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Maputo | Ano II | Nº 49 | Novembro de 2012

Homenagem à Reinaldo Ferreira e Carlos Drummond de Andrede

A África presente na Bienal do Livro do Ceará no Brasil

“Dentro de mim há outros países” Entrevista à Eduardo White| Pág. 11-13


Ensaio fotogrรกfico X Bienal Internacional do Livro do Cearรก


Editorial | A Literatas acabou?

Sumário Personagem

pág. 4

José Luís Mendonça - Angola

Entrevista

pág. 11 a 13

Notícias

“Lágrimas da Vida Sorriso da Morte” de Xiguiana da Luz

Ensaio

pág. 14 e 15

pág.21

Conceição Lima e a linguagem morada.

Eduardo White: há outros países dentro de mim

Poesia

pág. 5

Crónica

pág. 18

Relacto sobre Raias Poéticas – Portugal

Amália Mendes - Cabo Verde

C

omo uma agulha esta pergunta me chegou de um dos mais prestigiados colaboradores da revista Literatas em Portugal, num tom de quem diz “não pode ser!” e que não era justo um final tão inesperado. O fim assusta como o começo. É tudo imprevisível, entretanto, são duas coisas necessárias e de certa forma, a essência para a existência. Uma missão só é dada como completa quando ela se inicia e se acaba. Por isso, caro Victor, não temas o fim, esse vírus de um novo começo que é inevitável. Mas mais ainda, não deve temer porque a Literatas, Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona não acabou, está só no começo e como uma gravidez prematura, tem realmente as suas dificuldades. Mas o maior poder que ela precisa para existir e prosseguir, ela tem. São as mentes e os corações. Nada mais poderoso que essas duas coisas juntas e uma concordando com a outra. A revista Literatas tem gente que a quer (bem ou mal), e são esses que a levam adiante. Cada colaborador é parte do oxigénio que ela respira; cada texto enviado é um sim anunciado ao mundo sobre a continuidade; cada escritor que nasce diz “sim” à revista Literatas. Portanto, o fim ainda que inevitável, ainda é uma miragem. Assumamos. E neste prenúncio do fim (de ano) em que nos encontramos, mesmo na penúltima edição de 2012, encontramos na Rua Mário Pinto de Andrade, no Pulmão da Malhangalene, periferia da cidade de Maputo, o poeta Eduardo White. O poeta estava lá sentado a nossa espera como espera o país (ou os países) que o tornam o que é; um actor desassossegado, aconchegado à palavra para ser o que sonha. Mas há-de ser fácil ser um cidadão neste “O País de Mim”? Não, porque tal como os homens nunca compreendem as mulheres, White, não compreende o seu país, questiona as suas crises e psicoses, mas dele parte para outros Orientes. Uma entrevista que transcendeu todos os ideais, esperamos estar certos de que estamos no penúltimo piso da satisfação, caro leitor. Ademais, não seria justo entrevistar um poeta entre países onde a poesia é o canto do povo, sem que os símbolos sejam recordados. Por isso, homenageamos neste número, Carlos Drumond de Andrade e Reinaldo Ferreira, se quisermos, homenageamos também a São-Tomense Conceição Lima numa viagem pela sua primeira obra, “O Útero da Casa”. Esses nomes fazem o nosso quotidiano poético, desde Brasil, Moçambique-Portugal e São Tomé e Príncipe. Há razões para reconhecer esses poetas. Esta podia ser um fim antecipado, mas os fins não se antecipam, esperamse. Então, esperamos com o trabalho deste número, a edição 50, que encerrará 2012, para com a mesma esperarmos 2013, aquele que nos quer com gula, reservando-nos muitos sucessos. Esperamos estar juntos (sem medo de que tudo acabe). Boa Leitura

Luiz Octávio - Brasil

Ficha técnica

Centro Cultural Brasil-Moçambique | Av. 25 de Setembro, Nº 1728 | Maputo | Caixa Postal | 1167 | Email: r.literatas@gmail.com | Tel. (+258): 84 57 78 117 | 82 35 63 201 | 84 07 46 603 Movimento Literário Kuphaluxa | http://kuphaluxa.blogspot.com | www.facebook.com/movimento.kuphaluxa

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu | nelsonlineu@gmail.com Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane | jarijuane@gmail.com Cel: +258 82 35 63 201 | +258 84 67 29 929 EDITOR Eduardo Quive | eduardoquive@gmail.com Cel: +258 82 27 17 645| +258 84 57 78 117 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele | amosse1987@yahoo.com.br Cel: +258 82 57 03 750 | +228 84 07 46 603 CONSELHO EDITORIAL Eduardo Quive | Amosse Mucavele | Jorge Muianga| Japone Arijuane | Mauro Brito.

REPRESENTANTES PROVINCIAS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa Jessemuce Cacinda - Nampula REVISÃO LINGUÍSTICA Jorge Muianga COLABORADORES Moçambique: Carlos dos Santos Brasil: Rosália Diogo Marcelo Soreano Pedro Du Bois Samuel Costa Portugal: Victor Eustaquio

Angola: Lopito Feijóo Cabo Verde: Filinto Elísio Amália Mendes COLABORAM NESTA EDIÇÃO: Angola José Luís Mendonça Brasil - Bruno Gaudêncio, Luiz Octávio, Valdeck de Jesus Moçambique - Hirondina Joshua, Emmy Xyx, Mbate Pedro, Alex Dau, Lázaro Bamo

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PAGINAÇÃO & FOTOGRAFIA Eduardo Quive PERIODICIDADE Quinzenal

A revista Literatas é uma publicação electrónica idealizada pelo Movimento Literário Kuphaluxa para a divulgação da literatura moçambicana interagindo com as outras literaturas dos paises da lusofonia. Permitida a reprodução parcial ou completa com a devida citação da fonte e do autor do artigo.


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Personagem | Angola

José Luís Mendonça Viagem

Deus abençoe os animais de fino trato mortos à pancada dentro do carro branco parado em meio à chuva Deus abençoe a térmita azul do clítoris lavrando escrupulosamente a reinvenção do fogo Deus abençoe o ventre grávido da sanga namorando sozinha os lânguidos joelhos da lagoa

Obras

Os gestos [do poema] põem-se de pé com um sorriso atrás da orelha arrastando atrás de si o público: dedos sangue e quimeras escombros com seu ouro perpétuo atado aos quadris seguram os vestidos dos tornados na sua foice de núpcias Os convivas ascendem as lâmpadas de saliva com os botões da alma Multiplicam-se pães e peixes na essência desse metal excrementado Entre as chagas do silêncio uma alameda entardece os itinerários da saudade E a alma de Deus é imensa e respira na pequena semente de maçã de índia crescida sem hóspedes nos jardins da nossa febre “POESIA MANUSCRITA PELOS HIPOCAMPOS” ARTE: Eduardo Quive

J

osé Luís Mendonça fez a sua aparição no mundo das letras, com “Chuva Novembri-

na”, obra à qual foi atribuído em 1981 o Prémio Sagrada Esperança pelo INALD - Instituto Nacional do Livro e do Disco, que repetiria este galardão à obra “Quero Acordar a Alva”, em 1996. O professor Manuel Ferreira considerou-o nessa altura, como “(...) uma das vozes poéticas que continuam e vão prolongar o prestígio da melhor poesia angolana.” Fazendo jus à premonição de Manuel Ferreira, José Luís Mendonça lança um novo volume de 52 de poemas, intitulado “Esse País Chamado Corpo de Mulher”, sobre o qual o apresentador da obra em Luanda, Avelino Sande, diz que “é mais um exercício de sonhar acordado a que o autor já nos habituou. Desta feita, para JLM, sonhar acordado é fazer fluir a poesia como grãos de areia numa ampulheta que se vai retornando a cada pagina. As palavras amontoam-se em pequenas dunas com formas de mulher. Mulheres de prata. Mulheres de porcelana, portáteis, de carregar pelo bolso, mulheres indolores, fáceis de manejar: elásticas, subtis ao ponto de ficarem ao avesso, mulheres satânicas, mulheres de areia, puro exercício de linguagem.” A obra, produzida entre Dezembro de 2009 a Maio de 2011, parte de um exercício introspectivo que vem expresso na introdução, à página 9, como uma “Véspera do verso: Certas mulheres têm ventres de porcelana lisos e plenos de lanternas húmidas. O meu espírito persegue o trilho hormonal dos elefantes que vão ao lusco-fusco beber as sombras das nações sentadas na curva dos seus tornozelos. Nos seus olhos escuto o canto lúbrico da dikanza e cada um dos provérbios escritos na sua pele me ensina os fundamentos da cidadania do verso e seus patamares de alegria. Sem querer dou comigo a alisar os bancos de areia negra nesses ventres, com uma metódica de sede na ponta da língua. Tecnologia de ponta refundida em pedra do mato.” A obra foi igualmente lançada em Maputo, na IIª Semana Literária. Pode já ser adquirida nas livrarias da capital.

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Especial IIª Semana Literária de Maputo As lágrimas da vida, sorriso da Morte: um paradoxo entre a vida, a morte e Xiguiana Luz

Lázaro Bamo (*) - Moçambique

F

oi com grande honra que recebi a proposta de servir o wellcome drink do lançamento da primeira obra literária de Dodoca, nome com que é chamado Eduardo Quive nas ruas de Patrice Lumumba, mas que por medo da morte e do que ele mesmo escreve, prefere que nas lides literárias seja chamado Xiguiana da Luz.

Eu já li o livro dele em vários momentos, até antes dos versos desta poesia sinistra passar para o papel; eu li esta poesia nos gestos e discursos de Dodoca, ou seja Xiguiana da Luz, quando com ele trocava impressões em vários momentos no bairro Patrice Lumumba e nos deadline do programa Matolinhas, que ele chegou a colaborar; eu li este livro nas actividades culturais que este jovem oriundo de Patrice Lumumba, levava a cabo na Escola Secundária da Zona verde, arredores do Município da Matola. Um aspecto relevante que pode estar por detrás desta escolha de Dodoca, Lágrimas, Morte, Sorriso, Vida, etc, é a morte do seu pai que aconteceu este ano. Paz a alma do malogrado. A morte do pai do Dodoca acontece numa altura em que este autor também deseja partir. Talvez a questão seja, porque uma apresentação sobre a morte do poeta e do seu progenitor? Esta é questão que os leitores farão a si mesmos e ao Xiguiana da Luz, porque nesta obra e pelas vertentes de abordagem sobre uma das fases mais cruciais da vida humana, a morte, Eduardo Quive nos leva a conhecer os dois lados da nossa existência num sentido poético repleto de sangue e terror. Porque sangue? Quive vem escrevendo este livro já há alguns anos. Nos passeios e conversas dizia que escrevia sobre a morte, e em algum momento sentía-se que ele tinha olhos

postos a precária saúde do pai, relatam os amigos mais próximos. Aí está um fenómeno de maior destaque na poesia deste jovem, a perspectiva profética do seu pensamento.

QUANDO EU MORRER… Levai a minha amada para os homens, Os meus filhos que fiquem com o além. Levai os meus escritos para o povo, O que sobrar que seja para quem quiser.

Dodoca, ou seja Xiguiana da Luz teve a sorte como muitos de nós, de crescer na Matola peri-urbana e ver e viver a solidão de muitas pessoas acompanhadas; teve sorte de ser vizinho da Matola rural e assistir a Na minha morte… cerimónias fúnebres nos cemitérios familiares espaNa minha transferência vital, lhados por Singathela, Bedene, Bunhiça, São DâmaNa minha derrota sob a vida, so entre outros bairros do Município da Matola. Uma Nos meus passos pelo horizonte, pergunta se levanta em mim, ainda que a resposta Na tragédia contra a vida… seja óbvia! Terá sido esta realidade, que deu inspiraMandam-me para avenida, Chamem a todos. ção para que Xiguiana da Luz, escrevesse sobre a vida e a morte? No livro ele nos responde, no poema Partilhem o meu corpo com os ladrões do Lhanguene, intitulado Miserável, onde fala do Manuelito, um louEntreguem-me aos assassinos do Cardoso, Partilhem os meus escombros com o além que levou Craveiri- co do seu bairro Patrice Lumumba e lúcido em qualquer lugar. nha, Com a desgraça que engoliu as palavras do Amin, O resto fica com o inferno. Na minha morte, Poupem-me das homilias do padre João, Poupem-me de lágrimas que a mim não estarão a chorar, Não quero honras de ninguém, Nem nada…

Quero apenas morrer Metam-me com urgência na terra faminta que me vai comer com gosto. Entreguem-me de imediato a justiça divina. Bem longe de mim Distante do colo da minha mãe, Abandonado pela poesia E engolido pelo silêncio profundo.

