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O jornal de literatura que existe há 12 anos

Maputo | Ano II | Nº 45 | Setembro de 2012

Entrevista| Pág. 11-13 “Cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão”

A luta continua...

Reportagem| Pág. 09

Paulina Chiziane e a africanidade


A Forรงa da Juventude Literรกria Leia a sua revista TODOS os dias

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Sumário Personagem

pág. 4

Editorial |

Notícias

Eduardo Quive

“Nós somos cidadãos da eternidade”

pág. 5

F Marcelo Panguana publica “Conversas de Fim do Mundo”

Ana Paula Maia, escritora brasileira

Entrevista

pág. 11 a 13

Décio Bettencourt Mateus, poeta angolano

Poesia

pág. 14 e 15

Ensaio

pág.20 e 21

Eneida Nelly: um novo discurso para um outro olhar para o cânone literário caboverdiano

Reportagem pág. 19

Nynna - Moçambique

Diego Mileli - Brasil

Ficha técnica

Paulina Chiziane: “Isto chama-se preconceito e alienação cultural!”

iódor Dostoiévski tinha um autêntico músculo erudito; uma satírica forma de ver o mundo e as coisas, por isso, verifica-se nas suas abordagens, a normalidade com que lida com o meio e os seus acontecimentos. É essa relevância lúdica que faz de si, provavelmente, o escritor de todos os tempos, todas as gerações e de todos os continentes. A escrita nem pela língua nos limita, aliás, a essência de uma obra, muitas vezes, está na familiaridade que o autor tem com a língua da sua escrita, isso podemos encontrar em Dostoiévski, este nome que constantemente associa-se a bons escritores dos tempos actuais. Ao começar esta abordagem falando do escritor russo que, para além, de autor da frase que guia este editorial é também autor da viva frase como esta “Sofrer e chorar significa viver.” Ana Paula Maia e Décio Bettencourt Mateus, dois escritores de países diferentes, Brasil e Angola, são uma combinação perfeita que vieram a calhar em simultâneo neste número. Trata-se de dois escritores de géneros literários diferentes, (um é contista e romancista, outro poeta) em que não se encontram neles grandes diferenças sob ponto de vista de conteúdo e abordagem. Na poesia de Décio Bettencourt, poeta angolano, vigora um cidadão comum cantante das coisas de gente comum, como a Zungueira (vendedoras ambulantes), o Candongueiro (em Moçambique chamados por Chapeiros), gentes dos “Pés Descalços”, andantes e batalhadores que no final do dia, apenas o arroz lhes interessa. Ana Paula Maia, não foge dessa abordagem, indo ao encontro, entretanto, de uma sociedade cáustica brasileira, falando de factos, que parecem ficção para alguns e, por isso, tratados pela autora com a devida solidez e frieza que eles merecem. Uma escritora que diante daquilo que vê, mantém-se escritora sem afugentar-se na cidadã de um país que também é. Na verdade, há um encontro inadiável entre a África e América Latina que vigora desde tenra idade. Os factos narrados por esses povos, não precisam serem inventados, porém, apimentados como só estes escritores sabem fazer num processo que une, o escritor, o cidadão e o infiltrado na sociedade. Uma boa literatura exige do autor essa coragem do Ser e por muitas vezes do Estar. Mas acima de tudo o que conta é a coragem de falar do quotidiano sem achar nele um mistério específico, fazendo da própria vida, esse mistério de bom contador de histórias. Ana Paula Maia é a personagem desta quinzena – 14 a 27 de Setembro. Décio Bettencourt Mateus angolano nascido em Menongue, província do Kuando-Kubango, sul de Angola, a 11 de Setembro de 1967, autor de “Os Meus Pés Descalços”, “Gente de Mulher” e “Xé Candongueiro!” é o entrevistado. Duas figuras dos mesmos tempos, países diferentes e escrita homogénea.

Centro Cultural Brasil-Moçambique | Av. 25 de Setembro, Nº 1728 | Maputo | Caixa Postal | 1167 | Email: r.literatas@gmail.com | Tel. (+258): 84 57 78 117 | 82 35 63 201 | 84 07 46 603 Movimento Literário Kuphaluxa | http://kuphaluxa.blogspot.com | www.facebook.com/movimento.kuphaluxa

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu | nelsonlineu@gmail.com Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane | jarijuane@gmail.com Cel: +258 82 35 63 201 | +258 84 67 29 929 EDITOR Eduardo Quive | eduardoquive@gmail.com Cel: +258 82 27 17 645| +258 84 57 78 117 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele | amosse1987@yahoo.com.br Cel: +258 82 57 03 750 | +228 84 07 46 603 CONSELHO EDITORIAL Eduardo Quive | Amosse Mucavele | Jorge Muianga| Japone Arijuane | Mauro Brito.

