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A volta da arte às salas de cinema brasilienses

+ PERFIL

O primeiro calígrafo da capital

U N°

a c i F go i m o c

12 Ano 2 | Abril 2012 | www.meiaum.com.br

+ CULTURA


NEGOCIE SERIAMENTE COM OS(AS) PROFESSORES(AS), GOVERNADOR!

R$

de educadores como Darcy Ribeiro, Aníbal Teixeira, Paulo Freire, que acreditavam que, por meio de uma escola pública e universidade onde estudassem tanto o filho do porteiro quanto o filho do deputado, seria construída, a partir da capital do país, a ideia tão sonhada de igualdade de oportunidades para todos (as) os (as) brasileiros (as). Brasília já teria concretizado esse sonho, não fosse a ditadura, que fechou as portas da UnB e calou experiências educacionais transformadoras. A cidade, que acaba de receber uma missão da ONU para avaliar se merece ainda ostentar o título de patrimônio cultural da humanidade, foi extremamente maltratada nos últimos anos. Ela não merece mais ser tratada como um bolo que se reparte entre amigos, como ocorreu em governos anteriores! De nossa parte temos certeza de que, mesmo em greve, estamos ensinando como nunca: ensinando aos nossos alunos, alunas, filhas e filhos a lutarem pelo que é certo e justo! Nem mais nem menos. Foto: Valéria Carvalho

189 milhões. Esse é o valor que o GDF reservou do orçamento deste ano para gasto em publicidade. Segundo o Ministério Público, a Secretaria da Criança, uma das várias pastas criadas pelo atual governo para abrigar aliados e com orçamento de R$ 130 milhões, gastará R$ 102 milhões para manter sua estrutura administrativa. Apenas R$ 1 de cada R$ 5 será gasto na implantação e execução de políticas de assistência a crianças e adolescentes. E é esse mesmo governo que ocupa horário nobre de rádio, TV e paga nota nos principais jornais para alertar sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Para esclarecer à sociedade: a proposta rejeitada pela categoria não correspondia ao compromisso assumido pelo governo em abril, pelo contrário, se aceita, ela causaria a divisão na carreira Magistério Público do DF. Se o governador Agnelo quiser, tiver vontade política e não desculpas técnicas, pode sim atender à demanda da categoria sem necessidade de uso de recursos do Orçamento do GDF. Existem hoje cerca de R$ 285 milhões da Educação, do Fundo Constitucional do DF, que é usado para custeio e que poderia garantir a reestruturação do nosso Plano de Carreira, uma demanda legítima da categoria e um compromisso assumido por ele durante a campanha eleitoral. É preciso esclarecer: o Fundo Constitucional do DF, que custeia a Educação, Saúde e Segurança, é composto de recursos federais, que não entram no cálculo do limite da LRF. Como sabemos que tudo depende de vontade política, lançamos um apelo: ainda há tempo de inverter as prioridades, governador! Não faltam recursos para a Educação, falta dar a ela a centralidade que ela realmente merece! Os atuais gestores precisam ter consciência de que a utopia de Brasília não era apenas de um homem: foi um sonho concretizado por todo um povo. Para aqui vieram não apenas candangos, engenheiros e arquitetos! Para cá vieram ideias,

Professoras e professores se manifestam em frente ao Palácio do Buriti.


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Papos da Cidade

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Análise – Hélio Doyle

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Fora do Plano

Há um consenso em Brasília: o governo do DF está mal

Até agora, a criação da Secretaria de Condomínios só teve reflexo na Polícia Civil

Cultura

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Poesia – TT Catalão

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Conto – Rodrigo Fernandes

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Reflexões, análises e resmungos de quem vive em Brasília

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ÍNDICE

38

A volta da arte aos cinemas de Brasília

36

Brasífra-me

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Perfil

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Caixa-Preta

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Ensaio

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Arte, Cultura e Lazer

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Banquetes e Botecos

Cidade feliz, cidade infeliz

O que Jonas poderia esperar naquela noite?

Charges do Gougon O que Lula, Agnelo e Dilma têm feito por aí

Capa

Por que o rádio ainda é um cupido eficaz

Os poemas-enigmas de Nicolas Behr

José Macêdo, o primeiro calígrafo da capital

A ex-guerrilheira peitou até a santíssima trindade no Senado

A Brasília de Clarice Lispector, em fotos

Os destaques da programação da cidade

Em cada edição, Marcela Benet visita um restaurante. E ninguém sabe quem ela é


DeBRITO


Nilson Carvalho

Nilson Carvalho

Francisco Bronze pág. 8

Designer formado pela UnB e típico brasiliense que brincou muito embaixo do bloco e estudou em escola classe. Acredita na felicidade da sua cidade e sabe que sua profissão é de extrema importância para que isso seja possível. Trabalha principalmente com design gráfico e faz experimentalismos na cozinha para seus amigos, que considera cobaias. Leonardo Arruda

Lúcio Flávio págs. 10, 16 e 53

Nilson Carvalho

Como um daqueles personagens de Woody Allen, desenvolvendo estilo de vida que não necessite de sua existência. Até que leva jeito para a coisa. Outro dia mesmo fez uma prova de filosofia sobre crise existencial e não respondeu a nenhuma questão... Tirou nota máxima!

E mais... Rafania Almeida págs. 9 e 28

Ela não acredita no amor – só pelo Johnny Depp. Xinga muito no Twitter (e em qualquer outro lugar) e diz, só diz, que um dia ainda mata um de tanta raiva que sente do mundo. Mas no fundo, bem no fundo, é um doce de menina. Será? Veja como ela entrou no clima de romance ao escrever sobre quem procura um relacionamento nos classificados das rádios de Brasília.

Colaboradores

Rodrigo Fernandes pág. 24

Carioca do subúrbio radicado na capital, sempre achou o título de escritor pesado demais, uma honraria que não lhe cabia. Por isso se aproximou do teatro, onde trabalhou com pequenos e grandes nomes. Foi ser crítico de música e cinema de pequenos e grandes veículos. Ao acabar de escrever seu segundo livro, descobriu enfim que nunca fez nada na vida senão escrever. Ser um escritor já não pesa tanto.

Paulo Mesquita pág. 8 André Cunha pág. 9 Nathale Martins pág. 10 Jaqueline A. Carvalho pág. 11 Noelle Oliveira pág. 15 Gougon págs. 15, 27 e 43 TT Catalão pág. 22 Werley Kröhling pág. 24 Kacio Pacheco pág. 28 Nicolas Behr pág. 36 Caroline Vilhena pág. 38 Luiz Cláudio Cunha pág. 43 Anna Abreu pág 44 Janaína Miranda pág. 44 Rose May Carneiro pág. 44 Priscila Praxedes págs. 46 e 52 Marcela Benet pág. 54 Rômulo Geraldino pág. 54


Carta dos editores

Antes que o mundo acabe

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uando surgiu a televisão, anunciaram a morte do rádio. Dizem que a indústria do cinema está perdendo a batalha para a pirataria. A caligrafia, apostam que em não tanto tempo assim, será arte morta. E veículos em papel, como este, em poucas décadas serão apenas artigo de museu. Enquanto o mundo não acaba, aproveitamos para falar de rádio, cinema e caligrafia. Cada um com seu papel na comunicação, na transmissão de informação e conhecimento, na relação entre as pessoas, no lazer. O rádio, com instantaneidade e alcance insuperáveis, é também companhia. E não perdeu a função de cupido. À noite ou na hora do almoço, músicas românticas, as típicas traduções com voz sedutora, os recadinhos apaixonados, os pedidos de conselho para salvar um relacionamento... e, claro,

a descrição de perfis de quem procura sua alma gêmea. Rafania Almeida foi atrás dessas histórias e as conta na nossa reportagem de capa. Casos de quem encontrou a pessoa certa, situações embaraçosas dos bastidores e episódios que não acabaram nada bem. As belíssimas ilustrações são de Kacio Pacheco. Lúcio Flávio preferiu ir ao cinema. Em sua reportagem, ele celebra a volta dos filmes cult às salas da cidade, com o reforço de duas redes que incluem obras não comerciais na programação. E mostra que Brasília tem aquele público ávido por estreias de filmes com nomes diferentes, das mais diversas origens. Gente que não perde uma projeção numa confortável sala de cinema – e aquele entusiasmado debate na saída – e que não aceita que a expressão sétima arte perca o sentido. A arte também é o que entusiasma José Macêdo, embora ele mesmo diga que seu ofício já

está meio fora de moda. “Era chique ter isqueiro, caneta, canivete, tudo gravado”, contou o primeiro calígrafo de Brasília à repórter Caroline Vilhena. Pois hoje em dia, chique ou não, raro é encontrar alguém que faça um trabalho como o dele. Prestes a completar 80 anos, trabalha na Rua da Igrejinha desde a inauguração da capital. É pioneiro e remanescente. Com perfeição, grava joias, pratarias, troféus. A letra dele está em placas entregues a chefes de Estado. Em visita ao Memorial JK, Macêdo identificou um monte delas com sua caligrafia. E falou da admiração, comum à maioria dos pioneiros, pelo homem que há 52 anos fundou esta capital, com a qual também querem acabar.

Anna Halley e Hélio Doyle

( ) MEIA

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(meiaum) é uma publicação mensal da Editora MEIAUM Diretor Editorial: Hélio Doyle Diretora de Redação: Anna Halley Editores de fotografia: Leonardo Arruda e Nilson Carvalho Projeto gráfico e diagramação: Carlos Drumond Assistente de Produção: Cristine Santos Publicidade Sucesso Mídia Comunicações – (61) 3328-8046 – barroncas@sucessototal.com.br TIRAGEM 12 mil exemplares Impressão FCâmara Gráfica & Editora – CSG 9 Lote 3 Galpão 3, Taguatinga Sul Os textos assinados não expressam, necessariamente, a opinião da Editora Meiaum. | Contato: editora@meiaum.com.br

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Diretores: Anna Halley e Hélio Doyle SHIN CA 1 Lote A Sala 349 Deck Norte Shopping – Lago Norte | Brasília-DF | (61) 3468-1466 www.editorameiaum.com.br

CAPA | Por Pedro Ernesto

Desenho em aquarela Designer gráfico, atua no mercado brasiliense, é autor de livro infantil e colabora na meiaum desde seu primeiro número. Faz parte do escritório Grande Circular. Veja os trabalhos da equipe em www.grandecircular.com.


Papos da cidade } ilustrações Francisco Bronze bronze@grandecircular.com

O problema de apostar no “menos pior” Porque a verdade é mesmo esta. Em 2010, fomos às urnas sem certeza alguma. Aliás, com uma certeza apenas: era preciso fazer uma limpa na corja que vinha dominando o governo local há uns 12 anos. Mas limpa com quê? Qual o produto utilizado pra remover essa sujeira, essas manchas, esse encardimento que tomavam conta da administração pública do Distrito Federal? As opções que tínhamos, sejamos sinceros, eram escassas, de pouca

ou nenhuma experiência e muita, muita mesmo, desconfiança. Alianças esdrúxulas, parcerias escusas, candidatos fantoches. O que poderíamos fazer naquela situação? Confesso eu, e aqui é meu mea-culpa, que a única hipótese que me veio à cabeça foi o voto no “menos pior”. E assim votei no primeiro turno. No segundo, dois candidatos (e aliados) que não contavam com minha simpatia. E faz o que, te pergunto? Não vota? Anula? Branqueia? Eram opções, mas confesso que amarelei. Com medo do mal maior, fui na opção do mal menor, que se tornou vencedor e hoje é grande mal. Não que eu ache que a outra opção seria boa, faria algo diferente. Não mesmo. Até penso que meu voto em segundo turno foi na base do “tudo, menos isso”. Mas, olha, que “tudo” medonho. Até a velha ladainha do “rouba, mas faz” vem se avizinhado na minha cabeça ao lembrar os antigos governantes desta cinquentenária cidade. Aquele sentimento de que outros poderiam estar ali, roubando, errando e se atrapalhando, ou qualquer outro tipo de acusação que se faça ao atual comandante desta Brasília, mas que me parece que ainda assim – olhem que absurdo – seria melhor. Que tipos de truque a nossa mente nos prega, não? Espero apenas que o que se viu até agora do grande GDF seja apenas mais um deles e que daqui a pouco tudo se ajeite, tudo se normalize, e que passemos a viver numa cidade mais próxima do que desejamos. E que em 2014 os que estão aí percebam que não dão conta e abram espaço para novidades que apareçam para realmente mudar e traçar novos caminhos. Estou cansado do “menos pior”. Paulo Mesquita


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Os porcos chineses e as cidades diagonais “Avança a fronteira agrícola. Derrubamos a Amazônia para plantar soja. A soja é vendida aos europeus e aos chineses como ração para seus rebanhos bovino e suíno. Exatamente neste momento, os porcos da China estão comendo a Amazônia.” Os porcos da China estão comendo a Amazônia. Desde que ouvi isso, fiquei estupefato. Que belo destino para o planeta! Partamos de um pressuposto banal: somos corresponsáveis. Se você queima petróleo, se compra comida no supermercado, então é coautor de um homicídio doloso, mas não precisa esquentar, porque advogados brilhantes estão cuidando muito bem dos seus direitos e suas garantias constitucionais. Tenho uma sugestão, pelo menos para o problema do petróleo, do trânsito e do transporte público. É um plano grandiloquente, mas fadado ao sucesso: primeiro, a cidade deve ser destruída. Depois, outra construída em seu lugar, em um imenso declive de terra. Essa nova cidade seria uma grande ladeira, com as residências e os estabelecimentos comerciais em suas bordas. As pessoas desceriam usando a mais barata força motriz da natureza: a gravidade. De bicicleta, skate ou simplesmente rolando – ideal para boêmios –, desceriam toda a extensão da cidade, sem o menor esforço. Para voltar, um sofisticado sistema de bondinhos, na verdade bondões, transportaria cargas e pessoas, usando eletricidade ou outra fonte de energia mais em conta. Delírio, dirão uns. Impraticável, dirão outros. Pode ser. Mas, segundo os meus cálculos – baseados nos mais altos postulados da física quântica e do urbanismo –, vale a pena. Zilhões de ônibus e carros particulares queimam petróleo na lida diária, indo de um lado para outro, como formigas dopadas

em um grande formigueiro sem sentido. A quantidade de energia necessária para manter essa babilônia é imensa. Portanto, se tudo for destruído e reconstruído, o sucesso é garantido. Não inventei a roda, claro. Os romanos já sabiam disso e construíram os famosos aquedutos antigos, que transportavam água por milhares de quilômetros devido a uma inclinação mínima da estrutura. Se nos embasbacamos com a comédia grega e nos organizamos juridicamente segundo o direito romano, por que não aprender também com a sua engenharia? André Cunha

E a culpa é do governo, de novo Mais uma gestão que deixa a desejar quando o assunto são creches públicas. Em setembro de 2011, fui à Secretaria de Educação tentar uma vaga para minha filha, de 2 anos, na rede pública de ensino. Antes de tudo, era preciso fazer uma pré-inscrição. A atendente me entregou uma lista com sugestões de creches. Várias, parecia simples. Era só escolher uma opção próxima ao meu local de trabalho. A atendente garantiu que, ao final de novembro, eu seria comunicada por telefone sobre a vaga para 2012. Achei muito fácil. Comentei com amigas que têm filhos na mesma faixa etária e as aconselhei a buscar as opções do governo. Novembro se foi e, para minha decepção, ao ligar para saber informações sobre a vaga, o recado foi curto e grosso: “Mãe, lamento informar, mas a Secretaria de Educação não renovou contrato com as creches, o que torna inviável a matrícula do seu filho na escola. Ligue no início de janeiro para saber se houve a renovação”. Fiquei frustrada. Poxa vida! A ideia era matricular minha filha na creche, em período integral, sonho de toda

mãe que trabalha durante todo o dia. Mas vamos lá, não desanimei. Em janeiro, insisti novamente. Foram pelo menos três ligações, todos os dias, de segunda a sextafeira. Mais uma vez, nada. Desisti. Resolvi apertar o orçamento e deixar de depender do governo, que, aliás, leva boa parte do meu dinheiro. Matriculei minha pequena em uma escola particular, era inviável não ter com quem deixá-la para poder trabalhar. Material escolar comprado, uniforme em dia, eis que me ligam da rede pública. Demoraram, mas resolveram? Não. Eles tinham uma vaga, mas para uma creche muito distante das minhas condições de transporte. O jeito é pagar dobrado: impostos e mensalidade escolar. Dei meu jeito, mas fica aqui a minha indignação. Não era promessa de campanha criar 75 creches no Distrito Federal? Alguma foi construída no ano passado? Governador, você se esqueceu disso? Cansei das falsas ladainhas. Cristine Santos

