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ANO XXV - edição 99

abril 2018

ANO xxv edição 99 abr 2018


ANO XXV - Abril 2018 - Nยบ 99

O ESTADO DE ISRAEL, SOBERANO, AOS SEUS 70 ANOS

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Carta ao leitor O Estado de Israel completará 70 anos de existência, este ano, em Yom Ha’Atzmaut, Dia da Independência. Por um lado, o Estado Judeu é um país muito jovem. Por outro, o vínculo entre o Povo Judeu e a Terra de Israel é muito antigo: judeus vivem ininterruptamente na Terra de Israel há mais de 4000 anos. Desde a queda da antiga Israel até a fundação do Estado renascido, a Terra Santa nunca se tornou um estado independente e Jerusalém nunca foi considerada a capital de nenhum outro país. Assim como nosso povo sempre sonhou em voltar à sua antiga pátria e capital, a Terra de Israel e Jerusalém esperaram ansiosamente o retorno de seus filhos. Esse sonho se tornou realidade há 70 anos. A geração que sofreu a maior catástrofe na história judaica – o assassinato de sete milhões de judeus, foi também a que testemunhou a realização de um sonho de 2000 anos: o retorno do Povo Judeu à Terra de Israel e a Jerusalém. A breve história do Estado de Israel é extraordinária – quase inacreditável. Somos um povo que se reergueu das cinzas de Auschwitz para retornar à sua antiga pátria e lá construir um país moderno, forte e vibrante. David Ben-Gurion, fundador do Estado de Israel, afirmou que “Em Israel, para ser realista, é necessário acreditar em milagres”. É um milagre que um país desprovido de recursos naturais e que teve de lutar tantas guerras e conflitos conseguisse absorver milhões de imigrantes – a maioria deles, refugiados – enquanto construía um estado próspero e democrático. Mas o Estado de Israel é muito mais do que uma superpotência militar e um país inovador e vibrante. É, também, o lar eterno e o sonho coletivo de todo um povo. Além de ser a pátria eterna do Povo Judeu, a Terra de Israel está entrelaçada com a alma coletiva de seus filhos. Há dois mil anos, todos os dias, sem exceção, oramos pelo retorno de nosso povo à Terra de Israel e à Jerusalém. Há dois mil anos concluímos todo Seder de Pessach com as palavras, “Ano que vem, em Jerusalém”.

Nossa convicção de que retornaríamos ao nosso lar eterno e à “mais bela das cidades” manteve-nos vivos durante uma longa e dolorosa diáspora. Foi também esse anseio que deu aos judeus a coragem para lutar e perseverar apesar de todos os sofrimentos aos quais fomos submetidos, mantendo nosso povo de pé até mesmo nos campos de extermínio. O profeta Zacarias declarou: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: idosos e idosas voltarão a sentar-se nas ruas de Jerusalém... e as ruas da cidade estarão cheias de meninos e meninas brincando” (Zacarias 8:4-5). Com a fundação do Estado de Israel, cumpriu-se essa profecia. Hoje, judeus de todas as idades vivem em Jerusalém e falam a mesma língua que falavam os Profetas. O retorno do Povo Judeu a sua Terra ancestral é prova de que as profecias bíblicas, cedo ou tarde, realizam-se. A fundação do Estado de Israel é, portanto, significativa não apenas para o Povo Judeu, mas para toda a humanidade, pois constitui o início de um processo que levará à Era Messiânica – a tão sonhada utopia – o dia em que haverá paz não apenas em Jerusalém, mas em todo o mundo. Quando chegar esse dia, a humanidade não mais conhecerá guerras ou conflitos: não haverá nenhum tipo de sofrimento ou pobreza, e a morte será apagada do mundo. Em poucas semanas, o jovem Estado de Israel celebrará seu 70º aniversário. No judaísmo, o número sete e todos os seus múltiplos são altamente significativos. O número sete indica o fim de um ciclo e o início de outro. Simboliza, também, a paz. Nossa esperança é que um novo ciclo se inicie em Israel e se espalhe por todo o mundo: uma era de paz e segurança para todos os seus habitantes.

Chag Pessach Sameach!


ÍNDICE

13

26

42

48

52

67

03 carta ao leitor

18 CAPA

Israel - 70 anos por zevi ghivelder

06 NOSSAS GRANDES FESTAS

26

Os Quatro Filhos

nossas leis

Os Quatro Guardiães:

do Seder de Pessach

um estudo talmúdico

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34

SABEDORIA A grandeza de ser judeu por rabino jonathan sacks

shoá

A resistência judaica

durante o Holocausto

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06

18 48

42

educação Inovação

destaque

A Polônia e a negação do passado

por JAIME SPITZCOVSKy

Escola Beit Yaacov fica novamente entre as melhores escolas de São Paulo no ENEM

52

comunidades

Vestibulares 2018 Alunos da Escola Beit Yaacov conquistam excelentes resultados

62

arte

Aluno da Escola Beit Yaacov conquista, novamente, o 1º lugar no Chidon HaTanach Nacional

67

O Levante do Gueto de Varsóvia

SHOÁ

75

cartas

A vida dos judeus em Fez A arte de Ilya Schor

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ABRIL 2018


NOSSAS GRANDES FESTAS

Os Quatro Filhos do Seder de Pessach Um dos temas centrais do Seder de Pessach são os quatro filhos - suas perguntas e as respostas fornecidas pela Hagadá: o Chacham – filho sábio; o Rashá – filho malvado; o Tam – filho tolo; e o She’einó Yodea Lishol – aquele que não sabe perguntar.

S

ão inúmeras as interpretações do simbolismo de cada um dos quatro filhos. Neste trabalho, apresentaremos ideias que podem ser muito diferentes do entendimento que muitas pessoas têm dessa passagem tão conhecida da Hagadá. Ano após ano, lemos esse texto sagrado durante o Seder, mas muitos de nós não dão grande atenção ao que o mesmo nos transmite. Se analisarmos cuidadosamente as perguntas feitas pelos filhos e as respostas da Hagadá, perceberemos que são enigmáticas. Na verdade, é difícil entender o quão relevantes são as respostas às perguntas dos filhos e como respondem ao que eles parecem perguntar.

que o Eterno, nosso D’us, ordenou-lhes? A Hagadá nos orienta a dar a ele a seguinte resposta: “De acordo com as leis de Pessach, não nos é permitido comer nada depois do Corban Pessach, do sacrifício de Pessach”. É importante observar que em nossos dias, na ausência do Templo Sagrado de Jerusalém, não há Corban Pessach, sacrifício de Pessach. Comemos, em seu lugar, uma quantidade adicional de Matzá, chamada de Afikoman, ingerida após terminar o Shulchan Orech (a refeição festiva de Pessach). Após comer o Afikoman, não nos é permitido consumir nada além dos dois copos adicionais do vinho do Seder – que tomamos após recitar Birkat HaMazon, a Benção após as Refeições, e ao término da leitura da Hagadá. O Afikoman é, pois, a última coisa que podemos comer antes de nos deitarmos.

Quem estuda a Hagadá em profundidade, percebe que não se trata apenas de um texto sagrado, mas também de uma obra genial. Como veremos adiante, a passagem que trata dos quatro filhos contém lições extraordinárias e atemporais.

Voltemos à pergunta do filho sábio. O que ele pergunta, exatamente? Será que desconhece as leis de Pessach ou as três categorias básicas de mandamentos da Torá: Edot, Chukim e Mishpatim? Ainda mais enigmático: de que maneira a lei que proibe ingerir qualquer alimento após comer o Afikoman responde à sua pergunta? Antes de responder, é importante observar que o

O Filho Sábio O primeiro a fazer uma pergunta é o Chacham – o filho sábio. Ele pergunta: “Quais são os Testemunhos (Edot), os Decretos (Chukim) e as Leis (Mishpatim) 6


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seder de pessach, séc. xviii, moses leib ben wolf

primeiro filho mencionado na Hagadá não é chamado de Tzadik – o ser humano justo; mas é chamado de Chacham – aquele que é sábio. O fato de alguém ser um Chacham não o torna necessariamente um Tzadik. A pessoa pode ser muito sábia, mesmo em questões da Torá, e ainda assim ser uma pessoa má. Contrariamente ao que a maioria pensa, o filho sábio não é a antítese do segundo filho do Seder, a quem a Hagadá chama de Rashá – malvado. Se analisarmos com atenção as perguntas que fazem o filho sábio e o malvado, veremos que as duas não são muito diferentes. Consideremos o seguinte: a Hagadá critica o Rashá devido à maneira como ele se expressa. Ele pergunta: “O que este serviço significa para vocês?”, em vez de perguntar: “O que este serviço significa para nós?”. Ele é considerado um filho “mau” por causa de uma única palavra –

“vocês”, em vez de “nós”. O filho sábio, no entanto, também fala na segunda pessoa do plural – não na primeira pessoa do plural. Pergunta: “Quais os Testemunhos, Decretos e Leis que o Eterno ordenou a vocês?”. Como o filho malvado, ele também não se inclui na pergunta, pois diz “vocês”, e não “nós”. É verdade que a pergunta do Chacham é mais elaborada do que a do Rashá. O filho sábio menciona D’us, a Ele se referindo como “nosso D’us”, ao passo que o malvado não faz menção ao Todo Poderoso. A pergunta do primeiro filho também revela o fato de que ele está ciente de que os mandamentos da Torá se enquadram nestas três categorias: Edot (mandamentos referentes ao Shabat e às datas sagradas), Chukim (quase sempre mandamentos esotéricos, como certas leis relacionadas à Cashrut – 7

alimentação casher) e Mishpatim (os mandamentos racionais, cujas motivações qualquer pessoa sensata pode entender). Contudo, a pergunta dele é simplista e ampla. E deveria nos surpreender porque assim como o Rashá, ele também não se inclui nessa pergunta. Será que o Chacham acredita que as três categorias da Lei da Torá não se aplicam a ele? Se assim for, então o Chacham não é exatamente o judeu ideal que muitos de nós pensamos que seja. Então, quem ele é? O filho sábio simboliza pessoas que se julgam bem-informadas, esclarecidas e intelectualmente superiores. Para elas, o intelecto e a razão são fundamentais. Consequentemente, é possível que o Chacham não aceite seguir leis da Torá que não entende ou com as quais não concorda. As que ele entende – sejam Edot, Chukim abril 2018


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os decretos e determinações de um Ser Infinito. Na verdade, são muitos os mandamentos do Judaísmo – Edot, Mishpatim e Chukim. Há mandamentos bíblicos e rabínicos. Alguns deles você entenderá e apreciará, outros, não. Mas saiba que todos são expressões da Vontade e Sabedoria Divina. Talvez todas essas leis pareçam sem importância para você, mas elas constituem a ponte que permite que o homem finito se conecte com D’us Infinito. ou Mishpatim – ele as segue. Os mandamentos que ele não entende – os que ele julga irracionais ou ilógicos – talvez ele não os cumpra. Agora que entendemos quem é o filho sábio, podemos entender sua pergunta. Ele vem ao Seder e questiona por que razão esse ritual e a festa de Pessach – que celebra nossa liberdade – são cercados de tantas leis tão minuciosas, tão complexas e, aparentemente, tão sem lógica. Ele não entende por que motivo o judaísmo tem tantas leis, bíblicas e rabínicas. Por essa razão ele não se inclui quando pergunta sobre os mandamentos do Judaísmo - os Edot, os Chukim e os Mishpatim. Na verdade, o que ele está perguntando, é: “Vocês realmente creem que um D’us Infinito Se preocupa com as várias Leis e ramificações do Judaísmo, tão técnicas e detalhadas? Será que realmente faz diferença para D’us se eu como 10 ou 30 gramas de Matzá, e se me reclino, ao comer, ou não? Não deveríamos estar mais preocupados com as ideias e ideais grandiosos do Judaísmo do que com essas minúcias?”. Uma vez entendida a linha de pensamento do Chacham, podemos apreciar a profunda sabedoria da resposta da Hagadá a ele. Ao mencionar a lei do Afikoman, a Hagadá ensina, sem

rodeios, que o Judaísmo se define pelas leis da Torá – racionais e lógicas, ou não – que D’us espera que cumpramos. Um exemplo dessas leis é a proibição de ingerir o que quer que seja além dos dois copos de vinho depois de comer o Afikoman. Essa lei é simbólica de muitos dos mandamentos detalhados e técnicos do Judaísmo, que nos ensinam que D’us conhece todos os detalhes de nossa vida, inclusive o que comemos, como comemos, e quando comemos. Se o filho sábio crê que leis como a do Afikoman não são importantes, ele claramente não entende bem o propósito da Torá. O Judaísmo não visa à meditação ou ao nirvana e não constitui uma filosofia de vida. O Judaísmo visa à ligação com D’us Infinito mediante o cumprimento de Sua vontade – e a única forma de fazê-lo é estudando Sua Torá e cumprindo Seus mandamentos. Isto é o que a Hagadá tenta transmitir ao filho sábio: você pode ser inteligente e questionador, você pode ler muito e ser um pensador; mas não ouse presumir o que D’us espera do homem. Abraçar o Judaísmo significa cumprir os mandamentos da Torá, muitos dos quais não são inteiramente compreensíveis, simplesmente porque o homem, ser finito, não pode jamais entender 8

O Filho Malvado O Rashá, o filho “malvado”, é um enigma menor do que o sábio. Facilmente identificável, é a pessoa que participa do Seder para causar confusão. Argumenta, questiona e, às vezes, zomba do ritual e dos que o conduzem. Pergunta aos que o rodeiam: “O que este serviço significa para vocês?”. Ele não se inclui na pergunta porque, claramente, o Seder e tudo o que representa nada significam para ele. Antes de relatar a resposta da Hagadá à pergunta desse filho, é importante considerar o que faz um judeu voltar-se contra o Judaísmo. Há várias possibilidades. Pode ser um grito pedindo atenção; mas, em muitos casos, o Rashá é alguém que já foi religioso e se desiludiu do Judaísmo que lhe transmitiram. Esse filho é geralmente aquele cujos pais, professores ou rabinos ensinaram um Judaísmo opressivo e maçante – que sufoca a alma em vez de libertá-la e fortalecê-la – ou um Judaísmo fraco, falso e inexpressivo, destituído de verdade, subsistência, força e beleza. Isso pode ser extremamente nocivo, especialmente para os que são mais sensíveis e questionadores. Quem está espiritualmente ligado e procura a Verdade pode ficar muito


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desapontado em sua busca religiosa – e isso faz com que seu amor pelo Judaísmo se transforme no oposto. Portanto, é um erro definir o Rashá como malvado, apesar da tradução literal ser essa. Devemos entender o Rashá como o filho revoltado. Como a Hagadá responde a esse filho? Com uma ordem: “quebre seus dentes”. Não é necessário ficar chocado nem buscar desculpas, tentando achar algum tipo de justificativa pelo fato de a Hagadá se expressar de tal forma. Certamente, esse texto sagrado não está sugerindo que empreguemos violência física contra o Rashá. “Quebrar os dentes” é uma metáfora usada no Talmud: significa forçar alguém a fazer algo contra a sua vontade. “Quebrar os dentes” desse filho significa forçá-lo a abandonar suas atitudes nocivas que só lhe fazem mal. Isso é bem melhor do que ignorá-lo, expulsálo ou se recusar a convidá-lo para participar do Seder. Precisamos ser enérgicos e honestos: temos que lhe dizer que independentemente de quão justificáveis sejam os seus sentimentos, negar os princípios da fé judaica é o caminho da autodestruição espiritual. Temos que lhe transmitir que menosprezo, raiva e comportamento antissocial impedem uma comunicação inteligente e sensata, levando apenas a mais sofrimento e frustração. A resposta da Hagadá ao Rashá é que revoltar-se contra o Judaísmo, especialmente na Diáspora, geralmente leva à alienação das sinagogas e da comunidade judaica – e isso quase sempre leva à assimilação. A Hagadá nos ensina a dizer ao filho revoltado que “se você tivesse sido escravo no Egito, não teria sido redimido”. Isso porque, no Egito, os judeus que se rebelaram e se alienaram do destino do Povo

Judeu não participaram do Êxodo; eles pereceram durante a praga da escuridão. Temos que ser duros com o filho rebelde para o bem dele, para que ele entenda que quem ele mais magoa e prejudica com sua revolta é a si mesmo.

responde: “Com Mão forte, o Eterno nos tirou do Egito, da casa da escravidão”.

A redenção é uma forma de renascimento e, portanto, de renovação. O Seder, que celebra a liberdade física e espiritual do Povo Judeu, é a época mais propícia para que o filho rebelde deixe o seu Egito pessoal para trás – as experiências negativas que o estão acorrentando espiritualmente – e inicie uma nova jornada espiritual.

Muitos de nós erroneamente acreditamos que o menos desejável dos quatro filhos do Seder é o Rashá. Bem verdade que ele é rebelde, provocador e perturbador, e até pode dizer coisas ofensivas. Mas, pelo menos, tem interesse em dialogar. Já o Tam nem se preocupa em fazer uma pergunta bem formulada e significativa. Ma Zot? – “O que é isso?” – é uma pergunta que nem uma criança pequena faria. Claramente, ele não está muito interessado no que transcorre durante o Seder. Sua pergunta é superficial; ele fala apenas para não ser rude. Diferentemente do filho sábio, ele não pergunta sobre o Judaísmo e suas leis. Diferentemente do rebelde, ele nem mesmo quer desafiar os presentes à mesa do Seder. O Tam pouco fala durante o Seder e permanece indiferente a tudo.

O Tam O terceiro filho do Seder é o Tam. São várias as definições para essa palavra hebraica. Ela pode ter uma conotação positiva: é um adjetivo usado para descrever nosso patriarca Yaacov, significando “íntegro”. Mas tem, também, uma conotação negativa: tolo e ingênuo. A Hagadá não retrata esse filho, o Tam, de uma maneira lisonjeira. Ele parece ser desligado e ignorante, e fala menos ainda que o filho revoltado. Ele pergunta: Ma Zot (“O que é isso”?) e a Hagadá 9

Quem é esse filho Tam? E como a resposta da Hagadá contempla a sua pergunta?

Ele representa o judeu que nem é questionador nem rebelde, mas indiferente, que não se envolve. Nada lhe interessa. Não gosta de abril 2018


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se comprometer com coisa alguma e nas raras ocasiões em que o faz, geralmente não vai em frente. É fácil identificar o Tam. Raramente vai à sinagoga. Pode ser que assista a uma aula de Torá uma ou outra vez, mas não retorna. Pode comprar livros sobre Judaísmo, ler algumas páginas, mas logo fechará o livro para nunca mais tê-lo em mãos. Nada o comove, inspira ou estimula. Não é pró nem contra o Judaísmo. Na verdade, isso tudo se aplica a outras áreas de sua vida: não tem entusiasmo por nada, nem senso de compromisso ou disciplina. Tendo entendido quem é o Tam, podemos apreciar com que brilhantismo a Hagadá se dirige a ele, dizendo a esse terceiro filho que D’us não nos livrou simplesmente do Egito, mas que o fez “com Mão forte”. O que a Hagadá transmite ao Tam é que a salvação, a libertação e qualquer forma de progresso e realização na vida exige que ajamos com “mão forte”: com força, persistência, entusiasmo, paixão, comprometimento e esforço. A Hagadá alerta o filho Tam que não se pode viver passivamente; é

necessário agir de forma proativa. A Hagadá ensina-lhe que a menos que aprenda a agir com “mão forte”, ele nunca será verdadeiramente livre: continuará escravo, confinado pelas limitações da vida passiva e sem alma que escolheu para si.

Aquele que Não Sabe Perguntar O quarto filho, e último do Seder, é o She’einó Yodea Lishol: aquele que não sabe perguntar. Como ele está calado – pois nem se preocupa em fazer uma pergunta –, a Hagadá nos instrui a iniciar a conversa e lhe dizer que “D’us fez milagres para mim quando deixei o Egito”. Enquanto o Chacham está em um nível mais elevado do que o Rashá, e este, apesar de suas sérias falhas, é superior ao Tam, o quarto filho – que não sabe perguntar – está no nível mais baixo de todos. O Tam é indiferente, mas ao menos se preocupa em fazer uma pergunta no Seder. O filho que não sabe perguntar nem sequer se preocupa em questionar algo. Esse filho nem se preocupa em fazer alguma pergunta. Em hebraico,

o verbo la’daat, (“saber”) não significa apenas saber algo, mas estar envolvido com esse algo. Por exemplo, é um eufemismo usado para descrever as relações íntimas entre um homem e uma mulher. Portanto, a definição de She’einó Yodea Lishol é alguém que não tem interesse de perguntar. Ele está menos envolvido no Seder do que o Tam. Pode estar fisicamente presente, mas não está nem remotamente interessado no que acontece à sua volta. Diz-se que o contrário de amor não é ódio, mas indiferença. Se isso é verdade, o filho mais problemático do Seder não é o Rashá nem é o Tam; é o She’einó Yodea Lishol, o que não sabe perguntar. Para ele, o Judaísmo não significa nada. Nada tem contra, mas nada tem a favor da Torá. Ele está presente no Seder, mas nem se preocupa em discutir, argumentar, protestar ou questionar. O Judaísmo não o inspira nem o incomoda. Por que há judeus que nem se dão ao trabalho de perguntar? Talvez porque o único Judaísmo que estudaram foi totalmente irrelevante para sua vida. É bem possível que o filho que não sabe perguntar tenha chegado a frequentar uma sinagoga, mas sempre ouvia as mesmas prédicas repetitivas e não inspiradoras, e concluiu que o Judaísmo não era para ele. Tendo entendido quem é o quarto filho, podemos apreciar a sabedoria contida na forma como a Hagadá lida com ele – impondo-nos não meramente iniciar uma conversa com ele, mas lhe contar como D’us fez milagres “para mim, quando saí do Egito”. Em outras palavras, a Hagadá nos ensina que ao nos dirigirmos a alguém que é indiferente ao Judaísmo, não devemos falar sobre assuntos acadêmicos – tópicos

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complexos e teóricos, filigranas da Lei Judaica ou História Judaica da Antiguidade, mas sim, sobre D’us, a Divina Providência e o que a Torá representa para nós, pessoalmente e em nossos dias. A maneira de atrair o quarto filho ao Judaísmo é abrindo nosso coração e compartilhando com ele nossa jornada espiritual pessoal: o que D’us fez “para mim”. O quarto filho não quer ouvir sobre os milagres que ocorreram há mais de 3 milênios, mas sobre os milagres que ocorrem hoje, em nossos dias. Se os judeus não entenderem que D’us é uma Força presente e atuante em sua vida pessoal; se não virem a Torá pelo que é – a Sabedoria Divina; se a oração não os inspirar, alimentar e fortalecer... então é bem possível que muitos deles também se tornem filhos que não se interessam em perguntar. Muitos judeus perdem o interesse no Judaísmo porque se cansaram de frequentar uma escola judaica ou uma sinagoga onde têm que aguentar aulas ou prédicas maçantes e irrelevantes. Para inspirá-los, precisamos lhes ensinar como a Torá é a ponte entre o homem finito e D’us Infinito, e como é a fonte de luz que pode guiá-los neste nosso mundo tão conturbado. Devemos ensinar-lhes que D’us não apenas realizou milagres para nossos antepassados no Egito, mas que Ele faz milagres dia após dia, e que os temas do Seder de Pessach são contemporâneos e relevantes e se aplicam a todas as pessoas.

