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Nยบ 1 2ยบ semestre 2015


s.m. Folc. Cântico rogatório que se dirige a certos orixás nos candomblés, quando se deseja aplacar-lhes a fúria ou nas situações difíceis particulares ou coletivas. Malembe, na Angola também vai de advérbio: devagar. E que cabe na expressão malembe-malembre: o nosso tradicional “devagar se chega longe”.


Editores Guilherme Delgado + Carlos Nascimento + Débora Gil Pantaleão Diagramação e identidade visual Ícaro Medeiros de França Capa Lívia Costa Revisão Fred Caju

Impresso em setembro de 2015, em João Pessoa/PB.


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Literatura contemporânea, que bicho é esse? É provável que a maioria já saiba que esse bicho é o risco da aposta. E que, como toda aposta, é passível de extremos: do gozo ao fracasso de uma descoberta. Bem verdade, literatura contemporânea é bicho passional. Quem, senão o prosador, o poeta, tem hoje linha, agulha e verbo para teimar com a musa? E João Pessoa está cheia de teimosos. O escritor pernambucano Marcelino Freire a tomou por “uma cidade de poetas”. Alguns chegam mesmo a acusá-la de ter “mais poeta que gente”. Mas descontada a possibilidade real de cometermos esse crime, ainda nos falta articulação. Por razões diversas, nossas movimentações culturais parecem sempre a um passo de se firmar. E apesar de sermos essa cidade de poetas, de saber nome e endereço do bicho da literatura contemporânea, travamos diante da pergunta: “e o que há de novo? Quem são os jovens autores e provocadores da terrinha?”. É que essa pergunta geralmente vem na esteira da merecida atenção dispensada a nomes confirmados. Desafia nosso fôlego. Que ninguém seja ingênuo de discordar da reconhecida qualidade de nomes como Sérgio de Castro Pinto, André Ricardo Aguiar, Águia Mendes, Linaldo Guedes, Antônio Mariano, Hildeberto Barbosa Filho e William Costa, mas também Maria Valéria


Rezende, Lau Siqueira, Expedito Ferraz Júnior, Amador Ribeiro Neto (que se não nasceram aqui, tornaram-se PB por acolhimento) e tantos outros que há tempos transpiram por nossa literatura. A lista é longa, e queremos mais. Quem vem chegando? Isso porque a literatura e as artes na Paraíba seguem com vontade de dizer. Em fevereiro deste ano, tivemos uma amostra disso com a oficina de criação literária promovida por Marcelino Freire. Na ocasião, André Ricardo Aguiar disse ter tido a sensação de que um “véu havia caído”. Parece ter sido um sentimento partilhado por todos nós. Jovens escritores, por vezes ainda tímidos de suas criações, mas já tão cheios de encher gavetas. Escritores que pela primeira vez puderam encontrar seus pares – seja de labuta, seja de geração. Havia ali não apenas uma vontade de dizer, mas de dizer bem. É dessa provocação que nasce a revista Malembe. Com vontade de ser mais um ponto articulador das artes de João Pessoa. Com o desejo de dialogar dentro de mais um espaço possível com a fila de inquietos presente na terrinha. E com a teimosia de imprimir essa produção. Dentro do corpo dessa 1ª edição, corpoeticidade. Temos cinco poetas, em sua maioria publicando pela primeira vez, e uma contista, que participa também com um artigo a respeito da já citada oficina e o que ela encontrou por lá. Destacamos, ainda, a bela arte de capa, assinada por Lívia Costa, e a diagramação e identidade visual criada por Ícaro de França. Por fim, damos início à nossa seção de entrevistas com o poeta Miró, de Recife, a quem agradecemos pela generosidade do


encontro, em pleno Mercado da Boa Vista. Ali, ouvimos Miró falar sobre os personagens de sua poesia, o seu olhar de cronista urbano, além de seus próximos projetos e influências. Graças a todos esses colaboradores, a revista Malembe deu largada. Vamos juntos?