Pra mim é bicicleteiro Já vi todo tipo de regionalismo ser dicionarizado. Do Acre ao Rio Grande do Sul, palavras que para mim não fazem o menor sentido, ou de que não faço ideia do significado, estão lá em um Houaiss ou um Aurélio da vida. Exemplo é o acolherar, verbo gaúcho que pode ser juntar-se, agrupar-se ou até mesmo virar amante de alguém. Até o bagulho já está no dicionário como “coisa”, maconha ou mulher feia. Reza a lenda que esses sentidos da palavra são de autoria carioca. Você encontra lá até o tal do borocotó baiano, o mesmo que esburacado. As palavras entram no dicionário pelo seu uso, certo? Como goiana, eu pergunto: Por que raios bicicleteiro não entrou ainda? Lá em Formosa, desde pequena eu escuto essa


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palavra. Ciclista é, para nós e em uma das acepções do Houaiss, o cara que é atleta, que faz isso por esporte, que pratica o ciclismo. O bicicleteiro é aquela pessoa que pedala por falta de outro meio de transporte, o moço da bicicleta de carga, ou daquelas com garupa, que dividem a rua com os carros etc. Lembro-me bem de quando eu era adolescente e queria dirigir, e meu pai (um mineiro que já tinha interiorizado o goianês de mamãe) disse: “Minha filha, antes você precisa saber que vai ter de dirigir para pedestre, cachorro, bicicleteiro e para outros carros. Você pode até ser boa motorista, mas vai ter de fazer a sua parte e a dos outros”. Em momento algum ele disse ciclista. A gramática até aceitaria essa sufixação, pois o -eiro é um formador de nomes que determina o agente, a atividade, como no caso de padeiro, jornaleiro. Enfim... fora a explicação gramatical, quero mesmo é saber qual o preconceito. E não me venha com essa de que é pejorativo. É classificador. Cada um em seu lugar. Não temos jornalista e jornaleiro? Banqueiro e bancário? Todo mundo sabe que motoqueiro e motociclistas são duas classes bem diferentes. Respeitemos nossos caros bicicleteiros e ciclistas, cada qual com seus devidos direitos. Rafania Almeida

Brasília na mídia, mas não tão bem na fita No princípio, Brasília foi um sonho quase utópico do mineirinho Juscelino Kubitschek. Uma utopia que ganhou asas e contornos humanistas por trás dos traços de Oscar Niemeyer e das vias do urbanista Lucio Costa. Por trás da arquitetura futurística de nossa capital, existia todo um conceito social que foi se perdendo com o tempo pela irresponsabilidade, pela negligência e pelo descaso dos governantes. Não é exagero dizer que algumas cidades-

satélites nasceram do loteamento ilegal incentivado por governantes que, aproveitando da miséria do povo, trocavam pedaços de terra por votos. Resultado, inchaço populacional nos arredores de Brasília e regiões que carecem de infraestrutura. Mas essa questão das satélites é um problema do passado que agoniza no presente. Incomoda ver a cidade que adotei como casa ser vilipendiada diariamente com notícias negativas na mídia e de uns tempos para cá é quase que uma rotina. Quando vi pela televisão aquela história dos deputados distritais se empenhando para votar o aumento de benefícios como o 14°, o 15° e outras benesses, fiquei sapateando de raiva em cima dos tamancos como uma bailarina espanhola. Sim, porque esses políticos de Brasília são no mínimo ridículos e patuscos. Daí, outro dia, num desses telejornais de tevê a cabo, vejo lá uma mulher grávida se contorcendo de dor num banco em frente ao Hospital de Base por falta de atendimento. Mas o pior estava por vir, com a notícia de moradores de rua, em Santa Maria, queimados por “vândalos” profissionais. O filme do índio Galdino passou em minha cabeça novamente. Como se vê, Brasília bomba o tempo todo na mídia, mas longe de estar bem na fita. Enquanto o governador consegue destaque de graça por conta dos preparativos da Copa, o caos urbano impera. Às vezes eu penso que as autoridades no Distrito Federal são acéfalas, que nem aquela turma do Big Brother. Quando vejo essas notícias tristes e vergonhosas sobre a minha cidade, eu é que queria ficar acéfalo. Lúcio Flávio

E nossa política de imigração? O Brasil vive um momento de destaque no cenário internacional. A estabilidade econômica em meio à crise mundial e à descoberta do pré-sal ajudaram a alavancar

a imagem do País. É uma ótima situação, claro. Nunca foi tão legal ser brasileiro e não ser reconhecido apenas pelo já não tão bom futebol, mas também por ser um “país do futuro”. Toda essa aura de positividade que envolve o Brasil é acompanhada por questões que agora precisarão ser discutidas. O recebimento de imigrantes é uma delas e até o momento a indecisão prevalece. Se a boa maré econômica se mantiver por mais anos, o Brasil precisará repensar sua política de imigração. Há cerca de 1,5 milhão de estrangeiros em situação regular no País. A maioria de origem boliviana, portuguesa, chinesa e paraguaia, de acordo com o site do Ministério da Justiça. A tendência é esse número aumentar, mas ainda não existe um serviço específico de imigração. A Polícia Federal é a responsável pela regularização dos imigrantes. Quem precisa do serviço acaba lidando com o despreparo de funcionários terceirizados e mal pagos que lá trabalham. Além das inadequações burocráticas do processo de imigração, o recente episódio da restrição da entrada de haitianos no Brasil mostra mais um entrave às imigrações. É possível que o País deixe de lado seu caráter acolhedor e se torne cada vez mais parecido com os países desenvolvidos no que se refere às políticas de imigração. O Brasil precisa pensar se vai seguir o modelo europeu e/ou estadunidense nesse quesito ou se vai criar uma forma de receber imigrantes em suas terras. Esse modelo será excludente ou promoverá a integração do imigrante na sociedade brasileira? É importante decidir com cuidado o que será feito. Senão, a reprodução de um modelo excludente pode ser automaticamente executada como a postura mais “natural” a ser tomada. Nathale Martins


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Protesto: Brasília versus DF Ao entrar naquele ônibus, pessoas encostadas na porta, sentadas no motor. Olhares denunciavam insatisfação, tristeza e revolta. Vozes por todo lado: “Chega pra trás!”, “Aperta um pouquinho!”, “Ônibus é igual a coração de mãe, sempre cabe mais um!” O motorista continuava parando em todos os pontos, até porque nesse percurso não há outro ônibus depois das 23 horas. Muita gente o atacou, mas ele só cumpria o seu dever de não deixar ninguém para trás. Explicou que o ônibus anterior, das 22h30, não havia passado. No outro dia, nos informou que 160 pessoas estavam no carro que pegamos na véspera. A capacidade é de mais ou menos 48 pessoas sentadas e 24 em pé. Nem dava para ver o rosto do cobrador, que

carregava material escolar, bolsas e sacolas de muita gente. Um instante me chamou a atenção de forma assustadora: O motorista desceu, pegou carteirinhas e dinheiro de quem estava nas paradas, passou pela janela ao cobrador para que ele rodasse a roleta e deixou as pessoas entrarem pela porta de trás. Pela frente era impossível! Minha irmã e eu arrumamos um cantinho. Às vezes eu roçava meu rosto nela para tirar o meu cabelo que balançava com o vento, entretanto não podíamos fechar a janela, senão morreríamos sufocados. E foi nesse cantinho em frente à janela que me peguei a pensar. Como é linda a nossa Brasília, tantos monumentos, prédios, luxuosos hotéis, biblioteca de 1º mundo, árvores que até parecem desenhadas, infraestrutura para estrangeiro nenhum

botar defeito. No outro extremo, as cidadessatélites com esgoto nas ruas, milhares de buracos nas estradas, carros de som acordando e fazendo ninar trabalhadores que saem cedo para trabalhar e chegam muitas vezes em horários tensos, sujeitos a assaltos, estupros, assassinatos, etc. E no meu pensamento, pergunto: Brasília faz parte do Distrito Federal? Sim, é um pedacinho privilegiado. As pessoas que ali moram saem do trabalho e em 15 minutos já estão sob o conforto de seus lares e a companhia de familiares. Porém, não há como negar... o DF não reflete o “penhor da igualdade”, não reflete a tão sonhada e projetada Brasília. E o nosso transporte público é só um exemplo de como vivemos um caos em pleno século 21. Jaqueline A. Carvalho


Análise

Em busca da salvação

O tempo é curto para Berge Governo tem 16,3% de aprovação e 65,3% de desaprovação, e 2014 está chegando Texto Hélio Doyle Foto leonardo arruda heliodoyle@meiaum.com.br fotografia@meiaum.com.br

Nas mãos de um petista histórico, que passou os últimos nove anos despachando no Palácio do Planalto, está sendo jogada a enorme responsabilidade de salvar o governo de Agnelo Queiroz. Salvar, literalmente, do desastre que se prenuncia. Swedenberger do Nascimento Barbosa, o Berge, assumiu a Casa Civil do Palácio do Buriti com a missão de, um ano e três meses depois da posse de Agnelo, dar início, de verdade, ao governo dele. E reverter uma situação que, sem exagero, é trágica – administrativa, política e eleitoralmente falando. Antes tarde do que nunca. Já quando foram sendo conhecidos os primeiros integrantes do futuro governo de Agnelo, ainda no período de transição, em 2010, a carência que Berge vai suprir

estava clara: faltava alguém para cuidar da gestão do governo e impor autoridade e um ritmo adequado à administração do Distrito Federal. Não havia ninguém com esse perfil no governo, pelo menos em funções estratégicas, e desde aquela época se falava em Berge para assumir a função. Há um consenso em Brasília, em qualquer segmento, em qualquer bairro ou faixa de renda, independentemente de gosto partidário: o governo do DF está mal. Até a maior parte dos petistas acha isso, e assim é natural que o partido, local e nacionalmente, tenha se preocupado com os reflexos que uma má gestão em Brasília possa ter nas eleições de 2014. As pesquisas sérias mostram esse quadro com enorme nitidez.

Berge não é exatamente um interventor mandado ao Buriti pelo PT ou pelo governo federal. A ajuda de cima foi pedida pelo próprio Agnelo, consciente do nó em que se enroscou ao preterir, no governo, a competência e a inteligência em favor da politicagem e das amizades pessoais. O grito de socorro foi recebido com satisfação. Primeiro Agnelo quis Carlos Eduardo Gabas, secretário-executivo do Ministério da Previdência, que até gostou da ideia, mas a presidente Dilma Rousseff não deixou que saísse da pasta comandada por ele e encabeçada pelo peemedebista Garibaldi Alves Filho. Já a Presidência poderia dispor de Berge, que impôs suas condições e foi atendido. A posse dele teve mais gente importante


13 assistindo do que a do próprio Agnelo. Lá estavam ministros, secretários-executivos, altos funcionários do governo federal. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, enviou uma nota. O apoio de Lula e de Dilma a Berge estava explícito na presença do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que até leu um texto do ex-presidente. Mas teria sido ainda maior se o enviado especial de Dilma, seu chefe de gabinete Giles Azevedo, não tivesse de se desviar à última hora de seu caminho para o Buriti. Agnelo deu poderes a Berge para fazer o que deve ser feito. O chefe da Casa Civil vai ter de se ocupar da gestão do gDF, melhorar o relacionamento com o governo federal e implementar projetos importantes para Brasília. O deputado petista Paulo Tadeu, que antes tentava acumular tudo isso com a articulação política do governo, perdeu parte de seus poderes para Berge e, ao contrário do que dizem ser seu estado de espírito, deveria estar feliz e aliviado. Não conseguia fazer nem uma coisa nem outra, e agora pode tentar ser pelo menos um bom articulador, e não ter de responder pelo desastre previsto. Até agora, os sinais de mudança são positivos. Abril começará com um grande movimento de homens e máquinas para limpar as ruas, podar o mato, recolher o lixo e tapar os buracos. Isso tem impacto na cidade, que anda malcuidada e longe de estar preparada para receber visitantes na Copa do Mundo. Do governo federal veio mais um reforço: Luiz Paulo Barreto, secretário-executivo do Ministério da Justiça, é agora o secretário de Planejamento do gDF. Agnelo preside a recém-criada Junta de Acompanhamento de Execução Orçamentária, que Berge coordena e é integrada ainda pelos secretários de Planejamento e da Fazenda. O novo secretário de Obras, David de Matos, é ligadíssimo ao vice-governador Tadeu Filippelli, que se sente desprestigiado. O novo presidente da Novacap, Hermes de Paula, trabalha há mais de 15 anos com o senador Cristovam Buarque. Por falar em Cristovam, pode estar come-

çando um movimento para reverter uma das maiores burrices políticas cometidas por Agnelo. O governador desprestigiou os dois senadores com voto do DF – Cristovam, que é do PDT, e Rodrigo Rollemberg, do PSB – e cuidou de fazer alianças com o senador mais inexpressivo, o suplente Gim Argello (PTB), e deputados distritais de reputação e passados duvidosos. Pensou no aqui e agora, nos votos na Câmara. Mas, em 2014, toda a base de deputados aliados, somada, não chega aos pés dos votos populares que têm Cristovam e Rollemberg. Mais mudanças são esperadas no governo, e é bom mesmo que sejam feitas, pois ainda há muita mediocridade e, por mais competente que possa ser, Berge é um só. A missão que assumiu é muito difícil e antes de chegar 2014 será preciso reverter o que a última pesquisa do instituto O&P mostra: apenas 16,3% dos brasilienses aprovam o governo de Agnelo e 65,3% o desaprovam. Para o fundo do poço, falta muito pouco. Até tu, PT? Os números são mesmo trágicos, mas refletem exatamente o que se ouve em cada canto do Distrito Federal. O governo é péssimo para 43,5%, ruim para 15,9%, regular para 29%, bom para 8,1% e ótimo para 1,1%. Os resultados são semelhantes em todas as regiões, faixas etárias, níveis de escolaridade e de renda. O governo é majoritariamente desaprovado em todos os segmentos. Nas cidades mais recentes e ex-assentamentos (Itapoã, Estrutural, Recanto das Emas, Samambaia, Riacho Fundo, Santa Maria, Varjão, Paranoá, São Sebastião) a desaprovação chega a 74,7%. A nota zero ao governo é dada por 33,8% (um terço dos eleitores) e a nota 10 por 1,1%. O desempenho do governo de Agnelo é negativo nas cinco principais áreas de atuação. A soma de péssimo e ruim versus a de ótimo e bom diz tudo: saúde (74,3% x 6,1%), segurança (62,5% x 10,9%), educação (65,1% x 6,9%), transporte (74,2%


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Do lado errado Há, pois, muito que fazer. Se continuar assim, Agnelo não se candidatará à reeleição, e o PT, mesmo arranjando outro, dificilmente continuará no Buriti. Há tempo para a recuperação, mas cada vez mais curto. E os erros

Os esquemas de Roriz e de Arruda podem se rearticular. Os aliados fisiológicos de hoje, e que já estiveram com Roriz e com Arruda, podem mudar de lado com a maior facilidade.