Dodoca, envoca a morte, a vida, o medo e a incerteza para destilar a sua triste sina, que já o fez experimentar tantas mortes e tantas dores; ele não nos convida a amar a vida, mas sim a descobrir o prazer e a paz que se encontra na morte, ele auto se proclama um pré-falecido e diz que, sua alma foi possuída por espíritos da verdade, está engajada em sentimentos reais, foi engolida pela imaginação onde habita o milho da caridade.

Devido a obcessão pela morte, Dodoca, ou seja, Xiguiana da Luz, chega a fazer uma pergunta terrivel para qualquer mãe que carrega amor pelos seus filhos: Mãe, quando é que vou morrer? De certeza que a mãe irá dizer nunca, jamais, ou pelo menos que ela será a primeira. Ele não sente o prazer de viver, e aventura-se em sonhos filósoficos, sonha como o Hiperurâneo de Platão! Diz ele, e passo a citar: Queria ser assim: Negrinho de cor azul, em pele vermelha, num mundo verde. Dodoca goza de liberdade de escolha e tem os seus motivos e argumentos, de tantos ente queridos que

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Especial IIª Semana Literária de Maputo Sigmund Freud, ficaria feliz com a atitude de Dodoca, pois dizia ele que, Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte. E Dodoca está pronto para a morte, então as suas costas estão preparadas para carregar o peso da responsabilidade que apartir de hoje passa a ter, terá que dignificar o que escreve com actos e palavras e espero que no próximo livro possamos dessipar o paradoxo que norteia, a vida, a morte e os seus versos.

se foram ele aguarda desesperadamente na fila, para que o seu julgamento seja feito o mais rapidamente possível, ele quer se livrar da dor de esperar o tal dia que demora chegar, quer ser julgado imediatamente pelo poder divino e desabafa num dos poemas, intitulado Quando eu Morrer, quando diz e passo a citar: Metam-me com urgência na terra faminta que me vai comer com gosto; entreguem-me de imediato a justiça divina... Quer se juntar aos cardosos, craveirinhas e aos amin que tão cedo partiram desta terra. Além, de envocá-los no seu testamento paupérimo, que não tem nada além de versos escritos sobre o papel, Dodoca escreve no mesmo poema, ou seja, Quando eu Morrer, e passo a citar: Levai a minha amada para os homens; Os meus filhos que fiquem com o além; Levai os meus escritos para o povo; O que sobrar que seja para quem quiser.

Xiguiana da Luz quer fugir da hipocrisia do mundo onde ele vive, mundo este que faz com que os manuelitos, sejam criaturas solitárias ainda que bem acompanhadas. Sobre esta fuga, Confuncio, alerta, Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro. E eu concordo com Confúcio! Dodoca, resolva todos problemas do mundo e depois faça boa uma viagem.

Já não me sei sozinho Em mim, Apenas se encontram escombros de tristeza Viver é hipocrisia. Mãe, quando é que vou morrer?

Vejo nos poemas de Dodoca, que ele já morreu várias vezes, ele se declara um pré-falecido e para William Shakespeare, Xiguiana da Luz seria cobarde, porque segundo Shakespeare, Os cobardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.

ESSE PAÍS CHAMADO CORPO DE MULHER

José Luís Mendonça - Angola

I.

E

u não sou escritor. Serei um artista, talvez, um artista nato. Segundo a tradição, serei uma kituta, que já nasceu com o dom de desenhar.

Desde a infância, adquiri a secreta paixão pela leitura, recebi o feitiço dos livros, porque estes, os livros, são, na verdade, portadores de magia.

II. Até agora, ainda não escrevi o LIVRO que a Literatura de Angola exige de mim, ou que eu próprio me exijo escrever. Dei alguns contributos à nova POESIA que se produz em Angola desde o pósindependência. Mas o essencial, ainda não consegui trazer à luz. Tenho esboços desse livro que um dia vou concluir, tenho materiais acumulados nos meus arquivos e gavetas lá em casa, a maior parte desses caboucos literários tem como argamassa o legado das gerações antigas, do Movimento dos Novos Intelectuais, do slogan Vamos Descobrir Angola, o legado que nos deixou a geração da revista Mensagem (1950-1953) para quem “A nova poesia de Angola teria de encarar o ritmo-emoção característico do homem africano; ritmo-emoção esse que lhe era transmitido

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Especial IIª Semana Literária de Maputo Pode ser que o mundo acabe na semana que vem

que me existem, eu não sou eu, sou coisas e gentes, animais e almas. Todos os dias, abro as portas e entro normalmente nessa oficina de SOLIDÃO, PESQUISA E INOVAÇÃO a colectar, seleccionar, arrumar e organizar as conversas que tenho com o sol, as nuvens, as almas, com o tráfico citadino, as formigas, os comboios, a água, os aviões.

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem. O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero? Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve de pequena vissapa de luz. A mim pouco importa o destino do universo saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso. Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem. A mim basta conhecer uma a uma essas colónias de sede e de êxtase que o teu sangue construiu com apoteose e presciência em cada ossatura do teu porte uma a uma essas luas térreas de sedução que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu andamento galáctico.

V.

A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio sempre desenha um pendor de pássaro na frágil película da minha humanidade. Pode ser que o mundo acabe na semana que vem. Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda) nos meus ombros a chupar gelado de múcua para espanto crucial da cidade. Pode ser que o mundo acabe na semana que vem. No grau zero da escrita ainda a vogal preta dos teus olhos erguerá a sua esfinge e o enigma dos nossos ventres siameses ainda levantará as areias inverosímeis do deserto.

pela própria natureza em que ele se integrava e com quem vivia em contacto directo e em plena comunhão.” Ou o trabalho de Langston Hughes, cuja poesia era destinada especialmente à classe de pessoas simples, à massa negra, com quem conviveu lado a lado na sua infância e juventude e fomentou o vigor da sua criação poética. Ou a proposta de Arlindo Barbeitos que tentou, como ele próprio diz, “criar uma poesia que tende à harmonização, no sentido de um terminar da alienação, embora se saiba que é quase impossível. Mas esta é a esperança.” Como escritor angolano, tenho de resolver enfrentar o desafio particular que a criação literária me coloca, pois trabalho e falo-vos numa língua importada da Europa. A visão literária de Agostinho Neto vem elucidar esta minha asserção, quando diz: “Criar a literatura escrita em África é diferente de realizar o mesmo na Ásia ou n o u t r o C o n t i n e n t III. Sinto que vou nessa direcção. Sinto-me um marceneiro da palavra. Construo poemas como quem prega pregos e encaixa os entalhes da madeira torneada para construir uma cadeira verbal. Às vezes reúno derivados do petróleo e tempero em moldes de aço alguns objectos de uso quotidiano. Extraio matérias-primas da boca do povo. O meu leitor tem de poder sentar-se numa cadeira feita de palavras espessas como a madeira ou o plástico e sentir essa cadeira como uma coisa útil ao seu espírito. O meu leitor, você, tem de poder encher de frutos e sonhos essas bacias de plástico ou viajar no cosmos nesses engenhos de metal que lhe forneço, qual mercador ambulante de artefactos precisos e concretos.

IV. Todos os objectos e artefactos que fabrico em longas vigílias solitárias são o resultado de um diálogo espiritual intersubjectivo com os seres vivos e as coisas aparentemente inanimadas que me são,

E neste diálogo que mantenho constantemente com o universo, mesmo quando aparentemente estou a dormir, surgem as MULHERES. É assim que elas surgem, as mulheres. Como pedras preciosas que pesam, não na sua medida material, mas na sua essencialidade estético-formal, na sua côncava ontologia germinal. Como uma véspera do verso. Ora vejam o intróito, na página 9:

“Véspera do verso

e

.

Certas mulheres têm ventres de porcelana lisos e plenos de lanternas húmidas. O meu espírito persegue o trilho hormonal dos elefantes que vão ao luscofusco beber as sombras das nações sentadas na curva dos seus tornozelos. Nos seus olhos escuto o canto lúbrico da dikanza e cada um dos provérbios escritos na sua pele me ensina os fundamentos da cidadania do verso e seus patamares de alegria. Sem querer dou comigo a alisar os bancos de areia negra nesses ventres, com uma metódica de sede na ponta da língua. Tecnologia de ponta refundida em pedra do mato.

Apanho um candongueiro manhã cedo Apanho um candongueiro manhã cedo e desorganizo o trânsito das minhas mãos até ao município desalinhado dos teus cabelos. Um perfume de pão quente desperta o tacto candengue dos meus dedos. Desço na rotunda do teu pescoço. Minha língua é semba de inertes sabores pendurados no céu branco dos teus dentes. Sorvo o âmbar cinestésico do teu suor esculpido em cadeiras de soba. Atrás de cada orelha imaginam os meus dedos o verde sono de uma rola na plena combustão do clima. Já não regresso à cidade tão cedo ao stress burocrático de ter de dizer o teu nome e perguntar se posso comer desse pão quente uma vez mais.

Dezembro de 2009 a Maio de 2011”

Aqui vos dou a ler POEMAS que se estruturam em painéis (da exaltação do sexo; da mera contemplação do ser feminino; da pura invenção artesanal da mulher-poema), conforme o tipo e intensidade da relação derivada da condição natural de termos nascido e estarmos a viver, pois que o erotismo é como a respiração e a digestão, nada mais normal. E esta normalidade é das mais sublimes, pois a própria Bíblia tem, no seu livro mais belo, Os Cantares de Salomão, palavras de exaltação do corpo da mulher.

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Ideias

Africanidades O regresso de Mario Vargas Llosa à retórica falaciosa Victor Eustáquio– Portugal

C

hegou-me às mãos o mais recente livro de Mario Vargas Llosa editado em Portugal, o ensaio «A Civilização do Espetáculo», dois anos depois do romance «O Sonho do Celta», no qual o autor peruano escrevia qualquer coisa como isto: «A independência nunca é concedida a bem. Tem de ser arrancada através de uma acção política e militar, à custa de grandes sacrifícios e heroísmos. Assim conseguiram a sua emancipação todos os povos livres da Terra» Neste novo, o Nobel da Literatura reúne vários textos apontados pela editora portuguesa, a Quetzal, como uma “radiografia duríssima (…) do nosso tempo e da nossa cultura”, a começar pelo primeiro onde escreve qualquer coisa como isto: «A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afeta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, atua como mecanismo de distração e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio»

maior que afeta a sociedade contemporânea”, é urgente que a “classe” erudita, ou seja, aquela que melhor conhece as respostas mais eficazes para satisfazer as necessidades e os desejos humanos – e eis aqui uma definição possível de cultura – promova uma intervenção violenta, porventura de ruptura, mesmo que “à custa de grandes sacrifícios e heroísmos”, pois só “assim conseguiram a sua emancipação todos os povos livres da Terra”. Porém, fica a dúvida: que tipo de intervenção e com que grau de violência? E mais: visando que tipo de efeitos? É que não é difícil concordar com Mario Vargas Llosa em matéria de diagnóstico: é verdade que assistimos à banalização das artes e da literatura; é verdade que vivemos com paliativos, vergados ao peso de mundo dominado e reduzido à distração e ao entretenimento, já que cultura também é informação (outra definição possível); numa palavra, é verdade que virámos as costas à realidade.

Mas se o diagnóstico está correcto, o problema reside em saber como se trata esta doença, já que, até agora, tudo o que disse é de natureza empírica. Com efeito, podemos concordar com a evidência de que as artes, a literatura, o jornalismo ou a política se tornaram frívolos, que a “cultura” esvaziou-se de sentido prático, isto É verdade que assistimos à ba- é, da capacidade de moldar a realidade, se sucede que esta nos incomoda e carece de nalização das artes e da literauma intervenção que procure a mudança.

tura; é verdade que vivemos com paliativos, vergados ao peso de

mundo dominado e reduzido à distração e ao entretenimento, já que cultura também é informação (outra definição possível); numa palavra, é verdade que virámos as costas à realidade.

