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ANO

XXIII

edição

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JUN dez 2016


Carta ao leitor Durante o período das Três Semanas, que se inicia no dia 17 de Tamuz – este ano, em 24 de julho – e termina em Tishá b’Av – o nono dia do mês de Menachem Av – em 14 de agosto – o Povo Judeu lamenta a destruição de Jerusalém e a queda do Templo Sagrado. A conquista de Jerusalém pelos romanos, a destruição do Templo Sagrado e o subsequente exílio do Povo Judeu da Terra de Israel ocorreram há quase 2 mil anos, mas, desde então, não se passou sequer um dia em que deixamos de orar pelo restabelecimento de nossa Capital Eterna. Por que o Povo Judeu chora por uma cidade que caiu há dois milênios? Por que tanta importância é dada à Jerusalém, a tal ponto que é mencionada todos os dias em nossas orações? David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel e seu primeiro Primeiro-Ministro, afirmou: “Nenhuma cidade do mundo, nem mesmo Atenas ou Roma, teve um papel tão importante na vida de uma nação, durante tanto tempo, como Jerusalém na vida do Povo Judeu”. Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz, escreveu: “O fato de eu não viver em Jerusalém é secundário; Jerusalém vive dentro de mim. Jerusalém é inerente ao meu judaísmo; é o centro de meus compromissos e meus sonhos”. De fato, Jerusalém vive dentro de todo judeu, consciente ou inconscientemente. Mencionada mais de 600 vezes no Tanach, a cidade é o marco nacional da tradição judaica. Representa a alma coletiva do Povo Judeu. Jerusalém não é apenas uma cidade – é a eterna capital do Povo Judeu. A esperança de retornar a Jerusalém manteve vivo o nosso povo na Diáspora. Nas épocas mais difíceis, o que lhes dava força e esperança era a frase: “No ano que vem, em Jerusalém”. Além de ser o coração do Povo Judeu, Jerusalém é também a mais sagrada das cidades. A santidade de Jerusalém advém de ser a cidade onde D’us decidiu estabelecer Sua Morada, isto é, o Templo Sagrado, para que Sua Presença na Terra lá habitasse.

Assim, Jerusalém é diferente de todas as outras cidades porque se encontra entre dois mundos: o físico e o espiritual. O Pirkei Avot, um livro sagrado de sabedoria e ética judaica, relata muitos milagres que ocorriam na cidade na época em que existia o Templo Sagrado. A razão para tantos milagres ocorrerem em Jerusalém, especialmente no Templo, é que o contato com o sagrado traz mudanças às leis da natureza. É o portal terrestre para os Céus. Por esse motivo, independentemente de onde estivermos, sempre oramos em direção a Jerusalém, nossas preces são levadas a Jerusalém e de lá ascendem aos Céus.   A queda de Jerusalém e do Templo Sagrado foram uma grande perda não apenas para os Filhos de Israel, mas para toda a humanidade, pois a utopia tão sonhada por todos nós depende da reconstrução de Jerusalém e do Templo Sagrado. Pelo fato de Jerusalém ser o centro espiritual do mundo, tudo o que lá ocorre afeta o restante do mundo. Nossos Sábios ensinam que todo dano que foi causado a Jerusalém trouxe e continua a trazer malefícios a todo o mundo, pois o Templo servia como fonte de proteção e ajudava a expiar os pecados de toda a humanidade. É por esse motivo que o Povo Judeu lamenta a destruição de Jerusalém há quase 2 mil anos. O nome “Jerusalém” tem muitos significados, entre os quais, “Cidade da Paz”. Mas a paz ainda não reina em Jerusalém e o Templo Sagrado ainda continua em ruínas. É por esse motivo que apesar do estabelecimento do Estado de Israel e da reunificação de Jerusalém, o Povo Judeu continua a observar as Três Semanas de Luto. Esperamos que em breve se cumpram as Promessas Divinas, que o Templo Sagrado seja restaurado e que haja paz em Jerusalém - Cidade da Paz, e no restante do mundo.


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Lições espirituais do episódio do Bezerro de Ouro O jejum do 17o dia do mês hebraico de Tamuz é o início de um período de três semanas de luto pela destruição de Jerusalém e a queda dos dois Templos Sagrados. lembra cinco eventos trágicos ocorridos nessa data. O primeiro deles foi o fato de Moshé ter quebrado as Tábuas dos Dez Mandamentos, quando, ao descer do Monte Sinai, viu o Povo Judeu reverenciar o Bezerro de Ouro.

O

episódio do Bezerro de Ouro é uma das passagens mais desconcertantes da Torá. Como foi possível que apenas 40 dias após a Revelação Divina no Sinai, o Povo Judeu escolhesse um bezerro de ouro – um objeto inanimado – para tomar o lugar de D’us?

Nossos Sábios ofereceram diferentes explicações. Rashi, comentarista clássico da Torá, com base no Midrash, escreve que todo o incidente foi instigado pelos egípcios que se juntaram aos judeus por ocasião do Êxodo. Os egípcios eram idólatras que adoravam animais; portanto, não surpreende que tenham levado os judeus a produzir e adorar o bezerro de ouro. O pecado dos judeus foi terem-se deixado influenciar pelos egípcios. Segundo o Talmud, o episódio do Bezerro de Ouro é inexplicável; foi um produto da Divina Providência. Aconteceu para nos ensinar que até mesmo a geração conduzida por Moshé, que recebeu a Torá e mereceu a Revelação Divina no Sinai, era falível. Eles erraram, ensina o Talmud, para que nenhum judeu mais se sinta abatido por seus pecados. Pois, se D’us perdoou o pecado do Bezerro de Ouro, Ele certamente concederá expiação por qualquer pecado que qualquer um de nós venha a cometer contra Ele. 6

Rabi Moshe ben Nachman, Nachmânides, oferece outra explicação para o episódio, dizendo que o Bezerro de Ouro não visava a substituir D’us, mas Moshé. Sua explicação se origina da simples leitura do versículo: “Faze-nos deuses que irão adiante de nós, porque a este Moshé, o homem que nos fez subir da terra do Egito – não sabemos o que lhe aconteceu” (Êxodo 32:23). Lembremo-nos que imediatamente após a Revelação no Sinai – quando D’us Se revelou explicitamente a todo o Povo Judeu e proclamou os Dez Mandamentos – Moshé subiu ao Monte Sinai. E lá permaneceu durante 40 dias e 40 noites, estudando Torá diretamente com o Próprio D’us. Em sua ausência - e apenas por causa de sua ausência – o Povo Judeu construiu o Bezerro de Ouro. Isso é evidente, pois quando ele retorna do Monte e destrói essa estátua, o povo não protesta. Se os judeus tivessem realmente sentido que Moshé destruía seu deus, eles teriam intercedido para evitá-lo. Ou, ao menos, teriam protestado vigorosamente. E não o fizeram. Quando Moshé retornou, eles já não precisavam do Bezerro de Ouro e não lhes importou que ele o tivesse destruído. A explicação de Nachmânides é particularmente lúcida. Revela que o Povo Judeu fez o Bezerro de Ouro porque


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O recebimento dos Dez Mandamentos no Monte Sinai, Marc Chagall

sentia a necessidade de algo físico com que se relacionar a D’us. Moshé, um ser humano, criatura física, servia a esse propósito. Quando ele se ausentou por 40 dias e o Povo acreditava que ele tivesse morrido no Monte Sinai, eles decidiram encontram um substituto para ele. Pode-se compreender por que o povo buscava algo físico para substituir Moshé. Nós, seres humanos, vivemos em um mundo material. Até o mais espiritual dentre nós habita este mundo físico e tem necessidades físicas. Todos os seres humanos têm uma necessidade inata por algo tangível. Funcionamos guiados por nossos sentidos físicos. É muito difícil relacionar-se com algo que não se pode ver, ouvir, tocar ou com quem falar. É, portanto, mais fácil relacionar-se com seres físicos do que com D’us. Não podemos ver D’us. Isso está muito claro e não

apenas porque D’us é despido de tudo o que é físico, mas também porque, como o afirma a Torá, um ser humano não pode ver D’us e continuar vivo. É verdade que o Povo Judeu testemunhou a Revelação Divina no Sinai, mas a experiência foi tão devastadora que eles pediram a Moshé que dali em diante D’us apenas Se revelasse a ele, e que ele transmitisse Suas mensagens a eles. Nossos Sábios ensinam que quando D’us proclamou os Dez Mandamentos, a alma dos judeus deixou seus corpos e Ele teve que ressuscitá-los. Por isso a experiência foi tão devastadora para eles. Ademais, D’us não trava diálogos conosco e, à exceção de Moshé, mesmo os profetas não tinham acesso livre a Ele. Certamente, há muitas maneiras de D’us se comunicar com cada um de nós. Os místicos ensinam que tudo que 7

ocorre na vida de uma pessoa é D’us se comunicando com essa pessoa. D’us está sempre falando conosco, mas nem sempre Sua mensagem é clara. D’us também fala conosco por meio da Torá, mas tantos de nós interpretamos errado Suas palavras. A vida é cheia de perguntas e precisamos de respostas claras; oramos a D’us e sabemos que Ele nos ouve, mas a oração é um monólogo. É muito raro D’us fornecer uma resposta imediata a nossas preces ou uma resposta a uma pergunta nossa. Se pudéssemos nos comunicar com D’us como fez Moshé – se pudéssemos falar com Ele “olho no olho, como um homem que fala com seu amigo” – tudo seria bem simples. A vida seria bem mais fácil para todos nós. Mas não ouvimos a voz de D’us, pelo menos não claramente. Somos instruídos a “Atrás do Eterno, junho 2016


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vosso D’us, andareis” (Deuteronômio 13:5), e nos voltamos à Torá e aos ensinamentos de nossos Sábios em busca disso, mas o que encontramos são mandamentos e instruções gerais. Consequentemente, as pessoas estão sempre buscando algo ou alguém para lhes dar respostas mais claras e mais específicas a suas perguntas e problemas. É por isso que tantos judeus correm aos rabinos e aos místicos que possuem Ruach HaKodesh – o “Espírito Sagrado”, uma forma mais sutil de profecia. É por isso que os judeus no deserto eram tão dependentes de Moshé. Ele era o mais poderoso de todos os profetas – ele podia falar com D’us a qualquer hora e as mensagens que D’Ele recebia eram claríssimas. Se alguém precisasse perguntar algo a D’us, bastava dirigir-se a Moshé. O Zohar, obra fundamental da Cabalá, ensina que a Shechiná – a Presença Divina no mundo – falava pela garganta de Moshé (Raaya Mehemna, Pinchas 232a). Moshé não apenas era profeta de D’us, mas o meio físico por meio do qual D’us se comunicava claramente com o Povo Judeu. No Monte Sinai, D’us deu as Tábuas nas quais foram gravados os Dez Mandamentos, mas foi Moshé quem ensinou toda a Torá – todos os 613 mandamentos e suas ramificações – durante a jornada de 40 anos pelo deserto. Ele foi o líder e o mestre do povo, e o porta voz de D’us. Quando Moshé ascendeu ao Monte Sinai, o Povo Judeu sentiu-se como uma criança abandonada por seus pais. Temiam que nem mesmo o irmão mais velho de Moshé, Aaron, um grande profeta por mérito próprio, tivesse condições de substituí-lo. Pois, de fato, nunca houve nem haverá tão grande profeta como Moshé, inigualável e insubstituível. Alguns comentaristas da Torá inferem que o

povo optou pelo bezerro de ouro em vez de Aaron, para substituir Moshé, porque um objeto, diferentemente de um ser humano, não morre nem desaparece. Um objeto não sobe uma montanha, deixando seu povo a esperar, sem saber se ele algum dia retornaria. Assim sendo, o pecado do Bezerro de Ouro não é tão simples como muitos o julgam. O Povo Judeu não criou uma estátua de um bezerro por ter optado seguir uma estátua em vez de seguir o Todo Poderoso, que havia feito tantos milagres para eles, libertando-os do Egito, revelandose diante deles no Monte Sinai e proclamando os Dez Mandamentos. Ao contrário, na ausência de Moshé, eles buscaram algum tipo de substituto para continuarem conectados a D’us. O pecado do Bezerro de Ouro foi consequência direta do fato do povo não ter acreditado que poderiam se relacionar diretamente a D’us. Acreditavam ser necessário um intermediário – algo tangível para poder se relacionar com D’us – Aquele que é totalmente despido de fisicalidade. Assim sendo, o pecado do Bezerro de Ouro não foi um ato de clara rebelião contra D’us. Tampouco foi uma negação a D’us. Não foi um ato de adultério espiritual, no qual o Povo Judeu tivesse traído D’us por uma estátua de ouro. Foi um erro deplorável oriundo de conceitos errados sobre o relacionamento errôneo entre o homem físico e D’us Infinito. Por que, então, o pecado do Bezerro de Ouro é considerado um incidente tão notório na História Judaica? Por que Moshé teve que orar em prol de seu povo, durante 120 dias, para evitar que D’us os aniquilasse? Para responder a essas perguntas, é 8

preciso examinar não apenas o que o Bezerro de Ouro estava destinado a ser, mas o que realmente acabou se tornando.

O Bezerro de Ouro e a Serpente de Cobre O episódio do Bezerro de Ouro se iniciou com o pedido do povo para celebrar “uma Festa para o Eterno (que) será amanhã!” (Êxodo 32:5). Na ocasião dessa festa, fizeram um objeto religioso simbólico. O Bezerro de Ouro tinha a intenção de ser simbólico, mas no final não foi o que aconteceu. Aos poucos, foi-se tornando pura idolatria. A princípio, seu propósito era ser um tipo de substituto para Moshé – uma forma de comunicação com D’us, mas se tornou um objeto de adoração. A “Festa para o Eterno”, destinada a ser uma cerimônia religiosa, acabou sendo uma celebração descontrolada e uma orgia. De repente, o Bezerro de Ouro deixou de ser substituto para Moshé – uma ideia muito tola, no entanto relativamente inofensiva, mas um objeto de idolatria, que o povo imediatamente se pôs a adorar. Maimônides ensina que é exatamente assim que a idolatria se desenvolveu. A seu ver, a humanidade a princípio acreditava na unicidade de D’us, mas, a certo ponto, o homem começou a se relacionar com os “intermediários” mais do que com o próprio D’us, até que finalmente o ponto central foi totalmente esquecido e o povo começou a se concentrar exclusivamente nos “intermediários” (Leis da Idolatria 1:1-2). Vale a pena contrastar o pecado do Bezerro de Ouro com outro episódio no deserto que também envolveu a confecção de um objeto


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com a forma de um animal – a Serpente de Cobre. No 40º ano de sua permanência no deserto, os judeus reclamaram sobre o Maná, o Pão Celestial, que era a sua dieta no deserto. D’us viu isso como uma profunda ingratidão e mandou serpentes para atacar os reclamantes. Moshé orou em seu nome e D’us o instruiu a criar uma serpente de cobre e a colocar no alto de um poste. “Todo aquele que for picado, olhando para ela, viverá” (Números 21:5-9). Como no episódio do Bezerro de Ouro, foi feita uma estátua de uma criatura viva. A Serpente de Cobre visava a servir a um propósito religioso: fazer ver ao Povo Judeu que D’us era a fonte tanto de suas aflições quanto de sua cura. Contudo, ao contrário do Bezerro de Ouro, a confecção da Serpente de Cobre não foi uma ideia do povo, nem de Moshé, mas um mandamento de D’us. E aqui reside uma das diferenças fundamentais entre o Bezerro de Ouro e a Serpente de Cobre – entre a idolatria e o mandamento Divino: sua origem. Quando os símbolos religiosos ou ritos são criados pelo homem, podem facilmente levar a graves erros rituais e à idolatria. Mas, por outro lado, quando se originam do Divino, servem para levar o homem mais próximo a D’us. O Bezerro de Ouro levou à morte e à destruição – à quase aniquilação do Povo Judeu – ao passo que a Serpente de Cobre salvou a vida daqueles que tinham sido mordidos pelas serpentes. No entanto, mesmo a Serpente de Cobre, que era um produto de uma ordem de D’us, representou um risco - a possibilidade de que o Povo Judeu a idolatrasse. A origem da idolatria é a crença em

Moshé quebra as tábuas da Lei, Rembrandt, 1659. óleo sobre tela

qualquer poder que não depende de D’us. Como pergunta o Talmud, no Tratado Rosh Hashaná: “Uma serpente mata ou mantém a vida?”. O Talmud responde que, na realidade, a Serpente de Cobre não fez nenhum dos dois. Apenas fez lembrar ao Povo Judeu que erguesse seu olhar a D’us e orasse para que Ele o curasse.

a D’us na ausência de algo tangível. Vale ressaltar que a Serpente de Cobre erguida por Moshé acabou sendo idolatrada, muitos anos após sua construção, por certos judeus, que erroneamente julgaram que ela possuía poderes curativos. Isso levou o Rei Hezekiá de Judá (6o século AEC) a destruir essa serpente (V. Reis II, 18:4).

Isso nos leva à pergunta: será que essa Serpente era realmente necessária? Não poderiam orar a D’us sem a necessidade de um objeto físico? A resposta, novamente, é que aparentemente é muito difícil as pessoas voltarem seus pensamentos

No momento em que o Povo Judeu começou a acreditar que tinha sido a Serpente de Cobre, e não D’us, quem os curara, foi necessário destruí-la. Seu propósito foi servir como foco para que o povo voltasse seus pensamentos ao Eterno: foi

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O pecado do Bezerro de Ouro não foi um ato de clara rebelião contra D’us. Tampouco foi uma negação a D’us. Foi um erro deplorável oriundo de conceitos errados sobre o relacionamento errôneo entre o homem físico e D’us Infinito

Tik - caixa cilíndrica para a Torá, em madeira talhada e dourada. Veneza, séc. 18

por isso que D’us ordenou que fosse colocada no alto de um poste. Quando, em vez de usar um ponto tangível como meio de olhar para os Céus, o povo começou a atribuir poderes independentes à Serpente de Cobre, esta se tornou uma fonte potencial de idolatria e derrocada espiritual, ainda que tivesse sido construída atendendo a uma ordem Divina. Os incidentes do Bezerro de Ouro e da Serpente de Cobre oferecem muitas lições. Uma particularmente relevante é que é D’us – e não o homem – quem decide como Ele deve ser adorado. O incidente do Bezerro não foi apenas um episódio infeliz na história de nosso povo; é uma lição também para os nossos dias. Precisamos seguir D’us e nos relacionar diretamente com Ele ainda que seja difícil fazê-lo - ainda que não haja um Moshé para nos dizer exatamente o que fazer. A última coisa que devemos fazer é criar novos símbolos ou mandamentos religiosos – adulterar a Torá – ainda que o façamos com a melhor das intenções, visando a realizar uma “Festa para o Eterno”. Não cabe ao homem decidir o que agrada a D’us. O homem finito jamais pode alcançar o Infinito. Somente D’us Infinito pode vencer a distância entre Ele Próprio e Suas Criaturas. Portanto, não construímos “bezerros de ouro” – e tudo o que estes representam e simbolizam. Pelo contrário, fazemos “serpentes de cobre”: seguimos as leis e mandamentos de D’us. Mas precisamos sempre estar cientes de que mesmo essas “serpentes de cobre” podem ser uma fonte de idolatria e graves erros espirituais se nos esquecermos de que são apenas o meio para se chegar a um fim. Como ensinou certa vez o grande Mestre 10

Chassídico, o Rabi Menachem Mendel de Kotsk: “Às vezes uma Mitzvá (um mandamento religioso) se torna uma idolatria”.

Das alturas mais elevadas aos abismos mais profundos Não foram apenas a ausência de Moshé ou os erros teológicos do Povo Judeu e suas concepções erradas que levaram ao episódio do Bezerro de Ouro. Ironicamente, foi a extraordinária experiência espiritual no Monte Sinai o que lhes fez cometer esse erro crasso. A Revelação Divina no Monte Sinai foi uma vivência única: por um momento, o Povo Judeu se elevou a tal altura espiritual que cada um dos judeus se tornou um profeta – e todos eles ouviram a comunicação direta de D’us. Imediatamente após, tudo desapareceu. Até mesmo Moshé, que subiu ao Monte Sinai, tinha desaparecido. Para ele, a Revelação Divina e os Dez Mandamentos foram seguidos, de imediato, por 40 dias e 40 noites de estudo ininterrupto da Torá; ele aprendeu a Torá diretamente com o Próprio D’us. Por outro lado, para o Povo Judeu, os Dez Mandamentos foram seguidos por um vácuo. Quando esse vácuo não foi preenchido com santidade, foi preenchido exatamente com o oposto: deterioração e profanação espiritual. Não devemos ficar tão perplexos com o fato de que o pecado do Bezerro de Ouro tenha ocorrido apenas 40 dias após a Revelação no Sinai. Em retrospecto, foi uma reação natural à entrega da Torá. É o que ocorre, geralmente, quando alguém alcança a exaltação espiritual e depois vivencia um brusco


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MONTE SINAI

desapontamento, quando tudo desaparece, subitamente. Muitos judeus que iniciam seu progresso espiritual no judaísmo geralmente vivenciam esse problema. Eles atingem certo nível de exaltação, como uma chama ardente: oram com grande intensidade e cumprem os mandamentos com tremenda paixão. Quando essa chama se extingue, algo inevitável, o vazio que permanece pode ser devastador. O vácuo – a sensação de vazio que se segue a tanta paixão – pode levar não apenas a uma regressão, mas até mesmo ao total abandono daquela jornada espiritual. Os pontos exageradamente elevados e edificantes na vida espiritual da pessoa podem ser muito perigosos, pois apresentam o perigo de uma séria queda – ao ponto que um judeu pode cair a um nível ainda mais baixo daquele em que se encontrava antes de iniciar sua ascensão espiritual. A maneira adequada de lidar com esse perigo é nunca tardar, mas iniciar imediatamente um

processo que permitirá que a pessoa mantenha sua elevação espiritual. Um exemplo é Yom Kipur – o dia em que D’us finalmente perdoou o Povo Judeu pelo pecado do Bezerro de Ouro. O Dia do Perdão deve ser o dia em que os judeus atingem grandes alturas espirituais. Nesse dia, devemos nos comportar como o fazem os anjos: não comemos, não bebemos e passamos o dia em oração. Tudo acerca de Yom Kipur transborda de energia espiritual. Na manhã desse dia, a passagem da Torá que é lida descreve o serviço que era realizado nesse dia pelo Cohen Gadol (o Sumo Sacerdote) no Templo Sagrado, em Jerusalém. Yom Kipur era o único dia em que um ser humano – o Sumo Sacerdote – podia entrar na câmara mais sagrada do Templo – o Kodesh HaKodashim – o Santo Santíssimo. A leitura da Torá na manhã de Yom Kipur serve para destacar a singularidade espiritual da data. E, contudo, estranhamente, durante a Minchá (o serviço vespertino), a passagem da 11

Torá que é lida versa sobre a antítese da santidade: lemos o capítulo 18 do Livro de Levítico, que detalha as proibições contra o incesto e outros pecados sexuais. Esse trecho da Torá da Minchá do dia de Kipur parece totalmente deslocado. Esse é o dia em que nos concentramos nas mais elevadas alturas espirituais a que um judeu pode ascender. Em Yom Kipur, cada um de nós é convocado a agir como se ele fosse o Sumo Sacerdote servindo no Templo Sagrado de Jerusalém. Como podem ser relevantes a tal data o incesto e outros comportamentos sexuais imorais? Em outras palavras, por que lemos sobre tais assuntos vis, justo no dia que personifica o máximo da espiritualidade? Nós o fazemos por uma boa razão: para nos fazer lembrar de que uma grande elevação espiritual pode ser seguida de um terrível colapso espiritual. A leitura da Torá durante a Minchá de Yom Kipur nos transmite uma junho 2016


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importante mensagem: é no momento de sua maior elevação espiritual que você é mais vulnerável. A Torá nos alerta: tenha cuidado, pois é exatamente quando você pensa que está no topo do mundo que você pode despencar às mais escuras profundezas. Portanto, é importante que uma grande experiência espiritual não seja seguida por um vácuo. Uma conquista espiritual deve ser seguida por outra. Quando realizamos um ato de bondade, devemos esforçarnos para realizar outro ainda maior. Quando terminamos de estudar um Tratado do Talmud, devemos iniciar outro de imediato, no mesmo dia. Pois é justamente nos momentos de ascensão que devemos envolvernos em atividades que fomentem o crescimento espiritual, ainda que com o único propósito de evitar a criação de uma brecha para a entrada de uma deterioração espiritual. O período entre a entrega da Torá e o retorno de Moshé durou apenas 40 dias, mas esse tempo foi o suficiente para que o Povo Judeu cometesse um

erro deplorável. Mas, imaginemos que antes de ascender ao Monte Sinai, Moshé lhes tivesse ordenado começar a construir o Mishkan, o Tabernáculo. Se o tivesse feito, o povo teria estado ocupado construindo a Morada de D’us e não teria tido tempo nem interesse em erguer um bezerro de ouro. Ademais, todo o ouro que o povo entregou para fazer a estátua teria sido usado para o Tabernáculo, ou seja, para um propósito sagrado. Sua derrocada foi porque, logo após a Revelação Divina no Sinai, eles retomaram seu curso normal de vida, e essa transição – a queda de grandes Alturas espirituais para o cotidiano – levou-os a uma queda ainda maior: a construção e a adoração de um Bezerro de Ouro. Épocas de transição espiritual são épocas de verdadeira provação – épocas de verdadeiro perigo espiritual. Portanto só há uma maneira de garantir que não cairemos: agir e seguir adiante. Como ensinou o grande Mestre Chassídico, Rabi Aharon de Karlin: “Quem não se eleva, degrada-se”. 12

A vida espiritual de um judeu deve ser um esforço constante para atingir alturas espirituais sempre mais elevadas. Não há lugar para a inércia, pois resultaria em derrocada espiritual. Portanto, ensina o Talmud que “os Tzadikim (os justos) não descansam – nem neste mundo nem no mundo vindouro”. Um Tzadik está sempre se alçando a alturas cada vez mais elevadas. E, como está escrito: “V ’Ameich Kulam Tzadikim” - “E teu povo, serão todos Tzadikim” (Isaías 60:21), cabe a cada judeu nunca descansar, pelo contrário, “ir de força em força” (Salmos 84:8), em todos os aspectos, sejam eles materiais ou espirituais.