são muitos. O governo construiu uma base de apoio que inclui quase todos os deputados distritais, mas tem dificuldade de conversar com os movimentos sociais e, especialmente, com o movimento sindical. As bases dos partidos de esquerda, tradicionais aliados do PT, vêm se afastando do governo e isso pode se refletir em 2014. Os esquemas de Roriz e de Arruda podem se rearticular. Os aliados fisiológicos de hoje, e que já estiveram com Roriz e com Arruda, podem mudar de lado com a maior facilidade. A pesquisa do O&P mostra o equívoco que Agnelo comete ao se distanciar do pedetista Cristovam e do socialista Rollemberg, que com o deputado Reguffe, também do PDT, podem formar uma chapa muito forte para o governo. Cristovam é o melhor senador para 42,4% dos eleitores, e não tem influência no governo. Rollemberg é o melhor para 18,3% e seu partido ocupa duas secretarias de segundo nível, Turismo e Agricultura. Gim Argello é o melhor para apenas 6,3% dos eleitores, mas tem afilhados na Ciência e Tecnologia e na Fundação de Apoio à Pesquisa e grande influência na estatal mais importante, a Terracap. O melhor deputado federal é Reguffe (23,3%), seguido por Erika Kokay, que apesar de petista não é prestigiada pelo gDF. Os brasilienses sentem falta de realizações, coisas concretas, e de vontade de enfrentar os problemas da cidade, que têm se agravado. Grandes e pequenos problemas. Isso se reflete na credibilidade, e projetos futuros são vistos com desconfiança, como é o caso do que pretende revolucionar o transporte coletivo. A continuidade de planos e obras discutíveis sob diversos aspectos, que vêm do governo Arruda, como o centro administrativo em Taguatinga, a 901 Norte e o estádio para 70 mil pessoas ao custo de mais de 1 bilhão de reais, provocam reação negativa em formadores de opinião. Berge e os que forem para o governo a partir de agora têm muito a fazer, e tem de ser rápido. O tempo passa, o tempo voa, e o gDF ) não está nada numa boa. )

x 6%) e habitação (59,2% x 12,4%). A falta de credibilidade do governo do DF é mostrada na pesquisa quando se aborda o recente anúncio de que as linhas de ônibus serão renovadas com a realização de licitações públicas – o que, provavelmente, é a medida mais importante e de mais repercussão anunciada pelo governo de Agnelo até hoje. Os que tomaram conhecimento da decisão são 77% dos eleitores. Os que consideram a proposta ótima e boa somam 84,4%. Mas 31,9% não acreditam que a renovação será executada, 35,4% acham que dificilmente será realizada e só 28,3% dizem que irá em frente. Joaquim Roriz, o maior adversário do PT, é considerado o melhor governador que o DF já teve (47,5%), derrotando José Roberto Arruda (31,1%), Agnelo (13,3%), Rogério Rosso (4,7%) e Maria Abadia (2,9%). Rosso e Abadia, que completaram os mandatos de Arruda e de Roriz, passaram apenas alguns meses no governo. O pior governador é Agnelo (38,7%), seguido de Roriz (21,6%), Arruda (20,8%), Abadia (9,8%) e Rosso (8,2%). O ex-governador Cristovam Buarque não entrou na lista apresentada aos eleitores, pois terminou seu mandato em 1998. A oposição a Agnelo está forte, pode-se concluir. Não, não é isso. O partido que tem mais simpatizantes declarados no DF é o PT, com 19,8%, seguido do PMDB, do vice-governador Filippelli, com 11%. Mas os petistas consideram que Roriz (37,4%) e Arruda (32,7%) foram melhores governadores do que Agnelo (24,5%). Entre os peemedebistas, a avaliação de Agnelo é ainda pior: 3,4%, contra 24,1% de Arruda e 67,8% de Roriz. Para os simpatizantes de outros partidos de esquerda, Agnelo é o pior governador para 39,1%, ficando Roriz com 29,7% e Arruda com 20,3%.


Fora do Plano por NOELLE OLIVEIRA noelleoliveira@meiaum.com.br

Não decolou

A Casa Civil foi recriada e, de cara, ganhou espaço no Palácio do Buriti e dezenas de servidores transferidos da Secretaria de Governo. A prioridade é clara. A recriação faz parte da estratégia para melhorar a gestão e a imagem do governador Agnelo Queiroz. Enquanto isso, a Secretaria de Condomínios, criada em dezembro de 2011, não tem sinal de nomeações. Levou um ano para sair e já veio enfraquecida ou, como muitos da própria base do governo consideram, capenga. Já é comparada a um super Boeing, com 800 mil passageiros esperando para decolar, sem combustível ou tripulantes. Até agora, repercussão da secretaria só na Polícia Civil. Fontes afirmam que foi o titular da pasta, Wellington Luiz, quem derrubou recentemente o comando da Delegacia Especial do Meio Ambiente. O delegado Haílton Cunha, que prendeu vários nomes ligados ao parcelamento irregular de terras, foi afastado. Agora é delegado cartorário no Riacho Fundo. Ele investigava a atuação de grileiros no Lago Sul. Entre as áreas, estaria o parcelamento Mini Chácaras, onde Wellington tem lote. O secretário nega envolvimento na mudança e afirma que todas as suas propriedades foram devidamente declaradas. “Pudesse eu ter o tanto de poder que me dão. Todos os meus imóveis estão declarados, ninguém precisou investigar nada para saber da existência deles”, revidou.

Olha o foco, Benedito Não são as duas recentes denúncias recebidas pelo Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF contra o deputado distrital Benedito Domingos (PP) que devem preocupá-lo nos próximos dias. Isso porque o político enfrenta outro problema, em uma casa diferente. Ele deve ser julgado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) no dia 12 deste mês, devido a uma acusação, de 2010, que questiona a doação de recursos em sua última campanha eleitoral. O distrital teria informado tardiamente o nome das pessoas que trabalharam para elegê-lo e o vício pode render a cassação de seu mandato.

Enquanto isso, a Comissão de Ética da Câmara analisa as novas acusações aceitas pela Justiça em março e que tanto vêm repercutindo. Nesse caso, Benedito teria beneficiado empresas de seus parentes, em 2008, por meio de processos licitatórios de ornamentação natalina. Na época, o distrital comandava a Administração de Taguatinga. As denúncias já passaram pela Comissão de Ética uma vez, mas a Casa resolveu não opinar até a Justiça entrar no jogo. Chegou a hora. Segundo Benedito Domingos, será a “oportunidade de apresentar seus elementos de defesa” que levarão a sua “inevitável absolvição”.

A passos lentos Contra Benedito pesam as acusações de formação de quadrilha, corrupção passiva e fraude em licitação. O distrital conta, a seu favor, com uma grande aliada: a morosidade dos trâmites burocráticos. A aposta é que no Legislativo os passos serão lentos entre os companheiros da base aliada do governo. No TRE, ainda existe a possibilidade de o julgamento ser remarcado. Caso o mandato seja cassado, caberá recurso ordinário no Tribunal Superior Eleitoral. Se Benedito for absolvido, o Ministério Público é que poderá recorrer.


Cultura


Aqui, a arte tem seu lugar Texto Lúcio Flávio

Fotos Nilson Carvalho

luciointhesky.wordpress.com

fotografia@meiaum.com.br

Após a extinção das salas de cinema da Academia de Tênis, saudoso point dos filmes alternativos, a cidade ganha espaços que privilegiam as produções não comerciais. E não falta público para apreciá-las


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E

mbora isoladas, as salas de cinema da Academia de Tênis foram, durante muitos anos, o eldorado dos amantes da sétima arte em Brasília. Hoje pode até ser fácil esbarrarmos, nas luxuosas salas de cinema de shoppings, com o cartaz de alguma produção não hollywoodiana, mas houve um tempo em que era preciso desbravar cada centímetro dessas vias sem esquinas em busca de algo diferente nas telonas. Ou você era rato de cineclubes ou estava fadado a ser um americanizado em assuntos cinematográficos. Enfim, se quisesse ver algum filme iraniano em cartaz ou a mais nova sensação do cinema de Taiwan, o point era a Academia de Tênis. “A dificuldade da Academia era que sem carro ficava complicado acompanhar a programação de lá, mas era a única opção para quem queria fugir do convencional”, lembra, com saudades, o advogado Luiz Ribeiro, de 55 anos. No começo, eram apenas duas salas escondidinhas. Depois, um grande complexo com dez salas, que no auge chegou a abrigar o Festival Internacional de Cinema de Brasília. Mas um misterioso incêndio, em maio de 2010, destruiu todas as dependências do espaço, transformando em cinzas um dos poucos refúgios do cinema de qualidade da capital. Uma lacuna que seria preenchida, provisoriamente, pela Rede Embracine, no CasaPark, agora substituída pelo grupo Espaço Itaú de Cinema, que desde novembro passado reúne oito estilosas salas e uma programação para agradar tanto ao público “pipoca com coca-cola” quanto aos espectadores mais contemplativos. “Criamos uma programação que pudesse atender a todos os gostos”, explica o diretor de Programação de todas as salas do Espaço Itaú, Adhemar Oliveira. “Então não vamos fugir dos grandes lançamentos comerciais, mas também vamos privilegiar as produções nacionais e, claro, os filmes de arte.” Que o digam os amigos universitários Megaron de Carvalho e Arthur Leon, de 19 e 17 anos. Fãs do cinema nacional, eles confessam que se sentem um pouco deslocados na cidade por não conseguirem acompanhar os lançamentos brasileiros, já que o circuito comercial de Brasília privilegia os blockbusters internacionais. Para eles, o Espaço Itaú de Cinema é uma alternativa até pela ótima localização. “É bem centralizado e fica ao lado do metrô, uma

No Cine Cultura, a programação equilibra filmes de arte e produções comerciais. O cinema, com quatro salas, foi inaugurado em janeiro.


19 Megaron de Carvalho, de 19 anos, reclama da ausência de lançamentos nacionais nas salas de Brasília. Para ele, o Espaço Itaú de Cinema virou uma ótima alternativa.


20 mão na roda para quem mora nas satélites”, observa Arthur Leon. Ele acha que há muitas salas de cinema em Brasília, mas poucas dedicadas aos filmes brasileiros. “A programação daqui é interessante porque dá oportunidade de assistir não só a filmes brasileiros, mas de outras culturas que não seja a americana, pois para isso a gente tem a Globo”, ironiza o jovem estudante. Há poucos meses em atividade, o Espaço Itaú de Cinema, apesar dos preços salgados dos ingressos (de R$ 15 a R$ 27, sendo o valor mais alto para filmes em 3-D), já conquistou público cativo de espectadores atentos às novidades dos cinemas nacional, europeu e asiático. Produções como a deliciosa comédia francesa Minhas tardes com Marguerite, com o colosso Gérard Depardieu, e o drama O garoto da bicicleta, obra dos irmãos belgas Jean e Pierre Dardenne indicada ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, eram os queridinhos do renovado público do cinema do CasaPark. “Acho que nem consigo me lembrar de qual foi o último filme de língua francesa que vi numa sala de cinema em Brasília”, diz a funcionária pública Maria Thereza Alcântara, de 47 anos. Cine Cultura: ousadia e inovação Ainda engatinhando, o Cine Cultura Liberty Mall tem ambições de gente grande. Inaugurado em janeiro, já realizou pequenos feitos que têm mexido com a rotina dos cinéfilos de Brasília. São quatro salas com capacidade para 110 pessoas cada uma. “O Cine Cultura nasceu com o intuito de promover o encontro e o debate em torno de filmes, por isso pretendemos oferecer uma programação diferenciada”, diz a diretora Anna Karina de Carvalho, com vasta experiência no mercado de exibição de filmes em Brasília. Depois de passar sete anos na Suécia, boa parte deles como programadora e gerente geral do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, Karina trouxe para

o Brasil o know-how adquirido na área para as primeiras edições Festival Internacional de Cinema de Brasília, realizado na antiga Academia de Tênis. “Fundei um festival de cinema infantil e quando a Carla Camurati me visitou na Suécia resolvemos repetir a dose no Brasil: assim nasceu o Festival Internacional de Cinema Infantil, que hoje acontece em todo o Brasil”, conta, com orgulho. O evento existe desde 2003. “Acho que essa experiência me ajuda muito na hora de programar as salas do Cine Cultura.” Assim como as salas do Espaço Itaú de Cinema, o novo complexo do Liberty Mall tem programação tanto de filmes comerciais quanto de títulos de arte, com destaque para produções que fizeram sucesso em diversos festivais de cinema no mundo, como Veneza, Berlim, Cannes, Toronto, Sundance e Locarno. São filmes como os franceses Para poucos e Adeus, primeiro amor, além do premiado iraniano A separação, que neste ano foi vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, uma das fitas mais procuradas no espaço. “Gostei do novo visual das salas, simples, mas charmoso”, elogia a aposentada Antônia Maria dos Santos, de 63 anos. “Os cinemas de Brasília precisam voltar a ter abertura para filmes que não sejam de Hollywood, como antigamente”, cobra a aposentada, presença garantida no Cine Cultura a cada estreia. “Além de ser bem pertinho de casa, traz uma programação inteligente.” Para Anna Karina, Brasília tem enorme potencial para filmes alternativos. “Vivemos na capital, onde a renda é alta e as pessoas têm bom grau de instrução”, observa. “Exibimos filmes para o grande público, desde que atendam aos preceitos básicos de qualidade, como bom diretor, roteiro e atuação, e produções independentes, alternativas”, explica. As cartadas do Cine Cultura agora são o projeto educacional A Escola Vai ao Cinema, para crianças da rede pública, e o Brasília International Film Festival, evento que já tem data marcada, de 13 a 22 de julho. O ob-

jetivo é trazer filmes inéditos para a capital brasileira, suscitando o debate em torno de temas atuais. Não deixa de ser ousadia realizar uma grande mostra de cinema dentro de um circuito de rede. “Durante dez dias abriremos mão dos filmes do circuito para mostrar outros formatos para o público brasiliense”, diz, animada, a diretora do cinema. “Estive no Festival de Berlim neste ano, onde vi muita coisa boa, posso adiantar que teremos uma mostra competitiva de diretores estreantes com filmes do mundo todo”, antecipa. Todo ano o festival terá um convidado de honra. “Já estou fechando um grande nome para a primeira edição, mas ainda não posso adiantar.” CCBB: Feira Cultural Nenhum espaço cultural é tão acolhedor, instigante e interativo na cidade quanto o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ao longo de quase dez anos de existência, uma gama de mostras temáticas foi realizada na pequena sala de cinema, com pouco mais de 70 lugares. Mesmo quando a cidade estava carente, negligenciada e deficiente de filmes alternativos ou de vanguarda, o público curioso, participativo e exigente da capital brasileira tinha no CCBB uma espécie de porto seguro permanente ou feira cultural ativa. Ali, foram exibidas desde as animações descoladas do conceituado Anima Mundi, que em suas duas edições levou quase 10 mil pessoas às sessões, às pirotecnias conceituais do arrojado diretor franco-suíço Jean-Luc Godard, passando por respeitada revisão das obras mais emblemáticas do Cinema Novo, além de retrospectivas de obras de mestres como o alemão F.W. Murnau, o francês Alain Resnais e o brasileiro Ozualdo R. Candeias. O poder de fogo do cinema do CCBB foi colocado à prova, recentemente, com as badaladas mostras retrospectivas dos cineastas Clint Eastwood e Lars von Trier. Com entrada franca, os dois encontros foram prestigiados em clima de histeria pelo público, que lotou as sessões. E teve gente que voltou chateada


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)

Paula Sayão, gerente geral do CCBB Brasília, diz que o desafio é manter uma programação constante, equilibrando entretenimento e informação.

para casa, por não conseguir ingressos. A demanda tem sido tanta, nos últimos anos, que a direção do CCBB aprovou um projeto de construção de um novo cinema. Tudo é bastante embrionário, mas a notícia já tem deixado muitos frequentadores entusiasmados, como o estudante de direito Gustavo Antunes, de 24 anos. “Muitos filmes do Lars são inéditos no Brasil, principalmente os primeiros trabalhos, e o CCBB dá oportunidade de os fãs conhecerem essa fase do diretor”, argumenta. “Dei sorte de encontrar ingressos.” A estudante de publicidade Gabriela de Almeida, de 23 anos, é admiradora do estilo durão do eterno caubói norte-americano Eastwood. “Já assisti a vários filmes dele, mas sempre tem um que a gente não conhece”, comenta. Diz que mostras desse tipo também são oportunidade de rever os amigos e trocar ideias. Para a gerente geral do CCBB Brasília, Paula Sayão, um dos grandes desafios à frente do espaço está em desenvolver uma programação constante, ano a ano, em que os conceitos de entretenimento e informação estejam lado a lado. “Temos a responsabilidade e o compromisso de manter a regularidade com programação de qualidade”, diz Paula. É uma política que fez e faz o sucesso não apenas da agenda do cinema no CCBB, mas que se estende para outros segmentos da cultura, como o teatro, que reserva seu espaço a peças e a atrações musicais, além do museu, grande catalisador da interatividade promovida entre o CCBB e o público. Em abril do ano passado, por exemplo, o museu do CCBB Brasília ficou em 32° lugar entre os espaços do gênero mais visitados em todo o mundo, numa lista de cem lugares que incluía o ilustre Louvre, de Paris. O CCBB Rio ficou em 14° lugar e o Museu de Arte de São Paulo (Masp), na 74ª colocação. Exposições, como a do mestre barroco Aleijadinho, do mago holandês da ilustração gráfica M. C. Escher e a sobre o Islã, contri) buíram para o sucesso.