Distantes no tempo, ainda assim não muito, e aparentemente sobre assuntos diferentes, as duas reflexões têm um denominador comum: a ideia de que, a bem, o mal não é erradicável. Se quem subscreve que a libertação de algo que nos oprime “tem de ser arrancada através de uma acção política e militar”, e afirma depois que a figura do intelectual “desapareceu do debate público” e que a acção deste “não tem qualquer repercussão6 na sociedade”, mais não está do que a convidar à sublevação da “alta cultura”, a erudita, conjunto de saberes ao qual acedem apenas as elites (as mesmas que, aliás, Vargas Llosa refere mais à frente). Dito de outra forma, e continuando a seguir o raciocínio do escritor peruano, perante “este mal

Contudo, mudar o quê, insistimos, e com que efeitos? Até porque, primeiro, precisamos de chegar a consenso quanto ao que entendemos por cultura. Estamos a falar de cultura material, a herança de saberes de que somos beneficiários, ou de cultura simbólica, a representação social dessa mesma herança, a que está nas nossas cabeças e que dita a forma como nos relacionamos com o mundo, que tanto difere de cabeça para cabeça? A problemática é tão complexa que, enquanto não for resolvida, todo e qualquer discurso que assente na interpretação empírica da mesma não passa de mera retórica. E esta é tão-somente a primeira armadilha.

Se não nos entendemos quanto ao que se deve entender por cultura, como é possível entendermo-nos quanto à forma com que nela se deve intervir? A não ser que façamos como Mario Vargas Llosa e entreguemos o problema às elites. Esta não é a primeira vez que o Nobel da Literatura peruano tropeça em terreno minado. Porque se, em boa verdade, é defensor, ao que tudo indica, de soluções radicais de extermínio intelectual, está na hora de o assumir com frontalidade. É que diagnosticar é uma coisa, apresentar uma cura é outra.

ELOGIO DA INFÂNCIA (*) Carlos dos Santos - Moçambique

“Não se endireita a sombra da árvore torta”. O meu obrigado ao Movimento Literário Khupaluxa pelo convite que me fez para vos arremessar algumas palavras acerca da temática da literatura infantil. Diz-se que há duas coisas que uma vez arremessadas não se recuperam mais: as pedras e as palavras. Não trago pedras, e vou ser muito cuidadoso com as palavras. Porque as palavras não sendo pedras... se atiradas com força também podem aleijar muito. Esta é uma área em que venho garimpando com afinco desde que, em 2007, decidi, com a publicação do meu primeiro livro deste género literário, aventurar-me neste território tão sensível e complexo que é escrever para as crianças. Fruto desta aventura tenho visto caírem por terra várias das minhas convicções

sobre matérias diversas e brotarem das ruínas dessas certezas, dúvidas que antes eu não sabia que tinha, coisas que eu nem sabia que não sabia. Por isso, tome-se tudo aquilo que aqui vou partilhar, apesar do tom afirmativo e confiante com que o faço, como dúvidas, como hipóteses de trabalho, possibilidades em que acredito, seja em teoria, seja fruto da minha própria experiência, ou, ainda, produto dinâmico de ambas, até que outros argumentos se alevantem e me convençam do contrário ou do diferente. Essa é, para mim, uma busca permanente. Porque para mim é mais valioso descobrir que estava enganado, e poder, assim, corrigir-me, do que ver confirmado que, porventura, estava certo… e ficar na mesma. Com os erros eu cresço. Errar é bom, se tivermos a capacidade de sermos amigos dos nossos erros, condição sine qua non para podermos aprender com eles. E há tanto que aprender! Eis o que venho aprendendo. A literatura infantil, outrora omnipresente, predominantemente na for-

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ma oral, contada à volta da fogueira, hoje grandemente convertida em literatura escrita… abandonada e esquecida, é algo que eu reputo como fundamental. Vital, mesmo. E, porquê? Se atendermos a que, segundo inúmeros e extensivos estudos psicológicos, é nos primeiros 3 anos de vida que se estrutura e alicerça a essência da personalidade do ser humano, e que só cerca dos 6 anos esse ser humano ingressa na escola, esse local especializado, que as sociedades criaram para educar as crianças, pejado de métodos, impregnado de livros, onde, para se exercer actividade como profissional é precisa uma aturada e cuidadosa formação profissional, está patente que a parte crucial da formação da personalidade delas ocorre antes e fora da escola. E é realizada por quem? Em primeiro lugar, pelas pessoas mais despreparadas que existem no mundo - os pais. Lamentavelmente, não existem cursos para se ser pai/mãe. Paradoxalmente, é preciso autorização para conduzir uma simples motorizada, mas não é precisa permissão para se fazer um filho! Não existem tais cursos, mas deviam existir. E quem não aprovasse no curso, devia ser impedido de procriar até o conseguir, como se é impedido de conduzir até que se seja aprovado no exame do serviço de viação. E, depois, ainda se é inibido de voltar a conduzir, quando se é apanhado a fazê-lo de forma irresponsável. Porque as crianças não são coisa com que se brinque, apesar do prazer que dá fabricá-las... Quando somos crianças somos seres extremamente complexos e exigentes. E, por isso, muito sensíveis e delicados. É, pois, precisamente, neste nicho despido de métodos e de mestres de educação que se insere a literatura infantil. O principal meio de educação nesta tenra idade é o “Karingana ua karingana”, o “Era uma vez…”. Sim, esse

meio são as histórias, que, contando às crianças das tristezas do mal e das alegrias do bem semeiam no subconsciente delas a ética que deve sedimentar-se na sua personalidade, de forma a fazer delas pessoas equilibradas sob os pontos de vista físico, emocional e psíquico, auto-suficientes e úteis à sociedade. Porque, sejamos claros, ao falarmos de literatura infantil estamos a falar de educação das crianças. A literatura infantil será a fonte primária de educação nesse período semental do EU. O papel que lhe cabe é, pois, crucial e inestimável. Os efeitos da sua ausência, visíveis hoje por todo o lado à nossa volta, falam por si. Mas comunicar com as crianças não é empreitada fácil. É possível comunicar uma mesma coisa, qualquer que ela seja, a todas as pessoas – sejam elas letradas ou iletradas, sejam elas crianças ou anciãos, sejam elas mineiros ou astronautas. Só não é possível fazê-lo da mesma maneira. Porque para cada idade, em função da estrutura de percepção e raciocínio do volume de informação adquirido que lhe são característicos, existem maneiras específicas, próprias, quer para comunicar com elas, quer para estas se expressarem. Por exemplo, o direito das crianças a “exprimirem livremente a sua opinião sobre as questões que lhes dizem respeito” está consagrado no artigo 12 da CDC das NU, devendo ser “devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade e maturidade”. Arrepia-me, por isso, ver as crianças sujeitadas a simularem a expressão de pontos de vista, imitando os piores exemplos que os adultos lhes dão, em forma de Parlamento. As crianças expressam-se “de forma compatível com o desenvolvimento das suas capacidades”, ou seja, têm formas próprias para o fazerem: cantando, desenhando, encenando, jogando, brincando. Formas, estas, que os adultos têm de analisar, para as compreender. Do mesmo modo, para comunicar com as crianças é preciso utilizar meios de comunicação distintos e específicos, compatíveis “com o desenvolvimento das suas capacidades”, “de acordo com a sua idade e maturidade”. Para escrever para crianças é preciso penetrar nas características da psique infantil e do ritmo do desenvolvimento das mesmas. A criança pré-escolar é predominantemente emocional, e pouco racional. Simpatiza ou antipatiza, mais do que compreende. Gosta, ou não gosta, mais do que percebe. É a isto que os adultos, com desdém (ou deveria dizer ignorância?), chamam imaturidade. Por isso, a função principal da educação da criança nesta etapa, mais do que despejar conhecimento e instrução, é o desenvolvimento e o enriquecimento de estados emocionais equilibrados e sadios. E estes estados se conseguem especialmente através do estabelecimento de laços emocionais saudáveis e sólidos por via de uma estreita osmose entre os adultos e as crianças, particularmente entre os pais e os filhos, emoções saudáveis essas, de onde, depois, brotarão e onde se enraizarão as atitudes, a vontade, a ética e as competências, esse magma de saber-ser, saber e saber-fazer. Porquê todo este (já extenso) intróito acerca das crianças, em vez de desatar logo a falar do tema literatura infantil? Porque não é possível escrever para crianças sem as compreender profundamente. Escrever para as crianças não é pegar em papel e caneta (ou num teclado, para muitos, agora) e desatar a aplicar vocabulário, regras gramaticas e técnicas de escrita. Isso qualquer escrivão pode fazer. Escrever para crianças, já não. É bem mais difícil aprender as crianças do que aprender as técnicas de escrita. Não é por acaso que este é um género literário particular. Antes de escrever impõe-se que quem o pretenda fazer dê resposta a si mesmo a três questões: Escrever para quem? Escrever o quê, para esse “quem”? E, Escrever como, para conseguir dizer esse “o quê”, a esse “quem”? Ignorar qualquer destes elementos leva inevitavelmente à produção de uma obra autista, que não alcançará aqueles a quem se destina. Ou melhor, não alcançará ninguém. Porque o produto será ou um conteúdo inadequado ao grupo a que se destina o texto, ou será um texto escrito de tal maneira que a men-

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Ideias sagem, ainda que adequada, não será captada pelo grupo a que é destinada. Debrucemo-nos, ainda que brevemente, sobre cada uma destas questões com algum detalhe:

em que sapos viram príncipes, carroças se transformam em abóboras ao bater da meia-noite e tapetes voam mesmo sem serem sacudidos ao vento.

Escrever para quem? Dadas as características da sua psique, escrever para crianças, requer uma linguagem própria. Mas, note-se que a linguagem não é apenas um conjunto de vocábulos empregues segundo os ditames de determinadas regras gramaticais. É sobretudo uma estrutura de formulação e encadeamento de pensamentos e raciocínios, que vai mediar a compreensão e a adesão (ou não) à história que se conta. A linguagem é sobretudo uma maneira de ver o mundo.

Constrói cidadãos crentes no sobrenatural, sempre permeáveis a explicações transcendentais para a miséria que lhes é imposta pelos príncipes e pelas princesas da vida real e sempre prontos a culparem o infortúnio e um destino desditoso pelos seus reveses e pelos direitos que lhe são sonegados. Sempre dispostos a darem a outra face.

Uma obra de literatura infantil deve assentar em princípios pedagógicos: deve partir do nível, do substrato das vivências que as crianças dessas idades possuem. Eu disse “partir”, porque não se deve limitar a isso.

Grande desilusão e frustração a destas crianças ao tornarem-se adolescentes e descobrirem que as andaram a enganar, e que se na vida real, tal como nestas histórias, o Sol é para todos, já a sombra, essa, é só para alguns… alguns que, ao contrário do que se diz, não são eleitos não, são auto-nomeados!

Daí a história deve aprofundar e expandir um passo adiante o conhecimento da criança sobre o assunto da história, umas vezes partindo do geral que lhes é familiar, para lhes desvendar as partes de que esse todo é feito, outras vezes partindo do detalhe que elas conhecem, e revelar-lhes o todo de que ele faz parte. São as crianças e o conteúdo, não o autor e o seu estilo, que determinam qual é a opção certa em cada caso. Daí que uma das coisas importantes nas histórias infantis é a inclusão de novas palavras, que contém uma ideia nova. Mesmo para levar as crianças a irem procurar o seu significado, para cultivar nelas a busca pelo conhecimento novo de forma a fazerem dessa uma maneira de estar na vida. Porque as crianças são mais emocionais que racionais, uma história para crianças deve tocar-lhes as emoções, ter humor e dar-lhes prazer, e não ser um rol de informações dirigidas à razão. E também exige desenho e cor. Não um mero tracejado grosseiro e abstracto, mas, antes, um conjunto melodioso de formas reconhecíveis, que cative o olhar e ajude a ler a mensagem escrita, complementando-a. Estas são competências que se exigem ao autor. Chegamos, assim, à segunda questão: “Escrever para quê?” A literatura é, em última instância, um instrumento (para não lhe chamar uma arma). Ela é feita e usada para alcançar um fim. Tanto pode ser usada para fins construtivos como para fins destrutivos. Tanto pode ser boa, como perniciosa. Conforme esse objectivo, assim ela será cozinhada e servida.