Os editores


Meio-dia

Nesta hora como um par de tardes amarrado ao azul, cada qual, lados do crânio, tinem a alternância viciada trågica no sol.


Voos

Pleno voo, falha nas asas da รกguia: acidente (nรฃo) corrente de ar quente ralha. Caรงada sem queda; sรณ saceio ave. Acerta forte, pega ligeiro... (uma minhoca sobe)


Nuvens

O fato de serem únicas sempre muda e toda essa passagem faz um belo acordo: passos no espaço invisível fixo por um trânsito de ir longe arranjo. Cabem delas ao observar da vista em nossa projeção (impetuoso) um manto de enganos que se arrasta calmo. Note-se que elas não descem mais do que podem acima de nós há um chão que as nuvens pisam.

____________ Carlos Araújo (1987) é natural de Santa Luzia/PB e vive em João Pessoa/PB desde 1999. É graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde atualmente faz graduação em Letras (Português). Desde 2011 realiza edições caseiras de livretos que escreve – momento em que tomou corpo uma prática literária com a poesia. Atualmente trabalha na publicação de seu primeiro livro, previsto ainda para 2015. Além de algumas participações em fanzines e jornais estudantis, essa é a sua primeira publicação em uma revista literária.


A máquina cefálica dos ossos não trabalha distante dos [trópicos, desde a chegada de Dante em nossas terras. Não existe luminosidade suficiente para a comunicação. A carência transformou o Leviatã em Buda. Mesmo com tantas recompensas a se ganhar, todos os Bartolomeus que respiram nesses ares, preocupam-se [apenas com a permanência da chama existente em seus olhos: [Coisa mantida pela regularidade do pulso: 64 batidas por minuto: Eis a [fórmula de nossa sobrevivência


Ă€ queima-roupa

O suspiro tateia a fala. MilĂ­metros se encaram. No disparo, se calam. Foi-se o atirador.


Como sabes

Vir seda, brochura, conterrânea de cinzas de cigarro. Aras... Raras... Gel de pentear cabelo.

____________ Carlos Nascimento (1995) é natural de Recife/PE e atualmente reside em João Pessoa/PB. Teve alguns de seus poemas publicados nos fanzines NauVoadora, Sue, Telégrafo da Noite, Gato Preto, Folhas Secas e Abstinência. Compõe músicas, é aluno do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), lançou os álbuns Zine (fanzine feito em parceria com Jonatas Onofre e Zizo) e Projétil Kamikaze (este em parceria com Lifeson Bandeira, Raul Albuquerque e Jonatas Onofre). Mais em: http://deberna.blogspot.com.br/ e https://soundcloud.com/proj-til-kamikaze


brainstorming

prédio porta presídio lá fora ouço o grilo o gozo averso aflora a pálpebra lenta que deságua em ti engolido por grilos


cabeรงa

ao avesso escorre o rio barrento reverso falho defeito a cabeรงa morta cabeรงas sรฃo para explodir


em retorno de, contorno

cuspi na cara do tempo o tempo olhou de volta cuspiu na minha e lambeu cuspi na cara do tempo o tempo olhou de volta cuspiu na minha e lambeu o tempo não está para brincadeira quando ele cospe na sua cara e lambe em seguida

____________ Débora Gil Pantaleão (1989) nasceu em João Pessoa, onde reside. É mestranda (pós-graduação em Letras) na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e colaboradora no suplemento “Correio das Artes” do Jornal “A união”. Estreou em livro em janeiro deste ano, com Se eu tivesse alma (poesia).