Poesia

brasília – (in)feliz aniversário TT Catalão para mais um 21 de abril Texto e foto TT Catalão ttcatalao@gmail.com


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feliz a cidade que é soma de muitas peles e diversos apelos; infeliz a cidade que repele quem tenta mudar seus polos do medo; feliz a cidade que se dá a quem se doa; infeliz a cidade que sacia quem a suga e exalta o que destoa; feliz a cidade que ultrapassa seus limites para soar como pessoa; infeliz a cidade que reduz a chance dos que a querem boa; feliz a cidade que ama sem drama; infeliz a cidade que se submete à mercadoria da fama; feliz a cidade capaz de reconhecer o valor do trabalho operário; infeliz a cidade que permite a glória injusta de qualquer salafrário; feliz a cidade que mede qualidade de vida pelo índice da sua riqueza dividida; infeliz a cidade que controla beleza paga, natureza cercada e a terra reprimida; feliz a cidade que flui limpa com suas águas fartas; infeliz a cidade que turva riachos, concreta nascentes e o cerrado racha; feliz a cidade da polícia cidadã; infeliz a cidade da política vilã; feliz a cidade dos heróis coletivos que tecem manhãs todo dia;

infeliz a cidade que só enxerga vitórias fabricadas na miopia da mídia; feliz a cidade que celebra antes – para tragédias evitar; infeliz a cidade que só se mobiliza depois – para tragédias chorar; feliz a cidade que sabe prevenir ciladas; infeliz a cidade que cai na armação bem aparelhada; feliz a cidade que sabe escapar da lábia; infeliz a cidade que dorme pátria e acorda pária; feliz a cidade que se mostra mistura mestiça de tantos; infeliz a cidade que se recusa a conviver com a diferença de não sei quantos; feliz a cidade sem preconceitos; infeliz a cidade sob despeito; feliz a cidade que nos faz mais feliz e dessa felicidade renasce a utopia matriz; infeliz a cidade que impede o fértil saber de raiz; feliz aniversário para quem pensa, faz, mostra, se compromete e diz; infeliz adversário o que mente, monta e mantém a verdade sob verniz; feliz quem insiste no princípio contra quem perdeu a diretriz; sobreviva a cidade na atitude de quem faz da vida valor motriz, mesmo sob risco, mesmo à parte, mesmo por um triz.


Conto

Um homem chamado

Jonas

O que esperaria o velho naquela noite escura?

Texto Rodrigo Fernandes Ilustração Werley Kröhling oficinadaspalavras@yahoo.com.br

Ouviu alguém e suspirou, pois era tudo que podia exprimir da sua resignação. Ia responder algo, mas conteve-se, pois haveria uma resposta de lá e essa conversa a distância se desdobraria infinita e ruidosa. Apanhou uma tocha e saiu arrastando as sandálias. Se ainda tivesse forças, se as sandálias não lhe pesassem tanto – se tudo não lhe pesasse tanto –, esse era outro fardo, que trataria de extirpar de sua rotina, essa maldita arrastação. Bastaria levantar um pé após o outro.

werleyk@gmail.com

Finalmente em silêncio o menino esperava-o. Quando se aproximou agachando-se, o velho não soube se era ele, o menino, ou a chama que se movia de lado para o outro, talvez ambos. Sua pele era de uma brancura fresca que fazia a noite negra evidenciar-se ainda mais. — Não tem medo do escuro, garoto? — Já tô acostumado. Em meio à escuridão o velho foi tomado por uma sen-

sação de ausência que quase o fez desmoronar. Não ausência de algo ou de alguém, mas de um sentido, por mais simples e elementar que fosse. Por que o menino o chamara? Por que atendera? Para onde ia, caminhando ao lado daquela criança que mal conhecia? Por um momento, à mercê dessas perguntas, o velho parou. — É minha irmã – esclareceu o menino. — Garoto. Fique perto da claridade.


25 — Mas não tem nada aqui. O menino estava certo, mas o velho precisava se livrar de qualquer responsabilidade e para que isso ficasse claro ele repetiu. — Garoto. Fique perto da claridade. A fumaça da tocha sufocava-o, mas não afugentava o mau cheiro daquele lugar. Era um prenúncio de desgraça. Lembrou-se da última vez que estivera no mar e dos peixes que sumiram antes que uma onda, a maior que já vira, arremessasse seu barco a terra como uma gaivota de papel. Foi sorte ter sobrevivido, mais que sorte. Perscrutou o céu à procura de algum ponto luminoso e a dor de não estar sobre o oceano, entre duas margens quaisquer, se fez presente outra vez. Agora o desconforto da terra firme lhe chegou pior, pois acompanhado pela lembrança de que a ausência de estrelas vinha da ausência do amor e da alma. Era o que dizia uma canção na qual acreditava. — Pode se apoiar em mim. O menino lhe oferecera o ombro e o ancião fitou-lhe fundo, como se houvesse nele algo a ser revelado. Ele mesmo já havia estado sob um olhar inescapável e, ao recordar isso, e de tudo que se seguira a partir dali, teve pena do garoto. Percebeu que não sabia para onde era levado e havia certo desgosto ao notar que nunca estivera ali. Ao norte, longe ainda, ouviam-se gritos. Cansado, o velho reanimou-se e passou a caminhar decidido, chutando as pedras, arrastando os pés cada vez mais.

***

O caminho se estreitara até ser interrompido por uma tapera iluminada aqui e ali por lampiões. Assim que entrara ouvira um ribombo anunciando que o inverno chegaria dali a pouco e, como sempre, nenhuma chuva cairia. Apenas raios e trovões. Uma mulher dera por sua presença, mas nada disse. Sentada à beira de um catre, secava com um trapo o rosto de uma

menina adormecida. O ancião havia perdido todo o olfato, mas um cheiro azedo penetrou-lhe as narinas queimadas pelo sal, fazendo-o tossir. — É esse garoto. Ele mija em qualquer lugar. Peste ruim. Ela disse ao se levantar. — Os espíritos. Eles não deixam minha filha. Mas o Senhor nunca abandona a gente, não é? O ancião não respondeu, limitou-se apenas a coçar a mão, não sabendo se esfregava a palma ou a ponta dos dedos, era apenas um gesto, sua insensibilidade era total. Deu-se conta de que a partir daquele ponto não haveria retorno, pois quando a multidão lá fora passou empunhando tochas, porretes e atiçando os cães, procurando alguém, isso não lhe dissera nada. Eles poderiam entrar e levá-lo e isso não faria a menor diferença. Não tinha mais nada a perder, por isso iria até o fim com a farsa. — Não sei se posso fazer algo. — Mas o senhor é profeta. O que poderia sugerir um elogio caiu como uma cobrança que lhe exauriu todas as forças que ainda possuísse. A menina tinha certa beleza. A brancura, que nos demais lhes roubava qualquer vitalidade, conferia-lhe alguma fidalguia, ainda que imensamente distante. O ancião adivinhou-lhe a cor dos olhos e com a ponta do polegar apertou-a na testa, deixando uma marca rubra que demorou a se desvanecer. Algo permaneceu no seu dedo que ele imediatamente levou à boca e temeu que a mãe houvesse percebido o gemido que lhe escapara. Ajeitando a menina sobre o estrado percebeu que ela não passava do tamanho dos seus braços abertos. Murmurou algo que a mãe não entendera, mas como o Sagrado não lhe competia, fez questão de afastar-se. O ancião gesticulou para que ficasse, pois não podia ficar sozinho com a criança. Ouvia o marulhar das pedras lisas dentro de si,


chocando-se, querendo subir à superfície, como muitos peixes dentro de um poço. O garoto havia sumido e naquele momento nem saberia dizer se ele de fato existira. Abriu-lhe os olhos, um após outro, e não havia nada ali, mas repentinamente o corpo da garota enrijeceu-se e ela começou a se balançar para frente e para trás, como um boneco de molas escangalhado. A mãe e depois o ancião tentaram contê-la, mas mesmo segura se pôs a tremer e sacudir os braços e as pernas desordenadamente. A mãe tentou enfiar o trapo em sua boca, mas acabou repelida pelo velho. — É o próprio senhor das moscas – ela disse. O ancião perguntou-se como foram todos parar naquele lugar, pois não possuía

essa lembrança. Ele mesmo parecia ter sempre estado ali, porém sabia que havia tido outra vida, em outro lugar, numa aldeia que talvez permanecesse a mesma, apenas esperando seu retorno. Junto a essa lacuna da memória surgiu outra questão e sim, essa sim, lhe parecera honesta: por que permaneciam ali? O garoto voltara e com o dedo no nariz observava o velho abraçando a irmã, apertando-a, e tudo aquilo parecia fazer parte do seu dia a dia. Então surgiu no velho uma fagulha de tristeza, pois viu o menino crescendo rápido e magro, e depois, já adulto, e em todos esses momentos ele era sério e triste. — Calma, mulher. Ele disse e prosseguiu resfolegante, sacudindo-a, murmurando palavras inventadas e, quando faltava muito pouco para que desistisse, a criança acalmou-se. Talvez, mais hoje que ontem e mais do que poderia assumir, precisava ser reconhecido como aquilo que nunca fora. Era o que lhe restara, o que resistira às maldições e à velhice. Fingiu fazer uma prece, envolveu a menina num lençol e sentiu um filete de sangue brotar-lhe atrás da orelha e descer pelo queixo. Mais um preço pela maldade e pela mentira, pensou. — Ela tem uma enfermidade. Resta-lhe pouco tempo, mas sua alma está salva. Após alguns instantes a mãe respondeu, e foi como se o enunciado anterior nunca houvesse sido dito. — O que quer, profeta? — Um pouco de sal. A tradição pedia que lhe ofertasse algo. A criança virara-se de lado. A mãe surgiu com um pequeno saco de pano. Ele sabia que ela mal não saíra dali, mas ao ouvir sua respiração lhe parecera que houvesse retornado de um longo passeio pela casa. Encarou-a pela primeira vez. Aquela feiura seria algo natural – como era a beleza da criança – ou mais uma maldição? As mulheres eram mais suscetíveis aos desígnios do destino. Toda alegria, todo sofrimento, todo gozo passariam por elas e ficariam.

O menino ou qualquer outro homem não passariam de espectadores. E havia a presença de um homem (alguém tão velho quanto ele), porém distante e esmaecida. Alguém que já estivera ali ou só andaria por aquela casa dali a muito tempo. Mas, ao invés de inibi-lo, tal presença mostrou-se desafiadora. A mulher se pôs à sua frente, tirou os trapos que lhe cobriam e agarrou-o, esfregou-se nele. O ancião buscou nela algum dente com a língua, mas encontrou apenas as gengivas secas. Com algum esforço desvencilhou-se e tentou dizer algo que não convenceria nem a si mesmo. Abraçou-a entregando-se, enfim, e ao abrir os olhos percebeu que a criança não estava mais onde a deixara. Talvez houvesse sido levada por alguém ou por muitos, com tochas, porretes e cachorros. Porém, com o canto do olho, viu que ela se levantara e permanecia imóvel, também nua, os braços pendendo ao lado do corpo, esperando. Ele continuou junto à mulher, mas podia se concentrar na menina: ela não possuía pelo algum e os seios não passavam de duas contas. Ele pensou ter visto reflexos azuis em seu ventre. A mãe afastou-se ao perceber seu interesse e quando o ancião tomou a criança, ambas sorriram o mesmo sorriso. Olhando novamente pelo canto do olho ele dessa vez viu a mãe e ela trazia um punhal em suas mãos. Tudo negro como outrora e ao despertar, ainda sem saber ao certo onde estava, deu com a cabeça no teto baixo e áspero. Naquele mesmo instante, algas verdes começaram a brilhar, mostrando um caminho que se perdia num declive um pouco mais à frente. O sonho. Mais uma vez interrompido. Acomodou-se num canto e tentou trazê-lo de volta, mas o cheiro de água salgada misturado ao dos sargaços que entravam e saíam aos molhes pelas fendas tiraram-lhe todo sono. Deitou-se pensando como seria a voz da menina. Era a segunda noite que Jonas estava ) dentro do peixe. )

Sabia que havia tido outra vida, em outro lugar, numa aldeia que talvez permanecesse a mesma, apenas esperando seu retorno.


CHARGES DO GOUGON hgougon@gmail.com


Capa

tenho 21 anos

“Sou o Heitor, , moro na Candangolândia. Sou leonino, tenho 1,74 m, sou universitário, de olhos e cabelos castanhos. Estou a fim de novas de até 30 anos.”

rapazes

amizades com

“Meu nome é Lu, tenho 42 anos, sou loira,

1,64 m e 60 kg. Moro no

tenho

Guará II. Procuro homens de 26 a 45 anos.” “Sou o Borges. Moreno, 33 anos, 1,83 m de altura,

romântico, carinhoso, sincero e procuro mulher de 18 a 38 anos

71 kg,

para compromisso.” “Meu nome é Émerson, tenho 36 anos. Sou romântico.

Procuro mulheres de

21 a 60 anos, de coração aberto para amar.”


Para ouvir e amar O relógio marca 21 horas. Bate a solidão e a carência. É chegado o momento de tentar a sorte. Nas ondas do rádio, as pessoas fantasiam, se deixam levar. Uma daquelas músicas românticas que embalaram histórias felizes de casais hollywoodianos agora serve de pano de fundo para a envolvente voz do locutor em uma emissora de rádio popular do Distrito Federal. Em tempos modernos, o rádio ainda é um meio de se relacionar, conhecer pessoas, desabafar, encontrar um namorado, uma esposa, um amigo. O amor está no ar. Texto Rafania Almeida Ilustração kacio pacheco rafania@meiaum.com.br


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“M

eu nome é Watson*. Sou moreno, tenho olhos verdes, 1,80 m de altura e gosto de malhar.” A voz que narrava o perfil era do locutor, não de seu autor. Assim, ele teria mais chances de conseguir interessadas. Mulheres de todo o Distrito Federal poderiam sonhar e idealizar o príncipe encantado descrito pela voz sedutora. O telefone foi divulgado ao vivo para quem quisesse dar uma chance ao rapaz. Logo começaram a ligar. “Até gente de fora do DF me procurou. Às vezes a gente acha a pessoa certa.” A que conquistou o coração solitário foi aquela que não hesitou em soltar um “eu te amo” já na primeira vez em que se falaram por telefone. A rádio cumpria o papel de cupido a que se propõe. O homem ficou encantado. Os dois começaram a se falar mais constantemente até engatarem um namoro, após poucos encontros. A história não teve final feliz. Dois meses de namoro acabaram na traição daquela que jurava amor eterno ao telefone. Ele a flagrou com outro. “Já tinha desconfiado desde a primeira vez que disse que me amava sem me conhecer”, lamentou o apaixonado, que não se cansa de ligar para a rádio em busca de um novo amor. Watson não foi de todo sincero. Nos bastidores, os locutores chamaram a atenção para um detalhe: “Ele sempre liga, mas muda o perfil, de acordo com o que as mulheres querem”. Isso, claro, não foi ao ar. A parceira pareceu não ter ficado satisfei-

ta e decidiu se vingar. Como ele realmente é, só ele e ela sabem. Nem a reportagem da meiaum conseguiu descobrir. Watson conversava animado por telefone comigo, contando o que as mulheres falavam quando ligavam para ele, dizia se sentir enganado pela ex, pois achava que ela havia pegado os telefones de vários homens divulgados na rádio, quando uma pergunta o emudeceu: “Mas qual é mesmo o perfil que você divulga?” Silêncio. A ligação cai. Insisto. Ele desliga o celular. Talvez mude de telefone, como já fez outras tantas vezes para continuar com sua saga nas rádios brasilienses. Rapaz procura compromisso sério A rádio deu a Alexandre* a chance de ser feliz. Chegou ao DF em fevereiro de 2011. Piauiense de 20 anos, 1,62 m, 52 kg, estava com dificuldade para se relacionar na nova cidade, especialmente para encontrar um namorado. Alexandre tinha medo do preconceito, mas a solidão falou mais alto. A rádio foi a solução encontrada. “Não acreditava muito, mas não tinha nada a perder e parece que quem quer algo sério tenta pela rádio.” Funcionou. O rapaz anunciava querer conhecer homens acima de 25 anos. “Os novinhos não querem nada sério”, diz. Assim que divulgaram o perfil, pelo menos 15 pessoas ligaram, mas só conseguiu atender nove. “Juntando tudo não dava um que prestasse, a maioria só queria sexo.” Até que um despertou o interesse de Alexandre. Foram mais de duas