REPRESENTANTES PROVINCIAS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa Jessemuce Cacinda - Nampula REVISÃO LINGUÍSTICA Jorge Muianga COLABORADORES Moçambique: Izidine Jaime Brasil:

Timor Leste: Palmira Marques Angola: Lopito Feijóo João Tala Cabo Verde: Filinto Elísio COLABORAM NESTA EDIÇÃO: Angola - Gabriela Antunes

Rosália Diogo Marcelo Soreano Pedro Du Bois Samuel Costa

Brasil - Diego Mileli ; Dejair Dionísio; Josélia Aguiar

Portugal: Victor Eustaquio

Moçambique - Nynna; Octávio Cesar Bule ; Eduardo White

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Galiza - Alberte Momán PAGINAÇÃO Japone Arijuane Eduardo Quive PERIODICIDADE Quinzenal

A revista Literatas é uma publicação electrónica idealizada pelo Movimento Literário Kuphaluxa para a divulgação da literatura moçambicana interagindo com as outras literaturas dos paises da lusofonia. Permitida a reprodução parcial ou completa com a devida citação da fonte e do autor do artigo.


Às segundas-feiras saiba quem é a personagem da semana em: http://revistaliteratas.blogspot.com

Personagem | Brasil

Ana Paula Maia

N FOTO: Rascunho

ascida no ano de 1977 em Nova Iguaçu, Riode Janeiro, Ana Paula Maia é uma das mais prestigiadas escritoras na literatura contemporânea brasileira. Na adolescência, tocou numa banda de punk rock e estudou piano. Escreveu o roteiro do curta-metragem O entregador de pizza (2001) e foi co-autora (com Mauro Santa Cecília e Ricardo Petraglia) do monólogo teatral O rei dos escombros, montado em 2003 por Moacyr Chaves. Seu primeiro romance, O habitante das falhas subterrâneas, foi publicado em 2003. É autora da trilogia A saga dos brutos, iniciada com as novelas Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros (publicadas em volume únido) e concluída com o romance Carvão animal. Influenciada por Dostoievsky, pelo cinema de Quentin Tarantino e Sergio Leone, pelos folhetins e pela literatura pulp, entre outros, suas obras são marcadas pela violência e pelo tratamento seco dado aos personagens, muitas vezes com elementos escatológicos. (sic, wikipédia)

Teu sangue em meus sapatos engraxados “Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse.” [Aristócrito] Para Santiago Nazarian

Eu tive um dia cujo sol foi da cor do desespero e a lua, a lua está embaçada e um tanto desgastada, e não tem outra opção senão refletir a luz do sol, e outra vez há mais desespero sobre minha cabeça. Ainda bem que não preciso matar a lua ou o sol todos os dias, mas se tivesse, eu resplandeceria a sua cor. Sigo calado, esgotado e embaçado como a lua que esforça-se por desaparecer. Certamente, se vivesse nas alturas eu desapareceria quando as coisas atingissem essa tonalidade. Cutuco o nariz nervoso, porque posso sentir resíduos de pó agarrado nos pelos; do punhadinho do pó branco depositado sobre a mesa do quarto, aquela pequena montanha mágica que desci esquiando por suas depressões, esquivando-me de suas falhas. Com o cabo da colher, a montanha transformou-se em trilhas paralelas e consegui construir três fileiras curtas. Trilhas breves, limitadas como a vida para algumas pessoas. Tapo a narina direita e arrasto como um porco o focinho sobre a mesa. Absorvo o estado bruto da liberdade, da mudança e apago da mesa os três caminhos que criei, e já não há mais caminhos ou rastros, eu os absorvi e tornei-me o próprio, o dono de minhas trilhas. Isso pode ser daninho e doce feito mel apodrecido em dias com o sol da cor do desespero. Estou com fome e devoraria qualquer substância orgânica nessa hora. Não me lembro de ter comido nada durante todo o dia. Talvez agora tivesse um almoço. Nu. Através de uma janela pouco maior que minha televisão vinte polegadas, no centro da sala é onde vejo meu tempo escoar. Ter um horizonte com menos de vinte polegadas não deve ser o sonho de ninguém e só entendemos isso quando nos acordam. Um terrível pesadelo é ótimo para te fazer acordar. O sono da razão pode produzir monstros, mas o sono da inabilidade pode te paralisar. As imagens ali são sempre do meu próprio tempo acelerado, um desperdício. Prefiro os monstros. Sempre os preferi e comecei a me afeiçoar a eles, meus monstros entranhados no lago do meu espírito, tão sombrio que quando retorno à superfície, o ar rarefeito me deixa anestesiado. Não falo de amor ou ódio, falo dos monstros que me deixam acordado. Que me fazem avançar, sombras que me perseguem, rastejando, tentando abocanhar meu calcanhar. E eu posso sentir a nuvem de fuligem espessa armazenada sobre minha cabeça. É a lua, entende? Esse maldito satélite sem luz própria que traz o desespero do sol, do péssimo dia que tive. Quanto mais eu ando, mais percebo que a lua corre depressa. Não dá para alcançá-la e as estrelas já estão mortas...

