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ANO xxiv edição 97 SET 2017


ANO XXIV - Setembro 2017 - Nº 97 Coordenação Editorial: Vicky Safra sinagoga de lancut polônia

Assistentes de Coordenação: Clairy Dayan Fortuna Djmal Assessora Internacional: Muriel Sutt Seligson

Supervisão Religiosa: Rabino Y. David Weitman Rabino Efraim Laniado Rabino Avraham Cohen Jornalista Responsável: Desirée Nacson Suslick MTb 13603

Colaboradores especiais: Jaime Spitzcovsky Morton Scheinberg Tev Djmal Zevi Ghivelder

Revisão e tradução de texto: Lilia Wachsmann Consultor: Marcello Augusto Pinto

Coordenação de Marketing: Hillel de Picciotto

Produção Gráfica: Joel Rechtman JR Graphiks - Tel: 3873 0300 Projeto Gráfico: LEN - Tel: 3815 7393

Serviços Gráficos: C&D Editora e Gráfica - Tel: 3862 8417 Tiragem: 25.700 exemplares

A distribuição é gratuíta sendo sua comercialização expressamente proíbida. Morashá significa Herança Espiritual; contém termos sagrados. Por favor, trate-a com o devido respeito. Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente a opinião da revista. É proíbida a reprodução dos artigos publicados nesta revista sem prévia autorização do Instituto Morashá de Cultura.

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Carta ao leitor Yom Kipur, a data mais conhecida do ano judaico, é um dia único no calendário de nosso povo. É um dia que reúne os judeus e, até aqueles que não costumam frequentar as sinagogas ao longo do ano, fazem questão de estar presentes nas orações desse dia. O motivo para esse comparecimento maciço às sinagogas em Yom Kipur é que esta data constitui uma oportunidade única para expiarmos nossos erros e transgressões. Além dessa, há outra razão para Yom Kipur ser o ponto alto do calendário judaico: esse dia é, como ensina o Talmud, a data em que celebramos a eternidade de nossa Torá e de nosso pacto com D’us. Entretanto a festividade associada ao recebimento da Torá é Shavuot, no 6o e 7º dias do mês de Sivan, data em que o Todo Poderoso se revelou ao povo judeu todo, no Monte Sinai, e pronunciou os Dez Mandamentos – Asseret HaDibrot. Seguiu-se à Revelação Divina a subida de Moshé ao Monte Sinai para receber a Torá. Ele lá permaneceu 40 dias e 40 noites aprendendo o seu conteúdo diretamente de D’us. Ao retornar ao acampamento dos judeus, em 17 do mês de Tamuz, deparou-se com parte do povo adorando um bezerro de ouro. Quebra, então, as Tábuas do Testemunho sobre as quais D’us havia gravado os Dez Mandamentos. O ato de quebrar as Tábuas significou que o futuro do Povo Judeu e da Torá estavam ameaçados. Para obter o perdão Divino, Moshé sobe o Monte Sinai ainda duas outras vezes. Em cada uma destas, passa 40 dias e 40 noites implorando a D’us ao ponto de colocar sua vida em jogo, para forçar o Todo Poderoso a perdoar Seu povo. Até que, em 10 de Tishrei, Moshé retornou ao acampamento com outro conjunto de Tábuas do Testemunho – uma indicação do perdão de D’us ao Povo Judeu e de que Ele havia renovado Sua aliança conosco. Como explica Rashi, comentarista clássico da Torá, esta foi a razão para que Yom Kipur fosse permanentemente designado de Dia do Perdão. Interessante notar que o primeiro conjunto de Tábuas da Torá, associados à festa de Shavuot, foi quebrado, mas o segundo, recebido em Yom Kipur, permaneceu intacto. A festa de Shavuot

celebra o recebimento da Torá, enquanto Yom Kipur simboliza sua eternidade, a do Povo Judeu, bem como nosso vínculo com o Todo Poderoso. Há, ainda, outro evento histórico significativo associado a Yom Kipur: a construção do Templo Sagrado de Jerusalém – Morada Divina na Terra – um símbolo da iminência Divina no mundo. A inauguração do primeiro Beit HaMikdash, construído pelo Rei Salomão, filho do Rei David, ocorreu nos sete dias que precedem a festa de Sucot, entre os quais se inclui o dia de Yom Kipur. Na verdade, há inúmeras razões para que Yom Kipur, apesar de ser um dia de jejum, confissão de pecados e introspecção, seja o dia mais feliz do calendário judaico. Nossos Sábios nos ensinam que o ser humano precisa diariamente se arrepender de seu comportamento e suas transgressões. Yom Kipur é o dia mais auspicioso para fazê-lo porque sendo o dia em que D’us nos perdoou pelo terrível pecado do bezerro de ouro, podemos ter certeza de que o poder do perdão Divino desse dia é ilimitado: isto nos dá a esperança de que por mais que tenhamos nos afastado do Divino, podemos sempre retornar a Ele. Yom Kipur oferece-nos uma oportunidade única de começar de novo: virar a página e nos libertar das falhas e dos pecados que cometemos contra D’us. Os judeus acorrem às sinagogas em Yom Kipur porque esse dia mágico e místico toca o íntimo de nossa alma. O tema e os eventos históricos que o dia faz recordar – o Perdão Divino, a eternidade da Torá e a construção do Templo Sagrado, entre outros – reverberam na consciência coletiva do Povo Judeu. Yom Kipur é o dia em que, metaforicamente falando, D’us estende Sua Mão sobre nós e nos convida a fortalecer o vínculo eterno que nos une a Ele. Que neste Yom Kipur possamos todos ser inscritos e selados para um ano bom e doce com muita paz, saúde e alegrias.

Shaná Tová Umetuká!


ÍNDICE

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46

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03 carta ao leitor

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destaque Índia, parceria estratégica de Israel na Ásia por JAIME SPITZCOVSKy

06 NOSSAS GRANDES FESTAS O significado dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná

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história de Israel

Declaração Balfour

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NOSSAS leis Algumas leis relacionadas a Yom Kipur

O centenário de um marco

por zevi ghivelder

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16 NOSSAS GRANDES FESTAS

CAPA

Uma era que se foi:

O duplo júbilo de Sucot

A Sinagoga de Lancut

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06

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arte

esportes 20ª Macabíadas: atletas judeus de 80 países, um só coração

Em Bezalel nasce a

nova arte israelense

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educação

62

shoá Ética médica nazista por dr. morton scheinberg

Maker Station

Novo espaço na Escola Beit Yaacov

46

história

65

Judiarias portuguesas:

Um reencontro com o passado

comunidades

A Polônia

52

Da fundação à partilha

israel Krav Maga: O sistema de autodefesa de Israel

75 5

cartas SETEMBRO 2017


NOSSAS GRANDES FESTAS

O significado dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná Não é um mero costume, folclore OU superstição servir alimentos de importância simbólica em Rosh Hashaná. Pelo contrário, constitui uma prática imbuída de valor místico, incentivada pelo Talmud e codificada no Shulchan Aruch – o Código de Lei Judaica.

I

niciamos a refeição festiva nas duas noites de Rosh Hashaná fazendo o Kidush com uma taça cheia de vinho doce, fazendo a ablução ritual das mãos (Netilat Yadayim) e comendo Chalá molhada no mel ou açúcar – um pedaço do qual é distribuído a todos os presentes. Antes de ser servido o jantar, é costume comer-se certos alimentos simbólicos nesta festa. O consumo de cada um deles é precedido por uma bênção ou uma pequena oração. Apesar de variarem entre as diferentes comunidades esses alimentos, o ritual de Rosh Hashaná é adotado por todo o Povo Judeu.

A realidade é que comer os alimentos de importância simbólica em Rosh Hashaná não é mero costume ou folclore e, muito menos, superstição. Pelo contrário, é uma prática imbuída de valor místico, fortemente estimulada pelo Talmud, e até codificada no Shulchan Aruch, o Código de Lei Judaica. O Talmud não tem o hábito de tentar justificar seus decretos, ensinamentos e recomendações, independentemente de quão enigmáticos ou surpreendentes possam ser. Essa obra de Lei e Sabedoria Divina confia a tarefa a seus grandes comentaristas. Um dos maiores dentre eles, Rabi Menachem ben Shlomo Meiri (1249-1310), revela uma das razões pelas quais comemos alimentos simbólicos em Rosh Hashaná, dizendo que seu propósito é concentrar nossa atenção na agenda do dia: oração, arrependimento e a decisão de realizar bons atos. Conta que, a princípio, o costume era apenas olhar ou comer esses alimentos e refletir sobre seu significado. No entanto, com o tempo, as pessoas ficaram mais entretidas na comida do que na introspeção. Para evitar que isso aconteça, as comunidades judaicas adotaram o rito de recitar uma breve oração antes de comer cada um dos alimentos

Para um observador casual, esse costume parece uma forma de superstição. Será que o fato de comer certos alimentos tem, realmente, influência no ano que se inicia? Será que o fato de comer maçã vermelha molhada em mel ou açúcar muda veredictos celestiais? Esse ritual de Rosh Hashaná pode até mesmo parecer contrário aos princípios do judaísmo, pois a Torá condena a superstição, equiparando-a à idolatria. Como, então, pode o judaísmo estimular essa prática, e como pode todo o Povo Judeu adotá-la, especialmente em Rosh Hashaná, o Ano Novo, que é quando D’us preside o julgamento e decide o destino do mundo e de cada criatura para o ano vindouro? 6


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simbólicos. Isso garantiria que a mensagem de cada um deles não se perdesse. Ao ponderar sobre as preces, podemos entender sobre o que devemos refletir ao comer tais alimentos. Assim, um dos propósitos do ritual é provocar e direcionar nossos pensamentos e planos para o novo ano. Isso é especialmente relevante em Rosh Hashaná, pois, como ensinam nossos Sábios, essa festividade de dois dias dá o tom para o restante do ano: aquilo em que pensamos, o que dizemos e fazemos em Rosh Hashaná influenciará todo o nosso ano. A Torá nos conta que não apenas nossos atos e palavras têm poder; nossos pensamentos também podem exercer influência sobre o mundo. Em Rosh Hashaná, quando o destino de todo o mundo e de cada indivíduo é decidido

– quando o registro de cada ser humano está sendo revisto nos Céus –, todo pensamento positivo pesa a nosso favor. Precisamos ser muito cuidadosos na maneira como direcionamos nossa mente, pois isso influenciará todo o nosso ano. Outros comentaristas da Torá vão mais além: explicam que o propósito de se comer alimentos simbólicos no Ano Novo não é apenas concentrar nossos pensamentos. Eles revelam que o ato de comê-los, de fato, desencadeia bênçãos Divinas. Como isso é possível? De que forma comer maçã vermelha molhada no mel ou no açúcar aumenta nossas chances de ter um ano bom e doce? E como comer as sementes da romã nos torna mais merecedores? Rabi Yehudá Lowe, o Maharal de Praga, um dos maiores Sábios e cabalistas de todos os tempos, famoso por ter criado o Golem, 7

explica que, com frequência, acontece de os decretos e bênçãos Divinas que D’us concede permanecerem apenas em um estado potencial, nas esferas espirituais, até que os seres humanos realizem um ato físico para concretizar e dar forma física a esses decretos. Isso significa que a transição do potencial para o real depende, em geral, dos atos físicos da pessoa. Isso explica por que os profetas geralmente realizavam um ato físico para simbolizar suas profecias. Por exemplo, vemos no Livro dos Reis que o profeta Elisha levou o Rei Yoshiyahu ( Josias) a atirar uma flecha na direção da terra de Aram – o inimigo dos judeus à época – e pegar uma flecha e bater no chão, explicando que o número de pancadas determinaria a força da vitória de Israel sobre Aram. SETEMBRO 2017


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O que nos transmite o Maharal de Praga é que como vivemos em um mundo físico, é necessário direcionar as bênçãos dos Céus por meio de atos físicos. Por essa razão, precisamos pronunciar nossas orações com os lábios, enunciando cada palavra, e não meramente pensar nas mesmas, ainda que D’us, que é Onisciente, saiba o que está em nossa mente e coração. É essa a razão pela qual tantos mandamentos da Torá são realizados fisicamente. Alguns exemplos: colocamos Tefilin, que são objetos de couro; fazemos o Kidush com vinho; e seguramos as Quatro Espécies em Sucot. D’us conhece melhor do que nós os nossos pensamentos, necessidades e desejos. Mas, para dar forma física às bênçãos Divinas – para canalizá-las dos domínios espirituais ao nosso plano terreno –, não basta amar e reverenciar a D’us, meditar e ter pensamentos bons e sagrados: com frequência, é necessário agir e usar de fisicalidade para cumprir a Vontade Divina. Comemos alimentos simbólicos em Rosh Hashaná porque, assim, estamos ajudando a canalizar

bênçãos espirituais e plenitude para o nosso mundo físico. O Maharal de Praga ensina que, no início do ano, comemos alimentos que sejam um bom augúrio, para que os decretos do Todo Poderoso de um bom ano se concretizem em nossa realidade física. Outra explicação para esse ritual foi dada pelo Rabi Shlomo Kluger

(1783-1869) em seu comentário no Código de Lei Judaica (Chochmat Shlomo, Shulchan Aruch, Orach Chaim 583). Ele explica que, ao comer tais alimentos, não estamos apenas rezando, mas expressando nossa fé em que seremos inscritos para um ano bom e doce. Segundo ele, isso tem o poder de transformar qualquer decreto negativo em positivo. De fato, as obras cabalísticas, o Talmud e o Livro dos Profetas nos ensinam que D’us honra a confiança dos que verdadeiramente confiam n’Ele. É especialmente importante que cada judeu se comporte em Rosh Hashaná com alegria, plenamente confiante em que seu veredito Divino será positivo e que será inscrito para um ano bom e doce. Uma das maneiras de expressar nossa fé é comer os alimentos simbólicos de Rosh Hashaná e recitar as orações pertinentes, confiante em que D’us as atenderá. Devemos entender que, ao comê-los, não estamos seguindo um costume folclórico, nem supersticioso. Portanto, esse rito deve ser encarado com seriedade. Seu propósito não é fazer com que os jantares de Rosh Hashaná sejam mais coloridos e memoráveis. Eles têm um poder espiritual e, se bem utilizados, podem ajudar-nos a alcançar as inúmeras bênçãos, individuais e coletivas, pelas quais ansiamos. Contudo, é importante mencionar que quem não pode ingerir um ou vários dos alimentos simbólicos – por não gostar ou por lhe fazer mal – deve olhar ou apontar para esses alimentos ao recitar a oração de “Yehi Ratzon” correspondente. Mesmo que não coma o alimento, se ele recitar a oração correspondente, isso terá um efeito significativo.

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Por que comemos maçãs vermelhas em Rosh Hashaná Em Rosh Hashaná, temos o costume de tomar vinho doce e fazer as Chalot no feitio redondo, em vez do tradicional oval, trançado. O Chatam Sofer (1762-1839), que foi um de nossos grandes Sábios e cabalistas, explica o costume como expressão de que nossas orações e esperanças sejam abençoadas infinitamente durante o ano vindouro, pois o círculo é especial por não ter início nem fim. Por isso fazemos os pães nesse formato, como símbolo de nossa esperança de que D’us nos conceda bênçãos incontáveis, pessoais e coletivas, no novo ano. Após o Kidush e a lavagem ritual das mãos (Netilat Yadayim) e comer um pedaço da Chalá molhada no mel ou açúcar, comemos o primeiro dos alimentos simbólicos da festa, que são pedaços de maçã vermelha,

também molhados no mel. São inúmeras as razões para esse costume judaico. A mais simples delas é que essa fruta tem um belo aspecto, ótima fragrância e gosto. É saborosa de qualquer forma que seja apresentada e extremamente saudável. E simboliza nossas esperanças de que o Ano Novo nos traga alegria, sucesso, saúde e felicidade em todas as áreas da vida.

Éden tem o aroma de um pomar de maçãs. De fato, ao analisar a expressão usada por nosso patriarca Itzhak ao descrever seu filho, Yaacov: “Veja! O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo que o Eterno abençoou!” (Gênesis, 27:27), Rashi, comentarista clássico da Torá, explica que isso se refere ao aroma de um pomar de maçãs – o aroma do Jardim do Éden.

Mas o significado simbólico da maçã vai além do simples fato de ser uma fruta doce e saborosa. O Arizal (Rabi Itzhak Luria), maior cabalista de todos os tempos, ensina que há um profundo significado cabalístico no fato de comê-la nas noites de Rosh Hashaná. O Zohar, obra fundamental da Cabalá, escrita pelo Rabi Shimon bar Yochai, se refere ao Paraíso como Chakal Tapuchin Kadishin – “Pomar das Maçãs Sagradas”. As maçãs simbolizam não só a doçura, mas também Gan Eden – o Paraíso. De acordo com o Midrash, o Jardim do

Ademais, em seu Cântico dos Cânticos, o Rei Salomão descreve o amor de D’us pelo Povo Judeu por meio da seguinte metáfora: “Debaixo de uma macieira, despertei teu amor” (Shir HaShirim 8:5). Ao comer pedaços de maçã em Rosh Hashaná, estamos nos recordando do amor de D’us por Seu povo.

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Uma razão cabalística para esse costume é que, como escreve o Ben Ish Chai, essa fruta é associada à Sefirá de Tiferet, que é a emanação Divina de misericórdia, beleza, SETEMBRO 2017


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família. Mas é importante observar que apesar de ambos serem doces, cada um representa uma forma diferente de doçura. O açúcar representa a doçura pura, enquanto o mel é produzido pelas abelhas – uma criatura cujo ferrão pode causar muita dor. Portanto, o mel representa a doçura resultante de experiências dolorosas ou difíceis. Em outras palavras, simboliza bênçãos ocultas. O Livro dos Juízes relata a seguinte história, com uma importante lição universal: o poderoso Sansão, desarmado, matou um leão que ia atacá-lo. Quando mais tarde ele retornou ao mesmo lugar, deparouse com “um enxame de abelhas cheias de mel na barriga do animal. E Sansão apresenta a seguinte charada a um grupo de amigos: “Do comedor saiu comida e do forte saiu doçura” ( Juízes,14:14). Daí nos vem o ensinamento de que mesmo uma situação negativa traz algo positivo.

harmonia e paz. Essa Sefirá também representa a Torá e é associada com o Atributo Divino da Verdade. E é particularmente relevante em Rosh Hashaná, pois é nessa festividade que todas as criaturas são julgadas com base no Atributo Divino da Verdade Absoluta, quando oramos pedindo a Misericórdia Divina. Ainda que muitos não estejam familiarizados com os ensinamentos da Cabalá acerca das Sefirot, o fato de saber que as maçãs simbolizam a Sefirá de Tiferet nos ajuda a perceber a profundeza e a importância de cada um dos rituais que cumprimos durante os jantares de Rosh Hashaná: nenhum dos detalhes é irrelevante. Ao contrário, há conceitos espirituais e místicos que sustentam tais rituais. Eles se baseiam em profundos

Em Rosh Hashaná, enfatizamos o conceito de doçura – pois oramos não apenas por um ano bom, mas que também seja doce – e é, portanto, adequado não comer alimentos amargos ou azedos nos dois dias festivos.

Muitas pessoas têm o costume de comer açúcar e mel em Rosh Hashaná. O açúcar representa a bondade Divina revelada. O mel, a bondade Divina oculta: bênçãos que se apresentam disfarçadas como se fossem eventos e experiências difíceis, mas que, posteriormente, revelam-se como tendo sido em nosso benefício. Diferentemente das bênçãos reveladas, as ocultas geralmente causam dor. No entanto, cedo ou tarde, as que vêm disfarçadas de fantasias assustadoras tendem a se revelar maiores e mais significativas que as bênçãos reveladas, que tanta alegria nos dão.

A razão para molharmos a Chalá e os pedaços de maçã vermelha no mel ou açúcar é para indicar e pedir que sejamos abençoados com um ano doce. Alguns têm o costume de só usar açúcar, não mel, e cada pessoa deve seguir a tradição de sua

Na mesma linha, o Rabi Yosef ben Moshe (Leket Yosher - Séc. 14) escreve: “As abelhas têm um ferrão dentro delas, e, no entanto, seu produto é doce. Fazemos votos de que o Atributo Divino do Julgamento seja temperado

conceitos cabalísticos e, portanto, não devem ser menosprezados ou negligenciados.

Por que comemos mel em Rosh Hashaná

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por Seu Atributo da Misericórdia, produzindo um resultado mais doce”. Outra razão para comermos mel em Rosh Hashaná é que nossos Sábios ensinam que “o mel e os doces restauram a visão das pessoas”. O Talmud menciona vários “recursos” para auxiliar a memória e os comentaristas talmúdicos acrescentam: “Também o mel torna a pessoa sábia” (Talmud Bavli, Horayot 13b).

Orações pela eliminação de nossos inimigos Após comer pedaços de maçã molhados no mel ou açúcar, comemos três alimentos: acelga, tâmara e alho-poró ou cebola – e as preces correspondentes se referem a nossos inimigos. Tais orações contêm um linguajar duro. Pedimos que D’us remova, elimine e extirpe nossos inimigos. À primeira vista,

é estranho que em uma festividade judaica – especialmente a que marca o início de um novo ano – estejamos presos a essa negatividade e pensando em nossos inimigos. Evidentemente, há importantes razões para fazê-lo. Nenhum judeu jamais pode esquecer que, ao longo da história, tivemos muitos inimigos que, sem qualquer razão, perseguiram e tentaram exterminar nosso povo. Como proclamamos na Hagadá de Pessach: “Em toda geração, eles se levantam para aniquilar-nos. E o Santo, Bendito é Ele, nos salva de suas mãos”. Através dos milênios, o Povo Judeu tem sido o alvo principal de alguns dos personagens mais cruéis do mundo. Em Rosh Hashaná, quando D’us decide o destino da humanidade e de cada indivíduo, oramos para que Ele nos livre daqueles que nos querem prejudicar. As orações referentes a nossos inimigos são recitadas não apenas em benefício do Povo Judeu, mas de todas as pessoas de bem no mundo,

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pois os arqui-inimigos dos Filhos de Israel, como Hitler e Stalin, mostraram ser a personificação da maldade no mundo. Aqueles que mostraram ser os líderes mais perversos na história geralmente começaram escolhendo o Povo Judeu como alvo para depois passar para o restante da humanidade. Seu desaparecimento seria benéfico para todo o mundo. Há, no entanto, uma explicação mais profunda para rezarmos pela eliminação de nossos inimigos em Rosh Hashaná. Esses inimigos não são seres humanos, mas forças espirituais negativas. Rosh Hashaná é o Dia do Julgamento, quando, falando metaforicamente, os “promotores celestiais” apresentam seus casos perante o Juiz da Verdade. O Talmud ensina que a Inclinação para o Mal – o Yetser Hará –– seduz o ser humano, instigando-o a pecar e, quando consegue fazêlo, apresenta-se perante o Trono Celestial para condená-lo. Instigador

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e acusador são um só. Em Rosh Hashaná, Dia do Julgamento, oramos a D’us para que a Inclinação para o Mal e todas as forças do mal espiritual, que nos fazem sair do caminho do bem para depois nos acusar perante a Corte Celestial, sejam removidas, eliminadas e exterminadas, para que assim possamos ser inscritos para um ano bom e doce. É interessante notar que, durante os jantares de Rosh Hashaná, recitamos três orações diferentes acerca de nossos inimigos. Um das razões para serem três e não uma é que, como ensina a Cabalá, nosso mundo contém três klipot impuras – “cascas” – que são a origem de todo o mal. Essas três preces expressam nosso desejo de que essas klipot sejam eliminadas do mundo. Isso ocorrerá na Era Messiânica. Essas orações são, portanto, um pedido para que D’us nos traga a era utópica, que será de paz e prosperidade para toda a humanidade.

