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// artigo rubem passos

n

os anos 90, precisando mudar de endereço no Rio de Janeiro, li

deiras, na calçada da minha casa. Botei uma cerveja gelada e

um anúncio no jornal de uma casa na Rua da Selva, final do Alto

alguns copos. E fiquei quieto olhando o movimento. Aliás, o silên-

da Boa Vista, fronteira com a Floresta da Tijuca.

cio. Ninguém na rua. Aí aparece o vizinho do lado direito e aceita

Foi a única casa que vi. Fiquei encantado. A casa tinha piscina,

sauna, jardim, enfim, uma delícia. A rua não tinha saída, e, no seu final, uma belíssima árvore de Pau Brasil. A última mudança na rua, acontecera há 15 anos!

meu convite para sentar e beber um copo. Dr. Luiz. Que figura fantástica. Tinha um laboratório de análises clínicas no centro do Rio. Daqui a pouco, aparece o Nelson, e finalmente o Sr. João. Tomamos nossa cervejinha, estabelecemos contato e iniciamos uma grande e “velha” amizade.

Dia da mudança, um sufoco. Caminhão enorme, carregado-

A partir daí, a mesa passou a ser de domínio público, e cada

res, caixas, um entra e sai danado. Um senhor, vizinho da casa

dia era armada na calçada da casa de um dos vizinhos, que fo-

em frente, vez por outra, aparecia com uma garrafa de água ge-

ram aumentando em número. O dono da vez, oferecia a cerveja.

lada, e oferecia ao pessoal que trabalhava na mudança, e a nós,

Morei ali pouco tempo, pois já estava na hora de voltar à

seus futuros vizinhos. Final da tarde, o caminhão vai embora, todos cansados, me

Bahia. Pouco mais de um ano. Tempo suficiente para dar uma balançada nos costumes da rua.

dirijo ao sr. João para agradecer e desejar uma boa noite, quando

Para vocês terem uma ideia, quando me mudei, soube que ne-

ele me surpreende, pedindo desculpas por ter esquecido de me

nhum dos vizinhos se frequentavam, embora todos fossem solidá-

oferecer seu telefone para o caso de alguma necessidade! Quanta

rios em casos de problemas de saúde, quando todos se ajudavam.

gentileza, naquele homem. Muito bem. Demos um jeito no quarto, arranjamos qualquer coisa para comer e fomos dormir.

Quando saí, o banho de piscina, uns nas casas dos outros já era normal. As portas nunca mais se fecharam. Fazíamos almoços e jantares, assistimos à Copa do Mundo de 94, na rua, com a

Dia seguinte, logo cedo, acordo, chego à janela do quarto que

televisão em cima do meu carro, e um monte de cadeiras e me-

ficava no primeiro andar, e outra surpresa: o vizinho da casa ao

sas, tira-gostos e cervejas, a criançada fazendo a maior bagunça.

lado, um sírio chamado Nelson, estava com uma mangueira mo-

Quando me despedi, foi o maior chororô. Nós e nossos que-

lhando as plantas do jardim da minha casa! Não acreditei! Rio de Janeiro, terra do ninguém é de ninguém, uma vizinhança desta!

ridos vizinhos. Estou contando essas coisinhas, porque, quando tomei co-

Mas, vamos lá!

nhecimento do Cidadelle, pedi a Deus, baixinho, que seus mora-

No segundo dia, a casa já menos bagunçada, início da noite,

dores sejam tão felizes quanto fui na Rua da Selva.

resolvi fazer uma provocação. Armei uma mesinha de bar que tinha em casa, daquelas de metal de propaganda, e quatro ca-

98 Cidadelle

Rubem Passos Segundo

Revista Cidadelle - Ed.03  

Publicação de luxo voltada para a classe A. 10.000 exemplares auditados são distribuídos em Ilhéus, Itabuna, Itacaré, Porto Seguro, Salvador...

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