Bibliografia

Talks on the Parasha - Rabi Adin (Even Israel) Steinsaltz – Koren Publishers, Jerusalem

Why the Israelites Made a Calf – Rabi Lazer Gurkow http://www.chabad.org/parshah/ article_cdo/aid/259461/jewish/Whythe-Israelites-Made-a-Calf.htm


NOSSOS SÁBIOS

RESH LAKISH – O GLADIADOR QUE VIROU SÁBIO Rabi Shimon ben Lakish, mais conhecido como Resh Lakish, foi um dos mais notáveis Amoraim1 da Terra de Israel. Além de ser um dos pilares do Talmud Babilônico e do Talmud de Jerusalém, ele tinha uma personalidade extraordinária. É considerado excepcional mesmo entre os Sábios Talmúdicos.

R

esh Lakish nasceu no 3º século da Era Comum. Cresceu na Terra de Israel, ao que tudo indica na cidade de Tiberíades ou arredores. Acredita-se, ainda que não haja provas, que em sua juventude tenha estudado Torá com vários dos principais Sábios de sua geração. Contudo, por razões incertas – provavelmente devido a dificuldades econômicas – ele abandonou o judaísmo e o mundo dos estudos. Rabi Shimon ben Lakish viveu durante um período difícil para os judeus na Terra de Israel. As autoridades romanas impunham editos implacáveis como parte de sua campanha para de lá expulsar os judeus, especialmente os lavradores. O ônus fiscal lhes era opressivo. Eram, pois, forçados a buscar fontes alternativas de renda. Resh Lakish possuía imensa força física e, aparentemente, não conseguiu encontrar outra forma de sustento a não ser a mais perigosa de todas, à época, mas também a mais lucrativa – lutar como gladiador. Os gladiadores tinham vida curta. Sabendo que logo encontrariam a morte na cruel arena, a maioria deles vivia intensamente o momento. O derramamento de sangue e o desrespeito à lei eram parte de seu mundo.

Conta a história que, em pouco tempo, Resh Lakish se tornou um famoso gladiador. E, diferente da maioria dos outros, ele sobreviveu. Segundo algumas fontes, ele também viveu algum tempo no deserto, onde conseguiu sobreviver como fora-da-lei. Liderava uma gangue de criminosos. O relato que segue é do Pirkei D’Rebi Eliezer, uma obra do Midrash: “Ben Azzai dizia: Para entender o poder da Teshuvá (o retorno da pessoa a D’us e à Torá), venha e veja (o exemplo) de Rabi Shimon ben Lakish: ele e seus companheiros viviam nos montes e roubavam quem cruzasse seu caminho. O que fez Rabi Shimon ben Lakish? Deixou seus companheiros roubando sozinhos e retornou ao D’us de seus pais com o coração pleno, com jejum e preces. Chegava cedo, manhã e tarde, e ficava na Casa de Oração diante do Santo, Bendito é Ele. E passava os dias estudando Torá; e fazia doações aos pobres. Nunca voltou aos seus hábitos desprezíveis, e sua Teshuvá foi aceita. No dia de sua morte, morreram também dois de seus companheiros, ladrões das colinas. Rabi Shimon ben Lakish foi colocado no Tesouro da Vida (nos Céus), enquanto seus dois companheiros foram colocados nas câmaras mais baixas do Inferno. 13

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nossOS SÁBIOS

Tiberíades é situada à margem ocidental do lago de Kineret, ou Mar da Galileia

Os dois companheiros disseram a D’us: ‘Senhor de todos os mundos, sem favoritismo...! Ele, que roubava conosco, foi colocado nos Céus, enquanto nós fomos sentenciados para as câmaras mais baixas do Inferno’! Ao que D’us respondeu: ‘Ele fez Teshuvá em vida e vocês, não’. Os ladrões responderam: ‘Se nos permitir, faremos uma Teshuvá incrível’. D’us retrucou: ‘A Teshuvá só é possível até o dia

Os Amoraim (literalmente, “aqueles que disseram ou recontaram”) foram os Sábios de cerca de 200 a 500 EC que “recontaram” os ensinamentos da Torá Oral. Eles viveram, estudaram e ensinaram na Terra de Israel e na Babilônia. Suas discussões e debates jurídicos foram registrados na Guemará (Talmud). Os Amoraim vieram após os Tanaim na sequência dos antigos Sábios judeus. Os Tanaim foram os transmissores diretos da Torá Oral não codificada, ao passo que os Amoraim explicaram e comentaram, fazendo esclarecimentos sobre a Torá Oral, após sua codificação inicial.

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da morte’ ” (Capítulo 42, Teshuvá e Boas Ações). É surpreendente a extensão da metamorfose de Rabi Shimon ben Lakish, de gladiador e integrante de uma gangue a Sábio da Torá. O Talmud Babilônico (Bava Metzia 84a) descreve o momento da transição: Rabi Yochanan bar Nafcha, conhecido no Talmud como Rabi Yochanan, um dos grandes Sábios de sua geração, banhavase, certa vez, no rio Jordão. Nascido em Tzipori, Galileia, na Terra de Israel, ele era conhecido por sua beleza física. Por ele ser belo e não ter barba no rosto, quando Resh Lakish o viu de longe, pensou tratar-se de uma mulher. Ele atirou-se no rio Jordão, onde Rabi Yochanan se banhava, descobrindo se tratar de um homem. 14

Rabi Yochanan ficou impressionado com a força física de Resh Lakish e o cumprimentou: “Sua força deveria ser dedicada à Torá”. Em outras palavras, disse, um homem com sua bravura deveria canalizar sua energia para o estudo da Torá. Resh Lakish retrucou: “Sua beleza deveria ser dedicada às mulheres”. Rabi Yochanan lhe disse que tinha uma irmã tão bela quanto ele, e que Resh Lakish teria sua permissão para desposá-la se concordasse em retornar ao judaísmo e devotar sua energia ao estudo da Torá. Resh Lakish concordou e a irmã de Rabi Yochanan se casou com ele. Viveram juntos por muitos anos. Tiveram filhos e o mais novo era famoso, desde pequeno, por sua mente privilegiada (Talmud Babilônico, Taanit 9a). Assim que Resh Lakish voltou ao estudo e prática do judaísmo,


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as suspeitas de Rabi Yochanan se confirmaram. A extraordinária força física de Resh Lakish era, de fato, uma manifestação de seu poder espiritual e intelectual. Ele logo se tornou um dos principais eruditos no Beit Midrash (Casa de Estudos) de Tiberíades, que, na época, era o centro judaico mais importante no mundo. Era lá que se reuniam para estudar os maiores Sábios da geração. Rabi Yochanan foi mestre de Resh Lakish. Este, com seu enorme talento e inesgotável energia e diligência, logo adquiriu um conhecimento tão completo das Leis da Torá que ficou em pé de igualdade com Rabi Yochanan. O Talmud de Jerusalém (Berachot) se refere a ambos como “as duas grandes autoridades” e “dois dos grandes homens do mundo”. Esses dois mestres da Torá se completavam, aguçando o intelecto

um do outro. Resh Lakish era, geralmente, quem levantava objeções e desafios. Ele questionava praticamente tudo o que Rabi Yochanan dizia. Quem estuda suas discussões no Talmud, pensa que eles discordavam em tudo. De fato, uma grande parte dos assuntos discutidos tanto no Talmud de Jerusalém quanto no Babilônico se baseiam nas controvérsias entre os dois. É importante notar que Resh Lakish não pretendia questionar a veracidade ou a base das opiniões de Rabi Yochanan, mas sim, investigar e esclarecer melhor o assunto. Quando os dois debatiam, nunca era uma disputa para ver quem estava certo, mas queriam chegar a uma decisão clara e bem fundamentada. Quando Resh Lakish não encontrava base para sua opinião, não se acanhava de abandoná-la. Amava sobretudo a verdade. Rabi Yochanan apreciava isso profundamente. 15

Resh Lakish não era apenas seu cunhado, aluno e amigo, mas também parceiro nos estudos. Uma interessante história no Talmud de Jerusalém ilustra a ligação entre Rabi Yochanan e Resh Lakish e o destemor e o compromisso com a verdade do antigo gladiador. Certa vez, Resh Lakish e outros eruditos em Torá estudavam as leis relativas a um Nasi – o líder espiritual do povo e chefe do Sanhedrin (Corte Suprema Judaica) – que comete uma transgressão. Rabi Shimon ben Lakish perguntou: “Se um Nasi cometeu um pecado, ele pode ser açoitado?”. Responderamlhe afirmativamente. Mais tarde ele perguntou: “Se um Nasi foi açoitado, ele pode ser reconduzido a seu cargo?”. Responderam-lhe que não, por temor de que ele pudesse executar seus juízes. Quando Rabi Yehudah Nesiah – que era o Nasi e neto do famoso Rabi Yehudah junho 2016


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Lago de Kineret, ou Mar da Galileia

HaNasi, autor da Mishná – soube dessa discussão, sentiu-se insultado e ordenou a prisão de Resh Lakish. Avisado de que seria preso, Resh Lakish escapou, ausentando-se do Beit Midrash. No dia seguinte, Rabi Yehudah Nesiah pediu a Rabi Yochanan que dissesse algumas palavras de Torá e este tentou bater palmas com uma só mão, como que a dizer que sem Resh Lakish ele era incapaz de pronunciar suas ideias, assim como uma mão não bate palmas sem a outra. Rabi Yochanan precisava de Resh Lakish para criar as discussões que ocorriam na Casa de Estudos: os contínuos debates sobre Torá – a pesquisa, a análise e o esclarecimento de assuntos que surgem de perguntas e respostas, do dar e receber. Ao testemunhar a reação de Rabi Yochanan no Beit Midrash, Rabi Yehudah Nesiah, além de permitir a volta de Resh Lakish, pessoalmente

foi procurá-lo e o trouxe de volta. Tocado pela modéstia do Nasi, Resh Lakish lhe disse: “Você agiu de forma semelhante a D’us. Em vez de me enviar um mensageiro, você veio pessoalmente”. Mas, quando o Nasi lhe perguntou por que ele havia feito perguntas insultuosas no Beit Midrash, Resh Lakish replicou: “Você realmente pensou que eu deixaria de ensinar as verdades da Torá por temor a você?” (Talmud de Jerusalém, Sanhedrin, 20a). Esse e vários outros relatos talmúdicos revelam que Resh Lakish foi uma notável mistura de benevolência e grande humildade pessoal, por um lado, e brilho ideológico e até extremismo, por outro. No nível pessoal, ele nunca se zangava com ninguém. Mas em questões de Torá e princípio, ele não favorecia ninguém – nem mesmo o Nasi. Seus discursos continham declarações duras não apenas sobre 16

as massas, mas também sobre os líderes e poderosos de seu tempo. Assim como ele fora um grande gladiador que nunca capitulara na arena, ele se tornou um Sábio da Torá que lutou por suas próprias opiniões e que nunca fez concessões sobre sua essência espiritual e intelectual. Mesmo em suas disputas com Rabi Yochanan – seu mestre e amigo – ele mantinha uma postura independente. Nunca mostrou o menor desrespeito a seus oponentes, mas, ao mesmo tempo, nunca abriu mão de seus ideais. Nas várias disputas entre ele e Rabi Yochanan, a Halachá (lei da Torá seguida na prática) era geralmente determinada segundo Rabi Yochanan. É quase certo que Resh Lekish concordaria com o princípio de que era seu Mestre – não ele – quem tinha, geralmente, a razão. Contudo, em vários assuntos, a Halachá foi estabelecida segundo


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Resh Lakish foi uma mistura de benevolência e grande humildade pessoal, por um lado, e brilho ideológico e até extremismo, por outro. No nível pessoal, ele nunca se zangava com ninguém. Mas em questões de Torá e princípio, ele não favorecia ninguém

Resh Lakish. Às vezes, Rabi Yochanan era forçado pela lógica de Resh Lakish a abrir mão de sua opinião e agir de acordo com os pontos de vista de seu aluno. Apesar da grandeza e da liderança de Rabi Yochanan, bem como de sua personalidade dominante, Resh Lakish não ficava à sua sombra. Ele era um Sábio da Torá original e criativo, por seu próprio mérito. Ainda que tivesse adquirido a maior parte de seu saber de Rabi Yochanan, também estudou com outros Sábios, desenvolvendo ideias próprias. A mudança na vida de Resh Lakish, quando ele voltou ao mundo do judaísmo, não foi tão surpreendente. Rabi Yochanan, erudito perspicaz, gênio e místico que era, diagnosticou-o com precisão quando o conheceu no incidente no rio Jordão. A extrema força de Resh Lakish não era apenas

rio jordão

física. Rabi Yochanan estava certo. Se Resh Lakish canalizasse sua força da maneira adequada, ele seria capaz de atingir alturas espirituais e intelectuais inimagináveis. E foi o que ocorreu. O antigo gladiador canalizou seus grandes poderes para a Torá. “Quando ele discutia temas Haláchicos, era como se ele estivesse arrancando as montanhas pela raiz e as esfregando, uma contra a outra”, dizia o Sábio Ula. Ninguém se equiparou a ele em diligência e ânsia de estudar a Torá. O antigo fora-da-lei também se tornou o maior símbolo de honestidade e integridade do Talmud. Ele evitava associarse a qualquer pessoa sobre cuja probidade não estivesse plenamente convencido. Nunca falava em público com alguém cujo caráter ou confiabilidade fossem questionáveis. O Talmud ensina que qualquer pessoa com quem Resh Lakish conversasse na rua poderia receber um empréstimo sem a necessidade de fiadores (Talmud Babilônico, Yomá 9b). Resh Lakish abandonou a vida de gladiador, mas manteve sua coragem e proeza física. O Talmud de Jerusalém conta uma história que bem o ilustra, revelando também quão fiel ele era a seus amigos e sua disposição de se sacrificar pelos outros. No Tratado Terumot, lê-se o seguinte: “Rabi Imi foi capturado por uma gangue. Rabi Yochanan disse: ‘Enrole o morto em sua mortalha’ (Ele está quase morto. Não há esperanças para ele). Rabi Shimon ben Lakish disse: ‘Matarei ou serei morto (para libertá-lo). Irei e o trarei de volta com minha força’. E foi e negociou (sua soltura) e o trouxe de volta” (Talmud de Jerusalém, Terumot 46b).

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Extraordinário piso de mosaico de uma sinagoga do séc. 4 EC, em HammatTiberíades, um sítio arqueológico da antiguidade

Nessa passagem notável, testemunhamos a fusão do antigo gladiador e fora-da-lei com o Sábio da Torá. Em vez de esquecer seu passado, ele o usa para salvar vidas. Resh Lakish conseguiu resgatar e salvar a vida de uma pessoa em virtude de sua força física, porque sabia como empunhar uma espada e também porque tinha experiência em lidar com criminosos. Essa ação de salvar vidas se tornou possível graças ao passado desse grande Sábio. A história simboliza o conceito talmúdico de “Teshuvá motivada pelo amor a D’us”: uma oportunidade rara, na qual um comportamento pecaminoso passado se torna positivo quando olhado através do prisma de um novo contexto e propósito. Quando Resh Lakish sofreu uma metamorfose, D’us lhe deu a oportunidade não apenas de se arrepender por seus maus atos, mas de transformá-los em algo

meritório. Se ele nunca tivesse aprendido a usar a espada, se nunca tivesse conhecido a maneira de pensar e agir dos criminosos, Rabi Imi nunca teria sido libertado. Sua vida foi salva graças aos erros passados de Resh Lakish, que, em retrospecto, tornaram-se a base para o maior de seus atos – salvar uma vida e resgatar uma pessoa. Por isso não surpreende que Resh Lakish tenha sido quem proferiu o famoso ensinamento talmúdico: “O arrependimento oriundo do amor a D’us é tão grande que os pecados premeditados são julgados como se fossem méritos” (Talmud Babilônico, Yomá 86b). Pensemos no que provavelmente se passou pela cabeça de Resh Lakish quando ele estava sozinho no Beit Midrash na noite após salvar Rabi Imi. Seu Mestre, Rabi Yochanan, comprovadamente o 18

maior Sábio de seu tempo, já tinha dado o prisioneiro por morto, porque ele não tinha aptidão para tratar nem lutar com bandidos – ao contrário de Resh Lakish, que, além de ser um homem de uma força física extraordinária, sabia empunhar uma espada e intimidar os bandidos. Seu ato de salvar Rabi Imi teve o mérito de fazer de seus pecados – seus maus atos do passado – méritos.

Dois gigantes da Torá A morte de Resh Lakish e de Rabi Yochanan foi comovente e difícil de entender. O Talmud narra como ocorreu: “Um dia, ambos debatiam em que estágio de sua produção as armas – como uma espada, uma faca ou uma lança – devem ser consideradas prontas e, portanto, passíveis de se tornarem ritualmente impuras. Durante a discussão, Rabi Yochanan, talvez


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pilheriando, disse que um “ladrão” (em referência ao passado de Resh Lakish) entende de seu negócio – é familiarizado com as armas e ferramentas de sua área. Muito ofendido que Rabi Yochanan trouxesse à baila seu passado, Resh Lakish retrucou: “Se é assim, no que foi que você me aperfeiçoou me fazendo estudar Torá? Antes, entre os gladiadores, eu era chamado de Mestre, e agora, aqui, sou chamado de Mestre!” Rabi Yochanan, chocado com a aparente ingratidão dele, pergunta: “Não te é suficiente o fato de eu ter-te trazido para a proteção das asas da Shechiná, da Presença Divina?”. A consequência do ocorrido entre os dois mestres da Torá lhes causou muito sofrimento. Rabi Yochanan sentiu-se profundamente ferido. Logo

depois, Resh Lakish adoeceu, e se atribui a doença ao fato de ter desrespeitado seu Mestre. Pouco depois Resh Lakish faleceu. Após sua morte, Rabi Yochanan mergulhou em profundo pesar. Os outros Sábios, testemunhando o sofrimento de Rabi Yochanan pela ausência do melhor amigo e companheiro de estudos, mandaram um dos melhores eruditos em Torá da época, Rabi Elazar ben Pedat, para acompanhá-lo. Conta-nos o Talmud que este último se sentava diante de Rabi Yochanan e, quando este falava, Rabi Elazar ben Pedat dizia: “Há uma Baraita (um ensinamento talmúdico) que consubstancia o que o Mestre diz”. Até que um dia Rabi Yochanan lhe disse: “Você julga ser como Resh Lakish? Quando eu proferia uma lei, ele argumentava 19

24 objeções e eu lhe dava 24 respostas, e aí chegávamos a um pleno entendimento daquela lei. Mas você me diz: ‘Há uma Baraita que apoia o que você diz’. Você pensa que eu não sei que minhas avaliações são corretas?”. Rabi Yochanan, então, saiu da Casa de Estudos, rasgou suas roupas em sinal de luto, e, enquanto soluçava, gritou: “Onde estás, ben Lakish? Onde estás, ben Lakish?”. Chorou e chorou até perder a cabeça. Os Sábios imploraram a D’us para ter piedade dele e, pouco depois, ele faleceu. (Talmud Babilônico, Bava Metzia 84a). A morte dos dois Mestres fechou um capítulo na história do Talmud de Jerusalém e no estudo da Torá na Terra de Israel. Durante centenas de anos, ninguém tomou seu lugar. De fato, poucos Sábios em toda a História Judaica tiveram vida tão rica e comovente como eles. junho 2016


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Lago de Kineret, ou Mar da Galileia

Ao longo de quase dois milênios, Resh Lakish e Rabi Yochanan foram mestres e colegas de todos os judeus que estudaram o Talmud, através de gerações. Eles aparecem com tanta frequência no Talmud e suas discussões são tão envolventes e inspiradoras que, quando estudamos uma passagem em que eles estão presentes, sentimos como se estivessem vivos, sentados ao nosso lado. E, na verdade, quase 2.000 anos após sua morte, eles continuam muito vivos. Seus nomes e ensinamentos reverberam onde quer que os judeus estejam estudando o Talmud. Um detalhe que ainda não mencionamos: Por que Rabi Shimon ben Lakish era chamado de Resh Lakish? Trata-se de seu apelido, mas diferentemente do apelido de outros Sábios, que são

abreviaturas de seus nomes, este tinha um significado adicional. Seu nome foi simplificado para a inicial de Rabi Shimon, Resh e Shin — e Lakish era o nome de seu pai. Em aramaico, Resh significa “cabeça ou líder”. Seu apelido sugeria seu papel de líder de um grupo, não apenas dos Sábios da Torá. O nome expressava a estima geral por Resh Lakish como um grande líder tanto de gladiadores como de Sábios. Essa combinação de associações – de seu passado como gladiador e forada-lei, de um lado, e sua imagem erudita, de outro – criou o composto único de “Resh Lakish”. Resh Lakish e Rabi Yochanan se completavam. Um ressaltava o brilho do outro. Seu predestinado encontro no rio Jordão mudou a vida dos dois – e mudou nossa vida, a vida do Povo Judeu, significativamente. Eles foram dois 20

gigantes da Torá e dois heróis do Povo Judeu. Entre as inúmeras declarações de Resh Lakish citadas no Talmud, há uma particularmente poética: “O mundo só existe em virtude do alento das crianças estudando a Torá. O estudo da Torá pelos jovens não deve ser interrompido, nem mesmo para construir o Templo”. (Talmud Babilônico, Shabat 119b). Zecher Tzadik Livrachá: Que a memória de um Tzadik seja uma bênção.