brilham, mas não existem mais. Mortas imortais vivendo a morte de uns, morrendo a vida de outros tantos. Olho para meus pés e vejo que esqueci de trocar os sapatos. Meus sapatos manchados de sangue que secou faz tempo, quando ainda fazia sol e quando eu ainda pensava se devia ou não matar aquele monstro. Monstros que te acusam, que te amam e te esquecem, que te fazem sofrer, mas não falo de amor, isso não cabe em minhas linhas, nem no meu coração ou no mais profundo lago do espírito. Pouca coisa cabe aqui e quando me sufocam eu afundo tudo para o lago, na parte mais sombria e esquecida, depois lavo minhas mãos, troco meus sapatos e o sangue é sempre lavado, levado pelas águas. Os monstros são daninhos e doces feito mel apodrecido, alguns o chamam de amor ou ódio, para mim mel estragado. Frias mandíbulas trituradoras no seu encalço. Não deixaria que alguém me fizesse isso de novo, te esquecem e te fazem sofrer. Eu a quero ainda, e só consigo pensar que meus sapatos carregam um pouco dela. Suas hemácias ressecadas. E por todos os lados eu a vejo como sombras se cruzando, mas a culpa é da lua que insiste em manter tudo aceso. Eu posso fazer novamente, afogar mais alguns monstros até que as nuvens decidam escondê-la, eu posso avançar mais alguns passos enquanto suspiro minha possível maldade. Nunca me arrependo. Sempre sigo em frente, tossindo pedaços do meu pulmão doente, embalado por bebida barata. O caos da expansão do meu microcosmo, esse tipo de necessidade meramente humana. Predadores não tiram férias, resvalam na consciência de um possível ajuste, mas nunca deixam de acossar. Seu sangue em meus sapatos engraxados ontem; estavam limpos e reluzentes como fazia o sol quando você derramou-se sobre eles. E ainda a vejo e continuo avançando sobre as sombras que me cruzam e cortam feito navalha, na carne e na alma, mas nunca falo de amor, só do mel apodrecido que ela deixou na minha boca. Já estou tão perto que já sinto o perfume dos monstros e eles ainda não sabem, mas vão lavar seu sangue dos meus sapatos. [publicado na coletânea "Contos sobre Tela"]

LIVROS 2011: Carvão animal - Editora Record 2009: Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos - Editora Record 2007: A guerra dos bastardos - Língua geral 2003: O habitante das falhas subterrâneas - Editora 7 Letras

04 | 17 de Agosto de 2012


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Notícias “Conversas do Fim do Mundo” de Marcelo Panguana Eduardo Quive - Moçambique

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omo se pode explicar um fim? Como ele é ou como será? O que dizer perante o mundo que se acaba? Qual será o tempo final? Todas estas questões que podem incomodar o leitor (como a nós incomodam), levam-nos a este, no mínimo, satírico título do escritor moçambicano Marcelo Panguana, “Conversas do Fim do Mundo”, apresentado em público ontem, 13 de Setembro, no Instituto Camões – Centro Cultural Português em Maputo. Realmente, perante o fim, não se tem nenhum argumento, se não o próprio fim que se instala, afinal, Marcelo Panguana, autor de outras reflexivas obras como, “As Vozes que Falam Verdade” (1987), “A Balada dos Deuses” (1991), “O chão das coisas” (2003) e “Como um Louco ao Fim da Tarde” (2010), é aquele que não se cansa de falar o que vê, vive e sente. É como diz Francisco Noa, crítico literário, “na literatura moçambicana o que há de melhor são contistas e são contos que não se precisa inventar”. Panguana, é esse escritor que não inventa, usa os “chãos” que tem para contar várias histórias com o devido cuidado de se perder no texto, típico de jornalista que é, embora se ocultando.

Em “Conversas do Fim do Mundo” não encontrar-se-á um “eu” novo deste escritor, no entanto, há nessa obra, a novidade dos próprios assuntos retratados, desta vez, em jeito de críticas de obras literárias moçambicanas, reflexão filosóficas, análise de assuntos existenciais e, como não podia faltar, tendo em conta o estilo característico das suas abordagens, interrogações do país que vive e de onde é. “Estou a cumprir as minhas obrigações como escritor e como cidadão. Vou falar do país, das coisas que vejo no quotidiano e outros textos que fui produzindo ao longo dos últimos tempos, na sua maioria já publicados em jornais e revistas e alguns inéditos”. A olhar pelas declarações do autor, em exclusivo para a Literatas, “Conversas do Fim do Mundo” será o prenúncio dos nossos dias no olhar da lucidez de um literato. “A Literatura não pode ser tida apenas como uma forma de proporcionar lazer, mais do que isso, a Literatura é uma forma de intervir.” O facto deste livro estar a adiantar-se para o “fim” não implica o fim da carreira de Marcelo Panguana aos 61 de idade. “um escritor não morre”, disse o escritor.

“Livro Livre” de Laulane e arredores Redacção

E

amo brincar com as palavras, construir frases, desconstruir conceitos, inaugurar novos mundos (ou redescobrir os velhos)”. A relação deste autor com o seu meio (meio de todos), leva a uma necessidade de se revisitar um outro “cronista” que constantemente se camufla na posição de contador de estórias, Marcelo Panguana, que nas suas obras “O Chão das Coisas” e “Como um louco ao fim da tarde” faz quese que sistematicamente, uma radiografia dos problemas do quotidiano, sem deixar de os