Caligrafia para Adília

Adília não é o nome de Adília quem diria nascida tal de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira nem precisa Adília dizer um nome impraticável pra poesia Adília é poeta a família de Adília sabe a família de Adília acabará nela exatamente com ela Adília sabe disso muito bem Adília não deu em nada só em gatos brincando com baratas um poeta numa cela à espera de Diderot e Diderot está morto uma rosa embolorada isso a família de Adília não quer não se chora uma ninhada de gatos não se continua a [tradicional Fidalgo de Oliveira numa cela assim como não se chama de neto um bolor todo um brasão familiar (extinto) depois de uma poeta vai chegar o dia em que tudo acabará em Adília que dia enorme pra poesia


Caligrafia para Murilo

Começo por habitar século futurista Em seguida tomo lições de modernismo Convoco as fábulas de menino Arruino qualquer possibilidade de tradição Proponho diálogo com os gigantes importados no jardim Permito que alimentem meus sonhos Fujo do internato, abrigo-me em Roma De minha janela aprendo balé e levitação Coleciono Ismaéis Nerys com esperança Tomando sempre nota no caderno arbitrário de imagens Meus livros de cabeça indicam já no título vocação para [contrários Me dói o talento não escrevê-los


Caligrafia para Borges

Conter a noção de sonho pra dar sentido de tato; a maçã da palavra não existe, mas seu peso, sua cor, seu formato.

____________ Guilherme Delgado (1986) é natural de João Pessoa/PB, onde reside. É bacharelando de Tradução (Inglês) na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Os poemas aqui reunidos fazem parte de uma série intitulada Caligrafias. Essa é a sua primeira publicação em uma revista literária.


quando um romero britto estiver deteriorando se verรก lento que arte reside abaixo das cores por trรกs da tela dos traรงos na casca da parede no museu


Da baía, formas

I o dinossauro imóvel fornece os termos da pedra e seus alardes uma cobiça de vontades atina o mar o barco a lança da prancha cristalina. II a Rainha da cana na metade a outra fruta. III o sol tomando a pele pra Judas a pele traindo Jesus a pele é gaga meu irmão era gago meu irmão encenou Judas numa peça da escola no momento de falar na santa ceia, titubeou. a memória é um Judas gago.


o alça pão dos signos pela se janela deixo entrar mal trato cães aparo caos na linha infinda sombra de uma avenida engarrafada que dão esses de asas amassadas num banco de passat molhando leis pelos sinais brilhando astúcia a bronzear medo na viva pele crono kilos pesam amanso fuga de um dos olhos que sonha atrás das pedras atento ao dito silêncio visto dervixe titubeia


estar num dia como se fosse o mesmo bêbado que brotas da noite luz aurora de esquinas a ofegância dos ônibus, centro das fragrâncias nucas anônimas em conluio com se sabe o quê lá percorro barulhos sinais de socorro maria que de graça não acha nada viva no espaço apertado das hora paradas rolantes em fila vã solidão dos degraus em descida o velho ovo, gema do caos como se fosse o mesmo estar num dia

____________ Pedro Araújo (1987) é natural de João Pessoa/PB e reside em Niterói/RJ. É graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre e doutorando em Estudos da Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Alguns de seus poemas se encontram numa publicação coletiva e artesanal, intitulada “A porta a tropa”. .dando olhadas sobre os ombros, a vida é um sempre, daqui pra frente.


Aquilo que Maura não me deu

Quero começar falando de Maura pelo momento em que Marcelino Freire apontou o dedo para mim e anunciou que minha musa inspiradora seria “Maura Lopes Cançado”, com o acréscimo: “o Cançado dela é com cedilha”. Uma pesquisa rápida me informou que a Cançado-com-cedilha era escritora, mas principalmente louca. Aquela eleita minha dama literária passara a maior parte da vida em hospícios, até o dia em que matou outra interna e foi condenada – nessa ocasião, por homicídio, mas eu logo viria a descobrir que ela estava graciosamente condenada por tudo e para tudo desde que veio ao mundo. Marcelino disse que tinha um sexto sentido para essas coisas. Tolice minha foi querer duvidar. Eu, que à primeira vista achei cômico receber de presente a companhia de uma louca, pouco a pouco fui me descobrindo Maura. Ler seus relatos de família, de ofício e de hospício foi como abrir a catacumba onde ela repousava e vê-la levantar-se serena, venenosa e elegante, para me conceder a honra de uma conversa. Nenhum autor antes de Maura, falecido ou não, jamais me parecera tão vivo e tão cheio de vida em suas linhas autobiográficas, desde sua infância sob a proteção do pai até seus caprichosos relacionamentos com psiquiatras e sua