O Quinto e o Sexto Filhos Neste ensaio, compartilhamos ideias transmitidas por Sábios, de nosso passado e de nossos dias, sobre o que representam os quatro filhos do

Seder. Explicamos que nenhum deles é perfeito – nem mesmo o filho sábio. E é por isso que a Hagadá traz uma mensagem para cada um deles. Contudo e a despeito de suas falhas e desafios espirituais, todos os quatro participam do Seder – mesmo aquele que não se preocupa em questionar. O Rebe de Lubavitch ensinou que o verdadeiro problema não está em nenhum dos quatro filhos, mas com o quinto filho – aquele que nem mesmo participa do Seder. Cada um dos quatro filhos simboliza uma forma diferente de problema espiritual. O sábio é o dono da 11

verdade; o “malvado” é o rebelde; o Tam é passivo; e o que não sabe perguntar é desinteressado. Contudo, desde que eles venham ao Seder, é possível engajá-los em conversas e tentar influenciá-los. No entanto, se um filho nem mesmo vem ao Seder, não há então nem mesmo a possibilidade de tentar dialogar com ele. Ao falar sobre o quinto filho, o Lubavitcher Rebe costumava pedir aos judeus que tentassem chegar até essas pessoas e as convidassem para o Seder. Hoje, na Diáspora, a situação ficou ainda pior: hoje não temos abril 2018


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apenas um quinto filho, mas também um sexto. Enquanto o quinto filho não participa de um Seder, o sexto nem mesmo sabe que se faz o Seder. Infelizmente, há um excesso de sextos filhos. São tantos os judeus fora de Israel, inclusive aqui no Brasil, que não têm conhecimento algum sobre o Judaísmo; muitos deles nem mesmo sabem o que o Seder de Pessach representa. As estatísticas que seguem revelam a importância do Seder de Pessach para o Povo Judeu: 94% dos judeus que vivem em Israel participam dessa cerimônia. É muito maior o número de judeus em Israel que vão a um Seder do que o daqueles que jejuam em Yom Kipur ou vão à sinagoga em Rosh Hashaná. Isso porque o Seder celebra o nascimento e a independência do Povo Judeu. Talvez Pessach não seja tão sagrado como Yom Kipur nem tão alegre quanto Sucot, mas é a festa que celebra a origem de nosso povo. Antes do Êxodo, éramos uma família no Egito

– filhos de nosso patriarca Yaacov. Só nos tornamos uma nação quando D’us nos libertou da escravidão egípcia e nos deu a Torá, 50 dias depois, no Monte Sinai. Assim sendo, Pessach é, indiscutivelmente, a mais judaica dentre todas as nossas festas. Isso explica por que o quarto filho, aquele que não sabe perguntar – alguém que não liga para o Judaísmo – participa do Seder. Apesar de sua falta de interesse, algo dentro de si o força a comparecer. Enquanto ele está à mesa do Seder, mesmo que fique em silêncio, talvez esteja atento ao que a Hagadá tem a lhe dizer. De fato, a mensagem da Hagadá a cada um dos quatro filhos é simplesmente genial. No entanto, mesmo esse texto sagrado e brilhante não chega àqueles filhos que não estão presentes na mesa do Seder: o quinto e o sexto filhos. Não há mandamento maior no Judaísmo do que aproximar um judeu de D´us e de seu povo, sua história e sua religião, ajudando-o a 12

descobrir sua identidade e herança espiritual. O Talmud Bavli (Tratado Berachot, 3a) compara o exílio do Povo Judeu a filhos que já não sentam mais à mesa de seu pai. A Hagadá emprega a metáfora dos quatro filhos em torno da Mesa do Seder para nos ensinar que D’us deseja que todos os Seus filhos estejam próximos a Ele – mesmo o filho rebelde, o desligado e o desinteressado. A missão de cada judeu é, portanto, trazer todos os filhos, inclusive o quinto e sexto filhos, à Mesa de Seu Pai. Quando todos estiverem de volta, haverá salvação e redenção para os Filhos de Israel e para o mundo inteiro. Que isso possa se concretizar logo: bekarov be’yamenu. Amén, ken yehi ratsón.

Bibliografia:

Rabbi Y.Y. Jacobson - How to Address the Four Sons in our own Homes and Communities - https:// www.theyeshiva.net/jewish/2763


SABEDORIA

A GRANDEZA DE SER JUDEU por Rabino Jonathan Sacks

“Há muito tempo atrás, em um deserto árido, no sopé de uma montanha no Sinai, D’us transmitiu a um povo pequeno, fragmentado e obstinado, com nada que o pudesse distinguir especificamente, um “algoritmo”. Era chamado de Torá, e esse algoritmo fez deles o povo mais notável, tenaz e inconformado com seu destino como jamais se viu...”. Rabi J. Sacks Cúpula 2017 da OLAMI, Londres, 4 de janeiro de 2018

A

migos, vocês constituem um grupo muito especial e eu preciso confessar-lhes algo. Eu me perguntava por que razão Hashem havia arquitetado este encontro do grupo Olami, Olam Ha’Yehudi, o mundo judaico, aqui em Londres, às margens do Tâmisa. E, de repente, me dei conta de que devia ser pelo fato de que, não muito longe daqui, também às margens do Tâmisa, um homem que não era judeu – alguém que eu realmente queria que tivesse sido judeu – William Shakespeare, aqui esteve. Por isso, quero citar um verso de Shakespeare que julgo ser capaz de transformar a vida da pessoa. É um verso da peça Twelfth Night (Noite dos Reis), que vai diretamente ao âmago do que significa ser judeu. E ele diz: “Alguns nascem grandes. Alguns alcançam a grandeza. Mas alguns têm a grandeza imposta a eles...”. Desde jovem eu percebi que não nascera grande nem iria alcançar a grandeza; mas em certo momento de minha vida, na faculdade, percebi que se você é judeu, você tem a grandeza imposta a você.

considerado hoje o ancestral em termos de religião de 2,4 bilhões de cristãos, 1,6 bilhão de muçulmanos e ... alguns de nós, a maioria dos quais aqui reunidos esta noite. Esse homem não usava coroa, não reinava sobre nenhum império, não comandava nenhum exército poderoso, não realizava milagres nem profetizava – mas ele mudou o mundo com sua fiel determinação de atender ao chamado de D’us. Nós somos os descendentes de Moshé Rabeinu, a quem Jean-Jacques Rousseau, a inspiração da Revolução Francesa, intitulou “o maior legislador na história da humanidade”. Tenho que lhes contar algo. Tenho assento, hoje em dia, na House of Lords, Câmara dos Lordes; é difícil juntar um “minian”, como sabem aqueles que estão acostumados a ouvir meus discursos. Costumam me perguntar qual é melhor: a House of Lords ou a “house of the Lord” – a sinagoga, a casa do Senhor? E eu respondo: “Sempre prefiro a sinagoga, porque nela o rabino é o único a fazer o sermão. Na House of Lords, Câmara dos Lordes, todos fazem sermões”. Mas tenho que lhes contar que há um salão magnífico usado para os trabalhos do comitê, chamado de Moses Chamber, o aposento de Moshé. E quando meu predecessor, o saudoso Rabino Chefe Lord Jakobovits foi apresentado à Câmara dos Lordes, eles lhe disseram:

De que maneira? Como? Porque somos os herdeiros dos descendentes do homem mais influente que já existiu, Avraham Avinu, nosso Patriarca Avraham, 13

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SABEDORIA

“Congratulações. O Sr. é o primeiro rabino nesta Câmara”. Ao que o Rabino Chefe, apontando para o enorme quadro que cobre toda a parede, de Moshé Rabeinu trazendo os Dez Mandamentos do Monte Sinai, disse: “Não; ele foi o primeiro. Eu sou apenas o segundo”. Somos os descendentes de David Ha-Melech, não apenas o maior rei de Israel, mas o maior poeta religioso em toda a História. Somos os herdeiros dos profetas, dos primeiros críticos sociais do mundo, do primeiro povo a dizer a verdade aos poderosos. Quando Martin Luther King, no Memorial de Lincoln, em Washington, fez seu discurso “I have a dream”, “Eu tenho um sonho”, no auge desse discurso o que ele cita, palavra por palavra? Nada menos do que dois pessukim, dois versos de Isaías da Haftará do Shabat Nachamu. Somos seus herdeiros, e não apenas deles; mas em toda a História fomos inovadores no que quer que fosse, em qualquer disciplina, em Física, Ciências, Sociologia, ou com Durkheim e Levy-Strauss em Sociologia e Antropologia. Os judeus inventaram Hollywood. Os judeus inventaram a Psicanálise. Tirando-se Jung, todos os psicanalistas eram judeus. Mas nesse ponto eu sempre digo: se você não é judeu, para que Psicanálise??? Todos os grandes psicoterapeutas, ou quase todos, Viktor Frankl; Aaron Beck, o co-fundador da Terapia Comportamental Cognitiva; Martin Seligman... Trinta e seis por cento dos Prêmios Nobel em Economia, incluindo este último; os maiores músicos, de Arnold Schoenberg aos maiores poetas na música pop, o saudoso Leonard Cohen, Paul Simon e Bob Dylan, até chegar

a Sergey Brin da Google e Mark Zuckerberg do Facebook, e a maior invenção em tecnologia do mundo, chamada Waze, conhecida como Google Maps. Vocês sabem quantos casamentos o Waze salvou? Ou quantos casamentos desmoronaram porque ele disse a ela: “Por que você não olhou no mapa?”. E ela disse a ele: “Por que você não perguntou como se chegava lá? ”. Amigos, no mundo todo o Waze tem contribuído para o Shalom Bayit, a paz no lar... Digo-lhes algo mais. Os judeus não inovaram apenas uma única vez. Eles inovaram geração após geração. E apesar de que algumas das personalidades citadas não fossem especialmente religiosas, cada uma delas manteve aquela ideia essencialmente judia de que você transforma o mundo não pela ideia de poder, mas pelo poder das ideias – e isso é o que o judaísmo significa. Somos o povo cujos heróis são professores, cujas fortalezas são casas de estudo, cuja paixão é o estudo e a vida da mente. E este é o problema. Vejam: é por isso que cada um de vocês é importante, porque hoje há, que D’us nos proteja, por volta de 13 milhões de judeus. Isso é pouco, uma minoria. Mas esse não é o problema. O problema é que onde quer que se olhe, mundo afora, um em cada dois, e dois em cada três jovens judeus estão-se afastando do judaísmo. E isso dói. E lhes digo porque isso dói. Os judeus existem há muito tempo. Existimos há mais que o dobro do tempo do que o Cristianismo; ao triplo do tempo que o Islamismo. Lembro-me de quando eu era Rabino Chefe, eu e parte da Commonwealth Britânica costumávamos ser “Hong Kong” até que tivemos que devolvê-lo aos 14

chineses. Quando eu estive lá, sob domínio chinês, tive um encontro com o delegado de Beijing em Hong Kong, Sr. Tung Chee-hwa, primeiro governador, governador chinês de Hong Kong, um homem encantador que amava e admirava o judaísmo. Ele me disse: “Rabino Sacks, nós, chineses, sabemos que os judeus existem há longo tempo. Nós existimos há uns 5.000 anos. Vocês, há 6.000 anos. O que sempre quis saber é o que vocês faziam nos primeiros 1.000 anos, antes de existir delivery de comida chinesa casher???”. E eu lhe disse: “Sr. Tung, nos primeiros 1.000 anos nós vivíamos reclamando da comida...”. E é isso aí. Nós já existimos há mais tempo do que quase todos os povos. Estivemos espalhados em todos os países do mundo. Nesses países, conhecemos todo tipo de sorte, do apogeu do triunfo às profundezas da tragédia, e ainda assim, nunca antes na História Judaica tivemos duas coisas que hoje temos, simultaneamente: soberania e independência em Medinat Israel, e liberdade e igualdade na Diáspora. Houve épocas em que gozávamos de uma, mas nunca antes, das duas. E hoje, quando todas as orações de nossos avós e dos avós deles, há cem gerações atrás, quando cada uma dessas preces foi respondida, ... o que nós estamos fazendo? Estamos nos afastando... Isso é mau. Isso dói. E é por isso que quando eu estava na faculdade, eu dizia: “Não posso ser parte disto. Vou ser mais judeu, não menos”. Eu não pretendia, nem em sonho, ser rabino, mas tomei uma decisão, a de que não podia ser um daqueles que se afastam. E se vocês tomarem essa mesma decisão de serem mais judeus, não menos, juntos vocês mudarão o curso da História Judaica.


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rabino jonathan sacks na sinagoga beit yaacov, são paulo

Bem, mas vocês sabem, e eu também sei, que não é fácil ser judeu. Há todas aquelas leis, todo aquele estudo, todas aquelas restrições; a quem você pode desposar, o que você pode comer, quando você tem que descansar. Mas quero dizer-lhes algo. Sabem de uma coisa? Tudo hoje – foi meu neto que me explicou o que vou-lhes contar. [É por isso que temos netos...]. Meu neto me disse que “tudo hoje é um algoritmo”. O que é um algoritmo, isso eu não faço a menor ideia. Quando eu era pequeno, tínhamos “ritmo”, mas não tínhamos ainda o “algo”, do “algoritmo”, isso eu sei. E sei que sem o algoritmo você pode ter uma pequena livraria de bairro; mas se você tem o algoritmo, você vira uma Amazon. Mecanismo na Internet que possibilita a busca de informações.

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com. Havia milhares de mecanismos de busca (search engines1) antes do Google, mas você descobre que é um Larry Page e um Sergey Brin e você descobre o algoritmo certo... e aí você pode mudar o mundo. Há muito tempo atrás, em um deserto árido, no sopé de uma montanha no Sinai, D’us transmitiu a um povo, um povo pequeno, fragmentado e obstinado, com nada que o pudesse distinguir especificamente... e Ele lhes transmitiu um algoritmo. Era chamado de Torá, e esse algoritmo fez deles o povo mais notável, tenaz e inconformado com seu destino como jamais se viu no mundo. Como isso funciona, não lhes sei dizer. Mas sei que funciona, isso sim. E vocês estão para embarcar num futuro; cada um de vocês tem sonhos e planos; e estão para entrar em um futuro no qual nada é previsível; o mundo está mudando mais rápido do que nunca, e essa rapidez aumenta a cada ano; e vocês vão 15

precisar de certas forças para se sair bem, prosperar e ter sucesso. Quero contar-lhes por experiência própria o que esse algoritmo de Torá fará em sua vida. Em primeiro lugar, fortalecerá todos os seus relacionamentos importantes. Não há casamentos mais sólidos do que entre os judeus religiosos. Ninguém tem sentimentos de comunidade mais fortes do que os judeus. Ninguém tem o mesmo senso de responsabilidade coletiva que têm os judeus, no mundo todo, pois “Kol Yisrael Arevim Zé Ba’zé” – Todos os judeus são responsáveis uns pelos outros. Shimon bar Yochai disse: “Quando um judeu está ferido, todos os judeus sentem sua dor”. Ninguém tem relacionamentos como os nossos. Creiam-me. Sozinhos, vocês não conseguirão viver e encontrar felicidade e sucesso. Todos os estudos demonstram que seu sucesso e sua felicidade dependem da intensidade e qualidade desses relacionamentos abril 2018


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– e isso é a primeira coisa que o judaísmo fará por vocês. Em segundo lugar, o sucesso depende de hábitos de disciplina e força de vontade. A Halachá, a Lei Judaica, é o maior “seminário ininterrupto”, no mundo, sobre disciplina e força de vontade. Tentem levantar da cama, cedo, todo dia, para as rezas de Shacharit, e verão que qualquer outro desafio parece fácil... Terceiro: se vocês quiserem evitar um esgotamento, um burnout, no meio de sua carreira, devem descobrir e guardar o Shabat, melhor seminário do mundo sobre equilíbrio entre trabalho e lazer. Uma moça que trabalha no Vale do Silício me contatou e disse: “Rabino Sacks, estou preocupada que todos os nossos filhos são viciados em smartphones. Esses aparelhos estão arruinando suas habilidades sociais; estão destruindo sua capacidade de atenção. Já não conseguem se concentrar. Então, na minha casa, nossa família decidiu ter um dia “livre de telas”, por semana. Nada de smartphones, laptops, iPads”. E ela continuou: “O Sr. vai adorar o nome que demos para esse dia... Shabat!”. Esse é o poder do Shabat, em nossos dias. No tempo de Moshé, era um dia livre da escravidão do Faraó. Hoje, é a liberdade da tirania da mídia social e do e-mail. Em quarto lugar: felicidade é uma questão de gratidão com atitude. Se você é judeu, viva como judeu. Quais são as primeiras palavras que dizemos pela manhã? Modê Ani. Você agradece antes mesmo de pensar. Vivendo dessa forma você terá uma vida inteira de satisfação. Tosafot – comentários medievais do Talmud.

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Olhem, isso faz você estudar e crescer durante a vida toda. Sexto: qualquer coisa que você fizer na vida, exigirá que você tenha um código interior de moral. Nos últimos anos, nas últimas semanas, temos visto como alguns dos empresários mais importantes, alguns dos maiores produtores de Hollywood conseguem - Rachmanu Yitzlan, que D’us não o permita – acabar vergonhosamente com sua carreira. E por quê? Porque achavam que poderiam sair impunes. Nunca se pode. Precisamos daquela voz interior que nos diz “não!”. E é isso o que o judaísmo lhe ensina. escola beit yaacov, sp

Quinto: o judaísmo manterá sua mente ativa durante a vida toda, porque ser judeu tem que ser um momento de aprendizado contínuo e vitalício. Vou lhes contar algo: Há muitos anos, fui levado, às pressas, ... [Desculpa. Desculpa. Obrigado... A Siri acabou de fazer uma objeção ao que eu disse... Em Tosafot2 aparentemente a explicação é de outra forma. Obrigado, Siri, eu não sabia que você também era judia. Continuando, há 20 anos fui levado às pressas para o hospital, com um problema grave que eu desconhecia.... Imaginem, fui levado direto do consultório do médico para o hospital; fui submetido a uma cirurgia e salvaram minha vida. Quando eu voltava da anestesia, quase desperto, alguém bate à porta do quarto. Era um judeu de 80 anos, com um volume da Guemará debaixo do braço, que me diz: “Ah, ouvi dizer que o Sr. estava aqui, Rabino Sacks. Pensei que talvez pudéssemos estudar Guemará juntos”. Bem, eu estava tentando morrer e ele querendo estudar Guemará.... 16

Sétimo: Para ser feliz, ter sucesso, ter resiliência é preciso um sentimento de identidade; é preciso saber quem se é, e de que história se faz parte. Não somos um átomo livre e independente, solto no espaço e carregado ao sabor do vento. Ser judeu é ser parte da maior história da terra. Esses sete pontos não farão uma pequena diferença em sua vida; eles farão toda a diferença em sua vida. Todos eles são parte daquele algoritmo notável que fez dos judeus o povo mais resiliente, criativo e transformador que o mundo já conheceu. E sim, podemos não ter nascido grandes, podemos não ter alcançado a grandeza, mas se somos judeus temos a grandeza imposta sobre nós. E, sim, é difícil ser judeu; requer esforço e dedicação e vontade; mas são as coisas difíceis que nos fazem fortes, são as coisas difíceis que não dão orgulho; são elas que nos fazem sentir-nos mais intensamente vivos. Amigos, quero terminar com uma história; uma curiosa historinha. Algum de vocês já ouviu falar de um escritor chamado Dan Brown?


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O Sr. Código da Vinci? Ele acaba de escrever um best-seller chamado Origin. Alguém já o leu? É o bestseller da moda. Não farei aqui o que o IMDb3 chama de spoiler4, mas vou lhes dizer o seguinte. Trata-se de uma descoberta revolucionária sobre a origem da vida, e o autor menciona o nome de uma figura da vida real, um jovem e brilhante físico do MIT chamado Jeremy England, que descobriu uma maneira de explicar como foi que a vida se iniciou. Dan Brown também cita outro físico – vocês verão isto se procurarem por Jeremy England na Wikipedia – outro grande cientista de nossa era, que diz: “Se England estiver certo, ele poderá ser o próximo Charles Darwin”. Bem, Dan Brown quer provar, a partir dessa teoria, que não é necessário acreditar em D’us para explicar a origem da vida. Vou dizer-lhes o que é fascinante nisso. O verdadeiro Jeremy England, pois ele existe, respondeu o seguinte a Dan Brown em um artigo no The Wall Street Journal, há poucas semanas: “Dan Brown, não me use para refutar D’us porque eu creio em D’us”. Jeremy England cresceu como judeu secular, não praticante. Aos 20 anos de idade, ele tomou uma decisão: “Vou me tornar um judeu religioso”. Hoje ele vive e pratica o judaísmo com a crença de um judeu ortodoxo. E eu tenho que lhes dizer que para mim isso é um momento de pura poesia. Por quê? Porque um dos maiores

Internet Movie Database (ou Base de Dados de Filmes na Internet) - uma base de dados online de informação sobre música, cinema, filmes, programas e comerciais para televisão e jogos de computador, atualmente pertencente à Amazon.com. 4 Spoiler (na mídia), é a revelação antecipada do enredo de filmes e livros. 3

eventos no mundo moderno foi a descoberta da seleção natural por Charles Darwin e seu consequente abandono, da religião. Hoje, o “próximo Charles Darwin” fez uma descoberta, possivelmente tão grande quanto a da seleção natural, e encontrou a religião, e encontrou sua fé como judeu crente e praticante. Acredito que isto seja um ato de Kidush Hashem, de Santificação do Nome de D’us. E lhes contei esta história para mostrar que uma decisão como essa pode mudar sua vida e ajudar, de alguma maneira, a mudar o mundo. O físico Jeremy England tomou essa decisão quando tinha a idade de vocês. Eu tomei essa decisão quando tinha a idade de vocês; e agora vocês precisam tomar essa decisão. Transformem-se e vocês começarão a transformar o mundo. Eu lhes prometo que daqui a alguns anos, olharão para trás e dirão que essa foi a melhor decisão de sua vida. Aproveitemos, juntos, este momento único de independência 17

e soberania de Medinat Israel, de liberdade e igualdade na Diáspora, e vivamos, realmente orgulhosos, como judeus, fieis à nossa fé, como uma bênção aos demais, independentemente de sua religião. E, juntos, vamos transformar o mundo!

Palestra proferida em 4 de janeiro de 2018 na reunião anual de cúpula da organização OLAMI. Presentes mais de 1.400 líderes judeus jovens, de mais de 100 organizações em mais de 20 países, com a presença do Sr. Naftali Bennett, Ministro para Assuntos da Diáspora de Israel. Tradução: Lilia Wachsmann

Rabino Lorde Jonathan Sacks Foi Rabino Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth e presidente do Beth Din de 1991 a 2013. Desde 2009, membro da House of Lords. Atua, hoje, como Professor de Pensamento Judaico na New York University e na Yeshiva University e Professor de Direito, Ética e Bíblia no King’s College de Londres.

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ISRAEL - 70 ANOS POR Zevi Ghivelder

Queiram os historiadores ou não; queiram os acadêmicos ou não; queiram os cientistas políticos, analistas, jornalistas e intelectuais ou não; queiram os antissemitas ou não; queiram os antissionistas ou não, mas o ressurgimento de um Estado Judeu em sua terra de origem foi um dos mais extraordinários acontecimentos históricos de todos os tempos.

O

parágrafo acima não é uma calorosa exaltação em busca de aplauso, mas o rigor de uma sóbria verdade. Agora, quando o Estado Israel celebra os primeiros 70 anos de sua soberania, identificado com judeus mundo afora, deve-se tecer uma importante consideração. De todos os países que foram criados no planeta depois da 2ª Guerra Mundial, nenhum deles, nenhum mesmo, com pouco mais ou pouco menos de 70 anos de existência, alcançou como Israel um nível tão elevado na economia, na infraestrutura civil e militar, em múltiplas ciências, na tecnologia e na informática, nas artes e na cultura, na igualdade de gêneros, no bem-estar social e na prática da democracia.

de cem anos atrás. Trata-se de uma carta elevada à condição de documento, tanto assertiva quanto evasiva, mas que causou impacto por dar legitimidade ao incipiente movimento sionista e, assim, promover a sua inserção no cenário internacional. Por isso até hoje suscita polêmicas, quase sempre redundantes. A terceira fundação se assentou na declaração também centenária, da partilha da antiga Palestina, em 1947, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, nessa crucial etapa ocorreu uma ainda irreparável fissura. Os países árabes rejeitaram a resolução. Impediram que os palestinos residentes no território que lhes caberia criassem seu próprio estado independente e, dessa maneira, deram origem ao conflito que há 70 anos perdura entre eles e Israel.