Orações para termos méritos e praticarmos mitzvot As três preces seguintes e seus respectivos alimentos compartilham um tema comum: méritos e mitzvot – ou seja, mandamentos Divinos e boas ações.

e disciplina para executar a Sua Vontade. Tais súplicas não são exclusivas de Rosh Hashaná; nossas preces diárias pedem a D’us para depositar nosso coração, nosso amor e nossa reverência em Suas mãos, para que possamos estudar zelosamente a Sua Torá e cumprir Seus mandamentos. Mas tal pedido é enfatizado em Rosh Hashaná, pois é nessa festividade que D’us decide não só nossas bênçãos materiais, mas também espirituais, para o ano vindouro. A oração ao comermos a romã – de que nossas mitzvot sejam tão numerosas quanto as sementes dessa fruta – é bem conhecida. De fato, a romã é um dos grandes símbolos de Rosh Hashaná. Essa fruta tem grande destaque na Torá. É uma das Shivat HaMinim – Sete Espécies de frutas e grãos que são produtos especiais da Terra de Israel. Além disso, em uma discussão sobre o significado de ver essa fruta em sonhos, o Talmud explica que “quando vemos frutos pequenos, isso significa que os negócios serão frutíferos como a romã, enquanto que quando vemos os frutos grandes, isso significa que os negócios vãose multiplicar como romãs. Se no

Recitamos essas orações para pedir a D’us um veredicto totalmente positivo para o novo ano. Rogamos a Ele para “apagar” qualquer decreto Celestial negativo contra nós e nos julgar favoravelmente, pesando nossos méritos e relevando nossos deméritos. Pedimos a Ele que nos estimule espiritualmente – dando-nos forças, motivação 12

sonho as romãs estiverem abertas, se quem sonhou é um estudioso da Torá, estudará ainda mais… enquanto que se não for um estudioso, realizará mais mitzvot”. Baseando-se em um verso do Cântico dos Cânticos (Shir HaShirim 4:3), o Talmud conclui afirmando que “mesmo os judeus mais vazios, também eles estão repletos de mitzvot como a romã é carregada de sementes” (Talmud Bavli, Chaguigá 27a). Em Rosh Hashaná, oramos a D’us para que Ele nos dê a oportunidade de cumprir muitas mitzvot – muitos mandamentos Divinos e boas ações. Então, cabe a pergunta: por que devemos orar pedindo isso? Não cabe exclusivamente ao ser humano exercer seu livre arbítrio e cumprir a Vontade Divina? A resposta é que todos necessitamos de inspiração e assistência Divina, mesmo se estivermos determinados a cumprir a Vontade de D’us e realizar atos de bondade. Há um conhecido ensinamento do Talmud que diz que D’us escolhe as pessoas meritosas para realizar boas ações. Em Rosh Hashaná, rogamos a D’us para nos escolher como Seus agentes da sabedoria, bondade e justiça no mundo: que Ele nos dê a oportunidade de cumprir Seus mandamentos. Esse privilégio não depende apenas de nosso livre arbítrio, mas também da Divina Providência. Para fazer muita Tzedacá, precisamos estar financeiramente bem. Para poder ensinar e disseminar sabedoria e conhecimento, precisamos ter sucesso em nossos estudos de


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Torá. Para poder realizar muitos mandamentos Divinos, precisamos ter boa saúde e tranquilidade. Assim como oramos por prosperidade material em Rosh Hashaná, também precisamos rogar por saúde espiritual. A romã simboliza abundância – material e espiritual –, que, quando bem utilizada, permite que acumulemos muitos méritos.

Oração para sermos a cabeça e não a cauda O último dos alimentos simbólicos é a língua ou cabeça de um carneiro. Certas comunidades judaicas usam outros alimentos em vez desses. Quando comemos um dos dois, pedimos que D’us nos abençoe para que, ao longo do ano recéminiciado, possamos ser “a cabeça, e não a cauda”. Não se trata de uma prece apenas por sucesso, mas também um pedido a D’us para nos dar a oportunidade de sermos forças proativas e efetivas, no mundo – fontes de sabedoria, liderança e bondade. Pedimos a D’us que nos dê a oportunidade de ter influência positiva sobre os demais, seja como pais, educadores, líderes comunitários, empresários ou profissionais. Vivemos em uma geração em que os líderes sábios, verdadeiros e abnegados são raros. Oramos pela capacidade de exercer liderança com sabedoria, bondade e eficácia. Outra razão para comer língua ou cabeça de carneiro é que isso nos faz lembrar o animal que foi sacrificado em lugar de nosso patriarca Itzhak. Na verdade, essa última prece menciona nossos dois primeiros patriarcas – Avraham e Itzhak – ao se referir ao episódio conhecido como Akedat Itzhak – quando D’us ordenou a Avraham sacrificar seu filho. Esse relato é um dos temas

principais em Rosh Hashaná: surge, com relevância, na oração de Mussaf e constitui a leitura da Torá do segundo dia da festa. Akedat Itzhak relembra como pai e filho estavam dispostos a fazer o sacrifício supremo para cumprir uma ordem Divina. Invocamos sua lembrança, não apenas pelo fato da menção a um Tzadik ser uma fonte de bênçãos, mas porque o episódio – a submissão absoluta de Avraham e de seu filho diante da Vontade Divina – é uma fonte de proteção para todas as gerações de seus descendentes. A prece por “ser a cabeça e não a cauda” e a história de vida de Avraham e Itzhak são interligadas. Avraham introduziu o monoteísmo no mundo. Ele, sozinho, desafiou um mundo politeísta – rebelou-se contra a idolatria e dedicou sua vida a revelar a Verdade e a disseminar o Nome de D’us por toda parte. Foi um dos maiores líderes espirituais de todos os tempos e seu filho, Itzhak, pai de nosso patriarca Yaacov, continuou no caminho que lhe fora ensinado. Em Rosh Hashaná, 13

rogamos a D’us para que nos inspire de modo a continuar a promover o legado e a liderança de nossos patriarcas. Após o término da cerimônia dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná, que, como vimos, é imbuída de grande significado e poder místico, seguimos com a refeição festiva. As refeições de Rosh Hashaná devem ser muito alegres e fartas, incluindo comidas doces e deliciosas, expressando nossa confiança em que seremos todos inscritos e confirmados para um Shaná Tová Umetucá – um ano bom e doce. Amén, ken yehi ratsón.

BIBLIOGRAFIA

Rubin,Efraim, “Honey in Jewish Law, Lore, Tradition, and More. What the Torah has to say about this Rosh Hashanah favorite”. www.chabad.org Zivotofsky, Ari, “What’s the Truth about Pomegranate Seeds?”. www.ou.org “Special Rosh Hashanah Foods” . www. chabad.org Shurpin,Yehuda, Why All the Symbolic Rosh Hashanah Foods? www.chabad.org SETEMBRO 2017


NOSSAS LEIS

Algumas leis relacionadas a Yom Kipur Neste ano, Yom Kipur se inicia na sexta-feira, 29 de setembro, e termina na noite de sábado, 30 de setembro .

C

ostuma-se fazer caparot – abate de um galo, para um homem, e de uma galinha, para uma mulher, no dia 9 de Tishrei de madrugada, dia 29 de setembro, por um shochet qualificado. Também é possível cumprir este costume com dinheiro, doando-o para tzedacá.

ou usar o elevador antes do início de Yom Kipur, deverá, antes de acender as velas, fazer uma ressalva dizendo que não está recebendo Yom Kipur com o ato de acendimento das velas. É, porém, necessário antecipar o recebimento de Yom Kipur para antes do pôr-do-sol. É costume os pais abençoarem os filhos, pedindo que estes sejam selados no Livro da Vida e que, em seus corações, permaneça sempre o amor a D’us. Convém também ir à sinagoga antes do pôr-do-sol, para poder participar do Kol Nidrei, a “anulação dos votos”.

É proibido jejuar no dia que precede Yom Kipur, mesmo se este jejum for por Taanit Halom. É, ao contrário, uma mitzvá fazer uma refeição adicional. A refeição que antecede o jejum deve ter pão e pratos de fácil digestão e ser concluída 20 minutos antes do pôr-do-sol. Bebidas alcoólicas são proibidas.

Restrições durante Yom Kipur

As mulheres devem acender as velas antes de ir à sinagoga, dizendo a bênção “Lehadlik Ner Shel Shabat Veshel Yom HaKipurim”. Se a mulher quiser locomover-se de automóvel

Yom Kipur é o Shabat dos Shabatot e, portanto, todo trabalho profano deve cessar e todas as leis do Shabat devem ser respeitadas. Assim como 14


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Seguem-se os horários do início e término do jejum de Yom Kipur, em algumas cidades brasileiras. Nas demais, sugerimos que sejam consultadas as sinagogas locais:

SEFARIM DA SINAGOGA BEIT YAACOV

no Shabat, é proibido carregar sobre si qualquer objeto durante Yom Kipur. Além de observar as leis do Shabat, em Yom Kipur outras cinco restrições são acrescidas: “Não comer, não beber, não trabalhar, não se lavar e nem massagear a pele (perfumes, cremes etc.), não calçar couro, não ter relações conjugais”.

Recife: Início às 16:55h n Término às 17:46h Salvador: Início às 17:10h n Término às 18:01h Manaus: Início às 17:34h n Término às 18:25h Belém: Início às 17:48h n Término às 18:38h Rio de Janeiro: Início às 17:27h n Término às 18:21h São Paulo: Início às 17:45h n Término às 18:39h Belo Horizonte: Início às 17:33h n Término às 18:26 h Brasília: Início às 17:48h n Término às 18:40h Curitiba: Início às 17:56h n Término às 18:51h Porto Alegre: Início às 18:05h n Término às 19:01h

O jejum diz respeito tanto aos homens quanto às mulheres, mesmo grávidas ou amamentando. Só em caso de doença ou onde haja algum perigo à vida, o jejum pode ser suspenso (consulte seu rabino). As crianças de 9 a 10 anos podem jejuar algumas horas, e, a partir dos 11 anos, conforme avaliação dos pais, podem jejuar o dia todo. Mas o jejum torna-se obrigatório aos 12 anos, para meninas, e aos 13, para meninos. O uso de sapato, sandálias ou tênis de couro é proibido tanto para homens como para mulheres. As crianças também devem ser orientadas neste sentido. Ao término de Yom Kipur, a Havdalá deve ser feita sem bessamim, e a Bênção da Luz deve ser feita sobre uma vela que permaneceu acesa desde o dia anterior. 15

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NOSSAS GRANDES FESTAS

O duplo júbilo de Sucot A festa de Sucot, que tem a duração de sete dias e se inicia cinco dias após Yom Kipur, é conhecida por vários nomes, mas sua descrição no livro de orações é Zman Simchatenu – “Época de nosso regozijo”. A Torá nos ordena sempre servir a D’us com alegria, particularmente em ocasiões festivas como o Shabat e as datas sagradas. Mas também nos impõe estar especialmente alegres durante a festa de Sucot.

N

o quinto livro da Torá, Deuteronômio, está escrito o seguinte acerca dessa festa: “E te alegrarás na tua festa – tu, teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, o levita, o peregrino, o órfão e a viúva, que estão nas tuas cidades. Sete dias festejarás a festa do Eterno, teu D’us, no lugar que escolher o Eterno; porque o Eterno, teu D’us, te abençoará em todos os teus produtos e em toda obra de tuas mãos, e estarás certamente alegre” (Deuteronômio 16: 14-15).

ha-Minim, as “Quatro Espécies”. O outro é habitar em uma Sucá. O mandamento de juntar as Quatro Espécies é mencionado no terceiro livro da Torá, o Levítico. Pois está escrito: “Contudo, aos 15 dias do sétimo mês, quando recolherdes o produto da terra, celebrareis a festa do Eterno por sete dias; no primeiro será dia de descanso solene e, no oitavo, será dia de descanso solene. E tomareis para vós, no primeiro dia, o fruto da Árvore Formosa (Etrog), palmas da palmeira, ramos de murta e de salgueiro de ribeiras, e vos alegrareis diante do Eterno, vosso D’us, por sete dias” (Levítico 23:39-40).

É interessante que o Livro Deuteronômio não mencione o júbilo ao descrever a festa de Pessach, e apenas mencione-o uma única vez em relação à festa de Shavuot. Contudo, no contexto de Sucot, menciona-o duas vezes. Talvez seja isso o que levou nossos Sábios a atribuir a essa festa o epíteto de “Época de nosso regozijo”. E, por que o duplo júbilo? Por que razão o conceito de alegria é mais enfatizado durante Sucot do que nas demais festas?

Aí está a referência aos Arbaat ha-Minim – as Quatro Espécies. A fruta escolhida é o Etrog, o ramo verde é o Lulav, os galhos folhosos são os Hadassim, e o salgueiro da ribeira são as Aravot. É uma mitzvá – um mandamento Divino – juntar essas Quatro Espécies e sacudi-las em Sucot.

Os dois mandamentos exclusivos de Sucot

Um segundo mandamento da Torá, que também é exclusivo à festa de Sucot, é a mitzvá de se habitar em uma Sucá durante os sete dias da festa. Em Sua Torá, D’us ordena ao Povo Judeu “viver em Sucot (cabanas)

Há dois mandamentos da Torá exclusivos à festa de Sucot. Um é juntar e ter nas mãos as Arbaat 16


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“CONSTRUINDO CABANAS PARA SUCOT EM JERUSALEM”, GRAVURA, AUGSBURG, ALEMANHA, SÉC. 18

durante sete dias: “Nas cabanas habitareis por sete dias; todo natural de Israel habitará nas cabanas. Para que as vossas gerações saibam que nas cabanas fiz habitar os Filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito, Eu sou o Eterno, vosso D’us!” (Levítico 23:42-43). Esse mandamento é tão fundamental na festa de Sucot que até empresta seu nome à mesma. Essa festa é a época anual de recordarmos as Sucot – plural de Sucá – as moradias temporárias e portáteis nas quais os judeus viveram durante sua jornada de 40 anos através do deserto, em sua caminhada para a Terra de Israel. É interessante notar que os dois mandamentos exclusivos da festa – tomar nas mãos as Quatro Espécies e habitar em uma Sucá – são muito diferentes em sua

natureza. Na verdade, esses dois mandamentos são aparentemente contrários entre si. O mandamento das Quatro Espécies e os rituais associados ao mesmo são imbuídos de profundo significado e misticismo, mas servem, também, a um propósito prático: constituem uma súplica por chuvas abundantes. Ao cumprir esse Mandamento Divino, esperamos que D’us abençoe o novo ano com chuvas, essenciais para a vida e o sustento. Além disso, como nos ensina Maimônides, as Quatro Espécies eram os produtos mais disponíveis na Terra de Israel – verdadeiros sinais da fertilidade da terra. Por sua vez, o mandamento de morar sete dias em uma Sucá pressupõe a falta de chuva. De fato, chover durante a festa de Sucot é considerado um mau presságio, pois nos impede de cumprir o 17

mandamento de habitar em uma cabana. A Lei Judaica determina que, como a Sucá é uma moradia temporária, seu revestimento não pode ser impermeável: se a chuva não pode penetrar por seu teto, a Sucá não é válida. E se chover na festa de Sucot – e a chuva for forte ao ponto de estragar a comida que está na mesa da cabana –, estaremos isentos do mandamento de habitála. Assim sendo, a chuva é um impedimento para o cumprimento da mitzvá de Leshev ba-Sucá, isto é, “habitar na Sucá” durante os sete dias da festividade. A diferença entre os dois mandamentos exclusivos da festa é ainda mais profunda. Por um lado, Sucot é a mais universalista de todas as festas judaicas. O profeta Zechariah profetizou que um dia essa festa será celebrada por toda a humanidade: “E o Eterno será SETEMBRO 2017


NOSSAS GRANDES FESTAS

não vier, não transbordará seu rio; serão atingidos pela praga com que o Eterno há de ferir as nações que não subirem para celebrar a festa de Sucot” (Zechariah 14:9, 16-17-18).

O aspecto universal da festa de Sucot e particularmente o mandamento das Quatro Espécies nos ensinam que nós, judeus, não podemos nos isolar do restante do mundo. Rei sobre toda a terra; naquele dia o Eterno será Um e Seu Nome, Um... Então, cada uma das nações dentre as que invadiram Jerusalém, que sobreviver, subirá cada ano para adorar o Rei, o Eterno das Legiões, e celebrar a festa de Sucot (Festa dos Tabernáculos). E se alguma das famílias da terra não subir a Jerusalém para adorar o Rei, o Eterno das Legiões, não será aquinhoada com chuvas. E se não subir a família do Egito e

A universalidade de Sucot é evidenciada por outro mandamento da Torá que também é exclusivo à festa: 70 touros teriam que ser sacrificados no Templo Sagrado de Jerusalém durante a semana da festividade (Números 29:12-34). Nossos Sábios ensinam que tais sacrifícios eram oferecidos em nome das setenta principais nações do mundo. As 70 oferendas animais serviam para permitir que D’us abençoasse todas as nações do mundo. Ensinam, também, com base na passagem acima do profeta Zechariah, que, na festa de Sucot, D’us decide assuntos relativos às chuvas – se serão abundantes ou não, se serão fonte de bênção ou não, no ano que está por vir. O Talmud nos diz, no Tratado Rosh Hashaná 1:2: “Na festa (de Sucot), o mundo é julgado na questão da chuva”. Evidentemente, não há nada especificamente judaico na necessidade de chuva. Todos os países, inclusive o Brasil, e especialmente aqueles do Oriente Médio, a necessitam. Portanto, ainda que os mandamentos de tomar nas mãos as Quatro Espécies e oferecer os 70 touros no Templo Sagrado fossem realizados apenas pelo Povo Judeu, eles têm um significado universal, já que um de seus muitos propósitos era levar D’us a decretar um ano de chuvas abundantes e prosperidade para o mundo todo. Sucot é a festa mais universal em nosso calendário, mas é também a mais especialmente judaica. Quando sentamos na Sucá, lembramo-nos da História Judaica – não apenas os 40 anos vagando pelo deserto em

Caixa para guardar o Etrog. Estados Unidos, 1918

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direção à Terra Prometida, mas também toda a experiência do exílio. A Sucá é definida como uma “moradia temporária”. Ela constitui um dos símbolos mais fortes da nossa história porque somos um povo que, através dos milênios, tem sido forçado a viver fora de sua Terra Natal – a Terra de Israel. A Sucá, o tabernáculo temporário e frágil, simboliza os muitos lares transicionais e temporários do Povo Judeu. Nenhum outro povo nasceu no deserto. Nenhum outro povo esteve disperso de forma tão ampla pelo mundo, emigrando com frequência ou sendo expulso de tantos países. Nenhum outro povo teve condições de sobreviver por tanto tempo sem sua própria terra. Fomos expulsos da Antiga Israel há quase 2.000 anos. O moderno Estado de Israel foi fundado há menos de 70 anos. Durante os dois milênios em que nosso povo viveu sem um Estado Judeu, sempre ansiamos pelo retorno à Terra de Israel, nossa Pátria ancestral. Esse anseio foi fomentado não apenas pelos inúmeros episódios horrendos que nosso povo suportou desde a queda da Antiga Israel. Como a maioria dos judeus e cristãos conscienciosos entendem, o retorno do Povo Judeu à Terra de Israel, em particular a Jerusalém, é imperativo para a vinda do Mashiach, e assim, para a redenção não apenas dos Filhos de Israel, mas de toda a Humanidade. Portanto, independentemente de onde vivemos em nossa dispersão – fosse bom e agradável, fôssemos recebidos de braços abertos ou brutalmente perseguidos - sempre estivemos em uma moradia temporária, nunca em um destino permanente. Longe de ser universalista, o mandamento de habitar em uma Sucá é particular,

Sucot (a Festa dos Tabernáculos) - Moritz Daniel Oppenheim, 1867

pois simboliza um povo cuja única proteção ao longo da maior parte de sua história foi sua fé nas asas protetoras da Presença Divina, que, como ensina o Zohar, a obra fundamental da Cabalá, habita dentro de cada Sucá durante a festa de Sucot. Essa moradia temporária nos ensina que a sobrevivência e segurança do Povo Judeu não dependem de paredes fortes, tetos impenetráveis e altas construções, mas sim, da Providência e Proteção Divinas. Vemos, pois, que Sucot tem um simbolismo duplo, e que se contradiz. Tem um caráter universal e, ao mesmo tempo, especificamente judaico. É quase como se fossem duas festas. Nisso está seu caráter único. 19

Os dois ciclos da festividade As festas bíblicas no calendário judaico representam dois ciclos diferentes. O primeiro é o ciclo conhecido como Shalosh Regalim (literalmente, “três pernas”): Pessach, Shavuot e Sucot. Essas festas levam esse nome porque todos os homens judeus eram obrigados a ir em peregrinação a Jerusalém durante essas três festas para oferecer sacrifícios no Templo Sagrado. Os Shalosh Regalim nos contam a história particular do Povo Judeu: Pessach celebra nossa liberdade da escravidão egípcia; Shavuot comemora a Revelação Divina no Monte Sinai, o recebimento da Torá e o nascimento do Povo Judeu; e Sucot rememora a jornada de 40 SETEMBRO 2017


NOSSAS GRANDES FESTAS

anos do Povo Judeu no deserto, a caminho da Terra Prometida. Essas três festividades revivem o passado judeu. Celebram o significado de ser judeu. Ainda que as mensagens que as mesmas nos transmitem tenham inspirado um número inusitado de pessoas ao longo da História – particularmente o tema do Êxodo e o dos Dez Pronunciamentos Divinos (os “Dez Mandamentos”) ouvidos no Monte Sinai –, elas contam a história do Povo Judeu. Foram os judeus os escravos libertados do Egito; foi aos judeus que D’us escolheu para Se revelar e a quem Ele confiou a Sua Torá; e foram os judeus os que viveram nas Sucot durante a longa jornada em que foram conduzidos por Moshé a caminho da Terra Prometida.

No entanto, há um segundo ciclo de festas judaicas – as do mês de Tishrei: Rosh Hashaná, Yom Kipur e Sucot. (Shemini Atseret, a festa celebrada no dia após o término de Sucot, de certa forma é o oitavo dia dessa festa). Apesar de Rosh Hashaná e Yom Kipur serem festividades judaicas, ambas não dizem respeito unicamente a judeus e ao judaísmo. Dizem respeito a D’us, à Humanidade, a todas as criaturas vivas e ao destino do mundo todo. O palavreado das orações é diferente nessas duas festas; é diferente do que nas demais festas judaicas. Em Rosh Hashaná, proclamamos: “Instila o Teu assombro sobre todas as Tuas obras, e temor a Ti em toda a Tua criação”. A liturgia é claramente universal. O Talmud nos ensina que

nos Dias Temíveis, que se iniciam em Rosh Hashaná e terminam ao findar o Yom Kipur, D’us determina o destino de todos os povos e de cada uma de Suas criaturas para o próximo ano. Bem verdade, são os judeus que acorrem às sinagogas nesses dias e que têm que cumprir o mandamento de ouvir o toque do Shofar em Rosh Hashaná e o de jejuar em Yom Kipur, mas eles agem como agentes da Humanidade, mesmo não estando, a quase totalidade do mundo, ciente do que ocorre nesses dias cruciais. Neles refletimos não apenas na condição atual e no futuro do Povo Judeu, mas também, na do mundo e de todos os seus habitantes. Tendo identificado esses dois ciclos de festividades, vemos claramente a singularidade de Sucot, que é ser a única festa que pertence a ambos os ciclos. É parte do ciclo da História Judaica - Pessach, Shavuot e Sucot, mas também da sequência de festividades do mês de Tishrei – Rosh Hashaná, Yom Kipur e Sucot. Daí o duplo júbilo que lhe é associado. Daí uma das inúmeras razões para ser chamada de Zman Simchatenu – a “Época de nosso regozijo”. O mandamento das Quatro Espécies representa o aspecto universal de Sucot. Os Arbaat haMinim simbolizam algumas das necessidades comuns a toda a Humanidade: a natureza, a chuva, a agricultura, o sustento, o ciclo das estações e a complexa ecologia do mundo criado – coisas que todos os seres humanos necessitam para sobreviver e florescer. O mandamento de habitar em uma Sucá, por outro lado, representa o caráter singular da História Judaica, com suas repetidas vivências em exílio. Essa estrutura temporária e frágil simboliza a fragilidade do Povo Judeu na Diáspora – os

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As Quatro Espécies: Lulav, Etrog, Hadassim e Aravot

exílios, as expulsões, a assimilação, as perseguições, os massacres e, até mesmo, o genocídio. Ao mesmo tempo, o mandamento de viver sob o Sechach, o revestimento da Sucá, remete-nos aos versos iniciais do Salmo 91: “Quem habita na Morada do Altíssimo estará sempre sob Sua proteção” – e é curioso que o valor numérico da palavra Sucá é 91. Isso nos ensina e nos faz lembrar que os Filhos de Israel sobreviveram provações e tribulações sem fim somente porque habitavam à sombra da Divina Presença, assegurando sua perpetuidade. De maneira diferente de todas as demais festividades, Sucot celebra a natureza dupla do judaísmo: a universalidade de D’us e a particularidade do Povo Judeu. E, como nos ensina a Torá, todos os seres humanos foram criados por D’us Uno e Único e todos descendem dos mesmos dois seres humanos: Adão e Eva. Isso significa,

como indica o Talmud, que ninguém pode alegar ser superior ao outro. No entanto, cada povo, civilização e religião são únicos e diferentes, e essa diversidade é o que enriquece o mundo. Assim como cada ser humano tem sua própria missão neste mundo, também a tem cada um dos povos. O aspecto universal da festa de Sucot e particularmente o mandamento das Quatro Espécies nos ensinam que nós, judeus, não podemos nos isolar do restante do mundo. Se devemos ser uma luz entre as nações, como ordenado por D’us (Isaías 42:6), temos que nos envolver e tentar influenciar a humanidade. Contudo, o aspecto específico de Sucot – em especial o mandamento de habitar em uma Sucá – nos ensina que o Povo Judeu é herdeiro de uma história que não tem igual entre nenhum outro povo: em número pequeno, vulneráveis, sofrendo 21

exílio trás exílio, e, ainda assim, não apenas sobrevivendo, mas triunfando. A Sucá pode ser uma moradia frágil e temporária, mas pôde manter nosso povo vivo durante milênios. A Humanidade é formada por nossos pontos em comum e nossas diferenças. Os primeiros nos recordam que somos todos seres humanos, com necessidades, dores e alegrias, esperanças, desejos e sonhos semelhantes. Mas nossas diferenças forjam nossa identidade. E a festa de Sucot reúne a nossa singularidade como povo e, ao mesmo tempo, nossa participação no destino universal da humanidade. Daí, o duplo júbilo de Sucot, a “Época de nosso regozijo”.