inevitável queda no abismo de sua mente ao mesmo tempo brilhante e fatalmente perturbada. Fui me descobrindo Maura conforme descobria Maura, descobria sua inventividade quando criança, criando, para seu próprio deleite, histórias sobre a origem de sua família em terras longínquas que na verdade jamais pisaram, da mesma forma como eu achava perfeitamente natural dizer que meu pai, um completo desconhecido durante minha infância, havia sofrido um acidente de carro ou sumido numa operação arqueológica. Descobri Maura assistindo, ao seu lado, seu irmão enlouquecer e falecer, enquanto ela, em suas palavras, não entendia bem, como também eu não entendi bem os acessos e os “adeus”, menos definitivos ou não, que compuseram minha família. Descobria Maura, sua doçura e seu bom comportamento quando jovem e a surpresa que residia por baixo daquele encanto: uma inteligência e sagacidade que julgavam mais do que um rosto adorável poderia conter e que muitas vezes pareciam não pertencer à mesma mulher que decidia se casar aos quatorze anos, separarse aos quinze e internar-se deliberadamente em um manicômio aos dezoito, alegando carência. A mesma mulher que te olharia nos olhos, acenderia um cigarro, afirmaria que era a plena dona de si própria, era, sim, a mulher que escrevia longos ensaios sobre a loucura, cujo talento para a escrita era nítido e cujas capacidades intelectuais eram reconhecidas por seus próprios psiquiatras como superior às deles; mas era


também a mesma mulher que escalava, em seus surtos, os muros do hospício que ela dizia ser Deus. Tenho plena convicção que muitos não veriam nas ações de Maura qualquer sentido, mas Maura não nasceu para fazer sentido. Maura nasceu para fazer: arte, prosa, poesia, tumulto, baderna – mas não sentido. E que honra foi ter Maura me mostrando o bem que o sentido não faz.


Diálogo com a m(ed)usa

Sentei com Maura para tomar um cafezinho no pátio do hospício em horário de recreação, e ela me disse, lúcida e sonsa, que era filha de russos, tinha uma irmã chamada Natacha e um tio chinês, que nasceu por acaso quando sua avó atravessava a cordilheira do Himalaia. Fiquei abismada: que coincidência! Foi lá por essas bandas que meu pai morreu pela terceira vez, soterrado em uma avalanche causada por um deslize de algum aventureiro suicida que, por sua vez, foi causado por muito álcool e nenhum método contraceptivo. Comentei que escalar o Everest é meio coisa de louco, não é? Vi Maura se inflar e agitar as asas, semianjo, semidemônio, perigosa – poderia ser capaz de matar alguém, talvez meu pai, de novo. Disse que ser louco, para ela – e a opinião dela era uma avalanche matando pela terceira vez as alheias, inclusive a minha – era chegar às coisas absolutas, aos mundos impenetráveis; era chegar ao hospício e chegar a Deus, que no dia do juízo final se revelariam ser tudo a mesma divindade. Acendeu um cigarro como quem acende um incêndio e foi além, me perguntou: sabe quem mais é Deus? Sei não, dona Maura. E eu lá me atreveria de saber alguma coisa? Mas seu dedo em riste me apontou o divino: as pacientes girando ao nosso redor eram Deus, afinal eram elas o hospício e o que era


o hospício, senão Deus? E o burburinho incoerente delas, não eram orações ortodoxas, clamando por piedade, mirando ameaças a Deus – ao Deus que são elas? E aquilo tudo, não era uma catedral erguida no abismo, e aquilo à minha direita, não era a perdição, e aquilo à minha esquerda, não era a loucura, não era a carência, não era o frenesi da eternidade, não eram dez dos muitos fantasmas de meu pai batendo a porta e indo embora, não era o fantasma de João, que era louco, que era irmão de Maura – ora, não era Maura? Parei desnorteada em plano irracional e ela soltou com uma elegância mordaz: – O Nada é um rio parado de olhar perdido. Não creio, mas se cresse seria bonito. E antes que eu pudesse indagar, me disse: – Nada, não. Só queria saber se você me ama. De repente levantou-se, disparou pelo pátio, trepou no muro, surgiram os psiquiatras correndo, os guardas correndo, a monotonia correndo, alguém tocando o abstrato, Maura abrindo o inferno e eu entendendo bem.