31 horas de conversa ao telefone na primeira vez. Após investigar a vida do pretendente em uma rede social, decidiu marcar o encontro. Com medo de ser uma “pegadinha”, disse que iria com uma roupa, mas foi com outra para poder observar primeiro. O temor provocou um desencontro que fez o outro cara desistir. “Ele disse que era supersticioso e, se não nos encontramos, não era pra ser.” Ficou a amizade de um lado e o amor platônico de Alexandre do outro. Muita gente ainda liga, mas ele só quer saber do que não deu certo. “Alguns viram amigos. Os velhos babões querem saliência, e as mulheres carentes desesperadas insistem em telefonar. Eu descarto logo de primeira.” Enquanto não encontra um amor, continua tentando e acaba fazendo amigos de uma maneira bem diferente, via rádio. Deixa um aviso: “Não vou atender os folgados que ligam a cobrar”. Morena encontra amor e amizade A morena Kelly* atiçou muita gente quando divulgou o perfil na rádio. Os 29 anos, 1,65 m e 70 quilos renderam 40 ligações em apenas um dia. Conversou com 16 pessoas, homens e mulheres. Poucas demonstraram interesse em uma relação séria. A maioria ligava para “tirar uma casquinha” dela. Alguns estavam dispostos a uma noite de loucuras, enquanto outros queriam apenas desabafar. Um foi especial. Descobriram coisas em comum e marcaram um encontro. Já se viram três vezes. O primeiro beijo

aconteceu logo no início. Ele vai pedi-la em namoro. Ela vai aceitar. “Estou gostando dele, apesar da distância.” Kelly mora em Planaltina, o amado no Recanto das Emas. Ela ainda não acredita que tudo isso aconteceu. Nunca pensou que daria certo. Sentia-se muito sozinha e não conhece muita gente por ser muito reservada. Há 14 anos morando no mesmo lugar e divorciada duas vezes, acha difícil fazer amigos. “Na rádio consegui até amigos novos. Acabei conhecendo um vizinho que vem aqui todo fim de semana tomar uma cervejinha. E só nos conhecemos por causa do programa.”

encantos da voz doce e sensual do outro lado da linha. Só não contavam serem as locutoras do programa romântico. Elas fingiam ser ouvintes interessadas no perfil. Combinavam de se encontrar em locais públicos e bem movimentados. Mas ficavam à espreita, observando os pobres homens esperançosos. “Nunca fomos falar com nenhum. Não achamos um que nos fizesse ter coragem”, conta. Corações foram sadicamente destruídos pela brincadeira da desajuizada, que preferiu não se identificar. Passados muitos anos, ela aprendeu a não brincar mais com o sentimento alheio.

Locutora assanhada Ela tinha 19 anos e uma voz que acalentava o mais solitário dos corações. Como locutora, recebia as mais diversas propostas, pois mexia com o imaginário de quem estava do lado de lá do rádio. Era como se falasse ao pé do ouvido, especialmente quando soltava expressões como “meu amor”, “vamos esquentar o clima” e “vamos passar a noite coladinhos”. Imaginavam-na, na maioria das vezes, como uma loira sedutora, de corpo escultural, cabelos até a cintura e sorriso fácil. Era, na verdade, uma moleca fanfarrona. Trabalhava com uma amiga em uma rádio popular. Decidiu tirar proveito da profissão e da fantasia alheia. “Avaliávamos cada perfil que chegava à rádio. Separávamos os mais interessantes para ligarmos e marcarmos os encontros.” Não era fácil resistir aos

Dá até casamento Depois de quatro meses da divulgação do perfil de uma mulher solitária, conhecida como Dilza, o locutor recebeu um convite. Em letras douradas, ela e o amado anunciavam o casamento. A união aconteceu graças ao programa de rádio. O homem ouviu as características da pretendente, gostou e decidiu ligar. Foram horas de conversa. Demorou um mês para o namoro engatar. Nos três meses seguintes, concluíram que formavam um par perfeito e foram morar juntos. Foi aí que surgiu a ideia de casar. Um ano após o acontecido, ela apareceu na rádio com uma menina, fruto da união. Mas casamento nem sempre é sinal de final feliz. Em outra rádio, a voz e o nome do homem que ligava pedindo para anunciarem seu perfil provocaram estranhamento. “Mas você não casou há pouco tempo com uma


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Programação romântica Clube (105.5 FM) Amor sem Fim – De segunda a sexta, das 12h às 13h e das 15h às 16h – músicas românticas, recadinhos de amor e reconciliação. Love Songs – De domingo a sexta, das 21h à meia-noite – músicas românticas, tradução da noite, classificados do amor e reservado – momento em que o locutor brinca de cupido e escolhe duas pessoas para falarem por telefone, ao vivo, e se conhecerem melhor. Apenas alguns trechos da conversa são transmitidos. Mega (90.0 FM) – Gama Lovehits – De segunda a sexta, das 22h às 23h – programação com músicas românticas. Amor e Amizade – De segunda a sexta, das 23h à meia-noite. Descrito como ponto de encontro do amor, em que as pessoas trocam recados e procuram por um parceiro. JK (102.7 FM) História de Amor – De segunda a sexta, das 12h às 13h – Recadinhos e o melhor da música romântica. Os ouvintes ligam para opinar sobre um história de amor contada no ar. Night Hits – De segunda a sexta, das 22h à meia-noite – As músicas que são sucesso em todo o mundo, paquera, romance e classificados do amor.


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“Com a internet e a correria do dia a dia, as pessoas se afastaram, não conversam nem com quem está do lado. Estão carentes e o rádio acaba as aproximando.”

(Dodô, locutor e produtor da JK FM)

mulher que conheceu pela rádio?”, questionou a telefonista. “Sim, mas o amor não deu certo e resolvi tentar de novo”, justificou. Tentativas feitas e bem-sucedidas. Não demorou muito para a equipe da rádio receber nos estúdios um novo convite e uma nova ligação. Era o mesmo homem, dizendo que se casaria em poucos dias e era grato, novamente, pela pequena ajuda dada pelos “amigos” da emissora. Ele não voltou a ligar. Por enquanto, o perfil escolhido lhe agradou o suficiente para manter o casamento. nOs bastidores Nos estúdios da rádio, uma telefonista, um locutor e um produtor organizam o programa romântico. Costumam seguir esse padrão em todas as emissoras. Músicas bem melosas, a tradução do dia, histórias e desabafos, além dos anúncios de perfis de pessoas em busca de amor. A telefonista é o primeiro contato dos corações desconsolados. “Tem gente que está tão carente que já se abre comigo mesmo”, conta a atendente Ana Paula de Lima, da Clube FM. Uma turista carioca era casada, estava visitando Brasília e ouvindo a rádio. Ligou para pedir música e logo se encantou pela voz dela. Chamou-a para sair, insistiu, mas foi dispensada todas as vezes. Outra a usou para despejar as lamentações. “O que você faria se ouvisse o perfil do seu marido sendo divulgado na rádio à procura de mulheres?” Ficou sem reação, mas decidiu engatar uma conversa amiga. “As mulheres

são mais carentes, sofridas. Já os homens são mais desinibidos e logo topam participar ao vivo”, conta. Geralmente é simpática, fala sem cerimônia e de vez em quando exagera. “Oi, Cristina! É a Ana da rádio. Achei um cara aqui pra você e algo me diz que hoje é seu dia.” Ela já havia tentado convencer outros três ouvintes a participar do programa ao vivo para conhecer a mulher. Os programas românticos continuam em alta. “A audiência nunca caiu, pelo contrário, aumentou e muito”, afirma a produtora e locutora Andréia Couto, da Clube FM. Segundo ela, a rádio tem cerca de 800 mil ouvintes e boa parte deles é assídua da programação “voltada para o amor”. Cerca de 60% são mulheres e a maioria tem de 20 a 39 anos. A rádio está na internet e em canais de TV por assinatura, o que garante público maior. Questionada sobre o que garante esse sucesso, ela responde: “A rádio é uma fábrica de sonhos. Se fosse apenas pelas músicas, as pessoas teriam outros meios de ouvi-las, mas é com o rádio que elas conversam, é nas rádios que elas encontram um companheiro e até mesmo um ombro amigo”. O locutor Dilson Campos diz que esse é o único veículo que permite ter a sensação de intimidade. “Tem gente que me liga pra saber como estou e até uma menina telefonou para dizer que cometeria suicídio. Depois de muita conversa, desistiu”, conta. Há 23 anos na profissão, Campos se diz especialista do amor: “Leio e vejo tudo o que


34 posso sobre o assunto. Desde filmes melosos a livros de psicologia. Também uso muito o que aprendi na vida, com meus dois casamentos”. Com isso, as pessoas acreditam ter maior liberdade para se aproximar dos locutores. Não são apenas vozes. São os conselheiros e amigos de todos os dias. Douglas Bonfim Holanda, conhecido como Dodô, é locutor, produtor, formado em jornalismo e pós-graduado em comunicação estratégica. Depois de muito estudar e traba-

lhar na área por 13 anos, chegou à conclusão de que o rádio ainda é o veículo mais acessível e está longe de perder seu papel, especialmente de cupido. Não é preciso parar o que está fazendo. A qualquer lugar que for sempre terá uma rádio e um meio de sintonizá-la. “Ainda existe a magia do rádio, o amor, a voz, a influência, o fascínio”, garante. Tanto que tem gente que se solta, liga para a emissora, entra ao vivo em um programa, canta, faz declarações de amor

“O rádio é um veículo democrático, isento de preconceitos, acessível e que pode dar vez e voz a todos.”

(Andréia Couto, locutora e produtora da Clube FM)


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“Minha linda, meu amor” Atualmente, o principal meio de contato com a rádio é o telefone. Primeiro as ligações, depois o SMS, especialmente pela facilidade em adquirir um aparelho celular. A internet também é muito utilizada. Eles enviam e-mails ou participam das páginas das emissoras em redes sociais. É comum, na Clube FM, por exemplo, uma das mais populares, as pessoas enviarem seus perfis e se conhecerem por lá mesmo. Já na JK FM, outra campeã de audiência nas classes C, D e E, as cartas ainda são muitas. “Poucos ouvintes têm acesso ou sabem usar a internet e quando estão com muita vergonha, mandam carta mesmo”, revela Dodô. O que faz com que a maioria do público seja feminino (na JK, 62% dos ouvintes são mulheres) é o carinho com que são tratadas. “Chamamos de minha linda, meu amor, e elas se sentem amadas, conquistadas e, por isso permanecem na escuta e são encorajadas a participar.” Os ouvintes que costumam

participar desses programas geralmente são mais carentes, como Alexandre, ou já se decepcionaram muito, como Kelly em seus dois casamentos. Na hora da solidão, à noite, querem companhia e conseguem por meio do rádio. Muitos passam trote, ligam por brincadeira ou vingança. “Amantes já ligaram aqui dando as características da esposa de seus parceiros, só para botarem um fim na relação que as atrapalhava. Também tem caso de namorados que brigam e resolvem pregar uma peça no companheiro”, diverte-se Dodô. Diz que essas ligações costumam ser filtradas. Dilson Campos conta um caso pior. “Uma mulher conheceu o cara e no mesmo dia o chamou pra dormir com ela, na casa dela. Quando acordou, ele tinha limpado a residência e levado todos os pertences.” Outros ligam apenas em busca de sexo fácil, acreditando na carência do outro. “Um homem pedia que as interessadas ligassem em um horário específico. Questionamos e ele disse que era casado e aquele era o horário em que a mulher estava de plantão.” Muitas histórias já aconteceram e prometem continuar acontecendo nas ondas do rádio. O fato é que, enquanto houver amor e a carência dos tempos modernos, tudo indica que esses programas têm longo ) futuro pela frente. )

e ainda pede a garota que acabou de conhecer em casamento. “As pessoas não têm medo de serem felizes aqui”, acredita Andréia. Para ela, o veículo iguala as pessoas e as livra de vários preconceitos, apesar de as classes A e B serem as que menos participam. “Todo mundo têm necessidade de contar suas histórias. A mágica e o anonimato do rádio dão essa liberdade.”

* Os nomes são fictícios e foram utilizados pelos personagens na divulgação de seus perfis nas rádios.


1*

no meio da mata dentro do parque

paubrasilia@paubrasilia.com.br

por Nicolas Behr

BRASÍFRA-ME

Personagens, lugares e episódios marcantes da história da nossa capital. Desvende estes poemas-enigmas.

foram tirar areia mas acharam água refrescante areia

2** convidativo convite em papel seda que beth me mostrou dentro do grande circular

3* nós é que rogamos por vós cidade abandonada rogamos por vós cidade santa porque teu povo é sofrido, tuas ruas tristes não vistes?

seria em sobradinho antes do ribeirão numa chácara

cidade mãe de deus

quem foi dançou

protegei-a

quem não foi também dançou


5*

6**

corria na w3 sul na contramão

flor do cerrado com uma antena na ponta

foi tricampeão antena não antera

hoje gasta sua fortuna bem devagarzinho

7* vieram viram venceram? (dessa vez os vencedores perderam) construíram o muro imaginário do próprio esquecimento brasília inaugura a exclusão planejada

jardins marxistas florescem burocráticos no brejo dialético do concreto armado fazem a guerra por meios pacíficos arcos sem flechas Respostas: 1 Água Mineral – 2 Rockonha – 3 Santa Maria – 4 Os candangos – 5 Nelson Piquet – 6 Torre Digital – 7 Palácio do Itamaraty

4*

toca a água o asteroide mais leve que o ar

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Perfil

A letra acima está gravada em objetos espalhados pelo mundo. É do primeiro calígrafo de Brasília, um baiano de 79 anos apaixonado pela capital e por seu fundador, Juscelino Kubitschek

Texto Caroline Vilhena Fotos Nilson carvalho carolinevilhena@meiaum.com.br

fotografia@meiaum.com.br


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“D

ona, faça o favor de pegar seu menino; ele balança a mesa e eu não consigo gravar”, pediu José Macêdo educadamente – mas sem o bom humor que lhe é peculiar – à moça que esperava na calçada. A advogada Fernanda Motta imediatamente chamou a atenção de João Henrique, 4 anos. Ele se esforçava, na ponta nos pés, para debruçar-se sobre a mesinha em que o calígrafo gravava cuidadosamente o nome do garoto em uma tesourinha escolar. “Procurei na cidade inteira, até perguntei a um ourives que eu conheço, mas ninguém soube me indicar quem fizesse este serviço, parece uma profissão em extinção”, disse Fernanda. Na saída de uma joalheria onde ela falava da dificuldade em encontrar um profissional especializado, um senhor que ouviu a conversa a abordou e indicou Macêdo. “Ele falou que tinha um calígrafo há muito tempo na 108 Sul, dentro da antiga Livraria Eldorado, que gravava de tudo.” E foi batata. Macêdo gravou peças do material escolar dos filhos de Fernanda e ela gostou tanto que prometeu voltar. José Macêdo nasceu em Euclides da Cunha, antiga Cumbe, no interior da Bahia, em 1932. “Euclides da Cunha escreveu Os sertões depois de conhecer aquela região, por isso mudaram o nome da cidade”, conta, orgulhoso. Ele é o mais velho dos irmãos, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai. Dois deles já morreram e um ele nem chegou a conhecer. Nunca mais voltou à terra natal, desde que foi embora de vez, quando tinha 16 anos. Nem quando a mãe, Júlia Jovita de Jesus, morreu [ele nem lembra o ano]. Conheceu o pai só quando tinha 17 anos, em Salvador. “Eu saí de lá fugido de uma enxada”, conta, aos risos. Na época, o padrasto dele tinha um açougue, onde Macêdo o ajudava. Para aumentar o orçamento da família, o padrasto arranjou um serviço extra para o menino: capinar um lote. “O terreno era enorme e eu não consegui chegar nem à metade naquele dia, aí eu fiquei com medo de não dar conta e fugi”, justifica. Foi de carona em um caminhão até Santa Bár-

bara, perto de Feira de Santana, só com a roupa do corpo e nenhum tostão no bolso. Ele tinha 14 anos. A aventura durou 20 dias. O padrasto foi atrás do garoto e o levou de volta para casa.

