a partir do testemunho de quem a vive na primeira pessoa. Sem tabus, a portuguesa Paula Patuxa Lopes, a angolana Josefa Luís Rosário Jacinto e a brasileira Adriana Ferraz partilham as ‘marcas’ de cirurgias e outros tratamentos, e prescrevem a sua receita para a vida: mente positiva, fé, acção, alegria e bom humor.

Por Paula Cardoso

#testemunhoscomvida

“Creio que o bom humor foi o meu melhor remédio”

Adriana Ferraz

O alerta da brasileira Adriana Ferraz soa após uma biópsia, 16 sessões de quimioterapia, 33 de radioterapia e 17 doses de medicação: “Todo o cuidado é pouco”.

Aos 50 anos e com um diagnóstico de cancro da mama no historial clínico, esta professora do Ensino Básico partilha a sua experiência como uma forma de consciencializar todas as mulheres para a necessidade de uma vigilância permanente.

“Sempre me cuidei bastante. Fazia mamografia e ultrassom... mas o nódulo surgiu e cresceu em menos de um ano, contaminando dois linfonodos na axila."

Atenta aos sinais do corpo, a brasileira, natural da cidade de Leopoldina, no estado de Minas Gerais, revela que a confirmação da doença não foi uma surpresa total.

“Quando recebi a notícia não me assustei pois já desconfiava. Na véspera, o meu mastologista tinha enviado uma mensagem para eu comparecer no consultório no dia seguinte”.

Embora mentalmente prevenida para a possibilidade de um diagnóstico indesejado, o confronto com o cancro desencadeou um turbilhão de emoções.

“Quando entrei no carro para ir para casa, desabei. Chorei muito por medo de morrer e não ver os meus netos crescerem”, recorda Adriana, desde o primeiro momento focada na recuperação.

“A minha primeira reacção foi perguntar se tinha chances de cura. Depois de me explicarem tudo, que tipo de cancro da mama tinha e o tratamento a seguir, o médico respondeu que sim”.

Suporte familiar foi essencial

A vontade de viver e o apoio da família e amigos foram fundamentais para Adriana Ferraz superar a doença.

“O meu marido estava presente no momento em que recebi a notícia de que tinha cancro”, conta a professora, lembrando que esse suporte foi essencial após saírem do consultório, quando as lágrimas desabaram.

“Tentou acalmar-me. Antes de chegar a casa parei de chorar porque não queria que os meus filhos sofressem com a minha dor”.

“Tive de andar 70 quilómetros para fazer a quimio, sendo que as quatro primeiras sessões eram de 21 em 21 dias, e as doze restantes uma vez por semana”.

Já a radioterapia implicava percorrer uma distância de 210 quilómetros: “Foram 33 sessões diárias, em que ia à segunda-feira e voltava na sexta-feira”.

Empenhada em não deixar transparecer o quanto estava a sofrer, Adriana acredita que com isso conseguiu poupar um pouco os familiares.

“Os meus filhos demonstraram mais preocupação. Temiam perder-me”, recorda esta mãe de três e avó de quatro.

Apesar de todas as sessões de quimioterapia terem causado reacções dolorosas, acompanhadas pela queda de cabelo, e embora tenha tido de suportar agulhadas, algo que lhe dá pavor, a brasileira não se deixou ir abaixo.

Valorizar mais a vida

“Muitas pessoas diziam: ‘Você está tão bem, nem parece que está doente”.

Na realidade, porém, Adriana Ferraz ultrapassava uma série de obstáculos diários.

O tratamento incluiu ainda a toma de 17 doses injectáveis de medicação (trastuzumabe), de 21 em 21 dias.

Dessa experiência, a professora retirou várias aprendizagens, traduzidas numa nova forma de viver.

“Hoje tenho mais coragem de falar sobre o que sinto, principalmente quando não concordo com algo”, assinala a brasileira, enquanto percorre outras lições.

“Com esta doença, aprendi a valorizar mais a vida, a não me importar com pequenas coisas, a não guardar mágoas”.

Nesse percurso, Adriana acredita que a sua disposição foi decisiva. “Sofri muito, mas levei tudo com bom humor. Creio que foi o meu melhor remédio”.