____________ Isabor Quintiere (1994) nasceu em João Pessoa, onde reside. É graduanda em Letras (Inglês) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Já inventava histórias antes de saber ler e escrever, e ainda guarda os muitos protótipos de livros, feitos de folhas A4 grampeadas e ilustradas, que criava quando criança (todos com capa, contracapa e patrocinadores fictícios). Encontra inspiração em Cortázar, García Márquez, Italo Calvino e nos demais (i)sabores do realismo mágico e da vida. Essa é a sua primeira publicação em uma revista literária.


10h da manhã, último dia de agosto. O encontro é no Mercado da Boa Vista, em Recife. Artesanato e comida típica em meio a bares e tendas dão o tom especial do lugar. A constante movimentação de pessoas dita o ritmo de um ambiente bastante familiar à poesia de Miró. Perguntamos se o poeta já tomou café. Miró confirma, mostrando a preocupação de quem agora se cuida. A solidão no bairro da Muribeca, agravada por uma dependência à bebida, o levou a uma internação séria este ano. Amigos não demoraram a aparecer, enchendo o poeta de alegria e dignidade. E Miró fala disso sem rodeios, sobretudo por reconhecer que com isso salvava a própria arte, cada dia mais reconhecida. No dia anterior, havia lançado a segunda tiragem de “aDeus”, seu último livro de poemas, editado pela Mariposa Cartonera, também de Recife. E tudo isso num curto espaço de tempo, já que a primeira tiragem havia esgotado na noite de lançamento, a menos de um mês dali. Animado, conta que está prestes a participar da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro – “único autor de Recife” – e que dará outra entrevista ali mesmo, no mercado da Boa Vista, para uma emissora de tevê no dia seguinte. Antes de começarmos a entrevista, atendeu o amigo que lhe pedia um “aDeus”. Mais uma ligação no celular e estávamos prontos. Ao garçom, só água.


A gente percebe que a cidade de Recife é um personagem marcante nos seus livros. De que modo Recife influencia e participa do seu trabalho, da sua poesia? Recife foi que me fez perceber as coisas do mundo, as injustiças, as alegrias. E tive contato com grandes poetas pernambucanos. Na verdade, meu grande lance era ouvir Roberto Carlos e meu sonho era ser jogador do Flamengo. Eu jogava bola – treinei no Náutico – e a poesia veio através de Maurício Silva, que eu fui adotado por ele. Na época, classe média morava mais próximo dos pobres, não tinham ainda construído seus arranha-céus. E eu fiquei amigo dessa família, que eram todos artistas. Quem ia lá era Lenine – que na época não tinha a menor ideia de quem era Lenine – Zé Rocha, o guitarrista Paulo Rafael, Maurício Silva, que era poeta e pintor. E eu era o menino de comprar cigarro, comprar o jornal, e fui adotado por eles – a gente morava perto. Como eu jogava muito bola, um dia faltou um cara pra jogar, e eu dei uma jogada lá parecida com o jogador do Santa Cruz, embora eu seja rubro-negro – ninguém é perfeito –; atacante do Santa Cruz, que era Miró. Aí o Maurício gritou: “É o novo Miró!”. E morreu o João Flávio, que é o meu nome mesmo: João Flávio Cordeiro da Silva. E daí Miró pegou e foi embora. Mas quem me mostrou primeiro poesia foi Maurício Silva, e depois disso eu comecei a perguntar a mim, “o que é isso?”. Eu não entendia o que ele queria dizer, tava muito longe da minha [compreensão]. Eu


tinha o quê, acho que quinze anos, e ele me mostrou um poema onde ele dizia assim: farda verde verde verde / farda verde verde verde / praça verde verde verde / e o coração bate continências / a toda mulher que passa. Aí foi a primeira vez que eu entendi o que ele quis dizer. Digo: é um soldado, de verde na praça, as mulheres passando, e ele paquerando. E a continência a toda mulher que passa. Pronto!