BIBLIOGRAFIA

Sacks, Rabbi Jonathan, “Leviticus: The Book of Holiness (Covenant & Conversation 3)”, Maggid. SETEMBRO 2017


DESTAQUE

Índia, parceria estratégica de Israel na Ásia POR JAIME SPITZCOVSKY

Israel e Índia anunciaram no mês de julho, em meio às comemorações de 25 anos do estabelecimento de plenas relações diplomáticas entre os dois países, a criação de uma parceria estratégica, apoiada na cooperação em tecnologia, agricultura e defesa, entre outras áreas. A aproximação histórica se consolidou com a recente visita do primeiro-ministro Narendra Modi, primeiro chefe de governo indiano a aterrissar em solo israelense.

L

ogo de início, o anfitrião Binyamin Netanyahu demonstrou a importância da chegada do visitante estrangeiro. O primeiro-ministro israelense foi pessoalmente recebê-lo no aeroporto Ben Gurion, acompanhado de outros integrantes do primeiro escalão do governo, em cerimonial reservado geralmente a presidentes dos Estados Unidos, principal parceiro político, econômico e militar de Israel.

comunista chinês Mao Tsetung posavam de líderes do chamado Terceiro Mundo e declaravam, no conflito do Oriente Médio, apoio ao movimento palestino. No mundo pós-Guerra Fria, China e Índia se livraram de amarras ideológicas do passado, optaram pelo caminho do crescimento econômico e encontraram em Israel um parceiro a oferecer cooperação, por exemplo, no campo da tecnologia. Laços israelenses com os gigantes asiáticos se expandiram dramaticamente nas últimas décadas.

Netanyahu, seguindo os ventos a moldar o cenário internacional no século 21, passou a investir na aproximação com potências asiáticas, como China e Índia, sem abrir mão do relacionamento estratégico com os EUA. O dinamismo econômico de Pequim e Nova Délhi atrai o olhar israelense, afastado daquelas paragens nos tempos da Guerra Fria devido aos alinhamentos ideológicos do período encerrado com a queda do Muro de Berlim, em 1989.

O comércio entre Israel e Índia, em 1992, ano do estabelecimento de relações diplomáticas, registrava a marca de US$ 200 milhões, para alcançar, em 2016, US$ 4,5 bilhões. Pilares dos laços bilaterais se apoiam nas áreas de defesa, agricultura e tecnologia para uso de água. A chegada de Narendra Modi a Israel, em julho, representou o capítulo principal de um intenso calendário de visitas diplomáticas, nos últimos meses. Em 2016, o presidente da Índia, Pranab Mukherjee, transformou-se no primeiro chefe de Estado de seu país a visitar Israel, enquanto em janeiro passado foi a vez de Reuven Rivlin, presidente de Israel, aterrissar em solo indiano.

Foi somente após o desaparecimento do mundo bipolar, dividido em campos norte-americano e soviético, que Israel estabeleceu laços oficiais com China e Índia. Nos tempos da Guerra Fria, dirigentes como o socialista indiano Jawaharlal Nehru e o 22


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cerimônia de boas-vindas para o primeiro-ministro modi, aeroporto ben gurion

Democracias dinâmicas, Índia e Israel carregam regimes parlamentaristas, nos quais a condução do governo cabe a um primeiro-ministro, enquanto os presidentes acumulam sobretudo funções cerimoniais e de representação do Estado. Primeiro-ministro da Índia desde 2014, Narendra Modi procura implementar um ambicioso processo de reformas, o que levou o país a acumular, nos últimos anos, taxas de crescimento econômico superiores às da China. O governo indiano busca acelerar a industrialização e a urbanização, pois cerca de 70% dos 1,3 bilhão de habitantes, a segunda maior população do planeta, ainda vivem na zona rural. A agenda econômica de Modi levou-o, por exemplo, a visitar uma

unidade de dessalinização de água próxima à cidade de Hadera. O tour incluiu passeio, com Netanyahu, em recente invenção israelense: um veículo desenvolvido para tornar potável a água do mar.

MOMENTO DE DESCONTRAÇÃO NA PRAIA olga (haifa) SEGUIDOS DE VISITA A UMA EMPRESA QUE DESENVOLVE TECNOLOGIA PARA DESSALINIZAÇÃO

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Os premiês também protagonizaram um momento de descontração ao caminharem pela praia e, sob sol tórrido do verão de Israel, tirarem os sapatos e darem alguns passos nas águas do mar Mediterrâneo. Modi e Netanyahu procuraram mostrar, ao longo da intensa iniciativa diplomática, a construção de laços pessoais, como, ao iniciar um discurso, o primeiro-ministro indiano chamar o anfitrião de “yedid hayakar” (caro amigo, em hebraico). Modi, que já havia visitado Israel em 2006, quando governava a província de Gujarat, também se reuniu com judeus oriundos da Índia. Houve apresentações de danças típicas num centro de convenções em Tel Aviv, decorado com bandeiras israelenses e indianas. Ainda no campo econômico, Modi visitou um centro de produção de SETEMBRO 2017


DESTAQUE

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1. em visita a Haifa 2. netaniahu e modi em Yad Vashem 3. em visita à fazenda danziger, onde o primeiro-ministro indiano atribuiu seu nome a uma nova espécie de crisântemos

no encontro com o garoto moshe holtzberg, sobrevivente do ataque terrorista de 2008, em mumbai

flores, acompanhado do ministro israelense da agricultura, Uri Ariel. E a parceria estratégica decolou com a assinatura de sete acordos nas áreas de água, agricultura e pesquisa espacial, além da criação de um fundo de US$ 40 milhões para financiar atividades conjuntas em tecnologia e inovação.

um quarto da Chabad House, no momento da tragédia.

Em um dos momentos mais emocionantes da intensa agenda, Narendra Modi se encontrou com Moshe Holtzberg, 10, sobrevivente do ataque terrorista em Mumbai, em 2008, que matou seus pais, o rabino Gavriel e Rivka. Então com 2 anos, Moshe foi salvo pela babá, a indiana Sandra Samuel, que o escondeu em

Sandra Samuel esteve no encontro com Modi, em Jerusalém. Ela recebeu a cidadania honorária de Israel, passou a viver na capital do país, e mantém o hábito de, aos domingos, percorrer mais de 90 quilômetros para visitar Moshe, na casa de seus avós, na cidade de Afula.

Além de Gavriel e Rivka, mais quatro pessoas foram assassinadas pelos terroristas na Chabad House, um dos alvos dos atentados responsáveis por 166 mortes, em Mumbai.

Narendra Modi também homenageou as vítimas do Holocausto, ao visitar o Yad Vashem, acompanhado de Netanyahu e do presidente do memorial, Avner Shalev. O primeiro-ministro indiano deixou uma mensagem no livro de visitantes: “No momento em que enfrentamos conflitos, intolerância, ódio e terror em nosso tempo, Yad Vashem serve como um espelho para a sociedade ao redor do mundo. Que não esqueçamos as injustiças do passado e seus custos devastadores para a humanidade”.

Jaime Spitzcovsky foi editor internacional e correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim

uma sessão de trabalho, em jerusalém

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HISTÓRIA DE ISRAEL

DECLARAÇÃO BALFOUR O CENTENÁRIO DE UM MARCO POR Zevi Ghivelder

Há 100 anos, no dia 2 de junho de 1917, o Ministro das Relações Exteriores do império britânico, Lord Arthur Balfour, emitiu um documento que se tornou um marco histórico e que foi consagrado para a posteridade como Declaração Balfour. Apesar do nome pomposo, trata-se, na verdade, de uma carta simples e concisa endereçada ao barão Walter Rothschild, um dos principais líderes da comunidade judaica da Inglaterra.

E

sta carta transcendeu na medida em que foi o primeiro passo para a autenticação do sionismo, tal como o objetivo desse movimento o havia formulado em seu primeiro Congresso Mundial, realizado vinte anos antes, na Suíça.

tendo ocupado durante 50 anos uma rara posição de poder dentro do Partido Conservador britânico. Depois de sua formação em Eton e Cambridge, incursionou na política. Bem sucedido, foi Primeiroministro de 1902 a 1905 e Chanceler de 1916 a 1919, um período difícil por causa dos desdobramentos da Primeira Guerra Mundial. Balfour descendia de uma família muito rica, recheada de intelectuais e proeminentes homens públicos. Entrou para a política durante os dois mandatos de Lord Salisbury, seu tio, sendo então nomeado Secretário para a Escócia e depois para a Irlanda, com assento no gabinete. Mais tarde foi líder de seu partido na Câmara dos Comuns, onde comandou a oposição durante o mandato de Lord Gladstone.

O texto de Balfour dizia o seguinte: “Caro Lord Rothschild. Tenho o prazer de endereçar a V.S., em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia quanto às aspirações sionistas, declaração submetida ao gabinete e pelo mesmo aprovada. O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país. Desde já, declaro-me extremamente grato a V.S. pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista”.

Ao buscar a aprovação do Gabinete do governo comandado pelo Primeiro-ministro David Lloyd George para a carta que pretendia endereçar a Rothschild, o Chanceler se valeu de diferentes argumentos. Primeiro, abordou o apoio ao sionismo que se multiplicava, conforme afirmou, nas comunidades judaicas de todas as partes do mundo. Mas, a bem da verdade, os estudiosos afirmam que o sionismo, naquela época, ainda não

O signatário da carta, Lord Arthur James Balfour, nasceu no dia 25 de julho de 1848 em Whittingehame, Escócia, 25

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HISTÓRIA DE ISRAEL

feitas por inúmeros analistas e historiadores, o fato é que Lord Balfour compreendia e endossava os propósitos da causa sionista. Em suas memórias, Chaim Weizmann escreve que, num encontro com Balfour, em 1914, falou-lhe sobre as agruras sofridas pelos judeus do Leste europeu, o que deixou Balfour com lágrimas nos olhos. Uma sobrinha de Balfour, chamada Blanche Dugdale, escreveu: “Perto do fim de seus dias, ele me disse que considerava o que tinha feito pelos judeus o momento mais valioso de sua vida”. Esse sentimento foi recíproco. Quando Balfour faleceu, no dia 19 de março de 1930, sua família recebeu milhares de mensagens de afeto e conforto de judeus de todas as partes do mundo.

Lord Balfour

empolgara as massas judaicas. O historiador e jurista americano David Fromkin escreve em um de seus trabalhos que, em 1913, apenas 1% do mundo judeu se identificava com o movimento sionista e diz ainda que em 1919, ou seja, já depois da Declaração Balfour, o sionismo atraía uma pequena parcela dos judeus americanos. Isto se devia, conforme acrescenta, ao repúdio da alta classe média judaica a qualquer forma de nacionalismo, tal como doutrinado pelos líderes do sionismo. A par disso, Balfour argumentou para o Gabinete que a influência judaica nos acontecimentos mundiais não podia ser ignorada – certamente um exagero, porque essa influência era mínima. Para reforçar sua tese, discorreu que na então

recente revolução russa havia grande quantidade de militantes judeus, que, com toda a certeza, seriam membros do governo que Lenin estava formando. Portanto, seria de todo interesse da Inglaterra manter boas relações com o futuro estado soviético. Como se não bastasse essa suposição relativa aos bolcheviques, também existia nos círculos oficiais britânicos a noção de que os judeus estavam por trás do imperialismo na Alemanha e até mesmo nos bastidores do império otomano, que os aliados da Primeira Guerra Mundial combatiam. O historiador Sydney Zebel escreveu que Balfour exagerava quanto à presença judaica na revolução russa, bem como superestimava o poder dos judeus americanos. Contudo, apesar das especulações 26

A emblemática carta de Balfour foi endereçada a Lionel Walter Rothschild, segundo Barão Rothschild de Tring, nascido em Londres no dia 8 de fevereiro de 1868, neto de Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), o grande patriarca da dinastia. Foi o próprio Chaim Weizmann, embora presidente da Federação Sionista da Inglaterra, quem sugeriu que Lord Walter fosse o destinatário da carta, porque sendo a mesma enviada a um membro da família Rothschild, seu conteúdo ganharia maior relevância na percepção internacional. Walter começou seus estudos de Zoologia na Universidade de Bonn, na Alemanha, e completou-os em Cambridge. Desde adolescente já possuía uma impressionante coleção de insetos e pássaros, que foi sendo aumentada, ao longo dos anos, na mansão de seu pai, na localidade de Tring, 50 quilômetros a noroeste de Londres. Apesar de sua consagrada especialidade na Zoologia, foi trabalhar no banco do pai, Nathan


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Mayer, deixando uma equipe para cuidar de sua coleção, depois transformada num museu aberto ao público em 1892. Lord Walter atuou no Parlamento britânico de 1899 a 1910 como membro do Partido Conservador, ao mesmo tempo em que se envolveu nas atividades da comunidade judaica, com ênfase no movimento sionista. Ele foi membro de diversas sociedades científicas mundo afora e deixou publicados dezenas de trabalhos nos campos da Biologia e da Zoologia. O Barão Walter Rothschild faleceu no dia 2 de agosto de 1937. Por trás do emitente e do recipiente da Declaração Balfour avultava a figura de um homem dotado de qualidades extraordinárias, o futuro primeiro Presidente do Estado de Israel, Chaim Weizmann. Ele nasceu no dia 27 de novembro de 1874, numa isolada aldeia chamada Motal, hoje na Bielorrússia, cuja população constava de 500 famílias cristãs e 200 famílias judaicas.

mãe estava sempre grávida, sempre amamentando uma criança. Ela deu à luz 15 filhos. Dizia que era esta a sua missão como mulher judia. Recordo-me do meu pai conduzindo as orações na sinagoga. Sua voz ainda ecoa em minha memória quando me sinto triste ou solitário”.

Lord Walter Rothschild

As casas naquele fim do mundo eram todas feitas de madeira, inclusive as duas sinagogas, a nova e a velha. A primeira era frequentada pelos mais ricos e a segunda pelos mais pobres. O pai de Chaim costumava rezar na velha, mas às vezes era convidado para a nova, onde atuava como chazan (cantor litúrgico). Em sua autobiografia, Weizmann assim se lembra dos pais: “Minha

Quando Weizmann tinha 11 anos de idade, a família se mudou para a cidade de Pinsk, perto da fronteira com a Ucrânia, que, aos olhos do menino, dava a impressão de uma grande metrópole. Ali fez o Ensino Médio e, em seguida, com um mínimo de dinheiro, foi estudar Química na Alemanha, depois na Suíça, e por fim com maior extensão na Inglaterra. Weizmann estava em Berlim, em 1896, quando ele e seus amigos tomaram conhecimento da publicação de um livro com poucas páginas, intitulado “O Estado Judeu”, da autoria de um jornalista de Viena chamado Theodor Herzl. Anos mais tarde escreveu: “A rigor, o livro não continha nenhuma

Lord Arthur Balfour em Jerusalém, em 1925

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novidade para mim e meu grupo. Mas, o efeito produzido pelo livro foi profundo. Não tanto por suas ideias, mas pela personalidade de quem havia escrito aquele texto com tamanha audácia, clareza e energia”. Então com 23 anos de idade, Weizmann não pôde comparecer ao Primeiro Congresso Mundial Sionista, na Basiléia, por absoluta falta de recursos. Só conheceu Herzl pessoalmente no ano seguinte, por ocasião do Segundo Congresso, também na Basiléia: “Havia nele uma grande autenticidade e um toque de patético. Achei que se propunha realizar uma tarefa de tremenda magnitude, mas sem um preparo adequado. Tinha grande talento e também ótimas relações. Porém, isso não bastava. À medida que melhor o fui conhecendo, em sucessivos congressos, meu respeito por ele foi-se confirmando e aprofundando. Era poderoso em sua crença de que havia sido designado pelo destino para realizar sua obra gigantesca”. No Congresso realizado

Sir Herbert Samuel, primeiro Alto Comissário da Inglaterra na Palestina

em 1901, três anos antes da morte de Herzl, ele entrou em acalorada polêmica com o próprio Herzl e com os delegados que estavam propensos a aceitar a implantação de um estado judeu em Uganda. O projeto agradava aos bem mais velhos porque assim teriam a oportunidade de ver um Estado judeu independente enquanto ainda vivessem. Weizmann se opôs à ideia de Uganda e, a esse respeito, deixou uma frase definitiva: “Não há sionismo sem Sion”.

Major James de Rothschild, filho do “Barão”, cercado de recrutas do 40o Batalhão de Artilharia Real

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Depois daquele Congresso, Weizmann radicou-se em Londres, de onde se deslocou por algum tempo para Genebra com a finalidade de completar seu doutorado em Química. No regresso a Londres, em agosto de 1914, a par de suas intensas atividades científicas, empenhou-se junto à comunidade judaica local para dar estrutura à Federação Sionista da Inglaterra. Foi nessa época que ofereceu ao Gabinete britânico, empenhado no esforço de guerra, um projeto para a produção de acetona através de fermentação bacteriana, o que já havia conseguido em pequena escala em seu laboratório. Perguntaram-lhe se poderia fazer o mesmo em grande escala. Aceitou o desafio e apresentou um plano para a construção de uma usina. Assim, seguindo suas instruções, foram erguidas indústrias de acetona no Canadá, Inglaterra, França e Estados Unidos. Essa acetona era fundamental para que a Inglaterra pudesse incrementar sua fabricação de bombas que não expeliam fumaça e, portanto, essenciais para a visão dos militares britânicos nas batalhas navais. No final da guerra, Weizmann foi chamado ao Alto Almirantado, comandado por Winston Churchill, que lhe disse: “O senhor fez um trabalho excepcional para nosso país e pretendo pedir a Sua Majestade que lhe conceda uma condecoração”. Weizmann respondeu: “Não quero nada para mim, mas gostaria de pedir algo para o meu povo”. Nos meses seguintes, Weizmann foi dando pormenores para Churchill e outros membros do Gabinete sobre a sua pretensão que consistia em obter do governo do Império algum tipo de manifestação favorável ao sionismo. E esta acabou se concretizando através da Declaração Balfour.


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Arthur Balfour, Walter Rothschild e Chaim Weizmann: este foi o tripé que protagonizou a Declaração Balfour. Mas, junto com esses homens, houve mais um, Nahum Sokolow, hoje injustamente esquecido, que foi fundamental para o êxito sionista. Ele nasceu em 1865, na pequena cidade de Wiszogrod, Polônia. A seu respeito, Chaim Weizmann, conhecido por sua cautela nos elogios, escreveu: “Foi um sionista notável, um gênio, extraordinariamente versátil, frio sob pressão, prolífico de forma espantosa e incansável trabalhador; só lhe fazia duas reservas: era um tanto desorganizado e, talvez, por demais conciliador”. A família de Sokolow se mudou, quando ele ainda era pequeno, para a cidade de Plotzk onde, desde cedo, ganhou fama de criança prodígio. Descendente de ilustres rabinos, o jovem frequentou aulas de uma série de talmudistas e, ao mesmo tempo, dedicou-se ao estudo de Ciências e idiomas. Adolescente, sabia escrever em hebraico, iídiche, alemão, polonês e inglês. Apesar de ter crescido em ambientes rudes, mantinha sempre uma postura elegante e um ar de sofisticação. Isto lhe serviria no futuro para que viesse a se desincumbir como um verdadeiro diplomata sionista. Depois do casamento com Regina Segal, em 1880, o jovem casal foi para Varsóvia, onde Sokolow passou a escrever uma coluna no jornal Ha-Zefirah, publicado em hebraico, no qual assumiria a condição de editor-chefe. Foi nessa função que cobriu o Primeiro Congresso Mundial Sionista na Basiléia, tendo-se tornado um ardente admirador de Theodor Herzl. Em seguida, dedicou-se a traduzir para o hebraico o romance de Herzl, “Nova

Nahum Sokolow com os participantes do 1o Congresso Sionista Mundial realizado em Israel, na Herschel Farbstein’s House

Velha Pátria”. Em 1906, passou a trabalhar na Organização Mundial Sionista. Fundou um semanário em hebraico chamado Haolam e, sete anos depois, passou a ter um assento no Executivo da Organização. Pelas obrigações desse posto, passou a viajar intensamente por diversos países da Europa e chegou a Nova York, em 1913, com a missão de agitar a militância sionista. Ali fez amizade com o judeu Louis Brandeis, Juiz da Suprema Corte americana, e com Henrietta Szold, fundadora do movimento sionista feminino Hadassah. Foi para Londres no ano seguinte, quando a Primeira

Nahum Sokolow

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Guerra já estava em curso. Naquele ano, tendo em vista o envolvimento otomano na guerra, os sionistas ficaram mais otimistas. Julgavam que, caso os turcos fossem derrotados pelos aliados, aumentaria a chance de os judeus reivindicarem a Palestina, subjugada pelo Império Otomano desde o início do século 16. Em maio de 1917, numa iniciativa audaciosa, Sokolow consegue marcar uma audiência no Vaticano com o Papa Benedito XV, empossado havia apenas três anos. Instado por Sokolow, o Papa declarou ver com grande simpatia o retorno dos judeus à Terra Santa e pediu que respeitassem e protegessem os lugares santos cristãos em Jerusalém. No fim da audiência perguntou: “O que posso fazer por vocês”? Sokolow respondeu: “Queremos nada mais do que o seu apoio moral”. Ao que o Papa aduziu: “Sim, creio que seremos bons vizinhos”. De volta a Londres, tomou conhecimento de que Lord Balfour havia pedido aos líderes sionistas que lhe dessem por escrito o que os judeus pretendiam do governo britânico. Coube, então, a Sokolow redigir o rascunho do que viria a ser a futura Declaração, com destaque para o fato de ter cunhado uma expressão que, no decorrer de setembro 2017


HISTÓRIA DE ISRAEL

muitos anos, tornou-se um mantra: “lar nacional”. Em fevereiro de 1919, já extinta a Primeira Guerra, Sokolow compareceu à Conferência de Paz, em Versalhes, perto de Paris, na qual fez uma vigorosa apresentação da causa sionista. Dois anos depois assumiu a posição oficial de representante da Organização Sionista Mundial na Liga das Nações. Nos anos seguintes, foi duas vezes à Palestina e continuou percorrendo diversos países da Europa e novamente viajou para os Estados Unidos. No 17o Congresso Sionista, realizado mais uma vez na Basiléia, em 1931, por causa de uma inconciliável discórdia entre Chaim Weizmann e Vladimir Jabotinsky, a presidência da Organização Mundial acabou competindo a Sokolow, que permaneceu nessa posição até 1935. Seu mandato foi turbulento, em função da crescente perseguição nazista aos judeus, e ficou ainda mais complicado quando Hitler ascendeu ao poder. Por pressão árabe e a despeito da vigência da Declaração Balfour, os ingleses fecharam as portas da Palestina para os judeus, uma atitude indigna, reforçada por outra proibição logo depois do início da Segunda Guerra

Zeev Jabotinsky com jovens uniformizados do Movimento Juvenil Betar

Mundial. Coube a Sokolow batalhar de forma frenética junto ao governo britânico para que as restrições imigratórias para a Palestina fossem atenuadas, o que, em parte, acabou conseguindo. Nahum Sokolow morreu em Londres no dia 17 de maio de 1936, aos 76 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. À beira de sua sepultura, no cemitério Willesden, o kadish (oração pelos mortos) foi recitado por Weizmann com Jabotinsky ao seu lado. Desde meados dos anos 50, a sede da Associação dos Jornalistas de Israel, em Tel Aviv, recebeu o nome de Beit Sokolow.