Conforme se procede em toda sólida construção, a recriação do Estado Judeu contou com fundações e pilares, sendo estes constituídos por ações individuais e coletivas. A primeira fundação para o erguimento da morada ancestral do povo judeu foi fixada em agosto de 1897 quando da realização do Primeiro Congresso Mundial Sionista, na Suíça, sob a liderança de Theodor Herzl. A segunda fundação corresponde à emissão pelo império britânico da Declaração Balfour, de mais

Nos pilares individuais avulta um homem excepcional e inigualável: Eliezer Ben Yehuda. Nascido Eliezer Perelman, na Lituânia, em 1858, ele foi o artífice do renascimento do idioma hebraico, naquele tempo restrito aos rituais litúrgicos. Sionista ardente desde a juventude, formulou um conceito tão simples quanto imbatível: se o sionismo de fato viesse a resultar numa nova nação judaica, era imperativo que incorporasse à sua ideologia um novo idioma, ou 18


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Tel Aviv

seja, o hebraico, antigo idioma dos patriarcas, profetas e reis do povo de Israel. Com vinte anos de idade, Ben Yehuda foi para Paris com a finalidade de estudar medicina. Porém, contraiu tuberculose e foi obrigado a abandonar a faculdade, ao mesmo tempo em que se juntou a um grupo de jovens sionistas. Ao lado deles e junto com a mulher partiu para a antiga Palestina em 1881. Instalou-se em Jerusalém e em sua casa só se falava hebraico. Seu filho, mais tarde o escritor Itamar Ben Avi, foi a primeira criança daquela época a ter o hebraico como idioma materno, fora poucos descendentes de antigas gerações de judeus que jamais emigraram da Terra Santa. Ao lado de outros intelectuais, Ben Yehuda fundou uma sociedade chamada Tehiat Israel (Renascimento de Israel) cujo ideário tinha uma consistente

visão do futuro para a nova nação: expansão das atividades agrícolas, expansão da população produtiva, criação de raízes literárias a partir do ressurgimento do idioma hebraico,

Jovens de Jerusalém, celebram a decisão da ONU de criar um Estado Judeu, novembro de 1947

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estímulo às pesquisas científicas e uma postura política tão nacional quanto universal. Ele começou a trabalhar na elaboração de um dicionário hebraico, mas foi expulso de Jerusalém pelas autoridades turcas, como um “inimigo nacional”, ao eclodir a 1ª Guerra Mundial. Passou um ano nos Estados Unidos e regressou à Palestina em 1919. Participou, então, da criação da Academia da Língua Hebraica destinada a formular palavras em hebraico que se adaptassem às modernidades do cotidiano. No ano seguinte avistou-se com Sir Herbert Samuel, Alto Comissário britânico para a Palestina, convencendo-o de que a Palestina deveria adotar três línguas oficiais: inglês, árabe e hebraico. Essa proposta consumou-se num decreto dois anos depois. Nesse tempo Ben Yehuda trabalhava ABRIL 2018


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dezoito horas por dia em seu “Dicionário de Hebraico Antigo e Moderno” que foi concluído por sua viúva e seus filhos, sendo publicado em 1959 com um total de 17 volumes. No prefácio do dicionário, escreveu: “É como se os céus se tivessem subitamente aberto; uma luz brilhou perante meus olhos e uma poderosa voz interior me disse que haveria uma nova língua numa nova pátria”. Sua obsessão frutificou após cerca de 30 anos, chegando ao ápice de S.Y. Agnon, escritor no idioma hebraico, ter sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1966. Eliezer Ben Yehuda faleceu no dia 16 de dezembro de 1922, em Jerusalém. Um dos pilares coletivos da recriação de Israel tem como protagonista o ishuv, ou seja, os judeus que se radicaram em Eretz Israel (Terra de Israel) ou ali nasceram durante a ocupação otomana ou no Mandato Britânico, e antigos residentes. Um relatório publicado pela autoridade imperial inglesa, datado de 1922, é da maior relevância: “Durante as últimas duas ou três gerações os judeus criaram uma

David Ben Gurion assinando a declaração de Independência , maio de 1948

comunidade composta por 80 mil habitantes, dos quais um quarto se dedica às atividades agrícolas. Esta comunidade tem suas próprias instituições: uma assembleia que trata dos assuntos internos; conselhos eleitos em quase todas as cidades; um Rabino Chefe incumbido das questões religiosas junto com conselhos rabínicos regionais; um órgão controlador das escolas; os negócios são conduzidos no idioma

Multidões aguardam a parada militar , Tel Aviv. Julho de 1948

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hebraico; há veículos de imprensa no mesmo idioma e um intenso movimento intelectual. A atividade econômica desta comunidade é crescente”. O ishuv se dividia informalmente em duas entidades que atuavam em conjunto. De um lado, os responsáveis eleitos para a administração pública com a tarefa de preservar e ampliar a ordem social e econômica. De outro, a Organização Sionista inserida no âmbito da Agência Judaica, oficialmente reconhecida pelos mandatários como a única representante dos judeus da Palestina. Ambas tinham como objetivo o renascimento da nação judaica. Na verdade, naquela quadra dos acontecimentos, os judeus já sedimentavam a estrutura de um país mesmo sem possuir um país. O ishuv se configurava como uma democracia parlamentar, abrigando uma assembleia nacional eleita para um mandato de quatro anos. Essa eleição estendeu o direito de voto às mulheres, uma raridade no mundo da segunda década do século 20. Havia também um poder executivo e um sistema judiciário. Este surpreendente cenário de organização social e econômica continha radicais controvérsias políticas que, de forma esquemática, podem ser rotuladas como esquerda, centro e direita, a par de um bloco religioso. Essas controvérsias permaneceram até a recriação de Israel e se desenvolvem até os dias atuais nos mesmos formatos e intensidade. Dentre os legados do ishuv, um dos mais importantes é a fundação, em 1920, da Histadrut, a Federação dos Trabalhadores Judeus da Palestina, depois dos Trabalhadores de Israel. Com quase cem anos de idade é uma das organizações sindicais mais


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1. Inauguração do primeiro aeroporto internacional, Aeroporto Internacional de Lydda. Novembro 1948 2. Chegada de imigrantes no navio Atzmaut, (Independência ), 1949 3. Visitantes cumprimentam o Presidente Chaim Weizmann, na presença do Ministro do Exterior Moshe Sharett. Maio 1959

bem-sucedidas do mundo em função da abrangência de suas atividades. Outro pilar coletivo muito importante corresponde à equipe de agentes do ishuv que ocupou diversos aposentos de um hotel situado no número 60 da rua 14 Leste, em Nova York. Era um grupo de rapazes empenhados na tarefa de comprar armas e munições para o estado que seria criado. Contido, tratava-se uma operação secreta, obrigada a despistar o FBI, porque a legislação americana aceitava vender equipamentos excedentes da 2ª Guerra Mundial, porém proibia que fossem destinados a quaisquer outros países. Entre sustos sofridos por causa da vigilância das autoridades americanas e missões bem finalizadas, a ação desses agentes do “Hotel 14”, conforme chamavam seu quartel-general, foi fundamental para abastecer o futuro exército de Israel. A par do que ocorria em Nova York, um homem extraordinário, chamado Al (Adolf ) Schwimmer, agia na Califórnia. Nascido no Brooklyn, Nova York, em 1917, foi piloto da Força Aérea dos Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial. Judeu convicto, procurou por iniciativa própria o pessoal do “Hotel 14”. Custou a ganhar a confiança dos agentes até conseguir convencêlos de que o novo país não teria chance alguma de combater os

árabes se não contasse com um mínimo de capacidade militar no ar. Foi mandado para a Califórnia onde, após artimanhas e superando complicadas burocracias, comprou antigos aviões de diversos portes. Em seguida, recrutou um grupo de pilotos judeus, também veteranos de guerra, e cumpriu a proeza, contrariando as leis americanas, de fazê-los voar primeiro para o México, uma escala no Panamá, outra escala e reabastecimento no aeroporo de Natal, no Brasil, novos reabastecimentos na África e na Europa, até concluir a viagem em Lidda, perto de Tel Aviv. A ação de Schwimmer resultou nos primórdios da Força Aérea de Israel, que cumpriu missões decisivas para assegurar a vitória judaica na Guerra da Independência, com destaque para uma delas, em julho de 1948, quando os pilotos de Schwimmer dizimaram uma coluna de blindados egípcios que se aproximava de Tel Aviv. Al Schwimmer regressou para os Estados Unidos no ano seguinte. Foi acusado como transgressor do Ato de Neutralidade Americano, por ter contrabandeado aeronaves para fora do país. Teve cassado seu direito de voto, dos benefícios como veterano de guerra e condenado a pagar uma multa de 10 mil dólares, mas sem pena de prisão. Sugeriram-lhe que tudo seria relevado se pedisse um 21

perdão oficial ao presidente. Ele se recusou. Disse que, como judeu, ajudar a criação do Estado de Israel era uma obrigação moral; quanto ao contrabando, argumentou que se tratava de uma desobediência civil também baseada em princípios morais. Em 1950, voltou para Israel atendendo a um chamado de Ben Gurion que o incumbiu de instalar a Israel Aerospace Industries (Indústrias Aeroespaciais de Israel), até hoje uma referência mundial nessa modalidade. Schwimmer foi o diretor-executivo desta empresa durante meio século e, nos anos 1980, atuou como conselheiro industrial e de tecnologia do primeiro-ministro Shimon Peres de quem se tornou íntimo amigo. Em 2001, recebeu um perdão oficial do presidente Bill Clinton e, em 2006, o prestigioso Prêmio Israel. Faleceu em 2011, aos 94 anos de idade, em sua residência em Ramat Gan. Se a expressão “pai da pátria” deixar seu conceito abstrato e buscar um exemplo concreto, há de encontrá-lo de sobra na figura de Al Schwimmer. No dia 13 de maio de 1948, Ben Gurion estava reunido em Tel Aviv com seu Estado Maior, o Conselho responsável pelos destinos do futuro país. Seus integrantes estavam acabrunhados por causa do massacre sofrido pela população judaica da localidade de Etzion. Ben Gurion, entretanto, foi enfático: ABRIL 2018


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Irrigando o deserto

“A catástrofe de Etzion não me abala. Eu já esperava derrotas e receio que ainda enfrentaremos maiores dificuldades. Tudo mudará quando conseguirmos derrotar a maior parte da Legião Árabe. É pelas armas que resolveremos todos os problemas”. Parecia um exagero, mas aquelas palavras empolgaram o Conselho, pessimista em face da evidente fragilidade da força militar

com que contavam. Em seguida surgiram indagações cruciais. Onde e como proclamar a independência? No palco e plateia do Teatro Habima ou no Museu de Tel Aviv? Alguém disse que embora o Habima fosse maior, o local oferecia pouco sigilo e pouca segurança. Optouse pelo Museu. Mas, qual seria o nome do país? Como seria redigida a declaração de independência?

GENERAL ARIEL SHARON E O MINISTRO DA DEFESA MOSHE DAYAN FESTEJAM A PASSAGEM PELO CANAL DE SUEZ nos primeiros 10 dias da guerra de Yom Kipur

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Alguns membros do Conselho propuseram Estado Judeu. Outros, simplesmente Sion. Até que houve consenso: Israel. Seguiu-se outro debate: como incluir as fronteiras do novo país na declaração, já que estas ainda estavam indefinidas? Mais uma vez prevaleceu a voz de Ben Gurion: “Leiam a declaração de independência dos Estados Unidos. Verão que nela não há uma só alusão a fronteiras territoriais. Depois que derrotarmos os árabes poderemos precisar nossas fronteiras”. Na votação referente à questão das fronteiras, cinco conselheiros foram contra a definição, quatro a favor e quatro se abstiveram. A reunião terminou de madrugada, ficando decidido que um pequeno grupo, liderado por Moshe Sharret, se encarregaria de redigir a declaração. Neste mesmo dia 13 de maio, enquanto os mandatários ingleses fechavam suas bagagens para uma viagem sem retorno, a população de Tel Aviv era uma só ansiedade por conta das expectativas desdobradas nas semanas recentes e sem saber como, quando e aonde começariam os preparativos para o histórico evento da proclamação da independência. Sabia-se, tão somente, que aconteceria assim que o último militar inglês deixasse o porto de Haifa. Havia um grande sentimento de pressa por causa de um prazo fatal: o Shabat (sábado sagrado) no entardecer do dia seguinte. Os convites para a cerimônia começaram a ser distribuídos por mensageiros na manhã do dia 14, sendo endereçados a entidades e instituições, sem menção a pessoas: “Temos a honra de convidá-lo para assistir à cerimônia da declaração de Independência que será realizada no dia 5 de Yiar de 5708 (14 de maio de 1948), às 16 horas, no salão


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do Museu de Tel Aviv, Boulevard Rothschild, número 16. Pedimos que mantenha em sigilo o conteúdo deste convite quanto à hora e ao local. Os convidados deverão estar no Museu às três e meia da tarde. Atenciosamente, o Secretariado. Este convite é pessoal. Traje: social escuro”. O secretariado era na verdade um só secretário, Zeev Sharef, diretor administrativo da Agência Judaica. Em condições normais o convite deveria ser assinado por Ben Gurion, mas o tempo era exíguo. Ben Gurion não gostou do texto que lhe foi submetido pelo grupo de Sharret. Achou que aquele primeiro rascunho se perdia em excessos de diplomacia e ele preferia algo mais contundente, mais conciso e mais objetivo. Fez as alterações que julgou necessárias e mandou o texto para Zeev Sharef, recomendando que fosse feito um bom número de cópias para serem posteriormente entregues à mídia. Mas, não era possível guardar um segredo de tal magnitude. Os jornais matutinos do dia 14 publicaram que a Kol Israel, emissora oficial de rádio, transmitiria a sessão da independência ao vivo, às quatro da tarde. A polícia começou a isolar a cercania do Museu uma hora antes. Isto serviu para atrair a curiosidade da população que ali logo começou a se aglomerar. De manhã cedo, Sharef havia convocado o designer Abraham Rifkind que, dois anos antes, tinha preparado um salão na Basiléia para a realização do 22o Congresso Mundial Sionista. Rifkind revelou numa entrevista, anos depois, que a sua primeira ideia era que a declaração fosse escrita num rolo de pergaminho, tal como a

Torá. Para isso buscou um escriba na comunidade ortodoxa de B’nei Barak, mas este declinou, dizendo que não daria tempo de terminar até as quatro da tarde porque cada vez que escrevesse o nome de D’us seria obrigado a cumprir o ritual de se levantar e lavar as mãos. Em seguida, Rifkind chamou um artista plástico seu amigo, deu-lhe uma sofrida quantia em dinheiro, para que ele comprasse os materiais e

Eram panos brancos com duas linhas paralelas em azul e, no meio, uma estrela de David da mesma cor. Não eram bandeiras oficiais porque a verdadeira só foi adotada pelo governo em outubro do mesmo ano. Aquelas ali confeccionadas se destinavam a cobrir esculturas e pinturas com nus artísticos, pouco apropriados para o local e para a ocasião. Enquanto isso, Rifkind procurava um pergaminho no qual

Rabin e Peres, adversários políticos e parceiros na construção do Estado de Israel

elaborasse adereços condizentes com a solenidade que aconteceria no salão do Museu. Recomendou que o amigo não comprasse tudo numa só loja, para não levantar suspeitas. No Museu os funcionários foram dispensados com ordem para regressarem às 15 horas, sem terem a menor noção do que iria acontecer. No salão, o artista contratado trabalhava com um carpinteiro, um pintor e também decorador, uma costureira e uma faxineira para polir o assoalho. De início, mandou fazer bandeiras de diversos tamanhos. 23

seria escrita a declaração e uma fotografia de Herzl que deveria ser colocada acima da mesa principal. Encontrou numa loja da Rua Dizengoff, onde encontrou um papel sintético, tipo pergaminho, que parecia genuíno e deu-se ao preciosismo de levá-lo para análise no Instituto de Padrões. Só sossegou quando lhe garantiram que o papel poderia durar alguns séculos. Obteve fotografias em tamanho pequeno de Herzl e a maior de todas, em bom estado, carecia no seu entender de ABRIL 2018


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SOLDADOS FESTEJAM A LIBERtAÇÃO DE JERUSALÉM, 1967

imponência. Assim, mandou fazer uma grande moldura negra de modo a aumentar a percepção visual da fotografia. O pergaminho contendo o texto da declaração estava nas mãos de Sharef no escritório da entidade Keren Kayemet, em Tel Aviv, de onde ele providenciava táxis para os líderes sionistas que deveriam comparecer à cerimônia. Só se esqueceu dele mesmo e da mulher que o acompanhava.

força Aérea de Israel, segurança nos ares

Os dois ficaram isolados no meio de uma rua e sem a menor chance de obter uma condução. Aflito, procurou um policial e pediu-lhe que parasse um táxi. Um motorista obedeceu, mas se recusou a transportar o casal: “Desculpe, mas eu tenho que estar em casa às quatro horas para ouvir no rádio a declaração da Independência”. Ao que Sharef respondeu: “Se você não nos levar até o Museu não vai ouvir nada porque a declaração está aqui comigo”. O taxista partiu em disparada e, como sempre, nessas horas os contratempos se acumulam. Por causa do excesso de velocidade, um policial mandou o táxi parar e já ia aplicar a multa quando Sharef se deu conta da poderosa realidade que Eretz Israel estava vivendo naquele momento: “Os ingleses foram embora e aqui ainda não há um governo. Quem vai cobrar essa multa?” Pouco antes das quatro da tarde, dezenas de automóveis começaram a afluir ao Museu, com prioridade para os signatários da declaração, entregue por Sharef a Ben Gurion, o último a chegar, acompanhado da 24

mulher, Paula. Mostrava impetuoso vigor a caminho de 62 aos de idade, a serem completados em outubro. Foi saudado por aplausos das pessoas junto ao Museu. Por causa do sol forte e dos flashes dos fotógrafos, Paula tropeçou na escada e caiu, machucando a vista. Por isso passou todo o tempo da cerimônia com um copo de água gelada na mão e nele mergulhando um lenço que, em seguida, levava ao olho direito. Às 16 horas em ponto, Ben Gurion começou a ler a declaração. Foram 17 minutos no decorrer dos quais leu 979 palavras no idioma hebraico. Em seguida, chamou o rabino Yehuda Fishman, de 74 anos, trazido de Jerusalém para Tel Aviv, num pequeno avião, porque a estrada entre as duas cidades já estava bloqueada pelo exército da Jordânia. O rabino recitou, embargado pela emoção: “Bendito seja D’us, Rei do Universo, que nos manteve, nos conduziu e nos trouxe até este dia”. Finda a oração, Ben Gurion anunciou o primeiro decreto que seria emitido pelo novo país: estava anulado o White Paper, o documento de 1939 que impedia a entrada de judeus na sua própria terra. Tinha acabado de renascer, com plena soberania, o Estado de Israel, pátria dos judeus. As manifestações de júbilo exalavam por todo o país, mas Ben Gurion sequer sorria. Avaliava o débil potencial militar de que a nova nação dispunha e cedia ao pessimismo. À noite, em casa, disse para Paula: “Sou um consternado entre os exultantes”. Em seus 70 anos de vida, entre conflitos menores e nem por isso desprezíveis, Israel enfrentou duas grandes guerras que traumatizaram o país: a dos Seis Dias, em 1967, e a do Yom Kipur, em 1973. Sobre a Guerra dos Seis Dias circulam dezenas


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de livros e milhares de ensaios, entrevistas e reportagens. Há uma corrente de analistas, jornalistas e escritores que sustentam que este conflito mudou o perfil sociológico do país, na medida em que os israelenses tomados pela euforia da vitória em três frentes de batalhas e em tão pouco tempo, passaram a se superestimar e até mesmo a cultivar arrogância. É pouca verdade. Cheguei a Israel no sétimo dia da guerra, no primeiro voo que partiu de Paris para Tel Aviv. Presenciei, sim, grandes manifestações de alegria dos soldados que voltavam para suas casas nos mais diversos veículos militares. Vi bandeiras de Israel ornamentando fachadas, janelas e varandas em Tel Aviv e Jerusalém. Porém, também vi os jornais com dezenas de páginas de anúncios fúnebres, nos quais mulheres choravam as mortes de maridos, pais choravam as mortes de filhos e filhos choravam as mortes de pais. Vi, também, o país inteiro angustiado com o pidion shvuim, o resgate dos prisioneiros de guerra. O povo judeu de Israel não havia perdido seu senso de humanidade e solidariedade. Fiz a cobertura jornalística da Guerra do Yom Kipur, que praticamente acompanhei desde o início, tendo permanecido, então, 40 dias em Israel. Como Ariel Sharon, general de carreira e depois primeiro-ministro, ainda é uma personalidade controvertida, as paixões ideológicas, tanto dentro como fora de Israel, relutam em conferir-lhe o papel vital que ele desempenhou naquele conflito. Não é exagero afirmar que Sharon salvou Israel de uma catástrofe, quando atravessou com suas tropas o canal de Suez e se posicionou na direção do Cairo depois de capturar a cidade egípcia de Suez. Aquele foi

Bandeiras de israel hasteadas em jerusalém

o momento de maior perigo vivido pelo Estado de Israel desde a sua fundação. A propósito da travessia do canal de Suez, tomei conhecimento dessa audaciosa manobra militar através do porta-voz do exército com o qual mantinha bom relacionamento. Ele me disse que não divulgaria a notícia de imediato porque ainda lhe faltavam dados mais precisos e deu-me um conselho: “Vá até o Hospital Hadassah, em Jerusalém, para onde foram levados soldados feridos na travessia. Conversando com eles, você terá uma boa ideia de como tudo aconteceu”. Na mesma hora rumei para o Hadassah, onde fui recebido pelo diretor de relações públicas que me abriu todas as portas para as entrevistas que precisava fazer. Eu já estava para ir embora, por volta de seis horas da tarde, com pressa para escrever a matéria, quando aquele funcionário me parou: “Espere um pouco porque o Danny Kaye está vindo aqui para entreter os soldados”. O grande comediante e astro do cinema chegou visivelmente cansado 25

porque já tinha estado em outros hospitais, de norte a sul do país, cumprindo a missão voluntária de levantar o moral dos militares fora de combate. Minha adolescência tinha sido enriquecida pelos filmes estrelados por Danny Kaye (verdadeiro nome Daniel Kaminsky nascido no Brooklyn em 1911) e foi emocionado que apertei sua mão. Passei a percorrer o hospital ao seu lado. Ele parava junto a um leito onde havia um soldado ferido e dizia: “Vou falar com teu médico para te mandar para casa depois de amanhã”. Ou então, para outro: “Quando você tirar essa bandagem da cara vai ficar irresistível”. Até que paramos junto a um leito no qual estava deitado um rapaz de uns vinte anos, sem o braço direito e sem a metade da perna esquerda. No primeiro momento, era uma visão tão dolorosa, que o Danny Kaye não soube o que dizer. Foi o jovem quem falou: “Danny Kaye, que grande surpresa! Você é um artista que eu adoro! Desculpe, mas sou obrigado a lhe dar a mão esquerda”. ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

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nossas leis

Os Quatro Guardiães: Um Estudo Talmúdico Na porção de Mishpatim, no Livro de Shemot (Êxodo), a Torá apresenta as leis dos Quatro Shomrim – os Quatro Guardiães. O Shomer é aquele que é responsável por guardar a propriedade de outro.

A

Torá menciona sucintamente as leis dos Quatro Guardiães, ao passo que um dos Tratados do Talmud Bavli, Bava Metzia, discute-as e elucida: “São quatro os guardiães: o não remunerado, o mutuário, o remunerado e o locatário. O guardião não remunerado jura (sua inocência) e é completamente isento, desobrigado. O mutuário paga integralmente. O guardião remunerado e o locatário juram e ficam isentos de culpa pelo animal que quebrou a perna ou morreu, mas eles pagam se o animal for perdido ou roubado” (Mishná, Bava Metzia 93a).

compreensível: o mutuário recebe algo que pertence a um terceiro, em seu próprio benefício, sem pagar ou retribuir por isso. A Torá espera que ele devolva o que tomou emprestado – um objeto (ou animal) – intacto e sem danos. Se, enquanto estiver sob sua guarda, a propriedade tomada por empréstimo for danificada, perdida ou arruinada, o tomador deve substituí-la ou compensar pelo seu valor. Não importa a forma pela qual a propriedade foi danificada ou perdida. Também é irrelevante se estava ao alcance do tomador evitar essa perda ou dano. Ainda que o dano ou perda tenha sido causado por um raio ou terremoto, cabe ao tomador reembolsar ao proprietário pela perda.

Neste artigo, explicaremos as leis básicas dos Quatro Guardiães. Nosso propósito é introduzir nossos leitores ao estudo do Talmud. Após discutirmos as leis dos Quatro Guardiães, exploraremos sua dimensão mística.

Exemplificando: Suponhamos que um homem de nome Shimon peça emprestado a seu vizinho Reuven o carro deste último por uma semana. O vizinho concorda com o pedido. Shimon toma o carro emprestado, mas não paga nada a Reuven pelo empréstimo. Se o carro for danificado, roubado, perdido ou destruído enquanto estiver sob a guarda de Shimon, este deverá reembolsar Reuven integralmente pela perda. Como Shimon é o tomador, ele tem que pagar por qualquer infortúnio com o carro, mesmo se ele for isento de culpa no ocorrido.

Shoel, o Mutuário ou tomador No grupo dos quatro guardiães, o Shoel, o mutuário, assume o nível mais alto de responsabilidade pela propriedade de terceiros a seu cargo. Isso é 26


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Uma Discussão do Talmud: Pintura a óleo, Carl Schleicher

(Em certas circunstâncias, a Torá isenta o tomador de responsabilidade. Estas leis, no entanto, estão fora do escopo deste trabalho).