E essa parte mais urbana da cidade? Você não faz uma poesia distante das pessoas. Você usa elementos que estão ali, próximos de todo mundo. Como é que entra essa Recife, que todo mundo vê, na sua poesia? Sem menor cerimônia, talvez aí está o charme do meu texto. Hoje eu me considero mais um cronista do que um poeta. Tem imagem poética, mas eu estou indo mais pra crônica urbana. A crônica do que o engenheiro vê, o cobrador de ônibus sente, mas ele não tem nem o tempo de escrever e nem o exercício de escrever. Eu tenho uma coisa de observar muito. Tem uma coisa que eu digo sempre: eu não sou um escritor de passar três dias pra escrever um texto. Se me vier uma frase no meio da rua... Normalmente eu escrevo em bares – eu bebia, hoje não estou bebendo mais – mas mesmo assim, o bar é o lugar onde eu vejo muita coisa. Eu escuto a conversa do bar, eu vejo um bêbado falando, vejo um cara conversando com a namorada, reclamando, vejo um cara no celular... E quando me vem a


frase, eu não demoro três dias. Sempre ando com caneta e papel. E o que acontece: eu começo a escrever. Por exemplo, o poema Elza caga na rua, no Largo de Santa Cecília, ela tava cagando mesmo na rua. Eu costumo dizer: não é ficção, eu vi! Perguntei pro cara do bar: ela tá cagando ali? Aí o dono do bar disse: todo dia, de onze horas. Aí eu pirei. No outro dia, fui lá, me sentei. Lá em São Paulo, onze horas da manhã, todo mundo andando, e a mulher cagando na rua. E aí eu me sentei do outro lado e escrevi um texto que ganhou um prêmio, um concurso que tem em São Paulo chamado “Fale daqui quem não é daqui”. Ela sentada e eu escrevendo. Muita gente não acredita, mas foi na hora. Eu fiz: Elza caga na rua / no Largo de Santa Cecília / não limpa a bunda / nem por isso morreu ainda / a guarda metropolitana não ousa prendê-la / não há nada no código penal / que diga que cagar em via pública é crime / e se tivesse, Elza cagaria do mesmo jeito / dizem que Elza não tem juízo / os sem juízo / são imunes perante Deus e a polícia / e nem sequer sabem da existência de papel higiênico. Então, se eu demorasse, o poema não sairia. Aí, eu acho, é onde tá o cronista. De pegar a palavra. Eu não deixo um poema pra amanhã. Eu posso guardar uma frase e depois de quinze dias, um mês, amarrar com outra. Mas pra eu ficar lutando, não. Eu fico lutando na hora. Até sair a segunda frase, até acontecer outro fato. Eu costumo dizer que me dá uma TPM literária quando não escrevo o poema logo (risos). Me dá uma agonia, a ponto de pular do térreo, como eu digo num poema. Eu acho que a crônica é [isso]. Criar dentro do fim, criar dentro de onde


você não imagina que pode criar. Pra mim, uma das funções da poesia, é criar onde o indivíduo nunca imaginou que o cara ia criar, como uma mulher não limpar a bunda e não morrer. E o poeta acha isso aí. Ela não limpa a bunda, mas vive. E depois a pessoa vir dizer: “pô, esse cara é louco”. Como a diretora do colégio disse: “mas o senhor não poderia usar outra palavra, ao invés da cagar?”. E eu disse: “minha senhora, você quer que eu diga que ela defeca na rua? Defecar é no banheiro. Ela caga na rua e pronto!”. Linguagem que todo mundo usa: “a mulher tá cagando ali!”. A poesia é livre pra isso.