m jeito de incitação a uma provável viagem ao seu meio, Niosta Cossa que se propõe ser o cronista dos próximos tempos depois dos Machado da Graça, Tomás Vieira Mário entre outros bons nomes que se assinalam neste género raro no país, tornou oficial o seu estatuto de cronista hoje Niosta Cossa descreve em suas cronicas o bairro de Laulane em Maputo, com o lançamento do seu livro relacionar com os tempos idos. intitulado “Livro Livre”. Afinal, estamos perante uma escrita não muito nova, mas para lá das regras O lançamento de “Livro Livre” de Niosta Cossa, que aconteceu na Escola de clássicas. Estamos na verdade, diante de um autor que se consolida entre o dizer Artes e Comunicação da Universidade Eduardo Mondlane, foi um acto o que pensa perante o dizer o que sabe e o que outros pensam. Niosta Cossa não presidido pelo académico Cremildo Bahule, este que por sua vez, é autor da cede à pressão e nem teme as aventuras. Escreve e descreve de forma sólida, os satírica obra “Carlos Cardoso: um poeta de consciência profética” e “Babalaze: problemas periféricos, aliás, tal periferia que vive desde ao seu “agitado” bairro A Outra Margem da Verdade”. Para Bahule, Niosta Cossa é um autor de que o país precisa e vem para Laulane aos outros cantos da cidade de Maputo que ele vê com um olhar crítico. Na lupa desde jovem escriba, em “Livro Livre” passam-se cenários como, pressa enriquecer o Moçambique literário que se está a consolidar, daí, a leitura de com que os homens agem todos os dias, frustração, nostalgia, fome e sede sem “Livro Livre” ser não só por necessidade de entretenimento, mas por se tratar falar dos movimentos que Laulane faz sem estar fora da cidade que é capital de de um livro que fala de um quotidiano por todos conhecido, facto que nos leva a Moçambique o que lhe faz dizer de viva voz “escrevo por paixão – actualmente intitular essa obra de “Livro Livre” de Laulane e arredores.

Prémio Karingana Wa Karingana- Universidade do Minho atribuído a estudante da Beira

M

argarida Francisco, da cidade da Beira, centro de Moçambique, venceu a primeira edição do Prémio Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho 2012 e terá direito a frequentar uma licenciatura em Ciências da Comunicação no Minho. Em comunicado, a Associação Karingana, a promotora do prémio com a Universidade do Minho, refere que Margarida Francisco ganhou o concurso, após elaborar com sucesso um conto iniciado pelo escritor moçambicano Mia Couto, tal como previsto no regulamento do prémio. "O prémio tem um valor monetário aproximado de 40.000 euros (engloba

propinas, alojamento e mensalidade), o que o torna um dos maiores galardões literários criados em Portugal", diz a nota de imprensa da Karingana wa Karingana. Margarida Francisco vai agora estudar Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, em Braga, após ter sido aluna na Escola Secundária Samora Moisés Machel, na Beira, onde concluiu o 12.º ano. O Prémio Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho 2012 foi atribuído por um júri presidido por Mia Couto e de que faziam parte os igualmente moçambicanos Gilberto Matusse, Francisco Noa e Sara Laísse e os portugueses Edite Estrela, Luís Gonçalves e Elsa Santos.

05 | 17 de Agosto de 2012


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Leituras

Em 12 anos de vida: O “Mais difícil é encontrar dinheiro”

A

os 12, com circulação mensal que nunca se interrompeu, o “Rascunho” é hoje a mais longeva publicação literária independente do país. Quando existia a EntreLivros, revista mensal que editei entre 2005 e 2008 (como editora assistente e depois editora), eu pensava diariamente em quanto tempo duraria. E ao ver todo mês o Rascunho chegar, apostava que seríamos capazes de repetir o feito daquele veterano sediado em Curitiba. EntreLivros se foi, Rascunho continua – caro leitor, não é nada fácil. Criador e editor, Rogério Pereira conta a história do Rascunho: nasceu em 2000 como um encarte de oito páginas do “Jornal do Estado”, de Curitiba. Quando completou quatro anos, se tornou independente, já com 32 páginas, 40 em edições especiais. A cada mês, são rodados 5 mil exemplares. O número de colaboradores varia de 30 a 50 por edição. Chega a todos os estados brasileiros por meio de assinaturas e cortesias. Há pontos de distribuição gratuita em livrarias de vários estados. As edições seguem também para universidades e embaixadas brasileiras no exterior. O jornal é editado pela Letras & Livros, “criada por razões fiscais e cujo patrimônio é uma sala atulhada de livros, um computador, uma impressora e algumas dívidas”, explica Pereira. O endereço fiscal continua sendo o da casa de sua mãe. “Lá, o Rascunho nasceu. Lá, há de sobreviver. É claro que isso faz parte do folclore do jornal, pois agora temos uma sala comercial no centro de Curitiba”. Esta é a conversa que tive com Rogério Pereira por email. Vá por aqui para encontrar a versão online do Rascunho. Josélia Aguiar - Brasil Como surgiu a ideia de fazer o Rascunho? “Foi bastante prosaico: reuni um grupo de amigos para criar um jornal literário. Na época, éramos bastante jovens, acreditávamos que iríamos mudar o mundo, fazer grandes coisas etc. Ou seja, o que todo jovem acredita que irá fazer antes de se tornar um velho reclamão e acomodado. Tínhamos muito claro que precisávamos fazer algo de qualidade, expressivo, diferente. Então, resolvemos apostar em longos textos, longas entrevistas, espaço para inéditos — algo em franca decadência na imprensa brasileira naquela época, tão apaixonada pelas novidades da internet. Sempre fui muito perfeccionista e exigente comigo mesmo. Então, não poderia fazer um jornalzinho de literatura. Era preciso fazer o ‘melhor jornal de literatura do Brasil’, mesmo sem nenhum dinheiro, pouquíssima visibilidade e conhecimentos mais do que frágeis. Enfim, uma aventura como outra qualquer, cujos prejuízos seriam mínimos. Mas a aventura deu certo. O Rascunho cresceu, tomou corpo, importância e hoje é, apesar da arrogância do slogan, ‘o jornal de literatura do Brasil’”. Lembro-me de uma fase mais polêmica, com resenhas mais duras, brigas até. O Rascunho, me parece, está mais suave. É da idade? Foi algo que ocorreu naturalmente ou vocês buscaram uma mudança de ânimos? “Não buscamos nada. Ou buscamos e não sabemos. No início, éramos iconoclastas, destruidores, birrentos, piás de calça curta jogando pedras para todos os lados. Matamos vários passarinhos desavisados. Fase muito