Socher, o locatário O locatário é semelhante ao tomador, com uma diferença óbvia e significativa: ele paga pelo uso da propriedade de outrem. Suponhamos que Shimon tenha pedido emprestado o carro de Reuven, com a condição de pagar uma taxa de aluguel. O que ocorre se o carro for danificado ou destruído enquanto estiver sob a responsabilidade de Shimon? Como ele alugou o carro – pagando por seu uso –, a situação não é idêntica à descrita acima, em que o empréstimo tinha sido gratuito. Neste caso, Shimon é um locatário, não um tomador.

No Talmud, dois de seus maiores Sábios – Rabi Yehudá e Rabi Meir (o Ba’al Haness) – discordam sobre o grau de responsabilidade do Socher, o locatário. De acordo com Rabi Yehudá, a Torá iguala o locatário com o guardião não remunerado (cujas leis de responsabilidade veremos abaixo): o locatário é responsável apenas se tiver agido com negligência. Rabi Meir discorda. Em sua opinião, o grau de responsabilidade do locatário é o mesmo que o do guardião remunerado, que, como veremos adiante, é responsável pelo que o Talmud considera “danos evitáveis” – roubo e perda. O veredicto – a Halachá – segue a opinião de Rabi Meir.

Shomer Sachar, o Guardião remunerado Na opinião de Rabi Meir, o grau de responsabilidade do locatário 27

é o mesmo que o do guardião remunerado. Quem é o guardião remunerado? Ao contrário do locatário, ele não paga pelo uso da propriedade de terceiros mas sim, recebe pagamento por cuidar da propriedade. Nos dois cenários acima descritos, Shimon queria tomar emprestado o carro de Reuven. Se ele tomar emprestado o carro sem pagar por isso, ele é um tomador; se ele pagar pelo empréstimo, ele é um locatário. Consideremos, agora, uma situação diferente: Shimon não tem interesse no carro de Reuven – ele não quer pedi-lo emprestado nem alugá-lo. É Reuven que pede que Shimon o guarde. Talvez ele esteja saindo de férias e quer que alguém cuide de seu carro enquanto ele estiver fora. Se Shimon abril 2018


nossas leis

concordar em tomar conta do carro de Reuven, mas cobrar para fazê-lo, ele é um guardião remunerado. A Lei da Torá reza que um guardião remunerado assume uma medida significativa de responsabilidade pela propriedade a seu cargo. Afinal, ele está sendo

pago para cuidar da propriedade de terceiros. A Torá considera o guardião remunerado responsável pelo que considera “danos evitáveis”, como roubo e perda. Contudo, a Torá não o mantém responsável pelo que considera “danos não evitáveis” – roubo à mão armada e eventos que estão fora de seu controle, como os desastres naturais.

reembolsar totalmente Reuven pela perda. Mas, se bandidos armados roubarem o carro ou este for destruído ou danificado por um desastre natural, Shimon não terá que reembolsar Reuven pela perda de seu carro.

Shomer Chinam, o Guardião não remunerado O guardião não remunerado cuida da propriedade de terceiros como um favor e não recebe pagamento ou recompensa por fazê-lo. Suponhamos que Shimon concorde em tomar conta do carro de Reuven, mas se recuse a aceitar pagamento. Ele está fazendo um favor a Reuven. Ele ajuda os demais e não crê que devamos praticar atos de bondade esperando algo em troca.

D’us dá o livre arbítrio a todos nós, mas cada um de nós tem que aprender a viver com as suas escolhas.

Dissemos acima que o grau de responsabilidade de um locatário é o mesmo que o do guardião remunerado. Isso significa que este último é responsável, também, pelos danos evitáveis; no entanto, não é responsável por danos não evitáveis. Uma vez compreendida a lei do guardião remunerado, podemos agora voltar para o caso do locatário. Se Shimon aluga o carro de Reuven, e o carro é roubado ou perdido, Shimon deve 28

O que ocorre se o carro de Reuven for danificado ou destruído enquanto estiver sob a guarda de Shimon? Pela lei da Torá, como Shimon é um guardião não remunerado – ele está cuidando da propriedade de terceiros como um favor, sem receber pagamento ou recompensa por isso –, é mínima a sua responsabilidade em caso de infortúnio. O Talmud ensina que contanto que ele tenha dado uma atenção razoável ao objeto sob sua guarda, ele afirma, sob juramento, não ter sido negligente e é absolvido de qualquer responsabilidade pelo infortúnio. Na qualidade de guardião não remunerado, Shimon não tem que reembolsar Reuven, proprietário do carro, por perda ou roubo; mas a Torá o declara responsável pelos danos no caso de ter sido negligente ou descuidado. Afinal, ele concordou em tomar conta


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do carro de Reuven – algo que poderia ter-se recusado a fazer. Por exemplo, Shimon não pode estacionar o carro de Reuven num local perigoso, sem travar as portas, deixando a chave no motor. Se agir com negligência e, por esse motivo, a propriedade sob sua guarda for danificada, perdida ou roubada, terá de recompensar o proprietário por perdas e danos.

conveniências. Seu propósito na vida é desfrutar do mundo ao máximo sem ter que pagar por isso. O profeta Isaías assim descreve a filosofia de vida de tais pessoas: “...Eis que há alegria e regozijo, e são abatidos gado e ovelhas, carne é consumida e vinho é bebido, enquanto dizem; ‘Comei e bebei, porque amanhã morreremos’! ” (Isaías 22:13).

Os Quatro Guardiães do Mundo

A maioria daqueles que apenas se preocupam consigo próprios não se sentem agradecidos a D’us pelo que recebem, pois do contrário teriam menos liberdade de fazer o que quisessem, quando quisessem. As pessoas cujo único interesse na vida é aquilo que os beneficia e dá

Um dos princípios fundamentais do Judaísmo é que cada versículo e palavra da Torá contém infinitas camadas de significados. O mesmo é válido para o Talmud. Não se trata apenas de uma enciclopédia sagrada de leis, discussões, análises e relatos. Cada uma de suas passagens e ensinamentos contém ensinamentos profundos e esotéricos.

prazer, desfrutam deste mundo de D’us e de sua fartura, mas negam Sua existência ou O ignoram. Mesmo se reconhecem que este mundo a D’us pertence, elas não têm interesse em relacionar-se com Ele. “A vida é minha”, dizem a D’us, “e farei com ela o que bem entender”. Vivem como um dos Quatro Guardiães, o tomador: só tomam – de D’us e de Seu Mundo –, mas não pagam nem retribuem de alguma maneira. Segundo as leis dos Quatro Guardiães, como D’us Se relaciona com tais pessoas? Vejamos as leis referentes ao grau de responsabilidade do tomador: ele é totalmente responsável pelos danos Portão de Beit El Yeshivá, em Jerusalém

As leis relativas aos Quatro Guardiães são relevantes e atemporais, mas como veremos, também possuem uma dimensão mística. O Shelah HaKadosh (1565-1630), Rabi Yeshaya HaLevi Horowitz, autor do clássico Shnei Luchot HaBrit, escreve que “Assim como existem os quatro guardiães entre o homem e seu semelhante, eles também existem entre o homem e D’us, Bendito é Ele”. Vejamos, agora, como as leis dos Quatro Guardiães se aplicam ao nosso relacionamento com D’us.

O Tomador Muitas pessoas estão interessadas em tomar e receber, mas não em dar. Para elas, o mundo gira em torno delas próprias – seus prazeres, seus desejos e suas 29

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e perdas, mesmo se não tiver culpa pelo ocorrido. Praticamente, isso significa que como o “tomador” tomou a seu encargo a sua vida e se fechou completamente a D’us, ele assume total responsabilidade por tudo o que lhe acontecer. Se ele tiver perdas ou danos em sua vida, ele terá que assumir a responsabilidade pelos mesmos. Se um trovão, um furacão ou um terremoto o atingir – literal ou figurativamente –, é problema e responsabilidade totalmente seu, e o único culpado é ele mesmo. D’us dá o livre arbítrio a todos nós, mas cada um de nós tem que aprender a viver com as suas escolhas. Se escolhermos ser o tomador – tomando e recebendo, sem dar nada em troca –, os Céus nos tratarão de acordo a isso. Como o tomador escolhe ser dono exclusivo de seu destino, quando os problemas baterem à sua porta, ele não terá ninguém a quem recorrer, mas a si próprio. Como ele optou pela total independência – como ele não crê em nenhuma forma de reciprocidade –, ele será totalmente responsável por danos e perdas, mesmo se estes surgirem do nada e ocorrerem por culpa de terceiros. Ele não terá ninguém com quem compartilhar a perda. Ele expulsou D’us de sua vida quando tudo lhe sorria. Quando as coisas desandarem, ele terá que arcar sozinho com tudo. A geração que pereceu no dilúvio de Noé personifica o tomador. A Torá nos relata que à exceção de Noé, toda aquela geração era egoísta e corrupta; envolvia-se em roubo e violência, e praticava atos imorais. Não tinham respeito algum por D’us, por Seu mundo nem pelos outros seres humanos. Para eles, a vida era para divertir-

se e não pensavam duas vezes antes de usar de desonestidade, violência ou imoralidade para obter o que desejavam. Sabemos bem como termina a história. Veio o dilúvio e matou todos. Como aquela geração tinha afastado D’us de sua vida, pereceram todos e eles eram os únicos culpados. Mais ninguém. Eram todos tomadores, e, como ensina o Talmud, um tomador é responsável por todos os danos e perdas – mesmo se estes forem consequência de desastres naturais – como foi o Dilúvio.

O Locatário Contrariamente ao tomador, o locatário está disposto a pagar o preço pelo uso da propriedade de um terceiro. Quando se trata do relacionamento entre o homem e o Todo Poderoso, o locatário é aquele que, como o tomador, quer desfrutar do mundo Divino, mas, contrariamente a ele, o locatário percebe que terá que pagar o seu preço. O dilema enfrentado pelo locatário é saber o preço que terá que pagar para desfrutar deste mundo de D’us. Algumas pessoas querem pagar um pouco, mas não muito. Talvez o preço que queiram pagar é jejuar em Yom Kipur. Outros acreditam que D’us espera um pouco mais. Para estes, o preço a pagar talvez inclua ir à sinagoga algumas vezes por ano, ouvir o Shofar em Rosh Hashaná e participar em um Seder de Pessach. Outros, ainda, acreditam que D’us espera ainda mais, mas talvez seja suficiente eles irem à sinagoga em todas as festas e nas sextas-feiras à noite para cantar Lechá Dodi junto com a congregação. Como o tomador, a preocupação de vida do locatário é seu bemestar. Ele está no centro de seu 30

universo pessoal. Ele cumpre os mandamentos Divinos com o mesmo sentimento com que as pessoas pagam seus impostos – ele os vê como um mal inevitável que ele preferia não ter que cumprir. Na Torá, Noé simboliza o locatário. Comparado a seus contemporâneos que personificam o tomador, Noé era um homem justo, íntegro. Contudo, a bem da verdade, ele não se importava muito com o mundo de D’us. Quando o Todo Poderoso lhe ordena construir uma arca, ele o faz para salvar a si e aos seus – e não se empenha em salvar os outros. Quando D’us lhe ordena cuidar dos animais na Arca, ele o faz porque percebe que essa tarefa difícil era o preço que ele teria que pagar por viver e desfrutar do mundo de D’us. Em outras palavras, a construção da Arca e o cuidado dos animais é o aluguel que ele deveria pagar ao Proprietário. Noé não é tomador, mas ele é meramente um locatário. Ele não se importa se D’us destruir o Seu mundo e todos os seus contemporâneos morrerem, desde que ele e sua família estejam a salvo. Seu relacionamento com D’us é quase “comercial”: O Senhor me deixa viver no Seu mundo e eu cumprirei Suas ordens. Qual a lei do locatário? Ele é responsável pelos “danos evitáveis” – roubo e perda. É isento de responsabilidade apenas pelos “danos inevitáveis” – eventos que estão além de seu controle, como os desastres naturais. Como Noé era um locatário, não um tomador, no tocante a D’us, ele não pereceu em um desastre natural – o Dilúvio. No entanto, como ele é nada mais do que um locatário, quando ele emerge da Arca e vê um mundo em escombros, D’us não ouve seu


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grito nem sua reclamação sobre toda a morte e destruição que ele testemunha. Afinal, Noé é um locatário, e como tal, é responsável pelos danos evitáveis. A Torá chama o Dilúvio de “as Águas de Noé”, porque ele partilha da responsabilidade por uma perda que ele poderia ter evitado. Talvez ele pudesse ter influenciado a sua geração a se arrepender. Se ele tivesse cuidado um pouco mais do mundo de D’us, talvez tivesse conseguido evitar a destruição da humanidade.

O Guardião Remunerado A Lei Judaica, como ensina Rabi Meir no Talmud, determina que a responsabilidade do guardião remunerado é idêntica à do locatário. No relacionamento pessoal com D’us, a diferença entre o locatário e o guardião remunerado é que o primeiro quer desfrutar deste mundo de D’us, mas aceita pagar por isso, ao passo que o guardião remunerado aceita ajudar a tomar conta do mundo, mas exige que D’us lhe pague por seus serviços. A lei da responsabilidade é a mesma para o locatário e para o guardião remunerado porque, em ambos os casos, há um tipo de relacionamento comercial forjado entre eles e D’us. O locatário tem que calcular o preço que deve pagar a D’us pelo privilégio de desfrutar de Seu mundo, ao passo que o guardião remunerado tenta avaliar o escopo de suas obrigações, bem como quanto ele espera que D’us lhe pague pelos serviços que prestará. Alguns esperam que D’us lhes recompense neste mundo, enquanto outros no Mundo Vindouro, e outros, ainda, em ambos os mundos. Alguns guardiães pagos até se dispõem a cumprir todos os

mandamentos Divinos, mas eles cobrarão d’Ele um altíssimo preço para fazê-lo. Se D’us irá concordar com um acordo desses ou não, é outra história... Recordemos a lei do guardião remunerado. O Talmud ensina que, como o locatário, ele também é responsável por danos evitáveis – roubo e perda. Ele só está isento de responsabilidade por danos inevitáveis. Isso significa que alguém que assume o papel de guardião remunerado é responsável por transgressões evitáveis – pecados de comissão (roubo) e pecados de omissão (perda). Como o ser humano que personifica o guardião 31

remunerado tem um relacionamento tipo “olho por olho, dente por dente” com D’us, a Corte Celestial tem o direito de constantemente escrutinizá-lo e responsabilizá-lo por todos os danos evitáveis. Se violar o “contrato” de alguma maneira, ele terá que pagar multa ou penalidade pela quebra de contrato. Um exemplo de um guardião remunerado foi o primeiro ser humano, Adão. Conta-nos a Torá: “E o Eterno, D’us, tomou o homem e o pôs no Jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênese 2:15). Adão foi o paradigma do guardião remunerado: ele tinha que trabalhar no Jardim do Éden e abril 2018


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cuidá-lo, e como pagamento por seus serviços, ele podia aproveitar de tudo o que o Jardim tinha para oferecer – à exceção do fruto da Árvore Proibida. Infelizmente, Adão e Eva não foram guardiães remunerados confiáveis – eles não cumpriram a sua parte no acordo porque a Serpente lhes prometeu um pagamento ainda melhor do que o oferecido por D’us. A Serpente – personificação do Yetzer haRá, Inclinação para o Mal, mestre das mentiras e da enganação – não cumpriu sua promessa. Como Adão e Eva eram guardiães remunerados, eles eram responsáveis por perda e roubo, ou seja, tomaram e consumiram o fruto proibido, proscrito por D’us (roubo), e foram enganados

(perda) pela Serpente. Ambos os danos evitáveis. Poderiam ter ignorado a Serpente e sua oferta tentadora. Poderiam ter optado por não comer o fruto proibido. Consequentemente, como guardiães remunerados, foram responsáveis pela quebra do contrato. E D’us os expulsou do Jardim do Éden.

O Guardião não remunerado O Guardião não remunerado é singular. Contrariamente aos outros três guardiães, ele não está interessado em receber, mas apenas em dar. Em seu relacionamento com D’us, ele não pensa em si

próprio, mas apenas em cumprir a Vontade de seu Mestre, e o faz sem esperar qualquer recompensa, material ou espiritual, que seja. Maimônides descreve tais seres humanos: “Aquele que serve a D’us por puro amor altruísta – ele estuda a Torá e cumpre as Mitzvot e anda nos caminhos da sabedoria — não por temer o mal (castigo), e não para herdar o bem (recompensa). Mas ele age de acordo com a verdade apenas por ser a verdade. No fim, o bem virá ao seu encontro. Essa virtude é enorme e grandiosa, e nem todos os sábios a merecem, e esse é o nível alcançado por Avraham, nosso Patriarca, a quem D’us chamou de ‘Aquele que Me ama’, porque ele serviu a D’us unicamente por amor” (Leis do Arrependimento, 102). Tais pessoas são raras, mas existem. Elas fazem o que é certo, bom e virtuoso simples e exclusivamente por ser a maneira correta de se viver. Como ensina Maimônides, nosso patriarca Avraham, o primeiro judeu, é o paradigma do guardião não remunerado. Ele servia a D’us por amor, e estava disposto a fazer o que o Altíssimo dele exigisse, independentemente de quão difícil ou tortuoso. Avraham dedicou sua vida a executar a Vontade Divina. Consequentemente, desfrutou de um nível extremamente elevado de Graça Divina. Recordemo-nos da lei do guardião não remunerado: ele é isento de qualquer responsabilidade, exceto em caso de negligência. Como ele não espera pagamento ou recompensa por seu serviço a D’us, os Céus o tratam com grande compaixão, pois a Corte Celestial percebe que quaisquer erros que ele possa cometer são totalmente não intencionais. Transgressões e pecados não são parte de sua realidade.

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Ele pode até cometer erros – que podem ser perdas e danos não intencionais –, mas recebe perdão pelos mesmos, porque ele trabalha incessantemente em favor de D’us sem esperar nada em troca. No entanto, a Torá determina que o guardião não remunerado é responsável em caso de negligência. Isso significa que mesmo esse guardião não pode agir irresponsavelmente. O Talmud nos ensina que “não dependemos de milagres”. Ser um guardião não remunerado – e, portanto, desfrutar do cuidado e graças Divinas – não significa que a pessoa pode pular pela janela e esperar que a Divina Providência a salve. Mesmo os guardiães não remunerados não podem negligenciar sua saúde, seu trabalho e seu sustento, nem sua segurança pessoal. Se agir com negligência e irresponsabilidade, ele será responsável por danos e destruição, como determina a lei do guardião não remunerado. Mesmo um ser humano realmente justo e íntegro, que serve a D’us por amor e vive para cumprir Sua Vontade, deve viver com cuidado e responsabilidade.

Os Quatro Guardiães e o Livre Arbítrio Um dos princípios fundamentais da Torá é que D’us atribui o livre arbítrio aos seres humanos. Todos podem escolher como viver e como se relacionar com D’us e com o Seu mundo. Podemos optar por ser tomadores, locatários, guardiães remunerados ou guardiães não remunerados, e a Divina Providência retribuirá conforme nossas opções. Contudo, ter livre arbítrio também significa que temos o poder de transitar de uma categoria a outra de guardiães. Mesmo aquele que é um

Os Talmudistas: Pintura a óleo, Max Weber, Museu Judaico, Nova Iorque

tomador pode dar uma meia-volta de 180 graus em sua vida e se tornar um guardião não remunerado. Os três Patriarcas – Avraham, Itzhak e Yaacov – foram paradigmas do guardião não remunerado. A Cabalá se refere a eles como as “rodas da Carruagem Divina”. Assim como as rodas de uma carruagem não possuem vontade própria, e apenas seguem as ordens de seu condutor, também os três Patriarcas viveram apenas para cumprir as determinações do Condutor do Universo e cumprir Sua Vontade. Amavam a D’us e O serviam com todo o seu coração e com toda a sua alma. 33

Como todos nós, judeus, somos não apenas os descendentes, mas também a personificação de nossos três Patriarcas, cada um de nós tem o potencial de ser um guardião não remunerado. Trata-se do caminho mais nobre que um ser humano pode percorrer em sua vida: servir a D’us por amor e buscar a verdade apenas por ser verdadeira, e a virtude, apenas por ser virtuosa.

Bibliografia:

Rabi Menachem Mendel Schneerson, Likutei Sichot, Mishpatim (Volume 31:17) Rabbi Y.Y. Jacobson - Four Guardians and their Psychological Application - https://www. theyeshiva.net/jewish/97

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SHOÁ

A Resistência Judaica durante o Holocausto Recentemente os historiadores passaram a considerar o número de judeus brutalmente assassinados pelo Terceiro Reich em torno de 7milhões – e não mais 6 milhões. A pergunta muitas vezes feita é por que estes não resistiram? Por que não lutaram? Por que se deixaram levar “como ovelhas”? Quem pergunta tem a objetividade do tempo transcorrido desde então e nenhuma vivência pessoal de um horror que a mente humana não consegue assimilar. Mas a pergunta precisa ser respondida.

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ma guerra sem fronteiras havia sido declarada pela Alemanha de Hitler contra o Povo Judeu, sem restrição de homens ou armamentos. O fato colocava os judeus numa situação extremamente difícil. Eles não possuíam um Estado, tampouco forças de combate treinadas; e nem aliados. Eram uma minoria civil desarmada, espalhada em todos os países da Europa. No Leste Europeu eram desprezados. Hoje, temos provas e testemunhos de que houve centenas de atos, individuais e de grupo, de resistência judaica aos nazistas nos países da Europa Ocidental e Oriental. Essa resistência se manifestou de forma diferente dependendo do país, do grau de antissemitismo da população local e do momento histórico.

ação armada? Historiadores concordam que há duas categorias básicas: a resistência civil, não violenta, e a armada. E, mesmo a armada é subdividida entre a ofensiva e a chamada acorrentada. A resistência ofensiva inclui operações armadas não convencionais, ações de guerrilheiros ou de sabotagem. Um exemplo da resistência ofensiva foi a luta dos partisans1 nos territórios sob domínio alemão. A acorrentada, por sua vez, implica em ações armadas em situações em que são praticamente nulas as esperanças de sobrevivência. O Levante do Gueto de Varsóvia, há 75 anos, em abril de 1943, assim como os levantes ocorridos em outros guetos e campos de concentração, são exemplos de resistência acorrentada. Há testemunhos sobre centenas de atos individuais de mulheres e homens judeus, que, sendo levados à morte, tentaram ferir seus algozes com facadas e até mesmo mordidas. E, é um fato histórico de que dezenas de milhares de judeus participaram da resistência armada, engrossando as fileiras dos movimentos nacionais de resistência, os partisans, na luta contra o inimigo comum. (Apenas em território polonês, com raríssimas exceções, os grupos de resistência não aceitavam judeus em suas fileiras).

Um dos grandes desafios na historiografia da resistência judaica durante o Holocausto é a definição do que deve ser considerado como “resistência” a um poder opressor. Deve-se considerar apenas a

A expressão é geralmente usada para se referir aos grupos

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armados organizados que combatiam o domínio nazista na Europa ocupada, durante a 2ª Guerra Mundial.

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yad vashem, israel. memorial em homenagem aos partisans e soldados judeus na 2ª guerra mundial

Nunca é demais enfatizar que os partisans operavam apenas em ações de guerrilhas.Um enfrentamento aberto, com armas em punho, contra os alemães ocorreu em apenas três ocasiões – em Varsóvia, Paris e Eslováquia, no final do verão europeu de 1944. Nas três ocasiões os resistentes sabiam que as forças Aliadas estavam próximas. Em toda a Europa sob domínio nazista foram muito frequentes os casos de ajuda por parte de judeus a seus correligionários “em perigo ou em fuga”, de salvamento de crianças, de proteção aos que se escondiam. E, enquanto aumentavam os esforços nazistas para erradicar os judeus da História, dia após dia eles registravam a vida sob ocupação nazista, inclusive nos campos de concentração. Escrever era uma forma de resistir, era deixar a prova dos crimes nazistas.