Bibliografia

Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel),Talmudic Images - Koren Publishers Rabi Kahn, Ari,Teshuva from Love and Fear Shimon ben Lakish, Rabbi (ca. 200 C.E. – ca. 275 C.E.) www.ou.org/judaism


israel

O sucesso dos vinhos de Israel Que Israel é líder mundial em tecnologia agrícola e está sempre um passo à frente na rota da inovação, nas mais diferentes áreas, todo mundo sabe. O que tem surpreendido, nas últimas décadas, é o destaque que o país tem conquistado no ranking mundial de vinhos, caminhando lado a lado com os grandes produtores internacionais.

P

or trás desse sucesso, estão o clima seco e com grandes variações de temperatura, o solo propício e o sol intenso, que caracterizam o país como ideal à vinicultura. Do norte, com altitudes de até 600 metros e alguma neve eventual, ao Deserto de Neguev, no sul, Israel tem uma paisagem muito apropriada à cultura dos vinhedos. Somase a este quadro determinação e criatividade da população aliada a técnicas avançadas de agricultura, do cultivo à colheita. Uma tarefa árdua, porém gratificante, pois os rótulos israelenses têm conquistado prêmios e a admiração tanto dos produtores quanto dos especialistas do setor. A Terra de Israel produz vinho desde os tempos bíblicos. Até há pouco, Israel era conhecido como um grande fabricante de vinhos casher, excessivamente doces, que não costumavam agradar aos que apreciavam vinhos mais refinados. Esta era a situação até o início dos anos 1990, quando começaram a chegar ao mercado internacional novas safras de vinhos israelenses que, competindo lado a lado com os melhores vinhos produzidos na Europa e nos Estados Unidos, passaram a ganhar prêmios internacionais. A vinícola Golan Heights (Colinas do Golã), por exemplo, que plantou suas primeiras videiras em 1976 e lançou suas primeiras marcas em

1983, conquistou várias vezes o Prêmio de Excelência da Vinexpo. A Golan Heights é, inquestionavelmente, um dos grandes pilares da chamada revolução e do desenvolvimento da indústria de vinho de Israel, ao lado das vinícolas Carmel, Barkan, Efrat, Binyamina, Tishbi, Dalton e Castel, respondendo por cerca de 90% das exportações do país e dominando mais de 80% do mercado interno. Dados do Instituto de Exportação e Cooperação Internacional de Israel mostram que as exportações de vinho do país cresceram 6% em 2015, totalizando US$ 39 milhões. A história da chamada moderna vinicultura de Israel começou em 1882, com a fundação da vinícola Carmel na cidade de Zichron Ya’akov, ao sul de Haifa, pelo Barão Edmond de Rothschild, proprietário da Chateau Lafite, em Bordeaux (França). As duas maiores vinícolas de Israel pertencem à Carmel – a de Zichron Ya’acov e outra em Rishon Le-Zion, ao sul de Tel Aviv. Possui cerca de 1.400 hectares de vinhedo, que se estendem da Alta Galileia, ao norte, em direção ao Neguev, no sul, e produz 15 milhões de garrafas ao ano. Mas o ponto de partida para o que passou a se chamar a “Revolução Israelense”, na área de vinicultura, deu21

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colombia vinhedos nas colinas do golã

se em 1972, com a visita ao país do norte-americano Cornelius Ough, um importante professor da Universidade Davis. Durante sua passagem por Israel, atestou a qualidade do solo e clima de algumas regiões para a produção de vinhos de alta qualidade. Assim, somando sua tecnologia agrícola avançada e os conhecimentos de técnicos da Califórnia e da Europa, que começaram a atuar junto aos produtores, e investindo na formação de profissionais no exterior, Israel jarras de vinho em cerâmica encontradas na “casa do viticultor”, em Bethsaida

conseguiu colocar-se no mapa dos melhores produtores de vinho do mundo. Por suas qualidades únicas, que refletem um caráter mediterrâneo com um toque israelense especial, os vinhos com o selo “Made in Israel” têm encantado o paladar de americanos, europeus e asiáticos.

Crescimento contínuo Em menos de 4 décadas apareceram mais de 300 vinícolas de pequeno e médio porte. A partir das décadas de 1980 e 1990 surgiram as “vinícolasboutique”, com produção pequena e muito bem cuidada, controlada por profissionais do mais alto nível. Atualmente, Israel possui 6 mil hectares de vinhas e a exploração das altitudes compensou o calor e permitiu o plantio de variedades diferentes, como a Pinot Noir. Os tipos de vinhas mais comuns cultivados em Israel atualmente são Cabernet Sauvignon, Merlot, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Franc, 22

Gewürztraminer, Johannisberg e Riesling. As uvas Muscat possuem um papel secundário na produção do país. Segundo o crítico de gastronomia e vinhos Daniel Rogov, responsável por um guia anual sobre os vinhos do país e que escreve para o jornal Haaretz, “Israel tem evoluído neste setor por possuir vinicultores de nível internacional, cujas vinícolas aliam instalações modernas e tecnologias avançadas, visando criar produtos diferenciados”. Para confirmar suas palavras, Rogov cita a visita feita ao país por Mark Squires, que escreve para a revista especializada Parker’s Wine Buyer’s Guide, e que deu mais de 90 pontos a 14 dos vinhos que degustou. Seu aval não deixa qualquer dúvida sobre a qualidade dos produtos. Atualmente, Israel está dividido em cinco grandes áreas produtoras. Uma delas é a Galileia, caracterizada por altas altitudes, brisas frias vindas do Monte Hermon, solos de basalto vulcânico e uma série


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de microclimas, principalmente na chamada Alta Galileia. Os vinhedos mais ao norte das Colinas do Golã estão a 1.200 metros acima do nível do mar. A região do Monte Carmel e do Vale de Sharon é a maior produtora de vinhas do país, beneficiando-se do fato de estar na área montanhosa do Carmel e próxima ao Mediterrâneo. Domaine du Castel é um dos selos que tem ajudado a fazer a fama da indústria do vinho de Israel. Considerada uma das melhores vinícolas do país, elabora tintos e brancos casher raríssimos e muito elogiados pela crítica internacional, desmentindo a ideia de que vinho para ser bom não pode ser casher. Seus rótulos estão dentre os mais aclamados em Israel e grande parte de sua produção é arrematada por colecionadores israelenses. Inspirados nos melhores franceses, são elaborados nas colinas que circundam Jerusalém. Por trás do sucesso da marca está uma longa história, que começou com Eli Ben Zaken, proprietário da vinícola, e tem tido continuidade

com o seu filho Ariel, que, após prestar o serviço militar em Israel, foi para a Borgonha, onde estudou enologia e trabalhou por dois anos na Domaine Emile Viarick, de Michel Picard. Em 1988 importou e plantou parreiras francesas na região de Ramat Raziel, próxima a Jerusalém. Com o aumento da produção, em 1995, a vinícola passou a se chamar Domaine du Castel.

A maioria dos vinhedos plantados em Israel nos últimos anos segue um padrão: distância de 1,5 metros entre as vinhas e 3 metros entre as fileiras. A colheita mecanizada é cada vez mais comum. Estações meteorológicas fornecem continuamente informações aos produtores sobre a umidade das folhas e temperaturas do solo, entre outras. Uma das características dos israelenses é deixar de lado as convenções e tentar o impossível. A marca Carmel foi pioneira no cultivo de vinhas no Deserto do Neguev, na região de Ramat Arad, um exemplo concreto da expressão “fazendo o deserto florescer”. Desde então, seus campos experimentais têm-se interiorizado no Neguev, principamente em Mitzpeh Ramon e Sde Boker. Sua mais famosa vinícola é a Yatir Winey, produtora do que é considerado o melhor vinho tinto de Israel, o Yatir Forest 2003, que atingiu 93 pontos na nova Parker’s Wine Buyer’s Guide. Lechaim! 23

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OS ÚLTIMOS MESES DE ANNE FRANK Zevi Ghivelder

O RELATO A SEGUIR SE BASEIA EM IMPORTANTE DOCUMENTÁRIO REALIZADO PELO CINEASTA JUDEU HOLANDÊS, WILLY LINDWER, DEPOIS TRANSCRITO EM FORMA DE LIVRO. DURANTE DOIS ANOS ELE ENTREVISTOU MULHERES SOBREVIVENTES DA 2ª GUERRA QUE, DE ALGUMA FORMA, CRUZARAM SEUS PASSOS COM OS DE ANNE FRANK, A MENINA JUDIA QUE, EM FUNÇAO DE SEU CÉLEBRE DIÁRIO, PASSOU A SIMBOLIZAR PARA A POSTERIADE OS HORRORES DO HOLOCAUSTO.

O

“Diário de Anne Frank” abrange o período de 12 de junho de 1942 a 1 de agosto de 1944, quando seu esconderijo em Amsterdã foi descoberto pelos nazistas e a família Frank foi deportada para o campo de concentração de Auschwitz. Depois, Anne e sua irmã Margot foram transferidas para outro campo, o de Bergen-Belsen, onde ambas morreram em março (não se sabe se no dia 15 ou no dia 31) de 1945, apenas dois meses antes do fim do conflito. Embora o diário de Anne tenha sido traduzido para mais de 50 idiomas e tenha, desde então, emocionado gerações, pouco se sabe sobre as suas últimas semanas de vida. Algumas das mulheres entrevistadas por Lindwer conheciam a família Frank desde os tempos de paz em Amsterdã e algumas foram colegas de Anne na escola. De seus depoimentos se conclui que a crueldade nazista superou todos os limites do comportamento humano, transformando as crianças, principalmente as crianças, em animais descartáveis. A holandesa Hannah Elisabeth Pick Goslar e sua irmã sobreviveram a Auschwitz

e Bergen-Belsen e, depois da guerra, foram para Israel contando com a ajuda de Otto, pai de Anne. Assim como a família Frank, sua família havia emigrado em 1933 da Alemanha para a Holanda. Ela era vizinha de Anne no bairro de Merwdplein, ao sul de Amsterdã, e ambas foram colegas de classe desde o jardim de infância até o curso ginasial. Ela perdeu o contato com os Frank em 1942, quando Otto, a mulher e as filhas se refugiaram no “Anexo”, seu famoso esconderijo. Hanna só voltou a falar com Anne três anos mais tarde através de uma cerca de arame farpado em Bergen-Belsen. Ela relembrou as agruras sofridas no campo de concentração, tendo sido uma das mais marcantes a contagem à qual as mulheres eram submetidas todos os dias. Ficavam de pé, em fileiras, de quatro a cinco horas, enquanto os alemães as contavam e recontavam, com receio que alguma fugisse. “Fugir para onde, com uma estrela de David costurada na roupa, sem dinheiro, sem nada? Um dia, em fevereiro de 1945, reparei que grandes tendas haviam sido colocadas num local pouco afastado do nosso e separado por uma cerca de arame farpado. Soube que ali se encontravam prisioneiras oriundas da


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anne, ao lado do patinete, brinca com sua amiga sanne

Holanda. Consegui fazer contato com uma delas e perguntei se ela conhecia minha amiga Anne Frank. Disse que sim e que iria chamá-la, mas não podia chamar também a irmã porque ela estava muito doente, num beliche. Sobre o arame farpado havia uma espécie de cortina de palha e, por isso, além da escuridão do inverno, eu não pude ver Anne, apenas ouvir sua voz. Mesmo na sombra, percebi que não era a mesma Anne tal a sua esqualidez. Ela começou a chorar e me disse que não tinha mais pai nem mãe”. No decorrer daqueles dias, as prisioneiras receberam pequenos pacotes contendo biscoitos enviados pela Cruz Vermelha Internacional. Hannah pediu às outras mulheres que cedessem um pouco de seus biscoitos para que ela pudesse preparar um

pacote para Anne. Na noite seguinte, quando foi ao encontro da amiga junto à cerca, arremessou-lhe o pacote. “Anne passou a gritar quase histérica. Perguntei o que tinha acontecido. Ela respondeu que uma mulher ao seu lado se apossara do pacote e não queria devolver. Pedi

anne frank em sils-maria, 1935

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que se acalmasse, que eu tentaria jogar outro pacote, como de fato fiz, poucos dias depois, e ela conseguiu pegá-lo. Foi a última vez que ouvi sua voz”. O cineasta que realizou o mencionado documentário levou mais de um ano até convencer Janny Brandes a prestar seu testemunho. Ela conheceu a família Frank na estação ferroviária de Amsterdã, de onde os judeus foram deportados. Janny fora presa por causa de sua atividade na resistência holandesa contra os invasores nazistas. Dotada de forte personalidade, descendente de uma família de sionistas socialistas, dedicou-se de corpo e alma a cuidar dos doentes em Bergen-Belsen, sobretudo de Anne e Margot, ambas acometidas de grave tifo. “As condições de saúde nos barracões eram tão terríveis que uma simples infecção na garganta era junho 2016


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edith frank, c. 1925

otto frank, soldado na 1ª guerra

capaz de matar uma pessoa. A par disso, havia muitas prisioneiras com febre escarlate, uma doença muito contagiosa, mas nem por isso elas eram separadas das demais”. Em seu depoimento filmado, lembrou que no barracão em Bergen-Belsen no qual fora confinada havia três níveis de beliches e que cada suposta cama abrigava duas pessoas.

roupas e passou a perambular pelo campo envolta num cobertor. Assim foi vista pela última vez. Faleceu no dia seguinte ao da irmã. Em 1946, depois da vitória aliada, foi Janny quem escreveu para Otto Frank, informando que suas duas filhas haviam morrido naquele campo de concentração.

Na verdade, quase tudo ali era improvisado porque os nazistas não esperavam receber novas levas de prisioneiros. Isso tinha acontecido por causa do início da evacuação de Auschwitz, situado no percurso do exército soviético, que estava cada vez mais próximo. Janny recorda que lhe chamou particularmente a atenção o comportamento das irmãs Frank, que jamais se separavam e permaneciam unidas em face de quaisquer adversidades. Perdeu-as de vista por alguns dias, mas, em seguida, acomodou-as num beliche no mesmo barracão onde ela estava. Àquela altura, as duas meninas ainda estavam relativamente bem de saúde, porém Anne contraiu tifo, assim como Margot. Anne permaneceu firme até a morte da irmã, o que a fez desistir de tudo. Jogou fora suas

A família de Rachel Amerongen foi toda assassinada em Auschwitz, o pai, a mãe e dois irmãos com suas mulheres. Ela conseguiu se esconder

anne e margot frank

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em Amsterdã, aonde se infiltrou no mercado negro de cupons de racionamento, cedido a judeus e não-judeus. Certo dia, viajando de trem de Rotterdã a Amsterdã, foi presa e levada para Westerbork, um campo de trânsito de onde partiam as deportações definitivas. Foi ali que Rachel conheceu a família Frank. “Fui designada para a faxina e Anne Frank veio ao meu encontro dizendo que queria ajudar, que era habilidosa e capaz de cumprir qualquer tarefa. Era uma doce menina, um pouco mais velha do que aparece nas suas fotografias que foram divulgadas depois da guerra”. No dia 3 de setembro de 1944 dali partiu um trem com destino a Auschwitz e Rachel nele se encontrava. Assim como outros milhares de prisioneiros foi transportada daquele campo de extermínio para Bergen-Belsen. No barracão em que foi confinada tornou a ver as irmãs Frank. “Elas estavam com a cabeça raspada e tão esqueléticas que mal as reconheci. Somente pela aparência de ambas, dava para perceber que estavam com tifo e que seu fim estava próximo. Ficavam estiradas perto da porta de entrada e quando entrava o vento frio, Anne e Margot pediam: ‘fecha a porta’, ‘fecha a porta’. Não me lembro qual das duas morreu primeiro”. Depois da guerra, Rachel foi viver em Israel e assim concluiu seu depoimento: “Aqui Anne Frank é uma lenda e, ao mesmo tempo, uma pessoa viva. Acho que não existe uma só cidade neste país onde não haja seu nome numa rua. Anos atrás fui à Holanda onde moram minha filha e minhas netas gêmeas. Queriam levar-me à casa de Anne Frank. Relutei muito até concordar porque preferia encerrar este assunto. Fiquei perturbada com a quantidade de turistas ali dentro e que não paravam de tirar fotografias. Minha filha


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sugeriu que eu dissesse àquela gente que havia conhecido Anne Frank, mas preferi ficar calada. Na saída, registrei no livro dos visitantes: ‘Não sei se Anne Frank gostaria disso’ ”. Bloeme Evers e seu marido, Hans, sempre se destacaram como dedicados ativistas da comunidade judaica de Amsterdã. Ela recorda que quando terminou o curso ginasial, era a única remanescente em sua sala de aula. Todas as demais jovens haviam emigrado ou, a exemplo da família Frank, optado por se esconder. Bloeme conheceu Anne e Margot Frank no curso primário do Liceu Judaico da capital holandesa e só foi reencontrá-las no campo de trânsito de Westerbork. Sua família também se encontrava num esconderijo quando foi descoberta pelos nazistas. “Não tenho recordações muito precisas daquele lugar a não ser que o mais importante era saber adaptar-se às circunstâncias. Entretanto, lembrome bem do trem que nos levou para Auschwitz. As pessoas estavam imprensadas umas contra as outras e só nos restava dormir...em pé”. Willy Lindwer escreve que todos os contatos que manteve com a sobrevivente Lenie de Jong foram sempre na companhia de Bloeme Evers. As duas sedimentaram uma grande solidariedade em Auschwitz. A força e a determinação de uma sustentaram a outra e vice-versa. Assim sobreviveram e ficaram amigas para sempre. O cineasta revela que ficou emocionado durante a entrevista com Lenie de Jong. Sentiu estar na presença de uma mulher sensível e agradável que lhe disse jamais ter compreendido a razão de sua sobrevivência depois de tudo o que sofreu em Auschwitz. “Talvez pessoas religiosas tenham uma compreensão melhor do que

colher de chá de mel. Eu e Anne partilhávamos tudo que recebíamos de manhã e à noite. Eu me lembro que num dia Anne apareceu com erupções na pele: estava coberta por sarnas. Foi levada para a enfermaria e Margot ficou ao seu lado todo o tempo. A mãe estava em constante estado de desespero. Não tinha ânimo sequer para comer a magra ração de pão. Quando as meninas foram levadas para Bergen-Belsen, a Sra. Frank ficou em Auschwitz. Nunca mais se viram”. anne no colégio, em amsterdã

a minha”. Seu marido também foi prisioneiro em Auschwitz, no mesmo alojamento de Otto Frank. Depois da libertação, o casal fez um tortuoso caminho até regressar à Holanda, passando pela União Soviética, França e Bélgica. Suas lembranças do campo são terríveis: “Lá a higiene era abominável principalmente por causa da escassez de água. Nossa alimentação consistia de um pedaço de pão, às vezes um mínimo de manteiga ou uma

Ronnie Goldstein Cleef engajou-se na resistência holandesa assim que seu país foi invadido. Além de atuar como mensageira entre os diversos grupos, competia-lhe a tarefa de arranjar esconderijos para os judeus e também falsificar documentos. Denunciada, até hoje não se sabe por quem, foi presa e transportada para Auschwitz em setembro de 1944. Ali começou a desenhar e a escrever poemas que foram divulgados depois da guerra e lhe ensejaram uma bem sucedida carreira como artista plástica. Ronnie, nascida em Haia, vem de uma família judaica

As fotos preferidas de Anne na parede de seu quarto

27

junho 2016


shoá

o diário de anne frank

de comportamento liberal. Seu pai viajava muito para a Alemanha a negócios, mas embutiu nos filhos um sentimento anti-germânico. Depois da ascensão do nazismo profetizou que um dia a Alemanha invadiria a Holanda “mas nunca nos pegarão”. Contudo, Ronnie acabou sendo pega e mandada para Weterbork, onde conheceu a família Frank. Estranhou que os Frank, pai, mãe e filhas, tivessem

ficado escondidos no mesmo lugar. O que era recomendável, naquelas circunstâncias, era que as famílias se separassem, pai para um lado, mãe para outro e o mesmo com os filhos. Assim, se algum membro da família viesse a ser preso, os demais teriam chance de escapar. Ela lembra que os Frank eram muito unidos e estavam igualmente deprimidos. Imaginavam que estariam a salvo em seu “Anexo” e que nunca seriam descobertos.

Quando veio a ordem de deportar os judeus para Auschwitz, Ronnie e os Frank se encontravam no mesmo vagão do trem da morte. Mas, os humilhados e infelizes passageiros ignoravam que a morte seria sua Solução Final. Alguns judeus tinham recebido de seus familiares cartões postais vindos de Buchenwald apenas com relatos dos trabalhos que faziam porque todos os conteúdos de todas as correspondências eram monitorados pelos alemães. Portanto, julgavam que estavam viajando para um campo de concentração apenas para trabalhar. Além disso havia uma centelha de esperança. Os prisioneiros ficaram sabendo que os aliados já haviam libertado Paris, ou seja, a guerra estava prestes a terminar. A narrativa de Ronnie sobre a chegada a Auschwitz é semelhante à de tantos outros sobreviventes: “Era uma situação surreal, parecendo ficção científica extraída de um

o túmulo de ANNE FRANK O campo de concentração de Bergen-Belsen, túmulo de Anne Frank, foi construído pelo regime nazista em 1940, entre as pequenas cidades de Bergen e Belsen, a 17 quilômetros ao norte de Celle, na Baixa Saxônia. Ao longo do tempo o campo foi ampliado e dividido em três partes. Uma abrigando prisioneiros de guerra, outra para acomodações dos próprios alemães e a última para prisioneiros sem uma qualificação específica. Em 1944, depois do Dia D e à medida que as forças aliadas se aproximavam da Alemanha, 28

Bergen-Belsen tornou-se um sinistro lugar somente para prisioneiros judeus, evacuados dos campos de concentração mais próximos das frentes de batalhas, a oeste, e do exército soviético, a leste. No início de 1945, a superlotação e as péssimas condições sanitárias provocaram epidemias de tifo, tuberculose e disenteria. No dia 15 de abril daquele ano, forças britânicas libertaram o campo onde encontraram cerca de 60 mil prisioneiros, a maioria deles, doente. Anne Frank e sua irmã ali haviam morrido, um mês antes da libertação.