Cabe aqui citar o poema “Mentiras”, de Yevgeny Yevtushenko: “Mentir aos jovens é errado. Dizer-lhes que as mentiras são verdades é errado. Dizer-lhes que Deus está no céu E que tudo está bem no mundo é errado. (…) Diz-lhes que há obstáculos e que eles os encontrarão Que o pesar virá Que as privações acontecem (…) Não perdoes nenhum erro que reconheças Ela vai repetir-se, Centenas de vezes E depois os nossos jovens Não nos perdoarão Aquilo que nós perdoámos.” ARTE: Eduardo Quive

Uma história pode ser tecida para abrir os horizontes e libertar a imaginação e o potencial, muitas vezes ainda desconhecido, das crianças. “A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pelo facto de que o conhecimento está limitado aquilo que já sabemos e compreendemos enquanto a imaginação abrange o mundo inteiro, e tudo aquilo que alguma vez será conhecido e compreendido.” - Einstein Mas outra história pode ser engendrada precisamente para o contrário – para as condicionar e manietar e, assim, as manipular e fazer crescer dentro das crianças adultos seguidistas, tão apreciados por todos os poderes. Uma história pode ser esculpida para educar as crianças, transmitindo-lhe valores éticos, ensinando-lhes que ser cidadão é fazer escolhas conscientes e assumi-las. Mas, outra história pode ser pintada para o fim oposto, para as adestrar, para lhes embutir valores morais, para as ensinar a obedecer. Esta é sempre uma escolha que o autor faz. Respondidas estas duas questões podemos, finalmente, começar a escrever. Ora, então… Escrever como? Destaco como principais, três escolas de escrita para crianças: A escola da magia e dos encantamentos: nestas histórias, a vida é bela, as coisas se resolvem por artes mágicas, em função da sorte, independentemente do esforço empregue. É a escola dos príncipes encantados e das fadas-madrinhas,

CONTINUA... Intervenção na II Semana Literária de Maputo, no CCB (Centro Cultural Brasileiro), em Maputo, aos 27.11.12, subordinada ao tema “A Literatura infantil em Moçambi-

que e a educação centrada no livro literário no ensino primário”. 10 | 17 de Dezembro de 2012


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Entrevista

“Dentro de mim há outros países”

E

duardo White é sem dúvida um dos nomes mais sonantes da Literatura Moçambicana e embora não assumindo, é por consenso entre os vivos o maior poeta de Moçambique. Na sua poesia, canta o país na mulher e no poeta que é. Exemplos de “País de Mim” e “Até Amanhã Coração” devem ser tidos como a face deste poeta que nesta entrevista afirma ter vários países dentro de si, mas acima de tudo o que pesa é um, e esse, chama-se Moçambique. Mas White, na conversa que tem com a Literatas, versa sobre si, como poeta pequeno do Pulmão de Malhangalene, na barraca que fica na Rua Mário Pinto de Andrade em plena periferia de Maputo. Lá se encontra o poeta partilhando momentos com o cigarro e o whisky na frustração e na alegria de ser poeta, sem dinheiro e com muito prestígio.

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Entrevista L: Quando liguei-te a combinar o local para esta entrevista esperei que nos encontrássemos, num restaurante, um num gabinete ou qualquer coisa igual… EW: Eu considero este lugar de meu escritório. É aqui onde bebo, é aqui onde tenho e me encontro com os meus amigos, onde me inspiro, onde escrevo e é essencialmente por isso que pedi que viesses para aqui. Normalmente não gosto de dar entrevista, mas se é para ser gosto que seja no lugar onde me sinto bem. L: Curiosamente os seus dois últimos livros publicaste num bar (Bibas Bar)! EW: Sim. Fica de outro lado, na avenida Vlademir Lenine, é o meu bar só a noite. É meu escritório a noite e este aqui é meu escritório de dia. L: E o que é um poeta solto por ai, numa barraca no meio suburbano? EW: É mais um homem. Aqui não há poetas, nem Doutores, nem mecânicos, nem contabilistas. Há gente que se encontra. Raramente falamos do nosso trabalho, falamos das nossas coisas da vida. Vemos mais a realidade do país porque aqui há gente que vê melhor a realidade do país, normalmente são pessoas de tono nível que vem cá: são putas, mecânicos, polícias, poetas, escritores, Doutores, engenheiros, gentes das mais variadas árias e que se encontram como gentes, cidadãos comuns e que todos falamos sobre a vida, trocamos várias impressões. Muito raramente se toca na questão de que sou poeta, que escrevo ou sei lá. De vez em quando sai um artigo meu no jornal e o pessoal comenta. O resto é como se fôssemos gente qualquer. L: E quando é chamado para lugares nobres como é que se sente? Sei que é chamado para vários congressos, festivais dentro e fora do país, como se sente fora deste ambiente? EW: Normalmente só fico até ao momento que duram as apresentações e depois fujo. Eu não sou gente que gosta de ir ao Polana, ou restaurantes. Sinto-me bem nas barracas, sou um gajo de barracas com gente qualquer. Aqui me identifico, converso e aprendo. Aliás, esta rua chama-se Mário Pinto de Andrade, não sei se já reparaste. Portanto, mais uma razão, afinal o passado também visita a Malhangalene e esta rua que por surpresa há pegadas do Mário Pinto de Andrade. L: O White é tido como maior poeta nos que estão vivos em Moçambique e é dos que mais publica, além de ser interventivo diante de vários acontecimentos sociopolíticos do país. O que isso significa para ti? Qual é o papel do poeta e da sua poesia para com aquilo que acontece no seu meio? EW: Bem, primeiro não sou o maior poeta. Essa ideia não partilho, não, não, não. Posso ser o mais alto, tirando o Santos que vai ao encontro da minha altura, mas na verdade não sou maior poeta. L: E quem é o maior poeta? EW: Acho que não há maiores poetas. Há poetas bons – este país tem poetas bons – e há poetas que ainda nem se quer se revelaram. Por exemplo, a Alcance está a editar agora um poeta a quem eu faço o prefácio com toda honra. É um poeta com uma outra vertente. Uma outra frescura ou que se faz ou que se tem vindo a fazer na poesia moçambicana, é o Custódio Duma. A Livaningo também está a lançar jovens promissores. Há todo esse trabalho que no fundo a minha geração assenta nesta incapacidade que o país tem de poder responder editorialmente aos talentos e aos autores que tem – só por isso. Isso é que faz com que eu goze desse termo que vocês gostam de usar “Maior Poeta”, mas eu não sou nada disso. Acho que sou um poeta a minha maneira, com as minhas diferenças, mas maior não, sob a responsabilidade da poesia. Nós somos um país de tradição oral, e em todas as culturas que tem tradição oral, a poesia é um elemento muito forte, com uma tradição escrita que tem, mas que não está divulgada. De maneiras que eu acho que a poesia sempre terá esse papel interventivo. Interventiva a todos os níveis, o amor também é uma forma de intervir, uma forma de luta, criticar também é. Portanto há um grande papel social da poesia. A poesia não pode estar acima de quem a faz, de quem a lê, de quem a sente. A poesia afinal é tão humana como nós próprios! Há essa tendência de dizermos que o poeta é um superdotado, claro que ele transcende o comum das pessoas, mas não tão diferentemente das outras pessoas.

L: Falou do amor e da crítica, coisas que encontram-se na sua escrita, incluindo a loucura, em que momento te entram? EW: É aqui onde me inspiro. É aqui onde tenho toda a minha loucura. São estas pessoas. tão loucas quanto eu. Vem tudo daqui. Estás a ver este senhor? - Vou te apresentar – a poesia deste senhor é limpar esta rua todos os domingos, é a maneira de estar é a poesia dele e é um dos maiores leitores, é um rato de biblioteca. Acho que pouca gente tem o que o Galmão tem, ainda lê livros como eu, ele devora um ou dois livros por dia – o que estou a dizer é verdade e, no entanto é operário. É engraçado como nisto tudo tu encontras todas estas pessoas que a primeira vista parecem simples, mas não são. L: Este é que é “O País de Mim” ou há outros países? EW: Há outros países de mim. Dentro de mim há outros países. Há os de mim, há os dos outros, há os nossos, há muitos. Até tu cabes dentro de mim e eu cabo dentro de ti. Quer dizer, como é uma loucura fazer uma revista electrónica, mas não é? Se vocês forem ao Brasil verão que os autores em média não têm a vossa idade. É um choque pelo que se fala, vocês são miúdos. Quer dizer ainda que nós somos um país jovem e graças a Deus amadurecemos e temos – eu costumo dizer isto – temos nós temos a idade deste país. E isso é verdade e importante porque todos nós temos a oportunidade de crescer, uns vão nascendo outros vão crescendo, mas fazemos todo este percursos, são todos esses problemas, o que me falta a mim falta a ti e a outro. É este entrecruzar de coisas que faz este país ser bonito e ser de mim, ser teu e ser de todos. L: Das leituras que faço da tua poesia, entendo que mesmo que fale de amor e de outras coisas boas, há no fundo uma dor contagiante. E pergunto para mim mesmo, será que se pode conseguir expressar todas as dores através da poesia? EW: Eu sou um desassossegado. Na verdade – eu até costumo dizer – “não gostava de ter nascido com esta cabeça”, isto porque a minha cabeça é inquieta, o meu coração é apaixonado e o meu corpo é desequilibrado. Tudo isto junto faz esta grande inquietude que eu sou. Sou temperamental – o que se reflecte bastante na minha poesia – posso esta bem agora e estar de repente inquieto. Mas isso acho que é muito a minha natureza é a poesia para mim, particularmente a que eu escrevo, é o contar das minhas coisas. Por exemplo, agora estou tchonado (sem dinheiro) isso inquieta-me, porque tenho filhos, tenho netos, tenho mulher que quer fazer as suas coisas mas que não posso dar dinheiro porque só recebo no dia 19. Todas essas inquietações são incríveis para mim e depois com a aparência que é esta, apesar do meu país ser colorido, as cores representam os tratos. Isso vem de longe, são as coisas que trazemos de longe e não é culpa das pessoas. Raramente pode-se definir que haja corruptos brancos, mas há. Na tua cabeça não cabe isso, mas há. São aquelas coisas que a gente traz de longe. O que é bom é que com o tempo vamos sanando isso. É um pouco para ver como este país está a descambar, como se está a materializar-se, não só a descolectivarse, mas pior a individualizar-se, somente para um certo grupo de pessoas, que é o grupo de poder, que é o grupo que aplaude, que o grupo que rouba que é o grupo que mente, que é o circo que assistimos e fazemos parte e que ainda bem, somos um povo de muito senso e tolerantes. É por isso que eu sou realmente inquieto. L: No “Até Amanhã Coração” apesar de estar a despedir-se de uma mulher, eu posso entender que está também a despedir-se do país, naquela sua forma inquietante de dizer as coisas que o cidadão comum vive. Encontramos também um poeta que sabe contar histórias. Dá alguma importância ao prosador que há em ti? EW: No fundo eu gosto de escrever prosa poética porque, acho que sinto mais espaço e menos degraus do que no verso, muito embora eu escreva verso. Quanto ao “Até Amanhã Coração”, estava a despedir-me de uma mulher que representa, para mim, uma paixão, que aquilo que eu disse, eu tenho um coração com muita paixão. Mas uma mulher para mim representa sempre uma faceta da vida do meu país. Com a actual mulher que estou representa a outra faceta do meu país. No fundo é uma pessoa que entra na tua vida e que vem com todas as formas de ela estar no mundo, em casa dela, o bairro dela, a província onde nasceu e tudo isso. E nesse caso estava a despedir-me de uma mulher. L: Com certeza os teus livros também são resultado de outros autores… EW: Naturalmente que sim, eu agora aprendi uma coisa que me está a fascinar. Estou a aprender a ler o que as pessoas falam. Acho que as pessoas são livros

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Entrevista fantásticos. E estas experiências de ter escolhido este tipo de vida está a ser muito importante, porque cada pessoa é um livro ou vários todos os dias. Estou a ler o que as pessoas falam. Mas escrevo muitas vezes influenciado por aquilo que leio. Na literatura não há nada de novo. Tudo se transforma. Toda a nossa escrita representa um pouco da escrita do outro. Acho que não posso fugir dessa regra. L: Que lembranças tem do menino White da Charrua? EW: Da autenticidade, da solidariedade, menos materialistas, não havia essa fome de poder que há agora. Agora toda a gente quer ser outro tipo de gente. Quer usar gravata, quer andar de outro tipo de carro, um AVC, toda a gente quer ser chefe, e por toda a gente querer ser gente este país anda mal chefiado. Eu acho que naquele tempo todo mundo queria ser gente, a minha juventude foi mais feliz e mais autêntica por que era uma idade de procura. Todos nós estávamos a procura. Toda gente lia muito, trocávamos livros, andávamos em grupo, é pa, bebíamos os nossos copos, fumávamos os nossos cigarros, ninguém saia sem outro. Éramos uma família, o que agora já não acontece. Bom isso é também devido ao tempo, mas acho que conservamos muito pouco aquelas coisas. Hoje vejo o meu filho que tem 30 anos, ele ainda tem amigos que são amigos dele desde os 18 anos de idade. Acho que isso é importante conservar. Uma família literária ou um projecto literário é por toda a vida. E quando a literatura começa a ser uma pista de atletismo, ela perde-se. Essa coisa que eu sou melhor que outro, é muito má para uma literatura que está a começar. E é um facto. Relativamente à expressão angolana, se vocês forem a ver, eles publicam tudo e o tempo vai encarregar-se de deplorar, de filtrar e é isso que nós precisamos. Nós precisamos mais jornais com páginas literárias. Naquele tempo todos os jornais tinham um caderno com duas ou três páginas dedicadas a literatura. Hoje não. Tens o “ Notícias” que tem o suplemente cultural, mas o resto já não há. É por isso que há falta de qualidade porque publicar no jornal é bom, para qualquer um. Mesmo para um autor consagrado, publicar no jornal é bom, porque mede o seu nível de escrita e as pessoas que o lê vão tendo noção de que quem ele é.