Na Polônia, trancafiados em guetos, isolados e sem qualquer meio de comunicação com o exterior, os judeus criaram uma ativa resistência civil, entre outras, organizações assistenciais, religiosas e educacionais clandestinas. E conseguiram realizar levantes armados em cinco dos principais guetos, em 45 dos menores, em cinco campos de concentração e extermínio, e em 18 campos de trabalhos forçados. A fuga era uma maneira de resistir. Mas, mesmo quando os judeus tinham os meios e a oportunidade, as dificuldades eram enormes. A pergunta era “para onde ir? ”. Praticamente nenhum país lhes abrira suas portas. Os que tiveram tempo de escapar para outros países da Europa não foram rápido ou longe o suficiente; judeus alemães e austríacos foram capturados na 35

França, Bélgica e assim por diante. Sem ajuda era quase impossível se esconder, e sobreviver. A população não judaica muitas vezes era hostil; no melhor dos casos, indiferente a eles e à sua sorte. Em sua caça aos judeus, os nazistas contavam com a ajuda entusiasmada de ucranianos, lituanos e poloneses. E aquele que decidisse ajudar um judeu, sabia que, se descoberto, seria executado. Ademais, qualquer tipo de resistência por parte de uma nacionalidade qualquer era fortemente inibido pela polícia nazista e seus métodos de terror. Porém, aos judeus os nazistas reservavam um “tratamento especial”. A punição a um não judeu suspeito de um ato de resistência era, em muitos casos, a execução sumária; a tortura era usada para extrair informações. Porém, para um resistente judeu a execução abril 2018


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sumária era a melhor opção, pois, via de regra, ele devia “ser morto da maneira que mais conduzisse à disciplina e que impedisse qualquer outro tipo de resistência”. O sadismo nazista não teve limites. No Leste da Europa, os resistentes judeus eram esfolados, queimados vivos, jovens judias recebiam injeções de veneno que provocavam espasmos musculares antes da morte. Em Minsk, o comandante das SS cegava os judeus capturados com ferro em brasa e os enviava de volta para seus companheiros, como um “alerta”. Mas, acima de tudo, a resistência era inibida pela política alemã de “responsabilidade coletiva”. Essa tática de retaliação atribuía a responsabilidade a famílias, até a comunidades inteiras por atos individuais de resistência. No caso judaico, a retribuição podia atingir todos os habitantes de um gueto. Caso um judeu fosse encontrado fugindo, de posse de um rádio, um telefone ou uma arma, dezenas ou até centenas de judeus eram assassinados em represália. E, na eventualidade de um judeu ferir ou matar um alemão, os números chegavam a milhares.

montaram lares de infância coletivos no sul da França. Os Éclaireurs Israélites e outros movimentos judaicos juvenis tiveram papel crucial quando a perseguição ativa aos judeus chega ao país.

Emanuel Ringelblum

Portanto, a pergunta a ser feita é “como pôde haver uma resistência? ”.

Na Europa Ocidental Nos países da Europa Ocidental são muitos os exemplos de resistência judaica – individual e organizada, civil e armada. Na França, por exemplo, às vésperas da eclosão da 2ª Guerra, quando as autoridades francesas anunciaram que evacuariam crianças francesas de Paris, os líderes dos Éclaireurs Israélites, (Escoteiros Judeus) organizaram a saída das crianças judias das famílias de imigrantes e

Por toda a Europa havia judeus engajados em ajudar seus correligionários “em perigo ou em fuga”. A partir da França, a entidade judaica Oeuvre de Secours aux Enfants (OSE), adotando o lema “Il faut sauver les enfants! ” (É preciso salvar as crianças), organizou uma rede clandestina de resgate de crianças judias de toda Europa, que ficou conhecida como Circuit Garel. A OSE os transportava para o sul da França, acomodando-os em lares e orfanatos. Em 1943, com a intensificação das deportações, conseguiram contrabandeá-las para a Suíça. Como mencionamos acima, milhares de judeus combateram nas fileiras dos movimentos nacionais de resistência na França, Bélgica, Itália, Iugoslávia, Grécia e Eslováquia. Na França, foi grande o número de judeus na Resistência Francesa, La Résistance. Muitos inclusive ocuparam posições de liderança. Um dos grupos da Résistance era a Armée Juive (Exército Judeu), que operava no sul da França. Quando os britânicos criaram a Special Operations Executive (SOE) para espionar os inimigos e organizar os movimentos de resistência, entre os agentes de campo infiltrados atrás das linhas alemãs havia muitos judeus, principalmente mulheres. Na Grécia, o rabino Barzilai e os líderes comunitários que faziam parte do Judenrat de Atenas decidiram não atender nenhuma exigência nazista e agiram

partisans judeus em vilna, entre eles Abba Kovner

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rapidamente. Foram queimadas todas as informações sobre a comunidade, o rabino raspou a barba, juntando-se aos partisans nas montanhas e incentivando todos os judeus a fugir. Entre os que se juntaram aos partisans gregos, destacam-se 40 indivíduos integrantes do grupo que explodiu a ponte da principal ferrovia, ligando o norte ao sul da Grécia.

A resistência não armada no Leste Europeu Os guetos no Leste Europeu eram centros de morte lenta. Os judeus morriam de fome e de frio, pois a quantidade oficial de alimentos e combustível que os nazistas destinavam a eles era ínfima e constantemente reduzida. Morriam nas ruas por nenhum motivo além de serem judeus. Em Varsóvia, a taxa de mortalidade chegou a mil por semana. Os judeus procuraram resistir à política nazista de inanição e desumanização. No início do seu confinamento – quando ninguém podia sequer imaginar a possibilidade de um extermínio em massa ou de câmaras de gás – a preocupação girava em volta da sobrevivência física, moral e espiritual.

shabat no gueto de varsóvia, 1943

muros do gueto, muitas vezes por crianças. Era o contrabando que mantinha o gueto vivo. A “comunidade paralela” criou refeitórios, orfanatos, clínicas e abrigos para refugiados e os mais pobres. Organizava ensino clandestino e atividades culturais.

Na maioria dos guetos maiores, uma “comunidade paralela”, uma rede de organizações sócias, assistências, e políticas underground, incluindo movimentos juvenis, passou a funcionar. Seus líderes haviam saído das fileiras das instituições judaicas, dos movimentos juvenis sionistas e dos partidos de esquerda do préguerra. Alimentos, mercadorias e medicamentos eram contrabandeados para dentro dos

membros do grupo da “comunidade paralela” em przytyk, polônia, durante distribuição de pão

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Em Varsóvia, os “comitês das residências” atuavam para cuidar dos que moravam em seus complexos habitacionais. Em muitos casos, as atividades sociais davam cobertura a movimentos políticos ilegais. Sendo a prática da religião judaica proibida, uma resistência religiosa entra em ação para ajudar os judeus a observarem leis e feriados religiosos. Em casa de orações clandestinas havia diariamente minyanim; apenas em Varsóvia eram cerca de 600. Os rabinos continuavam a lecionar, a escrever comentários, a realizar casamentos, Brit milot, Bar Mitzvás. Jovens continuaram a estudar em yeshivot clandestinas. Os médicos judeus não tinham acesso a medicamentos para salvar os doentes já enfraquecidos pela fome. Ao se dar conta de que a guerra contra a fome estava perdida, passaram a estudar os efeitos da inanição em seu próprio corpo e nos abril 2018


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cadáveres. Suas conclusões foram publicadas após a guerra, em Paris. Sob domínio nazista era “ilegal” que os judeus possuíssem rádio, telefone ou que publicassem um jornal. No entanto, a maioria dos grupos políticos clandestinos lutava contra o isolamento judaico publicando jornais e boletins clandestinos. As notícias eram compiladas de transmissões soviéticas ou da BBC, em rádios escondidos. Muitos, judeus e não judeus, registram a vida sob julgo nazista, mas os arquivos mais completos foram coletados pelo grupo “Oyneg Shabbes “, fundado em Varsóvia pelo historiador Emanuel Ringelblum. As palavras de ordem de Ringelblum eram “reunir material, juntar impressões e registrá-las, imediatamente”. Ele acreditava que os arquivos permitiriam ao mundo pós-guerra ouvir as vozes dos que foram silenciados. Eram registros dos crimes cometidos pelos nazistas, e da vida, e morte dos judeus no gueto de Varsóvia e no resto da Polônia.

da política alemã em relação aos judeus. Com a invasão, dá-se início à matança rápida e indiscriminada de todo e qualquer judeu, independente de idade ou sexo. Crianças de colo não eram poupadas. A velocidade, e sigilo e ardis usados pelos alemães e seus colaboradores eram essenciais para o “bom andamento das operações”. Quando havia qualquer tipo de resistência, esta era brutal e imediatamente

Apesar do esforço alemão para manter a “Solução Final” em sigilo absoluto, alguns judeus rastejaram

resistência judaica na frança

Um parêntese precisa ser aberto a respeito dos Judenrats, os Conselhos Judaicos criados pelos nazistas para executarem suas ordens. As atitudes de vários desses Conselhos são até hoje questionadas e criticadas, mas não cabe aqui analisar suas ações ou razões. Porém, é preciso ressaltar que muitos foram forçados a assumir o cargo, sob pena de morte, e que os Conselhos eram impotentes frente aos nazistas. Suas tentativas de aliviar as condições de vida nos guetos raramente tinham sucesso.

O ponto de inflexão A operação Barbarossa, a invasão da União Soviética iniciada em junho de 1941, marcou o ponto de inflexão

silenciada. Dia após dia, cidade após cidade, os nazistas destruíram sistematicamente comunidades judaicas inteiras. Não foram poucas as vezes em que foram “ajudados” pela população local. Os alemães sabiam e exploraram ao máximo o antissemitismo reinante no Leste europeu.

muitos dos que escaparam à morte pelos einzatsgruppen filiaram-se aos grupos de partisans, nas florestas

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com vida das valas onde os nazistas os havia jogado junto com centenas de outros que haviam sido mortos a tiro. Eles revelavam aos judeus que os encontraram “o crime sem nome” que vivenciaram. A princípio, a maioria dos líderes dos movimentos judaicos clandestinos receberam os relatos dos assassinatos em massa com ceticismo; os que acreditaram não conseguiram interpretar o verdadeiro alcance dos acontecimento. Em 1942, os testemunhos de judeus que haviam fugido de campos de extermínio fizeram-nos estremecer. A resistência polonesa também alertara seus contatos em Varsóvia sobre o que acontecia com os judeus em


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Treblinka. Um dos membros do Bund é então enviado para investigar, e volta com a confirmação de que se tratava de um campo de morte, onde os judeus eram assassinados em câmaras de gás. Outros couriers, foram despachados para averiguar e repassar as informações. Eles também voltam com a confirmação dos massacres. Esses jovens, em sua maioria mulheres, haviam criado uma rede de comunicação para conectar vários guetos. Com documentos falsos viajavam por toda a Polônia levando informações, jornais clandestinos e dinheiro; compravam e contrabandeavam armas para dentro dos guetos e organizavam rotas de fuga. Ao receber confirmação dos assassinatos em massa e das câmaras de gás, as lideranças compreenderam a realidade da “Solução Final”. Perceberam que para evitar uma revolta em massa, os judeus eram ludibriados de forma a pensar que apenas estavam sendo levados a campos de trabalho. Os nazistas eram “ajudados” pela tendência do ser humano de racionalizar e de negar o pior. “Por que os nazistas nos matariam se podiam explorar nossa mão de obra? Vamos trabalhar nas piores condições possíveis, como escravos, mas vamos sobreviver”. Para os movimentos clandestinos, a estratégia de não-provocação até então adotada, facilitava os planos dos nazistas. Decidiram que era imprescindível convencer outros judeus a resistir às deportações, convencendo-os de que eram o passo inicial para a liquidação judaica. E decidiram que era preciso enviar as informações para os Aliados, na esperança de que algo fosse feito em seu socorro. Iludiam-se pensando que a falta de ajuda decorria da falta de conhecimento...

partisans do grupo de bielski

Vimos acima que a ferramenta nazista mais potente contra a resistência era a tática da “responsabilidade coletiva”. A pessoa podia estar decidida a lutar, a enfrentar a tortura e a morte. Mas estaria preparado para ver que suas decisões levaram os nazistas a assassinar seus familiares, seus amigos, quem sabe, o gueto inteiro?

Os inimigos eram implacáveis e as represálias, selvagens. E, o crime supremo – matar um alemão – era vingado com rios de sangue judaico. Os exemplos não terminam. Em Dolhyhnov, próximo a Vilna, toda a população do gueto foi assassinada após a fuga de dois meninos que se recusaram a voltar atrás. Em Bialystok os alemães atiraram em 120 judeus, em plena rua do gueto, após um judeu ter matado

denise bloch, vulgo “ambroise

muryel byck, vulgo “violette”

Resistência armada

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um policial alemão, e ameaçaram destruir o gueto inteiro se ele não se rendesse – o que acabou acontecendo... Os movimentos juvenis e os partidos de esquerda e o Judenrat – que diferiam em muitos assuntos – estavam de acordo em que uma resistência armada só poderia acabar em morte para os judeus. E, enquanto houvesse a possibilidade de sobrevivência, ainda que para uma minoria, teriam que aguardar. Mas eles se preparariam... Em 1942 são criadas organizações de resistência armada. A primeira delas, a FPO, Organização dos Partisans Unidos, foi formada em Vilna. Um de seus comandantes, o poeta Abba Kovner, foi um dos primeiros a entender as intenções nazistas. Num discurso inflamado em uma reunião underground, Kovner conclama seus irmãos, judeus, a resistir. “Não acredite naqueles que pretendem enganarnos.... O plano de Hitler é eliminar todos os judeus da Europa. É melhor cair como guerreiros do que viver à mercê dos assassinos. Levantem-se! Ergam-se com suas últimas forças!”

Os que optaram pela fuga, procuraram abrigo nas florestas. Alguns juntaram-se às unidades de partisans soviéticos, outros conseguiram formar grupos separados. Mas, muitos morreram de fome ou pelas mãos de partisans ou camponeses poloneses: o ódio da população em relação aos judeus era mais forte do que o ódio que nutriam pelos alemães. A situação dos que ficaram para lutar era desesperadora e o tempo corria contra eles. Rodeados por uma força militar alemã treinada e equipada estavam em inferioridade numérica e seu “armamento” era irrisório; e era extremamente difícil e perigoso obter armas. Os combatentes judeus não recebiam armas, alimentos ou remédios “caídos dos céus”, jogados pelos Aliados, como os demais grupos de resistência. Os couriers ou os judeus

O ZOB (Zydowska Organizacja Bojowa, Organização de Combatentes Judeus, em polonês) deu seus primeiros passos em Varsóvia, em 1942, após a Grande Deportação. Esse movimento de resistência seria decisivo na organização do Levante do Gueto de Varsóvia. A finalidade e velocidade da Solução Final deixava duas opções aos grupos de resistência – que sobreviveram às deportações: organizar fugas em massa ou ficar nos guetos e lutar.

brit milá no gueto de varsóvia, 1943

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que viviam no lado “ariano” tinham que comprar ou roubar armas, e contrabandeá-las para dentro dos guetos sem serem detectados. No entanto, estavam preparados para lutar e morrer; sua honra e a honra do Povo Judeu estavam em jogo. Sabiam que não sobreviveriam, mas “por que não resistir quando a alternativa era a morte em momento e local escolhidos pelos nazistas?”, escreveu um dos combatentes do Levante do Gueto de Varsóvia, “Estamos sendo impelidos pelo desespero aliado ao desejo de vingança. Nossos familiares foram abatidos como gado e atirados em covas sem nome. O simples pensamento de dar um fim à vida de alguns alemães, que fosse, já é um poderoso incentivo”. Nos guetos maiores, os combatentes das organizações clandestinas sabiam que não podiam contar, de modo geral, com o apoio dos Judenrat, nem com a população geral do gueto. Muitos líderes desses conselhos eram ambivalentes quanto a ajudar a resistência porque esperavam que a maior parte da população do gueto pudesse ser salva com seu trabalho, e viam a rebelião armada como um plano suicida. Apenas em Kovno e Minsk, os líderes do Judenrat cooperaram com o movimento clandestino. A resistência mais bem-sucedida, uma fuga em massa, ocorreu em Minsk. Entre 6 mil a 10 mil judeus fugiram para as densas matas, e alguns milhares sobreviveram até o final da guerra. Em muitos guetos menores, nos territórios ocupados no leste da Polônia e da então URSS, os membros dos Judenrat eram atuantes no movimento ou cooperavam com a resistência. Em muitos desses guetos


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irromperam revoltas espontâneas durante sua liquidação final. O exemplo mais famoso e dramático de resistência judaica armada durante o Holocausto foi o Levante do Gueto de Varsóvia, em abril e maio de 1943, que assumiu um significado muito além da revolta em si. Tornou-se um momento decisivo na História Judaica, como reconheceu Mordechai Anielewicz, líder da ZOB, ao escrever sua derradeira carta duas semanas antes de sua morte.

Revolta nos campos Durante a Guerra, no período de 1939-1945, milhões de pessoas passaram por uma extensa rede de milhares de diferentes campos erguidos na Alemanha e nos países europeus ocupados por esse poder. Acredita-se que 5,7 milhões de judeus, entre homens, mulheres e crianças foram mortos nos campos nazistas. A maioria foi envenenada por gás Zyklon-B logo após sua chegada em um dos seis campos de extermínio estabelecidos em território polonês: Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka, AuschwitzBirkenau e Majdanek. A atmosfera de total terror e isolamento, nos campos, bem como a inanição crônica da maioria dos prisioneiros inibiram completamente sua vontade e suas possibilidades de resistir. A rotina diária nos campos era organizada de forma brutal. Incluía um sistema elaborado de duros castigos pelas menores “infrações”, vigilância acirrada e intermináveis chamadas para a contagem dos prisioneiros. Cercas de arame farpado e de alta voltagem, cães selvagens amestrados e torres de segurança deixavam

Judeus do Gueto de Varsóvia sendo deportados

pouca esperança de fuga. Quem tentava resistir ou fugir era morto de imediato. Mas, apesar desses enormes obstáculos, houve vários atos de resistência em diversos campos. Mesmo nos de extermínio, à sombra das câmaras de gás e crematórios, os judeus encontraram formas de resistir a seus opressores: lutar contra a desumanização. Havia tentativas organizadas pelos movimentos clandestinos para informar ao mundo a brutalidade nazista, as cruéis condições físicas e a sistemática aniquilação de judeus nesses campos do inferno. Os judeus rezavam, acendiam velas de Chanucá; um par de tefilin era um bem precioso... Três levantes corajosos e ousados ocorreram nos centros de morte de Treblinka, Sobibor e AuschwitzBirkenau. De forma semelhante às rebeliões nos guetos, as revoltas organizadas nesses centros, onde a humanidade chegou ao seu nível mais baixo, surgiam do puro desespero e desesperança. Yehuda Bauer, Professor Emérito de História e Estudos do Holocausto 41

na Universidade Hebraica de Jerusalém, e Consultor Acadêmico no Yad Vashem, é um dos historiadores e pesquisadores que, em seu livro Rethinking the Holocaust (“Repensando o Holocausto”), respondeu à pergunta: “Por que os judeus não resistiram? ”. Ele escreveu: “A análise sobre a reação ativa judaica à opressão nazista poderia resumir-se de maneira quase triunfalista: havia uma resistência não armada, havia a santificação da vida, havia a resistência armada... Ao se revoltar contra o regime hitlerista, que visava exterminar toda a população judaica, os judeus não se envolveram em um ato de heroísmo. Eles simplesmente quiseram preservar a substância moral e material de nosso povo. Seu sucesso lhes garantiu a imortalidade”.

BIBLIOGRAFIA

Dawidowicz, Lucy, The War Against the Jews: 1933-1945 Gutman, Israel, Resistência: O levante do gueto de Varsóvia Kassow, Samuel D,Who Will Write Our History?: Rediscovering a Hidden Archive from the Warsaw Ghetto. Ebook Kindle Gilbert, Martin, The Holocaust. Ebook Kindle abril 2018


DESTAQUE

A Polônia e a negação do passado POR JAIME SPITZCOVSKY

Com o objetivo de tentar apagar páginas trágicas da história de seu país e de sufocar o debate e a pesquisa, o governo polonês aprovou uma lei que prevê até 3 anos de prisão a quem apontar cumplicidade polonesa em crimes cometidos durante o Holocausto. A ofensiva provocou forte reação internacional, capitaneada por Israel e entidades judaicas.

U

m “ato de obscuridade histórica e um ataque à democracia”, definiu o Congresso Judaico Mundial. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu descreveu a lei polonesa como “distorção da verdade, um reescrever da história e uma negação do Holocausto”.

e, no começo de fevereiro, foi sancionada pelo presidente Andrzej Duda. O governo da Polônia disparou também campanhas para defender sua iniciativa e registrou aumento de popularidade no cenário doméstico. O índice de aprovação do premiê Mateusz Morawiecki, na pesquisa do instituto polonês IBRiS, subiu de 55% para 57%, enquanto o presidente Andrzej Duda testemunhou sua taxa alcançar 57%, um aumento de 8 pontos percentuais em relação à sondagem do mês anterior.

Em Israel, sobreviventes do Holocausto protestaram diante da Embaixada da Polônia. Uma mulher segurava um cartaz: “Ainda tenho pesadelos lembrando o que os poloneses fizeram”. Dos Estados Unidos, partiram pedidos para Washington suspender relações diplomáticas com Varsóvia.

Desde 2015, a Polônia é governada pelo Partido da Lei e Justiça, dono de uma cartilha ideológica baseada no nacionalismo e no conservadorismo católico. Seus líderes defendem plataformas antiimigração e xenófobas, além de surfarem na onda antiglobalização, em curso sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, após a crise financeira internacional de 2008-9.

A primeira votação da lei polonesa ocorreu na Câmara dos Deputados no dia 26 de janeiro, exatamente véspera do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data foi escolhida pelas Nações Unidas porque, a 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz, localizado no sul da Polônia.

No cenário europeu, o avanço de grupos de extrema direita, baseados em ideologias de exacerbado nacionalismo, se verificou nas eleições presidenciais francesas, nas quais, apesar da vitória de Emmanuel Macron, Marine Le Pen amealhou uma votação

Depois de aprovada pelo Sejm, a câmara baixa do Parlamento, a lei passou por aprovação do Senado, 48


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campo de concentração de Auschwitz

histórica para seu partido, a Frente Nacional. Áustria e Hungria, entre outros países do velho continente, também testemunharam o fortalecimento de partidos com plataformas anti-imigração, antiislâmica e antissemita.

ascendente: Patryk Jaki, 32 anos, vice-ministro da Justiça e com manifestas ambições de crescer na política local. Jaki é descrito como “a figura por trás” da lei do Holocausto

e argumenta que o projeto busca acabar com a “cultura enganosa de vergonha” sobre o tratamento reservado aos judeus na Polônia durante a 2ª Guerra Mundial.

O governo polonês entrou em choque recentemente com outros países europeus, que criticaram uma série de medidas voltadas a limitar a liberdade de imprensa e a tentar restringir a autonomia do poder judiciário. Apesar dos atritos, o Partido da Lei e Justiça deseja manter a Polônia na União Europeia, à qual Varsóvia aderiu em 2004, mas critica o que define como “excesso de poderes concentrados” em Bruxelas.

“Quem acusar, publicamente e contra os fatos, a nação polonesa, ou o Estado polonês, de ser responsável ou cúmplice dos crimes nazistas cometidos pelo Terceiro Reich alemão...ou outros crimes contra a paz e a humanidade, ou crimes de guerra, ou, ao contrário, diminuir de forma extensiva os verdadeiros perpetradores, estará sujeito a uma multa ou a uma pena de prisão de até três anos”, sustenta um dos trechos da lei patrocinada por Patryk Jaki.

Na sua ofensiva nacionalista e populista, o partido governista polonês conta com uma estrela

No começo do conflito, mais de 3 milhões de judeus viviam na Polônia, à época epicentro da vida

presidente Andrzej Duda

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DESTAQUE

e Jan Grabowski, ambos nascidos na Polônia, mas vivendo no exterior. Gross leciona em Princeton, nos EUA, enquanto Grabowski trabalha na Universidade de Ottawa, no Canadá.

parlamento da polônia

Em meio à ofensiva nacionalista do governo de Varsóvia, é importante também lembrar que houve poloneses empenhados em salvar judeus e que pagaram, por suas iniciativas, com a própria vida.

judaica na Europa. Sobreviveram ao Holocausto apenas cerca de 300 mil, menos de 10%. Após 1946 e com a instalação do regime comunista imposto por Moscou, a população judaica caiu para 100 mil. Atualmente, a comunidade contabiliza menos de 10 mil integrantes, segundo dados do Congresso Judaico Mundial. Vários pesquisadores do Holocausto e da 2ª Guerra Mundial se empenham em combater a ofensiva nacionalista vinda de Varsóvia, em especial os historiadores Jan Gross

as crianças sobreviventes de Auschwitz

Os dois acadêmicos se dedicam a estudar a relação entre poloneses e judeus durante o Holocausto. Em 2000, Gross publicou o livro “Neighbours” (Vizinhos), no qual relata o massacre da população judaica do vilarejo de Jedwabne, em 1941, por outros habitantes do local. Estimativas falam em até 1,6 mil mortos. Gross teve sua obra traduzida para o polonês. Em 2001, numa cerimônia para marcar os 60 anos da tragédia, o então presidente polonês, Aleksander Kwasniewski, visitou Jedwabne e pediu desculpas. “Isso foi um crime particularmente cruel”, declarou ele em discurso transmitido ao vivo pela TV polonesa. A iniciativa presidencial enfrentou forte resistência em meios políticos do país. As iniciativas de Kwasniewski ficaram para trás, assim como o diálogo do governo polonês com o historiador Jan Gross. Atualmente, o autor de “Neighbours” enfrenta uma campanha publicitaria contra seu trabalho, apoiada por autoridades em Varsóvia, ligadas ao Partido da Lei e Justiça. Em janeiro de 2016, o atual presidente, Andrezj Duda, pediu a “reavaliação” de uma condecoração governamental outorgada a Gross, sob o argumento de que o historiador “buscava destruir o bom nome da Polônia”.