Balfour discursando na fundação da Universidade Hebraica. Atrás dele veem-se Chaim Weizmann e o Rabino-Chefe Avraham Kook

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Hoje se sabe que na primavera europeia de 1916, a Inglaterra, a França e a Rússia assinaram um pacto secreto, que tratava da futura situação geopolítica do Oriente Médio caso o Império Otomano viesse a ser derrotado. Essa negociação foi conduzida por Sir Mark Sykes, do lado inglês, e pelo diplomata François Georges Picot, do lado francês, e daí ter entrado para a história como o Acordo Sykes-Picot. O pacto abrangia todo o território desde o Mediterrâneo até a fronteira oriental da Rússia, à qual caberia uma vasta porção da Anatólia oriental. Quanto à Palestina, segundo o Acordo Sykes-Picot, a parte norte da Galiléia seria dada à França; os portos de Haifa e de Acre, à Inglaterra; Jerusalém e Jaffa ficariam sob supervisão internacional, que, além dos dois maiores vitoriosos, incluiria a Itália e a Rússia. A liderança judaica não tinha a menor ideia da existência desse pacto e se o Acordo viesse a ser implementado, corresponderia a um sepultamento de suas aspirações. Para sorte do movimento sionista, no fim daquele ano, o estadista David Lloyd George assumiu o posto de Primeiroministro do Império britânico. De imediato, julgou que o Acordo Sykes-Picot era generoso demais com a França, porque as mais árduas batalhas contra os turcos tinham sido vencidas pela Inglaterra no Sinai e na Palestina. Mark Sykes tentou promover uma revisão do Acordo, mas esbarrou na intransigência de Picot, que insistia numa divisão meio a meio. Foi durante essa turbulenta controvérsia que Sykes, por assim dizer, descobriu o sionismo. Ele foi ao encontro de Sokolow em Londres e pediu para conhecer a liderança sionista britânica. O encontro foi marcado numa residência


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particular, em Londres, à qual compareceram Nahum Sokolow, Chaim Weizmann, Lord Walter Rothschild, James de Rothschild e Herbert Samuel, que viria a ser, de 1920 a 1925, Alto Comissário Para a Palestina, nomeado por Sua Majestade. Durante a reunião, Sykes, que tinha excelente trânsito no Gabinete de Lloyd George, disse que a Inglaterra de fato devia acolher a causa sionista, mas apontou que a posição irredutível de Picot dificultava qualquer alteração no Acordo e, portanto, seu convencimento do contrário deveria caber aos líderes judeus. Estes argumentaram que não podiam se ocupar de uma tarefa que era exclusiva do governo da Inglaterra. Finalmente, James de Rothschild, quinto filho do patriarca Amschel e que também viria a receber o título de barão, insistiu que a pessoa mais apropriada para a missão era Nahum Sokolow. Em seu consistente ensaio sobre a Declaração Balfour, o historiador americano Martin Kramer reproduz um texto do também historiador inglês Harry Sacher: “Por que Sokolow? Porque ele era o diplomata do movimento sionista, um diplomata ao estilo do Quai d’Orsay francês, além do que era um homem de bela aparência, modos aristocráticos, fala delicada, palavras cautelosas, ternos bem cortados e charmoso monóculo”. Sykes concordou e respondeu que marcaria um encontro de Sokolow com Picot o mais rapidamente possível. Não resta dúvida que Sykes exerceu influência no gabinete em favor da causa sionista e pode ser apontado como um dos propulsores da Declaração Balfour. Sokolow e Picot se reuniram três vezes, duas em Londres e uma em Paris. Sua tarefa estava longe de ser fácil. Ele precisava convencer

Dr. Chaim Weizmann, chefe da Comissão Sionista na Palestina, explica a Declaração Balfour aos habitantes de Rishon-LeTsion

os franceses a apoiarem o projeto sionista, como também lhes incutir a noção de que um protetorado inglês na Palestina seria a solução mais adequada para aquela região. No terceiro encontro, em Paris, conheceu Jules Cambon, um dos mais destacados diplomatas da França, favorável à causa sionista. Sokolow ficou temeroso de lhe insinuar qualquer declaração por escrito porque o francês poderia julgar que se tratava de um pedido exorbitante. Além de Picot, os demais negociadores franceses presentes ao encontro demonstraram apreço pelas palavras de Sokolow. No tocante à revisão do acordo secreto, esta só se concretizou quando a Liga das Nações, anos mais tarde, conferiu à Inglaterra o mandato sobre a Palestina. Porém, àquela altura, o mais importante foi a carta assinada por Cambon, que Sokolow recebeu no regresso a Londres e na qual constava o seguinte último parágrafo: “O governo francês, que entrou na atual guerra para defender um povo injustamente atacado e que continua a luta para assegurar a vitória do direito sobre a força, pode somente sentir simpatia por sua causa sionista, cujo triunfo está vinculado ao dos aliados”. O biografo de 31

Weizmann, Yehuda Reinharz, julga que a declaração de Cambon é mais assertiva e mais importante do que a Declaração Balfour, embora a primeira tenha sumido da história. O historiador Isaiah Friedman chega ao ponto de afirmar que sem a carta de Cambon não haveria a Declaração Balfour. Os responsáveis pela Organização Sionista sabiam que a Declaração geraria uma série de reações positivas e negativas. O principal trabalho dos líderes, naquele momento, era obter endossos para as palavras de Balfour. O apoio da França se deveu à atuação de Sokolow junto a Pichon, Ministro das Relações Exteriores. Em seguida vieram os apoios do Japão e da Itália, cujo governo declarou o seguinte: “É nossa intenção facilitar a instalação de um Centro Nacional Judaico na Palestina”. Os Estados Unidos permaneciam reticentes em participar dos debates relativos à Palestina, mas, em agosto de 1918, o presidente Woodrow Wilson endereçou uma carta ao rabino Stephen Wise, Presidente do Conselho Sionista Americano, expressando sua “satisfação pelo progresso do movimento sionista desde a Declaração Balfour”. setembro 2017


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As controvérsias em torno da Declaração Balfour permaneceram durante 100 anos e assim chegaram até os dias atuais. O escritor judeu Arthur Koestler, comunista e sionista na juventude, e adversário dessas duas causas na maturidade, disse que “a Declaração Balfour é um dos documentos mais improváveis de todos os tempos”. O famoso advogado americano Sol Linowitz escreveu que a Declaração era impotente porque, quando foi emitida, a Inglaterra não detinha poder algum sobre a Palestina. A professora Galia Golan, da Universidade Hebraica, declarou num artigo que a Declaração Balfour não tinha a grande importância que lhe era atribuída porque a legitimação da causa sionista só aconteceu na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1947, quando esta aprovou a partilha da Palestina. Já o ex-chanceler de Israel, Abba Eban, acentuou que “a Declaração Balfour foi uma decisiva vitória diplomática do povo judeu na história moderna”. O político e jornalista inglês Richard Crossman

existir, tal como rotineiramente formulado pelos inimigos do Estado Judeu. É assombroso constatar que depois de 100 anos da Declaração Balfour, um tímido primeiro passo rumo ao sonho da obtenção de um lar nacional judaico, Israel seja o único país do planeta, dentre os 190 espalhados por cinco continentes, cujo direito à existência é questionado. Primeiro Ministro Netanyahu e esposa admiram o documento da Declaração Balfour

fez o seguinte resumo, há 50 anos: “A Declaração Balfour foi um dos maiores momentos da arte de governar no século 20”. A verdade é que a Declaração não foi um ato isolado de um país, no caso a Inglaterra. A Declaração foi emitida em meio a uma guerra de proporção mundial e, portanto, o gabinete britânico não teria permitido sua emissão sem o consenso de seus aliados no conflito. O centenário da Declaração, a ser celebrado em novembro de 2017, decerto vai trazer à tona o direito de Israel 32

BIBLIOGRAFIA

Sanders, Ronald. “The high walls of Jerusalem: a history of the Balfour Declaration and the birth of the British Mandate in Palestine”. Reinhart&Wilson, 1984, EUA. Schneer, Jonathan. “The Balfour Declaration: the origins of the Arab-Israeli conflict”. Random House, 2010, EUA. Jeffries, J.M.N. “Paalestine, the reality; the inside story of the Balfour Declaration”. Olive Branch Press, 2027, EUA. Kramer, Martin. “The forgotten truth about the Balfour Declaration!. Internet, site Mosaic, EUA,2017. Weizmann, Chaim. “Trial and Error, an autobiography”. Schoken Books, 1966. EUA. ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA


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uma era que se foi: a Sinagoga de Lancut A magnífica Sinagoga de Lancut, uma das poucas que se mantÊm até hoje, é um exemplo das sinagogas de quatro pilares, com majestosas abóbadas, construídas em todas as terras da Polônia. A sinagoga representa uma era e uma história sociopolítica e arquitetônica que, em outras partes, estão totalmente esquecidas.

I

naugurada em 1761 para substituir a sinagoga de madeira que fora destruída por um incêndio, tem seu prédio em pedra talhada, com 18m por 15m. Foi construída ao lado do vasto terreno onde ficava a residência de uma família da alta nobreza polonesa, dona da cidade, sob cuja égide viviam os judeus.

O prédio dá uma boa ideia da disposição espacial das sinagogas que têm a Bimá1 como elemento arquitetônico central, sendo construída com oito nichos em torno da mesma, e quatro pilares de pedra maciça que apoiam o teto e o telhado. Os quatro nichos, que ficam nos pontos cardeais, possuem abóbadas cilíndricas. A Bimá e seus pilares permitem que o prédio tenha uma estrutura com essas dimensões. Ademais, havia espaço suficiente para circulação ou colocação de assentos na direção norte e sul da Bimá. O interior é ricamente ornamentado com trabalhos em policromia e estuco, com pinturas de cenas da Torá, dos Chaguim, dos instrumentos musicais mencionados nos Salmos e do Zodíaco, executados por artistas judeus poloneses.

A modesta fachada externa não condiz com o rico décor de seu interior. Uma das características mais impressionantes do prédio é seu piso, rebaixado bem abaixo do nível térreo para contornar as rígidas limitações impostas pela Igreja acerca da altura das sinagogas. O espaço para as mulheres era acima da entrada e o acesso a essa galeria era feito através de uma escada externa. Após descer vários degraus da entrada, pode-se ver um salão de orações, com extrema luminosidade. Provavelmente os judeus de Lancut se sentiam tão seguros da proteção dos nobres proprietários das terras que se permitiam ter janelas mais amplas que o usual.

A história da comunidade judaica de Lancut teve seu início no século 16 quando um número pequeno de judeus lá se estabeleceram, mas a existência de uma Kehilá – uma comunidade judaica organizada – foi mencionada pela primeira vez em 1563. A cidade teve seu real esplendor no século 17 quando o Duque Stanisław Lubomirski se tornou seu proprietário. Lubomirski contratou um judeu para fazer a contabilidade de sua propriedade e estendeu aos judeus

Bimá, a plataforma elevada utilizada para a leitura da Torá durante os serviços religiosos. Na antiguidade era feita de pedra, mas atualmente é uma plataforma retangular ou redonda de madeira à qual se acede através de poucos degraus.

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CAPA

da cidade inúmeros privilégios. Entre estes, dedicar-se ao comércio – com exceção do comércio de peles – e a vários ofícios, assim como comprar terras e construir casas na cidade. O número de judeus que lá viviam começa a aumentar, chegando a mais de 100 em 1662. Antes de 1648 havia uma sinagoga de madeira e a primeira referência a um cemitério judeu data de 1671. No século 18 a comunidade já tinha sua própria escola, uma mikvê, um local de orações e um hospital.

formato barroco é, até hoje, uma das mais magníficas sinagogas da Polônia. O único registro do seu interior original é uma aquarela pintada após 1786 pelo paisagista polonês Zygmunt Vogel (que usava o pseudônimo de Ptashek; 17641826). A sinagoga foi restaurada em 1896 e redecorada em 1909-10.

Em 1716, houve um incêndio na pequena sinagoga de madeira da comunidade, que foi reconstruída, mas voltou a pegar fogo. Em 1726, a Kehilá decidiu empreender esforços para erguer uma nova sinagoga de alvenaria, porém, o projeto era custoso e acabou sendo em grande parte financiado pelo Duque Stanisław. A nova estrutura em

Após 1760, Lancut se torna um importante centro do Movimento Chassídico e os Chassidim passam a ser a força dominante na vida religiosa da comunidade. A pequena sala de orações da Sinagoga era usada como Corte Rabínica e ponto de encontro para os judeus da cidade e inúmeros Mestres Chassídicos. No final do século 18, residia em Lancut Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz, conhecido como o Chozé de Lublin, o Vidente de Lublin. Um dos mais importantes Tzadikim ( Justos) na história do Chassidismo, Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz, tinha uma sala separada na sinagoga, onde fazia suas orações, estudava e ensinava. Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz acabou mudando-se para Czechów e, de lá, em 1784, para Lublin. Após a primeira partilha da Polônia (1772), Lancut passa a ser território

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da Áustria, o que, no entanto, não impediu o crescimento da comunidade judaica. Em 1870, mais de mil judeus viviam na cidade, representando 41% da população geral. Em 1880, já eram 45 %. O período entre guerras (19181939) testemunhou um rápido crescimento da comunidade e de suas instituições educacionais e culturais. Em 1921, havia 1.925 judeus na cidade (cerca de 42% da população total) e 2.753, em 1939. A cidade foi tomada pelos alemães em 9 de setembro de 1939, e eles incendiaram a sinagoga – a galeria das mulheres, em madeira, assim como as estruturas da janelas e o mobiliário foram destruídos. O incêndio só foi dominado após a intercessão de Alfred Potocki, que fez um apelo às autoridades alemãs. A família Potocki era proprietária de Lancut desde 1816. Assim que os nazistas entraram na cidade, a maioria dos judeus foram expulsos, grande parte dos quais para território soviético. No início de 1940, eram apenas cerca de 900 os judeus da cidade. No final do ano, com a chegada dos refugiados expulsos de Cracóvia, esse número chegou a 1.300. Em 1º de agosto

de 1942, a maioria dos judeus de Lancut foram deportados, e os que ainda lá viviam foram levados para o gueto de Szeniawa, em 17 de setembro. Em maio do ano seguinte o gueto de Szeniawa era liquidado. Durante a ocupação nazista e por alguns anos após a guerra, a sinagoga foi usada para armazenar grãos. Em 1956, não havendo judeus residentes

na cidade, a Prefeitura propôs que se destruísse o prédio, mas o Dr. Stanislaw Balici persuadiu a Câmara de Vereadores a preservar o prédio como museu e memorial da comunidade judaica destruída. A sinagoga foi reformada em meados do século 20, passando por novas reformas em 1983 e em 1990. Desde 2009, é propriedade da Fundação para a Preservação da Herança Judaica na Polônia. Um dos projetos mais importantes da Fundação é a “Rota Chassídica”, uma rota turística que segue os vestígios das comunidades judaicas pelo sudeste da Polônia e oeste da Ucrânia. Essa rota inclui a sinagoga de Lancut e as de Kraśnik, Rymanów e Zamość.

CASTELO DE LANCUT, CIDADE POLONESA CUJA POPULAÇÃO JUDAICA FOI DEPORTADA EM 1942

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ARTE

Em Bezalel nasce a nova arte israelense “Então o Senhor disse a Moshé: ‘ Veja, Eu escolhi Bezalel, o filho de Uri, da tribo de Judá, e Eu o preenchi com o Espírito de D’us, com sabedoria, compreensão, conhecimento e todas as ferramentas humanas... para desenvolver todas as modalidades de arte” (Êxodo 31: 1-5).

E

m 1906, em um edifício alugado na Rua Abissínia, no centro de Jerusalém, a Escola Bezalel de Artes e Ofícios (Bezalel School of Arts and Crafts) iniciava suas atividades, constituindo mais uma das instituições israelenses criadas antes da fundação do Estado Judeu, em 1948. A primeira exclusivamente voltada ao universo artístico, tornou-se realidade graças à visão e determinação de Boris Schatz, escultor e pintor lituano que morreu em 1932 sem conhecer o sucesso que “sua” instituição alcançara. Começando com um pequeno número de professores e alunos – 30, apenas – a Escola Bezalel cresceu e se desenvolveu tornando-se a mais importante academia de arte em Israel, e uma das mais prestigiadas do mundo. Na mesma data, foi também criado o Museu de Arte Bezalel, precursor do Museu de Israel, um dos mais importantes do país.

em computação, a Bezalel possui um corpo docente composto por artistas talentosos. Responsável pela formação de centenas de artistas israelenses consagrados, a Escola se tornou o epicentro na vanguarda do cenário artístico israelense, sendo instrumento essencial na formação da identidade cultural nacional.

Primeiras influências Boris Schatz nasceu na cidade de Vorno (atual Lituânia), em 1867. Viveu em Sofia entre 1895 e 1905, onde foi um dos fundadores da Academia de Arte Búlgara, criada com o objetivo de desenvolver um senso de unidade e identidade nacional. Estes objetivos seriam alcançados através da incorporação de imagens e elementos oriundos das tradições folclóricas búlgaras e sua integração com novas tendências artísticas e culturais europeias. O sucesso e a experiência obtidos nessa empreitada contribuíram para fortalecer seu ideal de realizar um projeto semelhante em Jerusalém – um centro para a nova arte da Terra de Israel que poderia atrair artistas e estudantes judeus de todo o mundo.

Uma das principais características da instituição tem sido sua capacidade de se adaptar às mudanças culturais decorrentes dos vários fluxos imigratórios ao longo da história de Israel e, hoje, aos 110 anos, a Escola Bezalel é sinônimo de inovação e excelência acadêmica no país e no exterior. Combinando o conhecimento artístico tradicional com as mais modernas tecnologias

Manifestações abertamente antissemitas, como o Caso Dreyfus na França, em 1894, e os pogroms de Kishinev, 36


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PÁTIO DA ACADEMIA BEZALEL, VENDO-SE boris schatZ, DE PALETÓ ESCURO E CALÇA BRANCA, EM PRIMEIRO PLANO, OLHANDO PARA A MAQUINA

em 1903-1905, aproximaram Schatz do Sionismo. Para ele, o fato mais importante da época foi o surgimento do mesmo como movimento político, com o objetivo central de reconstrução de um Lar Nacional Judaico e a possibilidade de se criar uma nova cultura judaica em Eretz Israel. Decidiu, então, apresentar sua ideia a Theodor Herzl, em 1903. Os debates sobre qual seria a essência da nova cultura em Eretz Israel estavam na agenda das reuniões do Congresso Sionista e Schatz viu seu plano de implantação de uma escola de artes em Jerusalém ser aprovado, no Congresso Sionista de 1905. Para concretizar seu sonho, Schatz emigrou para Israel em 1906, com um grupo de professores e estudantes, começando a trabalhar em Jerusalém. Assim nascia a Escola de Artes Bezalel, nome escolhido

por ele em homenagem a Bezalel Ben Uri, primeiro artesão judeu mencionado na Torá e escolhido por D’us para supervisionar o projeto e a construção do Tabernáculo.

Desde o início, a instituição atraiu jovens judeus de todo o mundo e de todas as regiões da então Palestina. As criações dos primeiros professores e alunos, no início dos anos 1900, são consideradas o ponto de partida para a trajetória das artes visuais israelenses ao longo de todo o século 20. Os artistas formados pela Escola sempre tiveram liberdade para desenvolver sua imaginação e fundir diferentes estilos em um mesmo trabalho, combinando temas e figuras de períodos e contextos diversos. A combinação de diferentes técnicas, materiais e dimensões com a fusão de estilos antigos e modernos deu origem a uma arte singular e heterogênea.

Schatz, em uma exposição dos trabalhos da escola bezalel. lvov, 1910

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O contexto da Terra de Israel de então permitiu às primeiras gerações de alunos e professores SETEMBRO 2017


ARTE

departamento de gravura em madeira, c. 1910

embarcar, por um lado, em novas aventuras explorando todas as suas possibilidades e influências – local, oriental, exótico e bíblico. E, pelo outro, acompanhar a estética ocidental, seus valores e a demanda dos mercados. Cores ricas, diversidade de formas e materiais, um estilo eclético e um senso de alegria na criação caracterizaram a produção de Bezalel, dando-lhe um charme singular.

escola de arte, um complexo para seminários e um museu. Na época da abertura, a escola e o museu funcionavam em dois edifícios na esquina das ruas Bezalel e Shmuel HaNagid. As aulas e os ateliês eram realizados nos vários departamentos da Escola, divididos de acordo com as técnicas e materiais utilizados. Obras especiais eram desenvolvidas em conjuntos pelos vários departamentos.

Primeiros anos

Na época, além de escultura e pintura tradicionais, a Escola oferecia ateliês onde foram produzidos objetos decorativos em prata, couro, latão e tecido. Muitos dos artesãos eram membros da comunidade judaica iemenita, que mantinham a tradição de trabalhar metais preciosos como a prata. A ourivesaria era uma profissão tradicional e comum entre os judeus no Iêmen. Esta comunidade e seus hábitos, portanto, eram tema muito comum nos trabalhos artísticos produzidos.

Para Schatz, a Escola seria o berço da criação de um estilo de arte que conciliaria a arte clássica judaica com as tradições artísticas do Oriente Médio e da Europa. Como vimos acima, a primeira sede da Escola foi um edifício alugado na Rua Abissínia. Mas, já em 1907, se mudava para um complexo de edifícios, cercados por um muro de pedras, comprados pelo Fundo Nacional Judaico (Keren Kaiemet LeIsrael). Nesse campus ele viveu com sua esposa e filhos. Desde a sua fundação, a Escola estava dividida em três setores: uma

Meir Gur Aryeh, Ze’ev Raban, Shmuel Ben David, Ya’ackov Ben-Dov, Zeev Ben-Zvi, Jacob 38

Eisenberg, Jacob Pins, Jacob Steinhardt e Hermann Struck são alguns dos estudantes que se destacaram no cenário artístico do país. Marousia (Miriam) Nissenholt, que usava o pseudônimo de Chad Gadya, era, em 1912, a única mulher na Bezalel. Os primeiros anos, de 1906 até 1914, às vésperas da 1a Guerra Mundial, foram marcados pelo sucesso: a cada ano abriam-se novos departamentos e novas tendências artísticas eram introduzidas. O número de estudantes e professores aumentava anualmente e seus trabalhos eram expostos na região e no exterior. Como vimos acima, o tema central das obras produzidas era a vida na Terra de Israel. Utilizando uma ampla gama de materiais – prata, cobre, bronze, marfim, madeira e terracota, entre outros, criaram placas e objetivos decorativos, filigranas, relevos e objetos cerimoniais, combinando a arte oriental e ocidental. Os primeiros trabalhos refletem o empenho em criar obras que representassem a Terra de Israel e seus vínculos com o povo judeu. São essas obras que


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fizeram parte da exposição “Crafting a Vision: The Bezalel School” (Criando uma Visão: A Escola Bezalel).