“Ele me ensinou e eu fiz” Macêdo passou mais um tempo trabalhando em Euclides da Cunha até conseguir um dinheirinho e fugiu de novo, desta vez para Feira de Santana. Lá ele morou e trabalhou na Pensão de Dona Marieta, “que era mãe do Ioiô, o maior goleiro do Bahia naquela época”, conta. Mas ele deixa claro que é torcedor do Vitória e do Flamengo. “Eu gosto é de preto e vermelho.” Em Feira de Santana, fez de tudo. Trabalhou como porteiro, fez serviços gerais, foi mensageiro de hotel e garçom. Com 17 anos foi para Salvador, onde começou vendendo jornal e chegou a secretário do sindicato dos jornaleiros. “Mas eu ganhei dinheiro mesmo foi vendendo bala Seleções e bilhete de loteria.” Foi na capital baiana que Macêdo aprendeu o ofício de calígrafo e gravador. Na Portinha de Ouro, que ele próprio define como uma “quinquilharia”, começou consertando canetas-tinteiro, canivetes e o que mais trouxessem para ele dar um jeito. Até que o gravador da loja, que estava se formando em contabilidade, resolveu deixar o trabalho e colocou Macêdo em seu lugar. “Eu comecei a gravar assim, do nada, ele me ensinou e eu fiz”, conta. A letra bonita ele atribui à professora Antonieta, do primário, que pegava no pé dos alunos de caligrafia. “Naquela época todo mundo fazia aula de caligrafia e eu era um dos melhores alunos.” De Salvador, Macêdo foi para São Paulo com um grupo de camelôs com quem fez amizade e que o convidou para tentar a vida na capital paulista. “Eu gravava os produtos que eles traziam para vender, naquela época era chique ter isqueiro, caneta, canivete, tudo gravado”, comenta. Ele aceitou o convite e foi embora para São Paulo, só com o endereço da charutaria A Brasileira no bolso da calça, única referência que tinha para procurar emprego. Ele não lembra em que ano foi isso. “Ah, eu devia ter uns 20 anos, por aí.” Em terras paulistas, ele

diz ter conhecido Silvio Santos, na época em que ele ainda era camelô. “Era um homem carismático, simpático, falante, por isso chegou aonde chegou”, recorda-se. Em 1958, um amigo camelô, que ele chama de Durval, o convidou para vir para Brasília. Mas Durval casou-se em Uberaba (MG) e ficou por lá. Macêdo veio sozinho, para trabalhar como gravador na Joalheria Sônia, que começou ainda na Cidade Livre e depois passou a funcionar na 108 Sul. Foi o primeiro calígrafo da capital. “Eu escrevia os nomes dos formandos do Elefante Branco nos diplomas e de todos os colégios que havia aqui”, diz. Macêdo trabalha na Rua da Igrejinha, como é conhecida a primeira comercial de Brasília, desde a inauguração da cidade. Quando a Joalheria Sônia fechou, ele passou a atender como calígrafo dentro da antiga Livraria Eldorado, em uma banquinha que traz seu nome e ofício. Com o fechamento da livraria, os vizinhos da loja Star Vidros se preocuparam com o destino que Macêdo ia tomar e resolveram convidá-lo para montar seu espaço de trabalho no estabelecimento. “Aqui todo mundo o conhece, ele é quase um patrimônio, aí demos um jeito e arrumamos um espaço pra ele aí na frente e deu certo”, conta Ana Paula Rocha, sócia-proprietária da Star Vidros, há 14 anos na quadra. E ela garante que a convivência com Macêdo é das mais agradáveis. “A gente gosta de ouvir as histórias dele, ver como ele atende os clientes, a gente aprende com ele”, sintetiza. A amiga diz que a demanda de gravações já foi mais intensa, mas que ainda tem aquela clientela cativa, fiel há muito tempo aos serviços do calígrafo. “A letrinha dele está aí pelo mundo afora”, diz. Macêdo confirma. Ele já gravou placas dadas de presente ao papa João Paulo II, ao general francês Charles De Gaulle, ao último monarca etíope, Haile Selassié, e até à rainha Elizabeth II. Das que estão expostas no Memorial JK, muitas foi ele quem gravou. “Era bom ser gravador até a época militar, quando se davam e recebiam muitos presentes de agradecimento, canetas gravadas, isqueiros, tudo isso era muito chique... hoje não pode


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mais, é assédio, corporativismo, essas coisas, por isso o movimento por aqui diminuiu”, justifica. Ele não conta quanto ganha por mês com as gravações. “O suficiente para sobreviver, minha filha”, resume discretamente.

Ídolo Enquanto a equipe da meiaum entrevistava Macêdo na calçada, um senhor grisalho e muito simpático parou e se juntou à conversa. O gaúcho Ênio Tonietto veio para Brasília em 1964 para trabalhar como professor no La Salle, uma das poucas escolas que existiam aqui na época. “Eu trouxe muito troféu e medalha pra você gravar”, disse ao nosso entrevistado. Os dois engataram uma conversa nostálgica e

ao mesmo tempo muito entusiasmada sobre os tempos do início da capital. Relembraram histórias dos alojamentos, antigos companheiros e fizeram suposições sobre como estaria cada um hoje em dia. O papo alcançou o ponto máximo quando começaram a falar de seu grande ídolo, Juscelino Kubitschek. “Aquele homem era uma coisa de outro mundo, um carisma impressionante”, disse Macêdo. “Verdade, ele falava com todo mundo, visitava os alojamentos, apertava a mão, conversava sobre os sonhos que tinha para a capital, todos ficavam muito empolgados com aquele desafio”, completou Ênio. Depois de quase uma hora de conversa, se despediram. Macêdo cursou apenas o primário (ensino

fundamental de hoje), mas lê muito e é capaz de dar uma aula de política e economia em poucos minutos de conversa. Tem uma memória de dar inveja a qualquer jovem, se refere às pessoas com nome e sobrenome, tanto as públicas quanto as que só ele conheceu, e cita episódios da história do País que viu acontecer. Lembra até a marca do perfume que JK usava quando o conheceu: “Eu apertei a mão dele e cheirei em seguida, era um Bond Street, perfume da moda na época”, destaca. Em visita ao Memorial JK, o calígrafo contemplava as fotos enormes do homem que mais admira no mundo. “Olha aí, o maior homem da história deste país”, falava bem alto pra todo mundo ouvir. “Ouvi dizer que o SBT


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Viagem, só de avião Desde 1970, é casado com a capixaba Ruth, sua segunda mulher, por quem se declara apaixonado. Ele mal se apresenta e já vai mostrando no celular uma foto em preto e branco de uma bonita morena. “Olha como ela era linda!”, derrete-se. Mas Ruth conta que só há poucos anos se casaram oficialmente. “A gente era só juntado e eu vivia pedindo ele em casamento, mas ele dizia: ‘Pra que mexer em time que tá ganhando, meu bem?’, aí eu zanguei e não toquei mais no assunto, até ele se tocar”, conta a capixaba, tão simpática quanto o marido. Em 2001, Macêdo pediu Ruth em casamento e o filho mais velho deles foi testemunha, ao lado da esposa. Com Ruth, Macêdo teve três fi-

lhos. Da primeira união, que durou 17 anos, também foram três, mas uma morreu de acidente de carro em 1989. “Oficial eram sete filhos”, brinca. O mais velho, que ele diz ser “uma produção independente”, tem 55 anos e a caçula tem 27. Tem também três netos e uma bisneta. E não esconde suas preferências: “A Rosemeire [filha do primeiro casamento] é muito boa pra mim, ela me ajuda muito”. O outro xodó é Júlio Cesar, da união com Ruth. “Ah, ele é tão carinhoso e cuidadoso com a gente que chega a dar raiva”, ironiza. Também se orgulha dos demais membros da família. “Tenho irmão dentista, irmã socióloga, filho doutor em filosofia...”, conta. “Só eu que não quis estudar muito, tá bom assim”, conforma-se. O maior orgulho? Responde com o mesmo ar de satisfação com que contemplava as fotos de JK: “De ter nascido brasileiro!” Todo sábado, vai à Feira do Guará comer sarapatel e baião de dois e se permite tomar uma cervejinha. “É uma e só, a única que tomo na vida.” Parou de beber há 36 anos. “Eu bebia 24 horas por dia, bebi até com Luiz Gonzaga aqui nessa rua, no bar Maloca Querida”, gaba-se. Mas ainda fuma uma carteira de cigarros por dia. Começou quando tinha uns 10 ou 11 anos. Adora viajar de avião, mas não gosta de estrada. Tem medo de morrer de desastre e diz que a única viagem que faz é de metrô, da 108 Sul para Taguatinga. “De avião deve ser bom morrer, pelo menos o sujeito fica famoso, o nome aparece até no Jornal Nacional”, con) clui, aos risos. )

Ele já gravou placas dadas a João Paulo II, a Charles De Gaulle, a Haile Selassié e até à rainha

está fazendo uma enquete para saber quem foi o maior homem do Brasil na opinião do povo, tem gente dizendo que foi Ayrton Senna, outros que foi o Lula, mas não tem nem comparação, Juscelino foi o maior homem de todos, este país só começou depois dele, não tem pra ninguém”, catequizava as guias o museu. Passeando entre os objetos expostos, encontrou um monte de placas gravadas por ele. “Esta é minha, esta também, esta também... e com certeza também tem muitas medalhas dessas que eu gravei, só não sei te dizer quais porque o verso está para baixo.” Ao ver a cripta onde estão os restos mortais de JK, disparou: “Olha aí, que beleza! O papa não é enterrado no Vaticano? Então Juscelino tem mesmo de estar enterrado aqui, na terra que é dele”.


Caixa-preta

por Luiz Cláudio Cunha cunha.luizclaudio@gmail.com

Dilma de volta à guerrilha

Na ditadura, como guerrilheira, Dilma Rousseff enfrentou os coronéis fardados da base inimiga. Na democracia, como presidente da República, ela enfrenta os ‘coronéis’ engravatados da base aliada. A diferença é que, agora, sem se deixar prender pelos adversários, a ex-guerrilheira está vencendo a batalha. Embalada pelo tsunami favorável da economia, que infla as velas do governo com os bons ventos da popularidade, Dilma realiza um inesperado movimento que a liberta de dois grilhões que ameaçavam paralisar o Planalto: a sombra inibidora do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, e o peso esmagador dos partidos aliados, liderados pelo elefantino PMDB. Como nos tempos da guerrilha, Dilma foi à luta, e assumiu com a sisudez recomendável a subversão de procedimentos que desnorteou aliados e surpreendeu adversários. Sem consultar o mentor e padrinho político, Dilma passou a vassoura em seis ministros esverdeados pela pátina da corrupção, oxidados por malfeitos que faziam parte dos usos e costumes dos partidos, ainda desafeitos ao estilo faxineira da presidente. Outros cinco ministros, por mera avaliação de resultado, foram varridos da Esplanada.

Sarney apronta Sem consultar o fiador maior da governabilidade, o PMDB, Dilma peitou a santíssima trindade no Senado, formada pelos cardeais José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, e faxinou o seu líder do governo – o próprio Jucá, sobrevivente no cargo nos 16 anos somados de FHC e Lula. Pois não sobreviveu a Dilma. Jucá perdeu a imortalidade governista ao fazer corpo mole na aprovação do diretor da agência de transportes terrestres. Horas após ser decapitado, Jucá foi empalhado pela dupla Sarney-Renan no estratégico posto de relator do Orçamento, onde promete comer o seu prato frio de vingança contra o Planalto. O tinhoso presidente do Senado aprontou outra: res-

suscitou Nelson Jobim, o ministro da Defesa demitido por Dilma, para liderar uma certa comissão de notáveis que vai discutir o pacto federativo, ficção que não prospera sem um bom diálogo com a presidente.

Comparação errada Em janeiro, Dilma mexeu em outro vespeiro, o Dnocs, um feudo de outro cacique do PMDB, o deputado Henrique Eduardo Alves. O líder da bancada resolveu desafiar a vassoura de Dilma, que mirava a estatal onde se descobriram desvios de R$ 312 milhões e favores para o Rio Grande do Norte, terra do diretor Elias Fernandes Neto, cria de Alves. “O governo vai brigar com metade da República, com o maior

partido do Brasil? Que tem o vice-presidente da República, 80 deputados e 20 senadores?”, duvidou o líder do PMDB. A dúvida não resistiu 24 horas. Alves falou na quinta, Dilma demitiu seu protegido na sexta. Mais cínicos do que assustados, os aliados cutucam Dilma lembrando uma dupla de antecessores que também trombou com o Parlamento: Jânio Quadros e Fernando Collor. Foram presidentes fugazes, que abandonaram o Planalto pouco tempo depois da posse. Mas são dois péssimos exemplos. Renunciaram não por culpa do Congresso. Um bebia demais. O outro faxinava de menos. Apenas mancharam a dignidade de uma presidência que Dilma Rousseff procura, agora, resgatar da chantagem e dos maus políticos.


A Brasília de Clarice

Fotos Ana Helena Abreu, janaína miran-

da e Rose may carneiro

As fotos deste ensaio trazem para o mundo do olhar o texto de Clarice Lispector sobre Brasília. Assim como a escritora, as autoras das fotos são apaixonadas pelo vazio. A folha em branco é o negativo latente. Aquilo que estava lá, mas só você sentiu. Brasília permite essas revelações. Uma cidade constantemente recriada. Da pólis ao pólen. A fotografia é isso. Aquilo que invade as entranhas das nossas retinas. Repleta de cheiros, sons, texturas, imagens desconexas que só fazem sentido com uma história. Ou melhor, com a memória. Memória de uma Brasília que só a escritora conheceu. Memória de uma Brasília que só quem vive nela acha que conhece. Afinal de contas, conhecer é reconhecer. Reconhecer que uma imagem se forma ou se deforma, de acordo com os nossos sentidos. Acima de tudo, perceber que essa imagem que tanto buscamos está dentro de nós. Abaixo, trechos da crônica Nos primeiros começos de Brasília, de 1962, em que Clarice descreveu suas impressões sobre a recém-inaugurada capital: “Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. (...) Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem.”

Ana Helena Abreu

ensaio


Ana Helena Abreu JanaĂ­na Miranda

Rose May Carneiro


Arte, Cultura e Lazer cultura@meiaum.com.br

Eles também são Bob Dylan No mês de seu aniversário, Brasília ganha de presente atrações musicais de respeito. Ou você acha comum em menos de duas semanas passarem por aqui nomes como Bob Dylan (foto), Caetano Veloso, Roger Hodgson e Duran Duran? Aos 70 anos, o norte-americano Dylan tem de carreira praticamente o mesmo tempo que Brasília tem de história. Tornou-se um dos músicos e compositores mais influentes, regravado por diversos artistas, entre eles o quarteto Duran Duran, que lançou sua versão de Lay, lady, lay na década de 90. Caetano, por sua vez, fez cover de Jokerman, e sua composição Negro amor, com Péricles Cavalcanti, é na verdade uma versão de It´s all over now, baby blue. O baiano, aliás, já foi definido pelo jornal The New York Times como “o Bob Dylan do Brasil”.

Cinema – lançamentos

A arte da conquista Direção: Gavin Wiesen. George (Freddie Highmore), adolescente solitário que cursou toda sua vida acadêmica até seu último ano sem ao menos ter um dia verdadeiro de estudo, faz amizade com Sally (Emma Roberts), garota popular, mas complicada, que reconhece nele um espírito semelhante. Drama. Classificação 12 anos. Kinoplex em 13 de abril. 83 minutos.

American pie: O reencontro Direção: Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg. Dez anos após a formatura, eles se reúnem para relembrar os velhos tempos. Michelle (Alyson Hannigan) e Jim (Jason Biggs) estão se habituando à vida de casados. Kevin (Thomas Ian Nicholas) e Vicky (Tara Reid) se separaram. Oz (Chris Klein) e Heather (Mena Suvari) estão se distanciando, mas Finch (Eddie Kaye Thomas) continua louco pela mãe de Stifler (Sean William Scott). Comédia. Classificação 14 anos. Cinemark e Kinoplex em 20 de abril. 113 minutos.

A perseguição Direção: Joe Carnahan. Um grupo de petroleiros está voltando para casa após temporada no Alasca. Uma falha mecânica derruba o avião que os transportava. Os sobreviventes têm de lutar pela vida, em meio a ataques de lobos. No elenco, Liam Neeson e Dermot Mulroney. Ação. Classificação 14 anos. Kinoplex em 13 de abril. 116 minutos.