L: Há uma nova vaga de autores moçambicanos, refiro-me aos que se quer fizeram parte da Charrua. O que acha deles? EW: Acho que é bom. Mas há muito escritor pedante. Hoje tu lanças um livro e se acham. São todos uns vaidosos. Isso é mau. Lançam e saem a gritar “eu sou escritor”. Acho que um escritor de verdade, não é isso que diz. L: Estava a dizer que o que está a acontecer é bom, ao mesmo tempo que reclama da arrogância dos novos. Então que momentos estaríamos a viver? EW: Olha, estamos a passar pelos engravafatados. Os que já são, estão e de vez enquanto saem do guarda-fato. Com ar e são senhores e temos aqueles que querem ir para o Guarda-fato. E devemos partir os guarda-fatos e dizermos a eles que não há guarda-fatos, devemos escrever e ter mais lugares para publicar. Mais jornais que tivessem mais espaço para jovens escritores. Porque a literatura é mais uma forma de intervir. Todos grandes escritores que conhecemos, desde o Gabriel García Marquez, Jorge Amado, utilizaram a literatura como meio de retratar a guerra, de expressar opiniões, etc, etc. Isso é que é importante. Por exemplo vocês tem uma revista electrónica e que a juventude e não só pode a ler baste abrir o e-mail sem gastar dinheiro. Isso é bom, porque os preços dos livros são altos. Até eu há livros que tenho dificuldades em comprar. L: Os preços dos livros te preocupam? EW: Preocupam-me porque não ganho nada. L: Acha que os nossos tempos serão melhores…? O que te faz pensar assim? EW: Vão ser melhores. Porque acho que os futuros dirigentes serão vocês e se tivermos mais gente escolarizada, lida, letrada, nos destinos deste país, mais importância se vai dar à cultura, mais importância se vai dar ao desporto, mais importância se vai dar a juventude, mais importância se vai dar às livrarias, às bibliotecas – um país sem bibliotecas é … - a tua Biblioteca Nacional não tem nada! A pouco

L: Incrivelmente os escritores em destaque hoje na literatura moçambicana são da Charrua! Mas o que aconteceu para que as coisas mudassem? EW: É o capitalismo selvagem. Num governo de capitalismo selvagem, interessa sempre ao poder, controlar o que se escreve e o que se lê. E quem escreve e quem lê? Não é por acaso que as editoras que sobrevivem até hoje e que publicam, são as dos livros escolares. O dia em que essas editoras deixarem de publicar o livro escolar, não há livro em Moçambique. Não há um investimento. Ninguém investe num novo escritor. As vezes vejo jovens, eu próprio quando é para viajar, para obter uma passagem de 20.000 meticais, quase que te arrastas, quase que te humilhas, quase que ladras. As vezes digo que se fosse um cantor, talvez safava-me melhor, mas não bom cantor, mau cantor, com uns vídeos com umas mulheres com boas mamas. Neste país o que se patrocina são pernas e mamas. Não é música propriamente dita. Isso eu sempre disse. L: Mas há quem diga que o Eduardo White não tem sofrido para obter apoios, pelo nome e pela cor… EW: Há quem diga… há muita gente que diz muitas coisas de mim, mas até dizerem é porque há muita gente que não sofre pelo nome. E se eu não sofresse pelo nome imagina, não estaria a beber a crédito numa barraca. Mas quem diz são os que tomam chá no Hotel Cardoso, que andam de carros, esses é que dizem isso e que não escrevem a uma porrada de anos. E que são directores disto ou daquilo e que são ou foram ministros. Esses gajos todos é que dizem, mas se fores lá pedir a eles, sempre dizem estou a construir a minha casa, gastei uma fortuna. Mas eu não estou a construir nenhuma casa, não crio galinhas, não tenho três amantes, faço amor a crédito, tas a ver? De maneiras que estou me cagando para os gajos, redondamente. L: A fase em que une-se a vários jovens na AEMO, formando a Charrua foi crucial para ti? EW: Foi crucial sim. Foi boa mas foi má porque se tivesse me dedicado a escola não seria pobre. Teria terminado o meu curso de engenharia civil, desisti no terceiro ano. É que eu tinha muita mecânica de sol enquanto eu queria a mecânica lunar. Depois fui fazer o jornalismo, tive um grande amigo que recebeu-me na altura da TVE (Televisão Experimental de Moçambique, actualmente Televisão de Moçambique, TVM), o Pedro Pimenta era na altura o director geral. Pôs-me ali a fazer alguns directos. E fiquei. Depois fui para a revista tempo. Foi de seguida a Charrua, dei aulas até que tive o meu primeiro emprego. L: Arrepende-se de ter abandonado a escola? EW: Claro pa… L: Mas quase todos os que saíram da Charrua tornaram-se dirigentes… EW: Mas isso é com eles. Eu não me refiro a esse dinheiro. Estou a falar daquele dinheiro do dia-a-dia, apanhar um taxe ir até ao Museu beber um vinho, mas não posso porque só tenho 100 meticais. É bonito, mas ao mesmo tempo é chato, tenho já 50 anos. Dizem que temos que poupar, mas eu nunca encontro dinheiro para poupar. Quando encontro dinheiro só serve para pagar algumas dívidas, a água, a luz, o sapato em fim. Comprar uns livritos de vez em quando.

tempo o director do Arquivo Histórico chamou atenção que os arquivos não estavam a ser bem conservados porque estavam numa casa em arredores. Estamos preocupados com outras coisas e isso é mau. É preciso chamar atenção à essa gente. E há gente que escreve ou que diz que escreve, o Presidente da República é poeta e membro número 10 ou 11 ou 07 da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Marcelino dos Santos, o Sérgio Vieira – não sei se já deixou de ser poeta ou ainda é - , mas essa gente está no poder e não faz nada. Estão preocupados com as patentes, com o poder, com os carros. Mas há gente no meio dessa gente que ainda – graças a Deus – está a suportar muito o que se faz hoje na Literatura, na Música, como o caso de grandes empresas.

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110 anos de nascimento

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. Excerto “Poema de sete faces” in “Alguma poesia”

Homenagem a Carlos Drummond de Andrede Dados biográficos Mas que dizer do poeta Numa prova escolar? Que ele é meio pateta E não sabe rimar ? Que veio de Itabira, Terra longe e ferrosa ? E que seu verso vira, De vez em quando, prosa ? Que é magro, calvo, sério (na aparência ) e calado, com algo de minério não de todo britado? Que encontrou no caminho Uma pedra e, estacando, Muito riso escarninho O foi logo cercando? Que apesar dos pesares Conserva o bom-humor Caça nuvens nos ares, Crê no bem e no amor ? Mas que dizer do poeta Numa prova escolar Em linguagem discreta Que lhe saiba agradar? In “Viola de bolso II”

Tarde de Maio (…) Eu nada te peço a ti, tarde de maio, senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível, sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém que, precisamente, volve o rosto e passa... Outono é a estação em que ocorrem tais crises, e em maio, tantas vezes, morremos. Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera, já então espectrais sob o aveludado da casca, trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos, sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo. E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco. Nem houve testemunha. Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos. Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara? Se morro de amor, todos o ignoram e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata. O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados; não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta, perdida no ar, por que melhor se conserve, uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens. 14 | 17 de Dezembro de 2012


Leia os poemas da semana às terças feiras em: http://revistaliteratas.blogspot.com Você também pode publicar. Envie-nos o seu poema pelo e-mail: r.literatas@gmail.com

Poesia MÃOS DESUNIDAS

Luiz Octávio - Brasil

não serei o poeta do passado embora dele me alimente

Contar ser gregos

Emmy Xyx - Moçambique

Contar um dia ser gregos Contar segredos infinitos um por um, viver do rego em chuva de meteoritos

canto o presente que Drummond não vê nada de serafins cartas de suicida - os homens aterraram a palavra amor num canteiro de obras

A gregória vem sem glória nesta quinta categoria contar ser gregos ou contar a história fica-se nesta alegoria

as mãos desunidas traduzem: os espinhos inda sufocam as flores

Ser grego quem conta sem medo? Conta em que canto a saia curta? Consta que santo perdeu e cedo segrega ao poente a gula fruta. In “Espiral”

ACORDES

Crer segredos impôr degredos comungar de gregos desencontrar medos desapontar dedos segregar toledos contar cem gregos

POEGRAFIAS

Amosse Mucavele - Moçambique

Vejo as flores do vento a fingirem de saudades no faminto jardim da noite. Vejo a lua estatelada de fome nas asas do vento das flores na noite engolida pelo fingimento do jardim. Sinto o peso do planeta nas rugas da água a esculpir a morte no zoológico choro do felino. Sinto o choro do felino a aproximarse do zoológico planeta da água esculpido pelo peso das rugas da fome. E por fim Sento no chão rasgado de folhas secas a vender bilhetes de oxigénio para as ninfas do tempo.

Quando eu for poeta

In “Contar ser gregos”

Amália Mendes - Cabo Verde

Quando eu for poeta de verdade Saberei arrumar palavras em cruz Ou credo, em montes de certa beldade Que atraem visores pela sua luz. Enquanto me transformo num poeta, Também não quero parecer um pateta Que nada vê ou nenhum problema percebe, Ignorando ocorrências evitáveis que se concebe!

Xiguiana da Luz - Moçambique Para Dudas, Que cantares envolvem um poeta no seu imaginário? Hirondina Joshua - Moçambique

Cordas estilhaçam almas duras por onde passam estas palavras como que cavas em veias sem cor. (M)arrebentar é timbrar o escuro de sons da noite [poetar diferente] é imigrar para o interior e morder a vulva molhada de gotas de seu ritmo. Não há versos que separem o contexto do seu canto, primeiro, e por último, tchaia essa viola que eu tchaio estes versos sem dó (tom!) fazemos esta gente romper as cordas sem saber que és tu o lírico nestas sinas.

Mãe... Não posso ser de outra maneira Mesmo que me fosse possível Adiar-me é ignorar a minha hora, o meu tempo de ser, A casa em mim. O sol que me guardava quando pensava em terme Hoje tenho-o em pequenos pedaços Silvando todas cores maltratadas pela erosão deste mesmo astro. Viver é fluir lentamente em degraus sanguinários Deste corpo, desta alma Desta vida. Não posso ser de outra maneira Mesmo que me doesse, E me dói. Mãe.

Decido agora ir escrevendo umas palavras Dispostas em cadeias que prendem o ódio E encavalitar outras em campos de lavras, Construindo espaço prisional para o ócio. Ah se conseguir ser poeta e souber escrever Umas palavras livres que voam em liberdade!... Desenharei os limites de um direito no dever Para engasgar a libertinagem fundada na felicidade! As palavras que escrevo são oferecidas E pretendo que sejam chuva no casulo do rancor Para amolecer, no espírito humano, essências homicidas, Adotadas em qualquer situação, como solução de cor.

15 | 17 de Dezembro de 2012


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Homenagem a Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira: um

voo cego a nada

“Mínimo sou Mas quando ao Nada empresto A minha elementar realidade O Nada é o resto” (In “Um voo cego a nada”)

Redacção* - Moçambique

R

einaldo Ferreira, o poeta que nasceu em paris, de raízes portuguesas, mas cidadão moçambicano que na sua arte de escrita enveredou pela lírica como pretexto para sua vida ou sua morte no seio da singularidade das raças em que vivia em Lourenço Marques (actual Maputo). Numa homenagem que se inicia por seu companheiro Virgílio de Lemos também poeta moçambicano radicado na França, através do livro “A Dimensão do Desejo” editado pela Associação Moçambicana da Língua Portuguesa (AMOLP), diversos actores evocaram a poesia e o poeta Reinaldo Ferreira em Maputo.