Tempos difíceis A instituição dependia do Conselho de Diretores sediado em Berlim, e isso era um problema, pois eles viviam em conflito constante com Schatz em relação à forma de administrar a Escola e, principalmente, à questão do tipo de arte que devia ser desenvolvido. Em função dessas disputas, em 1915, as verbas de Berlim foram suspensas. Embora a importância da Escola Bezalel fosse reconhecida e, apesar do apoio das associações de amigos em Hamburgo, Praga e Varsóvia, a maior parte da responsabilidade recaía sobre Schatz. Os últimos anos, de 1917 a 1929, quando a então Palestina estava sob Mandato Britânico, foram instáveis. Schatz lutou incansavelmente, procurando desenvolver atividades que impedissem o fechamento da Escola, pedindo apoio e suporte financeiro aos judeus da Diáspora. Sem perder a confiança, deu início a uma série de iniciativas para arrecadar fundos, entre as quais, a realização de novas exposições nos Estados Unidos dos trabalhos dos alunos e professores, e a edição de livros de luxo e álbuns, além de incentivar uma nova tendência na Terra de Israel – a pintura de tijolos de cerâmica, então muito usados para decorar as casas de Tel Aviv.

“O Museu já funciona como ferramenta de aprendizagem para a Escola Bezalel e seus seminários artísticos... Desejamos reunir em um único lugar toda a criação da genialidade do Povo Judeu, local esse onde preservaremos esse acervo...” Mas a Grande Depressão que atingiu o mundo ocidental, em 1929, e a consequente redução, cada vez maior, de recursos vindos do exterior levaram ao fechamento da Escola. Schatz, no entanto, não desistiu e, mesmo doente, visitou várias cidades norte-americanas em busca de auxílio financeiro. Mas, em março de 1932, ainda nos Estados Unidos e sem ter conseguido seu objetivo, faleceu aos 65 anos em um hospital em Denver, Colorado. Depois que Hitler subiu ao poder, na Alemanha, o Conselho de Diretores pediu a Josef Budko, que fugira da Alemanha em 1933,

para reabrir a Escola e assumir sua direção. A nova Escola de Artes e Ofícios Bezalel reabre em 1935, atraindo professores e estudantes judeus alemães, muitos vindos da Escola Bauhaus, na Alemanha, que fora fechada pelos nazistas. Com o nome de Nova Escola de Artes e Ofícios Bezalel, a instituição passa por várias mudanças, adotando objetivos e métodos que se distanciam das metas iniciais. Budko contratou Jakob Steinhardt e Mordechai Ardon para lecionar e ambos ocuparam a direção após seu afastamento. Após a fundação do Estado de Israel, em 1948, o tema da formação artística entrou na agenda nacional e a Escola passa a ser vista como um elemento fundamental para a expansão do ensino das artes plásticas, no país. Em 1958, a instituição recebeu o Prêmio Israel para Pintura e Escultura, sendo a primeira vez em que a láurea foi outorgada a uma instituição. Em 1968, a maioria de seus departamentos são transferidos para a área da Universidade Hebraica de Jerusalém, no Monte Scopus e, em 1969, seu nome muda para Academia de Artes e Design Bezalel, quando passa a receber suporte financeiro do governo. Em 1975, foi reconhecida pelo Conselho para Educação Superior de Israel como um instituto de educação de nível superior.

Temas, símbolos e personagens Os temas inicialmente presentes nas ilustrações e objetos decorativos nos trabalhos da Bezalel eram baseados na visão de Schatz e em sua tentativa de criar um “novo estilo judaico” que combinasse o glorioso passado bíblico com o

Apesar das dificuldades, em 1925 foi aprovada pelas autoridades do Mandato a abertura do Museu Nacional Bezalel – precursor do Museu de Israel. Antes da abertura, foi publicado o seguinte anúncio: 39

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ARTE

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1. monumental pia em cobre e latão, jerusalém, c. 1910. 2. Castiçal de parede, metal fundido e decorado em repuxado, Jerusalém, c. 1920 3. capa de livro em prata répoussé e filigrana, com pedras semi-preciosas, 1924

ideal sionista de retorno à Terra de Israel. Heróis bíblicos, líderes do movimento sionista, como Joseph Trumpeldor, eram retratados ao lado de personagens do dia-a-dia de Jerusalém nas obras dos seus artistas. Inicialmente, os heróis bíblicos eram representados trajando o vestuário dos judeus iemenitas, persas e curdos, ou como os árabes de Jerusalém à época, que serviam de modelo para os pintores da Bezalel. Muitos personagens eram retratados como exemplo do “distante espírito do Oriente”, tão em moda entre os artistas europeus no início do século 20. As inscrições, no estilo da Art Nouveau ou com arabescos, estão quase sempre presentes nas obras, algumas vezes como parte central da decoração, outras ao lado de outros elementos, ou como legenda de uma ilustração. Era grande o interesse pelo alfabeto hebraico, nos primeiros anos, daí a criação de novas fontes, experimentos com símbolos e a combinação de diferentes tipos de letras hebraicas com o uso de letras duplas para criar novas formas, muitas vezes distantes da palavra original e de seu significado.

A representação dos locais sagrados – Torre de David, Muro das Lamentações, símbolos de Jerusalém, assim como o Túmulo de Raquel e o Monte Sinai, eram imagens também muito presentes na produção artística da Terra de Israel no século 19. Os artistas da Bezalel passam a incluir as paisagens que os cercavam e locais como Tel Hai, Tel Aviv, Yaffo, Tiberíades, a Universidade Hebraica de Jerusalém e cenas dos recém-criados kibutzim e moshavim. Na visão artística de Schatz, os edifícios da própria instituição também serviam de modelo, ocupando um status similar aos locais sagrados. Nos primeiros anos, a produção artística da instituição transformase em souvenirs, rapidamente imitados pela indústria de lembranças da Terra Santa. Em pouco tempo, artistas e artesãos judeus, muçulmanos e cristãos em Jerusalém e Bethlehem começam a criar objetos decorativos com os mesmos temas. As matérias-primas usadas incluíam madeira de oliveira, madrepérola, flores secas e também betume, conhecido como “pedra do Mar Morto”. Tais produtos 40

industrializados eram erroneamente confundidos com objetos criados pelos artistas da Bezalel.

A atual Escola Bezalel Sendo a mais antiga escola de artes do país de nível superior, a Escola Bezalel conta atualmente com mais de dois mil alunos nos vários cursos de graduação, entre outros de Belas Artes, Arquitetura, Comunicação Visual, Política e Teoria das Artes, e Design, em várias modalidades. Atualmente, seu campus está localizado no Monte Scopus, na área da Universidade Hebraica de Jerusalém, com exceção do Departamento de Arquitetura, que ainda funciona no edifício histórico no centro da cidade. Seu ambiente artístico, cursos, exposições e seminários têm contribuído fortemente para o desenvolvimento espiritual e cultural de Israel. No decorrer dos anos, os artistas da Bezalel empenharam-se em “criar um estilo próprio da arte judaica” para a nova nação, retratando temas bíblicos e sionistas em um estilo influenciado pelo Jugendstil (Art Nouveau na


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Alemanha e Áustria) e a arte persa e síria tradicionais. O resultado foi o desenvolvimento de um estilo próprio, conhecido como a Escola de Bezalel. Em junho de 2013 o executivo da Bezalel anunciou o recebimento da doação de US$ 25 milhões da Fundação Jack, Joseph e Morton Mandel, de Cleveland (Ohio), para o início da construção do novo campus da instituição. Com inauguração prevista para este ano de 2017, as novas instalações da academia terão aproximadamente 39 mil m2 e serão executadas pelo escritório de arquitetura japonês SANAA em parceria com a Nir-Kutz Architects, de Israel, vencedores de uma concorrência internacional. Em 2015 foi colocada a pedra fundamental para início da construção. O novo campus no Complexo Russo1 foi uma escolha conjunta do governo de Israel, Prefeitura de Jerusalém e Academia Bezalel, por suas características multiculturais que integram a instituição ao ambiente singular e vibrante urbano, além de revitalizar a área central da cidade e atrair as gerações mais jovens.

placa em marfim, retratando fiéis em tishá be’av, boris schatz. jerusalém, c. 1925

– afirmou: “Schatz foi um visionário cujo objetivo era criar, em Jerusalém, um centro cultural para o nascimento de uma nova arte hebraica. (...) Fundada em 1906, a Academia Bezalel atraiu estudantes de perto e de longe, dos assentamentos sionistas e da Diáspora judaica, e continua, até os dias de hoje, a promover o legado e as crenças de Schatz... Infelizmente, seu fundador não viu o grande sucesso de sua Bezalel, tampouco viu o Museu de Israel ou os

milhares de artistas que a instituição preparou para a vida profissional, nem vivenciou a florescente cultura israelense de nossos dias”.

BIBLIOGRAFIA

Early Israeli Arts and Crafts – Bezalel Treasures from the Alan B. Slifka, Collection in the Israel Museum www.bezalel.ac.il/en/ The Bezalel artistic legacy flourishes in Jerusalem, publicado no www.timesofisrael, em 22 de novembro de 2014

Na abertura do evento que marcou o centenário da instituição, Yigal Zalmano, curador-chefe do Museu de Israel e da exposição comemorativa da data – “Boris Schatz: Pai da Arte Israelense”

Complexo Russo, em hebraico “Migrash ha-Russim”, é um dos bairros mais antigos de Jerusalém, fora da Cidade Velha, do qual fazem parte uma igreja ortodoxa russa, um hospital e antigos abrigos de peregrinos, alguns dos quais são usados como edifícios governamentais de Israel e o Museu dos Prisioneiros dos Movimentos Underground (Haganá, Lehi e Irgun).

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HISTÓRIA

Judiarias portuguesas: um reencontro com o passado Portugal está-se reconciliando com seu passado judaico. Os primeiros passos nessa direção foram dados em 1989, quando Mário Soares, então presidente da República, pediu perdão, simbolicamente, pelas perseguições que os judeus sofreram no país durante os mais de 300 anos de existência do Tribunal da Inquisição e quase 500 desde o Decreto de Expulsão da população judaica, de 1496, assinado pelo então rei D. Manuel I.

E

m dezembro de 1996, no Parlamento, durante a Sessão Evocativa desse decreto, foi votada, por unanimidade, a sua revogação simbólica. Virava-se, assim, uma página no relacionamento mútuo e se iniciava um processo contínuo de reconhecimento e reconstrução da presença judaica e sua influência no país. No ano 2000, o então cardeal-patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, fez o mesmo pedido de perdão aos judeus.

em 31 de março de 1821. Durante 285 anos, perseguiu e condenou aqueles considerados “hereges”, um termo que acabou incluindo seguidores de outras religiões que não a católica, tendo jurisdição sobre todas as colônias do país. Dentro dessa perspectiva de reconciliação, em março de 2011 foi lançada a Rede de Judiarias de Portugal Rotas de Sefarad, uma iniciativa do governo em parceria com o setor privado, cujo objetivo é a preservação do patrimônio urbanístico, arquitetônico, histórico e cultural da herança judaica no país, visando implementar, também, o turismo. Com sede em Belmonte, a Rede congrega 37 municípios, incluindo Lisboa e Porto.

Uma “Estrela de David” localizada em frente à Igreja de São Domingo, na Praça do Rossio, em Lisboa, chama a atenção por sua inscrição: “Em memória dos milhares de judeus, vítimas da intolerância e do fanatismo religioso, assassinados no massacre iniciado em 19 de abril de 1506, neste largo”. O memorial foi inaugurado em 2008 para lembrar uma das mais trágicas páginas da história dos judeus em Portugal: o assassinato de mais de dois mil “cristãos-novos” – judeus convertidos à força, em 1497, por uma ordem real. Durante três dias – o massacre começou no domingo de Páscoa – frades dominicanos incitaram ataques aos cristãosnovos. É importante lembrar que o Tribunal do Santo Ofício, implantado em Portugal em 1536, foi extinto

Mais um fato que reforça a nova postura das autoridades data de fevereiro de 2015, quando foram aprovadas novas regras que alteraram o Regulamento da Nacionalidade Portuguesa, permitindo a concessão da nacionalidade aos descendentes de judeus sefaraditas expulsos. Ao anunciar a medida, a então ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou que a nova lei era o “reconhecimento de um direito”. O decreto foi promulgado pelo então presidente Anibal Cavaco Silva, publicado no Diário da República de 46


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lisboa, bairro do rossio

27 de fevereiro de 2015, entrando em vigor em 1º de março. Atualmente, cerca de três mil judeus vivem em Portugal. Lisboa, Porto e Belmonte são as cidades que concentram maior população judaica, sendo que a maior sinagoga da Península Ibérica está instalada no Porto. De 20 de março a 29 de abril deste ano, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, sediou a exposição “Heranças e Vivências Judaicas em Portugal”, organizada pela Rede de Judiarias. A partir de maio, a mostra foi levada a todas as cidades e povoados que integram a Rede, começando por Bragança, na região de Trás-os-Montes, no norte de Portugal. Mais um fato que confirma o resgate da história da presença judaica no país é a construção e inauguração nos próximos meses, em Lisboa,

do Museu Judaico, no Largo de São Miguel, bairro da Alfama, local que abrigou a mais importante comunidade da Lisboa Medieval, que chegou a ter três judiarias. A atual sinagoga “Shaare Tivká” foi inaugurada em 1904, sendo, atualmente, a sede da Comunidade Israelita de Lisboa. Durante a 2ª Guerra Mundial, a capital portuguesa foi refúgio de milhares de judeus que fugiam do nazismo.

memorial no rossio ao “massacre de lisboa”, 1506

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As Judiarias Não há consenso sobre a data na qual os judeus chegaram em Portugal. Segundo alguns historiadores, vieram com os primeiros fenícios pelo Mediterrâneo, no tempo do Rei Salomão. No entanto, as primeiras referências documentais estão datadas do século 12, quando precisavam de uma autorização emitida pelo bispo do Porto para lá se instalar. O período entre os séculos 12 e 16 foi testemunha da forte presença judaica no país. Até final do século 14 não havia por parte dos monarcas portugueses a preocupação em separar geograficamente os cristãos dos judeus. No entanto, a partir dessa data, nas cidades e vilas medievais de Portugal, os judeus tornaram-se obrigados a viver em SETEMBRO 2017


HISTÓRIA

as ruas Direita e Fonte da Rosa se pode ver nos umbrais marcas na pedra, geralmente pequenas cruzes, indicando que ali vivia um cristão novo. Tais casas eram chamadas “Casas das cruzes”.

PINTURA DE ROQUE GAMEIRO, REPRESENTANDO A EXPULSÃO DOS JUDEUS DE LISBOA EM OUTURO DE 1497

áreas determinadas pela realeza, que passaram a ser conhecidas como “judiarias”. O objetivo era evitar a “influência” judaica sobre os cristãos. Nelas eles construíam suas casas, sinagogas, açougues e procuravam manter suas tradições. Inúmeras comunidades viram sua população aumentar, a partir de 1492, com o Édito de Expulsão da Espanha. A maioria dos judeus que decidiram que era melhor deixar a Espanha do que se converter foram para Portugal. Tanto eles quanto mais tarde os conversos que queriam fugir do Tribunal da Inquisição espanhol entraram em terras portuguesas pelo norte do país. As judiarias mais importantes estavam nessa região. Em cidades como Guarda, Trancoso, Castelo Rodrigo, Celorico da Beira, Almeida, Foz Côa, Pinhel, Linhares e Belmonte muitas casas ainda guardam marcas e símbolos nos umbrais e janelas, indicando que ali, um dia, viveram judeus. Porto, Coimbra, Castelo de Vide, Tomar e Lisboa também tiveram suas judiarias, cujos resquícios ainda podem ser vistos.

história singular. Em 1497, ao recusar-se a sair do reino, tornaramse conversos, anussim. Vivendo isolados no povoado, secretamente se mantiveram fieis ao judaísmo durante mais de cinco séculos. A judiaria estendia-se entre as atuais ruas da Fonte da Rosa e Direita. O estilo de vida judaica em Belmonte e em outras judiarias refletiu-se na arquitetura das residências da comunidade. De modo geral, no térreo estava a oficina ou a loja e, no primeiro andar, a moradia, razão pela qual as casas possuíam duas portas com acessos separados para cada um dos andares. As portas e janelas eram assimétricas. Ao percorrer

Somente em 1989, após um processo de conversão, os anussim de Belmonte retornaram efetivamente ao judaísmo. Importante ressaltar que, diferentemente de outros anussim, os conversos de Belmonte tinham comprovadamente casado entre si durante centenas de anos. Sua volta ao judaísmo foi realizada sob os cuidados do Grão-Rabino de Israel, o Rishon Letsiyon Rav Mordechai Eliyahu ZT ’L’. Nessa ocasião foi fundada, oficialmente, a Comunidade Judaica de Belmonte. Em 1996, foi inaugurada a Sinagoga Beth Eliahu. Um projeto do arquiteto Neves Dias, tem nas portas imagens da Estrela de David, de uma menorá, e inscrições em hebraico. Um rabino costuma ir à cidade para a celebração das festas judaicas. Em 2001, foi inaugurado o cemitério judaico e, em 2005, na Rua da Portela, o Museu Judaico – atualmente em obras – cujo acervo conta a história dos

Belmonte Os judeus de Belmonte – terra de Pedro Álvares Cabral – têm uma

Sinagoga Beth Eliahu, belmonte

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museu judaico, belmonte


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judeus portugueses, sua integração na sociedade medieval, os rituais e costumes das comunidades. Mais um fato importante foi a abertura do primeiro hotel casher de Portugal, o Belmonte Sinai Hotel, em um antigo edifício totalmente restaurado no centro da cidade.

Porto A história da comunidade judaica no Porto mescla-se à da própria cidade, mas atualmente há poucos vestígios marcantes do passado judaico. No entanto, é no Porto que está situada a maior sinagoga da Península Ibérica – a Sinagoga Kadoorie Haim, inaugurada, em 1938, a poucos metros do Colégio Alemão. Foi assim denominada em homenagem à família Kadoorie, natural de Hong Kong, cujos antepassados eram judeus portugueses e foi a responsável pela doação que permitiu a finalização da obra. A sinagoga inclui um museu, uma mikvê, salas de estudos e biblioteca. A cidade teve três judiarias: a Judiaria Velha, a Judiaria de Monchique e a Judiaria de Nova Olival. Historiadores acreditam, pelos indícios encontrados, que Porto chegou a ter quatro sinagogas. A Judiaria Velha localizava-se dentro da Muralha Primitiva, no Morro da Pena Ventosa ou da Sé. Há indícios da existência de duas sinagogas nessa área, uma na chamada Rua da Sinagoga, antiga Rua das Aldas e atual Rua da Sant’Ana; e outra, datada do século 14, na Rua da Munhata, ou Minhota, atual Rua do Comércio do Porto, que funcionava na loja de um marinheiro judeu.

sinagoga kadoorie haim, porto

toda a vida comunitária. Sua existência é comprovada por uma inscrição encontrada, no século 19, na parede ocidental das ruínas da capela do Convento de Monchique. O texto faz alusão ao rabino-mor do rei D. Fernando – D. Yehudah ben Maner (ou D. Yehudah ben Moise Navarro ) – e ao responsável pela obra, possivelmente o então rabino do Porto, D. Joseph ibn Arieh (ou D. Joseph ben-Abasis). No fim do século 14 foi criada a Judiaria de Olival, que ocupava cerca de 4% da área total da cidade na época e ficava entre as atuais Rua de Belomente (ao Sul), Rua das Taipas

(a Oeste e Noroeste) e a Rua dos Caldeireiros (ao Leste). O rei D. João I, ao passar pela cidade, em 1386, determinou que todos os judeus morassem em uma mesma região, dentro das muralhas. Na mesma época, surgiam guetos em toda a Europa. Segundo as determinações reais, os judeus não poderiam sair, nem cristãos entrar, à noite. Os limites da judiaria foram marcados por altos muros e dois portões de ferro maciço, enfeitados por símbolos judaicos – um ao Norte, o Portão Olival, e outro ao Sul, voltado para as atuais Escadas da Vitória, chamadas na época de Escadas da Esnoga (palavra ainda hoje usada para indicar “sinagoga” entre judeus de origem marroquina, muito provavelmente oriundos de Portugal). Em 1492, 30 famílias espanholas ilustres, lideradas por Rabi Isaac Aboab II, instalaram-se na Judiaria Olival por ordem do rei D. João II. Posteriormente, muitas outras famílias vindas da Espanha encontraram abrigo em terras portuguesas. Na época da promulgação do Édito de Expulsão de Portugal assinado por D. Manuel I, os judeus

A Judiaria de Monchique, localizada fora da muralha da antiga cidade, era a mais importante do Velho Porto e arredores. A sinagoga centralizava 49

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HISTÓRIA

Tomar Tomar é considerada uma relíquia da época dos Templários. Foi ali que a famosa Ordem dos Cavalheiros Templários construiu seu quartel general, enquanto uma próspera comunidade judaica se desenvolvia entre os séculos 14 e 15. A judiaria cresceu ao longo da Rua Dr. Joaquim Jacinto e a sinagoga daquela época sobreviveu durante séculos. Atualmente sedia o Museu Abraham Zacuto, declarado monumento nacional em 1921.

castelo de vide

representavam cerca de um quinto da população do país. No Porto, em 2005, por trás de uma parede falsa, no número 9 da Rua São Miguel foi descoberto um Hechal (como os judeus sefaraditas chamam o Aron haKodesh), fato que comprova que, apesar das conversões e do medo, muitos conversos continuaram a praticar o judaísmo em segredo. Feito de granito, o Hechal data aproximadamente, do final do século 16 e início do 17.

Castelo de Vide Castelo de Vide é uma parada obrigatória para quem tem interesse na herança judaica portuguesa. Da presença dos judeus na cidade resta, entre outros, o edifício onde se acredita existiu a Sinagoga Medieval. A judiaria desenvolveu-se principalmente ao longo das ruas da Fonte, do Mercado, do Arçário, do Mestre Jorge, da Judiaria, da Ruinha da Judiaria, da atual Rua dos Serralheiros e da Rua Nova. Próxima à fronteira espanhola, Castelo de Vide também serviu de abrigo para os judeus fugidos da Espanha.

A judiaria ainda mantém alguns elementos característicos do passado: as portas em arcos, tanto para moradias quanto para oficinas ou lojas (algumas decoradas com símbolos das profissões de seus proprietários), e as velhas calçadas. O edifício identificado como Sinagoga Medieval localiza-se na confluência da Rua da Judiaria com a Rua da Fonte. Possui dois níveis – no segundo está o que se acredita ter sido o local do Hechal, a Arca Sagrada. Também na Sinagoga de Castelo de Vide existe um espaço onde, segundo a tradição popular, funcionou uma escola. O local está aberto à visitação e abriga um museu sobre a história dos judeus em Portugal. O Hechal só foi redescoberto na década de 1970. No século 18 o espaço foi adaptado para ser uma residência, mas foi reconstruído como sinagoga em 1972. Na porta de acesso ao segundo piso há uma pequena cavidade identificada como “a marca da mezuzá”. A cidade possui hoje uma pequena comunidade, em sua quase totalidade formada por descendentes dos judeus que durante séculos viveram seu judaísmo secretamente. 50

Ali estão expostos fragmentos de colunas, textos, documentos e objetos relacionados aos diversos aspectos da vida judaica de então. Escavações revelaram a existência de um sistema de aquecimento de água e um espaço para banhos rituais, o qual se acredita fosse a antiga mikvê. A Sinagoga de Tomar encontrase em pleno centro histórico da cidade e é o único exemplo no

sinagoga de tomar


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país da arquitetura judaica da época. A sala destinada às orações é quadrada, com piso inferior em relação à rua. Possui três naves semelhantes às de outras sinagogas sefaraditas quatrocentistas. O teto em abóbada apoia-se em quatro colunas, com capitéis enfeitados com motivos geométricos e da natureza. A disposição desses elementos encerra um significado simbólico: as 12 tribos de Israel e as quatro matriarcas: Sara, Rebeca, Lea e Raquel. A origem da comunidade judaica de Tomar remonta provavelmente ao início do século 15. Seu rápido crescimento demográfico levou à criação de uma judiaria, cujas portas se mantinham fechadas entre o pôr e o nascer do sol. A Rua da Judiaria, como passou a ser conhecida, ficava nos cruzamentos das Ruas do Moinho e Direita. A população judaica de Tomar, em meados do século 15, era de 150 a 200 pessoas; após a vinda dos judeus espanhóis a comunidade passou a representar de 30 a 40% do total de habitantes da vila. Com o crescente número de judeus construiu-se, então, uma sinagoga, por ordem do Infante D. Henrique. Em 1496, a judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, foi abolida, sendo também fechada sua sinagoga. A rua tornou-se então conhecida como Nova. Muitos cristãos-novos deixaram o bairro, que passou a ser ocupado pelos cristãos-velhos. Em 1516 a sinagoga tornou-se a cadeia pública. Entre os finais do século 16 e início do 17, o local foi reformado e transformado na Igreja de São Bartolomeu. No século 19, foi usada como palheiro e, em 1920, como adega e

SINAGOGA SHAARE TIKVA, lisboa

armazém. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional e, em 1923, adquirido pelo judeu polonês Samuel Schwarz, que financiou sua restauração. Em 1939, ele doou o edifício ao Estado, sob a condição de ali ser instalado um museu luso-judaico. Além das mencionadas neste artigo, a Rede de Judiarias inclui as cidades de Alenquer, Almeida, Bragança, Castelo Branco, Cascais, Covilhã, Elvas, Évora, Figueira de Castelo Rodrigo, Fomos de Algodrez,

Freixo Espada à Cinta, Fundão, Gouveia, Guarda, Idanha-A-Nova, Lamego, Leiria, Lisboa, Manteigas, Mêda, Moimenta da Beira, Penamacor, Penedono, Pinhal, Porto, Reguengos de Monsaraz, São João da Pesqueira, Sabugal, Seia, Torre de Moncorvo, Torres Vedras, Trancoso, Vila Nova Foz Côa e Vila Nova de Paiva. Em cada uma, às vezes mais, às vezes menos visíveis, estão guardadas as lembranças da pujante vida judaica que floresceu em terras portuguesas entre os séculos 13 e início do 16. As trevas que envolveram mais de 500 anos dessa história estão desaparecendo para dar lugar a uma nova visão sobre o período. Percorrer as ruas das judiarias é um sem fim de descobertas e um infinito aprendizado sobre um capítulo sombrio da História da Humanidade, marcado pela intolerância, pelo ódio e pela violência.