Área Q Direção: Gerson Sanginitto. Coprodução brasileira e norte-americana. A busca de um pai (Isaiah Washington) por seu filho (Jordan Jones) acaba levando a uma descoberta extraordinária no interior do Ceará, num local chamado Área Q. No elenco, Murilo Rosa e Tania Kalil. Suspense. Classificação 14 anos. Cinemark e Kinoplex em 13 de abril. 107 minutos.

Contrabando Direção: Baltasar Kormákur. O excontrabandista Chris (Mark Wahlberg) muda de vida e se torna segurança, mas

depois que seu cunhado, Andy (Caleb Landry Jones), atrapalha um negócio de drogas do impiedoso chefe, Tim Briggs (Giovanni Ribisi), Chris é forçado a voltar ao crime. Ação. Classificação 18 anos. Kinoplex em 27 de abril. 109 minutos.

Espelho, espelho meu Direção: Tarsem Singh. A Rainha Má (Julia Roberts) precisa casar com o rico Príncipe (Armie Hammer) para salvar seu reino, que está indo à falência, mas ele está apaixonado por Branca de Neve (Lily Collins). Para conquistá-lo, a Rainha expulsa Branca de Neve para a floresta. Lá, a moça recebe a ajuda dos anões para reconquistar seu trono e o amor de sua vida. Comédia. Classificação 16 anos. Cinemark e Kinoplex em 6 de abril. 90 minutos.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Direção: Beto Brant e Renato Ciasca. Inspirado no romance homônimo de Marçal Aquino. Um triângulo amoroso envolve Cauby (Gustavo


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Peter Mountain/Film District_GK Films

capturaram durante rebelião em um presídio espacial. Ação. Classificação 14 anos. Kinoplex em 27 de abril. 96 minutos.

O príncipe do deserto Direção: Jean-Jacques Annaud. Ambientado no Oriente Médio na década de 1930, mostra o início da exploração do petróleo na região. A trama é centrada em um jovem príncipe árabe (Tahar Rahim) dividido entre a lealdade ao pai conservador (Mark Strong) e ao sogro (Antonio Banderas), moderno e liberal. Ação. Classificação 14 anos. Kinoplex em 13 de abril. 130 minutos.

Os Vingadores

Diário de um jornalista bêbado Direção: Bruce Robinson. Baseado no livro de Hunter S. Thompson, narra a história do jornalista freelancer Paul Kemp (Johnny Depp), que na década de 50 deixa os Estados Unidos para trabalhar no San Juan Star, jornal decadente de Porto Rico. Na ilha, conhece a cultura local, uma mistura exagerada de diversão e boemia, e ainda tem que manter o equilíbrio com o trabalho. Paul acaba em um triângulo amoroso, ao se apaixonar por Chenault (Amber Heard), noiva de um certo Sanderson (Aaron Eckhart). Comédia. Classificação 16 anos. Kinoplex em 20 de abril. 120 minutos.

Direção: Joss Whedon. O surgimento de uma ameaça que põe em risco a segurança da Terra faz com que Nick Fury (Samuel L. Jackson) crie Os Vingadores para combatê-la. Tratase da reunião dos maiores heróis: Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Capitão América (Chris Evans), Hulk (Mark Ruffalo), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson). Ação. Classificação livre. Cinemark e Kinoplex em 27 de abril. 89 minutos.

Paraísos artificiais Machado), fotógrafo de passagem pela Amazônia, a bela e instável Lavínia (Camila Pitanga) e o marido dela, o pastor Ernani (Zé Carlos Machado), que acredita ser possível consertar as contradições do mundo. Drama. Classificação 16 anos. Kinoplex em 20 de abril. 100 minutos.

Snow Flower (Bingbing Li). Isoladas de suas famílias, elas se comunicavam por uma língua secreta, nu shu. Nesse isolamento, elas pintavam letras em leques, bordavam mensagens em lenços e compunham histórias. Drama. Classificação 12 anos. Kinoplex em 13 de abril. 113 minutos.

Flor da Neve e o leque secreto

Lockout

Direção: Wayne Wang. A história começa com as memórias de Lily (Gianna Jun), na China do século 19, com tradições como a dolorosa redução dos pés, quebrando os dedos e arqueando-o preso com bandagens. Lily descreve a sua história de amizade com

Direção: James Mather e Stephen St. Leger. Snow (Guy Pearce) foi acusado injustamente de conspiração contra o governo americano. Para ter de volta a liberdade, precisa resgatar Emilie Warnock (Maggie Grace), a filha do presidente, de perigosos detentos que a

Direção: Marcos Prado. Em um enorme festival de arte e cultura alternativa com ares de Woodstock e trilha sonora eletrônica, três pessoas (Nathalia Dill, Luca Bianchi e Lívia de Bueno) vivem experiências sensoriais intensas que trazem enormes consequências para o resto de suas vidas. Drama. Classificação 16 anos. Kinoplex em 27 de abril. 96 minutos.

Quem se importa Direção: Mara Mourão. O filme mostra o trabalho de empreendedores sociais, pessoas que decidiram mudar a realidade à sua volta com ideias criativas de grande impacto social. A narração é do ator


Arte, Cultura e Lazer

Larry Horricks

Cinema – outros

Abel Ferrara Em uma carreira de mais de 30 anos, Abel Ferrara vem realizando um cinema original, primitivo e intenso. Serão apresentados 24 longas, 3 curtas e 2 episódios da série americana Miami Vice dirigidos por ele. 17 a 29 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil. Entrada franca. Classificação e programação em www.bb.com.br/cultura. Telefone: 3108-7600.

É Tudo Verdade O Festival Internacional de Documentários volta a ter parte da programação exibida em Brasília, que receberá 12 filmes, além de debates. O público terá oportunidade de ver três filmes que fazem sua estreia mundial durante o festival: Jorge Mautner – O filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, Dino Cazzola – Uma filmografia de Brasília, de Andréa Prates e Cleisson Vidal, e Jardins Lawnswood, do polonês Pawel Kuczynski. 10 a

O corvo Direção: James McTeigue. O filme se passa em 1849. Um relato ficcional dos últimos dias de vida de Edgar Allan Poe (John Cusack). O poeta está em busca de um serial killer cujas mortes se espelham em suas obras. Para ajudá-lo na investigação, o detetive Emmet (Luke Evans) assume o caso. Suspense. Classificação 16 anos. Cinemark e Kinoplex em 27 de abril. 111 minutos.

Rodrigo Santoro.

Documentário. Verifique a

classificação. Kinoplex em 13 de abril. 98 minutos.

Titanic 3D Direção: James Cameron. Um dos maiores sucessos do cinema está de volta em tecnologia 3-D. Uma expedição aos destroços do Titanic leva uma sobrevivente do naufrágio a relembrar a história de amor que viveu no navio. Em 1912, na única viagem do que então era o maior navio já construído, Rose (Kate Winslet) é uma jovem da alta sociedade prestes a se casar com Cal Hockley (Billy Zane). Mas a bordo ela conhece Jack (Leonardo Di Caprio), um jovem simples, e se apaixona pelo rapaz.

Em meio ao intenso romance acontece o trágico acidente, que eles enfrentam juntos. Romance. Classificação 14 anos. Cinemark em 6 de abril e Kinoplex em 13 de abril. 194 minutos.

Xingu Direção: Cao Hamburger. A história dos irmãos Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo Villas Bôas (Caio Blat), que se alistam na expedição Roncador-Xingu e partem em uma missão desbravadora pelo Brasil central. O trio consegue fundar o Parque Nacional do Xingu. Aventura. Classificação 12 anos. Kinoplex em 6 de abril. 84 minutos.

15 de abril, no CCBB. Entrada franca. Classificação e

programação

em

www.bb.com.br/cultura.

Telefone: 3108-7600.

Mostra do Filme Livre Um grande painel da produção independente nacional, com mais de 200 filmes, entre curtas, médias e longas. Pela primeira vez em Brasília, a mostra já está na 11ª edição e o homenageado é o cineasta baiano Edgard Navarro. Também há debates e sessões comentadas com realizadores de todo o Brasil. Até 8 de abril, no CCBB. Entrada franca. Classificação e

programação

em

www.bb.com.br/cultura.

Telefone: 3108-7600. www.cinemark.com.br www.kinoplex.com.br Não informaram a programação a tempo: www.itaucinemas.com.br www.cinecultura.com.br


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Shakpi Shivaya

formação original do grupo. Os britânicos apresentam as canções do álbum mais recente, All we need is now, e as músicas que tornaram o grupo um dos mais importantes dos anos 80 e 90, como Girls on film, Rio, Planet earth, Hungry like the wolf, The reflex, Notorious, Come undone e Ordinary world. 28 de abril, às 22h, no Ginásio Nilson Nelson. Ingressos (inteira): Arquibancada R$ 220; Pista R$ 320; Pista Premium R$ 480. Classificação 16 anos. Telefone: 4003-5588.

Palco poesia na canção A 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura também tem música. As apresentações serão na Esplanada dos Ministérios. 14 a 23 de abril, às 22h, na Esplanada dos Ministérios. Entrada franca e livre. Veja a programação em www.bienalbrasildolivro.com.br.

Roger Hodgson

Nando Reis e Kleiton e Kledir: 19 de abril Oswaldo Montenegro e Fernanda Takai: 20 de

A voz do Supertramp está de volta a Brasília após quatro anos. Hodgson realiza sua última turnê mundial em 2012. O show vem com músicas dos anos 70 como Give a little bit, Dreamer, It’s raining again, Take the long way home, The logical song, Breakfast in America e Fool’s overture. 28 de abril, às 21h, no Auditório Master do Centro de Convenções. Ingressos (inteira): Poltrona superior R$ 180; Poltrona especial R$ 240; VIP R$ 460. Classificação 16 anos. Telefone: 8432-3661.

Música

Bob Dylan Depois de passar pelo Rio de Janeiro, o cantor e compositor vem pela primeira vez a Brasília apresentar os seus clássicos como Mr. tambourine man, Like a rolling stone, Lay, lady, lay e Hurricane. O retorno acontece após ele ter se apresentado em 2008 no Brasil. 17 de abril, às 21h30, no Ginásio Nilson Nelson. Ingressos (inteira): Superior R$ 240; Pista R$ 280; Pista Premium R$ 500. Classificação 16 anos.

por Fernando Melo e Luiz Bueno, uma dupla de violões. Shows às quartas, quintas, sextas e aos sábados a partir das 21h. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 14 anos. Telefone: 3324-0599. Toninho Ferragutti: 4, 5 e 6 de abril Dudu 7 cordas: 7 de abril Trio madeira Brasil: 11, 12 e 13 de abril Grupo Zé da Guiomar: 14 de abril Paulo Sérgio Santos e Quarteto Brasília: 18, 19 e 20 de abril Grupo Takto: 21 de abril Duofel: 25, 26 e 27 de abril

Telefone: 4003-5588.

Brasília Big Band: 28 de abril

Clube do Choro

Duran Duran

Continuam as homenagens a Chico Buarque. O destaque neste mês é o Duofel, formado

A banda toca pela primeira vez em Brasília. O show será feito pelos quatro integrantes da

abril Capital Inicial: 21 de abril Chico César e Caetano Veloso: 22 de abril

Roberta Sá A cantora apresenta o quinto disco de sua carreira, Segunda pele. O álbum tem composições de Caetano Veloso, Wilson Moreira, Lula Queiroga. Além das canções do álbum novo, Roberta vai levar ao palco músicas de outros discos, como Braseiro, Que belo estranho dia pra se ter alegria, Pra se ter alegria e Quando o canto é reza. 29 de abril, às 20h, no Teatro Nacional. Ingresso (inteira): R$ 60. Classificação 16 anos. Telefone: 3325-6256.

Zeca Baleiro O cantor e compositor apresenta a turnê de seu nono álbum, O disco do ano. O show tem no repertório canções como Nada além, Tattoo, Último post, Ela não se parece com ninguém e Calma aí, coração. 12 e 13 de abril, às 21h, no Teatro Nacional. Ingresso (inteira): R$ 160. Classificação 14 anos. Telefone: 3325-6256.


Arte, Cultura e Lazer

exposições

A natureza em selos A mostra reúne selos lançados pelos Correios com o tema meio ambiente, com foco na flora e na fauna brasileiras. As imagens trazem informações do edital, características técnicas, curiosidades, ampliações de selos e de seus detalhes, objetos e peças do ambiente da filatelia, como carimbos, envelopes de 1° dia, folhas especiais. Até 8 de abril, de terça a sexta, das 10h às 19h, no Museu Nacional do Correios. Entrada franca e livre. Telefone: 3426-1000.

Arte radical As telas de grafite foram feitas por 44 artistas de rua, a maioria obras especialmente produzidas para a mostra. Mistura a arte urbana com esportes radicais. No local foram montadas duas pistas de esportes radicais. Até 29 de abril, de terça a domingo, das 9h às 19h, no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco). Entrada franca e livre. Telefone: 3327-2027.

A trilogia END, de Carlos Casas Após sete temporadas consecutivas no Rio de Janeiro, a exposição chega a Brasília apresentando uma retrospectiva completa dos dez anos de trabalho do cineasta espanhol Carlos Casas. São 11 obras de fotografias e

vídeos. Casas apresenta suas pesquisas de lugares e vidas extremas de nosso planeta, um olhar transversal sobre a Sibéria, o Uzbequistão e a Patagônia. Até 14 de abril, de segunda a sexta, das 11h às 21h; sábados, das 9h às 14h, no Espaço Cultural Instituto Cervantes. Entrada franca e livre. Telefone: 3242-0603.

Barão e a caricatura Em celebração ao centenário da morte do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, o Ministério das Relações Exteriores e a Fundação Alexandre de Gusmão trazem a exposição para capital. São caricaturas pertencentes à coleção que ele construiu no período em que foi ministro das Relações Exteriores (1902-1912). A coleção contém mais de mil peças. Até 20 de abril, de segunda a sexta, das 10h às 17h, no Instituto Rio Branco. Entrada franca e livre. Telefone: 3411-6800.

Daquilo que me habita Oito intervenções ocupam a área externa do CCBB. Os artistas foram convidados a pensar as macrorrelações, os ciclos sustentáveis, as formas de convivência e a afetividade. Trabalhos de Carla Barth (Porto Alegre), Eduardo Srur (São Paulo), Igor Vidor (São

Paulo), Guilherme Teixeira (São Paulo), Isabel Caccia (Argentina), Lia Chaia (São Paulo), Matias Monteiro (Brasília), Julie Guiches (Bélgica), Benoit Lorent (França) e Tom Lisboa (Curitiba). Até 13 de maio, de terça a domingo, das 9h às 21h, no CCBB. Entrada franca e livre. Telefone: 3108-7600.

Flávio de Carvalho: a revolução modernista no Brasil

O público pode conhecer detalhes da vida e da obra do arquiteto, engenheiro, desenhista e escultor Flávio de Carvalho (1899-1973) em painéis interativos multitouch com imagens, vídeos, documentos, textos escritos pelo próprio artista ou críticas e reportagens da época. Até 29 de abril, de terça a domingo, das 9h às 21h, no CCBB. Entrada franca e livre. Telefone: 3108-7600.

Interlúdios de Brasília Em 33 aquarelas, o artista Joaquim da Fonseca mostra paisagens que revelam o cotidiano da população das cidadessatélites e do chamado Entorno. Ele também retratou os pontos turísticos de Brasília. Até 26 de abril, sábados e domingos, das 9h às 17h, no Gabinete de Arte da Presidência da Câmara dos Deputados. Entrada franca e livre. Telefone: 3215-8081.


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Habitação/Residência São 600 metros quadrados com pinturas, quadros, vídeos, fotografias, colagens, desenhos, azulejos, painéis, histórias em quadrinhos, entre outras formas de expressão. Com obras de 25 artistas de Brasília. Até 26 de junho, de segunda a sábado, das 10h às 22h, na Hill House – Shopping Casapark. Entrada franca e livre. Telefone: 3363-5273.

Juan Pratginestós Nascido em Barcelona, Espanha, vive desde 1962 em Brasília e fotografa desde o início dos anos 80. A mostra apresenta 25 imagens da exposição Janelas que passam, realizada em 2005, sobre passageiros de ônibus em Brasília. Até 24 de maio, de segunda a sexta, das 14h às 19h, no Espaço Cena (205 Norte). Entrada franca e livre. Telefone: 3349-6028.