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"A sensibilização para a prevenção tem que acontecer todos os meses"

Paula Patuxa Lopes

“Ocupar a cabeça é outra maneira de conseguirmos vencer”

A superação de uma mulher pode muito bem ser a salvação de outra. Que o diga Paula Patuxa Lopes, que encontrou forças na experiência da cantora portuguesa Simone de Oliveira para enfrentar um carcinoma mamário.

Diagnosticada em 2011, depois de uma preocupante apalpação durante o banho, a empresária de 54 anos acredita que o exemplo da artista foi decisivo para a sua recuperação.

“Na altura não conhecia a Simone, mas conhecia bem a sua história de sobrevivência. Peguei por aí e pensei: ‘Tiveste força, eu vou ter também”.

Hoje, à distância de oito anos do primeiro embate com o cancro da mama, Patuxa - nome pelo qual prefere ser chamada - não só demonstra força individual, como revela uma força colectiva invulgar.

Fundadora do Sem Preconceito, movimento criado em Portugal em 2014 para apoiar mulheres com cancro da mama, a empresária dinamiza regularmente desfiles e workshops e, uma vez ao ano, lança um calendário solidário e organiza uma gala benemérita.

“Enquanto isto fizer sentido eu estarei no terreno, mas quando vir que não tem de ser, não vou forçar”, antecipa, lamentando a recorrente falta de apoios.

“As pessoas começam por dizer que ajudam com patrocínios, que querem colaborar, mas depois deixam de atender o telefone e não se consegue contactar”, critica, sem esconder a indignação: “Fico muito revoltada com isso. Fala-se muito mas não se age em conformidade”.

Apesar das provações e desilusões, que tornam o “trabalho gigantesco”, Paula Patuxa Lopes não esmorece nem se cansa de remar conta a corrente.

“A sensibilização para a prevenção tem de acontecer todos os meses. Para mim Outubro é só mais um mês de luta e vou continuar sempre a chamar a atenção para isso”.

Madrinha da maior corrida mundial Mais do que alertar para os desafios constantes, a empresária dá o exemplo pela acção.

Depois de ter voltado a acumular tarefas de marketing e venda do Calendário Sem Preconceito (ano 2020), a empresária amadrinhou, no final de Setembro, a estreia portuguesa da Race for the Cure, descrita como a maior corrida do mundo contra o cancro da mama, por decorrer em simultâneo em 140 cidades, incluindo 22 europeias.

A estas responsabilidades, Patuxa Lopes junta os preparativos da 5.ª edição da Gala Sem Preconceito.

Marcada para 1 de Fevereiro do próximo ano, a gala é a faceta mais mediática da intervenção da empresária: o evento junta cerca de 800 pessoas na plateia e outras 100 nos bastidores, permitindo já um retorno assinalável.

"Nunca deixei de trabalhar. Sempre lutei pela vida, ela é muito importante para mim."

“Com as verbas, remodelámos a ala toda de quimioterapia do Hospital Amadora- Sintra”, orgulha-se a empresária, que, em quatro edições do evento, entre despesas e receitas, conseguiu canalizar mais de 20 mil euros para a luta contra o cancro.

Pelo caminho, Patuxa construiu uma rede de suporte que une milhares de doentes oncológicas em quatro grupos de apoio.

“É aí que vejo a importância que podemos ter para algumas mulheres”, frisa a fundadora do Sem Preconceito, recordando sempre a força que foi buscar ao exemplo de Simone de Oliveira.

O medo de enfrentar a palavra cancro Em sentido inverso, a empresária alerta para o efeito corrosivo de uma atitude derrotista.

“Já vi muitas mulheres deixarem-se ir porque até têm medo de enfrentar a palavra cancro”, aponta Patuxa, que aconselha todas as doentes a manterem a mente positiva. Indefinidamente.

“O doente oncológico é e será sempre um doente oncológico. Mesmo que saibamos que estamos a ser acompanhadas, nos dias da consulta há sempre um nervoso miudinho porque também sabemos que hoje em dia há muitas metásteses, e são elas que têm matado mais mulheres”.

Ainda que com receios, Patuxa garante que não vive a pensar no pior. Pelo contrário. “Sempre lutei pela vida, ela é muito importante para mim”, reforça, assegurando que nunca pensou perder a batalha para o cancro.

“É tudo muito assustador... depois de sabermos o diagnóstico temos dias em que ficamos...”.

As memórias dolorosas parecem engolir as palavras, enquanto a empresária procura reconstituir os primeiros passos com a doença.

“No início foi muito complicado, porque quando fui saber o resultado da primeira operação fiquei no hospital. Não tive hipótese de sair e aí pensei: ‘Se calhar vou morrer. Para me estarem a operar outra vez, passados 15 dias, deve ser muito grave”.

Seguiu-se uma terceira cirurgia, 38 sessões de radioterapia e ainda quimioterapia, tudo sem interregnos profissionais.

“Nunca deixei de trabalhar. Na altura tinha uma loja e as pessoas nem percebiam. Estava sempre muito sentada, mas estava ali todos os dias porque ocupar a cabeça é outra maneira de conseguirmos vencer”.

A par do trabalho, a cabeça de Patuxa manteve-se preenchida com a educação dos dois filhos.

“Dei a mínima importância possível ao cancro para que a vida familiar não girasse em torno da doença”.

Já vi muitas mulheres deixarem-se ir porque até têm medo da palavra cancro

A estratégia de resistência incluiu igualmente algum engenho na gestão da imagem, minuciosamente cuidada.

“Fazia 30 por uma linha. Por exemplo, o meu cabelo ficou muito fraco mas não caído, então fazia extensões. Também sempre fui muito vaidosa com as minhas unhas e punha pestanas postiças”.

A violência doméstica que adoece

Para além dos mimos estéticos, que actualmente faz questão de distribuir pelomaior número possível de doentes, através dos workshops Sem Preconceito, Patuxa destaca a importância doequilíbrio emocional para a evolução clínica.

“O stresse emotivo a que muitas mulheres estão sujeitas conduz ao desenvolvimento de quadros de cancro”, acredita a empresária, estimando que cerca de 50% das mulheres que acompanha sofreram situações de depressão, violênca doméstica ou conflito familiar antes de obterem o diagnóstico.

A incidência estatística abarca a própria história de Paula Patuxa Lopes, que durante anos suportou os maus-tratos do ex-marido e pai de um dos filhos.

Já liberta das amarras da relação abusiva, a empresária faz questão de também dar o rosto e a voz por todas as mulheres que continuam a sofrer violência doméstica. “É duro falar sobre essa realidade, porque quando o fazemos é como se voltássemos a viver tudo outra vez. Acho que por isso tenho evitado falar sobre essa parte da minha vida. Mas agora sei que chegou a altura de o fazer”. Sem preconceito.

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“O cancro não me invalida em nada”

Josefa Luís Rosário Jacinto

Dois diagnósticos em Luanda, um outro em Lisboa, e, ao terceiro, seria de esperar que Josefa Luís Rosário Jacinto se deixasse convencer pelos médicos.

Mais ainda tendo em conta que os três clínicos coincidiram na mesma conclusão: apesar das suspeitas apresentadas pela paciente, os exames descartaram a presença de cancro da mama.

Só que em vez de respirar de alívio, Josefa continuou angustiada.

“Algo me dizia que não estava bem”, recorda, de volta ao dia em que se apercebeu, entre movimentos quotidianos, que estava a sangrar de um dos mamilos.

O sinal de alarme, que a subcomissária da Polícia Nacional de Angola (PNA) prontamente associou ao cancro da mama, começou por ser percepcionado como um ferimento no seio e chegou mesmo a ser associado a uma área do peito com gordura acumulada.

“Quanto mais me diziam ‘fica calma’, menos calma eu ficava”.

Talvez a inquietação fosse efeito de um outro diagnóstico de cancro da mama, vivido anos antes na família, mas foi graças a esse desasossego que Josefa acabou por confirmar os receios.

“O caso da minha irmã foi muito doloroso, a doença evoluiu muito rápido e eu acompanhei tudo desde o primeiro momento. Quando fui diagnosticada voltei a reviver toda a história”, explica a subcomissária, ressalvando que o seu quadro clínico nunca esteve perto de atingir essa gravidade, nem sequer provocou grandes alterações de imagem.

Promoção por despacho presidencial Ainda assim, logo após o diagnóstico Josefa enfrentou duas cirurgias num mês. Seguiu-se um minucioso plano de tratamentos, e consultas periódicas de supervisão, hoje em dia realizadas de seis em seis meses.

“Se não fosse persistente, talvez o caso fosse mais além”, conjectura a policial, que tem no próprio percurso profissional um espelho da sua perseverança.

Quadro da PNA desde 15 de Novembro de 1976, Fefa, como é carinhosamente tratada, recorda que foi preciso “muita humildade e muita dedicação, e acima de tudo gosto no trabalho”, para conquistar o posto actual.

Doença oportunista Nesse processo de recuperação, a subcomissária, que recebeu o diagnóstico de cancro em 2016, recorda a voz interior que mais a acompanhou. “Tens de zelar pela tua saúde porque és uma doente oncológica e sabes que o cancro é uma doença oportunista”.

Determinada a não facilitar, a subcomissária, recém-entrada nos 61 anos, tem na família e nos amigos o maior suporte. Mãe de duas mulheres e dois homens, com idades entre os 42 e os 34 anos, e avó de 10 netos, dos 19 aos quatro anos, Fefa apoiou-se em todos para retomar a prescrição de vida que o luto interrompeu.

“Os médicos recomendam muito a alegria. Dizem que o cancro é uma doença oportunista e avisam que quando as pessoas têm problemas graves ele penetra mesmo. Fica e não quer sair. Por isso as pessoas têm de estar o mais possível alegres e positivas”.

“Sou uma pessoa que fala do cancro, converso com as pessoas, nunca escondi a doença. Como sempre tive essa abertura e sou usuária do Facebook - onde felizmente, tenho muitos seguidores -, sempre que me sinto um bocado deprimida partilho com todos. Não tenho receio de me expor”.

Embora o desabafo seja virtual, Fefa garante que os benefícios do apoio que recebe são bem reais.

“Quando escrevo qualquer coisa menos boa, como ‘Hoje não estou nos meus dias’, tenho logo uma bateria de pessoas dispostas a conversar comigo, a dizer que lhes dou coragem e força”.

Apesar de reconhecer que “muitas vezes não é fácil” seguir a receita - “nem mesmo para alguém alegre por natureza”, como demonstra ser o seu caso - Josefa explica que encontrou uma forma de dar a volta aos dias mais cinzentos.

Prevenção no Facebook Mais do que suscitar trocas de likes ou de palavras de circunstância, a presença digital de Josefa pretende sensibilizar para a importância da prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama todos os dias, e não apenas por influência do Outubro Rosa.

“Em Angola, há pouca informação e muito tabu sobre a doença. As pessoas menos informadas pensam que o doente com cancro já está sentenciado para morrer”, lamenta Fefa, que encontra nesses olhares desinformados a explicação para o estigma e para o diagnóstico tardio.

“Talvez seja isso que faça com que muita gente se feche. Nota-se também que as pessoas só vão ao médico quando vêem que o caso está malparado”.

Para ajudar a inverter esta realidade, Josefa não abdica dos apelos à prevenção. “Aconselho toda a gente a fazer exames de rotina sem medo. Porque mesmo que seja diagnosticada uma doença, é preferível saber antes de ver a situação piorar até não haver solução”.

Esta e outras recomendações continuam a ser ignoradas por largas franjas da população angolana, avisa a subcomissária, defensora de uma maior e constante mobilização nacional na luta contra o cancro.

“Temos muitos municípios e comunas onde a TV não se faz sentir, e por isso as campanhas não chegam. Acredito que levar as mensagens de prevenção para esses sítios onde não há informação ajudaria a salvar muitas vidas”.

Enquanto isso não acontece, Josefa assume a missão de partilhar a sua história. “Sinto-me bem quando explico a doença às pessoas. Não tenho tabus. Sei que o cancro não me invalida em nada”.