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A iniciativa não prosperou, após intensa reação doméstica e, sobretudo, internacional. Mais um historiador polonês no radar dos nacionalistas poloneses, Jan Grabowski publicou o livro “Caça aos Judeus: Traição e Morte na Polônia ocupada pela Alemanha”. Em entrevista recente à mídia israelense, Grabowski disse que, num “cálculo conservador”, 200 mil judeus foram assassinados por iniciativa direta de poloneses, sem participação de nazistas. Após a guerra também foram registrados trágicos episódios de violência contra judeus que sobreviveram ao Holocausto. Entre os ataques, o Pogrom de Kielce, quando, a 4 de julho de 1946, militares e civis poloneses atacaram um centro de refugiados e mataram 42 pessoas. Feriram mais de 40. Em meio à ofensiva nacionalista do governo de Varsóvia, é importante também lembrar que houve poloneses empenhados em salvar

manifestantes em israel protestam contra a lei da retórica do holocausto

judeus e que pagaram, por suas iniciativas, com a própria vida. Em 30 de janeiro, logo após a tramitação da lei do Holocausto na Câmara dos Deputados em Varsóvia, o Yad Vashem, em Jerusalém, realizou uma cerimônia para homenagear a família Dziadosz, que se arriscou para salvar judeus nos anos 1940.

durante a 2ª Guerra Mundial. Tais ações do Yad Vashem são altamente elogiáveis. Inadmissíveis, no entanto, são as iniciativas recentes do governo polonês, arquitetadas para ofuscar um capítulo trágico da história de seu país.

O Yad Vashem já homenageou 6.706 poloneses por suas ações

Jaime Spitzcovsky foi editor internacional e correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim

O campo de concentração de Auschwitz

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COMUNIDADES

A vida dos judeus em Fez Os judeus figuravam entre os primeiros habitantes da recémcriada Fez, no final do século 8. Rapidamente, se tornaram parte integral da cidade, exercendo importante papel em todas as áreas. Sua vida e bem-estar, no entanto, estavam sempre à mercê dos governantes, e eles viveram períodos de estabilidade e prosperidade e outros de grande sofrimento. Importantes rabinos, sábios e cabalistas viveram em Fez, entre outros o Rabi Yitshak Al-Fassi e o próprio Maimônides. Hoje, apenas cerca de 150 judeus vivem na cidade.

F

ez é localizada no Centro-norte do atual Marrocos, entre as cordilheiras do Rife e Médio Atlas. Juntamente com Rabat, Meknès e Marraquesh, é uma das Cidades Imperiais, assim chamadas por terem sido capital das dinastias islâmicas que governaram o Reino de Marrocos através dos séculos.

consigo o idioma árabe e o Islã, surgido por volta do ano 630. Embora fazendo parte do Império Islâmico, Marrocos era uma província subsidiária da província de Ifríquia1. Para os judeus, a conquista árabe da região foi um período de grande sofrimento. Inúmeras comunidades foram devastadas, provocando a fuga de milhares de judeus, que somente retornariam no início do século seguinte.

A história da comunidade judaica de Fez se inicia no século 9, logo após a fundação da cidade. Mas a presença de judeus na região do atual Marrocos é bem mais antiga. Há provas de que eles lá viviam a partir da destruição do Segundo Templo, em 70 E.C., e há pesquisadores que acreditam que a presença judaica remonte ao período do Primeiro Templo.

A primeira dinastia islâmica sunita estabelecida surgiu quando Idris I (Idris ibn Abdullah) tomou o poder, em 788, e fundou o reino do Marrocos. Ele foi fundamental para a islamização de seus domínios, não poupando esforços na conversão de seus súditos ao Islã. Foi Idris I quem fundou a cidade de Fez, num wadi2 à margem direita do Rio Fez, tornando-a capital de seu reino.

No século 7, quando o Norte da África foi conquistado por exércitos árabes, certamente havia judeus na região. A conquista muçulmana trouxe

Seu filho e sucessor, Idris II, famoso por seus dons intelectuais, mantinha boas relações com os judeus do reino, o que permitiu o desenvolvimento do judaísmo marroquino. Vinte anos após seu pai ter fundado a cidade, Idris II a funda novamente, dessa vez na

Ifríquia ou Ifriquia é, na história do Islamismo medieval, um território do Norte de África, e corresponde à atual Tunísia, noroeste da Líbia e nordeste da Argélia.

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Wadi - um leito seco de rio no qual as águas correm apenas na estação das chuvas.

2

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portão do palácio real, fez, Marrocos

margem à esquerda do Rio Fez. A chegada de 2 mil famílias árabes atribuiu à cidade seu caráter árabe. Lá sediando seu governo, Idris II começa a unificar o Marrocos. Permite que os súditos judeus vivam em Fez e abre as portas da capital a judeus vindos de outros pontos do Norte da África, e para um grande contingente vindo de Andaluzia, cujas aptidões comerciais e ampla rede de contatos regionais foram instrumentais para enriquecer seu reino. Cedeu-lhes um bairro próprio, chamado de al-Funduq al-Yahud, o Mercado Judeu – garantindo-lhes proteção mediante pagamento de substancial quantia em ouro. Não tardou para que a comunidade judaica se tornasse numerosa, próspera e respeitada. Um sinal da riqueza dos judeus de Fez foi o valor

de 30 mil dinares – uma verdadeira fortuna à época – referente ao jizya, a taxa anual que tinham que pagar. A lei islâmica obrigava os nãomuçulmanos, os dhimmis, a pagar altos impostos para terem permissão de viver em terras islâmicas. Tais

Caixa, com tampa arredondada. Possivelmente utilizada para guardar texto religioso. Museu do Quai Branly, Paris

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tributos eram a maior fonte de ingresso nos cofres públicos e essa situação fiscal explica o interesse dos governantes na prosperidade judaica. Após a morte de Idris II, em 828, seu reino é dividido entre seus herdeiros. Com a fragmentação do poder idríssida, o Marrocos entra num período turbulento. Com isso, a vida dos judeus se torna mais difícil e, em várias ocasiões, eles são alvo de violência. No decorrer dos séculos seguintes, a região é palco de períodos de instabilidade política e militar. Com espantosa regularidade, uma dinastia suplantava outra e, na transição de poder, os períodos de paz eram substituídos por outros de turbulência e matança. Toda a população era sujeita a grande sofrimento, mas eram os judeus os que mais sofriam. abril 2018


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No mundo islâmico, os conflitos entre as dinastias eram exacerbados por disputas doutrinárias quanto ao rigor da aplicação da lei islâmica. E quando uma dinastia liberal era substituída por uma mais extremista, os judeus eram expostos aos riscos inerentes à sua condição de dhimmis. Sua vida e seu bem-estar estavam sempre à total mercê dos governantes, e o Marrocos e Fez não foram exceções a essa regra. Por volta do ano de 987, os governantes deportam parte da comunidade judaica de Fez para Ashir, na Argélia. E, em 1033, quando a tribo berbere dos Maghrawa, originária da região que hoje é o Norte do Marrocos e a Argélia, conquista a cidade, seis mil judeus são massacrados, as mulheres judias deportadas e as propriedades da população judaica roubadas. Idêntica sorte caberia aos que residiam em outras cidades marroquinas. No entanto, a comunidade judaica de Fez se reergue rapidamente. De acordo com uma estimativa, 90 mil judeus viviam na cidade no século 11. O viajante árabe al-Bakri3 relata em sua obra que a cidade tem mais judeus do que qualquer outra no Magrebe - em árabe, Al-Maghrib, que significa “poente” ou “ocidente”, é a região noroeste da África.

no século 11. Seu sobrenome AlFassi significa, em árabe, “o natural de Fez”.

precária, mas, eventualmente conseguiram reconquistar o tratamento favorável.

O RIF nasceu em 1013, em Kalat ibn Hamad, uma aldeia próxima a Fez, e, em 1045, mudou-se para a cidade, tornando-se líder e juiz da comunidade judaica de Fez. Rabi Al-Fassi revolucionou a erudição judaica e escreveu o Sefer haHalachot (Código de Leis), o primeiro códice fundamental sobre as Leis da Torá. Judeus vindos de todo o Norte da África acorriam para com ele estudar na Yeshivá que portava seu nome. Mas o Rabi Al-Fassi não passaria o restante de sua vida em Fez. No ano de 1088, com 75 anos de idade, foi forçado a fugir de sua terra natal.

A relativa tranquilidade, porém, chega ao fim, em 1147, quando os almôadas derrotam os almorávidas e conquistam o Marrocos. Tomam, sucessivamente, o Magrebe, grande parte da Península Ibérica e se mantêm no poder até 1269.

Os Almorávidas e os Almôadas

Durante o terror dos almôadas Rabi Moshe ben Maimon, Maimônides, deixa Córdoba e vai para Fez, onde permanece por cinco anos. Em um de seus poemas, Rabi Ibn Ezra4 descreve a desgraça que se abateu sobre os judeus marroquinos, a quem os almôadas davam como opção a conversão, a morte ou o exílio. Foi o único período na história marroquina em que os judeus não podiam praticar sua religião. Milhares deixam a região, muitos encontrando refúgio em aldeias, ao sul de Marrakesh, onde podiam praticar o judaísmo abertamente. Centenas dos que permaneceram sob julgo almôada, optam pela morte.

Em 1068, os almorávidas conquistaram e saquearam Fez, matando muitos judeus. De temperamento violento, queriam aplicar com severidade a Lei Islâmica (Sharia). Por algum tempo, a situação dos judeus se tornou

Um maiores Talmudistas de todos os tempos, Rabi Yitzhak Al- Fassi haCohen, o RIF, viveu em Fez,

A maioria, no entanto, para salvar a vida, aceita proforma o Islã, enquanto secretamente continua praticando o judaísmo. Um dos momentos mais dramáticos para a comunidade judaica marroquina foi quando, consultado sobre a escolha feita, um sábio que vivia fora do Marrocos deu uma resposta

Al-Bakri (c. 1014-1094) foi um

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historiador árabe de Andaluzia. Considerado o maior geógrafo do mundo muçulmano.

Rabi Ibn Ezra – Abraham ben Meir Ibn

4

Ezra (1089- 1167) viveu na Espanha e foi grande erudito em Torá, conhecimento artísticos e seculares.

As invasões causaram destruição e sofrimento para os judeus sob domínio dos almôadas, (em árabe, al-Muwahhidun, ou seja, “os monoteístas”), totalmente intolerantes com os nãomuçulmanos. Relatos da época falam de massacres, destruição e conversões forçadas.

maimônides

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devastadora: teria sido melhor escolher a morte à conversão. Maimônides, que, à época, já residia em Fez, levantou-se em defesa dos criptojudeus. Ele escreve a famosa “Carta sobre a Apostasia”, Igueret ha-Chamad, na qual rechaça, com veemência, a responsa do sábio. Na Carta afirma que o sábio devia desconhecer a realidade dos que viviam sob o jugo almôada. Ademais, afirma, no decorrer de nossa História outros judeus haviam sido forçados a aceitar, na aparência, uma fé que não era a nossa, fato que, pela Lei Judaica, não os transformara em não judeus. No entanto, o ideal seria que os judeus abandonassem os lugares onde fosse difícil praticar a nossa religião, abertamente, o que ele próprio fez em 1165, quando deixa Fez com sua família, indo para o Egito. Com o passar do tempo, de fanáticos radicais os almôadas se transformam em governantes refinados. A situação dos judeus também melhora; no início do século 13 cessam as perseguições e, aos poucos, o judaísmo marroquino vai recuperando seu fôlego.

Os merínidas

Bab Bou Jeloud ou Portão Azul de Fez, principal entrada ocidental de Fez elBali, Antiga Fez

palácio imperial e o méchouar, um recinto a céu aberto onde os sultões reuniam os ministros ou realizavam audiências públicas. São também erguidos imponentes palácios, residências e jardins, mesquitas e madraças. Todas as construções do período – suntuosas e com rica decoração ornamental – são o melhor exemplo dos estilos arquitetônicos mouro e marroquino.

Em meados do século 13, há mais uma mudança de política; os almôadas são removidos por uma nova dinastia berbere islâmica, os merínidas, que irá governar o Marrocos até o século 15.

Sob o governo dos merínidas, os judeus vivem um período de tranquilidade e prosperidade. Em Fez, eles desempenhavam um papel importante na economia local, e a comunidade passa a atrair judeus vindos de outras partes do Marrocos e do Norte da África.

Os novos governantes mudam a capital do reino de Marrakesh de volta para Fez. A cidade é ampliada e atinge seu apogeu. Em 1276, fundam Fez Jdid (Nova Fez), como um anexo murado a Fez el Bali (Antiga Fez). Na Nova Fez, são erguidos o esplendido

Um fato importante para a história dos judeus marroquinos, é que, após o período almôada, não restam cristãos nativos no Marrocos. Sendo assim, a interdependência entre os sultões e os judeus – únicos dhimmis restantes – torna-se especialmente forte. 55

Em Fez e outras cidades importantes a segurança física e politica da comunidade judaica estava nas mãos dos sultões, que por sua vez dependiam dos judeus para realizar serviços importantes, como a cobrança dos impostos, a cunhagem de moedas e os trâmites diplomáticos. Também funcionavam como mercadores reais, tendo o monopólio no comércio de certas mercadorias em países europeus. Esse tratamento preferencial aos judeus e os laços que mantinham com o Sultão geram ressentimentos, ao ponto de incitarem um pogrom em Fez no ano de 1276. Mas a paz volta a reinar na cidade e a coexistência pacífica entre judeus e muçulmanos no Marrocos volta a imperar até o século seguinte. Em meados do século 15, os merínidas começam a perder o controle sobre o país, tendo dificuldade em manter a segurança das comunidades judaicas. abril 2018


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A situação se torna insustentável quando em 1438, as massas muçulmanas atacam, uma vez mais, a população judaica da cidade, provocando muitas mortes. Os judeus são falsamente acusados de ter introduzido garrafas de vinho em uma mesquita. O sultão intervém e, para protegê-los de distúrbios recorrentes, realoca-os em Fez Jdid, na parte murada da cidade, próxima ao palácio real. O bairro, construído sobre uma antiga mina de sal, era chamado de mellah (sal, em árabe), numa referência a jazidas de sal ou pântanos de sal. As residências dentro do mellah se distinguiam das muçulmanas por suas janelas para o exterior e varandas de madeira e de ferro batido. Durante um longo período o mellah de Fez continuou a ser o único existente no Marrocos. Somente na segunda metade do século 16 (por volta de 1557) é criado o segundo em Marrakesh. Quando o bairro judeu foi criado, não havia nada de depreciativo no termo mellah. Pelo contrário, suas casas grandes e belas eram as residências preferidas pelos “agentes e embaixadores de príncipes estrangeiros”. Posteriormente, contudo, a palavra mellah assumiu conotações pejorativas. A etimologia popular “transformou-a” em “terreno salgado e amaldiçoado”, ou o local onde os judeus “salgavam a cabeça dos rebeldes que decapitavam”.

jihad, “uma guerra santa”, contra Aaron ben Batash, vizir judeu nomeado primeiro ministro pelo Sultão Abu Muhammad Abd AlHaqq para colocar no prumo as finanças públicas. O Sultão e ben Batash são assassinados e quase toda a comunidade judaica, dizimada. Esta somente iria se recuperar com a chegada dos refugiados da Espanha.

A chegada dos Sefaradim Em virtude da proximidade do Marrocos com a Península Ibérica, seus governantes eram intimamente ligados aos acontecimentos na Espanha, onde, na Idade Média, vivia a maior e mais próspera população judaica do mundo. Mas, com o avanço da Reconquista pelo Reis Católicos, os judeus foram sendo cada vez mais perseguidos. Após uma onda de violência antissemita em 1391, muitos deles buscaram refúgio no Marrocos, onde a dinastia reinante merínida os favorecia.

Naguid – palavra hebraica para príncipe

ou líder. Título aplicado ao líder religioso nas comunidades sefarditas.

A sinagoga Ibn Danan, recentemente restaurada, foi fundada no século 17 pelos megorashim e, de acordo com uma tradição local, eles decidiram construir uma sinagoga própria pois os judeus locais se recusavam a deixá-los frequentar as suas. A sinagoga Slat Alfassiyine (Oração dos habitantes de Fez) foi fundada no século 17 pelos judeus da cidade. As duas sinagogas ficavam a uma quadra de distância, uma da outra. Com o passar do tempo, a influência dos sefaraditas espalha-se por todo o país e muitos de seus costumes se tornam a regra. Em Fez, cabia aos sefaradim a importante função de Naguid5, criada na cidade no início do século 16. A maioria das ieshivot eram dirigidas por eruditos sefarditas, entre os quais Rabi Nachman B. Sunbal, Rabi Samuel Chaguiz, Rabi Judah Uzziel, Rabi Shaul Judah, Rabi Chayyim Ibn Atar e Rabi Samuel Sarfaty. Havia, também, famosos dayanim, juízes das cortes religiosas. Muitos de seus rabinos lecionaram em comunidades do exterior.

Com a queda dos sultões merínidas, volta a anarquia política e o fanatismo. E nem no mellah os judeus de Fez estão a salvo. Em 14 de maio de 1465, os líderes religiosos islâmicos organizam um 5

Os sefaraditas, chamados de megorashim,, “exilados” ou “expulsos”, se estabelecem principalmente no litoral Norte, onde se tornam a maioria. Um grande número de sefaraditas se estabelece em Fez. A princípio, os toshavim, “habitantes do lugar”, como eram chamados os judeus que viviam na região há séculos, tratam os megorashim com desconfiança. Estranham seus hábitos, seus min’haguim; até o idioma era diferente, pois enquanto os sefaraditas falavam espanhol ou português, os toshavim se comunicavam em judeu-árabe.

rua dos merinídas, no mellah, fez el jdid,

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Fez se torna, também, eminente centro da Cabalá espanhola, pois renomados cabalistas lá


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se estabelecem e produzem importantes obras. As contribuições mais duradouras à disseminação da Cabalá se devem aos membros da família Azulai, que se estabeleceu em Fez após a expulsão da Espanha, em especial a Abraham ben Mordechai Azulai (l570-1644), já nascido na cidade. No Marrocos, difundiu-se o estudo de partes do Zohar (literalmente, “Esplendor” ou “Brilho”). A Cabalá espanhola baseia -se na centralidade dessa obra compilada por Rabi Shimon bar Yochai. De acordo com os ensinamentos cabalistas, os Tzadikim, os “Justos”, são considerados a “pedra fundamental do mundo”, e não pode ser considerada completa nenhuma discussão sobre os costumes religiosos e o folclore do judaísmo marroquino sem a compreensão da profunda convicção arraigada nesses judeus: a veneração pelos Tzadikim. Com o tempo, apesar da enorme influência dos oriundos de Sefarad sobre a vida religioso-cultural das comunidades judaicas do Marrocos, eles próprios acabam por assimilar aspectos da cultura judaica local, criando uma nova síntese tipicamente marroquina, assim como um novo dialeto hebreuhispano-marroquino, chamado de Haquitia. Uma curiosidade sobre o dialeto é a explicação para seu nome, que seria proveniente de Haquito, diminutivo de Itzhakito, do nome Itzhak, muito usado pelos judeus de origem espanhola. Seria, pois, a Haquitia, o idioma dos “Yitzhaks”, ou seja, dos judeus. Mas talvez a explicação mais correta seja mesmo a de que o nome provenha de uma palavra árabe, Haka, conversa, narração – com seu sufixo em castelhano.

Interior da Sinagoga Ibn Danan, no Mellah. Fez El Jdid, Marrocos

Na segunda metade do século 16, Fez perde sua importância política e econômica, o que faz com que muitos judeus sefarditas de posses deixem a cidade. A chegada de 1.300 abastadas famílias de toshavim muda a composição comunitária de Fez, que perde seu caráter sefaradita. A maioria de seus membros trabalham como ourives, na manufatura de fio de ouro, fabricação de rendas, confecção de bordados e na alfaiataria.

A dinastia saadiana, que assume o poder nesse século, é castigada por instabilidade política e ataques militares, e continua a luta contra a dominação estrangeira, fazendo com que o Marrocos continue a ser o único país do Norte da África a não ser ocupado pelo Império Otomano. Para financiar suas atividades militares, os sultões saadianos impõem pesados tributos aos judeus. E, para assegurar que eles tenham recursos adequados para pagar esses impostos, dão aos mercadores judeus o monopólio das exportações de açúcar. Esses mercadores são também responsáveis por um grande percentual das importações de tecidos e armas da Europa. Os judeus também desempenham um papel fundamental no comércio das caravanas com a África Subsaariana, financiando as trocas comerciais de tecidos e cereais europeus por ouro, penas de avestruz, goma arábica e marfim.

A Era Moderna No século 17, instala-se no poder nova dinastia, originária do Sudeste marroquino, os alaouitas. Essa dinastia está no poder até hoje e é 57

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aos judeus de Fez e Meknès. Em Fez, o sultão ordena a destruição das sinagogas e a pilhagem da comunidade, e a expulsão dos judeus da cidade. Seu retorno é autorizado dois anos depois, mas a comunidade havia sido reduzida a um quarto do que era, anteriormente.

Sinagoga Roben E. Sadoun (Reuven ben-Sa’adun) - última sinagoga em funcionamento em Fez, construída em 1920

considerada descendente do Profeta Maomé. Moulay Rachid, primeiro mandatário alaouita, toma o poder na década de 1660. Após colocar as rotas de caravanas no Marrocos Oriental e Ocidental, sob seu domínio ele consegue a cooperação dos mercadores judeus no financiamento de seu novo reino. Fontes judaicas relatam a “dança” das fortunas judaico-marroquinas na Era Moderna. Durante o reinado do sultão Moulay Ismail, quando o Marrocos atinge seu apogeu, dois dos mais importantes conselheiros são judeus – Moshé Ben Attar e Youssef Memran. Mas, em 1727, com a morte de Ismail, o país entra em um período de anarquia durante o qual são arrasadas comunidades judaicas inteiras. E, se sob o sultanato de Mulay Muhammed (1757-1790), os únicos diplomatas enviados a países ocidentais são judeus, e o Sultão aumenta constantemente

a importância econômica e política da comunidade judaica, seu filho, Mulay al-Yazid, nutre intenso ódio a eles. Mulay al-Yazid foi responsável pelo massacre de milhares deles em Tetuan, Marrakesh, Fez e Meknès. O pior tratamento é reservado

Porta de entrada de uma antiga sinagoga, Fez

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À medida que a dinastia alouita desenvolve ligações comerciais e diplomáticas mais estreitas com as nações da Europa Ocidental, torna-se preponderante o papel dos grandes comerciantes judeus. Eles obtêm dos sultões o virtual monopólio do comércio ultramarino e se tornam responsáveis pela diplomacia do país. Os judeus, únicos intermediários plausíveis entre o mundo islâmico e o europeu, também eram indispensáveis para os europeus. Dentre estes últimos, aqueles que viajavam a Fez ou lá viviam tinham contato mais próximo com os judeus do que com os muçulmanos, e quase todos os relatos sobre Fez e o Marrocos, em geral, nos séculos 18 e 19, contêm alguma menção aos judeus e seus costumes. Alguns oferecem detalhadas descrições de suas residências, joias, casamentos e beleza das mulheres judias. Assim como em outros países do Oriente Médio e do Norte da África, para proteger seus interesses, as nações europeias instalam consulados que podiam estender sua proteção a representantes e funcionários locais, via de regra, judeus. Tal “representação judaica” dos poderes europeus provoca um forte ressentimento entre as massas islâmicas, fazendo com que a comunidade passe a servir de bode expiatório. “Estimulado” pelos europeus, em 1864 o Sultão Sidi Mohammed emite um decreto real ordenando que os judeus sejam


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tratados como iguais perante a lei, com justiça e imparcialidade, sob pena de condenação para quem assim não proceder. Nesse período, graças aos esforços de Rabi Abner Sarfaty e Rabi Isaac Ibn Danan ressurge em Fez o interesse pelos estudos judaicos. Rabi Ibn Danan provinha de uma prestigiosa dinastia rabínica original de Granada, na Espanha. Com o passar dos anos, essa família de eruditos compilou os Divre ha-Yamim shel Fas (Crônicas de Fez), narrando a história da comunidade de Fez e de como judeus ibéricos haviam sido expulsos da Espanha e se tornado parte da comunidade judaica marroquina. Na Era Moderna se tornam cada vez mais profundas as diferenças econômicas e sociais entre os membros da comunidade de Fez. Enquanto os diplomatas ou grandes comerciantes formavam uma pequena, mas poderosa, classe alta, a maioria da população era composta de vendedores ambulantes, pequenos artesãos e ourives, e vivia em grande penúria, assim como seus vizinhos muçulmanos.