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filme. Fomos colocados em filas e submetidos a uma seleção cujos critérios nos eram desconhecidos. Lá estava Mengele que apontava, nada falava, apenas apontava para as pessoas. Para a direita nós, os jovens, e quem mais tivesse aparência sadia. Para a esquerda, os mais idosos e as crianças”. Depois das primeiras semanas no campo, Ronnie fez amizade com Anne Frank a ponto de ambas dividirem a mesma caneca porque só possuíam uma. Em seguida, decorrido algum tempo, as prisioneiras foram postadas em filas e submetidas a uma nova seleção. Ronnie ficou ao lado de Anne e Margot. Conforme recorda, no que se refere àquela ocasião, Anne parecia muito calma, mas, na verdade, estava apática e ausente. De súbito, foram levadas a um barracão vazio e tiveram seus cabelos raspados. À medida em que o tempo corria, as pessoas emagreciam, ficavam doentes,

muito doentes e morriam. Ronnie, acometida pela febre escarlate, foi parar na enfermaria junto com Anne e Margot, cobertas por sarnas, e em vias de serem vítimas do tifo. As irmãs tinham a mãe o tempo todo ao seu lado. Quando Ronnie voltou para o barracão, mais uma vez ficou ao lado de Anne e Margot. Conforme seu relato, a aparência das meninas era terrível e o pavor maior das prisioneiras era a seleção sempre

conduzida pelo Dr. Mengele, cujas atrocidades pseudocientíficas eram desconhecidas dos internos de Auschwitz. Como era natural, as prisioneiras se dividiam em grupos nos quais prevalecia um pacto tácito de solidariedade. Anne, Margot e a mãe faziam parte de um grupo de mulheres holandesas e algumas alemãs. Foi neste grupo que as Frank contaram às demais sobre sua experiência no chamado “Anexo”, o esconderijo no qual viveram em Amsterdã. Quando se passaram alguns dias sem que Ronnie visse as irmãs, soube que elas haviam sido transportadas para o campo de Bergen-Belsen aonde transcorreriam suas últimas semanas de vida. Bibliografia

Lindwer, Willy, “The Last even Months of Anne Frank”, editora Anchor Books, EUA, 1992. ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

ANNE FRANK no palco e no cinema O livro “O Diário de Anne Frank” foi adaptado para o teatro por Frances Goodrich e Albert Hackett. O espetáculo estreou no teatro Court, na Broadway, no dia 5 de outubro de 1955. O papel de Anne foi interpretado por Susan Strasberg; Otto, o pai, por Joseph Schildkraut (famoso no teatro em íidiche, em Nova York) e a mãe por Gusti Haber. No mesmo mês e ano a peça foi apresentada na Alemanha e, no ano seguinte, na Holanda, contando com a presença da Rainha Juliana na 29

platéia. Houve outra encenação na Broadway em 1997, dirigida por James Lapin e tendo Natalie Portman no papel de Anne. No Brasil, a mais recente encenação da peça estreou no Teatro Deodoro, em Maceió, no dia 4 de novembro de 2015, apresentação do Grupo Cena Livre. No cinema, o filme, de 1959, foi dirigido por George Stevens com Millie Perkins no papel principal. Os intérpretes do pai e da mãe foram os mesmos da versão para o palco, na Broadway. junho 2016


entrevista

Entrevista com o ministro Naftali BennetT O ministro da Educação de Israel, Naftali Bennett, esteve em São Paulo em março deste ano, 2016 , tendo visitado escolas, sinagogas e entidades judaicas. Nessa ocasião, o ministro concedeu uma entrevista exclusiva para Morashá, na qual fala sobre os seus objetivos e metas.

C

om uma taxa de alfabetização extremamente alta entre os países desenvolvidos, Israel pretende, nos próximos anos, aprimorar seu sistema educacional, para que todas as crianças do país tenham as mesmas oportunidades, diminuindo, assim, as diferenças entre os vários segmentos da população.

REVISTA MORASHÁ: Qual sua missão primordial como Ministro de Educação do Estado de Israel? Quais são os principais objetivos que pretende alcançar neste cargo? Naftali Bennett:

NAFTALI BENNETT

Estabeleci quatro objetivos para o sistema educacional de Israel. Primeiro, os valores. Nossas escolas desempenham um papel primordial 30

em formar os valores dos alunos. Os adolescentes que completam a educação escolar precisam estar conectados com nosso país, nossa sociedade e nossa terra. Eles precisam amar Israel, estar dispostos a ajudar os menos afortunados e fazer o que for necessário. Em segundo lugar, precisamos aumentar o número de crianças que estudam Matemática Avançada, não apenas visando a sua instrução, mas como objetivo estratégico para manter a superioridade de Israel. A terceira coisa que temos que fazer é começar a diminuir as diferenças entre os vários setores em Israel. Meu sonho é oferecer às crianças de Bnei Brak, Rahat, Ofakim e Herzliya oportunidades iguais na vida. Por último, nosso quarto objetivo é virar a pirâmide educacional de cabeça para baixo e investir mais nos estágios educacionais iniciais,


REVISTA MORASHÁ i 92

MINISTRO DA EDUCAÇÃO VISITOU A ESCOLA BEIT YAACOV

ao invés de tentar remediar os problemas em fases posteriores da vida. Com isto em mente, reduzimos o número de alunos por turma nos anos iniciais e acrescentamos um auxiliar em cada pré-escola.

M: Como o Sr. avalia a qualidade da

educação fornecida nas escolas públicas em Israel? Em sua opinião, é melhor do que a instrução fornecida nas escolas públicas nos Estados Unidos, Europa e Ásia?

NB: Israel fornece a seus cidadãos

educação pública da mais alta qualidade, desde a pré-escola até a universidade. Deve-se a nosso sistema de educação pública o fato de Israel ter um taxa de alfabetização extremamente alta (cerca de 98%), e também o fato de nossas universidades públicas serem líderes mundiais em muitas áreas.

Contudo, para que nossos jovens tenham a melhor instrução possível, devemos prezar certos valores e sempre tentar melhorar. Por este motivo, lancei nossa iniciativa central de aumentar o número de alunos que estudam Matemática Avançada, bem como outros projetos. Por isso, também, estamos investindo tempo e recursos para começar a reduzir as distâncias entre os diferentes grupos da sociedade israelense – para assegurar que toda criança israelense tenha as ferramentas e a oportunidade de realizar seu potencial.

M: Qual o papel da religião no sistema educacional israelense?

NB: O sistema escolar público

permite que os pais escolham o papel que desejam para a religião na educação de seus filhos. 31

Há escolas sem orientação religiosa ao lado de outras muito religiosas e, naturalmente, escolas de religiões minoritárias – como as do Islã e do Cristianismo – que ensinam seu credo.

M: O Sr. é o líder do Partido HaBait

HaYehudi – Lar Judaico – conhecido por ser um partido ortodoxo moderno, de direita. Sua ideologia pessoal e a de seu partido ajudam a moldar o currículo das escolas israelenses?  

NB: O sistema escolar público

não pertence a um partido ou a uma ideologia. Serve a todos os cidadãos israelenses, independentemente de sua fé ou tendência política. Acredito que seja importante que os alunos recebam as informações e as ferramentas para tomarem decisões abalizadas também junho 2016


entrevista

alto nível na escola alimentará nossas universidades, bem como as unidades tecnológicas das Forças de Defesa de Israel - IDF, com uma geração de alunos prontos não apenas para seguir em frente, mas para desenvolver a posição de Israel como líder mundial nessas áreas.

M: Como Ministro da Educação, o Sr. se empenhará em promover o ensino de matérias seculares nas escolas ultra ortodoxas?

NB: Trabalho lado a lado com a acerca de sua identidade. É por isso que precisamos ensinar História Judaica e de Israel, assegurando que os alunos conheçam os costumes judaicos e nossas tradições, e garantindo que estudem acerca dos diferentes grupos culturais que vivem em Israel.

M:Não há dúvida de que Israel é

famoso no mundo todo por ser uma potência tecnológica. Israel é um dos

países líderes no campo das Ciências e da Tecnologia. Quanto disso pode ser atribuído ao sistema educacional do país?

NB: Ser uma “Start-Up Nation”,

isto é, uma nação embrionária, não depende apenas da educação, mas, por outro lado, não poderia acontecer sem o sistema educacional. O estudo da Matemática e das Ciências em

comunidade ultra ortodoxa para estimulá-los a ensinar Inglês e Matemática. Acredito que somente mediante cooperação e debate poderemos alcançar uma mudança positiva nesse campo.

M: O Sr. visitou recentemente o Brasil e proferiu várias palestras, inclusive na Escola Beit Yaacov, em São Paulo. Quais suas impressões sobre a comunidade judaica do Brasil?

NB: Vocês podem estar orgulhosos. As pessoas que conheci, as escolas e projetos que vi no Brasil e na Argentina foram muito impressionantes. Todos os que conheci foram muito calorosos, recebendo-me muito bem e foi um prazer falar com eles. Foi fácil ver como a comunidade cuida de seus membros e como todos, jovens e mais velhos, orgulham-se de ser parte da Kehilá. Os educadores e líderes comunitários que conheci são totalmente dedicados a instilar na próxima geração o amor ao judaísmo e a Israel. Fica muito claro que a comunidade investe empenho e recursos na identidade judaica e na educação judaica – e eu cumprimento efusivamente a todos os envolvidos. 32


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M: Qual a sua impressão sobre as

escolas que visitou em sua viagem ao Brasil? Teria alguma sugestão sobre o que deve ser feito para promover ainda mais o Judaísmo e o Sionismo nas escolas judaicas do Brasil?

NB: Não é simples construir um

estilo de vida judaico-sionista – e instilar esses valores na próxima geração é um grande desafio. Por mais maravilhoso que um programa ou uma escola sejam, há sempre por onde melhorar, e ser um bom educador significa querer estudar sempre e se adaptar. É importante continuar a encontrar oportunidades para os judeus brasileiros se envolverem com Israel e os israelenses em nível pessoal, ajudando-os a desenvolver uma conexão emocional com nossa herança judaica comum. Há muitas ideias e iniciativas sensacionais e cada escola deve procurar aquela que melhor lhe serve – mas todas devem também buscar maneiras de permitir que todas as crianças judias, adolescentes e adultos, vivenciem a vibrante vida e cultura judaica que Israel tem a lhes oferecer – venham visitar-nos!

Naftali Bennett É RECEBIDO NA A HEBRAICA POR DIRIGENTES COMUNITÁRIOS

terra e nossa herança. Assim sendo, a melhor maneira de combater a assimilação é ensinar nossa herança comum e educar as pessoas a ostentarem sua identidade judaica com orgulho.

M: O que pode ser feito, nas escolas

israelenses e judaicas na Diáspora, para fortalecer os laços entre os judeus de Israel e os que vivem na Diáspora?

NB: Os judeus israelenses e os

da Diáspora precisam conversar, e as escolas podem facilitar isto. Imaginem uma turma de alunos de Bar ou Bat Mitzvá que recebe aulas

idênticas no Brasil, na França e em Israel – e depois trabalham todos em um projeto conjunto via Skype ou e-mail. Também há outras ideias, obviamente. Uma delas são os fóruns abertos no Facebook, onde adolescentes judeus do mundo todo podem conversar com seus pares israelenses; outra seria levar jovens judeus brasileiros de 15-16 anos para passar um programa de verão visitando Israel. Precisamos construir o máximo de pontes possível, para que meus filhos possam conhecer os seus, e as crianças judias do mundo todo encontrem um meio de se conhecerem.

M: Em sua opinião, o que mais

M: O Sr. teria algum conselho para

a comunidade judaica brasileira poderia fazer para apoiar Israel?

combater a assimilação, na Diáspora, além do estímulo à Aliá?

NB: A comunidade judaica do

NB: Quando alguém se assimila,

Brasil apoiava Israel antes mesmo de nascer o Estado, com atividades sionistas que existem há quase 100 anos. Fazer a defesa de Israel, atuar politicamente, educar e arrecadar fundos – os judeus brasileiros sabem como apoiar Israel de todas estas formas. Esta comunidade faz um trabalho formidável, portanto só posso pedir a vocês que continuem fazendo este ótimo trabalho!

significa que perde sua identidade única. A assimilação não é um termo técnico, mas uma palavra que reflete uma mudança de identidade por parte daquele que procura misturar-se e apagar quaisquer características específicas. Portanto, a única maneira de ser um judeu orgulhoso e assim permanecer é quando se sente um vínculo inquebrável com nosso povo, nossa 33

junho 2016


ARTE

Jozef Israëls, o “Rembrandt do Século 19” Um dos principais expoentes da Escola de Haia, Jozef Israëls, judeu holandês, é considerado o mais importante pintor da Holanda da segunda metade do século 19. Ao longo de toda sua vida, pintou inúmeras e fascinantes telas retratando temas judaicos, exercendo considerável influência sobre a geração posterior de artistas judeus.

A

s obras do chamado “Rembrandt do Século 19” e “o Millet holandês” (numa referência ao pintor francês JeanFrançois Millet) estão expostas nos principais museus do mundo, incluindo o Rijks Museum, em Amsterdã, o Metropolitan, em Nova York, e a Galeria Nacional, em Londres.

Mas, perante a determinação do filho, o pai cedeu, permitindo que Jozef estudasse artes. Sua única exigência foi que, chegada a hora, o jovem fosse trabalhar nos negócios da família. Assim, aos 11 anos, Jozef Israëls teve suas primeiras aulas de desenho com o artista J. Bruggink, na Academia Minerva, na própria cidade onde nasceu. Com o mestre ele começou a pintar paisagens, tema preferido de Bruggink. Um ano depois, estudou com outro pintor, Johan Joeke Gabriel van Wicheren. Seu talento rapidamente despertou a atenção e, aos 14 anos, tornou-se aluno de Cornelis Bernudes Buys, respeitado pintor de Groningen.

Sua vida Jozef Israëls nasceu em 1824, em Groningen, no norte da Holanda, em uma abastada família judaica. Filho do banqueiro, corretor de seguros e comerciante Hartog Abraham Israëls e de Mathilda Solon Polack, Jozef foi o terceiro de dez filhos do casal – tinha seis irmãos e três irmãs.

Para Jozef, a arte era a razão de sua vida; decididamente não se encaixava no mundo dos negócios. Enquanto trabalhava no escritório do pai, passava o dia desenhando nas margens dos grandes livros-razão que devia atualizar e manter em ordem. Diante desse desinteresse pelos negócios da família e de seu inegável talento, o pai acabou permitindo que Josef fosse para Amsterdã estudar artes. Tornou-se aluno de Cornelis Kruseman, famoso pintor holandês da época. Dois anos depois, Jozef inscreveu-se na Real Academia de Artes de Amsterdã, então dirigida por Jan Adam Kruseman, primo de Cornelius. Jan Adams é conhecido principalmente por

Seus pais desde cedo perceberam o talento do filho, mas Hartog não queria que Jozef estudasse arte, pois não queria um filho artista. Queria que assumisse os negócios da família ou que fosse rabino, como era desejo de sua mãe. A educação religiosa que recebeu desde criança e, mais tarde, seus estudos do Talmud, influíram profundamente em seu desenvolvimento intelectual e espiritual. 34


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casamento judaico, 1903, óleo sobre tela. rijksmuseum, amsterdan

seus retratos, embora tenha pintado também paisagens e cenas de vários estilos. Com Kruseman, Jozef passou a pintar cenas históricas e bíblicas, além de retratos. Absorveu as influências do movimento classicista1 que buscava a pureza formal, o equilíbrio e o rigor então predominantes na Academia de Belas Artes de Amsterdã.

de François-Edouard Picot, pintor que foi professor de vários artistas importantes da época. É quando sofre forte influência da Escola Romântica, da qual seus professores eram os maiores expoentes. Alguns historiadores de arte, entre eles

Em 1845, com 22 anos, Jozef decide continuar seus estudos em Paris, sustentando-se com uma pequena mesada que seu pai lhe enviava. A Cidade-Luz era o maior centro artístico e cultural do mundo, para onde afluíam artistas vindos de todas as partes. Lá ele estudou na Académie des Beaux-Arts e no Atelier Classicismo refere-se ao mundo antigo, ou seja, à valorização da Antiguidade Clássica como padrão por excelência do sentido estético.

Giulio Carlo Argan, alegam que, na história da arte, concorrem duas grandes forças, constantes e antagônicas: uma delas é o espírito clássico; a outra, o romântico. Os temas predominantes do romantismo eram paisagens com elementos idealizados e conotações históricas. Este gênero artístico remonta ao barroco do século 17, comum nas obras de Nicolas Poussin e Claude Lorrain. No atelier de Picot, Jozef aprende a trabalhar essa técnica e a influência do mestre logo pôde ser percebida em suas primeiras pinturas históricas românticas. Em meados do século 19, surge na França mais um movimento artístico – o chamado Realismo Pictórico francês. O estilo baseado na observação da realidade como contexto social era uma reação

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Jozef Israëls

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ARTE

o último suspiro, 1872, óleo sobre tela. philadelphia museum of art

ao formalismo e à estética do Romantismo. Um grupo de pintores franceses adeptos do Realismo estabeleceu-se próximo ao povoado de Barbizon, nos arredores do Bosque de Fontainebleau, deixando Paris numa atitude de aberta oposição às tendências estéticas do período. Entre os maiores representantes da Escola de Barbizon, como se tornou conhecido o movimento, estavam os pintores Jean-Baptiste Camille Corot, Jean-François Millet e Théodore Rousseau. Para esses artistas, a paisagem em si representava a beleza e não necessitava de outros elementos mitológicos ou figuras bíblicas. Se fosse preciso incluir elementos humanos, estes deveriam ser “reais”. Jozef vai passar algum tempo em Barbizon, e foi um dos primeiros a apreciar o realismo contido nos quadros de Jean-François Millet, que se dedicou, após 1849,

a retratar principalmente trabalhadores rurais. Através de seus ocres e marrons, o lirismo de sua luz e a dignidade de suas figuras humanas, o pintor manifestava a integração do homem com a natureza. A obra desse artista vai influenciar profundamente a arte de Israëls. Millet e Israëls tem sido frequentemente comparados.

Como artistas, até mais do que como pintores no sentido estrito da palavra, de fato, ambos viam na vida do homem pobre e humilde motivo para expressar, em sua arte, com peculiar intensidade sua grande compaixão humana. Mas Millet era o poeta da plácida vida rural, enquanto que em quase todas as pinturas de Israëls há uma pungente nota de pesar. Sobre suas telas, o conceituado escritor e crítico de arte francês da época, Louis Édmond Duranty, disse que eram pintadas com melancolia e sofrimento. No entanto, apesar de ter aderido ao Realismo Pictórico Francês, Israëls não abandonou as paisagens. Desde cedo, ele se caracterizou por não ser um artista de um estilo ou tema únicos.

De volta à Holanda

pai e filho, não datado. carvão e grafite sobre papel. coleção particular

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Após dois anos em Paris, Jozef Israëls voltou a Amsterdã, dedicando-se, principalmente, à


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mãe e filha. Óleo sobre tela, coleção particular

CriançaS no lago, 1872

Israëls conquistou fama não apenas como importante representante da Escola de Haia ou como o “Rembrandt do século 19”, mas como pintor judeu pintura de retratos e temas históricos. Lá participou de um concurso organizado pela Academia. Apesar de não ter recebido um prêmio, foi destacado com louvor pelos críticos. Seu grande salto se deu com as pinturas “Meditação”, em 1850, e “Adágio com expressão” , em 1851. Em seguida, Israëls foi para Düsseldorf, encontrando-se com o pintor de paisagens J.W. Bilders, em Oosterbeek. Ao voltar à Holanda, dedicou-se à história do país, que retratou com grande precisão histórica e forte ênfase no aspecto psicológico individual. Ele foi um dos poucos pintores holandeses de sua época a satisfazer o gosto dominante por uma narrativa fascinante na forma de “pinturas históricas à la Grand Manner”. 2

O chiaroscuro (palavra italiana para "luz e sombra") uma das estratégias inovadoras da pintura renascentista do século 15, definese pelo contraste entre luz e sombra na representação de um objeto

O gênero, porém, já não atraía tanto o interesse do público e ele se voltou a temas como o homem do campo que afluía para a cidade nos dias das feiras. Adoecendo, ele deixa a capital e vai para Zaandvoort, um pequeno povoado de pescadores. Foi ali, nesse vilarejo, que ele descobriu um tema

que o fascinou: o dia-a-dia dos pescadores. Durante sua permanência em Zaandvoort fez muitos esboços de composições que duraram até o fim de sua carreira e o tornaram famoso. Nas obras baseadas em suas observações da vida dos pescadores holandeses, onde retratou seu trabalho árduo, sofrimento e sacrifícios, o pintor utilizou com maestria a técnica do chiaroscuro2. Em 1856, pintou um de seus quadros mais famosos, “Passando pelo túmulo da Mãe”. A obra, que se encontra, atualmente, no Museu Stedelijk, em Amsterdã, retrata um pescador diante de um túmulo, de mãos dadas com seu filho, levando outra filha no colo. Os pés descalços desse triste trio revelam pobreza e dificuldades, acrescidas com a perda da esposa e mãe.

A costureira. Óleo sobre Tela. hadassah katchkin gallery, tel aviv

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No quadro “Pescadores carregam um afogado”, atualmente na Galeria junho 2016


ARTE

Nacional de Londres, o artista retrata uma fileira de pescadores e suas famílias, vindos da praia, caminhando lentamente pelas dunas. Uma mulher, talvez a viúva do pescador, vai à frente, com os filhos a seu lado. Seus rostos revelam a perda. Atrás, o corpo do pescador morto é carregado por dois homens. No quadro o artista consegue retratar todo o sofrimento e as dificuldades dos pescadores e suas famílias. Este trabalho foi exposto em 1861 no Salão de Artes de Amsterdã e, em 1862, na Exposição Internacional de Londres, fazendo estrondoso sucesso nas duas mostras. Após essas duas exposições, Israëls conquista definitivamente a admiração do público e dos críticos. O sofrimento e a angústia das famílias de pescadores estão mais uma vez presentes na tela “Aguardando, ansiosos”. Na tela, o céu alaranjado e o movimento das ondas são o prenúncio de uma tempestade, enquanto uma mulher sentada nas dunas com o olhar fixo no mar, tendo uma criança em seus joelhos, espera o retorno do marido

Pescador, 1892

que saiu com o barco para o alto-mar. Esse tipo de obra fez com que Israëls ficasse conhecido como o “o Millet holandês”, porque os dois artistas tiravam sua inspiração da vida dos mais humildes. No entanto, como vimos acima, enquanto as obras de Jean-François Millet são mais claras e como que observam a paz da vida rural, as de Israëls são mais sombrias e carregadas de mensagens de desespero.

O dia anterior à partida, c. 1862

Em 1860, termina o quadro “O dia anterior à partida”, atualmente parte do acervo do Museu de Belas Artes de Boston. É uma obra sobre a morte. No fundo de um chalé mal iluminado há um caixão entre duas cadeiras, coberto com uma mortalha e pouco iluminado por uma vela solitária. A luz entra no local a partir da esquerda e ilumina os dois personagens – mãe e filha. No primeiro plano se vê a mãe sentada na cadeira, apoiando-se na lareira. Seu rosto está vermelho por causa das lágrimas derramadas. A seus pés está sentada uma menina que se apoia na mãe em busca de conforto, com o olhar fixo no caixão. Nessa obra o artista demostra seu grande talento ao usar o forte contraste entre luz e escuridão, o chiaroscuro, como o contraste entre a vida e a morte. Por esse trabalho, Israëls recebeu uma medalha de ouro em uma mostra em Roterdã, em 1862. No mesmo ano, participou da Exposição Internacional de Londres. Em maio de 1863, o pintor se casa com Aleida Schaap, com que teve dois filhos: Mathilde Anna, nascida em fevereiro de 1864, e Isaac Lazarus, nascido em fevereiro de 1865, que se tornou pintor como o pai. Seu nome está ligado ao movimento impressionista de Amsterdã.

A vida em Haia Em 1870, a família se transfere para Haia, onde Israëls adere ao chamado Grupo de Pintores de Haia, que atuou de 1860 a 1890, cujo estilo procurava retratar a realidade de forma objetiva, sem idealismos. O Grupo de Pintores de Haia usava geralmente cores sombrias e lúgubres, em especial tons de cinza, a ponto de serem chamados de Escola Cinza. Esta tendência 38


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começou a mudar nos últimos anos de existência da chamada Escola de Haia, influenciada pelos pintores de Barbizon e os primeiros impressionistas, que criaram uma paleta mais clara e brilhante. Israëls é muitas vezes chamado de “Rembrandt do século 19”. Muitas das telas são grandes, com elementos melodramáticos e carregados de emoção. Os tons escuros e negros evocam o tradicional estilo holandês. Israëls se utilizou de técnicas e cores do século 17, lembrando o estilo de Rembrandt ou Van Ostades. O jogo de luzes em suas obras é, sem dúvida, uma forte influência de Rembrandt. Ele, por sua vez, serviu de inspiração para Van Gogh. A admiração do pintor por Rembrandt remonta à década de 1840, quando vivia em Amsterdã: “Eu morei a poucas casas do famoso local no qual ele trabalhou durante anos. Eu via as massas, a pressa, os rostos avermelhados dos judeus com suas barbas cinzas; as mulheres com seus cabelos ruivos, os carrinhos com peixes e frutas e outros apetrechos – tudo remetia à Rembrandt”. Como entalhador e pintor de aquarelas, ele produziu um grande número de obras, que, assim como seus óleos, são carregados de um sentimento profundo. Suas telas são geralmente tratadas com generosos volumes de luz e sombra, o que destaca o sujeito principal sem negligenciar qualquer detalhe que seja.