BIBLIOGRAFIA

judiaria da guarda

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Silva, César Santos, Na Rota dos Judeus no Porto, 2014, Editora Cordão da Leitura, Portugal www.redejudiariasportugal.com SETEMBRO 2017


ISRAEL

Krav Maga: o sistema de autodefesa de Israel Krav Maga é um sistema de autodefesa, adotado pelas Forças de Defesa de Israel. Não é uma arte marcial, não possui as tradições milenares das artes marciais orientais e tampouco surgiu no Oriente. Foi criado na Europa Oriental, em 1930, por um judeu, Imi Lichtenfeld, para defender os judeus de ataques fascistas e nazistas.

O

Krav Maga é uma arte de defesa pessoal, um sistema de combate corpo a corpo, com rápidos contra-ataques e técnicas ofensivas que visam impedir que o agressor atinja seu alvo. Atualmente, os repetidos ataques terroristas a indivíduos, muitos realizados com facas, tornaram muito recomendado o seu aprendizado em Israel e na Europa. Na França, por exemplo, desde que a onda de ataques antissemitas e terroristas tomou conta do país, houve um grande aumento no interesse pelo Krav Maga, que, aliás, está sendo ensinado aos alunos de escolas judaicas.

é, atualmente, o sistema de luta escolhido por várias unidades das elites militares e das forças de segurança norte-americanas e europeias. É também adotado no Brasil para o treinamento de forças militares e policiais.

É bem verdade que seu domínio exige muito treinamento tanto em termos das técnicas como do condicionamento físico, mas as técnicas básicas do Krav Maga podem ser aprendidas e aplicadas por qualquer pessoa em um curto espaço de tempo. Diferentemente das demais artes marciais, não leva anos para ser dominado. Desde o início, o intuito de Imi Lichtenfeld era criar um sistema de autodefesa que pudesse ser posto em prática o mais rapidamente possível. O Krav Maga dá as ferramentas para que homens, mulheres e até crianças, independentemente da idade, possam se defender. E, apesar de existir há menos de 100 anos,

Seu pai, um grande atleta, teve suma influência em sua vida. Aos 13 anos, Samuel começou a trabalhar num circo como acrobata e, durante duas décadas, treinou inúmeros esportes, inclusive luta-livre e levantamento de pesos. Após deixar o circo, ele se mudou para Bratislava. Lá fundou a primeira academia moderna de atividade física da cidade, onde se dedicava à luta livre, boxe e musculação.

O criador: IMI LICHTENFELD Filho de Channa e Samuel Lichtenfeld, Imrich SdeOr ou “Imi”, como era conhecido, nasceu em 26 de maio de 1910, em Budapeste, na época um dos centros do Império Austro-húngaro; mas cresceu na capital da Eslováquia, Bratislava.

Em Bratislava, Samuel trabalhava na força policial; tornou-se detetive e ocupou o posto de Inspetor Chefe. Conquistou a reputação como o policial que 52


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fez a prisão e levou a julgamento o maior número de criminosos violentos. Como Inspetor Chefe, periodicamente treinava seus homens nas técnicas de defesa pessoal. O filho, Imi, estava sempre ao seu lado. Exímio lutador de luta-livre quando jovem, Samuel estimulou o filho a participar de uma variedade de atividades atléticas.

judeus de Bratislava tornava-se cada dia mais difícil. Os ataques violentos contra indivíduos e contra as comunidades passaram a ser lugar-comum nas ruas de muitas das cidades da Europa Oriental.

Imi logo se tornou um excelente ginasta, boxeador e lutador, entrando para o Time Nacional de Luta Livre da Eslováquia. Competia em campeonatos nacionais e internacionais, ganhando vários troféus. No período de 1929 a 1939, foi um dos melhores lutadores da Europa. No final da década de 1930, enquanto o fascismo e o antissemitismo varriam todo o continente europeu, a vida dos

Os judeus buscavam meios de se defender, de continuar vivos. Vendo que algo tinha que ser feito para proteger sua comunidade, Imi organizou um grupo de jovens judeus para patrulhar o Bairro Judeu e defender seus habitantes contra os ataques. Da noite para o dia, ele se tornou o líder incontestado de cerca de 100 rapazes da comunidade. Juntos, eles defendiam os judeus de Bratislava contra as gangues antissemitas e as milícias fascistas. Enquanto lutavam nas ruas, Imi rapidamente entendeu que as lutas competitivas esportivas eram totalmente diferentes das de rua. Além de serem extremamente violentas, nas ruas não havia regras e nem árbitros. Ele começa, então, a desenvolver um sistema de técnicas de autodefesa para

imi Lichtenfeld

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situações de perigo, passando a ensiná-las aos jovens encarregados da defesa do Bairro Judeu. Seu princípio fundamental era usar os movimentos e reações naturais do corpo aliados a um contraataque imediato e decisivo. Assim começou o Krav Maga. Entre 1936 e 1940, Imi participou de inúmeros conflitos e lutas de rua. Ele e seus companheiros tiveram que conter grupos antissemitas armados, que chegavam a centenas de pessoas, em sua tentativa de invadir o Bairro Judeu. Em 1939 o Estado eslovaco tornouse um Estado fantoche da Alemanha nazista e Imi e os judeus de Bratislava se viram cada vez mais ameaçados pelas milícias fascistas. Ele passou a ser vigiado, era considerado um “sério problema” pelas autoridades eslovacas e grupos antissemitas. Em 18 de maio 1940, Imi deixa a Europa, embarcando naquele que seria o último navio de judeus a conseguir escapar dos nazistas. Sua família não o acompanhou, e não sobreviveu a Shoá.

A maior parte dos sobreviventes do Pentcho chegou à então Palestina em 1944. Segundo um dos amigos, ao chegar a Alexandria o estado do Imi era gravíssimo e eles temiam que o amigo não escapasse. No entanto, resistiu e, já restabelecido, se alistou na Legião Checa, à época sob o comando do exército britânico. Durante ano e meio, ele ocupou vários postos militares no Oriente Médio sempre servindo com distinção. Imi Lichtenfeld

saíram em direção à ilha de Creta em busca de ajuda. Em virtude dos fortes ventos, os cinco nunca chegaram à ilha. No quinto dia, um navio de guerra inglês os encontrou vagando pelo mar, e os levou para Alexandria. Após relatarem sobre o naufrágio do Pentcho, as autoridades italianas foram alertadas e um navio foi enviado para a ilha Kamilonissi para resgatar os refugiados, que depois foram levados para Rhodes.

A embarcação se dirigia à Terra de Israel. Era um barco usado para navegação fluvial, de nome Pentcho, modificado para transportar refugiados judeus da Europa Central. A embarcação, adequada para transportar 150 pessoas, acabou levando, abarrotados, 500 jovens. Durante a travessia, uma caldeira do Pentcho explode e o barco naufraga na ilha grega Kamilonissi. Imi saltou várias vezes n’água para salvar passageiros e recuperar as escassas sacas com alimentos que haviam caído no mar. Isso lhe acarretou uma forte infecção no ouvido que quase lhe custa a vida.

Em 1942, Imi recebeu um visto de entrada na então Palestina sob Mandato Britânico. À época, muitos de seus amigos que já estavam em Eretz Israel serviam na Haganá (defesa, em hebraico), fundada em 1919 para defender os assentamentos judeus contra os árabes. Imi é muito bem recebido nas fileiras da Haganá, cujos líderes perceberam suas aptidões em combate e sua habilidade em transmitir as técnicas. Ele ficou encarregado do treinamento das forças de elite militar no combate desarmado. Treinou forças da Haganá, Palmach (a força de ataque de elite), Palyam (os comandos navais), e grupos policiais. Imi passa a treiná-los intensamente em suas áreas de especialização: preparação física e nas técnicas de combate que estava desenvolvendo, baseado em sua experiência em combate real. Com a fundação do Estado de Israel, em 1948, todas as diversas forças judaicas combatentes se unem, dando origem às Forças de Defesa de Israel (FDI). O novo estilo de combate criado por Imi é adotado como o estilo oficial das FDI e da Força Policial de Israel.

Ele e outros quatro amigos conseguiram um bote a remo e 54


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É nomeado Instrutor Chefe de Preparação Física na Escola de Preparação para Combates das FDI. Ele era o principal instrutor de combates corpo a corpo. Nesse período, aperfeiçoou ainda mais suas técnicas de autodefesa; ele queria que fossem rápidas, eficazes e aplicáveis a cenários modernos. Acima de tudo, tinham que ser simples, lógicas e fáceis de aprender; um método que pudesse transmitir ao soldado israelense, em poucas semanas, noções reais de autodefesa, com as mãos nuas, contra todo tipo de ataques. Após a Operação Sinai de 1956, o nome “Krav Maga” passou a ser utilizado para o novo estilo de combate, já tendo um formato pronto para treinamento e ensino. Imi serviu nas FDI até 1964. Nesse período ele foi o responsável pelo treinamento dos melhores combatentes das principais unidades de elite das FDI. Após se aposentar, abriu dois centros de treinamento nas cidades de TelAviv e Netanya. Pela primeira vez o Krav Maga seria ensinado a civis. O ensino a civis difere do utilizado por militares ou agentes de segurança. Em seu uso civil, o Krav Maga ensina como se proteger em situações em que a vítima está desarmada e tem que contar apenas consigo mesma. É um cenário muito diferente do militar. Nos anos seguintes, Imi se dedicou a adaptar as técnicas, modificando-as de acordo com as necessidades da vida civil. Em 1974, ele fundou a Associação Krav Maga, uma organização para o ensino do sistema de autodefesa. Alguns de seus primeiros alunos levaram-na aos Estados Unidos e o mestre Kobi Lichtenstein a trouxe ao Brasil.

Imi Lichtenfeld faleceu em 1998, aos 87 anos. Até os últimos anos de sua vida, continuou a atuar tanto no mundo militar, como conselheiro, quanto no civil supervisionando aulas e treinando equipes de segurança de outras nacionalidades. Em uma carta oficial pelo “Galardão de Mérito”, Itzhak Rabin, então Chefe das Forças de Defesa de

Israel, escreveu que desde os tempos da Haganá e do Palmach, incluindo todos os anos no Tzahal (FDI), a capacidade de luta e o potencial pessoal de Imi tinham sido os pilares de qualidade do combatente israelense, e, ninguém mais responsável por esse desempenho de excelência do que Imi Lichtenfeld.

Soldados das FDI treinando Krav Maga, Israel

Ainda em vida, recebeu o “Azul e branco”, um título de honra para aqueles que muito se dedicaram a seu país.

Fundamentos

mestre Kobi Lichtenstein

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Como vimos acima, o Krav Maga pretende ser a forma mais eficaz de autodefesa. Em entrevista a Morashá, o faixa preta e professor de Krav Maga, Uri Aronson, perito e consultor em segurança pessoal, empresarial e comunitária, e um dos primeiros alunos do mestre Kobi no Brasil, explicou os fundamentos do combate. “O Krav Maga ensina a enfrentar o perigo com uma estratégia em mente, sem desgaste SETEMBRO 2017


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1. Treino de Krav Maga na praia de Copacabana, Rio de Janeiro 2. Curso de Bastão Tático 3. Entrega de faixa, Rio de Janeiro

físico desnecessário, reservando a energia física para aplicá-la no momento oportuno. A defesa e o contra-ataque devem ser rápidos e eficazes. O aluno de Krav Maga treina para ter a mente clara e tranquila para tomar decisões com prontidão, mesmo em uma situação de emergência. Por exemplo, se estiver sendo imobilizado e a primeira técnica para se libertar não funcionar, em vez de se desesperar tentando novamente, deve passar a aplicar outra técnica”. Como mencionamos acima, as técnicas do Krav Maga se baseiam em princípios simples e movimentos instintivos, naturais ao corpo humano. O treinamento

inclui, de um lado, o aprendizado de incontáveis técnicas que visam impedir que o agressor atinja o alvo, do outro lado movimentos explosivos de contra-ataque. Diferentemente de outras artes marciais que tratam os movimentos defensivos e ofensivos como ações separadas, no Krav Magá estes são simultâneos. A técnica dá ênfase ao movimento contínuo: bloqueia-se ao mesmo tempo em que se contra-ataca rapidamente, visando pontos sensíveis do agressor. Independentemente de quão grande e forte o oponente, algumas áreas do corpo humano são sempre vulneráveis.

e equipes da área de segurança de multinacionais, costuma enfatizar que “a essência do Krav Maga é que se um de vocês se encontrar em uma situação de perigo, saiba o que fazer para voltar para casa com vida. Procuro transmitir a meus alunos que o Krav Maga não se restringe ao que é ensinado durante as aulas. Trata-se de um estilo de vida. O mundo moderno exige que se tomem decisões rapidamente, ainda mais se a pessoa for um líder ou um executivo, mantendo-se focado mesmo em situações turbulentas e agindo sob pressão com clareza mental. O Krav Maga proporciona tudo isso e muito mais.”

Noções de física, fisiologia e matemática são utilizadas para definir as técnicas que devem ser aplicadas. Em cada tipo de ataque, a técnica usada deve levar em conta a transferência de peso e a rapidez e força de explosão do contra-ataque, visando a potencialização da ação independentemente da força física.

O treinamento que Uri passa a seus alunos inclui a “inteligência” por trás das técnicas. “É necessário visualizar e analisar uma situação rapidamente e apreender como reagir a qualquer tipo de ameaça, sem hesitação. É essencial agir de forma segura e neutralizar o agressor rapidamente, fazendo o que for preciso”.

Como os confrontos são geralmente inesperados e perigosos, os alunos são treinados a procurar dar um fim às situações de perigo, com a maior rapidez possível. Quem treina Krav Maga parte da premissa de que seus atacantes serão maiores e mais fortes do que ele, e, possivelmente, que enfrentará múltiplos agressores. Uri Aronson, que treinou centenas de alunos de Krav Maga, executivos

Os treinos simulam situações reais. Como Imi descobriu nas ruas da Europa, lutar para obter pontos numa luta esportiva e lutar por sua vida em um confronto de rua exige uma atitude mental e técnicas totalmente diferentes. No Krav Maga o fato de não haver “regras” em uma luta é muito enfatizado. Não há katas – padrões detalhados de coreografia de movimentos

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– como no caratê e demais artes marciais. Não dá para se preocupar com a “etiqueta” da luta quando sua vida está em risco. Quem aprende e interioriza os princípios do Krav Maga consegue enfrentar qualquer tipo de agressão, e a eficiência das técnicas em combate real mostra que eles são atemporais, funcionam em qualquer realidade. E, como não há regras nem restrições, o Krav Maga não realiza competições. Algumas organizações adotam faixas coloridas – populares nas artes marciais – como um sistema didático que divide o aprendizado das técnicas por faixa. Quanto maior for a graduação, mais avançadas serão as técnicas ensinadas. Antes de 1980, todos os especialistas na técnica viviam em Israel e treinavam seguindo a Associação Israelense de Krav Maga. Na década de 1980, Lichtenfeld começou a treinar seus alunos mais próximos para levá-la à arena internacional. Hoje, o Krav Maga é disseminado pelo mundo todo.

Rafael Rothier, Alexandre Abla, Prof. Uri Aronson, Mestre Kobi, Rio de Janeiro

Krav Maga. Um de seus objetivos é preservá-lo da forma que lhe foi ensinado por seu mestre, em Israel. Com sede do Rio de Janeiro, mestre Kobi ensina Krav Maga e qualifica instrutores que ensinam no Brasil e na América Latina. Assim como Imi, ele prepara a próxima geração. “Não formo instrutores, mas educadores” declara mestre Kobi. “O processo de formação exige anos de treinamento, aulas de anatomia, fisiologia, primeiros socorros, filosofia e a história do Estado de Israel. De dois em dois anos,

Krav Maga no Brasil Kobi Lichtenstein, um dos primeiros alunos civis de Imi Lichtenfeld, começou a treinar ainda menino. Lichtenfeld o indicou para disseminar o sistema na América do Sul. Em 1990, o aluno, hoje conhecido como Grão-mestre Kobi, o trouxe para o Brasil. O atual crescimento do Krav Maga no País se deve muito ao fato de a população viver refém da violência. Esta técnica oferece as ferramentas para a pessoa não viver com tanto medo e poder, eventualmente, se defender. O Grão-mestre é 8º dan e presidente da Federação Sul-Americana de

Ioav Lichtenstein e Mestre Kobi

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levamos delegações para Israel, para conhecer o berço do Krav Maga, para desmistificar as inverdades que a mídia mostra, e conhecer como os israelenses convivem com as diferenças. Os grupos saem do Brasil achando que vão a um país violento e voltam entendendo que violento é o país em que vivemos”. Com quatro livros lançados em português, várias medalhas conferidas pelas autoridades brasileiras – Pedro Ernesto, Tiradentes, Mérito Legislativo e outras, o Krav Maga no Brasil tornou-se referência de defesa pessoal. O Krav Maga Brasil é ativo também no treinamento de corporações militares e policiais, como por exemplo, as unidades contra o terror que atuaram nas últimas Olimpíadas. “Além da própria técnica”, declara Mestre Kobi, “as aulas de Krav Maga mostram uma outra forma de ver a vida, em que não importa o tamanho da ameaça, sempre é possível se defender, sobreviver à ameaça, assim como o Povo Judeu sobreviveu, assim como Israel sobrevive e ainda cresce, com qualidade de vida e respeito ao próximo”. SETEMBRO 2017


ESPORTES

20ª Macabíadas: atletas judeus de 80 países, um só coração Cerca de 10 mil atletas judeus de 80 países participaram, em Israel, da 20ª edição das Macabíadas, de 6 a 18 de julho último. Com disputas em 47 modalidades, é o terceiro maior evento esportivo do mundo. Este ano, a 20ª Macabíada teve um significado especial, quando Israel comemorou os 50 anos da reunificação de Jerusalém.

C

inquenta anos após a unificação de nossa Capital Eterna, finalmente devolvemos a “Macabiá” ao seu legítimo lugar: Jerusalém”, disse o prefeito Nir Barkat.

lugar em torno do qual os judeus de todo o mundo podem se unir”. O presidente Moshe Rivlin, em sua mensagem, afirmou: “Hoje estamos aqui, celebrando os jogos da 20a Macabiá ”, com o tema do 50o aniversário da libertação de Jerusalém”. Ao saudar os atletas e dar-lhes as boas vindas à “Capital Eterna, liberta e reconstruída de Israel”, ele declarou: “Queridos atletas, nosso país é seu país; nosso lar é seu lar”.

Na noite de abertura, no Estádio Teddy Kollek, em Jerusalém, mais de 30 mil pessoas, além da presença dos medalhistas de bronze do judô das Olimpíadas do Rio, os israelenses Ori Sasson e Yarden Gerbi. A emoção tomou conta dos presentes quando os membros do Movimento Juvenil Sionista Escoteiro Macabi cercou o estádio carregando bandeiras israelenses, “esquentando” o início do desfile das delegações.

Seu discurso foi seguido pelo do primeiro-ministro Bibi Netanyahu, que, após dirigir-se aos atletas, falou para todo o Povo Judeu: “Somos, todos, um só povo. A Macabiá é uma competição em homenagem aos macabeus e foram eles que libertaram nossa terra enfrentando grandes adversidades. O Povo de Israel é forte e nosso Estado é forte. Somos, todos nós, os descendentes dos macabeus... Sofremos a maior tragédia da história da Humanidade. E, ainda assim, voltamos”, ressaltou.

Após o tradicional desfile das delegações e acendimento da tocha, um grande show com artistas israelenses e mais de 600 dançarinos. Os jogos foram realizados em Jerusalém, Tel Aviv, Ramat Gan, Acre, Natânia, Raanana, no Kineret e em Haifa. Na ocasião, afirmou Amir Peled, presidente da competição: “As Macabíadas são a essência dos valores em que acredito: sionismo, judaísmo, fraternidade, o povo e os esportes. Este é o melhor

Organizadas de quatro em quatro anos pela União Mundial Macabi, as Macabíadas são reconhecidas pela Federação Mundial de Esportes e pelo Comitê 58


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anos da revolta de Bar Kochba (revolta judaica contra os romanos no ano de 132 E.C. ). As Macabíadas foram, então, realizadas pela primeira vez em 1932 em Eretz Israel, antes mesmo da criação do Estado. Yekutieli foi uma figura de destaque na organização israelense esportiva Maccabi e nos esportes do país, em geral. Além das Macabíadas, fundou a Associação de Futebol de Israel e o Comitê Olímpico Israelense. Em 1979, recebeu a mais alta condecoração do país, o Prêmio Israel, por sua especial contribuição à sociedade e aos esportes de Israel.

Este ano, a delegação brasileira contou com 500 participantes – 420 atletas e 80 da equipe técnica, a maior até então, e trouxe na bagagem de volta 61 medalhas, além de 3 nas Paraolimpíadas. Os atletas brasileiros estavam divididos em três categorias: 220 na divisão

1

Olímpico Internacional. Desde a sua criação, na década de 1930, esses jogos são uma das mais emocionantes manifestações do ideal sionista e da centralidade de Israel na vida do Povo Judeu. A ideia dos Jogos Macabeus nasceu com Yosef Yekutieli1, quando tinha 15 anos, inspirado nos Jogos Olímpicos de Verão de 1912. Em 1928, ele apresentou seu sonho ao Keren Kaiemet LeIsrael, sugerindo que a competição fosse organizada para comemorar os 1.800 59

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ESPORTES

Este ano, a delegação brasileira contou com 500 participantes – 420 atletas e 80 da equipe técnica, a maior até então, e trouxe na bagagem de volta 61 medalhas, além de 3 nas Paraolimpíadas.

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Sub-18 (para atletas até 18 anos), 120 na categoria Aberta (engloba todas as idades) e 80 na divisão Master (para atletas a partir dos 35 anos). Os brasileiros desfilaram na abertura ao som da música “Open Bar”, de Pablo


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Vittar, uma versão abrasileirada de “Lean On”, do Major Lazer. Para Avi Gelberg, presidente da Confederação Brasileira Macabi (CBM) e da Hebraica, as Macabíadas foram “um verdadeiro sonho”. Os bons resultados obtidos pelos atletas são, segundo ele, decorrência do árduo trabalho realizado pela diretoria, voluntários, atletas e todos os que se empenharam para enviar um grande grupo a Israel. Para Gelberg, além dos 500 membros que integraram a delegação, cerca de mais 300 judeus brasileiros acompanharam as várias competições.

A outra, do kidush realizado no terraço de uma ieshivá enquanto todos juntos cantavam o Hatikva, hino que traz acima de tudo uma mensagem de esperança. As Macabíadas, mais uma vez, foram encerradas em Latrun, símbolo da vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, tendo como mestre de cerimônias a modelo israelense de renome internacional, Bar Rafaeli, com o anfiteatro lotado, em mais uma cerimônia que celebrou atletismo, judaísmo e sionismo e, este ano, os 50 anos da reunificação de Jerusalém.