“Pra mim, uma das funções da poesia, é criar onde o indivíduo nunca imaginou que o cara ia criar [...] E o poeta acha isso aí.”

E aquele seu poema: “merece um tiro quem inventou a bala”? Nessa época, eu vendia camisas e cartões-postais. Eu tinha frases em cartões-postais com o poeta Milton Aguiar, de São Paulo, e nós viajávamos o Brasil inteiro, aonde tinha congresso. Viajamos eu e ele e nós éramos o camelô da poesia. Onde tinha congresso, a gente chegava e já era conhecido. Milton Aguiar que me levou pro mundo de vender poesia. Aí eu fiz esse poema, merece um tiro quem inventou a bala, naquela chacina que teve no Carandiru. Eu tava morando em São Paulo,


deslumbrado com a paranoia da Pauliceia Desvairada, e saiu lá: “mataram cento e onze presos”. E eu nunca tinha visto uma notícia daquela. Em Recife, claro, tinha o Bandeira Dois, anunciando seus mortos toda manhã, mas eu nunca tinha escutado uma coisa tão forte. E eu lembro que na época um fotógrafo conseguiu furar o bloqueio e tirou as fotos – os caras tudo em cima dos outros. E aí quando eu vi a foto, eu disse: “porra, como é que um cara consegue fazer uma coisa dessa? Matar cento e onze pessoas presas?”. E aí, de repente, me veio: merece um tiro quem inventou a bala. Isso eu vendi feito bala (risos), lá pro lado onde o pessoal mata povo. Eu vendi tanto essa camisa que voltei a fazer agora há pouco pra ir pra Bienal do Rio de Janeiro, que eu vou agora na sexta-feira.

[Miró segue falando sobre o seu próximo projeto.] Eu tô fazendo um livro agora que só vai ter perguntas. Que o indivíduo que está por trás dessa câmera, ou aqui do meu lado, não tenha coragem de responder logo. São perguntas terríveis! A primeira é legal, que é fuderosa, que diz assim: o que faz uma bailarina quando descobre que tem um câncer na perna? [E segue] Por que Deus não dá uma dor de barriga na hora que o assassino sai para matar? O que faz o ser humano quando quer ir e não tem pra onde ir? Como é tentar suicídio e não morrer? O que faz um poeta quando esquece a palavra?


(silêncio). Então, o livro vai ser feito em cima disso: perguntas que o indivíduo fique: “porra, eu não sei responder agora”. Que dê nele aquela dúvida, né? Aí eu pergunto lá: um cara que flagra sua mulher beijando outro no 25º andar, ele pula? Ele pula?! Aí uma mulher gritou na plateia: “eu não pulo!” (risos). Tá, então tudo bem, é melhor tomar uma. Que a poesia seja interativa. As perguntas vão servir pra isso.

Você já disse gostar de Drummond. Quais outros escritores você gosta e foram importantes pra você? Importante pra mim, primeiro Maurício Silva. O que eu mais gosto, Drummond. E um que eu gosto no mesmo patamar, e que eu gostaria que vocês que não conhecem buscassem esse cara, é Ignácio de Loyola Brandão. É um escritor de Araraquara, paulista, que é o que me pirou. Os livros dele, por exemplo, eu li todos e várias vezes. Muita gente me pergunta: “Miró, você leu muito?”. Não. Eu li muito quem eu gostei. Por exemplo: eu não sou [do tipo], “ó, leia esse cara”, e aí vou ler. Não. Se eu ler um livro, como eu li o dele, o “Não Verás País Nenhum”, que é um livro que é o retrato do Brasil e tal... Eu li o livro, comecei a chorar, a rir, a me alegrar. E eu li o livro, eu acho que, durante o mês, eu li três vezes. E aí pronto, eu li tudo dele e ficamos amigos. Não amigos muito próximos, mas vinha pra todas as palestras dele de São Paulo. E pra mim foi o escritor que eu tenho muito a ver com ele, da coisa do hilário.