Temas judaicos Ao longo de sua vida e, principalmente, nos últimos anos de sua carreira, os temas judaicos tornaram-se mais frequentes em suas obras, destacando-se, “O filho do

o filho do povo antigo, c. 1889. óleo sobre tela. the jewish museum, new york

Povo Antigo”, 1889; “O escriba da Torá” (1902); “Casamento judaico” (1903); e as gravuras “David perante Shaul” (1908) e “Velho sábio judeu”. “David canta para Shaul” foi um de seus últimos trabalhos. Pintou também retratos de familiares e de importantes personalidades judaicas da época. Israëls conquistou fama não apenas como um importante representante da Escola de Haia ou como o “Rembrandt do século 19”, mas como pintor judeu.

Os judeus foram os primeiros colecionadores de suas obras, levando o artista a fazer, inclusive, uma série de cópias da pintura “O filho do Povo Antigo” para serem vendidas no mercado americano. Este quadro, marcante na carreira de Israëls, retrata um homem idoso e humilde sentado na soleira de uma casa, e é identificado como um mendigo ou um vendedor de produtos usados. Sua religiosidade é revelada por um prato de ouro e candelabros em uma mesa de canto que aparecem no primeiro plano.

Dizem especialistas que o quadro “Casamento judaico” é um dos melhores exemplos da influência de Rembrandt sobre Israëls. Na tela, veem-se a noiva e o noivo sob a chupá, cercados pela família e seus convidados. Ao fundo, brilha a luz simbolizando a alegria do momento.

A tela lembra os homens velhos retratados nas obras de Rembrandt, geralmente identificados como “judeus” nos catálogos. “O filho do Povo Antigo” foi claramente inspirado na obra “Retrato de um Ancião”, de 1654, de Rembrandt. O quadro foi descrito por um crítico de arte como o símbolo de todos os

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ARTE

uma refeição frugal, óleo sobre tela

judeus: “É um filho daquele povo antigo, cujos membros são dispersos entre os povos como folhas que se mexem com a tempestade, mas que não se misturam e se tornam um único”. Israëls exerceu considerável influência na geração posterior de artistas judeus, inclusive na Europa Oriental, inspirando pintores como Leopold Pilichowski e Samuel Hirszenberg. Seus trabalhos foram incluídos em uma mostra importante realizada em Berlim (Alemanha), em 1907, sobre os pintores judeus do início do século 20. É consenso entre os historiadores e críticos de arte que Israëls foi o pintor de maior sucesso de sua época. No momento em que o estilo holandês do século 17 vivia um período de renovada popularidade entre os críticos franceses, ele foi considerado o herdeiro vivo desta tradição. Ele conseguiu não apenas ser incluído no prestigiado Salão Francês e na Exposição Universal

chamado de Berlin Secession e que, posteriormente, lhe concederia o título de membro honorário. Fez parte do comitê organizador da 1ª Bienal de Veneza, em 1895, evento que aconteceu dois anos depois. Foi laureado com inúmeros prêmios na Europa como reconhecimento pelo mérito de sua obra, incluindo a Ordem Real do Leão da Holanda, a Legião de Honra da França, em 1867, e a Ordem de Leopoldo, concedida pelo Rei da Bélgica.

auto-retrato, 1908, óleo sobre tela stedelijk museum. amsterdam

de Paris, em 1878, mas participou, também, da “progressista” mostra “Arte da Secessão e Arte Judaica na Europa Central”. Sua amizade de longa data com o famoso pintor judeu Max Liebermann lhe trouxe estreitos e inúmeros contatos na Alemanha. Assim, em 1892, participou de mostras com o grupo que viria a ser 40

Jozef Israëls faleceu em agosto de 1911, na cidade de Scheveningen, sendo homenageado com um enterro digno de um chefe de estado.

Bibliografia

Eliane Strosberg, The Human Figure and Jewish Culture Susan Tumarkin Goodman, The Emergence of Jewish Artists in nineteenth-century Europe Samantha Baskind & Larry Silver, Jewish Art A Modern History Lucian Regenbogen, Dictionary of Jewish Painters Edward van Voolen, 50 Jewish Artists you should know


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Os 500 anos do Gueto de Veneza Há 500 anos, no dia 29 de março de 1516, a Sereníssima República de Veneza determinou que os judeus eram obrigados a viver numa área delimitada, que passou a se chamar “Ghetto”. Os judeus de Veneza lá viveram durante quase 300 anos, até 1797, quando os muros foram derrubados por Napoleão.

A

longa e rica história dos judeus de Veneza será lembrada no decorrer deste ano de 2016 com uma série de eventos organizados pela comunidade judaica veneziana e a prefeitura da cidade.

Apesar de segregá-los atrás do muro do Gueto, a Sereníssima República de Veneza demostrou ao longo de sua história uma relativa tolerância em relação aos judeus, atraindo para a cidade milhares deles vindos de toda a Europa e do Levante. Entre os muros do Gueto passaram importantes personalidades do mundo judaico. Lá foram erguidas esplêndidas sinagogas e foi em Veneza que se imprimiram milhares de livros judaicos. O intuito dos organizadores é fazer do lugar usado no passado para marginalizar os judeus um veículo para a revitalização da, hoje, cada vez menor comunidade judaica veneziana. Os primórdios A Sereníssima República de Veneza, fundada no século 7 na Lagoa de Veneza, teve grande influência política na história europeia. Foi uma grande potência marítima durante a Idade Média e o Renascimento, dominando o

mar Adriático, o Mediterrâneo e, principalmente, o lucrativo comércio entre a Europa e o Levante. A Sereníssima atingiu seu apogeu na primeira metade do século 15. Na época, seus domínios compreendiam parte da Lombardia, da Ístria, da Dalmácia e vários territórios no ultramar. O poderio comercial da cidade atraía mercadores de todos os países da Europa e do Mediterrâneo, inclusive muitos judeus. De acordo com os historiadores, datam do final do século 10 as primeiras provas de uma presença judaica em Veneza, apesar de haver indicações de que seus comerciantes já atuavam na cidade em séculos anteriores. Os primeiros documentos datam de 945 e 992, quando o Senado proibiu que embarcações indo ou vindo do Oriente levassem judeus a bordo. Apesar dessa proibição, eram raras as atitudes anti-judaicas por parte da República. Ludovico Muratori, historiador italiano do século 18, escreveu em sua obra Dissertazione que, em 1090, o nome “Giudecca”1 já era usado na cidade. Há registros de uma audiência concedida, em 1314, pelo então Doge, dirigente máximo da República de Veneza, um judeu cretense que levava uma mensagem de seus 45

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abrir e as taxas de juros que podiam cobrar. Veneza lhes deu permissão de eleger seus líderes comunitários, mas não de adquirir propriedades na cidade, exercer atividades artísticas ou artesanais, tampouco de ocupar cargos públicos ou militares. No ano seguinte, 1386, o Senado lhes concedeu uma área isolada do Lido onde enterrar seus mortos.

irmãos de Creta. Mas, até o final do século 14, a presença judaica na cidade era temporária e esporádica, apesar da tolerância da Sereníssima em relação à presença de seus banqueiros e comerciantes. Durante toda a Idade Média o fato deles possuírem capital era do maior interesse para os governantes, de modo geral, e Veneza não foi exceção. Eram inúmeras as vantagens econômicas das cidades que permitiam aos judeus se estabelecer em seus domínios. Além do substancial aporte de capital que estimulava a economia, eles pagavam exorbitantes impostos anuais para concessão da licença de permanência e de abertura de casas bancárias. E, acima de tudo, os governantes podiam fixar as taxas de juros e exigir empréstimos em condições favoráveis ou até livre de juros. Apesar da Igreja proibir aos cristãos emprestar dinheiro a juros, a necessidade de conseguir empréstimos não desaparecera nem para os governantes nem para os governados. Ciente dessas vantagens, a oligarquia veneziana que governava a cidade foi gradualmente se posicionando a favor da admissão dos judeus, principalmente após as guerras contra Gênova e Chioggia (1378 e 1381) terem esvaziados os cofres do estado.

banqueiro em seu banco. “os costumes dos venezianos”, de g. grevembroch. museo cívico correr, veneza

cidade de prestamistas e, no ano seguinte, foi permitida a entrada de judeus. Em 1385 foi concedida a primeira “Condotta”, um acordo entre a República de Veneza e os banqueiros judeus, que lhes dava a permissão para se estabelecer em Veneza para emprestar dinheiro a juros. O acordo que tinha a duração de 10 anos detalhava as regras que esses banqueiros deviam seguir. Entre outras, fixava o salgado imposto anual a ser pago, o número de bancos que podiam

Ainda em 1385, Veneza firmou um acordo com os banqueiros judeus que viviam em Mestre, situada em terra firme frente às ilhas de Veneza, para que concedessem empréstimos a taxas favoráveis às camadas mais pobres da cidade. Com este acordo, a Sereníssima conseguiu aliviar a pobreza da população e assim reduzir as tensões sociais que tinham emergido após as guerras, e, ao mesmo tempo, direcionar a hostilidade das massas contra os prestamistas judeus. A Condotta de 1385, no entanto, não foi renovada em 1394 sob o pretexto de que os judeus não estavam seguindo as regras impostas às suas atividades. É provável que por trás

Um dos líderes da Quarantia2 propôs, em 1381, a admissão na 1 Giudecca - Uma das várias teorias sobre a origem do nome dessa ilha na Lagoa veneziana faz referência à pronúncia de Giudecca pelos judeus: (“Giudei”). Segundo isto, Giudecca (como derivado de “guideo”, palavra que, na Idade Média, significava judeu) quer dizer “ilha dos judeus”. 2 Quarantia (“quarenta”) - Conselho consultivo que era um dos mais altos órgãos da República de Veneza.

mapa de veneza com o gueto no centro. jacopo de barbari, 1500. museo civico correr, veneza

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Campo del Guetto Nuovo, a praça principal do gueto de Veneza

dessa atitude estivesse o temor de sua penetração no comércio. Expulsos de Veneza, os judeus se espalharam pelas outras cidades da região do Veneto. A política restritiva que os impedia de viver em Veneza não se estendia a seus domínios no ultramar e na península italiana. A atitude da República em relação aos judeus sempre foi ambivalente e era constante a discussão no Senado se deveria ou não permitir aos banqueiros judeus trabalharem e circularem livremente na cidade. Receberam a permissão de permanência durante um período de15 dias no mês e os que viviam em Mestre utilizavam-se dessa concessão para atuar em Veneza. Mas para serem reconhecidos como judeus já eram obrigados a usar em suas vestimentas um círculo amarelo.

Apesar de oficialmente expulsos, uma série de decretos revelam que em meados do século 15 ainda havia judeus em Veneza.

Em 1423, receberam ordem de vender, em um prazo de dois anos, as propriedades que possuíam na cidade e em 1443 foram proibidos de manter escolas de qualquer tipo. Por outro lado, em 1430, o Senado determinara que mesmo os judeus de Corfu, que embarcavam em navios venezianos, deviam portar em suas roupas o círculo amarelo. Dessa forma estava implicitamente eliminada a proibição de transportar em navios da República Veneziana judeus e suas mercadorias. Em meados do século 15 verificase em toda a Europa uma sensível piora da situação dos judeus. Entre os fatores que provocaram o clima anti-judaico estava a cruzada contra a usura e contra os judeus travada pelos Frades Menores (franciscanos), que criaram, em

scuola spagnola

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1462, instituições para emprestar dinheiro isentas de objetivo de lucro, os Monti di Pietà. Mas, Veneza e Mestre não aceitaram o estabelecimento dos Monti di Pietá, nem tampouco subordinar suas relações com os judeus às determinações de 1442 do Papa Eugene IV, que ordenara a total separação física entre judeus e cristãos. Ademais, a República tentou evitar em seus domínios, nem sempre com sucesso, a onda 1 de intolerância e as acusações de assassinato ritual em relação aos judeus que dominavam a Europa. A criação do Gueto A Guerra da Liga de Cambrai foi o momento decisivo na história dos judeus de Veneza. Em dezembro de 1508 formara-se uma coligação militar entre a França, o Sacro Império Romano Germânico e a Espanha para lutar contra a Sereníssima. Ainda faziam parte da aliança a Inglaterra, Hungria, Savoia, Ferrara, Mântua e Florença. O Papa Júlio II aderiu à Liga em março

de 1509, integrando os Estados Pontifícios. O objetivo da Liga era deter a expansão da República e, se possível, destruí-la, dividindo os ricos despojos. Em abril de 1509, vendo o avanço dos exércitos inimigos, judeus que residiam em Mestre e em outras áreas do Veneto fugiram para Veneza. Esta última assinara em 1503 um acordo com os banqueiros de Mestre, que lhes permitia refugiar-se na cidade na eventualidade de uma guerra. O Senado percebeu rapidamente que autorizar a permanência dos judeus na cidade traria grandes benefícios econômicos e financeiros à República, extremamente necessários em momento tão difícil. Apenas para se ter uma ideia, os impostos anuais que os judeus passariam a pagar sanariam as finanças do Estado. Em 1513, as autoridades concederam ao banqueiro judeu Anselmo del Banco (Asher Meshullam), de Mestre, e a seus associados, a autorização de viver e emprestar dinheiro em Veneza. Mas, o fato da República ter perdido grande parte de seu território e as

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tropas inimigas terem chegado até as portas da Lagoa criaram um clima de tensão em relação à população judaica. Em suas pregações, os franciscanos diziam que a derrota era o resultado dos pecados cometidos pelos venezianos, o mais sério dos quais era permitir aos judeus viverem livremente na cidade. Rapidamente surgiram duas facções sobre a atitude a ser tomada em relação aos incômodos judeus: expulsá-los ou não? Os argumentos dos que eram contra a expulsão eram financeiros. Além dos vultosos impostos que pagavam anualmente, eles haviam disponibilizado, sob a forma de vantajosos empréstimos, grandes e indispensáveis somas à República. O governo da Sereníssima resolveu o “dilema” optando por uma segregação em massa. Em 20 de março de 1516, um dos membros do Conselho, após atacar violentamente os judeus de forma verbal, pediu que fossem confinados no Ghetto Nuovo, localizado no bairro de São Jerônimo. O Doge e Conselho


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aprovaram a solução. Se quisessem continuar a viver em Veneza, os judeus teriam que viver juntos em uma determinada área, separados do restante da população. Anselmo del Banco e outros banqueiros tentaram, inutilmente, resistir. Em 29 de março um decreto criava o Gueto de Veneza: “Todos os judeus devem viver juntos, nas casas localizadas ao redor do pátio que se encontra dentro do gueto na paróquia de San Gerolano e, para evitar que eles não perambulem à noite nos limites do Ghetto Nuovo e do Ghetto Vecchio, deverão ser utilizadas duas pontes de acesso... que terão portões que serão abertos pela manhã... e fechados à meia-noite...”. No dia 10 de abril de 1516, setecentos judeus de origem alemã, Tedeschi, como eram chamados, e também de origem italiana, mudaram-se para o Gueto Novo. A maioria dos historiadores acredita que a palavra “ghetto” era uma palavra do dialeto veneziano, usada na época para se referir às fundições que havia na área. A palavra provém do termo italiano gettare (derramar). No passado, o Ghetto Nuovo tinha sido usado para despejar resíduos de fundição de cobre, enquanto o Ghetto Vecchio era a zona de fundição de Veneza. As autoridades “lacraram” o Ghetto Nuovo. Dois muros foram erguidos e todas as saídas foram fechadas. Portas e janelas que se abriam para a parte externa foram muradas, ficando abertas apenas as que davam para o pátio. Durante o dia, os judeus podiam sair, andar e trabalhar livremente pela cidade, mas sofriam severas penalidades se fossem encontrados fora do gueto à noite.

A Sereníssima decretou, ainda, que os judeus não podiam ser proprietários das casas onde viviam, nem de qualquer outro estabelecimento.

a hostilidade em relação aos judeus estava presente no cotidiano da população.

Era enorme o problema de espaço e, como não tinham permissão para construir novos prédios, a solução era acrescentar andares acima dos existentes. O estabelecimento do gueto, no entanto, não implicava um direito automático de residência, sendo a permissão de permanência na cidade – as Condottas – negociada a cada 5 anos. Para obtê-la os judeus tinham que oferecer novos empréstimos e doações ao governo.

Em 1537, o novo acordo que elevou para 10 anos o direito de permanência foi mais um marco na história judaica de Veneza. Apesar das tensões, das periódicas ameaças de expulsão e da sistemática chantagem financeira pelas autoridades, estava garantida a permanência legal de seus membros na cidade. Iniciava-se, assim, um período de estabilização e florescimento da vida judaica, pois, embora segregados por trás dos muros do gueto, em Veneza vivam melhor de qualquer outro lugar da Europa.

Como vimos, a atitude dos venezianos em relação aos judeus sempre foi ambivalente. Enquanto as decisões do Senado eram influenciadas pelos interesses socioeconômicos da República,

Uma análise dos termos das Condottas concedidas aos judeus asquenazitas mostra que, ao longo das décadas, novas cláusulas foram incluídas. A mais importante se refere à mudança de atitude em

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A chegada dos judeus ibéricos Após a expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1496, muitos dos viajantes que passavam por Veneza eram judeus e conversos ibéricos. Alguns se estabeleceram na cidade, enquanto outros ficavam algum tempo antes de seguir para o Império Otomano. Esses mercadores ibéricos que se estabeleceram em Veneza passaram a ser chamados de “Levantini”. A República não tardou em reconhecer o poder econômico dos levantinos e quando eles se queixaram das difíceis condições em que eram obrigados a viver, no Ghetto Nuovo, em virtude da falta de espaço, o Senado lhes concedeu, em junho de 1541, uma área adjacente, chamada de Ghetto Vecchio.

interior da scuola grande tedesca

Embora o governo veneziano fosse católico e preocupado com a fé da população, não se importou com o fato de que inúmeros conversos ibéricos, logo ao chegar a Veneza, tenham ido direto para o Gueto e lá passado a viver abertamente como judeus. Ao menos oficialmente, não tolerava os conversos que viviam fora do Gueto, fazendo-se passar por católicos, enquanto praticavam secretamente o judaísmo.

relação ao tipo de empréstimos que eles eram obrigados a disponibilizar. O governo aumentara sua participação como fonte de crédito para os pobres, reduzindo as taxas de juros que podiam ser cobradas e aumentando o número de casas de penhores que deviam estar disponíveis para a população cristã. Essa atitude fez com que mudasse o perfil da atividade financeira, passando de uma atividade voluntária de alguns poucos banqueiros ricos para se transformar em uma responsabilidade imposta à comunidade judaica. Como a inadimplência das camadas mais pobres era grande, os judeus que viviam em Veneza não tinham como arcar com os custos das casas de penhores e viram-se forçados a apelar para seus correligionários de Mestre, que passaram a contribuir financeiramente.

um judeu. “costumes dos venezianos”, de g. grevembroch. museo cívico correr, veneza

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Apesar do Papa ter advertido repetidamente a República sobre a presença na cidade de cristãos novos que haviam voltado a seguir abertamente o judaísmo, Veneza manteve grande tolerância em relação aos judeus e aos conversos que chegaram à cidade. Até mesmo o estabelecimento do Tribunal da Inquisição Romana moderna, criada em 1542 e subordinada ao Vaticano, provou ser difícil. A Igreja e Veneza bateram de frente, divergindo em


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relação à função, gestão e composição da nova instituição e atitude da Sereníssima em relação aos judeus. Somente em 1548, uma relutante Veneza cedeu às pressões papais e a Inquisição se instala na cidade. E, uma única vez no século 16, no ano de 1550, aparentemente por pressões do imperador Carlos V, o governo veneziano agiu contra os conversos ibéricos, proibindoos de se estabelecer nos domínios da República. A medida foi de curta duração e, apesar da pressão do núncio papal e da Inquisição, a cidade continuou a servir de refúgio para os que queriam voltar ao judaísmo. A causa dos mercadores conversos foi defendida perante o Senado veneziano, em 1579, por Daniel Rodriga, um abastado judeu português que ajudara Veneza a abrir o porto de Split. Rodriga apresentou uma série de projetos que tinham como objetivo restaurar o então decadente comércio marítimo da cidade, ao passo que simultaneamente beneficiava os mercadores judeus e, acima de tudo, lhes obtinha privilégios em Veneza.

interior da scuola canton

Rodriga apontou para o fato de que era vasta a rede de contatos dos conversos ibéricos nos portos do Mediterrâneo e que se lhes fossem oferecidas garantias de segurança, esses comerciantes trariam suas mercadorias para a cidade, aumentando sua receita alfandegária e permitindo que Veneza tivesse crescimento econômico e mantivesse sua função de entreposto comercial.

estava moribundo, pois se tornara arriscado devido à pirataria, e a nobreza veneziana recusava-se a enfrentar os novos perigos. Em 1589, diante do declínio comercial, o Senado promulgou uma nova Condotta. Esse acordo dava aos comerciantes conversos da Península Ibérica, chamados de “ponentinos”, a permissão de residir em Veneza e praticar seu judaísmo abertamente, dando-lhes também imunidade em relação à Inquisição sobre seu passado. A Condotta estendia a permissão de permanência aos judeus “levantinos”. Caberia a esses dois grupos atuar no comércio entre Veneza e o Levante.