06 | 17 de Agosto de 2012


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Leituras

boa aquela. Lembro da capa sobre os 50 anos da poesia do Décio Pignatari: “50 ANOS DE ENGANAÇÃO”. Depois, teve a do Sebastião Uchoa Leite: “Pára com isso, Sebastião”. O Rascunho era melhor ou pior naquela época de guerrilha? Uns acham que era melhor; outros, que era uma lástima. Hoje, somos mais mansos, mais bovinos? Talvez sejamos mais responsáveis, sem perder a liberdade de opinião. O Rascunho vive publicando resenhas negativas a vários autores consagrados. Qual o problema? Nenhum. Fazer um jornal para ficar bajulando o outro em troca de bajulação é algo que não nos seduz. Pode seduzir algum dos colaboradores, mas nunca me seduzirá. O jornal continua sendo um amplo palco para discussões literárias, para a divulgação do livro, leitura e literatura. Hoje, abriga muitas vozes, é mais complicado driblar certos compadrios. Mas continuo tentando. Levo as coisas muito a sério. Há todo um critério editorial seguido à risca. É claro que hoje as costas doem mais, a visão está mais embaçada, a energia começa a rarear. Nestes dias, é melhor esquecer pequenas intrigas. E guardar energia para as grandes batalhas. A velhice só faz bem aos museus; e aos geriatras enquanto não precisarem consultar seus colegas geriatras”. O que é mais difícil – ter mais leitores, ter os colaboradores que procuram, ter patrocinadores? “Mais difícil é encontrar dinheiro. A ignorância está entranhada na vida do Brasil. Ser ignorante é muito fácil, muito mais cômodo. Dói menos. Nossa classe média é alfabetizada, mas não lê. Ou lê para se distrair. Portanto, um bando de analfabetos. Nossos políticos, com algumas boas exceções, são todos clones do Tiririca: usam gravata Armani, terno Ermenegildo Zegna e carregam no bolso o livro de piadas do Costinha. Para tirar sarro da nossa cara, obviamente. Leitores surgem o tempo todo. Somos uma imensa minoria. Mas com bastante ânimo. Colaboradores também. O Rascunho não consegue abrigar todos que desejam colaborar com o jornal. E não pagamos um centavo pelos textos. É incrível como existem pessoas malucas. Não estou sozinho nisso. Sou apenas um arremedo de Simão Bacamarte. O Rascunho é a nossa Casa Verde. Precisamos de mais dinheiro para adquirir nossos barbitúricos, soníferos, calmantes etc”. O Paiol Literário, projeto que recebe autores para longa conversa, e agora a reunião em livro das principais entrevistas fortaleceram o Rascunho? “É preciso fazer algo que dê sustentação financeira. Todo projeto ajuda a manter o Rascunho vivo. O Paiol surgiu do meu interesse pelas discussões em torno da leitura/literatura. Não é nada original: entrevista com um escritor, com perguntas do público. O diferencial é que guardamos a memória de todos os encontros com a transcrição no Rascunho, com o áudio e o vídeo. O livro de entrevista é uma consequência bastante natural, pois as grandes entrevistas fazem parte da alma do Rascunho desde seu início. E o belo trabalho do Luís Henrique Pellanda na organização e da Arquipélago na edição valorizou muitíssimo esta marca do Rascunho. Mas o mais importante é que o Rascunho gerou um ambiente propício à criação de novos projetos. E vamos continuar insistindo enquanto o médico não nos der alta deste hospício.” O site ajudou na vida do Rascunho impresso? “O site ‘piorou’ a vida: não ganhamos dinheiro com ele (só gastamos) e cresceu muitíssimo a nossa demanda. Todo dia tem alguém entrando em contato, mandando textos, mandando livro, etc. Um verdadeiro inferno, no bom sentido (acho). Hoje, temos mais leitores no site do que na versão impressa. Ao todo (site + impresso), temos quase 30 mil leitores. É muita gente desocupada neste mundo.” Como funciona a parceria com o grupo GRPCom, que publica a “Gazeta do Povo”? “Imprimimos o Rascunho nas gráficas da “Gazeta do Povo” com algumas vantagens. Em troca, oferecemos todo o conteúdo do Rascunho para o site da Gazeta. É uma ótima parceria. Mas não implica em qualquer interferência na linha editorial. Continuamos com a mesma independência, fazendo o jornal de madrugada, aos finais de semana. As dificuldades financeiras continuam as mesmas. Todo mês é preciso buscar dinheiro para arcar com todas as despesas da edição. Quando falta, tiro do meu bolso. Não usamos lei de incentivo. Mas, que fique claro, não há nada de heróico nisso tudo, como alguns dizem por aí. É apenas uma escolha, uma forma de viver, de apostar em alguma coisa em que se acredita. Heróico é outra coisa, muito mais complexo, como ajudar efetivamente quem precisa. Fazer um jornal de literatura é apenas uma aposta. Nada mais.”