[Nisso] ele é muito forte. Não tem um livro dele que eu não goste. Inclusive os títulos: “Não Verás País Nenhum”, “Zero”... Tem um [conto] dele que é “A anã pré-fabricada e seu pai, o ambicioso marretador”, que era uma história absurda. Ele disse que gostava muito de Kafka, as histórias dele eram absurdas. Ele tem uma história de um pai que o sonho do pai era ter um filho que trabalhasse num circo. E, aí, nasce uma criança, ele começa a meter a marreta na cabeça da menina pra menina virar anã, que só assim aceitariam no circo. Vê, imagine a cabeça do cara! E, aí, um dia ia levar a menina pro circo e não tinha vaga. Só tinha vaga pra botar a cabeça dentro da boca do leão, e a menina disse que tava entediada com a vidinha dela em São Paulo e quis ir (risos). E a brincadeira era ela botar a cabeça dentro do leão e o leão fingir que comia. E um dia o leão come a cabeça dela. Quer dizer, é uma história absurda e fantástica que eu acho que depois dele, lá em São Paulo, eu peguei um pouco desse absurdo, como Elza caga na rua. Esse pra mim, onde tiver livro dele eu leio, é Ignácio de Loyola Brandão. Drummond... Tô lendo agora Manuel Bandeira, começando a ler por indicação. Gilvan Lemos, que eu tô tentando ler agora. Li agora o [Raimundo] Carrero. Quando eu saí do hospital, me deram o livro dele, “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo”. Mas, assim, eu li muito Loyola e li muito Drummond. Li também um cara que eu gostei, Gabriel García Márquez. Mas como eu não tenho muita paciência, eu fui ler “Cem Anos de Solidão”, fiquei com duzentos anos de solidão e parei o livro! (risos). Era tanto personagem que eu


digo, puta merda, não, não, Gabriel, desculpa! Aí li “[O Amor nos] Tempos do Cólera”, dele. Acho ele legal, mas o “Cem Anos de Solidão” eu não consegui, que eu fiquei com mais de duzentos anos querendo entender os personagens, que eu sou ruim de encarar vários personagens – agora é João que encontra com Maria, que é primo de Zefinha, a cada vinte páginas num livro dele aparece um personagem – aí eu disse depois, depois, depois, depois...


João Flávio Cordeiro da Silva, Miró, é poeta e nasceu em 1960, em Recife. Morou por muitos anos no bairro da Muribeca. Publicou diversos livros de forma independente ou com a colaboração de amigos, incluindo: Quem descobriu o azul anil? (1985), Ilusão de ética (1987), Para não dizer que não falei de flúor (2004), DizCrição (2012) e Miró até agora (2013), este último uma coletânea de todos os seus livros.

Fred Caju usa espaços biográficos para dizer que seus livros estão à venda em: http://fredcaju.tumblr.com/

Ícaro Medeiros de França (1987) é natural de João Pessoa/PB. É formado em Publicidade e Propaganda e durante o curso conheceu sua futura esposa. Não se adaptando a rotina de agências de publicidade, hoje trabalha por conta própria como designer freelancer. No tempo livre, ama cozinhar e está se arriscando a escrever. Mais em: http://icaroilustra.blogspot.com. br/

Lívia Costa (1991) é natural de João Pessoa, onde reside, e escolheu o jornalismo como profissão. É como jornalista que aprende sobre tudo, está sempre cheia de novidades e extravasa nas folhas em branco, escrevendo sobre o mundo, contando histórias com imagens. Atualmente, possui uma coluna gráfica chamada “Tramas Visuais”, onde publica mensalmente ilustrações no suplemento “Correio das Artes” do Jornal “A União”. Além disso, administra uma página de tirinhas, o “Nicotinta”, criada em 2014, e faz desenhos por encomenda.


“Nossos ossos esperam os vossos” (Marcelino Freire, Nossos Ossos) FONTES Georgia PAPEL Polen soft 80 g/m² CAPA Papel couchê 170 g/m²


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Revista Malembe, Nº 1 (setembro 2015)  

Revista paraibana de Literatura e Artes.

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