Transcorridos vários anos, no fim, a persistência de Rodriga foi recompensada. A guerra travada por Veneza contra o Império Otomano esvaziara os cofres públicos. O comércio marítimo

A nova Condotta mantinha sua obrigação de viverem no Gueto e a proibição de estarem fora de seus muros à noite. Somente médicos em atendimento a cristãos, mercadores que tinham compromissos de 51

trabalho ou judeus em situação de emergência podiam ausentar-se do Gueto durante a noite. Era também obrigatório o uso do chapéu amarelo, um elemento importante na política de segregação adotada pelo governo. Com o tempo, a cor passou a ser vermelha, embora os levantinos continuassem a usar o amarelo. O florescimento comercial decorrente da presença dos sefaraditas na cidade fez com que Veneza lhes concedesse sucessivas Condottas. A riqueza dos judeus da Nação Levantina-Ponentina tornouse famosa em toda a Europa. Em 1607, um cronista inglês ao descrever os sefaraditas de Veneza disse: “... Entre muitas mulheres judias, algumas eram as mais lindas que vi em minha vida... e tão elegantes com seus vestidos... suas correntes de ouro e seus anéis com pedras preciosas, com as quais as condessas inglesas Junho 2016


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teriam dificuldades de competir...”. Em 1633, os judeus garantiram ao governo veneziano que mais mercadores viriam para Veneza se lhes fosse concedido um lugar adequado para viver. As autoridades então cederam uma área com 20 moradias ao longo do canal, a partir do Gueto Novo em direção quase oposta ao Gueto Velho, local que viria a ser conhecido como Gueto Novíssimo. Havia uma diferença fundamental em relação aos outros dois. Enquanto a denominação dos outros dois era usada antes do estabelecimento dos judeus e devem sua origem a uma antiga fundição que lá existira, o Gueto Novíssimo jamais foi associado a qualquer fundição. Foi assim chamado por ser o novo bairro judaico compulsório. Assim, o termo ghetto fechava o círculo na cidade de sua origem: desde seu uso original específico como fundição, em, Veneza até o uso genérico lá e em outras cidades para designar uma região segregada, delimitada e compulsória de moradia judaica. A vida no gueto Dentro do gueto, no perímetro composto por três bairros interligados - Ghetto Nuovo, Vecchio e Nuovissimo - os judeus criaram uma comunidade heterogênea composta por asquenazitas alemães, italianos, franceses, levantinos, espanhóis e portugueses, assim como conversos e visitantes chegados de todas as partes do mundo judaico. A falta de espaço era um problema geral. De acordo com os dados mais conservadores, em 1560 havia 1.424 judeus que lá viviam. No final do século eram em torno de 2 mil, aproximadamente 1,5% da população total da cidade; chegando a 4-5 mil em meados do século 17.

interior da scuola italiana

Impossibilitado de se expandir horizontalmente, o gueto cresceu verticalmente. Os prédios tornaramse mais altos e, os apartamentos, menores. Andares eram construídos acima dos já existentes e as casas de 2 pisos viram-se acrescidas de até 8 andares. Se a riqueza dividia o gueto horizontalmente, determinando em que andar alguém podia viver e de quantos metros podia dispor, a origem dos que nele viviam o dividia verticalmente. Para as autoridades venezianas, a comunidade judaica era separada em duas Nações, cada uma sendo regulamentada por Condottas específicas: os alemães e os levantinos-ponentinos. Mas, esta divisão oficial não refletia a complexidade da comunidade. 52

A Nação Alemã incluía, além de judeus asquenazitas originários de países de língua alemã, também italianos e franceses. E, os levantinos e os ponentinos eram comunidades independentes. As sinagogas, chamadas de Scuole (literalmente, escolas, “casas de ensino”), constituíam o centro da vida do judeu veneziano do gueto. Intramuros, cada grupo estabeleceu sua sinagoga, centro de convergência e principal manifestação de sua identidade. As cinco principais sinagogas do gueto são em estilo barrocorenascentista e retratam a Idade de Ouro do judaísmo veneziano. As fachadas são discretas, mas os interiores, suntuosos, apesar do uso de


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A Scuola Spagnola, oficialmente chamada de Kahal Kadosh Talmud Torá, é a maior, mais suntuosa e mais conhecida dentre as sinagogas venezianas. Serviu como modelo para a comunidade sefaradita de Amsterdã. Apesar de não haver documentos que atestem a data, acredita-se ter sido fundada por volta de 1580 e reconstruída, de acordo com a tradição oral, em 1635. No gueto de Veneza viveram algumas personalidades religiosas de destaque, sendo a mais conhecida o rabino Leon Modena (15711648), autor de inúmeros trabalhos, entre os quais uma autobiografia em hebraico, que revela o cotidiano e as práticas religiosas dos judeus de Veneza de sua época, inclusive seu vasto relacionamento com seus vizinhos cristãos.

interior da scuola grande spagnola

materiais “nobres”, como o mármore, ser proibido pelas autoridades, que permitiam apenas os considerados “pobres”, como a madeira, e as pinturas trompe l’oeil, imitando o marmorizado. As primeiras sinagogas do Ghetto Nuovo foram construídas nos andares mais altos, em parte por questões de segurança, mas também porque a solução atendia as especificações da lei judaica e as determinações da Sereníssima. Três sinagogas estão localizadas no Gueto Novo. Duas eram de rito asquenazita: a Scuola Grande Tedesca, a primeira sinagoga a ser inaugurada, em 1528-29, e a Scuola Canton, erguida em 1531-32, que provavelmente foi fundada por judeus da Provença, que decidiram separar-se dos alemães. A Scuola

Italiana, a terceira, foi fundada em 1575 e congregava os judeus italianos que seguiam seu próprio rito. É no Ghetto Vecchio, no Campiello delle Scuole, que estão localizadas as duas sinagogas sefaraditas: a Scuola Grande Spagnola, dos ponentinos, e a Scuola Levantina. A elegância exterior e a suntuosidade do interior das duas refletem a estabilidade e riqueza vivida pelos judeus de Veneza, no século 17. Segundo a tradição oral, a sinagoga dos levantinos foi erguida em 1538, três anos antes do ingresso oficial dos judeus dessa origem no gueto. Um documento de 1680 atesta a demolição da estrutura antiga para a construção de outra com maiores dimensões. 53

Outra personalidade importante, contemporânea de Modena, foi o rabino Simone Luzzatto (1583-1663). Ele é lembrado principalmente por seu Discorso sopra il stato degl’Ebrei et in particular demoranti nel’inclita citti di Venetia (Discurso do Status dos Judeus e em Particular dos que Viviam na Ilustre Cidade de Veneza,1638). Escrito em italiano e dirigido à nobreza veneziana, tinha como objetivo evitar a expulsão dos judeus. Em sua obra, Luzatto revela informações importantes sobre a situação econômica e comercial de seus correligionários. Também foi significativa em Veneza, a presença de renomados médicos judeus, atraídos pela proximidade com a Escola de Medicina de Pádua. O fato da Escola admitir estudantes judeus era de grande importância por ser considerada a melhor da Europa no gênero. Junho 2016


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Os judeus de Veneza não aceitaram passivamente a proibição da Igreja em relação aos livros judaicos e, com pressões e doações, obtiveram certa flexibilidade no decreto papal. Em outubro de 1554, um decreto do Papa Julius III interrompeu a “caça” aos livros judaicos, permitindo novamente a posse de obras em hebraico. Como resultado da medida papal, em 1560, em Veneza, editores reiniciaram suas atividades. Estimase que dos 3.986 livros hebraicos impressos na Europa antes de 1650, cerca de um terço, 1.284, tenham sido impressos em Veneza. O declínio

interior da scuola levantina

Impressão em hebraico Veneza emergiu no século 16 como um dos principais centros de impressão não apenas em italiano, latim e grego, mas também em hebraico, judeo-italiano, ladino e iídiche. Teve, de fato, um importante papel nos primórdios da história da imprensa e editoração em hebraico, tendo contribuído amplamente para a educação e cultura judaica. Um dos principais editores de livros em hebraico, na Veneza renascentista, foi Daniel Bomberg, um cristão da Antuérpia, que imprimiu importantes obras nesse idioma. Em 1516, Bomberg publicou o Pentateuco, a primeira de uma longa série de publicações que fariam dele um dos maiores editores de sua época.

De suma importância foi também a publicação da edição completa do Talmud Babilônico (1520-1523) com comentários de Rashi e de Tosafistas, cujo formato e paginação serviu de modelo para publicações posteriores, bem como do Talmud de Jerusalém. Por mais de 30 anos, segundo escreveu em sua obra Cecil Roth, os livros judaicos continuaram a ser publicados. “É difícil dizer se eles eram mais dignos de louvor pela finura do papel, a beleza das letras ou a excelência da matéria”. Um dos raros momentos de harmonia entre a Igreja e a República levou, em 21 de outubro de 1553, à queima de livros hebraicos na Praça São Marcos, o que foi uma grande perda para a comunidade judaica e para os editores cristãos. 54

No século 18, tanto a Sereníssima quanto a comunidade judaica viram seu poderio econômico diminuir drasticamente. A peste bubônica que se abateu sobre Veneza em 1630 e resultou na morte de 50 mil pessoas, um terço da população, afetou as condições socioeconômicas da cidade. Particularmente impactados foram os grandes comerciantes judeus que, devido ao medo de infecção, tiveram que suspender a importação e exportação de mercadorias, e viram seus estoques serem queimados. Se não bastasse, foram obrigados a pagar exorbitantes novos impostos. Para piorar a situação, em 1645,Veneza e o Império otomano voltaram a se enfrentar militarmente, travando ainda mais o comércio marítimo. O longo período de crise foi desastroso para toda a população, cuja pobreza cresceu, criando uma grande pressão sobre os bancos pertencentes aos judeus. O governo veneziano tinha grande preocupação, sobretudo porque precisava de uma comunidade judaica em bom estado de solvência


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para operar as casas de penhores. A crise nos bancos causara uma sangria financeira na comunidade judaica nos últimos 30 anos do século 17, criando uma situação paradoxal: suas dívidas constituíam uma blindagem mais poderosa contra a expulsão do que toda a sua riqueza passada. Consequentemente, em 1722 as autoridades criaram o Magistrado do Inquisitorato sopra l’Universitá a degli Ebrei, com o objetivo de restaurar e manter a liquidez da comunidade. Durante o restante do século, esse Magistrado criou, juntamente com o Senado, uma serie de regulamentos na tentativa de promover o funcionamento das casas de penhores, como forma de conseguir a liquidação das dívidas substanciais da comunidade judaica com cristãos venezianos e outras comunidades judaicas de Amsterdã, Haia e Londres. As autoridades queriam com isso restaurar a capacidade de liquidez da comunidade judaica, mas acabaram supervisionando de perto todos os aspectos diários de seus negócios financeiros. Em 1738, as Condottas concedidas aos judeus alemães, levantinos e

ponentinos, até então em separados, foram unificadas por mais 10 anos. A medida era mais do que necessária, pois as distintas atividades econômicas e responsabilidades referentes aos dois grupos de judeus haviam-se fundido com o passar do tempo. Há muito, os mercadores judeus vinham fazendo pagamentos contribuindo financeiramente com as casas dos penhores dos judeus alemães e, desde 1634, estes tinham participação no comércio marítimo com o Levante. Em 1797, vendo o avanço das tropas de Napoleão, a comunidade judaica oferece prata e ouro à República num último esforço para salvar Veneza. No dia 6 de abril, o Senado veneziano lhes emite um decreto de agradecimento, um dos últimos atos da Sereníssima. Em maio, os exércitos franceses já estavam às margens da Lagoa e a República veneziana se autodissolveu. No dia 12 de maio, a cidade foi entregue a Napoleão. No dia 7 de julho, o governo municipal, que assumira o governo, ordenou que os portões do Gueto

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fossem derrubados e removidas todas as diferenças e separações entre os judeus e o restante da população. No pátio do Gueto Novo os judeus cantaram e dançaram comemorando sua liberdade e a chegada de Napoleão. A história do Ghetto chegara ao fim, iniciandose a história dos judeus venezianos como cidadãos – uma história ainda conturbada. Apesar de nunca mais terem que morar no gueto, os judeus só foram definitivamente emancipados, passando a usufruir de igualdade de direitos com os demais segmentos da população, em 1866, quando Veneza passa a fazer parte do Reino de Itália.

BIBLIOGRAFIA

Prof. Tramontana, Giuseppe, Gli Ebrei Veneziani E L’inquisizione A Meta’ Del ‘500. www.tuttostoria.net/ Simonsohn, Shlomo, La condizione giuridica degli ebrei nell’Italia centrale e settentrionale (secoli XII- XIV), in Storia d’Italia, Gli Ebrei in Italia, Ed. Einaudi 
 Radaelli, Matteo, Nuovi cristiani portoghesi ed ebrei ponentini a Venezia nel XVI secolo. Kindle Curiel Roberta e Cooperman Bernard Dov, The Venetian Ghetto, Ed. Rizzoli

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história

Antissemitismo no pós-guerra:

o pogrom de Kielce No dia 4 de julho de 1946, a cidade polonesa de Kielce foi palco de um violento pogrom. A sede da comunidade judaica foi atacada por uma multidão de civis, policiais e militares, que massacraram, em plena luz do dia, 42 judeus - homens, mulheres e crianças - e feriram mais de 100. Depois disso estava claro que não havia futuro para os judeus na Polônia

P

assados 70 anos, o Pogrom de Kielce, a mais sangrenta das manifestações antissemitas ocorridas em solo polonês, no pós-guerra, ainda é um capítulo obscuro na longa e sofrida história dos judeus na Polônia. Nos últimos anos, historiadores e pesquisadores têm resgatado inúmeros documentos e testemunhos, mas apesar disso ainda há muitas perguntas sem resposta. Não é apenas o Pogrom de Kielce que tem sido alvo de pesquisa por parte de historiadores, mas toda a atuação da Polônia durante a 2ª Guerra, sua participação no Holocausto e o antissemitismo do pós-guerra. A posição do atual governo é isentar o país de qualquer culpa no que diz respeito à Shoá, afirmando que a Polônia foi vítima inocente dos alemães e não cúmplice e, tampouco, um espectador complacente da política antissemita nazista que levou ao assassinato de milhões de judeus. Porém, não há como refutar que foi a Polônia, sob domínio alemão, que os nazistas escolheram para estabelecer seus campos de extermínio: Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka, Auschwitz-Birkenau, Majdanek. Foi para a Polônia que foram enviados os trens carregados de judeus de toda a Europa. Foi em solo polonês que mais de 3 milhões de judeus foram assassinados e incinerados 56

em câmaras de gás e que centenas de milhares morreram por brutalidade, fome e inanição. Tampouco há como refutar que, após o final da guerra na Europa, e, transcorrido um ano sem nenhum soldado alemão em solo polonês, centenas de judeus, ainda assim, foram assassinados na Polônia e milhares mais enfrentaram o perigo quando voltaram a suas cidades e seus vilarejos. A violência contra os judeus atingiu o clímax em 4 de julho de 1946, em Kielce.

A Polônia após a 2ª Guerra Mundial A situação política da Polônia ao término da Guerra era tumultuada. O poder era disputado entre comunistas poloneses apoiados pelo Exército Vermelho da então União Soviética, que queriam que o país fizesse parte do bloco soviético, nacionalistas da direita que agregavam membros do Exército Interno, e os ultranacionalistas das chamadas Forças Armadas Nacionais que queriam a Polônia na esfera de influência ocidental. O futuro da população judaica na Polônia do pósguerra continuava sombrio, pois, apesar das profundas divergências ideológicas, as duas facções tinham algo em comum: suas fortes tendências antissemitas.


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monumento em kielce

Apesar de se terem tornado públicas as terríveis revelações sobre os campos de extermínio e o número de judeus assassinados durante a Shoá, não desaparecera o antissemitismo que antes da Guerra permeava todos os estratos da sociedade polonesa. Pelo contrário, estava sendo alimentado por novas acusações. Eram distribuídos folhetos “incentivando” os judeus a deixarem o país. Eles eram acusados de serem comunistas e responsáveis pelo novo regime apoiado por Moscou, que queria controlar o país. E o clero católico reeditara a calúnia medieval de que os judeus usavam sangue de cristãos para produzir matzá. Havia, também, um forte aspecto econômico, que tem sido chamado de “herança da guerra”. A volta de judeus sobreviventes, donos de propriedades e negócios que haviam sido tomados por poloneses

durante a Shoá, provocara entre a população um forte ressentimento. Os moradores de Kielce, assim como no resto da Polônia, não estavam dispostos a devolver suas posses. Muitos dos ataques a judeus, registrados em toda a Polônia, nos meses após o término da Guerra, envolviam “disputas” sobre propriedades, e apenas na região de Kielce, dos 13 judeus assassinados em junho de 1945, dois foram mortos por causa de “divergências” sobre direitos de propriedades. Os alertas sobre os perigos de ser judeu na Polônia do pós-guerra vinham de todos os lados. Entre outros, em 1 de fevereiro de 1946, o Manchester Guardian publicou uma reportagem sobre a situação. As manchetes diziam: “Judeus ainda em fuga da Polônia”, “Gangues políticas surgem para aterrorizá-los”, “Campanha de assassinato e roubo”. 57

O jornal assinalava que, desde o início de 1945, 353 judeus haviam sido mortos por assassinos poloneses, entre eles, membros do Armia Krajowa, o Exército Clandestino Polaco, que lutara contra os nazistas. Em abril de 1946, a Agência Judaica de Notícias alertara que “têm circulado pela Polônia falsas histórias sobre assassinatos rituais cometidos por judeus contra crianças polonesas, com o intuito de provocar distúrbios e pogroms”. Nenhuma cidade polonesa esteve livre de incidentes antissemitas. Nenhum judeu – mulheres, homens, velhos, crianças e até doentes – estava a salvo. Por dinheiro ou por ódio, o assassinato de judeus seguia em frente. Em Cracóvia e Rezo eles haviam sido acusados de ter cometido assassinato ritual e, em Radom, um hospital de órfãos judeus fora atacado. No dia 19 de março, junho 2016


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um dos dois únicos sobreviventes de Belzec, que prestara testemunho em Lublin sobre o que presenciara, foi morto a caminho de casa porque era judeu. E assim por diante...

Os judeus de Kielce e o pogrom O destino da população judaica polonesa foi traçado quando, na madrugada de 1° de setembro de 1939, a Alemanha ocupou a parte ocidental do país. No dia 4 de setembro as tropas de Hitler chegaram à Kielce. Na época, a cidade contava com 24 mil judeus, aproximadamente um terço da população local. Os nazistas implantaram leis antissemitas, sendo que saques, expropriações, trabalho forçado e assassinatos passaram a ser a ordem-do-dia. Em 31 de março de 1940 foi criado um gueto que passou a receber judeus de povoados vizinhos e de outras localidades da Europa. Mais de 1.200 foram mortos durante as várias Aktions nazistas realizadas no gueto. A liquidação do Gueto de

Kielce aconteceu entre 20 e 24 de agosto de 1942, quando 21 mil judeus foram deportados para Treblinka, onde foram assassinados. Dos milhares que passaram pelo Gueto de Kielce, apenas 150 conseguiram sobreviver, saindo de seus esconderijos ao término da Guerra e retornando à cidade, a maioria esperando por uma chance de emigrar para a então Palestina. A violência que tornou Kielce o símbolo da infâmia e do ódio polonês contra os judeus eclodiu no dia 4 de julho de 1946. O estopim foi uma mentira contada por um menino de nove anos, Henryk Blaszczyk, que não queria ser punido pelos pais por ter desaparecido durante três dias. No dia 1o de julho, Henryk saiu de casa indo visitar amigos no vilarejo de Bielaki, a 25 quilômetros de Kielce, onde, durante a Guerra, sua família vivera por um tempo. No dia seguinte, o pai, Walenty Blaszczyk, comunicou o desaparecimento do garoto à polícia. Dois dias depois, em 3 de julho, Henryk retornou a Kielce.

Quando os pais lhe perguntarem onde estivera, contou uma história sobre um suposto homem que lhe teria pedido que entregasse um pacote em uma casa. O garoto disse que ao chegar à tal casa, fora preso e colocado em um porão, de onde conseguiu escapar dois dias depois, com a ajuda de um outro menino que também estava preso no local. Os pais de Henryk e os vizinhos acreditaram na história. Na primeira versão o garoto não incriminou os judeus, mas, quando um dos vizinhos lhe perguntara se o desconhecido era cigano ou judeu, ele respondeu que era judeu. Esta “informação” foi logo relatada à polícia. Na manhã seguinte, indo à delegacia prestar depoimento, Henryk e o pai passaram pela então chamada “Casa Judaica”, onde viviam dezenas de judeus. Era a sede do Comitê Judaico da Cidade, localizada na Rua Planty, no centro da cidade. A polícia também acreditou na história de Henryk e lhe perguntou se ficara preso na Casa Judaica; o garoto respondeu que sim. Rapidamente três patrulhas foram enviadas à Rua Planty, acompanhadas pelo menino, que apontou um judeu como sendo quem o prendera no porão. Preso o suposto culpado, os policiais iniciaram uma busca para localizar onde Henryk havia sido encarcerado, pois constataram que o prédio não possuía porão. O vai-e-vem de policiais chamou a atenção dos transeuntes, que começaram a fazer circular falsas histórias sobre judeus que teriam mantido um garoto polonês preso e sobre assassinatos rituais de crianças cristãs na Casa Judaica. Historiadores não têm dúvidas de que as ações e

Sinagoga de Kielce

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uma das ruas de kielce

o antissemitismo da maioria dos policiais alimentaram a violência que se seguiu. O número cada vez maior de pessoas que se aglomeravam em frente à Casa Judaica despertou o temor dos judeus que ali viviam. O presidente do Comitê Judaico, Severyn Kahane, dirigiu-se à delegacia para pedir explicações. Por volta das 9h, os principais representantes do governo, em Kielce, assim como representantes das forças militares em Varsóvia, entre os quais, o ministro da Polícia Secreta e o comandante-chefe da Polícia, já tinham sido informados sobre os acontecimentos.

ao pogrom. Arquivos resgatados contendo testemunhos dos sobreviventes e entrevistas realizadas por pesquisadores entre a população revelam que os policiais ordenaram aos judeus entregar suas armas. Depois que foram recolhidas, a multidão entrou na Casa. De acordo com os testemunhos, policiais e militares foram os primeiros a atirar, matando uma pessoa e ferindo muitas outras. Um dos sobreviventes relatou:

“Os soldados subiram ao 2º andar. Poucos minutos depois, eles estavam matando judeus... Após o tiroteio no 2º andar, tiros foram ouvidos na rua e dentro do edifício”. Em seguida outros judeus foram levados por policiais e militares para fora do prédio, sendo baleados, apedrejados até morrer ou mortos a machadadas e outras ferramentas. Até o meio-dia, a violência se espalhara por toda a cidade.

Por volta das 10h, chegaram à Rua Planty 100 soldados e 5 oficiais do exército, somando-se à polícia e membros da polícia política. Os soldados que obtiveram as “informações” junto às pessoas reunidas em frente à Casa Judaica acreditaram que os judeus haviam sequestrado crianças e as mantinham presas no edifício. A entrada das forças de segurança na instituição judaica deu início

Kielce: deportação de judeus ao local onde o gueto foi estabelecido, 1939

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história

FUNERAL das vítimas do pogrom de kielce

Todas as tentativas de interrompêla foram em vão. Os judeus feridos eram espancados e roubados por soldados. Testemunhos dados por judeus e poloneses confirmaram as crueldades. Um polonês não judeu chegou a afirmar que, “como ex-prisioneiro dos campos de concentração, presenciara poucas manifestações de brutalidade em tamanha escala”. Ao meio-dia, a chegada de trabalhadores de uma fábrica de aço reacendeu a violência e mais 20 judeus morreram. Quase todos os judeus que estavam dentro do prédio, entre os quais, o presidente do Comitê, acabaram perdendo a vida. O pogrom que começara por volta das 10h estendeu-se até o meio da tarde, quando chegaram novas unidades de soldados do Ministério do Interior e outras vindas de Varsóvia. Durante todo o pogrom, estavam presentes no local o comandante da Polícia Secreta de Kielce, seu assessor soviético, bem como outros oficiais e comandantes

do exército. Ninguém tentou impedir as agressões. Mas o término do pogrom não significou o fim da violência. À tarde, uma grande manifestação contra os judeus tomou conta da cidade. Em outras partes de Kielce, judeus foram mortos em suas casas ou arrastados às ruas e mortos. Nem uma mãe com um bebê foram poupados. Uma multidão foi até o hospital exigindo a entrega dos judeus feridos. Atos antissemitas também foram registrados nos trens que passavam pela cidade durante o dia. Rapidamente as notícias sobre o massacre espalharam-se por toda a Polônia e pelo mundo. Jornalistas e observadores independentes dirigiram-se ao local e se defrontaram com as ruas ainda manchadas de sangue judeu. Os cassetetes usados para espancar os moradores da Casa Judaica ainda estavam espalhados pela rua. O saldo da violência foi dramático: 60

40 judeus foram assassinados durante o pogrom e outros dois morreram posteriormente. Entre as vítimas estavam duas crianças, o presidente da Casa Judaica, jovens sionistas que se preparavam para fazer aliá, soldados judeus e sobreviventes dos campos nazistas. A polonesa cristã, Estera Proszowska, foi assassinada porque ajudou judeus feridos. Abalados pelos acontecimentos, os judeus da cidade publicaram o nome das vítimas no único jornal remanescente, com uma tarja preta em volta. No dia seguinte, os mortos foram enterrados no Cemitério Judaico da cidade. O Pogrom em Kielce foi crucial na decisão tomada por 100 mil judeus poloneses de deixar o país. Apesar da ampla presença de policiais e militares, centenas de judeus tinham sido assassinados e outros tantos feridos a sangue frio, em público, durante mais de 5 horas. Antes do pogrom, mil judeus em média, por


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mês, cruzavam a fronteira polonesa ilegalmente; em julho, o número subiu para cerca de 20 mil e, em agosto, chegou a 30 mil.