1.

Em busca de um futuro melhor, a partir do século 19 inicia-se um intenso processo de emigração para a Europa, América do Sul, destacadamente para a Amazônia, e para Eretz Israel. No início do século 20, a comunidade judaica de Fez contava com 12 mil pessoas. Havia muitas escolas judaicas, cinco ieshivot e uma escola francesa, fundada pela Alliance Israëlite Universelle e financiada pelos dignitários comunitários, além de uma importante sociedade beneficente.

RABI CHAIM SERERO na sinagoga “Slat Alfassiyine”, FEZ

No dia 30 de março de 1912, o sultão Abdelhafid assina o Tratado de Fez, através do qual cedia a soberania de partes do Marrocos à França. Passadas cerca de duas semanas, os judeus são alvo da fúria muçulmana. Apesar dos avisos de uma revolta, a maior parte das tropas francesas é instruída para deixar Fez, e, estranhamente, a Autoridade Militar Francesa confisca todas as armas em posse de judeus. Na manhã de 17 de abril, as autoridades francesas anunciam as

3.

2.

1. colar de múltiplas filas de coral, contas e moedas de prata 2. Vestido de casamento, em veludo verde, Fez 3. Colar tipo peitoral “RIF”. Medalhão e contas em prata fundida

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A 2ª Guerra Mundial Em agosto de 1941, o Governo de Vichy, na França, promulga, no Marrocos, leis que discriminam a população judaica, determinando quotas de médicos e advogados judeus, expulsando os alunos judeus das escolas francesas e obrigando os judeus que viviam nos bairros europeus a viver nos mellahs. Quando as autoridades francesas ordenam o recenseamento de todas as propriedades judaicas no país, a liderança judaica teme que fosse isso fosse o precursor de um confisco geral. Secretamente, o sultão Mohammed V consegue esconder no palácio um grupo de judeus proeminentes, dentro de um vagão coberto, para que pudesse reunir-se com eles longe dos olhos das autoridades francesas de Vichy. Segundo relato de um dos presentes, ele promete aos judeus a sua proteção, assegurando-lhes que aquele recenseamento não era o primeiro passo de um plano para

Riad ou pátio típico das residências marroquinas. Fez

novas medidas para os soldados muçulmanos. Muitas unidades se amotinam causando total perda de controle. Os soldados atacam seus comandantes franceses, e depois abandonam seu quartel e atacam os bairros europeus e judaicos da cidade. Para os judeus, os eventos ficaram conhecidos como o “Tritel”, enquanto que para os franceses como “Les Journées Sanglantes de Fès” (Os dias sangrentos de Fez). Milhares de soldados marroquinos entram no mellah, deixando um saldo de 50 judeus mortos e suas propriedades, saqueadas e incendiadas. Morrem também nos distúrbios 66 europeus e 600 marroquinos.

CEMITÉRIO JUDAICO EM FEZ

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arquitetura em Fez Jdid

confiscar seus bens e propriedades. Porém, Mohammed V não podia agir totalmente conforme sua vontade, pois estava à mercê dos franceses de Vichy que controlavam seu reino. Com isso, acabaram por ser aprovadas e postas em prática certas medidas discriminatórias e os judeus foram deportados para campos de trabalho no Saara.

nacional e uma constituição democrática. Mas, a França somente abriria mão de seu protetorado no Marrocos em 7 de abril de 1956.

Após a conclusão da Operação Tocha, em que as forças Aliadas abrem uma nova frente de batalha contra os alemães ao desembarcarem na costa norte-africana, em novembro de 1942, o Marrocos fica em mãos da França Livre, e as restrições contra os judeus são renovadas.

Em 1947 e 1948, em resposta à retórica árabe anti-judaica na esteira da criação do Estado de Israel, e a irrupção do conflito árabe-israelense, o sultão Mohammed V alerta os muçulmanos para que não ataquem os judeus do Marrocos, lembrando-lhes que estes sempre tinham sido protegidos em seu reino e sempre haviam demonstrado sua devoção ao Trono. Enfatiza que eles eram súditos respeitados que apoiavam o Sultão. Seu pronunciamento é lido em todas as sinagogas do país.

Com o término da 2a Guerra, os marroquinos esperavam que as potências estrangeiras abandonassem o Marrocos à sua independência. No entanto, isso não ocorre. Em 1944, o sultão Mohammed V apoia um manifesto nacionalista, exigindo independência plena, reunificação

Mas a tensão associada à Guerra dos países árabes contra Israel e o início da emigração marroquina para Israel contribuem para a eclosão de pogroms nas cidades de Oujda e Djerrada, em junho de 1948. Os ataques provocam 8 mortes, 600 feridos e 900 pessoas desabrigadas na comunidade judaica 61

de Oujda. Já em Djerrada, são 39 mortos e 44 feridos. O Marrocos, que foi a pátria para mais de 250.000 judeus na primeira metade do século 20, hoje conta apenas com cerca de 3.000 judeus no país, apenas 150 dos quais vivem na outrora vibrante Fez. Sem sombra de dúvidas, o Marrocos é o país islâmico mais pró-Israel – apesar do fato de que vertentes cada vez mais expressivas da sociedade conclamem à nãonormalização das relações com o governo de Jerusalém.

Bibliografia

Stillman, Norman A, The Jews of Arab Lands: A History and Source, Jewish Publication Society of America Stillman, Norman A, Jews of Arab Lands in Modern Times, 2003 Marglin, Jessica M., Across Legal Lines: Jews and Muslims in Modern Morocco, 2016. Ebook Kindle Goldenberg, André, Art and the Jews of Morocco abril 2018


arte

A ARTE DE ILYA SCHOR Judeu polonês naturalizado americano, Ilya Schor foi um artista de várias facetas. Pintor, escultor, ourives, ilustrador, era conhecido por seu trabalho em peças de arte judaica, entre as quais, coroas de Torá (Keter Torá), candelabros, mezuzot e joias, e por suas ilustrações de valiosos textos de filosofia judaica religiosa e literatura folclórica. Suas obras estão expostas em museus do mundo todo, além de constarem em coleções particulares.

I

lya, filho de Naftali e Kradja Schor, nasceu em 16 de abril de 1904 em Zolochiv, um dos tantos shtetls na Galícia, à época parte do Império Austro-húngaro. Seu pai, Naftali, era um pintor dedicado à arte popular, que ganhava a vida pintando cartazes ilustrados em muitas cores para os comerciantes locais. Ilya deu seus primeiros passos no mundo da arte com apenas 16 anos aprendendo a fazer gravura em metal.

humildade da vida tradicional Chassídica é refletida com vigor”. Depois do Tratado de Paz de Riga, de 1921, Zolochiv, tornou-se parte da recém-criada República da Polônia. Em 1928 Ilya vai para Varsóvia estudar pintura na Academia de Belas Artes. Lá, dois anos mais tarde, ele conhece Resia, uma jovem judia originária de Lublin que tinha-se matriculado para estudar pintura na mesma instituição. Em 1936 ele se forma e, no ano seguinte, ganha uma bolsa do governo polonês para continuar seus estudos em Paris e na Itália.

Seus pais, assim como a maioria dos judeus de Zolochiv, seguiam o movimento Chassídico e a infância e juventude de Ilya foram profundamente embebidas no mundo religioso dos judeus da Europa Oriental, sendo que esse tipo de vida teve uma grande influência em seu trabalho. Ao descrever sua forma de expressar a arte, sua filha Mira escreveu: “Cada uma de suas pinceladas carrega um DNA artístico pertencente ao passado, e em cada um de seus traços vê-se a influência da leveza da cor fugidia em Pierre Bonnard1, mas, em seu trabalho, a

Chega em Paris em abril de 1937. Logo começa a trabalhar com um de seus professores na criação de um grande mural para o Pavilhão Polonês na Feira Mundial de Paris, a se realizar naquele ano. Terminado o mural, o professor o aconselha a permanecer em Paris, pois eram escassas as oportunidades para um artista judeu, na Polônia. Resia também se mudara para Paris, a Cidade-Luz. Os dois jovens artistas usufruíam juntos da efervescência criativa de sua geração de judeus, que tinham atingido a maioridade no entre-guerras e entraram, de cabeça, no mundo artístico da Paris do final da década de 1930.

Pierre Bonnard (1867-1947) pintor de peso para o nascimento da Arte Moderna. Fundador do grupo simbolista dos “nabis“, sua contribuição é fundamental para se entender a passagem entre o pós-impressionismo e o simbolismo.

1

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casamento na aldeia. guache sobre cartão

Em 1938, Ilya participa do Salão de Outono de Paris e, embora ainda desconhecido, seu trabalho é muito elogiado pelos críticos. Apaixonados, Ilya e Resia queriam muito se casar, mas por serem estrangeiros não podiam ter um casamento civil, apenas uma cerimônia religiosa que não era reconhecida pela lei francesa. Eles viviam em um sótão no último andar de um edifício na Rua Charlot, no bairro judeu de Paris – o Marais. Após a Polônia ser invadida pela Alemanha, em setembro de 1939, conseguem obter o status de residentes e se casam em uma cerimônia civil, em Paris. Com o avanço das tropas alemãs na Europa Ocidental e com medo de que os nazistas tomassem Paris, Resia insiste com o marido para deixarem a cidade. Conseguem sair pouco antes da chegada das

tropas nazistas. De um grupo de cerca de 11 judeus poloneses que conseguiram fugir, juntos, de Paris, Ilya e Resia foram os únicos a sobreviver à Shoá. O destino do casal foi Bordeaux, onde se reuniram com amigos que trabalhavam no Joint Distribution Committee. Em seguida, vão até Marselha para tentar conseguir vistos de emigração para os Estados Unidos. Em Marselha se encontram com outros jovens artistas judeus: pintores, músicos e outros membros da chamada intelligentsia da Europa. Todos lutavam para deixar a Europa e conseguir vistos para os Estados Unidos ou outros países das Américas. Terminada a 2ª Guerra, já em 1955, ao preencher o formulário para a compensação por bens perdidos durante o período nazista 63

ILYA SCHOR

abril 2018


arte

Resia Schor

(Conference for Jewish Material Claims against Germany), Ilya descreve o período que passou em Marselha: “Sou um artista judeu originário da Polônia. Perdi todas as minhas obras e meu material artístico ao fugir, em 1941, da França ocupada pelos nazistas e ir para Marselha e de lá para os EUA. Fui duas vezes detido pelas forças policiais francesas de Vichy e levado a um campo de concentração próximo a Marselha. Só fui libertado quando recebi meu visto americano”. Muitos dos membros da família de Resia e de Ilya não conseguiram fugir e pereceram durante a Shoá.

simchat torá. (assinado em hebraico), óleo e guache sobre cartão

O mundo artístico de New York O casal Schor deixou a Europa no final de 1941 e só retornaria à França em 1958, acompanhado pelas filhas Mira e Naomi. Eles chegam a Nova York via Lisboa em 3 de dezembro. Iniciava-se uma nova fase de sua vida pessoal e artística. Estabelecem-se em Manhattan, no chamado Upper West Side. Resia passa a trabalhar com outros intelectuais e artistas refugiados recém-chegados, em uma pequena fábrica de tijolos pintados à mão. Ilya, por sua vez, volta a pintar. Em seus trabalhos, ele reproduz as suas memórias da vida dos judeus na Europa Oriental. Nas palavras da segunda filha do casal, Mira, “ele adorava desenhar e pintar e todos ficavam encantados com a delicadeza e perfeição de suas linhas, com qualquer meio que fosse… seus movimentos, rápidos e precisos, seu toque, extremamente hábil”. Nova York descobre a arte de Ilya quando, em 1944, o artista monta sua “Exposição de Guaches de Ilya Schor: Composições, Flores, Paisagens, Estilo de Vida”, na Biblioteca Pública da cidade, na Rua 58. E, no mesmo ano, ele participa de uma mostra coletiva no Museu de Arte Contemporânea de Boston. Em 10 de outubro de 1944 nasce, em Nova York, a primeira filha do casal, Naomi. Acadêmica em Teoria Literária, Naomi faleceu em 2001, aos 57 anos. Em 1947, mais uma exposição, dessa vez na Galeria de Arte

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Judaica, também em Nova York, intitulada Pinturas sobre temas iídiches. Seus trabalhos The Giving of the Law e Ten Commandments foram incluídos na exposição inaugural do Museu Judaico, na antiga mansão Warburg, na Quinta Avenida. Em 29 de dezembro daquele ano Ilya e Resia tornam-se cidadãos americanos. Em 1949, obras de Ilya passam a integrar a The One Hundred and Forty-Fourth Annual Exhibition of Painting and Sculpture, da Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia. E é incumbido de ilustrar duas importantes obras do renomado filósofo e teólogo, Rabi Abraham Joshua Heschel: The Earth is The Lord’s: The Inner World of the Jew in Eastern Europe”, publicada em 1950, e The Sabbath. O rabino Heschel assim se referiria às obras de Schor: “Na quietude das preciosas imagens, Ilya Schor trouxe à vida o espírito eterno de Israel, e as gerações futuras ouvirão a voz e a espiritualidade de nosso povo na Europa Oriental”. Ele também ilustrou o livro Adventures of Mottel, the Cantor’s Son, de Sholem Aleichem. As três obras ilustradas por Ilya continuaram sendo impressas, há mais de 60 anos. Em junho de 1950 nasce a segunda filha do casal, Mira, que se tornaria uma artista, escritora e feminista renomada.

shabat (judeus com torá). óleo sobre cartão

anualmente mostras individuais e coletivas em várias galerias de Nova York, Boston e Chicago. Entre suas obras está uma rara coleção de objetos de Judaica em ouro e prata. Em seus últimos anos, dedica-se à escultura, produzindo obras abstratas em bronze e cobre. Entre seus principais trabalhos destacam-se as portas do Aron HaCodesh do Templo Beth-El, em Great Neck, estado de Nova York.

Resia Schor também continuou sua vida artística, participando de exposições em Nova York na década de 1950, sob o nome de Resia Ain. A fama de Ilya consolida-se cada vez mais e ele passa a realizar

rabino com torá. assinado também em hebraico. óleo sobre tela

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Ilya Schor morre em Nova York, em 1961. Sua filha Mira escreve, na ocasião: “Meu pai desenhou, pintou e fez gravura, e muito, muito mais, com a mesma facilidade com que respirava. E, na verdade, considerando-se abril 2018


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sua morte prematura, com muito menos esforço do que respirava...”. Após a morte do marido, Resia passa a trabalhar exclusivamente com metal, criando peças únicas de joalheria e arte judaica, bem como esculturas em multimídia – tudo em seu ousado estilo abstratomodernista, com um grande senso pictórico de cor e textura. Ela só veio a falecer em 2006 broche em prata, ouro e brilhantes. coleção de mira schor, n. york.

mostra Life of the Old Jewish Shtetl: Paintings and Silver by Ilya Schor, no Museu da Yeshiva University. Em 2000, é a vez da mostra Ilya Schor and His Great Neck Patrons, no Museu de Arte Judaica Elsie K. Rudin, Great Neck, Nova York.

Uma exposição retrospectiva da obra de Ilya foi realizada em 1965 no Museu Judaico de Nova York. Dez anos depois, é realizada a

Suas obras fazem parte do acervo do Museu Metropolitan de Arte, do Museu Judaico, da Grande Sinagoga de Nova York, da Coleção de Mezuzot Jacob e Belle Rosenbaum, do Museu de Arte da Carolina do Norte e do Museu de Arte Judaica de Sidney, na Austrália, entre outros.

noiva. Na base da caixa, desenhos simétricos de um vaso com motivos florais ladeados por cercas e pássaros, e ao centro uma placa circular com marcas do artista. No lado interno está a inscrição Mazaltov, em hebraico.

Ilya Schor fez esta caixa para o pintor Mane Katz, em 1958, em Nova York. O estilo desse trabalho lembra os recortes de papéis que enfeitavam as janelas das casas nos shtetls da Europa Oriental durante a comemoração de Shavuot.

A Caixa de Casamento é um dos trabalhos mais representativos de Ilya Schor. Feita em relevo em ouro e prata, reproduz na tampa a noiva, o noivo e o rabino sob a chupá erguida por crianças e músicos klezmer. Na parte da frente, um homem e uma mulher carregam bandejas também ladeados por crianças. Em três círculos há inscrições em iídiche: “Que assim seja, com boa sorte”. Do lado direito, há um painel com inscrições em hebraico: “Alegria e alegria, noivo e noiva”, ladeadas com imagens do casal de noivos; o lado esquerdo com a inscrição hebraica: “Seu pai e sua mãe devem se alegrar e aquela que a carregou deve estar feliz”, ladeada pelas imagens dos pais da

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O LEVANTE DO GUETO DE VARSÓVIA Varsóvia, abril de 1943, véspera de Pessach. Há 75 anos, jovens judeus com poucas armas e sem experiência militar decidiram não se curvar e enfrentar, de peito aberto, o poderio militar alemão que colocara a Europa de joelhos. Sua escolha não era entre viver ou morrer, mas “como morrer”. Lutaram até o fim para preservar sua dignidade e a honra de nosso povo.

A

saga do Gueto de Varsóvia se inicia com sua criação, em 1939, e termina com o fim do Levante. Esse episódio foi relatado infinitas vezes e o será muitas outras mais, pois o Gueto de Varsóvia se tornou símbolo da tragédia e do heroísmo judeus. Nele, o mais numeroso dentre todos os guetos, os judeus enfrentaram mais fome, mais falta de espaço, mais doenças. E nenhum ato durante o Holocausto teve poder tão inflamatório quanto o levante que ocorreu dentro dos muros de Varsóvia, tornando-se símbolo da resistência e determinação judaica.

escritores, rabinos e assistentes sociais. Hoje, a parte descoberta dos Arquivos, com cerca de 6 mil documentos e 35 mil páginas, está no Instituto Histórico Judaico, em Varsóvia.

A criação do gueto – novembro de 1940 A saga teve início quando o exército alemão entra na Polônia, em 1º de setembro de 1939. Após romper as defesas polonesas, os alemães seguem rumo a Varsóvia e sitiam a cidade. O bairro judeu foi o mais assolado pelo bombardeio alemão. No dia 29, as forças do Terceiro Reich entram na cidade e Varsóvia se torna parte do Governo Geral1 .

Os acontecimentos durante o Levante e os que o precederam estão relatados em inúmeros diários, relatos de sobreviventes, registros e estatísticas alemãs. As informações mais detalhadas constam dos Arquivos “Oineg Shabbes”, em iídiche (Oneg Shabat, em hebraico) desenterrados após a 2ª Guerra. Este grupo, criado pelo historiador Emanuel Ringelblum, incluía

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A perseguição aos judeus é iniciada imediatamente, apesar dos comandantes da Wehrmacht terem assegurado aos líderes comunitários que não havia o que temer. Decretos após decretos são promulgados, todos visando humilhar, isolar e minar a capacidade de sobrevivência judaica.

Após a invasão alemã e soviética, a Polônia é dividida em três partes: uma é incorporada ao Reich (Wartheland), outra torna-se um protetorado alemão (Governo Geral) e a terceira é incorporada à União Soviética.

Uma das primeiras providências para garantir a implementação de suas ordens é a criação, em Varsóvia e 67

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em outras cidades, do Judenrat2, um Conselho Judaico que seria dirigido por Adam Czerniakow, de outubro de 1939 até seu suicídio, em 23 de julho de 1943. No diário que manteve até seus últimos momentos, ele revela que os Judenrat funcionavam em um ambiente de incerteza, violência e falta de poder. Devido aos interesses conflitantes entre a administração civil alemã, o exército e as SS, o Conselho Judaico consegue atrasar a criação do Gueto por um ano. No dia 12 de outubro de 1940, eles recebem a notificação nazista sobre a delimitação de um “bairro residencial judaico em Varsóvia”. Era Yom Kipur – os nazistas tinham uma “predileção” por infligir os maiores castigos nos dias mais sagrados do calendário judaico. Dos 375 mil judeus que viviam na cidade, cerca de 140 mil não residiam nas áreas delimitadas. Os nazistas deram prazo até o final de outubro para a transferência para o Gueto. Um terço da população de Varsóvia seria encurralada numa área de quatro quilômetros quadrados... Em 15 de novembro o Gueto é lacrado e cercado por um muro alto; suas portas de saída vigiadas por homens armados. Nenhum judeu poderia entrar nem sair, a não ser para os trabalhos forçados, a deportação ou ser enterrado.

Os Judenrat, palavra alemã para

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“Conselho Judeu”, eram obrigados a assegurar nos guetos, o cumprimento de todas as determinações alemãs, e situavam-se como “intermediários” entre os nazistas e a comunidade judaica. Aqueles que se recusavam a seguir ou cooperar com as ordens nazistas eram assassinados ou deportados para os campos de extermínio.

Para tentar entender a nova realidade com que os judeus se defrontavam, temos que ter em mente que o gueto nazista era um mundo por si só. Os nazistas haviam cortado qualquer meio de comunicação com o mundo exterior. Era uma situação além de qualquer imaginação: as pessoas tentavam levar uma vida “normal” para não enlouquecer ou perder as esperanças, ainda que as ruas estivessem cheias de cadáveres.

de Varsóvia é criada uma rede de instituições assistenciais e culturais, como uma “comunidade paralela”, independente do Judenrat, para tentar aliviar a vida da população. A preocupação girava em torno da sobrevivência física, moral e espiritual. A principal dessas instituições era Organização de Autoajuda Judaica, que, no primeiro ano, socorreu 160 mil judeus. (V. artigo “A Resistência Judaica”, à pág. 34).

Soldados do general Stroop e os edifícios em chamas durante a repressão ao levante do gueto de varsõvia, 1943

O dia-a-dia era uma mescla de humilhação, dor e perigo. A escassez de alimento, aquecimento, condições sanitárias e medicamentos, e as epidemias decorrentes disso tudo, provocavam a morte de milhares. Os judeus eram insultados, roubados, espancados ou mortos pelos alemães. O trabalho forçado tornara-se obrigatório e milhares de judeus são enviados aos campos. Os que sobreviviam, voltavam quebrantados. Ao ver que tudo desabava em sua volta, muitos judeus se agarraram a seus ideais, convicções religiosas ou políticas antes da guerra. No Gueto 68

As condições de vida pioram em janeiro de 1941 devido ao frio intenso e à chegada de cerca de 150 mil judeus das regiões vizinhas, Alemanha e Áustria. O número de habitantes no Gueto chega a 500 mil, dos quais 200 mil esfomeados. O tifo varre o Gueto de Varsóvia e, até julho, mais de 45 mil judeus morrem de “causas naturais” - fome, frio e doenças. Apesar do combate diário à degradação e desumanização, não havia uma resistência armada. Todos as lideranças – do Judenrat, da comunidade paralela, dos movimentos juvenis, concordavam


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museu da história dos judeus poloneses, varsóvia. projeto do arquiteto finlandês rainer mahlamaki

em um ponto: enquanto houvesse possibilidade de sobrevivência, a prioridade era salvar vidas ainda que de uma minoria. Sabiam que um ato de violência provocaria a morte de dezenas ou centenas de judeus, e, talvez a liquidação “prematura” do Gueto. Vamos ver, mais adiante, que em muitos aspectos a liderança do Gueto passa para as mãos dos líderes dos movimentos juvenis. Altamente motivados, eles haviam retornado para Varsóvia. Eles haviam deixado a cidade antes de ser tomada pelos alemães, juntamente com as elites políticas polonesas e muitos líderes da comunidade judaica. Até que se dessem conta de que os nazistas visavam a aniquilação judaica, a preocupação dos movimentos juvenis era manter a vida e a dignidade dos jovens. Seus integrantes se reuniam em refeitórios e bibliotecas mantidos pela

comunidade paralela. Foram criadas células subterrâneas e estudados os meios de romper o isolamento imposto pelos nazistas. Os esgotos, única via de saída do Gueto, foram “mapeados” após dezenas de jovens terem morrido sufocados ou afogados. À custa de outras dezenas de vidas, estabeleceram contatos com outros guetos através de couriers, em sua maioria mulheres ou jovens sem traços judaicos. A imprensa underground, dirigida pelos movimentos juvenis e partidos políticos, desempenhou papel crucial no preparo dos habitantes do Gueto para o levante armado. Seus jornais foram os primeiros a noticiar os assassinatos em massa em Treblinka, Sobibor, Chelmno e Maidanek.