Descrições – Eugénio Lisboa

Ouvi falar de Reinaldo Ferreira nasceu a 20 de Março de 1922 e fora viver para Lourenço Marques em 1941, com 19 anos de idade. Faleceu em Junho de 1959, com 37 anos de idade, vítima de doença. Eugénio Lisboa, descreve assim a última vez que se encontrou com o poeta, internado numa clínica, “apanhado de surpresa pela notícia da doença do poeta, que o levaria deste mundo em cerca de três meses, mal arranjei forças para o ir ver à clínica onde passava os últimos dias. Foi um encontro breve e doloroso. Hesitei em ir vê-lo visto que, tendo tido pouco contacto pessoal com ele, a minha visita podia ser interpretada como de… despedida. De qualquer modo, quase paralisado de emoção e totalmente sem saber que dizer, limitei-me a acenar-lhe da porta, com estas palavras estúpidas „então, Reinaldo?‟ olhou-me com o esboço de um sorriso sem ilusões e encolheu os ombros, como quem diz: „é a vida…‟ ou antes „é a morte‟.

peito da condição sexual de Reinaldo Ferreira. “Reinaldo era homossexual mas a sua condição era aceite por uma diminuta parte da elite burguesa da cidade, entre os intelectuais. E quadros superiores. Se não tivesse sido homossexual, Reinaldo Ferreira seria um ser extremamente solitário, uma quase “alma penada”, um quase “poeta maldito”. Mas nunca se me queixou dessa “solidão”, e da sua condição de “marginal” desadaptado.”

Desde quando alguma vez anoiteceu

Desde quando alguma vez anoiteceu E à angústia de que a terra se cobriu Só pasmo nas esferas respondeu; Desde quando alguma flor emurcheceu E a criança que válida se ria De repente calada apodreceu; Desde quando a algum estio sucedeu Um outro outono e a árvore se despiu E a primeira cabeça encaneceu; Desde quando alguma coisa que nasceu Sem que o pedisse, sem remédio se degrada E acaba, sob a terra que a comeu, Dispersa entre os átomos dispersos, Se acumula a tristeza deste dia E a razão destes versos.

Mais adiante ainda diz Lisboa “pareceu-me que este seu desengano, este seu cepticismo fundo vinha de longe. A vida dera-lhe o dom do seu talento mas fizeralho pagar caro. No meio pequeno era a Lourenço Marques de então, a sua homossexualidade não for a nunca claramente assumida. E tentara mesmo „curar-se‟, consultando o médico Fernando Ferreira, seu amigo e admirador.” Virgílio de Lemos, poeta que o homenageia também tece um comentário a res-

16| 17 de Dezembro de 2012


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Conto

Conto contigo CADA PALAVRA, UMA TESE Marcelo Soriano

C

ada palavra é uma tese. Não. Na verdade, cada letra é uma tese. O traço, o simbolismo, a significação... Repensando... Cada letra em cada palavra gera um sem fim de teses. Uma tese (literalmente 'posição', do grego θέσις) é uma proposição intelectual, segundo Wikipédia, a enciclopédia livre. E não raro ignorarmos, em prol do afã imediato, a história, a origem, a cosmogonia, o universo daquela palavra específica que já existia - ou pré existia - muito antes de pesarmos nosso corpo sobre a superfície da Terra da Linguagem, do letramento, da alfabetização. Quantos lugares inóspitos, de difícil acesso, nos propõem as palavras?! Isso quando não nos acenam de 'não lugares' semi perfeitos, a partir de regiões inalcançáveis de nossa ilusão, de nossas inquietudes emocionais e intelectuais. Hoje, por exemplo, enquanto ser dominical que não refuta o extremismo do ócio imposto ao homem biológico e suscetível ao tédio que, também, sou... Nenhuma palavra me ocorre. Até porque a palavra "palavra" para mim é tão íntima e intimidadora quanto um espelho e quanto aquelas fotografias em momentos de esculhambação pessoal. E, também, porque a palavra "palavra" suscita outra para mim: Trabalho. E domingo, corriqueiramente falando, seria dia de descanso. Outro dia, se não me falha a memória, li que a palavra "criança" foi a escolhida por Manoel de Barros. E pensei, pensei, refleti... E não leio outra igual no mundo. E criança não é gente, é um composto entre passarinho e redemoinho, ou àquilo que as avós entendiam por anjos e que se confunde, entre a poeira corrida da estrada e o pé por pé na flor d'água das vertentes. A palavra das palavras, a mãe das crianças e das teses, para mim, Senhor Manoelito - ser letral das próprias 'criaturezas' - seria Silêncio a ausência total de barulho. Aquele que nos embalsama com perfumes durante a hora dos sonhos; aquele que olha nos olhos e não precisa dizer mais nada; o silêncio da pedra que confabula com o vento... Bom, a tese (não concluo, nem defino) seria o oposto da poesia, mas ambas perambulam de mãos dadas pelo fio da meada que se perde e se encontra de modo descomportado pelos confins dos cadernos rabiscados das crianças que, em silêncio, aprendem desmedidamente a ler e a desenhar o mundo muito antes de aprenderem os vieses caligráficos de um redigir sistemático com excesso de palavras expelidas ao deus-dará, em plena tarde quente, que configuram este maçante, porém, perseverante monólogo sobre as palavras dominical. _ (Escrito para a Revista Literatas - Maputo, MZ, 2012)

O que há para celebrar quando o presente é oposto ao passado?

A

Japone Arijuane - Moçambique

Celebração é, e deve ser, considerada e concebida como o momento alto de uma satisfação interior e exterior; individual ou colectiva. Uma satisfação de cumprimento de uma dada tarefa, luta ou mesmo um desafio; a mesma deve ser encarada com o espírito de missão cumprida. Sendo esta o auge de uma satisfação, deve habitar no interior de toda colectividade contemplada; de todas as individualidades chamadas a celebrar e, nesses moldes, que seja uma celebração sem vencidos e sem vencedores. Não se pode celebrar em nome de famílias enlutados, e muito menos, em nome das vítimas e vitimados; se não, melhor uma reflexão em vez de celebração. Os momentos de reflexão que hajam, quando assim exigirem. E a celebração não seja pela quantidade de anos passados, sem que nestes anos algo se tenha feito para comemorar. A celebração, que seja pela quantidade e qualidade de desafios, tarefas ou lutas ganhas em menor espaço de tempo. Passam-se neste mês o 125º aniversário da Cidade de Maputo, será que nós os citadinos desta urbe somos dignos de uma celebração?, ou de uma profunda e colectiva reflexão? E se for celebração, o quê que estaríamos a comemorar? Ora vejamos, meus caros maputenses, a demanda demográfico esta cada vez mais incontornável, e esta sem acompanhamento infra-estrutural; como consequência a falta de habitação tornou-se o pão de cada dia; a falta de saneamento do meio, a intransitabilidades nas das ruas, a marginalidade gritante das famílias de baixa renda; que como causa e efeito sobe incansavelmente o índice da “pobreza urbano”, mendicidade, a violência etc. O cancro dos transportes urbanos, hoje municipalizados; mas, mesmo assim, cada vez mais grave a falta destes. E sem esquecer-se dessa questão que já tem carapinhas brancas, a questão do lixo na cidade; que por ser tão grave e crónica alguns fingem em não ver. E o que dizer do elevado consumo de álcool da juventude e não só; que, quando ébrios além de regarem as acácias a urinol, brincam de rali nas vias públicas e mancham indelevelmente as as mesmas ruas a vermelho. A prostituição que antes era na rua do bagamoyo, hoje várias esquinas foram abertas, novos postos se formam em qualquer esquina da “cidade”. Caro munícipes o que há para celebrar? O parque imobiliário do Zimpeto?, cujas casas da vila olímpica que antes mesmo de dois anos clamam o final do jogo? Há desertificação dos jardins, - sem comentários ao zoológico, aliás zoo-ilógico. Alguns distraídos, como uma vez alguém chamou opostamente os lúcidos deste país, dirão que celebram as novas construções dentro da cidade. A questão é: aquém beneficiam estas construções?, aos citadinos comuns feito eu e tu?, ou os outros? Estes que mais para além da distracção, dirão o projecto da circular de Maputo, que inclui a ponte sobre KaTembe, não acham ser sedo de mais para celebrar um jogo ainda por jogar?, lembrem-se da memória tão fresca do massacre de Marraquexe. O que celebrar?, a nova subida, sem pressupostos básicos, dos preços dos transportes públicos?, e desta que celebração esperamos? Não será esta semelhante que se deu nos dia 2 e 3 de Setembro? Meus caros munícipes desta cidade das acácias urinadas, acham que temos motivos de celebração? Porque que, além de celebração, não chamarmos esta data de reflexão? Reflexão dos 125 anos de um lugarejo de dificuldades, cujo nome é Maputo? Não acham se continuaremos a chamar desta data de celebração haverão vencidos e vencedores? Ou mesmo derrotados e ganhadores? Que haja honestidade!

17 | 17 de Dezembro de 2012


Raias Poéticas De Lisboa a Famalicão: O baptismo do Perdedor da Distância Incerta ao Ponto Certo Amosse Mucavele

S

exta-feira acordo embriagado pela beleza das noites Lisboetas que não me largaram a beira do Sagres. Antes de me levantar vejo a Francisca ( a gata) encostada a almofada que desfilava no lugar onde dormia e eu nem tomei conta da sua presença, dei um abraço na gata a boa maneira que a Maria me ensinara, ela continua a olhar-me com desconfiança, deixo-a e levanto-me em direcção ao relógio pergunto-o as horas e ele respondeu-me: - São seis da manhã Levantei-me a passos de camaleão, iniciei a minha digressão pelas coisas que me pertencem, preparei a mala, os livros nas devidas sacolas e os documentos nos seus concretos espaços de repente apercebi-me que tinha o bilhete do voo em falta. Acordo a Maria que de forma leve e tardia libertase da cama pois o sono já tomava conta do seu mar alentejano, eu convideia a mergulhar no mar da minha inquietação. Amosse tenta lembrar-se onde deixou o bilhete enquanto procuramos nos livros- retorquiu a Maria A mesma altura eu regava com lágrimas de dor a cheirarem-me o exílio pelos tantos cantos daquela casa. E ela disse: -será que não esqueceste na pensão onde dormiste no primeiro dia? As palavras me fugiam como um navio de pesca em plena castração no mar, o coração batia forte e melancólico como as águas turvas de um tsunami. O silêncio não me largava, o relógio corria a uma velocidade cósmica tipo um gato em brasas, 9 horas diz ele a rir-se de mim, olho-o com uma voz nostálgica pego no celular penso em ligar para Maputo a Maria intersectame diz: -Não precisa Amosse esta tudo bem com a sua avó o que tens que fazer é ligar para o Delmar e outro amigo da embaixada para te levarem a pensão para ires procurar o bilhete. Como sempre a voz da mulher é a voz do comando, liguei para o Paradona combinamos o ponto de encontro nas Amoreiras, sai da casa (Maria) a caminho da paragem do mesmo nome, minutos depois chega o Paradona exponho a minha preocupação . E ele disse não tem problemas vamos a TAP resolve-se este caso. Fiquei sossegado saímos em direcção ao aeroporto, o celular toca toca Delmar diz: -estou na embaixada a vossa espera com uma actriz brasileira. -Dentro de 5 minutos chegamos ao vosso encontro, respondeu Paradona saimos a moda da fórmula 1 que se conduz em Portugal despertamos na ponte em direcção a Setúbal. estamos perdidos para voltar temos que atravessar a ponte e voltar de novo na rotunda da Costa da Caparica -disse Paradona. Este era o prenúncio de um festival de perdidas que o dia esperava nos presentear. Chegamos a embaixada encontramo-los bem cansados de tanto esperar e bem sossegados de tanto conversar fez-se a divisão tal como deus fez quando dividiu o céu e o mar a bela actriz brasileira que passou a responder por Vera Barbosa entrou no carro onde eu estava com Paradona, o maestro do Núcleo Tenaz Jorge Viegas, Delmar Gonçalves e a esposa ficaram noutro carro e saímos escoltando-nos em direcção ao aeroporto, ali resolveu-se o problema do bilhete a troco de 40 Euros Paradonianos. São 12 horas a viagem a Vila Nova de Famalicão é longa os dois condutores trocam os mapas e o Delmar disse vamos pela via Torres Vedras em direcção a Porto isto na A25 e desviaremos na A3 sentido Porto- Braga.