As consequências Os responsáveis pelo Pogrom de Kielce foram supostamente levados a julgamento. No primeiro julgamento nove pessoas foram condenadas à morte. Em setembro e outubro, outros julgamentos foram realizados, sendo os acusados civis, soldados e policiais. Entre os réus estavam o comandante do Escritório do Serviço de Segurança e o chefe de Polícia Política de Kielce, ambos absolvidos. Não é possível saber quantos julgamentos foram realizados, pois os arquivos mais importantes foram destruídos em 1989. Mas a verdade é que não houve justiça para as vítimas, pois os julgamentos foram realizados no estilo stalinista, sem transparência e muitas vezes com intuitos puramente políticos. Entre outros, a maioria dos supostos acusados havia sido presa de forma aleatória,

sendo que alguns dos detidos sequer estavam no local do pogrom. São poucos os estudos que tentam explicar as causas e identificar os responsáveis pelo Pogrom de Kielce. A pergunta é: até que ponto a tragédia de Kielce foi usada e os eventos manipulados com fins políticos? Há historiadores que acreditam que o ataque foi consequência de uma trágica e espontânea série de eventos embasados no ódio polonês pelos judeus. Porém, outros sustentam a tese de que o ataque aos judeus foi um ato de provocação política, preparado pelos serviços de segurança poloneses e soviéticos. As ações do diretor do Escritório da Província para Segurança Pública, major Sobczynski, sem sombra de dúvida, incentivaram o pogrom. Sobczynski estivera na cidade de Rzeszow durante uma tentativa de pogrom, em junho de 1945, observando os acontecimentos e nada fizera, apesar de saber como civis e soldados agiam durante tais ataques.

Independentemente de ter sido espontâneo ou orquestrado, o pogrom foi utilizado pelos soviéticos para fins políticos. Ele aconteceu justamente quando foram divulgados os resultados do referendo nacional, realizado pelos comunistas, em junho de 1946 (não há dúvida de que os comunistas fraudaram os seus resultados). As autoridades comunistas estavam cientes de que a sociedade polonesa era dominada por fortes sentimentos antissemitas e que bastava uma faísca para acirrar seu ânimo contra os judeus e, assim, fazê-los esquecer de outros assuntos. E, de fato, a violência do pogrom conseguiu desviar a opinião pública na Polônia e, mesmo, no Ocidente sobre o referendo. Em 1992, na tentativa de apontar os responsáveis pelo Pogrom, uma nova investigação foi coordenada pela Comissão Principal para Investigação de Crimes contra a Nação Polonesa. Esta comissão foi encarregada de coletar todos os relatórios e documentos existentes.

Funeral das vítimas do Pogrom de Kielce

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história

Sobreviventes do pogrom de kielce aguardam sua transferência para fora da Polônia

Muitos haviam sido perdidos e a única conclusão da Comissão foi reafirmar que as autoridades locais não adotaram as medidas necessárias para evitar a violência.

fomentar essa “obsessão pela inocência”, foi inaugurado recentemente um museu dedicado à família Ulma, massacrada pelos nazistas por esconder judeus.

condenações do antissemitismo, senão a mais forte, já feita por um líder polonês. Outros, no entanto, consideraram o discurso nada mais do que um ato de relações públicas.

Enfrentando o passado

Para o rabino-chefe polonês, Rav Michael Schudrich, o discurso do presidente da Polônia, na ocasião, foi corajoso e uma das mais fortes

O historiador Jan Grabowski relembrou que o presidente já dissera em outras ocasiões que os poloneses não precisam se desculpar pelo que houve em Jedwabne, afirmando que centenas de poloneses ajudaram os judeus durante a Guerra. Detalhes sobre o Pogrom de Jedwabne estão na obra de Jan Tomasz Gross, Vizinhos: aniquilação da comunidade judaica de Jedwabne. Conhecido como “O Pogrom Esquecido”, aconteceu no dia 10 de julho de 1941, no vilarejo do mesmo nome. Poucas semanas após a invasão no norte do país pelas tropas alemãs, os judeus foram massacrados por seus vizinhos poloneses e não pelos nazistas, como se acreditava até alguns anos atrás. No final desse dia sangrento, o saldo era de 1.600 mortes – quase toda a população do povoado, com exceção de sete pessoas que conseguiram escapar. Durante o pogrom, os poloneses torturaram

Como vimos acima, a Polônia tem procurado fazer uma nova leitura da atuação do país durante a 2ª Guerra Mundial, bem como de sua participação no Holocausto. O debate fortemente emocional em relação ao papel do país de 1939 a 1946, dizem estudiosos, está relacionado ao que chamam de “obsessão polonesa pela inocência” – uma convicção de que a nação é moralmente isenta graças à sua resistência e ao amplo sofrimento com seus milhões de mortos na Guerra. Dariusz Stola, diretor do POLIN – Museu de História dos Judeus Poloneses, em Varsóvia, disse acreditar que muitos poloneses se agarram a tal convicção de inocência por ser tudo o que possuem. Entre outros atos por parte da estratégia governamental de

Placa em memória das vítimas do Pogrom

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e mataram seus vizinhos judeus. Alguns foram afogados no rio, outros foram mortos a golpes de bastão ou punhal; os bebês arrancados dos braços de suas mães foram pisoteados até a morte. Tanta violência, no entanto, não foi suficiente para saciar a fúria assassina dos moradores do vilarejo, que, no final do dia, trancaram os sobreviventes em uma granja, a poucos quilômetros do cemitério judaico, incendiando o local. Enquanto parte dos habitantes vigiavam o portão para que ninguém escapasse, os músicos do vilarejo tocavam marchas alegres para abafar os gritos das vítimas dentro da granja. Apesar dos esforços do governo de declarar a Polônia moralmente isenta, dificilmente esse país poderá negar o seu passado. Entre as providências tomadas pelo governo, está uma lei que autoriza a prisão de qualquer pessoa que se refira a Auschwitz ou a outro campo de morte alemão, na Polônia ocupada, como “polonês”. Esta lei é uma reação ao fato de todo o mundo fazer referência aos “campos de morte poloneses”, termo usado uma vez até pelo presidente norte-americano, Barack Obama. Os poloneses consideram este termo extremamente ofensivo e ressaltam que entre as vítimas dos campos havia muitos poloneses não judeus e que os poloneses, ao contrário dos ucranianos e lituanos, não tinham nenhuma participação em sua administração. A situação na Polônia é muito semelhante ao que tem acontecido recentemente na Hungria, onde o revisionismo histórico tem caminhado lado-a-lado com a política do primeiro-ministro Viktor Orban, que tem como objetivo reabilitar a atuação do país durante a 2ª Guerra e mostrar a nação como

Edíficio onde ocorreu o Pogrom de Kielce

uma vítima da agressão alemã, quando, de fato, foi um aliado de Hitler durante a maior parte do conflito. A iniciativa do governo polonês é vista por muitos estudiosos e intelectuais do país como uma abordagem revisionista dos eventos ocorridos no país de 1939 a 1946. Foi, sem dúvida, um período doloroso para seu povo, marcado por muito sofrimento, luta e heroísmo. Houve inúmeros casos de poloneses que ajudaram judeus, mas esses fatos não apagam a violência e traição por parte da população cristã durante e após a ocupação alemã. Jan Grabowski, autor do livro “Caçada aos judeus: Traição e Assassinato na Polônia Alemã Ocupada”, afirma acreditar de que um grande número de poloneses ajudou os judeus durante a Shoá é um retrocesso da verdade histórica, é mais um passo “agressivo e abusivo em direção à destruição da memória do Holocausto”. Para Pawel Spiewak, diretor do Instituto Histórico Judaico em Varsóvia, o objetivo do 63

governo é “limitar nossa visão do passado. Eles querem usar a máquina do Estado para impingir sua nova visão da história política, e isto é muito perigoso”. Sem dúvida, isso é algo que não podemos deixar acontecer, pois a memória da verdade sobre a Shoá, dos milhões de judeus que foram assassinados, brutalmente torturados, que tiveram suas vidas destruídas, precisa ser preservada para as futuras gerações de nosso povo e de toda a Humanidade. Para que não se repita... Nunca mais!

Kielce, artigo da www. HolocaustResearchProject.org

Gross, Jan, Fear: Anti-Semitism in Poland After Auschwitz, Kindle, 2007 Engel, David, Patterns Of Anti-Jewish Violence In Poland, 1944-1946, www. yadvashem.org

Rabi Bookstein, Yonah, The Legacy of the Kielce Pogrom, artigo publicado 28 de junho de 2011,The Jewish Journal History of Jewish Kielce, http://kieltzer. org/history.html

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DESTAQUE

Um premiê judeu na Ucrânia jaime spitzcovsky

Volodimir Borysovich Groysman já garantiu um lugar na história da Ucrânia: é o primeiro judeu a ocupar o cargo de primeiro-ministro em um país que obteve sua independência em 1991, com a desintegração da URSS.

A

os 38 anos de idade, Groysman tornou-se também o mais jovem premiê, chegando ao poder em um momento turbulento, marcado por conflito separatista, relações deterioradas com a Rússia e crise econômica. Localizada entre a Rússia e a Polônia, a Ucrânia registra uma antiga presença judaica, com os primeiros registros datando de 1030, nas porções ocidentais do país. Nessas regiões, ao longo dos séculos, houve forte influência polonesa ou austro-húngara, enquanto, nas áreas orientais, predominou o poder russo. Com o fim dos impérios na Europa oriental, na primeira metade do século 20, e após a Revolução Bolchevique de 1917, a Ucrânia teve um período curto de independência, sendo em seguida incorporada à União Soviética, criada em 1922.

O império comunista, criado por Vladimir Lênin, desintegrouse em 1991, o que resultou na independência ucraniana. De acordo com o Congresso Judaico Mundial, há cerca de 360 mil judeus na Ucrânia, o que corresponde a uma das maiores comunidades da Europa e a quinta do mundo, atrás de EUA, Rússia, França e Reino Unido. A história judaica no país, porém, enfrentou momentos trágicos de perseguição, e a sombra do antissemitismo ainda ronda o país. A chegada de Groysman ao governo federal, portanto, carrega um importante simbolismo. Segundo o rabino Shaul Horowitz, que trabalha junto à comunidade ucraniana, o novo primeiro-ministro é o primeiro político de relevância nacional no país a dar visibilidade a seu judaísmo e a suas práticas religiosas. A transparência sobre o 64

tema não é habitual em um país onde antissemitismo e décadas de repressão comunista tornaram indesejável a políticos assumir totalmente sua condição judaica, afirmou Horowitz, em reportagem publicada no “The Times of Israel”. O texto destacou ainda a diferença nas visitas de políticos à sinagoga de Vinnytsia, cidade de 370 mil habitantes, nas cerimônias de Rosh Hashaná. Enquanto a maioria deles aparecia para saudar a comunidade, o prefeito Groysman se juntava às preces. Nascido em 1978, ele é neto de sobreviventes do Holocausto. Seu avô, Isaac, sobreviveu ao fingir-se de morto durante um massacre perpetrado pelos nazistas. Em entrevistas à mídia local, Groysman costuma relembrar o sofrimento de seus antepassados. Também enfatiza laços com Israel,


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onde, acompanhado de seu pai Boris, costuma visitar familiares na cidade portuária de Ashdod. Alguns anos atrás, o jovem prefeito de Vinnytsia recepcionou o então ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, para a inauguração, em sua cidade, de um centro avançado de medicina diagnóstica, construído por Israel. Groysman governou sua cidade natal entre 2006 e 2014. Conquistou a fama de um administrador competente e honesto, em um sistema político contaminado pelos vícios e corrupção vindos também do período soviético. Dois anos atrás, assumiu o Ministério de Desenvolvimento Regional e foi eleito presidente do Parlamento. Seu antecessor, Arseniy Yatseniuk, perdeu apoio do presidente Petro Poroshenko e acabou afastado, numa votação entre os deputados, que elegeram Groysman para encabeçar o novo gabinete. Encarregado de comandar o dia-a-dia do governo, Groysman atua em um cenário de dificuldade econômica e combate à corrupção. Há um pano de fundo complexo para sua administração: a guerra com separatistas na Ucrânia oriental, que, apoiados por Moscou, rejeitam

os rumos implementados pelo presidente Poroshenko. A crise começou em 2013, quando irromperam na capital Kiev protestos contra o então presidente Viktor Yanukovich, considerado aliado de Moscou. A queda de Yanukovich, no ano seguinte, levou ao poder as forças políticas ucranianas defensoras de um afastamento do país em relação ao Kremlin e aproximação à União Europeia. Na porção oriental da Ucrânia, onde vivem comunidades russófonas e que desejam manter laços privilegiados com Moscou, começou um movimento armado, mergulhando a região em violência e instabilidade. A Rússia reagiu também à mudança estratégica da Ucrânia, de priorizar laços com a União Europeia e Estados Unidos, e anexou a península da Crimeia, que Moscou havia cedido a Kiev em 1954. A crise entre Rússia e Ucrânia também envolveu as comunidades judaicas locais em um debate sobre antissemitismo. O Kremlin costuma associar os atuais nacionalistas ucranianos a colaboracionistas que atuaram com os nazistas ou que perpetraram pogroms no começo do século 20.

Vladimir Groisman, Petro Poroshenko E Arseniy Yatsenyuk

Josef Zissels, líder da comunidade judaica ucraniana, declarou que a chegada de um judeu ao posto de premiê seria a prova contra a acusação do governo russo. Em janeiro, ainda na presidência do Parlamento, Groysman, no Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, realizou uma cerimônia especial, com um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do nazismo. Foi um evento inédito no Parlamento ucraniano. Mas o rabino-chefe de Moscou, Pinchas Goldschmidt, em entrevista à agência de notícias JTA, alertou para o crescimento de homenagens, na Ucrânia, a líderes nacionalistas envolvidos em ações antissemitas. O rabino mencionou uma cerimônia realizada no dia 25 de maio, para evocar a memória de Symon Petliura, chefe de milícias responsáveis por ataques sangrentos a comunidades judaicas entre 1917 e 1921. Em maio, um funcionário da prefeitura de Kiev afirmou que ruas da capital receberiam os nomes de Stepan Bandera e Roman Shukhevych, nacionalistas ucranianos que colaboraram com nazistas e foram responsáveis por massacres de comunidades judaicas. “Judeus russos e judeus ucranianos compartilham a preocupação com essa celebração de conhecidos antissemitas e colaboracionistas”, declarou o rabino Goldschmidt. E, num recado indireto ao novo primeiro-ministro, o rabino acrescentou: “Contamos com os judeus ucranianos para cessar as homenagens revisionistas do Holocausto”. jaime spitzcovsky foi editor internacional e correspondente da folha de s. paulo em moscou e em pequim.

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comunidades

OS JUDEUS NA COLÔMBIA DURANTE A 2ª GUERRA MUNDIAL POR reuven faingold

Acompanhando uma linha antissemita adotada pela maioria dos países latino-americanos, a Colômbia consolidou uma política migratória restritiva para os judeus. Aqueles que ali estavam antes de eclodir a 2ª Guerra e aqueles que conseguiram escapar milagrosamente das garras do Nazismo, criaram instituições que ainda hoje existem no país.

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presença judaica na Colômbia nos remete aos dias da independência da nação, entre 1810-1819, tempos difíceis de crise institucional na Espanha. Por volta de 1819 o governo já reconhecia o direito dos judeus a se estabelecer no país. A maioria dos imigrantes eram de origem sefaradita e viviam nas ilhas do Caribe, principalmente em Curaçao. O ladino era a língua dos exilados judeus da Espanha, adotada em toda a costa do Atlântico. Em 1832, a cidade de Barranquilla possuía um cemitério judaico e testemunhava a forte pujança comercial da cidade. Lá vivia, em 1854, a família Cortissoz Jessurum Pinto, contribuindo para o crescimento dessa vila colonial, enquanto o judeu sefaradita David Pereira se elegia governador. Durante o século 19 até a 1ª Guerra, a comunidade foi crescendo gradualmente, recebendo imigrantes da Europa oriental. Entre 1928-1930 ingressaram aproximadamente 1.000 judeus na Colômbia. A imigração asquenazita desconhecia o espanhol, portava traços físicos diferentes da população autóctone e chegou numa situação de penúria. Mas isto seria por pouco tempo, pois sua vocação para o comércio varejista 66

e atacadista os tornaria pessoas destacadas na sociedade e, de certa forma, contribuiria para criar certa inveja entre os locais. A legislação migratória da Colômbia era fortemente restritiva. Talvez por isso, o número de imigrantes vindos do exterior era inferior ao de outros países latino-americanos, como Argentina, Uruguai e Venezuela. No período entre as duas guerras mundiais, o mito da “invasão dos estrangeiros” ecoou forte na Colômbia, aumentando quando se tratava de judeus. A Colômbia da década de 1930 presenciava o surgimento do fascismo e do nazismo, duas ideologias que minavam o sistema político democrático. Tanto nas fileiras do Partido Conservador como no Partido Liberal, nasciam novas vertentes políticas extremistas que afrontavam as velhas forças políticas colombianas. O surgimento do UNIR, de Jorge Eliezer Gaitán, e a facção política dos denominados Leopardos simpatizavam abertamente com as ideologias totalitaristas. Portanto, o clima social encontrado pelos judeus então chegados à Colômbia não foi dos mais favoráveis. O surgimento do Nacional-socialismo na Alemanha em 1933, a aplicação de leis racistas em Nüremberg, a anexação da Áustria, a entrega dos Sudetos a Hitler (na


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Capitólio Nacional da Colômbia, Bogotá

então Tchecoslováquia) e a rápida conquista da Polônia em 1939 intensificaram a saída dos judeus da Europa conquistada. A maioria dos judeus procurava países como Argentina, Brasil ou Estados Unidos para recomeçar a vida longe das perseguições. A Colômbia estava também na mira desses refugiados. A chegada dos primeiros judeus da Polônia e Rússia gerou o uso pejorativo do termo “polaco” para denominá-los. Na mesma época, na República Argentina, o termo russo era sinônimo de judeu.

A 2ª GUERRA MUNDIAL Durante os anos 1933-1939, a Colômbia já tinha uma comunidade judaica ativa com sua própria imprensa. A Nuestra Tribuna foi um jornal fundado em 1935, em Bogotá. Seu primeiro diretor, Jorge Michonik, e seu sucessor, Jaime

Fainboim, contavam com a ajuda do famoso cientista e pedagogo, Dr. Miguel Adler. As matérias, redigidas em iídiche e castelhano, estavam direcionadas quase exclusivamente à comunidade asquenazita, leitora voraz de periódicos. Os judeus não queriam concentrar-se em “guetos”, bairros predominantemente judaicos. Os imigrantes buscavam uma melhor inserção na nova realidade social colombiana, esquecendo os sofrimentos recentemente vivenciados. Nuestra Tribuna converter-se-ia num veículo de denúncias das atitudes antijudaicas, quer oficiais quer populares. A revista seguia uma linha laica, não emitia opiniões religiosas e dependia política e economicamente da Federação Israelita criada sobre os alicerces do Sionismo. 67

POLÍTICA MIGRATÓRIA Em dezembro de 1935, o chanceler colombiano Gonzalez Piedrahita emitiu novas declarações sobre a política migratória restritiva do país, sustentada pelo decreto No. 1194, no qual se listavam nacionalidades que teriam sua entrada permitida mediante o pagamento de taxas alfandegárias. Esta medida visava dissuadir os imigrantes judeus de buscar refúgio no território nacional. A avalanche migratória geraria uma rivalidade desnecessária com a população local. A Câmara de Comércio do país também aderiu à campanha antijudaica contra aqueles tidos como indesejáveis, e que na sua visão eram os “poloneses, russos, tchecos, chineses, sírios e libaneses”. A comunidade judaica tentava denunciar a hipocrisia do Partido Liberal, acusando-o de possuir moral junho 2016


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dupla em relação aos judeus e frente aos regimes totalitários. Segundo artigo publicado em Nuestra Tribuna (29/01/1936): “Aqueles políticos colombianos que pregam uma linha liberal são os que mais falam como Hitler”. Na época, o jornal El Tiempo, um órgão do Partido Liberal e propriedade de Enrique Santos, (irmão do presidente do país), travava uma dura campanha contra os judeus refugiados. Na véspera da 2ª Guerra, era notória a influência do Ministro de Relações Exteriores, Luis López de Mesa. Fascinado pela “questão racial”, ele difundia teorias racistas que passaram a ser consideradas não apenas curiosas, mas também eruditas. Em suas obras, o ministro critica o trabalhador latinoamericano tido como preguiçoso e inconstante, e rasga elogios ao imigrante alemão. Suas ideias, inseridas em diversos trabalhos, foram consideradas pelos intelectuais como verdades absolutas. A mistura entre o elemento autóctone e o judaico preocupava bastante a López Mesa, a ponto

de “temer pelo cruzamento racial indo-semita, pois nele há indícios de qualidades inferiores tais como mimetismo moral, astúcia, bajulação, servilismo aparente e crueldade íntima”. Ao falar dos refugiados judeus da 2a Guerra, López Mesa é bem contundente: “Eles não passam de comerciantes de duvidosa moralidade e sem fortuna..., com os traços típicos que caracterizam certas raças,... vivem para burlar a lei”. Mesmo já encerrada a Guerra na Europa, o Ministro continua referindo-se aos judeus “que gostam do poder e de riquezas, com truculência e muita esperteza”. Porém, nem todos os liberais colombianos pensavam como Mesa. No Ministério da Educação a opinião era favorável à imigração judaica, “permitindo-se que mestres judeus ingressem nas Universidades e colégios para ministrar aulas, especialmente nas disciplinas em que não havia mestres idôneos”. O Ministro da Educação da Colômbia, Germán Arciniegas, tentou trazer para o país o escritor Stefan Zweig. O Ministério de Relações Exteriores colombiano

o impediu. Após o advento do nazismo ao poder na Alemanha e na Áustria, Zweig emigrou para Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde se suicidou em 1942. Outro político colombiano favorável à vinda de judeus ao país foi Armando Solano, que, num artigo no jornal El Tiempo, manifestava seu apoio a eles, incentivando a contratação de seus mestres e professores. Solano não só os achava “pessoas excepcionalmente dotadas intelectual e artisticamente”, mas também os considerava “uma raça incompreendida e caluniada através da história”.

ANTISSEMITISMO E ANTIJUDAISMO A hispanidade católica e o antissemitismo sempre atuaram concatenados no âmbito político colombiano. A presença judaica dentro do partido conservador era vista como uma afronta à velha tradição colombiana do poder executivo. Havia políticos que denunciavam os judeus como figuras indesejáveis numa sociedade fortemente cristã e tradicionalista. A revista Patria Nueva de Cartagena justifica qualquer atitude antijudaica, e registra que “O antissemitismo que se consolidou nos costumes e tradições colombianos não é de caráter ofensivo ou beligerante; trata-se de um antissemitismo defensivo”. Seus colunistas acham “que os colombianos devem defender-se perante a invasão de elementos indesejáveis”. Estas tendências antissemitas existentes na Colômbia, inspiradas no fascismo italiano, no nacionalsocialismo alemão e na falange espanhola, acusavam os judeus de

JOSÉ EIDELMAN e FAMíLIA

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serem “geradores e semeadores de doutrinas esquerdistas e revolucionárias”, verdadeiro perigo para o futuro do país. Os judeus se defendiam destas infames acusações dizendo “que é uma grande tolice confundir o Judaísmo com o movimento comunista”. A ideia de vincular os judeus ao comunismo atraía tanto as massas conservadoras quanto as liberais. O judeu era visto como elemento “perigoso” para a sociedade. Para a imprensa nacionalista, os comunistas incendiavam plantações e fábricas, invadiam os lares dos colombianos e pervertiam a juventude. Era necessário adotar uma linha política rigorosa contra “aqueles que introduziam costumes degenerados e insanos”, fazendo referência camuflada aos judeus. Esses comunistas eram vistos como agentes dos “soviets”, na Colômbia. O pedido do governo e da oposição naquele momento era para “expulsálos do país em 24 horas”. No entanto, temos que admitir que o antissemitismo colombiano não atuou com violência, se comparado aos demais países como Argentina, em que membros da Liga Patriota (Mazorca) assaltaram o bairro Once, apedrejando as vitrines das lojas, batendo em 70 judeus, causando em janeiro de 1919 o primeiro “pogrom” da América Latina, a chamada “Semana Trágica”. Em 30 de janeiro de 1939, o chanceler Lopez de Mesa emitiu uma circular direcionada às embaixadas e consulados colombianos solicitando “colocar todos os obstáculos possíveis aos novos vistos em passaportes de judeus”. O chanceler entendia que “o número de 5.000 judeus estipulado pelo governo da Colômbia era uma cifra alta, impossível de ser atingida”.

Cemitério judaico hispano-português em barranquilla

Como o desespero dos refugiados judeus era maior que os entraves burocráticos, as representações diplomáticas na Europa receberam um verdadeiro “aluvião” de petições para vistos para migrar à Colômbia ou vistos de trânsito para outros países. O general Solano, (cônsul colombiano em Marselha) foi descoberto pelas autoridades e acusado de lucrar com a venda de vistos a judeus. As embaixadas latinoamericanas eram procuradas por judeus alemães, austríacos, poloneses, italianos e franceses. A Embaixada da Colômbia, em Berlim, dirigida por Ernesto Caro, começou a informar a Bogotá sobre a enorme quantidade de pedidos de vistos encaminhados por judeus que desejavam sair da Alemanha nazista. Mesmo com uma política migratória restritiva, apenas em janeiro de 1939 os funcionários colombianos da Embaixada expediram 45 passaportes com vistos a judeus alemães. Esses vistos não agradaram ao governo alemão, que obrigou o dono do prédio, o judeu Rosenthal, a rescindir o contrato de aluguel com os colombianos. Logo, o edifício seria confiscado por ser propriedade de um judeu, passando 69

imediatamente a ser propriedade da Frente Alemã do Trabalho. Rosenthal precisou fugir de imediato para a Grã-Bretanha, reclamando desde lá ao governo colombiano a quitação das dívidas pelos alugueis pendentes. Naturalmente, o governo colombiano negou-se a pagar as pendências existentes e mudou a embaixada para outro endereço. Na nova sede, as petições de vistos não cessavam. Tamanho o volume de vistos solicitados que, em 1941, o responsável dos negócios em Berlim, Santiago Lopes, escrevia ao chanceler Lopez de Mesa, para que nos vistos de judeus fosse registrado que “o portador do visto não poderá aceitar nenhum emprego ou iniciar negócios na Colômbia, sem autorização das autoridades competentes do país”. A Colômbia não ajudaria os judeus, que foram posteriormente levados a campos de extermínio. A pressão por parte da Alemanha de Hitler sobre a Colômbia era tão grande, que em 31 de maio de 1939, a pedido das autoridades nazistas, o cônsul colombiano em Frankfurt, o judeu Ernest Lagebach, foi substituído pelo colombiano Jaime Jaramillo Arango. junho 2016


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deixavam de chegar à Colômbia. O mecanismo dos refugiados era procurar familiares ou conterrâneos. Vale lembrar que pedidos de contato dos familiares ao governo, alegando união familiar, facilitavam a emissão de vistos; mas a compra deles também fazia parte das numerosas estratégias adotadas pelos judeus durante a 2ª Guerra.

Golda Meir cumprimentando Hyman Abadi

ITÁLIA - O CASO RASTREPO Também a Itália de Mussolini pressionou as representações diplomáticas colombianas. Numa carta em 3 de março de 1939, o Sr. Rastrepo (responsável pelos negócios da Colômbia em Gênova) pedia autorização a seu governo para substituir o vice-cônsul em Trieste, Humberto Donati. Segundo o funcionário, o motivo do pedido era o fato de “o Sr. Donati ser de raça judaica”. Em 1939, Rastrepo intercedeu a favor dos judeus italianos, para que pudessem receber os vistos que os salvariam. Ele escreve ao chanceler da Colômbia, para que conceda salvo-conduto a um exilado judeu de Viena que queria retirar seus pais da Áustria em virtude da política antissemita do Terceiro Reich após a Anexação. Obviamente, o objetivo da família Schwarz era recomeçar a vida em alguma cidade da Colômbia. Rastrepo não titubeou em encaminhar o caso Schwarz às autoridades governamentais

competentes, ciente das disposições de não conceder vistos a judeus. Ele escreve: “Mesmo sabendo das restrições adotadas pelo governo colombiano em relação aos refugiados de guerra, me permito repassar o caso Schwarz ao Ministério, sendo este pedido um caso muito especial”. Esta postura mais favorável aos judeus aparece em outras correspondências do alto funcionário colombiano, principalmente nas cartas a favor dos Guastalla, uma família de judeus italianos que encontrou refúgio no Brasil. Não sabemos exatamente quantos vistos expediu Rastrepo, mas não resta dúvida de que este funcionário da Colômbia na Itália, sempre que possível, advogou em favor dos judeus.

VIDA COMUNITÁRIA NA COLÔMBIA Não obstante a profunda rejeição aos judeus implantada pelo governo colombiano, os judeus não 70

Por volta de 1940 havia 6.000 judeus na Colômbia. Esta cifra parecia exagerada e, portanto, foi decretada uma nova legislação desestimulando a chegada de imigrantes. O artigo No. 7 desta legislação ordenava que “os estrangeiros que tenham declarado exercer determinada profissão ou ofício, radicando-se em determinado lugar, não poderão dedicar-se a outra profissão ou mudar de endereço, a não ser depois de terem obtido permissão do Ministério de Relações Exteriores e prévia autorização da Polícia Nacional. Sem essa permissão, ou caso o estrangeiro mude de domicílio ou profissão, será determinado um prazo para que abandone o país, e se ele não o fizer será expulso”. O decreto dificultava o estabelecimento definitivo dos judeus na Colômbia, pois na verdade a maioria deles era composta por comerciantes. Assim, declaravam outros ofícios como mecânicos agrícolas, especialistas em tratamento de águas, experts em técnicas de irrigação ou qualquer profissão útil ao país, mas jamais comércio. Este decreto oficial foi driblado pelos judeus, o que indica claramente que cotas ou restrições migratórias jamais representaram


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um obstáculo intransponível para o seu estabelecimento no país. A enorme vontade de refazer a vida da tragédia vivenciada na Europa falava mais alto que as próprias barreiras encontradas. Recentemente chegados e radicados na Colômbia, os judeus fugidos do nazismo eram recebidos por organizações e instituições beneficentes, tais como o “Centro Israelita de Beneficência”, fundado em junho de 1937, cujo primeiro presidente foi Jacobo Sasson, ou pelo “Comité Pró-Inmigrantes dependiente de la Diócesis de Bogotá”, fundado pelo padre alemão Struve, católico e fervoroso antifascista. Em 1939, este padre, odiado pelos nazistas alemães residentes na Colômbia, dava assistência a 10 judeus. No início, a vida dos judeus nas cidades da Colômbia era dura e o idioma espanhol um obstáculo. Em 1937, o jornal El Fascista os tratava com desprezo e pejorativamente também os denominava de “polacos”. Alguns eram contratados para trabalhar como motoristas de táxi ou particulares, defendendo essa categoria através de greves durante a gestão do prefeito Jorge Gaitán. Outros perderam suas licenças e ganharam a antipatia da população local. O jornal El Fascista, em 13 de fevereiro de 1937, fala de “tres omnibus de la colonia polaco-judia” que, covardemente, furaram a greve, fazendo com que o sindicato dos taxistas e motoristas autônomos solicitasse a não inclusão de judeus nas empresas da categoria. Era uma das primeiras campanhas antissemitas no país.

A denúncia geral dos comerciantes, dos políticos e da imprensa era que a restrição das cotas migratórias não funcionava no caso dos “polacos”, pois eles, brilhantemente, conseguiam burlar as ditas leis, criando um clima de animosidade e xenofobia no restante da população.

RABINO Alfredo Goldschmidt DA Sinagoga de bogotá

Os judeus precisavam subsistir e, portanto, aceitavam qualquer ocupação. Este fato gerava uma situação bastante incômoda, a ponto de ter que concorrer em quase todas as áreas com os colombianos. Era comum os jornais colombianos divulgarem brigas de rua, entre o “desonesto comerciante judeu e o honesto comerciante local”. No final dos anos 1930 e início da década de 1940, a imagem do mascate ou clienteltchik polonês, o vendedor a prazo (parcelas fixas), começou a fazer parte da paisagem das ruas de Bogotá e demais cidades colombianas. A atividade dos comerciantes judeus e seus agentes nos bairros mais pobres era vista pelos habitantes locais como algo a ser combatido e denunciado às autoridades. A polêmica surge quando o cidadão comum não consegue entender “como é possível que um mascate que (ontem) comia apenas uma vez ao dia, hoje tenha loja própria e viva como rico”. 71

O jornal El Espectador participou também desta campanha antissemita, denunciando “5 mil judeus que exercem uma atividade diferente daquela declarada ao entrar no país”. Os colunistas admitiam que, em pouco tempo, os judeus souberam exercer um comércio ambulante e ainda estabelecer lojas, aproveitandose da Colômbia para “manter um comércio obsoleto e paquidérmico”. Os judeus também se dedicaram a setores ainda inexistentes no comércio local, como a alfaiataria. O grêmio dos alfaiates colombianos local combateu fortemente os judeus, pois estes não trabalhavam com preços competitivos, ofereciam pagamento a prazo fixo e ainda se gabavam de sua esperteza face a seus concorrentes diretos. O jornal judaico La Tribuna saiu em defesa dos membros da comunidade, explicando que “a fermentação industrial e comercial, a redução de preços dos produtos manufaturados no processo de concorrência, outorgando vantagens à população, são elementos que detonam todo sistema feudal”. Resumindo, o comércio colombiano estava decadente e os judeus se aproveitaram de uma situação previamente vigente. junho 2016


comunidades

Gradualmente, os judeus colombianos foram migrando do comércio para a pequena indústria, abafando a acusação de que eles, estavam afundando o comércio local. O setor de peles (peleteria) era algo desconhecido, no qual foram pioneiros. Eles também introduziram a indústria de calçados nas cidades da Colômbia. Desta forma nascia uma classe média emergente preocupada em que a população carente pudesse calçar sapatos, pela primeira vez. A maioria dos artigos publicados na imprensa deixa clara a sensação de ineficácia do establishment diante do sucesso dos imigrantes judeus. Para os jornalistas da época “o semitismo centro-europeu provoca enorme progresso nas áreas do comércio e da indústria, desbancando o elemento colombiano e causando grande prejuízo ao país”. Esta afirmação preparou o terreno para difundir na Colômbia os Protocolos dos Sábios de Sion, um panfleto antissemita anônimo que circulava livremente nas sociedades latinoamericanas desde 1920. A acusação milenar de judeus gananciosos, usurários e exploradores iria alimentar a literatura colombiana. Na verdade, trabalho duro e saber quando poupar dinheiro explicam o rápido avanço dos judeus na modernidade.

PROSPERIDADE E SOLIDARIEDADE Diferentemente de outras cidades latino-americanas, em Bogotá não havia um bairro judaico. À medida que progrediam economicamente, os judeus colombianos procuram bairros de nível mais elevado. Este processo é normal e aconteceu também em Buenos Aires (migrando

dos bairros Once e Villa Crespo para Belgrano) e em São Paulo (do Bom Retiro rumo a Higienópolis e Jardins). Este processo migratório judaico era urbano e, geralmente, ia acompanhado de um acentuado clima antissemita. Na Colômbia a chamada “questão judaica” nunca teve fortes repercussões nem atos de violência contra a integridade física dos judeus, como aconteceu na República Argentina. O antissemitismo aparecia no confronto entre os temperamentos das pessoas: “o colombiano é bondoso enquanto o polaco (judeu) é repleto de maldade”. Mas, nem sempre a Colômbia confrontou a bondade com a maldade. Alguns escritores amenizaram estas opiniões saindo em defesa dos comerciantes e artesãos, tentando defender uma “raça digna de respeito”. Havia jornais, como El Faro, de Ibagué, que não hesitavam em fazer propaganda dos comércios judaicos. Os judeus popularizaram o mercado têxtil, tornando acessível o comércio de roupas, que até aquele momento era exclusivo de uma minoria. A comunidade judaica foi prosperando gradualmente; fundouse o primeiro colégio, uma padaria e um açougue casher. Os membros da comunidade acompanhavam com preocupação os acontecimentos na Europa conquistada por Hitler. Um exemplo era o do Sr. Lambert Ullman (judeu dono da “Marion”), que não autorizava a entrada de nazistas colombianos no seu armazém “ao saber que seus familiares haviam sido gasificados em Luxemburgo”. Como vemos, na comunidade havia consciência sobre o Holocausto. Duas associações judaicas trabalharam incessantemente para unir a comunidade, a Federación Israelita (patrocinadora da Nuestra Tribuna) 72

e a Unión Hebrea. A relação entre ambas instituições era complicada, até 16 de março de 1936, data em que se juntaram numa única entidade. Na Colômbia também achamos judeus fora do comércio. Através do judeu Bernardo Pellman, houve tentativas institucionais de criar colônias judaicas agrícolas nos 29.308 km² da região de Cauca,“contando com o apoio do governo, que aceitou oferecer toda ajuda financeira para sua concretização”. As autoridades locais de Bogotá desconheciam os avanços internos da comunidade. Em 1936, o prefeito Jorge E. Gaitán pedia uma doação à comunidade para a fundação de uma escola com financiamento dos judeus de nacionalidade inglesa, americana, alemã, polonesa, francesa, italiana, espanhola, mexicana e sírio-libanesa. A resposta da comunidade judaica a Gaitán não demorou: “Todos os judeus da Colômbia formam uma unidade nacional, étnica, cultural, sem distinção de procedência e sua representante é a Federación Judía de Colômbia”. Outro exemplo do desconhecimento generalizado vigente na Colômbia é o fato de incluir nas “listas negras” como fascistas ou nazistas, judeus oriundos da Itália ou da Alemanha. Se o polonês era sinônimo de “judeu”, o alemão era sinônimo de “nazista” e o italiano de “fascista”. A Colômbia vivia submersa na ignorância e pouco conhecia do que acontecia além de suas fronteiras.

PALAVRAS FINAIS No período entre 1918-1945 a Colômbia recebeu judeus


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1. FACHADA DA SINAGOGA DE BARRANQUIlLA 2 E 3. SINAGOGA DE MEDELlIN 4 E 5. SINAGOGA DE BELLO 6. SINAGOGA DE BOGOTÁ

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com desconfiança, e a opinião pública nada fez para apagar a intolerância e os preconceitos existentes, todos enraizados numa sociedade hispânica e católica. Convenientemente doutrinada, essa opinião pública colocou a população local contra o elemento judaico, gerando uma animosidade entre as diferentes partes da sociedade.Desta forma, não é incorreto afirmar que a Colômbia foi um dos países mais restritivos da América Latina. Foi também um dos países que votou contra a Partilha da Palestina, em 1947 e não reconheceu o Estado de Israel quando foi criado, em 1948. Foi somente na década de 1960 que Embaixadas foram abertas nos dois países, estabelecendo relações diplomáticas. Em 1988, foi assinado um amplo acordo comercial entre

Israel e Colômbia, levando ao fortalecimento dos laços. Com nove sinagogas espalhadas pelo território colombiano atualmente, a maioria dos judeus vive em Bogotá – cerca de 7 mil, e mais 6 mil na cidade de Barranquila. Há pequenas comunidades em Medellin e em cidades de veraneio como Cartagena, Santa Marta e na Ilha de San Andrés, além de outras em cidades menores como Bello. Segundo estatísticas da comunidade, o número de judeus sefaraditas e asquenazitas é praticamente o mesmo, possuindo cada segmento suas próprias entidades religiosas e culturais. A Confederação das Associações Judaicas da Colômbia, instalada em Bogotá, é a entidadeteto da comunidade, reunindo todas as instituições judaicas do país. 73

BIBLIOGRAFIA

Donadio, Alberto - Galvis, Silvia, Colombia Nazi 1939-1945. Editorial Planeta, Bogotá 1986, 358 págs. Hernandez Garcia, J.A., Emigración judia em Colombia em los años 1930 y 1940. Um caso particular: los polacos. Pensamiento y Cultura Vol. 10 (noviembre de 2007). Hernandez Garcia, J.A., Judíos en Colombia, entre el antissemitismo y el triunfo comercial. Bogotá. Osterwald, Ariane, Los judíos colombianos: La historia de um pueblo escondido. University Honors in Spanish Studies. Department of World Languages and Cultures. College of Arts and Sciences. Spring 2003. [Texto na Internet].

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Prof. Reuven Faingold é historiador e educador, PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É também sócio fundador da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil e, desde 1984, membro do Congresso Mundial de Ciências Judaicas de Jerusalém.

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MORASHA.COM

HOMENAGEM AOS ATLETAS ISRAELENSES ASSASSINADOS EM MUNIQUE

O

Comitê Olímpico Internacional (COI) vai prestar homenagem aos 11 atletas israelenses assassinados por terroristas palestinos nas Olimpíadas de Munique, em 1972, apesar de ter-se recusado, em nota oficial, a que se fizesse um minuto de silêncio, em sua homenagem, na cerimônia de abertura dos Jogos, frustrando uma antiga solicitação das famílias enlutadas.

até 2015, afirmou que “Antes tarde do que nunca... ainda que com 44 anos de atraso”. Nos Jogos de Londres de 2012, no 40º aniversário do ataque de Munique, o COI rejeitou todos pedidos para se homenagear os atletas israelenses. Essa atitude foi muito criticada, principalmente tendo em vista que vários outros eventos celebrando a data foram realizados em outras partes. Os Jogos do Rio serão a 16a participação de Israel nas Olimpíadas e, para tanto, o país trará sua maior delegação de todos os tempos, com cerca de 50 atletas para os Jogos Olímpicos e mais 50 para os Jogos Paralímpicos, disputados a seguir. Os Jogos Olímpicos vão ser realizados entre os dias 5 e 21 de agosto e as Paraolimpíadas entre 7 e 18 de setembro.

A homenagem será realizada no dia 14 de agosto, na Prefeitura do Rio, conduzida em conjunto pelo COI e pelos Comitês Olímpicos do Brasil e de Israel. O Governo de Israel será representado por sua Ministra da Cultura e Esportes, Miriam “Miri” Regev. Na ocasião serão acesas 11 velas pelas viúvas de Yossef Romano, z”l, levantador de pesos, e de André Spitzer, z”l, treinador de esgrima, ambos vítimas do terror palestino em Munique..

Um detalhe muito especial para a comunidade judaica do Brasil e para Israel é o fato de serem judeus, membros detacados na kehilá, os três principais executivos encarregados das Olimpíadas do Rio! Ao lado de Carlos Arthur Nuzman, Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, desde 1995, e um dos nomes mais destacados nos esportes no Brasil, estão Sidney Levy, Diretor Geral, e Leonardo Gryner, Diretor Geral de Operações do Comitê Rio 2016. 

O COI também dedicará uma área especial na Vila Olímpica do Rio para homenagear todos os atletas olímpicos mortos. Da mesma forma, haverá um momento de reflexão em honra dos mesmos na cerimônia de encerramento. A ex-Ministra da Cultura e Esportes de Israel, Limor Livnat, que ocupou o cargo

Um dos pontos mais importantes da organização, nestes tempos conturbados que vivemos, é a segurança dos 12 mil atletas e dos 500 mil visitantes que são esperados. A empresa que venceu a concorrência foi a ISDS – International Security and Defense Systems, de Israel. Esta empresa tem larga experiência em outras olimpíadas e torneios internacionais. Seu trabalho cobre desde consultoria até sistemas de abastecimento de segurança. Talvez, quem sabe, os atletas, dirigentes e visitantes sejam saudados com um sonoro “Baruch Habá”... 74


REVISTA MORASHÁ

Tomei gosto pela Morashá pelas mãos da querida Morá Fany, professora de ivrit na Unibes. A qualidade editorial e artística da revista é impressionante, não conheço nenhuma outra publicação periódica no Brasil que se equipare. Nota-se que o objetivo maior é agregar cultura com responsabilidade e alegrar os olhos com sua beleza. A edição de Pessach está simplesmente fantástica!!! Marco Aurélio de Camargo Pavão Guarulhos - SP

Interessantíssima a matéria sobre Karnit Flug que assumiu o cargo de Governadora do Banco de Israel, função equivalente à de presidente do Banco Central do Brasil, e muito atual já que no Brasil acaba de assumir o novo presidente do Banco Central, membro da comunidade e nascido em Haifa. Moises Filkenstejn Por email

Morashá continua publicando matérias de especial interesse, entre as quais, a reportagem sobre as mulheres nas unidades de combate. A matéria nos esclarece e, ao mesmo tempo, orgulha-nos sobre este importante aspecto do Tzahal. Claudio Goldsteyn Por email

A partir da capa lindíssima, a visão da edição da revista Morashá nº 91, de abril de 2016, prometia o que de fato se cumpriu à leitura de cada artigo. Os artigos históricos sempre um aprendizado e os religiosos, com ilustrações artísticas, são didáticos e nos remetem sempre à fácil compreensão de sua interpretação, a exemplo os artigos: “As Quatro Facções diante do Mar” e “Lag Baomer e o Rabi Shimon Bar Yochai”. Dvora Goldstern Por e-mail

A Morashá foi distribuída em Belo Horizonte no domingo 3 de abril, quando realizamos uma grande atividade judaica, o “Mega Tefilin”. Aproximadamente 120 correligionários de nossa comunidade se reuniram na sinagoga para cumprir a mitzvá da colocação do Tefilin com o maior número possível de pessoas. Foi um evento sui-generis em Belo Horizonte e talvez no Brasil. Abrilhantou mais ainda a atividade a valiosa contribuição de 120 exemplares da edição de abril distribuída aos presentes, que levaram consigo uma revista repleta de conteúdo judaico. Rabino Nissim Katri Sociedade dos Amigos do Beit Chabad de Belo Horizonte Belo Horizonte - MG

Gostaria de parabenizar a revista pelas belíssimas e riquíssimas matérias sobre o mundo judaico e a cultura milenar judaica, que tanto têm contribuído com o crescimento da humanidade. Quero ressaltar, ainda, a qualidade tanto do conteúdo quanto da arte na confecção dos números dessa publicação.

É um prazer receber esta revista, fruto de um trabalho sério, coletivo, que faz muito bem à comunidade judaica e a todos que querem conhecer sua história, seus costumes e suas crenças. Demostenes Rust Londrina - PR

Sempre vibrei por receber esse presente maravilhoso desde setembro de 2002. Eu as mantenho guardadas cada uma dentro do meu coração e também na minha estante. Que D’us continue a abençoar todos que se envolvem com a produção lindíssima, editoração sem igual, bem como todos os que a recebem. Maria Zélia Françoso Por email

Gostaria de parabenizar a excelente qualidade e os artigos da Morashá. David Telvio Knobel São Paulo - SP

Aprecio a leitura da Morashá por considerá-la muito instrutiva no que tange à história do povo judeu.

Gostaria de solicitar a assinatura da revista Morashá para meu pai, pois, devido à localização de sua residência ele não consegue frequentar a sinagoga, mas cumpre o Shabat e outras leis e gostaria de se manter informado sobre as festas.

Ruth Citrin Enk São Paulo, - SP

Emmanuela Sternberg Arraial do Cabo - RJ

Arlan Eloi Leite da Silva Parnamirim - RN

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Morasha - Edição 92  

Morasha - Edição 92  

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