O Shabat no Kotel (Muro das Lamentações) “continua sendo um dos momentos mais emocionantes da jornada esportiva, um momento a ser guardado para sempre na lembrança”, diz ele. Em especial, ele tem duas imagens daquela sexta-feira, dia 14 de julho, bastante tensa por causa de um atentado que ocorrera no Monte do Templo, naquela manhã, no qual morreram dois soldados israelenses. Por causa do ocorrido, a delegação brasileira teve um esquema de segurança especial. Uma das imagens é da multidão bem ao lado do Muro. 61

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SHOÁ

Ética Médica Nazista Por Dr. Morton Scheinberg

A medicina na Alemanha de Hitler trouxe consigo tantos horrores – eugenia, experimentos humanos, esterilização forçada, eutanásia involuntária, assassinato em massa – que é comum ouvir-se a afirmação de que “os médicos nazistas não tinham ética”. Mas esse não é o caso; as atrocidades médicas cometidas por médicos e pesquisadores nazistas se apoiavam em princípios bem particulares, que vieram a ser conhecidos como a “ética médica nazista”. Não havia falta de ética, mas uma ética terrivelmente distorcida.

O

estudo desses princípios próprios da nova “ética médica” tornou-se obrigatório no currículo das faculdades de medicina alemãs entre os anos de 1934 a 1945. Essa ética médica deu origem a um documento que pregava que os direitos coletivos da sociedade eram mais importantes do que os direitos humanos individuais. O conceito de eugenia1 passou a ser difundido na cultura nazista, em que se prezava o sadio “perfeito” e forte. Havia uma falta de apreço pelo doente e o fraco. Por exemplo, em 1933, foi promulgado um programa de prevenção de doenças hereditárias, “incentivando” os portadores dessas enfermidades à esterilização involuntária. Em aulas de currículo médico, eram constantes as noções de “higiene racial”, “eliminação de doenças hereditárias da população” e promoção da “raça superior ariana”, em que o coletivo superava o individual em todos os cenários. Fritz Klein, médico da SS, costumava afirmar que assim como um apêndice inflamado necrosado deveria ser retirado do corpo humano para o paciente não ter graves complicações, os judeus, como tal, deveriam ser eliminados da espécie humana.

Rudolf Ramm, médico clínico alemão que escrevia sobre leis médicas, era um dos maiores propagadores da ética médica nazista e do movimento contra a miscigenação racial. Ele criticava o crescimento populacional de “elementos inferiores e patógenos”, incluindo nesse grupo os portadores de doenças hereditárias e os judeus. Preconizava, também, que o nazismo trouxera a “restauração de um elevado nível de ética profissional”. Ele exultava o fato de que “a profissão tivesse sido amplamente depurada de elementos politicamente não confiáveis, estranhos à nossa raça” (a dizer, médicos judeus alemães). Ramm era editor-chefe da revista da Associação Médica Alemã, Deutsches Ärzteblatt, e publicou um livro texto, Ärztliche Rechts- Standeskunde (Legislação Médica e Saúde). Na ética médica nazista, a força política do partido era o elemento primordial que atropelava os direitos individuais, independentemente do juramento médico. Artigo recente do médico Florian Bruns, do Hospital Charité, da Universitätsmedizin de Berlim, na Alemanha, e Tessa Chelouche, da University of Haifa, em Israel, discutiu justamente essa conduta antiética dos médicos durante o período nazista. Em estudo colaborativo, publicado em Lectures on Inhumanity: 62


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o clínico karl BRANDT, no centro, foi um dos 23 médicos alemães julgados em nuremberg, EM 1946, POR CRIMES DE GUERRA E crimes CONTRA A HUMANIDADE

Teaching Medical Ethics in German Medical Schools Under Nazism, os autores fizeram uma pesquisa histórica de documentos, por meio da qual foi possível confirmar a presença de aulas obrigatórias sobre ética médica sob a ótica nazista, inclusive na prestigiosa Faculdade de Medicina de Berlim. Essas aulas eram dadas por jovens médicos filiados ao Partido Nazista, ideologicamente confiáveis aos olhos dos dirigentes nazistas.   No artigo, Bruns e Chelouche citam um clínico filiado à medicina nazista, que era responsável pelo Grafeneck Castle, centro de tratamento de doentes mentais. Estima-se que mais de 10 mil doentes foram “tratados” por meio da câmara de gás e cremados. Para esse médico, o quinto mandamento, “Não matarás”, seria uma ficção judaica e não um mandamento de D’us.

Após o término da guerra, entre 1946 e 1947, diversos médicos nazistas que praticavam durante a guerra foram julgados em Nuremberg, onde 23 réus foram condenados. Sete deles, à morte. Rudolf Ramm não sobreviveu para ser um dos réus no famoso “Julgamento dos Médicos”, em 1947. Havia sido julgado por um tribunal militar russo, condenado e executado em 1945. Vale a pena frisar que poucos

o BLOCO 10 era um bloco de celas, no campo de concentração de auschwitz, onde homens e mulheres eram cobaia na experimentação alemã

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desses médicos mostraram remorso. Eles acreditavam estar moralmente corretos.   Nem todos os médicos da medicina nazista foram condenados. Alguns conseguiram escapar e, entre eles, Hans Reiter, cujo nome é lembrado hoje por dar título a um tipo de artrite – a doença de Reiter. Outro exemplo é a doença de Wegener, primeiro descrita por Friedrich Wegener, que teve seu nome mudado para Poliangeíte Granulomatosa (GPA) para não homenagear alguém com tão estreita colaboração com o nazismo. Esse médico chegou a ser homenageado pelo Colégio Americano de Tórax. Por seu passado nazista, há pedidos de que as doenças mudem de nome, para que suas histórias como nazistas se tornem mais relevantes do que quaisquer descobertas médicas que venham a ter desenvolvido. SETEMBRO 2017


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GÊMEOS ERAM submetidos, com frequência, a horrendas experiências nazistas

No ano seguinte ao término do Tribunal internacional Militar de Nuremberg, os britânicos iniciaram uma onda para que se procurasse determinar e definir a regulamentação de crimes de guerra de natureza médica, expandida a seguir pelos americanos. Os franceses procuraram estabelecer um segundo tribunal internacional de crimes médicos de guerra, mas novamente começou-se a observar uma influência do poder político dos comunistas franceses da época em cenários de ética médica – o que levou os americanos a assumir a direção das normativas e ao estabelecimento da cultura do termo de informed consent, ou “consentimento informado”.1

Medical Atrocities”. Seus dois livros anteriores foram “Health, Race and German Politics between National Unification and Nazism, 1870-1945”, publicado em 1989, e “Epidemics and Genocide in Eastern Europe”, publicado em 2000. O que ocorreu na Alemanha nazista deve servir de advertência. A ética não é nem deveria ser um elemento

Bibliografia

Bruns F, Chelouche T. Lectures on Inhumanity: Teaching Medical Ethics in German Medical Schools Under Nazism. Ann Intern Med. 2017 Apr 18;166(8): 591-595. doi: 10.7326/M16-2758. Scheinberg, Morton, Nazi past and changes in disease names: The Wegener s disease. Rev. Bras. Reumatol. vol.52 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2012 Wallace D. J., Weisman M., Should a War Criminal be Rewarded with Eponymous Distinction. The Double Life of Hans Reiter. J Clin Rheumatol 6:49, 2000. Scheinberg, Morton, A doença de Reiter. Morasha edição 33, 2001.

Paul Weindling, um renomado especialista na história da medicina nazista, retrata com detalhes diferentes aspectos deste sensível tópico em um dos seus livros, “An informal Trilogy on German 1

Uma das principais regras da norma ética médica, o “consentimento informado” garante ao paciente o direito de decidir sobre o que lhe é apresentado como forma de tratamento, respeitando a sua capacidade de autodeterminação.

frágil de prática médica, muito menos sujeita a influências políticas e sociais. Foi o que ocorreu na medicina nazista, em que os direitos individuais foram manipulados por meio da “flexibilização”, ou da total aniquilação da ética médica. Com o crescente número de novas escolas médicas no Brasil, atenção deve ser dada para que o lado humano da prática médica faça parte dos novos currículos, principalmente levando em consideração a explosão tecnológica, de forma que os avanços da ciência médica não fragilizem os princípios rígidos da ética.    No hospital Charité de Berlim foi criado o projeto “Responsabilidade na Ciência” (GeDenkOrt Wissenschaft in Verantwortung), sob a direção do professor Florian Brums. O intuito é justamente chamar atenção para esse tema, a fim de conscientizar médicos e estudantes para a necessidade de vigilância constante da violação dos princípios éticos e direitos individuais do ser humano por forças políticas..

imersão em água gelada: experiência comum no campo de concentração de DACHAU, realizada pelos doutores prof. ERNST HOLZLöHNER à esq., E SIGMUND RASCHER à dir.

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Morton Scheinberg É Pesquisador, Clínico e Reumatologista do Hospital Albert Einstein, é doutor pela Universidade de Boston e professor livre-docente, da USP (Universidade de São Paulo)


COMUNIDADES

A POLÔNIA DA FUNDAÇÃO À PARTILHA Até a Shoá, a maioria dos judeus do mundo podia associar sua origem a essa região. Durante séculos foi um importante centro religioso, o berço do Chassidismo e da cultura judaica iídiche. No início do século 15, era, para os judeus, o país mais seguro da Europa, e acabou abrigando a maior e mais importante comunidade judaica no mundo.

D

esde a fundação de um Estado polonês na Europa Central e do Leste, no século 10, e sua partilha entre o Império Russo, o Alemão, e a Áustria, em fins do século 18, suas fronteiras mudaram consideravelmente. Através de conquistas e alianças, a “Polônia da Coroa”1 (Korona), coração do antigo Estado medieval, expandiu seus territórios de um núcleo entre os rios Odra e Vístula, até o Báltico, o Dnieper, o Mar Negro e os Cárpatos. Em 1386, a Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia se unem e, em 1569, é assinada a União de Lublin, que acabaria por formar a Comunidade Polaco-Lituana ou das Duas Nações. No início do século 17, esta nação era uma potência internacional, o maior país da Europa, incluindo toda a Polônia pós-1991, Lituânia, Bielorrússia e Letônia, bem como a maior parte da Ucrânia e Estônia. Mas, entre 1772 e 1795, enfraquecida, a Comunidade Polaco-Lituana viu todo o seu território ser partilhado entre as nações vizinhas. A Polônia deixa de existir

1

como nação soberana para apenas ressurgir como estado independente – a chamada Segunda República Polonesa, em 1918. No decorrer deste artigo, o termo “judeus poloneses” referir-se-á à população judaica que, num determinado momento da História da nação polonesa, vivia dentro das fronteiras do então Estado e sob sua jurisdição. A história dos judeus a partir da criação da Segunda República, em 1918, constitui um capítulo à parte, mais penoso para vida judaica polonesa, e não será tratado nesta matéria. Desde a fundação do Reino da Polônia, em 1025, até os primeiros anos do estabelecimento da união dinástica, no final do século 14, os governantes poloneses eram conhecidos por sua tolerância religiosa. Chamado de o “paraíso dos judeus”, o Estado polonês tornou-se abrigo para judeus expulsos de outros locais. No final do século 17, a comunidade polonesa era a maior, em termos numéricos, dentre qualquer outro centro populacional judaico. De modo geral, os judeus prosperaram em terras polonesas. Gozavam de ampla autonomia e criaram instituições de governança comunitária, bem como religiosas e educacionais. Desfrutavam de uma rica vida

Coroa do Reino da Polônia (em polonês, Korona Królestwa Polskiego) ou, simplesmente, a Coroa, é o nome comumente usado para as possessões históricas – mas não consolidadas – do rei da Polônia, na Baixa Idade Média. 65

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COMUNIDADES

religiosa, tendo lá surgido líderes espirituais de renome, e construíram lindas sinagogas. Criaram seus próprios padrões culturais, daí nascendo um jargão judaico-polonês, o iídiche. Gavriel ben Yehoshua Schossburg, cronista judeu daquele século, caracterizou a comunidade, em tempos medievais, como “um deleite para todas as terras no Exílio por sua fidelidade à Torá, sua honra e grandeza” (Petach Teshuvá, 1651 4a).

A fundação da nação polonesa Acredita-se que tribos eslavoocidentais tenham chegado à região que hoje constitui a Polônia nos séculos 6 e 7 e que, em meados do século 10, os Polânios ocupassem as terras entre os rios Odra e Vístula. De acordo com a tradição, Piast, o “Forja Rodas” (Piast Kołodziej) uniu diferentes grupos de Polânios formando uma unidade denominada Polska. Piast, que surgiu em torno do ano 940 em Giecz, fundou a dinastia dos Piastos, que reinaria até o século 14. A maioria dos historiadores data o estabelecimento do Estado polonês somente duas décadas mais tarde, em 966, quando o duque Miecislau I se converte ao catolicismo, adotando-o como a religião oficial do Estado. Enquanto a Rússia gravitava em torno do Império Bizantino, a Polônia se voltava para o Ocidente e para Roma. Miecislau I estabelece sua capital em Gniezno, unificando A Grande Polônia, que compreende grande parte da área banhada pelo rio Varta e seus afluentes, foi o coração do antigo Estado medieval polonês, “o berço da Polônia”. 3 Região histórica e geográfica no leste da Polônia, com sua capital em Varsóvia. 2

sob seu domínio os territórios da Grande Polônia2, possivelmente incluindo a Mazóvia3. Ao falecer, em 992, as fronteiras do ducado se estendiam por uma área semelhante à atual República da Polônia. Após a cristianização, as já existentes ligações comerciais com o Sacro Império Romano-Germânico se estreitam, dando origem a um aumento no número de mercadores alemães, tanto cristãos quanto judeus, que se aventuravam em terras polonesas. O sucessor de Miecislau, o duque Boleslau I Chrobry, o Grande, continuou a expansão territorial e, no ano 1000, a Polônia é reconhecida como Estado pelo Sacro Império Romano-Germânico (Império Germânico) e por Roma. Com a coroação de Boleslau I pouco antes de sua morte, seu ducado torna-se um reino: a Grande Polônia (Wielkopolska). Os limites do reino aumentaram no início do século 12, quando Bolesłau III subjuga a Pomerânia Ocidental e a região de Gdansk. Porém, em 1138, ele comete um erro que levaria à fragmentação do Estado polonês por quase 150 anos. Em seu testamento, dividiu seus domínios entregando-os aos filhos. O resultado foi o surgimento de vários principados feudais rivais.

O nascimento da comunidade judaica Contamos apenas com lendas acerca da presença dos judeus na região antes desta se tornar cristã. Acredita-se que já no século 9 mercadores judeus que viviam nas províncias do Império Germânico comercializassem nas terras às margens dos rios Varta e Vístula. Sabe-se que alguns se instalaram na Grande Polônia no reinado 66

de Boleslau I, no final do século 10, sendo muito bem recebidos pelo Rei. As primeiras referências documentais sobre a presença judaica foram encontradas numa responsa da primeira metade do século 11, onde há menção a uma decisão da corte rabínica de Cracóvia. No entanto, essa imigração dificilmente teria tido a dimensão que teve não fossem as nefastas circunstâncias que forçaram um grande número de judeus a buscar refúgio na Polônia. A Primeira Cruzada, em 1096, foi o primeiro catalizador. Em seu “caminho” à Terra Santa os cruzados matavam ou convertiam à força as populações judaicas. Os massacres, que se iniciaram em Rouen, na França, espalharam-se para cidades do Reno chegando a Praga. Os judeus da Boêmia decidiram fugir para a Polônia, apesar da decisão do príncipe de confiscar as propriedades dos que partiam. Tornou-se constante o fluxo de judeus das províncias do Reno e Danúbio para as terras polonesas. O número cresceu em consequência das Cruzadas de 1146-1147 e de 1196, e da intensificação das perseguições contra a população judaica, no Império Germânico, durante os séculos 12 e 13. Vendo que o poder real era incapaz de defendê-los contra a fúria da multidão cristã fanática ou dos degradantes cânones da Igreja Católica, grandes levas de judeus alemães buscam refúgio nos domínios poloneses. Desde o início do século 12 – durante o reinado de Boleslau III, havia judeus espalhados pela Polônia, onde desfrutavam de considerável paz e liberdade.


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Interior da sinagoga de Tykocin

A cultura medieval cristã, imbuída de grande intolerância religiosa, ainda não fincara raízes entre a população eslava. Mas, mesmo após se estabelecer em terras polonesas, os judeus continuaram a manter um estreito relacionamento comercial e fortes laços comunitários, espirituais e intelectuais com o Império Germânico. De suas terras os judeus poloneses não herdaram apenas o idioma, um dialeto alemão, que, como vimos, subsequentemente se desenvolveu no jargão judaicopolonês, o iídiche, mas também sua tradição religiosa e sua organização comunitária, incluindo a aceitação da autoridade rabínica asquenazita alemã no país. Na segunda metade do século 12, após a fragmentação do Reino 4

Pequena Polônia, a parte sul do país, em polonês, Małopolska; em latim, Polonia Minor.

polonês em vários principados feudais, cada governante empenhara-se em atrair imigrantes judeus para seus domínios, outorgando-lhes consideráveis privilégios e direitos. De modo geral, os governantes medievais beneficiavam-se com a presença de uma ativa comunidade judaica, e isto era particularmente verdadeiro na Polônia onde a economia ainda era agrícola e primitiva. Os judeus, além de ter ampla experiência financeira, comercial e administrativa, atuavam como pioneiros na economia, colocando seu próprio capital em circulação. No fim do século 12 e início do 13, os judeus administravam a Casa da Moeda da Grande e da Pequena Polônia4 e cunhavam moedas. Chegaram até os dias atuais moedas nas quais os nomes dos príncipes foram cunhados em letras hebraicas. Eram donos de 67

terras e propriedades na Grande Polônia, na Cujávia (Kuyavia) e na parte polonesa da Silésia. Havia comunidades organizadas em Wrocław, Świdnica, Głogów, Lwówek, Płock, Kalisz, Szczecin, Gdańsk e Gniezno. Por volta de 1200, a população judaica atinge um número crítico que tornaria sua presença permanente, do ponto de vista demográfico, e, significativa, social e culturalmente. Essa permanência envolvia aspectos legais e religiosos, exigindo uma regulamentação tanto por parte das autoridades judaicas comunitárias quanto das polonesas. Durante vários séculos a vida e status jurídico dos judeus foram determinados por forças antagônicas. De um lado, a Coroa, os príncipes e a alta nobreza que, julgando a presença dos judeus economicamente benéfica, SETEMBRO 2017


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protegiam-nos. Do outro, a Igreja Católica, a pequena nobreza, as municipalidades e os comerciantes e artesãos cristãos que os viam como “um grande perigo” a ser afastado. A Igreja queria vê-los reduzidos a párias. O 4º Concílio de Latrão (1216) promulgara decretos permeados de ódio contra eles. O judeu era visto como causador de “grande dano” à fé, devendo, portanto, viver segregado. E, como a conversão polonesa ao catolicismo era algo relativamente novo, enviados eclesiásticos eram despachados por Roma para se assegurar que os estatutos canônicos fossem postos em prática. A pequena ou baixa nobreza, comerciantes e artesãos cristãos, principalmente os de origem germânica, nutriam um forte antagonismo econômico contra os judeus. Os direitos concedidos pelos governantes haviam aberto a estes últimos novas oportunidades e, à medida que os judeus expandiam suas atividades e prosperavam, a população cristã ia-se ressentindo da competição e atiçava, ainda mais, o anti-judaísmo.

mais elevados do que o cobrado aos cristãos, demolir cemitérios judaicos e atacar as sinagogas. Seria punido o sequestro de crianças judias com o intuito de batizá-las. Proibia, ainda, acusações de assassinato ritual, libelos de sangue, apontando que as bulas papais já haviam declarado tais acusações sem fundamento. O estatuto foi mal recebido pelas autoridades eclesiásticas. Em 1279, o Conselho de Buda ratificou a determinação que proibia aos cristãos “sob pena de excomunhão” socializar com judeus, e obrigava o uso do “símbolo judeu”, descrito como sendo “um anel de tecido vermelho costurado na parte superior de suas vestimentas, no lado esquerdo do peito”. Porém, até o catolicismo assumir o controle em terras polonesas, a Igreja não tinha poderes de infligir sérios danos aos judeus. Além disso, até o século 18, em virtude do grande número de religiões “dissidentes” (inúmeras

Os governantes, apesar da pressão para tomarem medidas contra os judeus, passaram a promulgar uma série de decretos, Cartas de Privilégios, para protegê-los. Em 1173, Mechislav III, por exemplo, proibiu todo tipo de violência contra judeus e, em particular, os ataques verbais e físicos efetuados por religiosos eclesiásticos e monásticos. Em 1264, o grão-duque Boleslau de Kalisz, da Grande Polônia, promulgou um estatuto definindo os direitos dos judeus em seus domínios. O Estatuto de Kalisz, como é conhecido, garantia-lhes proteção e autonomia legal. Entre outros, proibia impor impostos

Interior da Sinagoga Rymanow, destruída

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denominações protestantes e ortodoxas), os judeus e o judaísmo recebiam menos “atenção” das autoridades eclesiásticas do que em outros locais do Ocidente.