Embalamo-nos na estrada de olhos bem abertos nas instruções da voz que falava verdades, o caminho é sempre a frente até encontrarmos a rota do desvio para Braga, o motor roncou com os pés rentes a estrada que nos namorava a 30 minutos do ponto de partida, a viagem teria a duração de 3h e 30minutos.mas devido ao mapa errado dado pela pessoa certa, prosseguimos felizes ao som da voz da Vera Barbosa ali falamos de tudo( teatro, literatura, cinema e mais) e de todos( Saramago, Jorge Amado, Craveirinha) antes de chegar a Aveiro o Delmar liga a perguntar sobre o nosso paradeiro -estamos a passar a Aveiro- respondi, era uma pura mentira que o celular as vezes nos induz, decidimos parar nas bombas a 5 km de Aveiro, pois ja estava tudo quente precisávamos de uma água ali nos reencontramos, e confirmou-se que estávamos no caminho certo, dividimo-nos tal como deus nos ensinou. A viagem continuo firme nos nossos ideias comunistas que diziam- chegaremos a Famalicão as 15 horas. puro sonho irrealizável, dai perdemo-nos um do outro, continuamos abraçados a estrada na esperança de chegar beijar a cidade que nos espera a séculos ,os poemas abertos nas mesas para as nossas bocas aprovarem e os poetas antropófagos que desejam comer as experiências dos poetas moçambicanos. As horas em nenhum momento perdoaram-nos e a distância chamava por nós seduzindonos com a sua nudez alcatroada de mel e os seus olhos pedregosos de vinhas de sabores milenares. Passamos o cruzamento do Porto esperançados no próspero encontro do desvio Braga, chamamos o Delmar telefonicamente e disse estão no caminho certo é para frente que se vai a Famalicão. Depois da fala a Vera e o Paradona colaram algumas interrogações no tecto que nos cobria pois ela cheirava o perfume de Viseu. Continuamos a andar em direcção a fronteira com Espanha (Viseu). As horas transbordavam de forma violenta no nosso rio das incertezas, 17 horas ainda a bordo desta amável estrada e em Famalicão iniciavam as RAIAS DOS RAIOS DA POETICA. Oh Paradona o primeiro desvio que encontrarmos vamos voltar para Coimbra e lá encontraremos o caminho para Porto- disse a Vera, estávamos em Tondela, ligamos para o Delmar - ele confirmou que já tinha chegado a Famalicão e já tinha informado a todos convidados que os poetas moçambicanos e a actriz brasileira estavam perdidos. Tomamos a estrada em direcção a Coimbra cansados de beijar a mesma boca da A25 e por fim encontramos a A3 com a placa Porto ai nos sentimos em casa acordamos do tédio que nos acompanhava continuamos a esculpir a conversa que a 1 hora o silêncio tinha a tomado de assalto. E por fim as 19h chegamos a Famalicão ali reencontramos velhos e novos amigos Abreu Paxe João Maimona (Angola), Luís Serguilhas, Maria João Cantinho, Luisa Demétrio Raposo, Jorge Velhote, Jorge Melicías Aurelino Costa, José Ilidio Torres, Inês Leitão, Marilía Lopes, Aurora Gaia, Luisa Monteiro ( Portugal), Laercio Correntina, Manaíra Aires Athayde, Cláudia Carvalho Machado ( Brasil) Alberte Momán, Ramiro Vidal Alvarinho, Verónica Martínez Delgado Carlos Quiroga, Javier Diaz (Espanha), e outros que a palavra sempre nos aproxim(ou)a deles. este era o baptismo das Primeiras Raias Poéticas das Afluentes IberoAfro-Americanos na Vila Nova de Famalicão, bem haja. 1.12.12 Hotel Moutados Quarto 404, 02 horas:50 minutos Vila Nova de Famalicão

18 | 17 de Dezembro de 2012


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Sarau da Lusofonia e no Templo da Poesia Durante a Xª Bienal, muitos foram encontros inevitáveis. Alguns eram programados como o Sarau da Lusofonia, mas no Templo da Poesia, tudo foi imprevisto. O recital foi com Valdeck de Jesus, Izaíra, Ana do Nascimento e os poetas pertecentes a esse grupo.

Agradecimento especial ao escritor baiano Valdeck Almeida de Jesus pelas fotografias

19 | 17 de Dezembro de 2012


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Resenha

O lado da Ala-C (lado alado) no Contar Ser Gregos e na poesia epigramática de Emmy Xyx Ou a arte de Contar SeGredos Mbate Pedro - Moçambique

À

s vezes escrevemos porque não sabemos fazer mais nada. Ou às vezes não fazemos mais nada porque só sabemos escrever. O que há, no intervalo entre não fazer mais nada e escrever? A arte. A arte de Emmy Xyx. Ou, se preferirem, a da poética de Manuela Xavier, que, como diria Herberto Hélder, escreve para os silêncios. Porque a poesia, aqui, não nos surge quando estamos vazios dos outros. Mas sim quando cheios de nós próprios, estamos. Exaustos de bater as asas sem poder abrir voo. Há em Contar Ser Gregos, de Emmy Xyx, a mesma angústia, indignação e miséria humana que habita (ou habitua) a poesia epigramática de Amin Nordine, poeta pósmodernista Moçambicano, ou até nos poemetos de José Paulo Paes, poeta Brasileiro. Disso, Manuela Xavier fala-nos, no poema intitulado “Quantas noites”, na página 56: “Cada dia que passa/ por trás das grades estremeço/ quantas noites faltam/para o que não mereço?/”. As ressonâncias e as aproximações com a poesia Nordineana, operam na dimensão estética de grande parte desta obra, embora a autora, num brevíssimo poema de inegável beleza estética, faça a demarcação topográfica e territorial da sua poética com a do autor do livro, “Do lado da Ala-B”. Ora, vejamos: “Lado a lado?/Seria bom, mas não é assim/para ficarmos água lados/seria/também eu/estar dentro de ti…/aguar em ti/ no lado alado…/não-se-ria?!/”. Com uma poética essencialmente vocal, com um notável cuidado sobre a linguagem e uma contenção grega quase a resvalar à austeridade, Manuela Xavier escreve para a música que há dentro das palavras e à canção que, insubmissa, cresce por detrás delas. Daí talvez, que uma larga parte de Contar Ser Gregos seja, a meu ver, musical, como aliás atesta, o poema “Viver cem gurus”, página 64: “Todos dias vivem cem gurus/todos altares dormem maduros/vastos algozes espremem impuros/porque se espumam em apuros/”. Ou até o poema, “Murmúrios de Zim”, página 47: “Correntes que chamam por mim/numa tertúlia a benigna sem fim/gritam alto murmúrios de zim/fincando pé cortes doces em pudim/”. Por outro lado, o recorrente experimentalismo lúdico, a que somos convidados a assistir, desde o título da obra, Contar Ser Gregos ou Contar SeGredos, assume, a meu ver, a imagem central na poesia da autora. Há neste livro, uma constelação de trocadilhos bem conseguidos e que, com alguma originalidade, sobrepõem-se uns aos outros como as costuras de um vestido de noiva. Vejamos alguns exemplos: “…Porque me obrigas/quando te queres abrigar…/porque eu sinto e tu és sentido? ”; “ mas o fogo não afaga o fogo”; “o estudo que me diz que tu és tudo”; “…do meu furto/faço futuro/...do teu fato/faço factura/”. Uma Emmy Xyx terrivelmente satírica e profundamente irónica, características que quase pouco se vê no nosso actual panorama poético feminino. Repare-se, por exemplo, como opera, a ironia, no poema Bala pedida (não bala perdida!), na página 16: “a bala pedida encontrou/volumes imensos a flutuar/de madrugada à

noite soou/nada há a lamentar”. E num outro texto, intitulado, “Erres de heróis” (não erros dos heróis), lemos: “os erres dos heróis são apagados?/Os erres são livres de ficar?/Quantos erres tem o vento?/ Quantos ventos tem o mar?/”. Se é verdade que, como Lobo Antunes um dia escreveu, a verdadeira arte é aquela que resulta do trabalho árduo e do sofrimento do artista, para que depois o leitor tenha o prazer do texto, e não o contrário, não deixa também de ser verdade dizer que Contar Ser Gregos requer um leitor sem nevoeiro dentro de si, como diria o bom do Eugénio de Andrade. Talvez seja por isso, que Manuela Xavier alerta-nos, neste fragmento do poema “Escrituras”, página 39: “…o que é preciso é saber ler,/conforme as escrituras/”. Jorge Luís Borges dizia, amiúde, que o essencial da boa literatura e da arte no geral, é a metáfora e a maneira como o autor se insinua nela. Contar Ser Gregos, obra que reúne 53 poemas, (a)Grega desde simples imagens subtis à outras de uma violentação e tensão metafórica, equiparáveis ao que encontramos, na poesia escatológica de um Andes Chivangue, cá entre nós ou na de um Luis Miguel Nava, escritor português. Cumprindo aquilo que é a função da literatura genuína: a de produzir uma tensão muito mais fundamental do que a própria realidade. Escute-se alguns fragmentos: “… a andorinha …/ enterrou a sua viagem/”; “ …barbas emprestam ao pano/a solidez do ser fino/”; “...diz-me porque o medo/ vai atrás das primaveras/”; “…até nos mares tens cebolas…”. A poesia de Emmy Xyx, distancia-se, com um discurso singular, do lirismo amoroso em voga no actual momento literário em Moçambique e, praticado pela maioria das poetisas publicadas, criando uma voz própria, limpa e que através dela, o sujeito poético manifesta a sua denúncia (Contar SeGredos) e o seu desencanto com, passo a citar: “… a coscuvilhice nacional, …as verdades mintas do tamanho dum boi…, com os chulos…, com os vastos algozes que espremem impuros…, com o fim que continua ferozmente a começar pelo princípio…, e…com os que gozaram sem sanções”. Agora, pergunto: o que os leitores procuram nos livros, para além de uma nota perdida (não pedida!) de quinhentos meticais? Porque a literatura, como certa vez disse Ferreira Gullar, não melhora em nada a nossa condição de vida. Muito pelo contrário. A arte, tem tirado dos artistas quase tudo e a muitos de nós, a pobreza deixa-nos como herança apenas um fio da sua baba. O que os leitores procuram nos livros? Os leitores ávidos e atentos ou leitores que do leite fazem leitura, como observa Manuela Xavier. Esses, que procuram nos livros o amor e o despertar às coisas belas, fim primário e irreductível da verdadeira arte. Esses, a quem se pede a preciosa e psiquiátrica paciência de quem escuta o outro a Contar SeGredos. Porque a vida, sem o amor às coisas belas, fica uma coisa terrível e insuportável! E talvez, seja por isso, a meu ver, que o sujeito poético, em Contar Ser Gregos, alerta-nos, que mesmo com o Chão-País torto, iniciará a canção, mesmo com o Chão-País coxo, elevará o nome da nação, mesmo com o Chão-País roto, encherá os sinais, mesmo com o Chão-País porco encontrará desencontros e mesmo com o Chão-País morto, saberá dançar. Para terminar, que mais dizer, para além do facto de “Contar Ser Gregos”, despertar em nós, uma das grandes metáforas das nossas vidas: a de Contarmos um dia Ser Gregos. Afinal, não há em cada um de nós um pouco do Maníaco de Atenas? O personagem de Machado de Assis que por dormir ao relento, todos os dias, em frente ao porto de Pireu passou a julgar que todos os navios que atracavam lá eram de sua propriedade. Talvez a ignorância e a ingenuidade enganem-me, mas Contar Ser Gregos, é, a meu ver, um dos mais puros livros de poesia, feita por mulheres, que até hoje publicou-se em Moçambique.

20 | 17 de Dezembro de 2012


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Resenha

Conceição Lima e a linguagem-morada Bruno Gaudêncio - Brasil

O

Útero da Casa (Lexonics, 2º edição, 2012) é um livro de poemas de Conceição Lima, um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea. Poeta e jornalista conceituada, natural de Santana, na Ilha de São Tomé e Príncipe, Conceição estudou jornalismo em Portugal e Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros em Londres, Inglaterra, onde também conquistou o grau de mestre. Foi durante anos produtora dos serviços de língua portuguesa na BBC de Londres. Exerceu cargos de direção de rádio, televisão e em periódicos do seu país, aonde chegou a ser produtora e coordenadora do principal sistema de Televisão, a TVS – Televisão São-Tomense. Porém, apesar de sua dedicação ao jornalismo, tanto em São Tomé e Príncipe como na Inglaterra, é na poesia que seu nome se firma como uma das melhores vozes de sua nação. Sua trajetória poética iniciou-se em livro justamente com O Útero da Casa (Editorial Caminho, 2004) e logo depois vieram mais dois outros títulos: A Dolorosa Raiz de Mincondó (Editorial Caminho, 2006) e O País de Akendenguê (Editorial Caminho, 2011). Em 2012, com o patrocínio do Banco Equador, de São Tomé e Príncipe, os seus três livros ganharam segundas edições. Constituído por 28 poemas, O Útero da Casa demonstra desde o início a força poética de uma autora comprometida com si mesmo e seu país de origem. Através de “lugares metonímicos”, no dizer da crítica literária portuguesa Inocência Mata (prefaciadora da obra), Conceição Lima deslumbra o seu leitor ao construir e reconstruir os seus lugares de afetividade; o seu país, rico em simbolismos e lutas, a partir de um “eu feminino”, em que a casa ganha uma dimensão de amargura e rememoração. Amargura causada por um arquivo de memórias e sensações. Rememoração de lugares íntimos, de pessoas próximas, causando um “imaginário territorial”, numa cartografia sentimental, onde o traço político se efetiva. Um passado que busca combater um período sombrio e perturbador de seu país, num momento pós- independência ou pós-colonial. A história recente da Ilha de São Tomé e Príncipe é marcada por diversas lutas, pois o pequeno país africano passou pelo processo de descolonização com o surgimento de grupos nacionalistas, nos anos 1960, até a conquista da independência em 1975. Porém a liberdade partidária esteve ceifada durante muitos anos, visto que apenas em 1990 iniciou-se a transição para a democracia, com a institucionalização do pluripartidarismo e a adoção de uma nova constituição.