A “Solução Final” A invasão da União Soviética, em junho de 1941, deu início ao processo de matança sistemática 69

executada pelos Einsatzgruppen. Apesar do “muro de silêncio” erguido pelos alemães, chegam a Varsóvia as primeiras notícias sobre o que ocorria com a população judaica em Mielec, Lublin e Vilna. Os judeus não tinham como saber, mas na Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, os líderes nazistas haviam orquestrado o aniquilamento sistemático dos judeus da Europa – tratava-se de um plano operacional coordenado em escala continental. Membros de movimentos juvenis de Vilna que chegam a Varsóvia para conseguir fundos para a organização de uma resistência armada confirmam o massacre de 20 mil dos 57 mil judeus de sua comunidade, na floresta de Ponar. Ele traziam, também, o alerta de Abba Kovner,: um dos líderes do Hashomer Hatzair: “Hitler planeja destruir todos os judeus da Europa”. As notícias são abril 2018


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1. AS SS AGUARDAM JUDEU QUE SAI DE UM BUNKER. 2. JUDEUS CAPTURADOS NA REPRESSÃO AO LEVANTE 3. JUDEU PULA DO 4º ANDAR DE EDIFÍCIO EM CHAMAS

recebidas com cautela. As lideranças comunitárias não acreditam que os massacres em Vilna eram o prenúncio do cataclismo.

desperdiçados com trabalho cultural e educativo, quando podiam ter “treinado a juventude no manejo de armas”.

As informações sobre campos de extermínio também chegam a Varsóvia. Dois judeus, após fugir do campo de Chelmno, revelam que os nazistas estavam assassinando judeus em câmaras de gás. Era difícil acreditar e, mais difícil ainda, assimilar a terrível verdade. O testemunho de um deles, tomado por um membro do Oineg Shabbes, o grupo de Ringelblum, é transmitido para Londres, onde ficava o Governo Polonês no Exílio.

A Grande Deportação

Os líderes do movimento clandestino, no entanto, já não nutriam ilusões sobre as intenções nazistas e compreenderam que a estratégia de não-provocação que vinha sendo adotada ajudava os planos dos nazistas. Sionistas e comunistas se unem para formar o Bloco Anti-Fascista (AFB), de combate. Mordechai Anielewicz, do Hashomer Hatzair, era um dos líderes. Anielewicz será lembrado para sempre por seu legado de coragem e idealismo, como veremos em seguida, e por sua liderança durante o Levante. Em suas anotações, Ringelblum revela que Anielewicz lhe dissera lamentar os três anos

A sexta-feira, 18 de abril, marca o fim da relativa estabilidade no Gueto. Nessa “sexta-feira sangrenta”, como passou a ser chamada, os alemães assassinam 52 judeus, a maioria envolvidos em publicações clandestinas. Em 12 de maio, quatro líderes da resistência são assassinados na prisão Paiwa. No mês seguinte, mais dois são capturados e fuzilados, sendo também capturadas as poucas armas que a AFB conseguira juntar. Estavam corretas as avaliações dos judeus de que aquelas ações prenunciavam uma nova etapa. No início de julho, Heinrich Himmler, comandante das SS, despacha aos comandantes em Varsóvia a ordem de “reinstalação” de toda a população judaica até dezembro de 1942. A primeira fase da grande “Aktion”, a deportação em massa dos judeus de Varsóvia, tem início na noite de 22 de julho de 1942, véspera de 9 de Av, dia de luto para o Povo Judeu. Prossegue durante sete semanas. Os nazistas avisam ao Judenrat que “os judeus, sem distinção de idade ou sexo, salvo exceções específicas, serão deportados para o Leste”. 70

Apenas seriam poupados aqueles que trabalhavam no Gueto em indústrias alemãs ou os membros do Judenrat. Ao receber a intimação, Czerniakow se suicida, como vimos acima. Milhares são levados diariamente ao ponto de reunião, a Umschlagplatz, onde aguardam para serem jogados, sem água ou comida, nos vagões dos trens de gado. Em 7 de agosto, os nazistas levam as 200 crianças do orfanato do Dr. Janus Korczak. Apesar da possibilidade de se salvar, o grande educador não abandonou “suas crianças”. Marchou à frente dos órfãos, juntamente com sua equipe, até os trens da morte. Na época, o percurso entre Varsóvia e Treblinka, cerca de 78 km, levava quase 12 horas. Ao chegar, os judeus eram atirados dos vagões, enfileirados, para passar por um portão, sobre o qual pendia a cortina da Arca Sagrada da Grande Sinagoga de Varsóvia e onde se lia “Por estes portões passam os justos”. Em 12 de setembro as deportações cessam. De acordo com dados nazistas, 235.741 pessoas haviam sido enviadas ao campo de extermínio de Treblinka. Dez mil morreram nas ruas do Gueto e 12 mil foram enviadas a outros campos de trabalhos forçados.


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A rapidez e rigor da grande deportação surpreenderam os movimentos juvenis e o Bund3, deixando-os sem ação. Em meio à primeira onda de deportações, em 28 de julho, representantes dos movimentos juvenis Hashomer Hatzair, Dror e Bnei Akiva, e do Bund, formam a Organização Judaica de Combate, conhecida por seu acrônimo em polonês, ZOB - Zydowska Organizacja Bojowa. Entre os participantes estavam Yitzhak Zuckerman, Joseph Kaplan, Mordechai Tennebaum-Tamarof e Arie Wilner. Este último foi enviado ao lado ariano para contatar a clandestinidade e obter com urgência armas e orientação. Anielewicz não esteve presente durante a deportação, porque se encontrava numa missão na área de Zamglebie. A resistência polonesa alertara seus contatos sobre o que acontecia em Treblinka. O membro do Bund enviado para investigar volta com a confirmação de que se tratava de um campo de morte, onde judeus eram assassinados, ao chegar, em câmaras de gás. A ZOB divulga um manifesto com as intenções dos alemães e o destino dos deportados: “Massas judaicas, aproxima-se a hora. Deveis estar preparados para resistir. Nem um só judeu deve entrar nos vagões”. Passam a forjar cartões que atestavam que o seu portador era um “elemento produtivo”. Em teoria, quem estivesse de posse de um “cartão de vida”, não era deportado.

Bund foi um movimento político de

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operários judeus, surgido entre a partir de 1890 na Europa.

movimentam para conseguir fundos para a compra de armamento, sendo alguns enviados para o lado ariano para pedir ajuda. A resposta da resistência polonesa foi “Aguardem, não é chegada, ainda, a hora de nos revoltarmos contra os nazistas”. Mas o tempo se esgotava para os judeus...

Judeus do Gueto de Varsóvia se rendem aos soldados alemães após o Levante

Tampouco seriam sua esposa e filhos. No final de outubro, membros do partido Poalei Tsion e os comunistas concordam em se juntar à ZOB. Anielewicz foi designado comandante da Organização dos Combatentes, agora ampliada, e Yitzhack Zuckerman, o segundo homem no comando. Apenas o movimento juvenil Betar não se une, fundando uma organização separada, a ZZW, União Combatente Judaica. É também criado o Comitê Nacional Judaico, com representantes das forças políticas judaicas e dos movimentos juvenis, para atuar como representante dos judeus junto à resistência polonesa. Alguns grupos combatentes defendiam a ideia de que seria melhor organizar a resistência fora do Gueto. Anielewicz e outros, no entanto, defendiam a organização de uma oposição armada dentro do Gueto, pois acreditavam que os judeus que lá viviam não poderiam ser abandonados. Os jovens sabiam que para uma ação militar eram necessárias armas e ajuda. Imediatamente se 71

Após inúmeros apelos, a resistência polonesa lhes fornece dez pistolas e uma pequena quantidade de munições. O arraigado antissemitismo polonês e o fato de não considerarem os judeus capazes de levar a cabo um levante armado, explicam, em parte, a atitude polonesa. A ZOB consegue comprar mais armas de desertores do exército italiano e de membros do Partido Comunista Polonês. Algumas são roubadas de alemães bêbados. Como vimos acima, a ZOB alertava os judeus “para não embarcar voluntariamente nos trens, pois todas as promessas nazistas eram mentiras. Os trens tinham um único destino: Treblinka”. No caso de uma nova “ação”, todos deveriam procurar esconderijo. A ZOB fazia, também, o candente apelo: “Desperta, povo, e luta por tua vida! ”. Os colaboracionistas que viviam dentro do Gueto se tornam alvo da ZOB, particularmente os da Polícia Judaica e os gerentes das oficinas. “Iniciamos uma campanha impiedosa contra todos os traidores...”, diz um de seus comunicados. E, em 20 de agosto de 1942, Israel Kanal, infiltrado na Polícia Judaica pelos movimentos juvenis, executa o chefe de polícia, Joseph Szerynski, um judeu convertido ao catolicismo. Segue-se uma série de outras execuções. A eliminação de colaboracionistas levanta o moral dos remanescentes no Gueto e afirma a autoridade da ZOB. abril 2018


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A resistência de janeiro de 1943 No final de 1942, dos 380 mil judeus que viviam no Gueto restavam apenas 70 mil. Ironicamente, a vida se tornara mais fácil. Os sobreviventes das deportações eram os mais jovens e fortes. Não havia mais crianças, idosos ou doentes. Porém, os que haviam ficado eram atormentados por um sentimento de culpa por terem sobrevivido, permitindo que sua família fosse levada sem qualquer tentativa de oposição. Um ódio profundo e um grande desejo de vingança os corroía. A desesperança torna-se pré-requisito para a resistência. Os nazistas não tinham conseguido levá-los, mas logo voltariam. E, dessa vez, pagariam caro pela vida de cada judeu.

primeira vez, os nazistas caem nas ruas do Gueto, uns mortos, outros feridos. Mas, recuperando-se do choque, eles revidam. A maioria dos combatentes judeus tomba e o próprio Anielewicz se salva por um triz. Apesar do luto pelos amigos, a sensação de realização é grande. Dissipava-se a frustração e a impotência sentidas até então e o sonho de lutar contra os assassinos de suas famílias e de seu povo já não lhes parece tão impossível. No entanto, os nazistas continuam com as deportações, conseguindo

revolta. Os membros da organização combatente superam as divisões ideológicas e a ZOB se unifica; estratégias são planejadas. Marek Edelman, membro do partido Bund e combatente da ZOB relatou em seu livro, The Ghetto Fights: “Nunca antes houve tamanho grau de unanimidade e coordenação entre pessoas de diferentes partidos políticos, como aquela colaboração dos vários grupos, naquele período. Lutávamos todos pela mesma causa justa, igual frente à história e à morte. Cada gota de sangue tinha exatamente o mesmo valor”.

Em janeiro, após uma visita ao Gueto de Varsóvia, Himmler ordena a redução de sua população. Quando, na manhã do dia 18, os alemães entram no Gueto para reiniciar as deportações, pegam a ZOB de surpresa. Os grupos armados não têm tempo de se organizar e entram em ação de forma independente. O primeiro tiro é disparado por Arie Wilner contra nazistas que tentavam entrar em uma das moradias da ZOB. Zuckerman lidera outro grupo. Anielewicz é mais “ambicioso” e traça um plano. Liderando uma dúzia de combatentes armados com pistolas, junta-se às fileiras de judeus levados ao ponto de reunião, o Umshlagplatz. Ao se aproximarem da rua Mila, numa ação simultânea, cada combatente ataca o alemão mais próximo. Ao ouvir os disparos, milhares de judeus correm em todas as direções. Os alemães são surpreendidos, pois esperavam que as deportações acontecessem sem problemas, como de costume. Pela

RETIRADOS À FORÇA DOS ESCONDERIJOS, JUDEUS CAPTURADOS, SÃO LEVADOS PELAS SS PARA UMshlagplatz PARA DEPORTAÇÃO

matar ou colocar nos trens de 5.000 a 6.500 judeus. Estas batalhas iniciais mostraram ser o momento de decisão para os judeus. “A ações eletrizaram o Gueto; os combatentes eram tratados como salvadores, por toda a parte; a Organização Combatente Judaica recrutou centenas de adeptos”. Encorajados pelos resultados das ações de resistência, os judeus fazem planos para organizar uma 72

Abrigos subterrâneos, túneis e passagens são construídos ligando os terraços das casas e edifícios do Gueto. Os judeus do Gueto de Varsóvia se preparam para lutar até o fim. Compram armas do movimento clandestino polonês. Os não-combatentes também se preparam para enfrentar os nazistas. Centenas de bunkers subterrâneos são construídos. A ZOB tornara-se a única autoridade dentro do Gueto.


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Seu lema era “Nem mais um judeu deverá encontrar seu fim em Treblinka! Enquanto a vida de um único judeu estiver ameaçada - ainda que uma única vida - temos que estar prontos para lutar”. Contavam, então, com 22 unidades de combate. Em fevereiro de 1943, espalha-se a notícia do reinício das deportações. Os alemães tentam convencer os judeus remanescentes a se reunir para a “reinstalação” em outro lugar. Visando persuadi-los a partir, nomeiam o gerente da fábrica Taebbens – e não a SS – para chefiar o grupo de “reassentamento”. Em represália, a ZOB incendeia a Fábrica de Marcenaria Habbermans, atacando os guardas alemães, que fogem, apavorados. Nenhum dos 3.500 operários daquela fábrica se apresenta para o “reassentamento”.

O início do Levante A ação final contra o Gueto se inicia em 18 de abril de 1943. O plano era apresentar Varsóvia como “Judenfrei” (livre de judeus) no dia 30 de abril, aniversário de Hitler. Durante a madrugada, dois mil nazistas e colaboradores, pesadamente armados, cercam o Gueto com tanques e caminhões carregados de munição. Alertados sobre os planos nazistas, 750 combatentes judeus estão a postos para recebê-los à bala. À espreita, concentram-se em três postos-chave que controlam o acesso ao Gueto. Os que não podem lutar escondemse nos bunkers.

aquela noite: “Na esquina das ruas Zamenhof e Mila os combatentes atacaram a coluna alemã que entrara no Gueto. Após o primeiro ataque bem-sucedido, com metralhadoras e granadas sobre os SS, a rua ficou deserta. .... Quinze minutos depois, os tanques cruzaram o posto de controle, avançando com força total sobre a posição dos combatentes. Garrafas incendiárias foram arremessadas com precisão e calma, acertando em cheio um tanque. Uma explosão. O tanque foi imobilizado. Os outros dois tanques bateram em retirada, seguidos por alemães apressados, sob a mira de granadas e artilharia certeiras. Eles perderam perto de 200 homens, entre mortos e feridos. Nossas baixas: um combatente”.

sempre na ofensiva. E, novamente, ao anoitecer, os alemães se retiram.

Às cinco da tarde, os alemães batem em retirada. Naquela noite, os combatentes e o remanescente da comunidade judaica de Varsóvia festejam. Os judeus haviam provado a si mesmos e ao resto do mundo que enfrentariam os alemães com armas em punho.

A ZOB viu-se forçada a também mudar de tática. Enquanto combatiam os nazistas, tentavam salvar judeus que as chamas haviam levado às ruas. Ao fim da primeira semana, os alemães trazem artilharia pesada e aviões da Luftwaffe e bombardeiam o Gueto. Agora, todo o Gueto ardia em chamas.

Na madrugada do segundo dia, os alemães voltam ao Gueto. A ZOB explode as minas colocadas anteriormente, matando uma centena de nazistas. Os combates seguem durante todo o dia, a ZOB

No terceiro dia, os nazistas mudam de estratégia, não mais enfrentando os judeus de frente. O fogo se incumbiria de desalojálos. Começam, sistematicamente, a incendiar o Gueto. O calor insuportável força muitos judeus a deixarem seus esconderijos. Marek Edelman descreveu: “Ruas inteiras ficaram bloqueadas por incêndios .... O mar de chamas inundava casas e pátios ... Não havia ar, uma fumaça preta sufocante e um calor ardente irradiavam dos muros vermelho-incandescentes...”. Centenas de judeus, aprisionados nos edifícios em chamas, saltam para a morte.

A ZOB adota, então, táticas de guerrilha. Preparam emboscadas para os alemães; as batalhas alastram-se dia e noite. Forçam, assim, os alemães a lutar rua por rua, edifício por edifício, judeu por judeu... Mas, após uma semana de luta ininterrupta, a situação se torna insustentável para os combatentes. Haviam sofrido poucas baixas, mas estavam exaustos – combatentes e judeus. O fogo consumira as reservas de alimento e os escombros entulhavam a maioria dos poços de água do Gueto. E, o pior, a munição chegava ao fim.

O Levante do Gueto de Varsóvia tem início assim que entram os alemães. A primeira batalha ocorre na rua Nieweski, com vitória total da ZOB. Yitzhack Zuckerman, um dos sobreviventes, descreveu 73

abril 2018


SHOÁ

MONUMENTO AOS HERÓIS DO GUETO. CRIADO EM 1948 POR Nathan Jakow Rappaport. VARSÓVIA

O último dos principais focos de resistência era o bunker de comando da rua Mila 18, onde estavam baseados 120 combatentes. Em 8 de maio, os alemães bombardeiam sua entrada durante duas horas, mas como os combatentes não se rendiam, injetam gás venenoso dentro do bunker, pelos bueiros dos esgotos. Um dos combatentes descobre uma saída oculta; mas poucos conseguem escapar. Os outros, pouco a pouco, morrem sufocados pelo gás, ou dão cabo da própria vida. Uma centena de bravos combatentes judeus perecem na batalha pelo Mila 18, entre eles, Mordechai Anielewicz, o heroico e destemido comandante da ZOB. Em 12 de maio, Shmuel Zygelboym, representante do Bund no Governo Polonês no Exílio, se suicida. Deixa uma carta na qual diz que apesar de a culpa pelo Holocausto ser dos alemães, nem a resistência polonesa, o Governo polonês ou os aliados tinham feito o necessário para evitar a matança dos judeus. Ninguém os havia ajudado. Os habitantes de Varsóvia, indiferentes, assistiram o Gueto arder, seus moradores saltando pelas janelas. Zygelboym escreveu: “Não posso continuar vivendo e silenciar enquanto os remanescentes do judaísmo polonês, a quem

nazistas explodem a Sinagoga de Varsóvia, às 20:15h daquela noite. As palavras de Mordechai Anielewicz, na carta que enviou em 23 de abril, são as que melhor transmitem a mensagem dos combatentes às gerações futuras:

Mordechai Anielewicz

represento, estiverem sendo assassinados. Meus camaradas no Gueto de Varsóvia tombaram empunhando suas armas, na derradeira batalha heroica. Não me foi permitido tombar como eles, mas sou parte deles em seu túmulo coletivo. Com minha morte, dou expressão ao mais profundo protesto contra a inércia com que o mundo assiste e consente no extermínio do Povo Judeu”. Mesmo sem lideranças, os combatentes lutam até 16 de maio de 1943. Nesse dia, o comandante Stroop, responsável pela liquidação do Gueto, comunica a Berlim que o Gueto de Varsóvia “deixara de existir”. A ação, de grandes proporções, termina quando os 74

“É impossível colocar em palavras o que temos suportado. Ficou muito claro, no entanto, que o que ocorreu, suplantou nossos sonhos mais ousados. Com a ajuda de nosso transmissor, ouvimos pela estação de rádio Shavit o relato maravilhoso de nossos combatentes. O fato de sermos lembrados além dos muros do Gueto nos incentiva em nossa luta. Que a paz o acompanhe, amigo, talvez ainda voltemos a nos encontrar. O sonho de minha vida despertou para ser realidade. A autodefesa no gueto terá sido uma verdade. Verdadeiros também são a resistência judaica armada e nossos atos de vingança. Fui testemunha da magnífica e heroica luta de homens judeus combatentes”. BIBLIOGRAFIA

Dawidowicz, Lucy, The War Against the Jews: 1933-1945 Gutman, Israel, Resistência: O levante do gueto de Varsóvia Kassow, Samuel D,Who Will Write Our History?: Rediscovering a Hidden Archive from the Warsaw Ghetto. Ebook Kindle Gilbert, Martin, The Holocaust. Ebook Kindle


REVISTA MORASHÁ i 93

Recebo esta maravilhosa revista! Ao receber a edição de dezembro de 2017 deliciei-me com tantos artigos interessantes, atualizados, cheios de inteligência. Leio da primeira à última folha. São artigos muito bem selecionados, super-interessantes, que até minhas amigas que não são judias gostam de ler. Muito obrigada a todos vocês por me proporcionarem tanta alegria com esta magnífica publicação. Ita Drucker São Paulo - SP

Morashá presta um grande serviço cultural e humanitário ao Brasil e ao mundo todo por seu conteúdo. Sinto falta de um link para fazer a tradução das palavras para o português para saber o seu significado, o que facilitaria muito a compreensão e não interrupção das leituras. Parabéns, D’us continue os abençoando. Shalom! Marcos Alexandre Kowarick Maranhão - MA

Os artigos publicados no site Morashá têm sido muito úteis em minhas pesquisas históricas e cotidianas. Josef Sager Por e-mail

A toda Equipe que produz esta revista maravilhosa, que Hashem continue os inspirando e iluminando continuamente. De todo coração. Aida Lerner Modiin - Israel

Queremos parabenizar a direção da maravilhosa revista Morashá pela publicação do artigo “Ética Médica Nazista” escrito pelo Dr. Morton Scheinberg na edição 97, Ano 34, de setembro de 2017. A leitura deste artigo é de grande valor informativo, conscientizou-nos ainda mais das atrocidades do regime nazista. Enea Wainstok Raanana - Israel

Leitura maravilhosa. Pinkus Salomão Rozenbojm São Paulo - SP

Tenho imenso prazer em receber os números impressos da Morashá. Continuem com este trabalho de qualidade e produtividade. Shaná Tová! Tulio Bryk Beer Sheva - Israel

Queremos agradecer por receber esta extraordinária revista. Seus artigos são muitos significativos tanto na parte cultural, quanto no que diz respeito a nossa religião. Bernardo e Sueli Lichewitz Por e-mail

Parabéns por mais uma edição (98) da revista Morashá. Aliás, não poderia ter outro nome. Curioso o artigo sobre o “Ano das Árvores”, que despertou em nós a reflexão sobre o que às vezes nos é invisível: a mensagem que a natureza envia para nossa alma proporcionando o equilíbrio entre saúde física e mental. A perseverança, a tradição e a esperança nunca deixaram de fazer parte da nossa vida, historicamente confirmadas nos artigos sobre “Os Pergaminhos do Mar Morto” e “Os Judeus na Polônia”. Gratidão, sempre! Janete Haber Fajntuch Por e-mail

A historia de Chanucá narrada na última edição, nos ensina que apesar dos nossos inimigos tentarem nos tirar o direito de existir e de seguir os ensinamentos da Torá, a resistência de nosso povo é tenaz e as luzes das Chanuquiót permanecerão para sempre acesas.

Flavio Shwartzman Por e-mail

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Recebemos o material enviado a esta Fundação, em cumprimento à legislação vigente de Depósito Legal. Agradecemos esta importante contribuição para a preservação e a guarda da Coleção “Memória Nacional”, composta pela produção intelectual do País. Alessandra Moraes Chefe da Divisão de Depósito Legal Fundação Biblioteca Nacional Ministério da Cultura Rio de Janeiro - RJ

Agradeço o envio do artigo sobre Damasco publicado na edição 8 da Morashá, de abril de 1995, em que meu bisavô Indibo, que era rabino nessa cidade, é mencionado. Vou guardar com muito carinho e transmitir para meus filhos. Jayme Endebo Rio de Janeiro - RJ

Frequento a Biblioteca de Araras onde me deparei com a revista Morashá, a qual gostei muito. Tudo o que e refere a Israel eu gosto de ler. Já li as edições 96, 97 e 98. Em maio Israel fará 70 anos, que seja um número especial. Luiz Salvador de Oliveira Araras - SP

A matéria sobre os 70 anos da Partilha é uma verdadeira enciclopédia para que possamos ter argumentos precisos sobre os verdadeiros fatos históricos acontecidos naquela época. Parabéns ao Morashá. Sara Atun Por e-mail

ABRIL 2018


ANO XXV - edição 99

abril 2018

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