Mestres da gravura na coleção da Fundação Biblioteca Nacional

São 171 gravuras de 81 artistas que retratam quatro séculos, do século 15 ao 18. Com obras de mestres como Albrecht Dürer (Alemanha), Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Holanda), Giovanni Battista Piranesi (Itália), Jacques Callot (França), William Hogarth (Inglaterra) e Francisco José de Goya y Lucientes (Espanha). Até 22 de abril, de terça a domingo, das 10h às 19h, no Museu Nacional dos Correios. Entrada franca e livre. Telefone: 3426-2955.

Pixinguinha Projeto em parceria com o neto do artista, Marcelo Vianna, que colocou à disposição o acervo familiar. A exposição está dividida em 12 salas e o visitante pode ver de perto o saxofone e a flauta usados por Pixinguinha (1897-1973), documentos pessoais, gravatas, chapéu, discos, condecorações e principalmente fotografias e vídeos que recuperam imagens de época. Até 6 de maio, de terça a domingo, das 9h às 21h, no CCBB. Entrada franca e livre. Telefone: 3108-7600.

Zeróis: Ziraldo na tela grande São 44 telas em grandes formatos, resultantes de mais de três anos de trabalho do artista, executados a partir dos cartuns Zeróis, desenhados por Ziraldo na década de 1960. No local, o público poderá conhecer de perto os personagens que estão transfigurados em pinturas que ampliam seu significado nas releituras de artistas como Picasso, Velázquez, Goya, Dali, Grant Wood, Hopper, Mathieu, Lichtenstein ou Warhol. Até 29 de abril, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional. Entrada franca e livre. Telefone: 3033-2912.

Teatro

A fabulosa comédia – sobre vovós e lobos

Reúne personagens de diversos contos de fadas, em uma trama com muito humor, marcada por acontecimentos fabulosos e personagens carismáticos. Com visão moderna e adulta, a Cia. SeteBelos utiliza diversas linguagens para contar a fantástica história. 5 a 15 de abril, de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h, no Teatro Nacional. Ingresso (inteira): R$ 50. Classificação 12 anos. Telefone: 3034-6560.

A mecânica das borboletas Dirigida por Paulo de Moraes. Com Suzana Faini, Eriberto Leão, Ana Kutner e Erom Cordeiro, a peça de Walter Daguerre narra a história de gêmeos que se separam na adolescência e se reencontram 20 anos depois, remexendo no delicado terreno do passado e desestabilizando as certezas que cada um criou para si. Até 8 de abril, quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h, no CCBB. Ingresso (inteira): R$ 6. Classificação 14 anos. Telefone: 3108-7600.

Bagatelas Em uma fazenda nos Estados Unidos ocorre um assassinato. Um promotor, um delegado e o fazendeiro vizinho vão investigar e levam suas mulheres. Enquanto eles procuram as pistas, elas ficam na cozinha, observando o cotidiano da casa e imaginando o que pode

ter acontecido. No elenco, Adriana Lodi, Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, João Antonio, Sérgio Fidalgo e William Ferreira. 26 de abril a 13 de maio, de quinta a domingo, às 20h30, no Espaço Cena (205 Norte). Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 14 anos. Telefone: 3349-3937.

Hair spray O musical da Broadway foi adaptado pela Cia. Teatral Néia e Nando. A jovem Tracy Turnblad decide correr atrás da fama. A chance surge quando Corny Collins, apresentador influente, abre uma vaga em seu programa. Porém, a menina depara-se com o seu primeiro e maior obstáculo, o peso. A diretora do programa não aceita a garota com a silhueta “incomum”, mas ela conquista a vaga e torna-se celebridade. Até 29 de abril, sábados, às 21h; domingo, às 20h, no teatro da Escola Parque (307/308 Sul). Ingresso (inteira): R$ 30. Classificação livre. Telefone: 8199-2120.

Modéstia O texto faz parte da obra do argentino Rafael Spregelburd. A comédia dramática conta duas histórias paralelas: uma na Argentina de hoje, outra numa aparente Rússia do século 19. A primeira coloca em cena quatro personagens, no apartamento de um condomínio de classe média. Eles se envolvem numa rede de confusão de identidades e traições amorosas. Na outra história, o tema é a criação artística e a luta pela sobrevivência. Com Gilberto Gawronski, Isabel Cavalcanti e Bel Garcia. 19 de abril a 13 de maio, de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h, no CCBB. Ingresso (inteira): R$ 6. Classificação 12 anos. Telefone: 3108-7600.

Nem um dia se passa sem notícias suas Texto de Daniela Carvalho. O ator Edson Celulari divide o palco com seu sobrinho Pedro Garcia Netto. São dois irmãos que tentam acertar seus ponteiros com o tempo. Joaquim (Celulari) acabou de perder o pai e agora tem que se desfazer


Hermínio Oliveira

Arte, Cultura e Lazer

Poesia Parece pegadinha do Mallandro. Mais um evento cancelado pela Secretaria de Cultura, o Bregalândia, festival de música brega que ocorreria em 30 de março e 1° de abril, em comemoração aos 41 anos de Ceilândia. O evento ia reunir Reginaldo Rossi, Preta Gil, Amado Batista, Odair José e outros. A justificativa para a suspensão foi o “contingenciamento de recursos públicos”, tanto no governo do DF quanto no federal. Já escutei isso antes. Sim. No ano passado, a 2ª Bienal Internacional de Poesia foi cancelada sob o mesmo argumento. Só

De paetês

pode ser falta de planejamento desses recursos. E quem não se lembra do vexame

Por trás da ilusão da beleza de um bordel, dançarinas, garçons, prostitutas e outras personagens da noite dividem histórias, encontros e desencontros. O espetáculo une circo, teatro, dança e música ao vivo. Uma disputa pelo amor do garçom se transforma em um sensual tango e um sonho romântico é interpretado pelo enlace dos corpos no trapézio. No elenco, Ana Sofia Lamas, Cyntia Carla, Diogo Mafra, Emanuel Santana, Lívia Bennet, Pedro Martins, Raphael Balduzzi e Súlian Princivalli. 5 a 8 de abril, de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h, no Complexo Cultural Funarte. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 18 anos. Telefone: 3322-2076.

da virada do ano? A Secretaria de Cultura anunciou Michel Teló e a bateria da Escola de Samba da Aruc, mas as atrações nem tinham sido fechadas. O evento chegou a ser suspenso pelo Tribunal de Contas por suspeitas de superfaturamento. Só foi liberado depois da revisão do edital, com redução dos gastos. Que vergonha! Com a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Literatura, de 14 a 23 de abril, espero que seja

de todas as coisas que pertenciam a ele. Ao lado do caçula Juliano, é surpreendido por uma revelação que mudará todo o seu passado. 7 e 8 de abril, sábado, às 21h; domingo,

soldado vindo da guerra (Similião Aurélio). Até

diferente. Na Esplanada dos Ministérios,

22 de abril, sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h, no

será construído um espaço de 50 mil

Teatro Goldoni (208/209 Sul). Ingresso (inteira): 20.

metros quadrados, com área coberta. Re-

Classificação 16 anos. Telefone: 3443-0606.

almente parece que vai ter boa estrutura. A pergunta é: Por que não utilizamos os

às 20h, no Teatro Nacional. Ingresso (inteira): R$ 80. Classificação 14 anos. Telefone: 8403-4800.

O cozido Baseado no clássico da comédia italiana O Mosqueta, de Angelo Beolco Ruzante, e dirigido por Alessandra Vannucci. O personagem central, vivido por Abaetê Queiroz, é um homem simples, que se disfarça de rico para flagrar uma possível infidelidade de Betia, sua mulher (Camila Meskell). Ela percebe o truque e o castiga, entregando-se a Tonin,

Quinta categoria A peça é uma extensão do programa exibido pela MTV, baseado em jogos de improviso. O grupo é formado por Paulinho Serra, Tatá Werneck, Felipe Ruggeri e um convidado surpresa. Os atores ditam as regras e a cada jogo a plateia sugere temas como lugar, tempo e circunstância. A partir daí começa a brincadeira de improviso. 27, 28 e 29 de abril, às 20h, no Teatro dos Bancários. Ingresso (inteira): R$ 60. Classificação 14 anos. Telefone: 3262-9090.

espaços distribuídos pela capital, que já estão prontos e foram feitos justamente para acolher a cultura de Brasília? Acredito que assim o dinheiro seria mais bem aplicado, principalmente se fosse investido na melhoria da estrutura permanente da cidade. E não haveria tantos cancelamentos, né?

Priscila Praxedes É jornalista e queria ter ido ao Bregalândia


Arquivo Dell’Arte Produções

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Circo Teatro Uma babel Sucesso de formada recentes novelas por 53 artistas e do thriller de 23 nacionalidades, Assalto ao Bancoo Central, canadense o ator Cirque Eriberto du Soleil desembarcou Leão é a maior trupe emcircense Brasília do como munum do edestaques dos armou tenda da peça no estacionamento A mecânica das do Parkshopping, borboletas. Com direção até 4 dedemarço, Paulo Moraes para efalar texto doinédito mito dedeÍcaro Walter e daDaguerre, alma nômade a que existe dentro montagem, em cartaz de cada até um 8 dede abril, nós.no Premissa CCBB, aposta sintetizada numa na releitura origemcontemporomena do nome, rânea do mito Varekai, romano que dos significa: irmãos “onde Remo equer Rômulo, que seja”. para contar a história de uma Em cena, família simples um festival do interior de cores do sul vivas doePaís movimentos arrojados despedaçada pela perda, conduzidos por sentimentos por artistas de culpadee talento sonhos ímpar inatingíveis. e números surpreendentes, “Gosto da sincronicidade entre elesdos o assombroso fatos dessa

Virsky

voo aéreo história familiar dos russian com a swings, minha vida, apresenaliada

Apresentado pelo Balé Nacional da Ucrânia, uma das principais companhias de dança da Europa. São 70 artistas. Com orquestra ao vivo, os bailarinos executam movimentos complexos no ritmo da música, mantendo a sincronia entre eles, uma dança folclórica ucraniana. O espetáculo é uma homenagem ao seu fundador, Paulo Virsky. 26 e 27 de abril, às 21h, no Teatro Nacional. Ingressos (inteira):

desafiam sos”, conta a lei o ator, do espaço pela segunda e dos pássaros. vez em

àtação qualidade formada magistral por 12do demônios texto, que alados pospendurados sui questionamentos em pranchas que me de metais são valioque

Setores 1 e 3 R$ 120; Setores 2 e 4 R$ 160. Classificação 14 anos. Telefone: 9639-1495.

Tambémcom Brasília impressionante uma peça. “Adoro é a performance Brasília, é domelhor o trio chinês público Meteors, do Brasil. na qual Rocktrês ‘n’ inroll e fantes chineses literatura caminham fazem lado malabarismos a lado nestacom cicordas presas dade.” Eriberto a pesadas encarna esferas. em cena Rômulo, Mas nada escritor detira ficção a magia científica e o encanto influenciado das apresentações pela literatura beatnik. dos palhaços, a eterna alma circense, Ainda jovem, ele e são pega eles asque economias roubamda

Outros

1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura Debates, lançamentos de livros, exibições de filmes, exposições, palestras, encontros e shows. 14 a 23 de abril, na Esplanada dos Ministérios (entre o Museu e a Biblioteca Nacional). Entrada franca. Classificação e programação em www.

sem seu coração. Para reencontrá-lo e, por consequência, todo o seu amor, ela se lança numa profunda e fantástica aventura. No elenco, Betto Serrador, Danilo Timm, Jules Vandystadt, Kiko do Valle, Tatiana Kohler e Wladimir Pinheiro. 13 e 14 de abril, sábado, às 16h e às 18h; domingo, às 16h e às 17h, no CCBB. Entrada franca e livre. Telefone: 3108-7600.

bienalbrasildolivro.com.br.

Um pouquinho de Brasil

Fedegunda

Um passeio musical por ritmos da música popular brasileira, como a bossa nova, o forró, o chorinho e o samba, com Naiara Morena. Ela também conta histórias de grandes compositores nacionais. 14 de abril, às 21h, no

O espetáculo infantil narra, por meio das linguagens cênicas do circo, da dança contemporânea e do canto lírico, a fábula de Fedegunda, jovem encantadora que ama tudo à sua volta, mas que, repentinamente, se vê

Teatro do Espaço Cultural Mosaico. Ingresso: R$ 20. Classificação 14 anos. Telefone: 3032-1330.

a cena em família e resolve Varekai. ganhar Unindo o mundo. comédia Deixa apastelão mãe (Suzana com sofisticada Faini) presa expressão à memória cor-do poral, a falecido marido dupla Steven e o irmão Bishop gêmeo e Mercedez Remo Hernandez (Otto Júnior), entra queem herda cena não para só dar o ofício vida a ummecânico de mágico sem do pai, talento mase também sua assistente a atrapalhada. namorada (Ana Hilário Kutner) o número de suaem alma que fraele duela pela terna. Ao voltar, atenção 20 da anos plateia depois, e daencontra mira do canhão um lar marcado de luz, pelo sem espectro sucesso.da ausência eQuando do ressentimento. a narrativa dos “Vejo enredos o personagem do Cirque duum como Soleil Fausto abreque brecha vendeu em meio sua alma às superficiais após o sucesso camadas e retorna de erudição, ao quilômetro a empatia com para zero o público recuperar é imediata o sangue e espontânea. que secou de suas veias”, define o ator.

Lúcio Flávio É jornalista especializado em cultura


Banquetes e botecos } ilustração Rômulo Geraldino romulog2000@yahoo.com.br

Por Marcela Benet marcela.benet@gmail.com

Quer conhecer uma nova casa de carnes? Vá ao El Negro

Ilustração feita com café e água em papel canson

1 2 3,5 4 5 Em Brasília há uma nova casa especializada em carnes, El Negro, em uma área privilegiada, com vista para o Parque Olhos D’Água. Projetada pela arquiteta Isabel Veiga, tem capacidade para 150 lugares. O ambiente combina madeira, vidro e concreto, dando atmosfera chique e despretensiosa, perfeita para almoços de trabalho, lazer com amigos e com toda a família. Tudo de muito bom gosto, sem excessos. O restaurante elegeu a raça Angus para ser o carro-chefe da casa, especializada em cortes premium de carnes argentinas e uruguaias, assadas em parrillas. O chef Alexsandro Panta fez estágio de três meses na Argentina para se aperfeiçoar nesse preparo, além de ter contratado o consultor argentino Fernando Ariel Soares para treiná-lo. Tudo para alcançar a excelência, e conseguiram! O cardápio oferece vários tipos de carnes, como bife ancho, ojo de bife, asado de tira, bife de chorizo e costela, e até peixes, massas e risotos. O ojo de bife veio no ponto perfeito e derretia na boca, estava maravilhoso. Já do bife de tiras não posso dizer o mesmo, pois estava um pouco rançoso. De entrada, pedi uma empanada de queijo, mas não tinha. Pedi de bacalhau e também não tinha. Aí decidi partir para a de carne mesmo, a tradicional. Estava gostosa, mas um pouco ressecada. Os acompanhamentos são simples e saborosos: polenta com parmesão, farofa de ovos e cebola temperada, batatas fritas temperadas com sal, orégano e pimenta calabresa. Dizem que o purê de abóbora é um espetáculo, mas ainda não tive o prazer de experimentar. Tem uma salada juliana, com alface americana, batata palha, alcaparras, com molho mostarda, que é uma delícia! A carta de vinhos é boa, com alguns vinhos argentinos e chilenos interessantes, mas nada espetacular. Senti falta de opções mais ousadas, que, diga-se de passagem, faltam na grande maioria dos restaurantes de Brasília. De sobremesa tem petit gateau de doce de leite e de chocolate, doce de leite e sorvete de creme. Romeu e Julieta ganha uma versão portenha, que vem com queijo de coalho assado com açúcar e canela. O restaurante é muito bom, tem os tropeços normais de todos os restaurantes novos, atendimento ainda meio perdido, mas atencioso, um deslize aqui, outro ali, mas vale a pena conhecer.

SCLN 413 Bloco C Loja 21 (61) 3041-8775 Domingo: 12h – 15h Segunda a sábado: 12h – 15h e 19h – 0h


FOTO: FRANZ TAGORE


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Revista meiaum Nº 12  

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