Portanto, na poesia de Conceição Lima um traço marcante é a tentativa uma “reconstrução identitária”- coletiva e ao mesmo tempo individual qual o lugar matriarcal ganha um primeiro plano, numa voz feminina que forma num universo de memórias, em meio a barcos, canaviais, praças lutas, datas comemorativas, amores e amizades, dentre outros.

de no se de

Um exemplo do universo político na poesia de Conceição Lima esta presente no poema Os Heróis, onde uma atmosfera mórbida é desvendada numa lógica de memórias conflituosa perceptivelmente relacionada às lutas de um país por independência e democracia:

Na raiz da praça sob o mastro ossos visíveis, severos, palpitam. Pássaros em pânico derrubam trombetas recuam em silêncio as estatuas para paisagens longínquas. Os mortos que morreram sem perguntas regressam devagar de olhos abertos indagando por suas asas crucificadas.

É percebível a ruptura com “o colonizador”, com uma “imagética do passado”, algo presente também em poemas como “1975”, “Mostra-me o Sangue Agora” e “Manifesto Imaginário de um Serviçal”. Há ainda outro valor identitário presente em O Útero da Casa, numa assimilação de uma identidade maior, a africanidade, algo continental, pois a partir do meio do livro a autora amplia-se poeticamente numa busca mais coletiva que íntima, mais africana que são tomense, - algo que se cristalizará nos dois livros subseqüentes da autora: A Dolorosa Raiz de Mincondó e O País de Akendenguê. Concluo assim a minha breve incursão sobre um livro que considero paradigmático no universo da produção poética africana contemporânea, - por ser um maravilhoso tratado de amor a um país, num discurso que prende por sua historicidade, por seus valores memorialísticos, afetivos e políticos. O Brasil e o mundo precisam conhecer mais a poesia de Conceição Lima, aquela que afirma que através de uma linguagem morada “Não basta o delírio das lágrimas libertas”.

21 | 17 de Dezembro de 2012


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Ideias Finais Um dia de Cão Alex Dau - Moçambique

O

sol fulgurante expelia 45 graus célsius, tornando a terra num inferno. Santos e pecadores transpiravam por todos poros.

Veículos de dez, vinte e mais cavalos marchavam pelo asfalto amolecido pela penetração dos raios solares. Carros fumegantes parados ali e acolá com os radiadores super-aquecidos estavam completamente derrotados pelo incremento da temperatura. Era um dia de cão, com o sol implacável a testar a resistência dos seres humanos e não humanos. O suor banhava rostos de muitos peões que marchavam sequiosos pelas várias artérias da cidade de Maputo e arredores. Um cão tinhoso que escapara diversas vezes das campanhas de abate dos serviços veterinários vagueava com a língua completamente por fora. Estafado, parou. Buscou por uma sombra onde não se misturasse com os humanos, pois estes sempre o escorraçavam. Fornos de uma das maiores companhias de produção dum metal precioso prestavam o seu auxílio ao diabo infernizando mais as terras do sul de Moçambique. – Quando morrermos, vamos para o paraíso porque no inferno já nós estamos! – desabafou um passageiro que acabava de entrar para o chapa apinhado de indivíduos que seguiam com destino a praia. - Esta terra não aquecia assim, agora até parece Tete! – corroborou outro viajante. A praia da costa sol era o paraíso mais próximo, para muitos citadinos e não só que buscavam refúgio algures para escapar a vaga de calor que se abatia sobre o sul do País. Os serviços meteorológicos não haviam previsto o excesso de calor que nessa sexta-feira se abateria sobre as terras dos changanas e dos rongas. Os prejuízos eram enormes, frangos de todas idades sucumbiram ante ao calor infernal, mesmo antes de serem atacadas pela gripe que pulverizava o mundo. Aparelhos de frio de todas as marcas descambaram. Bares, tascas e barracas estavam aglomerados de clientes. - Mais uma cerveja! solicitava cliente após cliente. Raparigas expunham-se pelas artérias da cidade semi-nuas mostrando o que um cego negaria de usufruir, mas ninguém se importava com o atentado ao pudor, estavam todos com as mentes em banho-maria. Os chinelos de borracha de dona Glória governanta da casa do senhor Elias enterraram-se no asfalto embebido da avenida 24 de Julho quando ela se dirigia para o mercado municipal. Ela foi socorrida por dois garotos que se equilibravam em blocos de cimento colocados em paralelo, foi preciso um equilíbrio acrobático para transportarem a mamana para um lugar seguro. Accionistas da maior e única cervejeira do país babavam-se de contentamento a berma das suas piscinas particulares embebedando-se com cerveja importada. Hipertensos de várias idades desembarcavam aflitos nas clínica, hospitais e postos de saúde

O injectável Dany Wambire - Moçambique Há doenças que em nós vivem só por questão de fé. Acreditamos religiosamente que por elas estamos assaltados. E para tal, a cura é do nosso conhecido desejo: um determinado fármaco ou tratamento. Ai daquele médico que ouse prescrever o diferente! Por mais que o fármaco ou tratamento seja eficiente, capaz e eficaz, não cura o paciente. Em Fim-de-Mundo, pelo menos conheço um com esses hábitos. Ou melhor, com essas doenças. Ele é quem conhece o remédio da sua doença. Sim! Digo, mas não em abono da verdade. Até a doença mais recente dele veio há dias, que deixou o Hospital Periférico de Fim-de-Mundo à rasca. Antes, em plena tarde dominical, todas as pessoas viram o vizinho doente, de nome Zecarias Gostavo, a contorcer-se de dores múltiplas. Depois, o corpo dele pedia mais calor, porquanto a doença lhe engendrava frio. E todos saíram a socorrer esse Zecarias Gostavo. Lhe administraram alguma poção de plantas domesticamente preparada, de acordo com os sinais e sintomas da desconhecida doença. Passaram-se dias, a doença não se evadia do seu corpo. De livre, mas não de espontânea vontade, pedia prisão no corpo dele. Não lhe importava acelerar julgamento. Ela trataria de fazer justiça pelas impróprias mãos caso a justiça demorasse, matando o doente e a ela mesma. Sim, no homicídio ocorreria o suicídio, em concomitante. Se com os conhecimentos da medicina verde, a doença não passava, no hospital seria diferente. Esse foi o pensamento de muitos, depois de lhes fracassar a primeira tentativa. E lá foram, com o doente Zecarias. Rapidamente diagnosticaram-lhe a doença. De pequenas irritações sanguíneas se tratava, que podiam ser tratadas com comprimidos de forma comprida, e com injecção de forma breve.

Hipertensos de várias idades desembarcavam aflitos nas clínica, hospitais e postos de saúde da capital e arredores, muitos sucumbiram ante a radiação solar e os proprietários das agências funerárias já estavam prontos para lucrar com as mortes excepto com a dos indigentes. O sistema de frios da morgue do maior hospital pifou porque o responsável pela manutenção preferiu contratar uma empresa medíocre e ganhar comissão e assim engordar o seu bolso satisfazendo sua ganância. A putrefacção dos corpos incrementava a degradação do ar. Estruturas sanitárias empreenderam diligências no sentido de se livrar dos corpos. O ferryboat responsável pela travessia, Maputo-Catembe vice-versa esta complemente repleto de passageiros banhistas e rebentava pelas costuras a ponto da última soldadura efectuada na doca seca começar a romper-se. O ferry apitou uma, duas vezes antes de o motor bufar e o cheiro da combustão se propagar pela atmosfera e muitos citadinos absorveram o ar já impregnado que habitou muitos pulmões, arruinando mais os dos fumadores activos também estes sérios contribuintes para degradação do ar que se respira. A embarcação ferrugenta balançava nas águas poluídas da baia de Maputo, e no porto navios de médio porte estavam ancorados depois de libertarem seus resíduos maléficos pelo nosso belo indico. O ferryboat atracou pelo estibordo, os passageiros banhistas desembarcaram precipitados e ansiosos de efectuarem o seu mergulho, para arrefecer o quente que o organismo alberga. O comboio ferroviário rolava sobre os trilhos largando sua baforada que se evolava na atmosfera participando na comunhão maléfica contra o clima. Um trovão fez-se ouvir e os ouvintes que sintonizaram a frequência da explosão olharam o céu descoberto e luzidio, os que tinham experimentado a guerra civil aplacaram temendo por um obus. Afinal era um posto de transformação de corrente eléctrica da electricidade de Moçambique que explodira. Labaredas de fogo gigantes serpenteavam o habitáculo do equipamento eléctrico. Um transeunte solidário procurava estabelecer contacto com posto de comando dos bombeiros, mas obtém a resposta automática “neste momento não é possível estabelecer a ligação que deseja”. Mirones não arredavam pé dos arredores, as explosões sucediam-se uma atrás da outra, um autêntico espectáculo de fogo-de-artifício. A cada nova explosão recuavam um dois passos mas não descartavam o espectáculo mesmo com o incremento da temperatura nos lugares que ocupavam. Quando finalmente informados, o carro dos bombeiros saiu de rompante. Desembarcaram no local do incidente quando o fogo já havia devorado por completo o posto de transformação. O inferno continuar a habitar a terra dos marongas. Ateus tornam-se pagãos, pagãos crentes e crentes em pregadores nessas onze horas em que o calor abrasador domina o sul de Moçambique. Preces multi-religiosas propagam-se no éter rogando por melhores tempos. O cão vagabundo redescobriu um lugar fresco, talvez o único arejado da cidade e arredores, e repousava cauteloso temendo que um peão manhoso aniquilasse o seu bemestar.

A aplicação da injecção estava descartada. Pois, Fim-de-Mundo debatia-se seriamente com problemas de medicamentos para injecções em farmácias públicas. Mas as privadas farmácias tinham-nos em superabundância. Engraçado! O negócio evoluiu: os privados passaram a ser mais fortes que o Estado. Então, deram os comprimidos ao doente Zecarias Gostavo. Aliás, tudo dava no mesmo. Era questão de tempo e cumprimento com o tratamento. Em breve tudo estaria controlado e Zecarias pronto para trabalhar estaria. Apenas a sua esposa é que se mantinha céptica, depositando desconfianças naquele tratamento. A seguinte crença, ela guardava: a doença desapareceria, mas o marido pioraria. Dito e desfeito, o Zecarias piorou mesmo depois de consumir os fármacos prescritos. Ordenavam-se novas intervenções: de hospitais com melhores condições. Transferiram-lhe para o maior e melhor hospital da cidade. De novo, administraram os comprimidos ao paciente, agora impaciente, porque lhe queriam internar no hospital. Como se ele fosse o pior doente de Fim-de-Mundo. Passaram-se muitos dias e Zecarias não melhorava. Foi então quando este Zecarias pediu para falar com o médico. ― Doutor, minha doença cura com injecção. ― Os comprimidos que lhe demos têm mesmo efeito que o da injecção. Não podemos lhe aplicar o mesmo medicamento, pode haver riscos fatais. ― A minha doença não é derrotada por comprimidos, doutor. Não se importe com os riscos. Qualquer um corre riscos, por isso nas empresas há subsídios de riscos. Que fazer? Doentes desses são intratáveis. Mas a prática ensinou-lhe outra ciência, a da mentira. Então, ele tomou numa seringa e fingiu estar a introduzir qualquer medicamento. Ele enchia aquele instrumento não era senão de água, que no seguido aplicou-a no traseiro de Zecarias Gostavo. E o resultado: ele já estava melhor e a trabalhar. E para os que o vinham visitar, o agradecimento era imedível. ― Melhorei graças àquele médico que me deu injecção.

22 | 17 de Dezembro de 2012

Revista Literatas 49  

Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona

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