A volta da unidade política No século 13, a Europa foi invadida pelos mongóis. Na Polônia, os principados foram devastados pelos exércitos mongóis da Horda Dourada, liderada por BatuKhan, neto de Genghis Khan, em 1240, 1259 e 1287. Vencedores, os mongóis levaram consigo milhares de seus habitantes como escravos, inclusive muitos judeus. Em 1319, o rei Ladislau I, da Grande Polônia, inicia a reunificação do Estado polonês, alcançada por seu filho Casimiro III, o “Grande”. Em seu reinado (1333-1370), Casimiro III duplicou o território sob seu domínio e incorporou a


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Galícia, fundando várias cidades e promovendo o desenvolvimento de sua capital, Cracóvia, localizada na Voivodina (Pequena Polônia). Ele deu início a importantes reformas e promoveu a atividade econômica. Querendo atrair a experiência financeira e comercial dos judeus, Casimiro III incentiva a imigração judaica, principalmente do Império Germânico. Sem ligações ou interesses políticos e nacionais, o Rei os considerava mais leais que os cristãos. No segundo ano do seu reinado, Casimiro III ratificou, ampliou e estendeu a todas as províncias do Reino o Estatuto de Kalisz de 1264. Promulgou leis que iam contra a determinação de Igreja de isolar a população judaica dos “fiéis”. Determinou que os judeus não estariam sujeitos a tribunais municipais ou eclesiásticos, concedendo-lhes acesso jurídico ao sistema da Corte. Eles passaram a ter direito de livre trânsito e residência em todo o reino, podendo alugar ou hipotecar imóveis da nobreza, além de conceder empréstimos. As inúmeras cartas de direitos outorgadas ao longo da história da Polônia foram fundamentais para o florescimento de uma vida judaica em uma sociedade na qual eles sempre foram vistos como estrangeiros. Os direitos concedidos procuravam assegurar às comunidades judaicas autonomia comunitária, segurança física e liberdade religiosa e econômica. Procuravam, também, resolver os interesses conflitantes entre as comunidades judaicas e os municípios, e entre comerciantes e artesãos cristãos e judeus, delineando os limites da atividade econômica destes últimos. E assim, os judeus prosperaram, chegando alguns a se

em 1349, outros em Cracóvia, Głogów e em várias cidades polonesas situadas perto da fronteira alemã. Porém, a Polônia não é mencionada nas crônicas judaicas que relataram as perseguições da época; talvez porque a situação tenha sido relativamente “mais tranquila” quando comparada com a destruição impiedosa sofrida por seus correligionários na Europa Ocidental. O que se sabe é que grande número de judeus alemães buscaram refúgio em território polonês. Hannah, óleo sobre tela, Isidor Kaufmann

tornar poderosos e politicamente influentes nas cortes. Porém, a situação dos judeus foi sendo minada à medida que crescia a influência da Igreja e das vizinhas populações católicas, que passaram a “exportar” seu ódio ao judeu. Em 1347, o país é palco da primeira acusação de assassinato ritual e, dois anos mais tarde, quando a Peste Negra que varreu toda a Europa (1348-1349) se espalha pela Polônia, traz consigo a nova vertente de antijudaismo. Na época não se conheciam as causas da peste bubônica que dizimou, entre um terço e metade da população da Europa. Acreditavase que fosse pestis manufacta, uma doença provocada por uma substância indutora secretamente produzida pelos inimigos do cristianismo. Os supostos culpados eram os judeus, que teriam envenenado os poços, e a Europa foi tomada pela maior onda de antissemitismo desde a 1a Cruzada. Milhares de judeus foram assassinados e propriedades destruídas. Crônicas polonesas da época relatam ataques contra os judeus em Kalisz, 69

A situação da população judaica piora no final do século 14 com a subida ao trono, em 1382, de Jadwiga (Edwiges), bisneta de Ladislau I. Quatro anos mais tarde, ela se casa com o Grãoduque Jogaila, da Lituânia. Essa união dinástica vai ser de extrema importância na história da região, pois Edwiges condiciona o casamento à conversão do noivo ao catolicismo, exigindo o mesmo de outros nobres lituanos. Jogaila se converte, assumindo o nome de Wladyslaw Jagiello II, o primeiro da dinastia dos Jagiello. Até então, os lituanos haviam resistido ferozmente às tentativas de conversão ao catolicismo, mas como apenas os católicos podiam fazer parte da cúpula governamental e militar, a maior parte da elite lituana acaba se convertendo. Uma rainha dedicada ao fortalecimento do catolicismo e um rei que se rendera à influência do clero católico eram claros sinais de que haveria consequências para os judeus. Fortalecida, a Igreja consegue que fossem adotados decretos anti-judaicos até então raramente postos em prática. Os judeus passam a ser obrigados a viver em bairros SETEMBRO 2017


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separados e a usar uma marca distintiva na roupa. Apesar de ainda usufruírem de extensa proteção das leis, foi crescendo a influência da Igreja. Em 1407, em Cracóvia, instigados por padres, os judeus são atacados, suas propriedades destruídas, crianças e adultos batizados à força. Muitos morrem, outros tantos ficaram feridos. A violência ocorrida em Cracóvia se repete em 1464. No entanto, apesar do crescente anti-judaísmo que imperou durante a dinastia dos Jagiello, as terras polonesas pareciam um “paraíso” quando comparadas com o crescente anti-judaísmo e a violência sofrida pelos judeus em terras alemãs. Isso fez com que um número cada vez maior deles procurasse refúgio na Polônia. No decorrer do século 15 e início do 16, aprofundara-se o processo de “polonização” da região sob domínio das duas Coroas. Este processo é concluído em 1569 com a União de Lublin, que transformava o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia em um único estado, a Primeira República da Polônia. Conhecida, também, como a Comunidade Polaco-Lituana ou das Duas Nações, era governada por um único monarca (eleito pela nobreza, a szlachta), juntamente com

o Sejm, o Parlamento. O monarca mantinha as funções de Rei polonês e Grão-duque da Lituânia. Nos anos seguintes, o Estado polonês continuou a se expandir para o Leste, tornando-se um dos maiores e mais populosos da Europa abrangendo os territórios do que são hoje a Polônia e a Lituânia, a Bielorrússia e a Letônia, grande parte da Ucrânia e Estônia, além da região ocidental da atual Rússia.

Atividades econômicas Na Polônia, os judeus podiam participar de inúmeras atividades econômicas, incluindo agricultura e pecuária, artesanato, e comerciais, participando do comércio internacional com a Europa, o Império Otomano e a Rússia. A Coroa, os nobres e as instituições religiosas, proprietárias de grandes terras, tinham interesse em promover a segurança dos judeus. Uma comunidade judaica forte e segura trazia benefícios máximos a um custo mínimo. Ademais, nesse período há uma redução da importância judaica como credores, pois se tornam grandes captadores de recursos de prestamistas cristãos e de instituições religiosas para cobrir seus investimentos. Uma comunidade

O antigo mercado na cidade de Krzemieniec, na Polônia Oriental

próspera oferecia a garantia de que os empréstimos seriam pagos. A partir da União de Lublin, os judeus são incentivados a se estabelecer na Ucrânia, e passam a ter um papel de liderança no desenvolvimento da Polônia Oriental, do interior da Lituânia e da Ucrânia. O rápido crescimento da população europeia fora acompanhado por uma crescente necessidade de alimentos e a Polônia era um grande produtor de grãos. Por volta de 1500, estima-se que houvesse nos domínios da dinastia Jagiello entre 10 a 30 mil judeus; em 1575, o número salta para 150 mil. Judeus vindos de toda a Europa para lá se dirigiam. Em sua maioria, estabeleciamse nas terras pertencentes à alta nobreza polonesa. Estes, donos de enormes latifúndios e senhores dos camponeses que neles viviam, passaram a arrendar suas terras a judeus por vultosas quantias, através de um sistema chamado “arenda”. É bem verdade que a Igreja era profundamente anti-judaica, no entanto, inúmeras instituições religiosas eram donas de grandes propriedades de terra e “usavam” os judeus para administrá-las. Os latifundiários tinham autoridade judicial sobre “seus judeus”, particularmente após 1539, quando é sancionada uma lei transferindo o status jurídico e fiscal dos judeus da Coroa aos donos das propriedades onde viviam. Cabia ao arrendatário (o arendarz) custear a atividade agrícola, organizar a produção e a comercialização dos produtos. Pelo sistema de arenda, as concessões podiam ser de uma aldeia inteira ou de uma área de centenas de quilômetros quadrados. Os judeus

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1. Típico pátio judaico no Séc. 17, em Lublin 2. Sinagoga Suchowla, belo exemplo das sinagogas em madeira, na Polônia 3. Exterior da Antiga Sinagoga Stary, Cracóvia, Polônia

tinham, sempre, que arrendar não apenas a terra, mas também todos os ativos fixos, tais como moinhos e hospedarias, o direito exclusivo de destilar e vender bebidas alcoólicas, e a arrecadação de impostos alfandegários. Além disso, havia uma transferência total de autoridade do latifundiário para o arrendatário. Em 1594, por exemplo, o Príncipe Piotr Zabrzeski arrendou a Efrayim de Międzyboż, por 9.000 zloty, uma soma imensa, todas as suas propriedades localizadas no distrito de Krzemieniec, inclusive “todas as aldeias e assentamentos..., os nobres boiardos (membros da aristocracia), os burgueses e os servos... todas as suas dívidas, obrigações e privilégios;…tavernas, moinhos e seu faturamento,... os dízimos pagos pelos boiardos, burgueses e servos,... bem como todos os demais rendimentos...”. Os judeus atuavam como representantes dos donos junto aos camponeses, um papel cheio de perigos, já que eram eles que, na ausência dos proprietários, impunham as exigências feudais e aplicavam a disciplina. O fato dos nobres serem católicos, os A Igreja Ortodoxa Ucraniana está ligada à história da Igreja Ortodoxa Russa. 6 Shtetl - vilarejo, cidade pequena, em iídiche. 5

administradores judeus e os camponeses cristãos ortodoxos5 criava tensões, que eram ainda maiores nas relações entre os servos ortodoxos e os judeus. O judeu que arrendava uma propriedade costumava levar, além de sua família, outros judeus que se tornavam subarrendatários. Surgem shtetls6, aldeias e municípios inteiros onde a maioria da população era judia. Acabou criando-se uma classe média judaica na zona rural, e o sistema de arenda tornou-se um empreendimento “básico” para a comunidade judaica. Cada item do contrato de arrendamento – moinhos, tavernas, arrecadação de impostos alfandegários e assim por diante – ou cada subunidade geográfica da propriedade poderia ser sublocada para outros.

Vida comunitária e religiosa A vida judaica floresceu na Polônia nos século 16 e 17. Historiadores estimam que em meados do século 16, cerca de 80% dos judeus do mundo viviam na Polônia, que se tornou o centro cultural e espiritual dos judeus asquenazitas. O iídiche era o idioma utilizado por todos os judeus, criando uma cultura própria. O cotidiano da população judaica girava em torno da fé, que dominava 71

todos os aspectos de sua vida. A profunda religiosidade era fonte de orgulho e, nos dias tenebrosos, de consolo. A sinagoga era uma das primeiras construções erguidas por uma comunidade. Milhares foram construídas, de todos os tamanhos, algumas em alvenaria, outras em madeira. Em cada shtetl, não importava seu grau de penúria, havia ao menos um shul, uma sinagoga, que era o centro da vida religiosa e social. Era primordial o estudo da Torá, do Talmud e de todas as obras sagradas. As crianças aprendiam a ler no cheder, a casa de estudos, e os mais velhos iam para as ieshivot. A fama de uma cidade não residia em sua importância econômica, mas no número de suas ieshivot e na reputação de seus rabinos. Em meio à população polonesa, na qual 90% do povo não sabiam nem ler nem escrever, era praticamente nulo o analfabetismo entre os judeus. São incontáveis os grandes estudiosos, rabinos e líderes espirituais que viveram em terras polonesas. Um dos maiores eruditos judeus de todos os tempos foi Rabi Moshé Isserles, conhecido como o Rema (ou Remo). Ele nasceu em Cracóvia, em 1520, e sua obra mais conhecida é Mappá (literalmente “Toalha de mesa”) – um comentário sobre o Shulchan Aruch SETEMBRO 2017


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(“Mesa posta)”, o Código de Lei Judaica, escrito por Rabi Yossef Caro. Mappá, que trata dos costumes asquenazitas, se tornou o Código de Lei Judaica da grande maioria das comunidades desta origem. A instituição judaica básica era a Kehilá, a comunidade, que tinha um status legal autônomo. A peculiar posição ocupada pelos judeus na Polônia fez sua autonomia jurídica ser possível e necessária. A Coroa e a população consideravam os judeus um corpo social independente. A definição de sua autonomia foi delineada juridicamente em 1551, em uma carta de privilégios concedida por Sigismundo II Augusto, Rei da Polônia e GrãoDuque da Lituânia. Como resultado dessa autonomia jurídica, cada cidade ou aldeia era governada por dois conselhos independentes, um cristão e outro judaico. Enquanto os cristãos eram governados por um conselho municipal, regidos pela legislação do Reino, os judeus o eram por um conselho comunal composto de rabinos e líderes comunitários, cuja autoridade se baseava nos privilégios concedidos pelo rei ou pelos latifundiários, bem como na Lei e tradição judaica. Ambos os conselhos eram, porém, subordinados à autoridade supervisória do rei ou do proprietário. Já no final do século 16, as comunidades judaicas criaram uma federação de kehilot quase autônoma, o Conselho de Quatro Nações. Esse Conselho, que representou a comunidade judaico-lituana de 1580 até 1764, era formado pelos rabinos e representantes comunitários da Grande Polônia (sendo que a principal era a de Posen), da Pequena Polônia (as principais eram

a de Cracóvia e Lublin), da Rússia Vermelha (a de Lemberg), da Volínia (as de Ostrog e Kremenetz), e da Lituânia (as de Brest e Grodno).

Os massacres de Chmielnicki (1648-1649) O sistema de arenda era um barril de pólvora onde o descontentamento econômico se entrelaçava com o antagonismo entre católicos e cristãos ortodoxos e principalmente o anti-judaísmo. Os camponeses ortodoxos viam os judeus, “infames infiéis e estrangeiros” representantes dos nobres poloneses católicos, como sendo os culpados por lhe impor pesado ônus econômico. O ódio religioso e o profundo descontentamento acabaram explodindo. O ressentimento dos camponeses contra o poder polonês veio à tona em várias revoltas, rapidamente reprimidas. Mas, em maio de 1648, quando surge a

Rabino na Sinagoga de madeira de Jablonów, 1897-1898. Óleo sobre madeira, Isidor Kaufmann

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figura de Bohdan Chmielnicki, a situação sai do controle. Chmielnicki, furioso pela conduta das autoridades polonesas de seu lugar natal, incitou os cossacos ucranianos a se juntarem à resistência armada. Em 1648, encabeçando cossacos do Dnieper e tártaros da Crimeia, ele inflige grave derrota ao exército polonês. Esta derrota serviu como um sinal para que se rebelasse toda a região nas margens orientais do Dnieper. A revolta banhada em sangue alastrouse por todo o território da atual Ucrânia, Volínia e Podólia. Camponeses ortodoxos e ucranianos moradores da cidade juntaramse às forças de Chmielnicki que semeavam o terror e a morte por onde passavam. A região se tornou um grande matadouro. Nobres e padres poloneses católicos foram imediatamente assassinados. Mas, apesar de os poloneses católicos serem o principal alvo do descontentamento, foi sobre os judeus que se abateu toda a sua fúria. Citando um historiador russo: “Os assassinatos eram acompanhados por torturas bárbaras (...), no entanto, a mais terrível crueldade era exercida sobre os judeus. Ele eram destinados à aniquilação...”. Os massacres de 1648 e1649 são conhecidos entre os judeus como Gzeyres tach vetat (Malignos decretos). A literatura judaica da época relata os ocorridos em inúmeras comunidades, como Nemirov, Ostrog, Narol e Polonnoye. Em Tulchin, soldados poloneses entregaram, inutilmente, os judeus em troca de suas próprias vidas; em Tarnopol e Dubno, poloneses impediram que os judeus que viviam nas redondezas entrassem na cidade. Em Dubno, dois mil judeus foram massacrados. Um dos relatos descreve a devastação: “Muitas comunidades


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Sinagoga de madeira em Chodorov. Pintura no teto, Israel Lisnicki, 1714. Reconstituição feita no Beit Hatefutsot, Israel

além do Dnieper, como Pereyaslaw, Baryszowka, Piratyn e Boryspolê, Lubin, Lachowce (...) foram atacadas e os judeus tiveram morte cruel e amarga. Alguns foram esfolados vivos e sua carne atirada aos cães; outros tiveram as mãos e membros decepados e seus corpos atirados na estrada só para serem destroçados por carroças e esmagados pelos cavalos (...). O inimigo massacrou mulheres e crianças no colo de suas mães (...). Atrocidades semelhantes foram perpetradas em todos os lugares por onde passavam...”. Não se sabe ao certo o número de judeus mortos nos massacres, de acordo com algumas crônicas judaicas foram 100 mil, mas há relatos de que teriam sido 300 mil e que mais de 300 comunidades foram destruídas. A situação se acalmou em agosto de 1649, quando um tratado foi assinado entre Chmielnicki e a Coroa Polonesa restabelecendo o

domínio do governo polonês nas regiões onde vivia a maior população judaica. Mas, os cossacos e os ucranianos ortodoxos continuavam insatisfeitos. Chmielnicki então entabula negociações com o Czar russo Alexis Michaelovich, buscando a incorporação ao Império moscovita – com os direitos de uma província autônoma – da parte ortodoxa da Ucrânia, sob o nome de Pequena Rússia. Em 1654, realiza-se essa incorporação e, no mesmo ano, os russos marcham sobre a Rússia Branca e a Lituânia. É, então, a vez dos judeus da região noroeste de padecer do seu quinhão de sofrimento. A captura das principais cidades polonesas pelas hostes unidas dos moscovitas e dos cossacos foi acompanhada do extermínio ou expulsão dos judeus... No entanto, apesar da magnitude do desastre, muitos judeus retornam à região. No final de 1650, o Conselho das Quatro Terras, reunido em Lublin, redige uma série de regulamentos para restaurar as 73

condições normais na vida judaica. Em 1655, os suecos – terceiros inimigos da Polônia – invadem a Polônia Ocidental (1655-1658). Seu rei, Charles Gustav, conquista uma cidade após a outra, inclusive Cracóvia e Varsóvia. Grande parte da Grande e da Pequena Polônia caem em mãos dos suecos. No final do século 17 boa parte dos territórios da Comunidade Polaco-Lituana estava ocupada por cossacos, russos e suecos. O exército polonês reorganizado consegue fazer recuar os invasores, mas a nação se encontrava em estado caótico e era grande a deterioração econômica. As perdas infligidas aos judeus poloneses na década de 1648-1658 foram terríveis. Nos relatos dos cronistas da época umas 700 comunidades judias foram vítima de massacres e pilhagem e o número de mortos é estimado em 500 mil, excedendo as catástrofes das Cruzadas e da Peste Negra. SETEMBRO 2017


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sociais. Na época, as comunidades judaicas se encontravam afundadas em desespero, com a intensificação dos pogroms e das acusações de assassinato ritual. Ademais, graves dificuldades econômicas e tensões sociais internas afetavam o diaa-dia e sustento das populações judaicas.

Sinagoga de Tykocin

Nas cidades situadas na margem esquerda do Dnieper, região povoada por cossacos e nas regiões de Chernigov, Poltava e parte de Kiev, as comunidades judaicas haviam desaparecido quase por completo. E nas localidades na margem direita do Dnieper ou na parte polonesa da Ucrânia, bem como na Volínia e Podólia, onde quer que os cossacos tivessem pisado, apenas cerca de um décimo da população judaica conseguiu sobreviver. Porém, ainda que dizimada e destituída, a população judaica polonesa superava numericamente as populações judaicas de outros locais na Europa. A extraordinária vitalidade do povo judeu era novamente demonstrada – os judeus poloneses conseguiram, em um relativo espaço de tempo, recuperar-se de suas terríveis perdas. Mas a vida era muito difícil. O fim do século 17 é marcado por inúmeros julgamentos nos quais os judeus eram acusados de assassinato ritual e profanação dos sacramentos da Igreja. Os mais revoltantes foram os de Dunaigrod (1748), Pavolochi e Zhytomir

(1753), Yampol (1756), Stupnitza (1759) e Voislavitza (1760). No século 18, volta à tona o ódio acumulado pelas massas ortodoxas contra o domínio polonês na região que hoje é a Ucrânia. A desordem geral e a agitação religiosa levaram à formação de bandos conhecidos como Haidamacks, compostos por cossacos da Rússia, Ucrânia e servos em fuga. Os Haidamacks atacaram a região em 1734, assassinando grande número de nobres poloneses e milhares de judeus. Mais uma vez, os judeus se tornaram o alvo. O comandante das forças Haidamacks chegou a proclamar que o objetivo da revolta era “destruir o Povo Judeu para proteger o cristianismo”. Bandos de Haidamacks destroem comunidades em Fastov, Granov, Zhivotov, Tulchin, Dashev e Uman. De acordo com o censo oficial de 1764, viviam 300 mil judeus no território da atual Ucrânia, estimando-se que entre 50 mil e 60 mil judeus tenham sido assassinados. Os anos em que a Comunidade Polaco-Lituana ficou estraçalhada por revoltas internas e invasores externos resultaram em uma deterioração econômica e tensões 74

Uma mistura de sofrimento e debilitante pobreza serviram de pano de fundo para o surgimento, no início do século 18, do Chassidismo. Seu fundador, Rabi Israel Ben Eliezer, o Baal Shem Tov (o Besht), nasceu na Podólia em 1700. No final do século 18, a Polônia deixa de existir como país soberano. Desaparece do mapa a Comunidade Polaco-Lituana, sendo dividido o seu território entre seus poderosos vizinhos, em 1772, 1793 e 1795. A Prússia fica com a parte ocidental até o Mar Báltico, a Áustria com um pedaço central que incluía a Galícia, enquanto à Rússia coube ficar com a maior parte do território – Ucrânia, Lituânia e Polésia. Doravante a vida dos judeus que viviam nessas regiões iria depender de cada soberano, pois, somente em 1918 a Polônia ressurgiria como estado soberano. A vida das centenas de milhares de judeus que se tornaram súditos indesejáveis dos czares seria ainda mais sofrida do que a daqueles que ficaram sob domínio da Prússia e da Áustria. BIBLIOGRAFIA

Dubnow, Simon Markovich, History of the Jews in Russia and Poland eBook Kindle Palmer, Nigel, Jews Of Poland: Up to 1795 (P Publishing History Series Book 14) eBook Kindle Zamoyski, Adam, Poland: A history. eBook Kindle


REVISTA MORASHÁ i 93

Agradeço o recebimento da Revista Morashá. Destaque para a incrível matéria “Mishkan, O Tabernáculo”! Depois de uma fantástica leitura, viro a página e me deparo com um artigo exuberante “A essência de D’us, A Divina Providência e os Mandamentos”. Todos os artigos estão incríveis, como de costume. Entretanto, “As cores e a magia dos Mercados de Israel” me fez relembrar um momento especial quando morei em Israel e ficava horas e horas nos Shuks. Parabéns para todos que fazem da Morashá uma especial Revista. Marcio Shmuel Chaim Gomes dos Santos Rio de Janeiro - RJ

Recebi o exemplar de Morashá com o artigo sobre os Judeus da Escócia e agradeço-lhes por todo o trabalho envolvido em torná-la uma Revista tão atraente visualmente. Ainda que eu não entenda o Português, há muitas partes do texto que as pessoas que têm familiaridade com o Francês ou Italiano puderam entender. Daí eu julgar que vocês fizeram um trabalho surpreendente. A própria Revista, do ponto de vista estético, é maravilhosa. Portanto, congratulações a todos pelo lindo trabalho que fazem e, novamente, nossos agradecimentos pela maneira encantadora como descreveram nossa comunidade. Dr. Kenneth Collins Presidente do Arquivo Central Judaico Escocês - Escócia

Sou um assíduo leitor da Revista on line. Há anos acesso o site e, a cada edição, aprendo mais. Tenho que confessar que antes de ler a Morashá meu conhecimento sobre o judaísmo e a história de nosso povo era bem reduzido. Nessa edição adorei o artigo sobre o Tabernáculo. Lembrome como se fosse hoje da Guerra dos Seis Dias, o medo e a tensão. Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos lendo a tomada de Jerusalém em 1967. É uma pena que as informações contidas no artigo não estão sendo divulgadas na mídia que sempre faz parecer Israel como sendo o vilão. Arnaldo Loewn Rio de Janeiro - RJ

Agradeço pelo excelente número da Morashá. Magnífico texto, com especial relevo para as matérias referentes à Guerra dos Seis Dias e sua importância para a consolidação histórica do Estado de Israel, com pleno domínio sobre Jerusalém, capital eterna do Povo Judeu. “Que a paz desça sobre a Casa de Israel.” Inocêncio Coelho, Procurador da República Por e-mail

Recebemos o material enviado a esta Fundação, em cumprimento à legislação vigente de Depósito Legal. Agradecemos esta importante contribuição para a preservação e a guarda da Coleção “Memória Nacional”, composta pela produção intelectual do país. Alessandra Moraes Chefe da Divisão de Depósito Legal C. de Processamento e Preservação Fundação BIBLIOTECA NACIONAL Ministério da Cultura Rio de Janeiro - RJ

Gostaria muito de agradecer pela Morashá. No ano passado fui a Israel pela primeira vez e, em menos de um ano, retornei, pois me apaixonei por sua história. Apesar de não ser judeu, a cada dia me encanto mais pela cultura, histórias de superação. E encontrei na Revista muitos textos que estão me acrescentando conhecimentos sobre os judeus e o judaísmo. Jader Almeida Rio de Janeiro - RJ

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Em nome da Biblioteca do Congresso dos EUA, acuso o recebimento da Revista “Morashá”, Ano XXIV – Junho 2017 – No. 96, e agradeço sua valiosa contribuição. Eva Reyes Cisnero Bibliotecária, Seção de Aquisições Depto. Ibéria/Rio, 4213 Divisão da África, América Latina e Europa Ocidental Biblioteca do Congresso dos EUA

Agradecemos sua gentil doação para nossa coleção. A edição 95 da Morashá, abril 2017, Ano XXIV, contendo o artigo “Os segredos da captura de Eichmann”, por Zevi Ghivelder, acompanhada do suplemento “Seder de Pessach” constitui importante contribuição para a nossa biblioteca. Rachel Cohen Assistente do Diretor da Biblioteca Yad Vashem Jerusalém - Israel

Durante muitos anos recebemos com grande expectativa a Morashá em nossa residência, em Belo Horizonte, Atualmente, meus dois filhos e eu fizemos aliá e, mesmo vivendo em nossa amada Eretz Israel, sentimos muita falta de folhear as bem elaboradas e inspiradoras páginas desta importante mídia judaica. Sarah Baruch HaGalil Carmiel - Israel

Na matéria da Morashá ,“A Batalha por Jerusalém”, edição XXIV, junho 2017, p. 67, linha 4 , o correto é “.......Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém...”, escreveu o Rei David no salmo 137-5.

setembro 2017


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Morasha97  

Morashá - Edição 97

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