“Deus se esqueceu de colocar na constituição cerebral da classe média brasileira (na haitiana também, parece) que ler é importante. E a classe média gerou os diretores de marketing, que não lêem, não sabem para que serve a leitura de ficção etc. Aí, eles, os diretores de marketing das grandes empresas (inclusive das editoras), que só lêem livros de autoajuda, pois estão preocupados somente consigo mesmos, não sabem exatamente para que serve uma publicação literária. Aí, não destinam verbas publicitárias a estas publicações literárias. E elas morrem. E as grandes editoras, que poderiam investir em publicações como o Rascunho, não investem. Por quê? Simples: porque é preciso fisgar o leitor desavisado dos grandes jornais. O leitor do Rascunho sabe onde e o que procurar nas livrarias. Entre a Folha e o Rascunho, a grande editora sempre opta pela Folha. Não poderia optar por ambos? Cansei de bater na porta das grandes editoras pedindo um quinhão (bem pequeno) da verba publicitária. Algumas querem fazer permuta por livros. Adoro livros, vivo por eles etc., mas já tentei mastigar a “Divina Comédia” com alface e me pareceu indigesto. Nem as grandes editoras, cujos diretores de marketing foram gerados a partir do erro divino, apostam em publicações com o Rascunho (a não ser as assessorias de imprensa, que nos atormentam o tempo todo; por quê? porque os escritores querem espaço lá, acham importante a discussão de seus livros no jornal, etc.). Torço para que os diretores de marketing sejam todos ficcionistas. Eu falo de publicações literárias na essência. Não falo de publicações culturais. Ninguém se interessa por publicações alternativas de literatura. A não ser os leitores e os escritores. Mas os leitores destas publicações estão sempre sem grana. Se todo mês cada um que diz gostar doasse R$ 1, estaríamos salvos. O pobre não é solidário na literatura. Nem no câncer. Mas as publicações têm muita culpa nisso tudo. Normalmente, são de péssima qualidade gráfica e editorial, atendem interesses mesquinhos de meia dúzia de poetas locais, são intransigentes, não aceitam a variedade de vozes etc. Sufocam e morrem.” Como explicar o fato de Curitiba, o Paraná em geral, ter um veículo do porte do Rascunho? Antes houve o Nicolau, agora há também o Cândido. De onde vem a tradição de fazer publicações? “Talvez venha da anemia editorial da cidade. Nunca tivemos (com raríssimas exceções) um mercado editorial fortalecido. Isso talvez tenha motivado algumas pessoas a se dedicar às publicações literárias. É uma forma de dizer “estamos aqui, fazemos algo além de fugir da chuva e de treinar este nosso sotaque horroroso”. Ou talvez não seja nada disso. Quem sabe seja um ranço da soberba intelectual de nossa colonização europeia: somos filhos de italianos, poloneses, ucranianos, alemães. Filhos renegados, é bom que se diga. Ou talvez seja a coincidência de algumas pessoas estarem em Curitiba em determinado momento da vida. Ou ainda a inveja do passado. Já que tivemos a Joaquim, vamos fazer o Nicolau; já que o Nicolau fez sucesso, vamos fazer o Rascunho; já que o Rascunho deu certo, vamos criar o Cândido. É isto: a inveja nos move. A culpa, portanto, de tantas publicações literárias em Curitiba é da inveja. E, em última estância, do capeta e dos pecados capitais. Contrariando nossa tradição cristã, vamos todos arder no fogo do inferno, invejosos, sob as labaredas das nossas páginas impressas em papel barato.” O que quer o Rascunho agora? Algum novo projeto, reformulação à vista? “A sobrevivência. Sempre. Mas sempre queremos ir além da sobrevivência. Vivo de projetos. O que me impulsiona sempre é a possibilidade de fazer algo, de ir além. Tenho vários projetos anotados na caderneta ao lado da caixa de Rivotril. Pretendo criar uma fundação: Fundação Rascunho de Cultura. Com isso, desejo criar projetos sociais de livro e leitura. Ir além da discussão teórica, da divulgação dos livros etc. Hoje, apoiamos alguns projetos, mas é preciso fazer mais. Acho que uma Fundação dará suporte para mais esta aventura. Também pretendo criar uma biblioteca comunitária na casa da minha mãe (endereço fiscal do Rascunho). Cresci naquela casa de madeira, criei o Rascunho ali, li boa parte dos livros naquele quarto úmido. Agora, sempre que vou à casa da minha mãe, penso que uma biblioteca poderia ser muito útil para aqueles moleques que passam o dia nas esquinas vagabundeando ou usando drogas. Também carrego há bastante tempo a ideia de uma biblioteca itinerante pela periferia de Curitiba. Pretendo comprar uma kombi, equipá-la e levar livros e leitura a quem precisa. Muitas pessoas não sabem que gostam de ler. É preciso mostrar isso a elas. E pretendo criar o Prêmio Rascunho de Literatura. Ainda não sei muito bem como, nem quando, mas penso nisso há muito tempo. Não tenho projetos originais. São todos muito óbvios. Mas acredito que é preciso dizer o óbvio todos os dias. E o original quando é possível.”

Por que as nossas publicações literárias nascem e morrem tão rapidamente? A competição entre os pares é um problema maior que a própria falta de público?

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Ideias Como financiar a nova literatura angolana? Descubra como ajudar Gregório Semedo a editar e publicar o livro "Angola mãe querida" em Angola, Cabo Verde e Portugal. Nesta obra viajamos pelo quotidiano angolano após guerra civil. Gregório Semedo lança projeto na plataforma de financiamento coletivo Zarpante para captar fundos necessários.

Workshop Regional Norte Construindo a literatura moçambicana Organização: Clube de Escritores Poetas Amigos do Niassa Envolvidos: . Grupo Anamupuela, Grupo Cultural Anamavenchiwa, Projettomondo.mlal – Nampula; . ComArte – Cabo Delgado Parceiros: Universidade Pedagógica, Instituto Camões e DPEC Niassa

APRESENTAÇÕES: - Do combate à literatura: uma forma de intervenção social – Paula Machava (UP Niassa) Gregório Semedo, escritor e artista plástico, nasceu no sul de - As Novas Tendências da Literatura em Moçambique – Óscar Daniel (UP Niassa) 5 de Setembro de 2012, Paris.

Angola, reside em Lisboa desde 1981 e precisa captar 5.500 EUR para editar e publicar 500 exemplares do livro "Angola mãe Local/Data: Cidade de Lichinga/19 de Setembro de 2012 querida" para venda em Angola, Cabo Verde e Portugal. O livro conta a história do jovem emigrante angolano "Zito", que Organigrama de actividades passa pelo processo de adoção de nova pátria contrastando Ord. Actividade com a busca e resgate de suas verdadeiras origens em Angola. Toca de leve nos fenómenos de dispersão do povo angolano: o 1º Período tráfico negreiro e a 01. Discurso de abertura guerra civil. O projeto 02. Experiências busca captar Literatura no Niassa fundos no site 03. Dissertação e debate Zarpante Tema 1: Do combate à literatura: uma forma até 29 de janeiro de intervenção social de 2013. Para 04. Experiências realizálo, são

05. 06. 07.

Literatura em Cabo Delgado Dissertação e debate Tema 2: As Novas Tendências da Literatura em Moçambique Experiências Literatura em Nampula Intervalo

Horas

Responsável

09h00

DPEC – Niassa

09h15

CEPAN

09h30

dra. Paula Machava

10h15

ComArte

10h30

dr. Óscar Daniel

11h15

Grupo Anamupuela

12h00

Todos

2º Período

necessários: 3.000 EUR para editar, publicar e divulgar o livro em Portugal; 1.250 EUR para divulgá-lo em Angola; 750 EUR para divulgá-lo em Cabo Verde. Tanto pessoas físicas quanto jurídicas podem contribuir. As contribuições podem ser sob forma financeira ou sob forma de permuta. Recompensas estão previstas em troca: exemplares oferecidos, inclusão de logo na lista de patrocinadores, palestras sobre o impacto económico da imigração, exposição dos quadros a óleo que fazem parte da ilustração do livro… Financiamento coletivo (crowdfunding) é uma forma inovadora e alternativa de financiar projetos por meio de contribuições de múltiplas fontes agregadas. Conceito já bem conhecido em outros países (Estados Unidos, França…) que Zarpante oferece aos lusófonos. Financiar coletivamente um projeto, encontrar meios para contornar a crise, mantendo produção artística e cultural diversificada e legitimada pela participação pública. O público passa a ser ator do cenário cultural, ao ter direito de escolher os projetos que deseja ver acontecer. Trata-se de mecenato democratizado. Estabelece contacto de artistas independentes e menos conhecidos com o público, cansado de ver, ler e ouvir sempre as mesmas coisas. Para fazer acontecer o projeto "Angola Mãe Querida", acesse, por favor, o link seguinte: http://zarpante.com/investment/produ-1070. Zarpante (http://zarpante.com) é uma plataforma de financiamento coletivo, criação colaborativa e co-produção para projetos relativos à arte, à cultura e ao património lusófonos.

08.

Recital de poesia (1ª parte)

15h00

Poetas/Declamadores

09.

15h30

Grupo Cultural Anamavenchiwa

10.

Tertúlia Literatura como Instrumento de Reinserção Social do Recluso Recital de poesia (2ª parte)

15h50

Poetas/Declamadores

11.

Considerações finais

16h20

CEPAN

GRUPO ANAMUPUELA

ZARPANTE LDA Henrique Moretzsohn de Andrade Co-fundador Avenida da República, nº 679, Andar 1, Sala 1.5 4450-242 Matosinhos Portugal Telefone. 00 351 22 938 34 15 Telemóvel. 00 33 (0)6 50 68 59 78 Fax. 00 351 22 937 49 20 Email: contacto@zarpante.com

Zungueira

Soba

08 | 17 de Agosto de 2012


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Reportagem Uma viagem pela prosa de Alexandre Chaúque: “Ndekeni”* Gulamo Tajú - Moçambique Sociólogo

Escritor Alexandre Chaúque autor de Ndekeni

S

exta-feira, 24 de Fevereiro, o Sol estava a pôr-se do lado de lá da Maxixe. Eu e o Chaúque partilhávamos uma preta em Nyaposa[1], quando ele fala-me do Ndekeni e convida-me a fazer a sua apresentação na cerimónia do seu lançamento público. Não pestanejei. Aceitei de coração. Mas sei que serei incompreendido. Muitos estarão aqui interrogados: porquê eu apresentar um livro desta natureza se não sou escritor, nem estudioso de literatura. É verdade. Têm muita razão, os que assim se interrogam. Mas, eu, o ninguém, nestas circunstâncias, não poderia ter negado o convite do Chaúque. Falando na língua[2] em que a nunu[3] Sagwate[4] e a Dª Marta wa Firmino[5] nos ensinaram as primeiras palavras, e as seguintes também, Chaúque é mufo wangu. É meu amigo. Não é um amigo qualquer. Aliás, entre os Vatonga não há amigo qualquer (ou, pelo menos, não havia). Amigo é aquele por quem podemos morrer e que também pode morrer por nós (neste caso, arriscando-me, eu, a morrer pela boca, por falar muito e de coisas de que nem sou especialista). Mufo[6]. Mufo wangu. É isso mesmo. Aquele que pode morrer – gufa – por mim. Malditos dos portugueses que semearam falsidades nas nossas relações sociais e passamos a tratarmo-nos, nas nossas amizades, por parceiros, pares (dzipari[7]). É isso mesmo. Hoje, mesmo avba gaya[8], muitos tratam amigo por pari – o que denota amizade circunstancial, episódica. Chaúque não é, para mim, pari yangu. É mufo wangu[9]. Por isso aceitei o seu convite. Nyibongide, Chaúque, unganyirana para nyiganela ku uwe nyi gulova gwago. (Sei que há aqui convidados e mais circunstantes cujas mães lhes iniciaram na fala em outras línguas que não o Gitonga. Por isso vou traduzir: “Obrigado, Chaúque, por me teres convidado para falar de ti e da tua escrita.”).O livro e o autor sobre os quais devo falar se confundem muito. O livro narra a trajectória e as peripécias do Ndekeni – um jovem das planícies de Mocodoene, aqui em Inhambane, que se aventurou para Maputo e depois para Africa do Sul, ao encontro da luz. Queria ganhar dinheiro para depois regressar com outra condição social e casar-se com uma mulher da terra. O jovem Ndekeni, em Mocodoene, sonhava com os leões lhe transportando no dorso e ele abraçado à farta juba, ao encontro da luz. Já os seus antepassados haviam tido sonhos semelhantes e, ao encontro da luz, em Maputo ou na África do Sul, fizeram-se a pé ou transportados do “Madjone-Ngonyamo, Lda”, do “Sá” (Auto-Viação do Sul do Save, Lda), da Romos e agora dos Chapas[10] da Junta[11]. Ndekeni chegou à Junta num dia de chuva. Não tinha bússola nem GPS[12]. Valeram-lhe os espíritos dos antepassados. Ali mesmo, mas não de imediato, conheceu um avô, casado com Raci Makwandra e já estabelecido em Maputo há 30 anos, e que lhe fez conhecer “Estrelas Vermelhas” e mulheres. E, já sozinho, porque negava dependências do avô, conheceu a baixa de Maputo e a Rua de Bagamoyo com tudo o que de Araújo tinha.Este livro já foi premiado pelo Conselho Municipal de Maputo, em 2011. Ainda era manuscrito. Quando li a chegada e permanência do Ndekeni na Junta, no bairro do Aeroporto, no “Estrela”, na Rua de Bagamoyo, compreendi as razões por que o meu antigo colega de profissão premiou esta obra do meu antigo colega da Pré-primária, na Escola Primária Carvalho de Araújo. É o retrato de Maputo, das migrações diárias, das multidões sem destinos bussolados e muito menos djipiessizados[13], mas com sonhos todos os dias adiados e, no dia seguinte, renovadamente acordados. É o Maputo das insónias do Simango.A primeira pessoa com quem partilhei a leitura deste livro foi a minha filha, última. Ela nascida na terra dos Varonga. Ficou deslumbrada com a estória da Raci Makwandra. Ela está a estudar medicina na UEM. E a Raci estudou outra medicina, nos fundos do mar, durante 3 meses. E a sua graduação não foi feita com a toga preta europeia, mas com o corpo

coberto de algas e missangas ganhas nos 3 meses de marinagem. Minha filha já havia ouvido falar desta estória, quando, em 2004, veio passar férias com a avó Zaharai[14], precisamente em Mucucune (ou, melhor dito, em Nguhune) – terra da Raci – e aonde ela bebeu um pouco melhor das raízes do pai. E vi-lhe maravilhada e disse-me: “isto é típico da vossa terra”. Com uma beleza de pormenores, o típico da nossa terra, as suas crenças, as suas celebrações, a sua culturalidade, perpassam o livro do Chaúque. E eu reencontro-me, nele, com a minha infância em Bhalane, Nguhune, Gilaleni, Gihengeni, Tsuvanene, Nyacutsêni, Macolo, Marrambône, Tsamane[15], ouvindo dzingoma[16] que fazem as mulheres vatonga vibrarem nozore[17].Leiam a obra. