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ÍNDICE

Participantes Das Oficinas Menisqüência!

Editorial | “Dispensando palavras” //////////////// 3

Jovens do Cefopea

Texto de Aldrey Riechel / Ilustração de Lucas Fontana

Roteiro por Julio Passos, Kamila Marchionne Arte de Ivan da Silva

Anderson Castro Silva, Camila Passos Nunes, Juliana de Paula Gomes, Julio Passos Nunes, Kamila de Lourdes Marchionne, Karolina Lopes Lima, Letícia Aparecida da Silva, Murilo Matheus, Matheus Silva, Paula Cibeli, Raniara F. de Melo, Raphael Marques Pires, Renzo Raizer, Rodrigo P. Carvalho, Stéfany A. S. Monteiro, Tatiane Magalhães, Viviane de Campos, Wellington Henrique

Foco | “Dias de Paz” //////////////////////////// 5

Jovens de Sorocaba

Enquadramento | “Liberto” ////////////////////// 4

Texto de Wagner Branco / Fotos por Lucas Fontana

Ágora | “Desigualdades” / /////////////////////// 8 Texto de Marco Antonio Loyo / Ilustração por Julio Cordeiro

Sincrônica | “Lance de Azar” ///////////////////// 9 Adaptação de Manfred Souza /Baseado no Conto de Jairo E. Lacerda / Fotografia por Sheila Lima

Enquadramento | “Por Matheus” ///////////////// 10 Roteiro por Juliana Gomes, Tatiane Magalhães Arte de Lucas Fontana

Estômago | “Toque de Recolher” ///////////////// 12 Texto de Chaiene, Jefferson e Feli Fotografia por Lucas Fontana

Close | “A história de nós quatro” //////////////// 16 Criação coletiva

Poética | “Ilusão de Mocidade” / ///////////////// 19 Texto de J. L. Assunção / Fotografia de Rafael Ribeiro

Aline, Alan William, Alexander, Alexandre da Costa, AlisOn Vinicius, Anderson, Andreza Izabel, Armando, Arthur, Bárbara, Bruno Felipe, Bruno, Hernandes, Bruno M. Bruno Vieira Silva, Camila Q., Carla L., Carlos, Chaiene Amantino dos Santos, Christiano, Daiana Vicente, Daniel, Daniel Felipe Inácio Rosa, Daniela (Silk), Daniela Aparecida Silva, Danila A., Danilo Moreira, Brandão, Dennis, Diego (Silk), Diego D., Diego R. Batista, Diego Rodrigues, Douglas, Edson, Eliezer, Emerson, Eric Nelson dos Santos, Erick Lino, Evelyn Rodrigues de Camargo, Fábio Júlio Feliz Dias, Fabio Soares Penha, Felipe Barbosa Rangel, Felipe de Oliveira Costa, Francine, Glauciane(Pantufa), Guilherme Henrique Caetano De Souza, Hudson Cesario de Lima, Ingrid Ierich Reinaldo, Jakeline da Silva, Jeferson Scarcella Santos, Jefferson Shion, Jéssica Daiane De Lima Oliveira, Jessica Karoline da Costa Almeida, Jhonatan, João Batista, João Paulo, João Vitor, Joice Lucinda, Jonatas Patrick da Silva, Luana, Michel, Renan, Robson, Rodrigo, Ronald Batista de Souza, Ronaldo, Ronan, Samy, Tammy, Tatiana de Fatima Cordeiro de Azevedo, Tatiane Tais de Macedo Dias, Thais Martins, Tiago, Valdir, Wagner, Wellington, Wesley Ricardo Medeiros Adultos Do Cefopea Marco Antônio Gonçalves Loyo, Wagner Cezar Ribeiro Idosos Da Casa De Simeão Abdalla Jorge Facuri, Antonio Sérgio, Jairo Lacerda, João Valdeci Marques, José Simões, Libío Vilar, Manuel Rodrigues Pereira, Nilton Campos, Raimundo Carvalho, Sebastião da Silva, Sérgio, Severio

Exclamação | “Personalidades da Liberdade” /////// 20 Texto de Daiana Vicente da Silva

Enquadramento | “Implacável destino” / ////////// 21 Roteiro por Letícia / Arte de Murilo Matheus

Frigideira | “Corrupção” //////////////////////// 22 Texto de Cristiano Oliveira / Fotografia de Lucas Fontana

Sincrônica | “My Firts Love” / /////////////////// 24

Orientadores Técnicos De Menisqüência! Jornalismo – Aldrey Caroline Riechel FotografIa/Fotonovela – Julia Toro Contos, Crônicas e Poesia – Manfred Souza Arte E Roteiro – Ivan da Silva

Texto de João Valdeci / Ilustração por Tikka

Educadores Parceiros

Na boca do povo | “Sexo” /////////////////////// 25

Tratamento Comunitário/ Lua Nova – Helison Oliveira, Walter Ferraz e Patrícia Antoneli Cefopea/ Reciclázaro – Manoel Rodrigues e Joana D’arc Salgado

Criação coletiva

Sincrônica | “O direito de ser mãe, por acaso” / ///// 26 Texto de Jéssica de Almeida Bastida Fotografia de Lucas Fontana

Close | “Sonho que se sonha juntos” / //////////// 28

Coordenação Centro de Formação Comunitária – Karina Fortete Instituto Sala 5/ Revista Menisqüência! – Luiz Flávio Lima

Criação coletiva

Sincrônica | “Um conto sobre liberdade” / ///////// 30

direção de arte / capa / vinhetas

Texto de Nenê / Fotografia de Sheila Lima

David Galasse / Congáa Estúdio - david.galasse@gmail.com - www.davidgalasse.com

DISPENSANDO PALAVRAS Poderia o leitor abrir as primeiras páginas da revista e conhecer quem somos sem que houvesse qualquer palavra escrita nestas páginas? Poderia, ao guardar a revista, perceber que esta não se encaixa perfeitamente na estante junto aos outros livros e revistas? Poderia, mas acreditamos que a Revista OLHE! merece uma “olhada” mais a fundo. Somos pessoas comuns e que, como outras quaisquer, exigem respeito aos seus direitos e esperam que a Constituição não seja apenas um amontoado de palavras mortas. Mas somos também artistas porque, antes de tudo, tivemos que aprender na prática do que são feitas as grandes histórias de superação, daquelas que só se vê no cinema, sabe? Aprendemos a transformar a experiência de nossas vidas (as ruins, as péssimas e as boas também) em textos, roteiros, fotonovelas e quadrinhos que gostaríamos de compartilhar com você. Realizada por um grupo de adolescentes de São Paulo, um grupo de jovens de Sorocaba e mais um grupo de idosos também da capital, a revista foi construída buscando aspectos em co-

muns entre todos esses atores. O que era apenas idéia foi se transformando em algo com vida própria, juntando idéias e ideais para virar um produto com valores que estão além do anunciado na capa. O que temos de mais comum uns com os outros? A omissão do poder público diante das necessidades básicas de qualquer um de nós dessa equipe, independente da faixa etária em que nos encontramos. Nem por isso a revista pretende (e não será) um muro de lamentações, mas é inadmissível sermos omissos, covardes, cegos, mudos e surdos diante dos problemas que vivenciamos diariamente. E para você que abriu essa revista, pedimos que OLHE. Não apenas para os outros, OLHE pra si mesmo, OLHE de novo. Olhar de novo, com um novo olhar, o olhar íntimo de quem já se percebeu IGUAL. Vale a pena dar uma olhada. Boa leitura!


“O fato de o século XIX ter sido o século da morte fortalece o nosso desejo de fazer do XXI o século da vida.”


Existe caminho para a paz? Segundo o pesquisador do Instituto Pólis, sim. Basta que incentivemos as atividades que já conhecemos e sabemos fazer, como valorizar a diversidade cultural, o pertencimento ao território, o diálogo com todos os segmentos étnicos, a arte e a cultura. Conversamos com Hamilton Faria sobre o assunto, que acredita que brevemente haverá um novo “reencantamento do mundo”. Um termo difícil de explicar, mas que pode acontecer, principalmente se levarmos em conta que o século XIX foi considerado o século da morte e este novo século, segundo ele, pode vir a ser o século da vida.

vas, diversidade cultural, pertencimento ao território, arte e cultura. Precisamos fortalecer valores, a autonomia de grupos e manifestações, o diálogo dos jovens com todos os segmentos étnicos, etários, profissionais etc. E o respeito a pessoas, plantas, animais e minerais. Eles, como todos nós, precisamos entender que não estamos sós, mas dentro de uma comunidade maior. OLHE! — Alguns dizem que o século XXI é o século da paz. O senhor concorda?

OLHE! — O que precisamos fazer para estimular a cultura de paz nos jovens?

Faria — Este é um desejo, não sabemos se será assim mesmo. O fato de o século XIX ter sido o século da morte fortalece o nosso desejo de fazer do século XXI o século da vida e da paz. O fato é que já temos indícios, mesmo apesar das guerras, de que muita coisa está mudando ou pode mudar nessa direção. A resistência iraniana nas ruas e pelos novos meios de comunicação é um dado contundente. Mas vemos também a opinião pública internacional condenando a ocupação da faixa de Gaza, as denúncias de desmatamento, a luta pelos direitos animais, os direitos da natureza, a luta contra a corrupção em todo o mundo, a afirmação das várias diversidades. Também o surgimento de um pensamento mais integrado, ecológico, mais complexo em substituição a antigas ideologias. O educador e artista Dan Baron nos fala de mais dialogia e menos ideologia. O século da vida dependerá da intensidade e qualidade da dialogia.

Faria — Estimular grande parte das atividades que já desenvolvem: ações criati-

OLHE! — Porque o ser humano é tão violento?

Hamilton Faria é poeta, professor universitário, autor de vários livros sobre poesia e arte e coordenador de cultura e do núcleo de cultura de paz do Instituto Pólis, que desenvolve ações para incentivar a criação de políticas públicas a partir do fortalecimento da sociedade civil, seus movimentos sociais e culturais. Revista OLHE! — O que significa PAZ para o senhor? Faria — Paz é um estado de ser resultado do equilíbrio consigo, com o outro, com a natureza e a comunidade dos seres vivos e com as fontes da criação.

Faria — Existem estes dois lados no ser humano, assim como Eros e Tanatos estão sempre presentes. Por isso precisamos de contextos positivos e de autodomínio e consciência. Somos seres complexos em que todas as coisas boas e más estão presentes. Somos compostos de Eus superiores e inferiores. A verdadeira arte da vida é expandir a consciência de tal forma nos pensamentos, sentimentos, palavras e ações, que a nossa beleza, a nossa vida-obra de arte se mostre em todo seu esplendor. A transformação começa por nós mesmos e nos nossos modos de vida, sem ficaremos no reino das ideologias que vão ditar aquilo que precisamos fazer e não haverá liberdade real e tampouco a paz almejada. OLHE! — Acredita que a origem da violência é a invisibilidade do ser humano, a falta de pertencimento na sociedade manifestaria a violência inerente? Faria — A violência não é apenas direta, mas também são estruturas e valores culturais. Nesse sentido é mais invisível que visível. Não se trata apenas de desastres e homicídios, mas fome, falta de bens, de casas, de água e preconceito, racismo, exclusão. As práticas que geram a violência não aparecem em estado de cristal, estão lá dentro, no âmago, nas piadas, nas declarações, nos risos, nos pés de página das leis, nas novelas quando os heróis são apenas brancos, no salário da mulher negra que é três vezes menor que o do homem branco, nas oportunidades de acesso a educação etc. São coisas que estão aí, mas não apa-

OLHE! — O que poderia ser incluído na grade curricular das escolas? Acredita que a obrigatoriedade da educação ambiental seria uma das disciplinas a ser incluídas?

recem, são naturalizadas. O poeta Bertold Brecht diz uma frase mais ou menos assim: nunca diga que isso é natural senão as coisas passam por imutáveis. OLHE! — Qual é o significado do novo “reencantamento do mundo”? Faria — O reencantamento é um motivador que transcende as melhorias apenas materiais da sociedade e que conecta o ser humano com uma energia de celebração com a comunidade da vida. Pensar o mundo em mudança, mas com vidas significativas, um mundo habitável poeticamente. É difícil traduzir em palavras. Certa vez um mestre foi fazer uma fala a seus discípulos, que o esperavam ansiosamente. Quando começou a falar, um pássaro cantou. E ele proferiu: não tenho mais nada o que falar, tudo já foi dito. Reencantamento é assim: uma força motivadora que nos traz sentidos. Assim, podemos salvar o sonho. A cultura de paz é a alma do reencantamento do mundo. OLHE! — Qual é a importância da consciência ambiental no cidadão?

Faria — Toda importância, principalmente se considerarmos que o meio ambiente é a própria teia e que não pertence a ninguém, nós é que pertencemos a ela. Acreditamos ainda que podemos colocar tudo a serviço de nós humanos. Isso é um equívoco, pois pertencemos a uma comunidade maior: não podemos derrubar florestas, matar animais, extrair minérios, poluir águas só para nos servir. Para evoluir nossa consciência, essa visão deverá mudar. Precisamos estar em equilíbrio, isso sim. Não estamos no centro, mas pertencemos a um todo, fazemos parte. E isso muda completamente a consciência ambiental. Já imaginou urbanizarmos um espaço pensando nas pessoas, animais, plantas e minerais e não apenas no desenvolvimento humano, ou ainda mais precário, dos homens, como se diz ainda? Estamos entrando num paradigma da sustentabilidade em que tudo deverá se contextualizar numa ética da vida. Nem a democracia poderá ser pensada nesse cenário de forma isolada, mas olhando, convivendo, dialogando com outras dimensões do humano e da vida de forma geral.

Faria — É vital, como as ciências sociais e as nossa língua oficial e as ancestrais. Precisamos culturalizar a grade curricular, trazer sábios, filósofos, mestres da cultura popular para conversar com nossos estudantes. A paz — valores, agentes de paz, mediação de conflito, comunicação não violenta, estética da paz, terapia comunitária — precisa ser experimentada nas escolas. Tudo isso também é educação ambiental. Não podemos esquecer que a educação ambiental não é só ecologia ambiental, mas social, cultural e mental. OLHE! — O que existe de verdadeiro ou falso no discurso ambiental? Faria — Verdadeiro é que precisamos nos tornar meio ambiente, que qualquer política ou modo de vida precisa coexistir com o meio ambiente, porque somos fruto das circunstâncias, do entorno, da vida. O falso é que muitas empresas apelam para o discurso ambiental como moda, afirmam estar conectados, mas usam trabalho escravo. Bancos oferecem péssimos serviços e fazem lucro de tudo e se dizem estar na energia verde ou ecológica. O falso é fazer lucro com isso, apropriar-se apenas do que interessa, mas não daquilo que modifica realmente a natureza e a sociedade.


A análise das estatísticas regionais de gênero e de raça/etnia revela a gravidade da situação de desigualdade existente no Brasil. As regiões Norte e Nordeste são as mais pobres, e os dados sobre raça mostram com clareza que a discriminação contra os índios e a população negra persiste na sociedade brasileira. Os negros correspondem a 47,3% da população brasileira e representam 66% do segmento mais pobre. É reconhecido que as mulheres negras são as mais pobres, entre a população pobre. *** Os aposentados e pensionistas pretendem reunir um milhão de ações na Justiça contra o fator previdenciário e pela criação de uma política nacional de recuperação do poder de compra do benefício. O movimento, encabeçado pelo Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical, diz que as primeiras dez mil ações devem ser ajuizadas em meados de junho em São Paulo. Segundo cálculos da Federação dos Aposentados e Pensionistas de Minas Gerais (FAP-MG), quem se aposentou em 1998 com dez salários mínimos, começou recebendo R$ 1.200,00 (na época, o mínimo era de R$ 120,00). Mantida a paridade, deveria receber R$ 4.650,00 hoje, mas, com as correções diferentes, o

benefício atual é de R$ 2.635,06, que corresponde a uma perda de 76,47%. *** O ex-morador de rua José Gomes Pinheiro, 45 anos, entrou pela primeira vez em um albergue em 2003. Seis anos e 19 moradias provisórias depois, não conseguiu ainda afastar o risco de voltar à rua. Pinheirinho, como é conhecido, é uma das pessoas que enfrentam um artifício adotado pela Prefeitura de São Paulo para burlar a lei: o rodízio de pessoas em albergues. Pela lei 12.316/97, o município deve seguir regras para tentar retirar o morador de rua. Além da porta de entrada, deve criar a saída. Movimentá-las numa escala de ascensão: oferecer albergue, depois moradia provisória e, por fim, casa definitiva. “A gente está cansado de porta de entrada. Tem porta de Febem, porta de cadeia, de cemitério, de albergue. A gente quer é porta de saída!”. *** O fato é que o brasileiro médio não sabe onde está, não conhece seu lugar no grande esquema das coisas. Tem o pé preso em históricas raízes ancestrais. Até que ele resolva mover a cabeça e olhar ao redor e mais embaixo no seu

próprio passado, não haverá uma solução que surja do nada como um milagre de Hollywood. Nesse grande pântano social em que estatísticas ameaçam engolir os cidadãos, determinados grupos estão mais por cima enquanto outros se encontram mais afundados na areia movediça da desigualdade. Todos estão, sem exceção, amarrados com a mesma corda. Quando alguém consegue se mexer e avançar, outros também andam e quando há uma conscientização geral, os laços que os aprisionam se enfraquecem. Existe sim uma saída, mas devido a um mecanismo secreto da história, esta só funciona se todos puderem passar de mãos dadas.

O nome dele era Emanuel. Um franzino borra-botas de óculos em quem os moleques mais fortes descontavam as agruras do colégio. Mas nem sempre. Às vezes, eles protegiam o sujeito em troca de um pedaço daquele sanduíche gostoso que a mãe dele fazia. Ou então simplesmente tomavam da mão dele. Dependia do tempo, se chovia ou se fazia sol. O menino tinha um dom para bater figurinhas, rodar pião e contar piadas. Logo se aventurou pelo dominó. E rapidamente chegou às cartas. A princípio, apostando bolachas, bananas, figurinhas. Entrando na adolescência, entrou no baralho. Percebia-se um notável esforço para dominar, ou antes seduzir aqueles naipes cheios de truques. Às vezes, chegavam em sua casa e lá estava o rapaz, envolvido num rouba monte com seus pais, xingando baixinho, com o rosto ao mesmo tempo agitado e concentrado, cheio de piscadas nervosas. Então ele se tornou um profissional e passou a frequentar várias casas de jogo. Jogava pôquer. Apostas em dinheiro. O orgulho foi ganhando forma e ele estufava o peito a cada vitória. Mas quando acontecia o contrário, custava a admitir. Estavam trapace-

ando, é claro. As rodas de carteado sempre terminavam em discussão. O mistério que paira sobre seu baralho é o de que não havia como saber se ele era de fato tão orgulhoso. Ou se tudo não passava de um grande blefe. Fato é que, um dia, os ânimos ficaram exaltados na roda. Um dos homens puxou o revólver na direção de Emanuel. Seu rosto empalideceu de imediato. Os próprios companheiros daquele homem tomaram arma da mão dele, mas seu olhar continuava engatilhado e certeiro, mirando fundo no Emanuel, que tratou de deixar umas notas por lá e dar no pé. Depois disso, passou-se um ano sem que ele jogasse com os lobos do carteado. Era visto de vez em quando jogando um bilhar num boteco ou então empinando pipa com o sobrinho. Passou-se um ano no qual o rapaz arranjou emprego formal e seus pais ganharam um pouco de tranquilidade. Mas,aos poucos,escondido dos próprios amigos,lá estava Emanuel embaralhando sua vida em uma casa de jogo longe do seu bairro.


estomago O toque de recolher ou recolher obrigatório é a proibição, decretada por um governo ou autoridade, de que pessoas permaneçam nas ruas após uma determinada hora.

res de idade a frequentar casas noturnas e estabelecimentos que vendam tabaco e bebidas alcoólicas.

O nome deriva essencialmente da prática européia que, durante guerras, após determinada hora (geralmente o início da noite), soava uma sirene para que a população deixasse as ruas em caso de bombardeio. Atualmente, o toque pode ou não ser literal, às vezes, bastando que carros de patrulha percorram as ruas ordenando que os cidadãos voltem para suas casas e alertando os possíveis infratores.

Reino Unido: Com a Lei de Comportamento Anti-Social (Anti-Social Behaviour Act), de 2003, foram criadas zonas especiais nas quais a polícia pode deter e escoltar até em casa menores de 16 anos desacompanhados após as 21h, infratores ou não. Apesar do sucesso inicial, o Alto Tribunal de Justiça britânico decidiu em um caso particular que a lei não dava poder de prisão à polícia, e os agentes não poderiam forçar um jovem a acompanhá-los. O Ministério do Interior (Home Office) do Reino Unido está recorrendo da decisão. As leis de toque de recolher juvenil estão em disputa judicial por defensores de direitos humanos.

Alguns albergues, que não ficam abertos vinte e quatro horas, usam este mesmo nome para obrigar seus clientes a retornar antes do fechamento, caso contrário, são obrigados a dormir na rua. Em algumas cidades, o toque de recolher já está sendo utilizado para proibir meno-

Onde é isso mesmo?

Singapura: As autoridades também impuseram um toque de recolher às 23h para crianças e adolescentes menores de 16

anos de idade. Os detidos podem sofrer uma advertência e os pais também recebem uma carta. A medida, tomada em 2006, foi imposta para combater a delinquência juvenil. Dinamarca: A polícia de duas cidades (Silkeborg e Slagelse) anunciou que prenderá e levará à delegacia menores de 15 anos e informará aos pais que devem buscá-los na cadeia se forem encontradas nas ruas entre meia-noite e 5h. Não há lei na Dinamarca que cubra a área, então, as crianças não são punidas nem advertidas de forma alguma. Entretanto, a Dinamarca não tem um sistema penal juvenil separado, o que causa o perigo de misturar jovens com presos adultos nas mesmas celas. Fernandópolis: Quatro anos após ser introduzido pela primeira vez em uma cidade no estado de São Paulo, o toque de recolher para menores de 18 anos é apontado pelas autoridades como responsável pela redução de 80% dos atos infracionais


e de 82% das reclamações do Conselho Tutelar no município de Fernandópolis. Como e quando isso chegou ao Brasil? A medida que proíbe a permanência de menores nas ruas após as 23h foi imposta em maio de 2005 pelo juiz da Infância e da Juventude de Fernandópolis, Evandro Pelarin, para reduzir a delinquência juvenil e evitar que os menores ficassem até tarde nas ruas consumindo bebidas alcoólicas e entorpecentes. Segundo ele, a medida foi uma forma de ajudar a comunidade a proteger os jovens de situações de risco. “O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que o poder público tome providências para tirar as crianças dessas situações”, afirmou. Fernandópolis foi a pioneira, seguida por Ilha Solteira e Itapura. A medida adotada em Fernandópolis foi considerada um sucesso pelo poder público de Ilha Solteira e Itapura, que decidiu adotá-la em seus municípios. Nestas cidades, agora é comum a fiscalização em bares, restaurantes e lan houses por policiais miltares, civis e conselheiros tutelares, principalmente em locais onde estes acreditam que os jovens correm mais riscos. A portaria determina que, sem a companhia dos pais, crianças e adolescentes de até 13 anos só poderão ficar nas ruas e em locais públicos até as 20h30. Os jovens entre 14 e 15 anos terão que se recolher até as 22h, e os que tiverem entre 16 e 17 terão que voltar para casa até as 23h. Além disso, os menores de 16 anos estão proibidos de frequentar lan houses. Quem for flagrado fora do horário estipulado será

levado para o Conselho Tutelar e entregue aos responsáveis. Já quem for pego praticando delito poderá ser condenado a prestação de serviço público e até ser recolhido para a Fundação Casa. “Uma pessoa em desenvolvimento tem que ter certos limites, certas posturas em relação a ela”, disse o delegado Miguel Ângelo Micas. Quando as equipes formadas por policiais e conselheiros encontram jovens fora do horário permitido, eles podem ser levados ao Conselho. Os responsáveis são advertidos e, caso haja reincidência, podem ser multados. Em Mozarlândia (GO), a punição chega a R$ 9.300,00. Polêmica: os adolescentes reclamam da nova medida! Para um especialista em direito da criança e do adolescente, porém, a decisão é abusiva e fere liberdades constitucionais. “Liberdade de ir e vir, liberdade de educar, liberdade de poder escolher entre o que é certo e o que é errado”, diz Ricardo Cabezon, presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP). Alguns pais de adolescentes concordam com a medida e não veem excesso. Acreditam que tem que haver punição, pois alegam que não adianta conversar com seus filhos. Outros acreditam que os problemas com os jovens deveriam ser resolvidos em casa e não na rua. Há quem interprete a medida como um gesto de proteção. Outros a classificam como um ato autoritário contra crianças e adolescentes. E você, o que acha?

Para adolescentes, medida é ajuda aos pais que não impõem limites.

Saímos na ruas perguntando para os jovens o que eles acham dessa idéia:

A medida adotada por algumas cidades do interior de São Paulo e que pode chegar à região de Sorocaba, tem sido alvo de discussão entre políticos, educadores, pais e adolescentes. A proposta impõe limite de horário para os menores de 18 anos de idade, proibindo que permaneçam em locais públicos após a meia-noite desacompanhados de seus pais.

“Sou morador de Sorocaba e não concordo com o toque de recolher. Acho ruim, pois as melhores baladas da cidade começam depois das 22h. E como sou menor de idade, não concordo.” Bruno Vieira, 17 anos

Outros sete estados já copiaram a medida. Atualmente, ela está sendo analisada em mais cidades do estado de São Paulo. A discussão ainda não alcançou o poder legislativo de Sorocaba, mas já repercute entre os jovens, que analisam os pontos positivos e negativos da medida.

“O toque de recolher é uma maneira opressora de resolver as coisas, o problema das altas taxas de criminalidade pode ser ligado à falta de educação e de oportunidades. Não adianta tirar os jovens das ruas, é preciso criar estratégias de maior impacto social.” Mariana Bueno, 24 anos “Se fosse possível ter o toque de recolher aqui em Sorocaba, a minha opinião seria que muitos adolescentes que estudam à noite teriam menos faltas e diminuiria o número de abandono da escola, pois o adolescente ou está na escola ou na rua aprontando e aprendendo coisas erradas que não se aprende durante o dia. É depois das 22h que os macacos véios estão na rua e, quando passa das 00h, até as bruxas.” Diego de Oliveira Souza, 23 anos “Sou contra, pois a causa da criminalidade não é os jovens estarem na rua. É preciso mudanças de base.” Patricia Antoneli, 26 anos “É um absurdo! O que é isso? Daqui a pouco vamos voltar a época da ditadura, eu quero é liberdade de ir e vir!” Carolina, 15 anos


Quem era Alexandre Vannucchi Leme?

Era um típico sorocabano da época, caipirão. Andava sempre com umas botinhas de cano curto, calças curtas. Era cara gozador que colocava apelido na escola inteira: Alexandre ficou conhecido como Minhoca. Partilhava de todas as lutas comuns aos estudantes da época: contra o ensino pago, contra a falta de verbas. Por outro lado, como estudante de geologia, foi preocupado com a questão dos recursos naturais, exploração do ferro, a Transamazônica. Ninguém viu Alexandre ser preso, mas, no dia 16 de março de 1973, ele já estava sendo torturado na Operação Bandeirantes. Seus gritos o testemunhavam. Para a cela, voltou carregado da sala de torturas. Ainda pode dizer aos outros presos: “Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, sou estudante de geologia, me acusam de ser da ALN... Eu só disse meu nome...” Nasceu em Sorocaba no dia 5 de outubro de 1950. Morreu no dia 16 de março de 1973, com 22 anos de idade. Foi torturado pelo DOI-CODI durante dois dias e não resistiu. Ele foi enterrado no cemitério de Perus como um indigente. Foi um líder estudantil brasileiro. Frequentava o curso de geologia na Universidade de São Paulo — USP no início da década de 70, participando ativamente das lutas dos estudantes em defesa da demo-

cracia e dos direitos humanos em plena ditadura militar. Seu nome tornou-se muito conhecido pelos fatos que o envolveram. Alexandre era um militar estudantil e, por sua ligação ilegal com a ALN (Ação Libertadora Nacional, uma organização revolucionária comunista brasileira de oposição ao regime militar de 1964), ele foi preso. Em 30 de março de 1973, foi celebrada uma missa em sua intenção na Catedral da Sé, e, nessa mesma época, foi descoberto que Alexandre não havia morrido por causas naturais e sim que fora assassinado por ter sido torturado. Os pais do estudante brigaram durante dez anos, quando em 1983, eles conseguiram com que ele fosse sepultado em sua cidade natal. A sua morte sob tortura foi similar as que aconteceriam nos anos seguintes, como o assassinato do jornalista Vladi-

mir Herzog, em 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em 1976. Estes foram, entre tantos outros mortos pela tortura, os que se tornaram centrais como símbolos na luta pela anistia que mobilizou o país de forma massiva a partir de maio de 1977. Chegou a ser instaurado um inquérito pelo DOPS para apurar a morte de Alexandre, encaminhado para a 2ª auditoria militar, ao juiz auditor Nelson da Silva Machado Guimarães, responsável pelo caso, que o enviou para o comandante do II Exército, onde foi arquivado sem solução.

/ Livro sobre ele: Ditadura e repressão em Sorocaba: histórias de quem resistiu e sobreviveu, de Fernanda Ikedo.


xual desses menores. Não há um artigo no Código Penal Brasileiro que trate especificamente do aliciamento de menores, mas, no artigo 218 do mesmo, está descrito que “corromper ou facilitar a corrupção de pessoa maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, com ela praticando ato de libidinagem, ou induzindo-a a praticálo ou presenciá-lo, a pena é de reclusão de um a quatro anos”.

Presenciamos constantemente nos meios de comunicação notícias sobre abuso e corrupção de menores. Cada vez mais, fica evidente que o “bicho homem” utiliza de artimanhas esdrúxulas para manipular e comprometer os direitos e a liberdade da criança. Mas até onde vai a liberdade? Como esta corrupção interfere no processo de iniciação psicológica, emocional e sexual de jovens? O mundo atual e globalizado tem diminuído as distâncias consideravelmente. A internet aumentou o acesso à informação, veiculada de maneira rápida e simples. Em contrapartida, os jovens têm deixado de lado a parte gostosa da infância para viverem como adultos desde cedo. E isso tem chamado a atenção principalmente de indivíduos mal intencionados, que se aproveitam desta situação para aliciar e corromper menores. Este aliciamento tem como consequência a corrupção e principalmente o abuso se-

O aliciamento não condiz somente com o abuso sexual, mas com o ato de influenciar, convencer, subornar ou forçar a criança a praticar qualquer ato criminoso previsto em lei. O ato de corromper tem como significado perverter, depravar ou contaminar moralmente a vítima. Estes atos interferem nos processos de desenvolvimento dos jovens e acabam por afetar a liberdade que estes têm em aproveitar de maneira sadia e prazerosa esta época maravilhosa: a juventude.

Todos nós temos como dever prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente. Alguns jovens se veem afetados diretamente, não conseguindo desenvolver uma vida como a das outras pessoas por causa dos traumas que uma situação de abuso ou corrupção pode deixar. Isso

compromete inconscientemente seu desenvolvimento e assim eles passam a ter uma vida perturbada. Pessoas que provocam estes atos de corrupção não fazem idéia das consequências que podem gerar na vida destes adolescentes. São pessoas que já passam por perturbações psicológicas e, não felizes assim, perturbam a vida de crianças em formação, que não têm muitas vezes a liberdade de escolherem suas próprias atitudes. Elas são induzidas a terem daí por diante uma vida de traumas e desgostos causados por decepções e desilusões relacionados aos abusos. É muito difícil o julgamento desses atos, mas não podemos nos conformar com estas atitudes e esta falta de impunidade que ainda existe referente a este problema. Nossa legislação precisa ser mais coerente e clara, sem lacunas para que estes infratores não possam sair ilesos e vivendo a liberdade desses jovens. Toda criança e adolescente tem direito a LIBERDADE, RESPEITO e DIGNIDADE. E todos nós temos como dever prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente. Como dizia Mário Quintana, “O saber não muda o mundo. O saber muda as pessoas. As pessoas é que mudam o mundo”. Resta aos cidadãos somente a boa vontade de denunciar tais criminosos. A liberdade é direito de todos. Basta sabermos usá-la de maneira correta. Denuncie!

Libidinagem: ato libidinoso, sexualidade. Ato de libidinagem: união carnal de um de seus equivalentes. Esdrúxulas: algo fora do comum, estranho.


“...faz três anos que eu não faço sexo, mas eu não sinto falta, não. Tô muito bem sozinho, mas não sou viado, não!” Fábio, 25 anos “Nas últimas vezes, foi com uma pessoa que eu gostava; no começo a gente só usava camisinha, nas últimas vezes, não usamos. Aí já viu, né, agora ela acha que está grávida.” Diego, 24 anos “Sempre faço com uma vizinha minha, ela é mais velha, tem 30 anos e é muito boa de cama! Mas sempre com camisinha. Só não transo com menina feia ou que usa droga.” Bruno, 17 anos

Nota

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Essa crônica foi desenvolvida pelo Sr. João Valdeci, um tiozinho simpático de 68 anos, morador da Casa de Simeão, um abrigo para idosos em situação de rua. Na ocasião, ele preferiu usar suas habilidades linguísticas e nos contar a história de sua primeira namorada em inglês. O texto acima está como o original.

Como você anda fazendo sexo? Não vamos entrar em detalhes sórdidos, mas todo jovem só pensa em “fazer aquilo”. E, geralmente, depois que faz, deixa de pensar. É hora de abrir a cabeça e ver o que tem dentro. Quem sabe enfiar algumas boas idéias antes de enfiar outra coisa... Enfim!

“Só faço com a minha namorada, mas não uso camisinha. Sei que precisa, mas não uso.” Dani, 27 anos “Sou virgem, mas quando eu for transar, só com camisinha.” Joana, 14 anos ”Pego todas, todas me querem [risos]. Transo bastante. Sou boa pinta, né? Mas sempre com camisinha.” Carlos, 17 anos “Ah, eu não quero mais saber de transar! Os homens só querem saber disso.” Fabiana, 18 anos “Ah, eu sou viúva, não transo mais, não. Ai que pergunta, fia!” Zoraide, 60 anos


Nervosismo, entusiasmo, frio na barriga. Um início de namoro como qualquer outro. Após alguns minutos de conversa, ouço: — Sou pai de um menino de dois anos, prefiro falar agora porque quero começar um namoro sem mentiras. — Ah... Legal. E agora?, pensei. Mas a conversa continuou, e o fato de ele ser pai não mudou em nada aquela noite, afinal, já havia me encantado por ele. Porém, fiquei matutando a noite toda em pensamento: como seria meu primeiro encontro com a criança. Nunca havia pensando em ser mãe. Sempre me pareceu que as crianças não gostavam muito de mim. Ser mãe para mim estava muito distante, até conhecê-lo. Em um almoço de Páscoa durante uma reunião em família, lá estava ele. Todo acanhado, mal sabia falar e andar. Ainda usava fraldas! E eu ainda em pensamento: nem fralda eu sei trocar! O que faço? Obviamente a primeira palavra de ambos foi “oi”. Como pode um ser tão pequenino deixar minhas mãos trêmulas daquele jeito? Cômico ou trágico, a única coisa que estava ao meu alcance era uma fruteira. Dei-lhe logo uma banana que ali estava e, para minha surpresa, a criança adorou!

Ufa!, pensei. Hoje já faz cinco anos que convivo com esse pequeno ser. Eu e ele nos damos muito bem, cada um respeitando o espaço do outro (por mais absurdo que isso possa parecer para uma criança de sete anos). Tenho descoberto aos poucos o que é ser mãe (mesmo que aos fins de semana) e como fui tola em pensar que jamais gostaria de ser. O destino me deu o direto de ser mãe! Divirto-me com suas peripécias, com suas experiências na escola e também sei ser madrasta quando preciso chamar sua atenção por alguma travessura. Até ciúmes dele com sua mãe biológica eu tenho! Não há quem possa tirar esse direito meu e nem de qualquer mulher de ser mãe, mesmo que “por acaso”. Mães do coração também têm seus direitos. Mesmo que não possamos fazer parte diariamente do mundo deles, podemos ensinar um pouco, passar nossas experiências pra eles ou simplesmente, amá-los. Só eu sei a falta que o abraço dele me faz, como me preocupo com sua dor no ouvido ou se ele almoçou e como me emocionei quando ouvi, dias atrás, uma pergunta dele bem baixinho em meu ouvido: — Tia Jé, posso te chamar de...


Faz-me rir. Bom, como sou menor de idade, vocês já devem saber a onde fui parar. Fui privado da minha liberdade. E agora, o que fazer quando não se tem liberdade?

Fui pego, invadiram meu barraco. Eu ainda dormia quando abri os olhos e uma arma já apontava para minha cabeça. Me rendi, talvez se não houvesse arma, tentaria correr. Um dos policiais me olhou e disse: “Esse deve aguentar bastante”. Não entendi. Levou-me para dentro e pediu-me dinheiro, pois disse que não queria me prender, não hoje. Não respondi, não ia dizer nada sobre droga nem sobre dinheiro. Me bateram, e bateram muito. Na verdade, não seria exagero algum dizer que me espancaram. Quatro policias se revezavam para me bater. Aparentemente, parece que bater também cansa. Mas eu não tinha com quem revezar, era o único alvo. Pensei em reagir, mas seria um erro que talvez eu tivesse que pagar com minha própria vida.

Eles eram espertos, sabiam onde bater. Batiam onde não deixariam marcas para que a sociedade não pudesse ver a atrocidade que cometiam. Quando já não conseguia mais respirar de tantos socos, eles me pediam para chorar ou não parariam, mas não tinha forças nem mesmo para chorar e por isso apanhava mais e mais. Vendi droga. Errei, eu sei. Mas, por vezes, acredito que não pude seguir outra oportunidade, pois precisava ganhar dinheiro rápido. Confesso que nunca machuquei ninguém. De repente, pararam de me bater, acho que cansaram ou ficaram com medo que eu morresse na mão deles. Fui levado para a delegacia. O relato dos policias era quase hilário. Disseram que “entraram” na minha casa e com toda “educação” me “abordaram”.

Liberdade é uma das coisas que só sentimos falta quando perdemos. Nunca valorizei de verdade momentos como um passeio na rua, um futebol no campinho ou simplesmente observar as pessoas indo e vindo. Mas lá, a falta de liberdade era total. Raspavam a minha cabeça toda segunda-feira. Eu tinha que avisar quando ia ao banheiro e o que ia fazer lá, e ainda assim alguém me vigiava enquanto eu fazia as minhas necessidades. Banho, só gelado, e na frente de funcionários e outros meninos. Fiquei meses sem ver o céu azul. Alguns dias nos permitiam sair em um pátio gramado, mas era raro. Quando acontecia, era a maior alegria! Só de poder respirar o ar livre, ver o céu azul, sentir o sol... Ah que alegria! Às vezes, de algum ponto, dava para ver a rua, os carros passando. Era estranho pensar que eu estava ali, tão longe daquele mundo. Acordava todos os dias as 5h30, sem choro nem vela. Também tínhamos

que nos deitar às 21h30. Deitar e dormir. Depois desse horário, não podíamos nem mesmo conversar enquanto o sono não vinha. O canguru era obrigatório, várias vezes ao dia. O que é canguru? É uma revista em que devemos ficar pelados, agachando no chão para se verificar se não escondíamos nada no corpo, se é que vocês me entendem. Por vezes, quis esquecer que estava lá, fingia que não estava preso, tentava imaginar que estava em outro lugar, um lugar bacana, sei lá. Acho que era o jeito que eu inventava para poder lidar com tudo isso. Foram oito meses assim: Sem sol. Sem céu. Sem privacidade. Sem LIBERDADE.



Revista OLHE! Edição 01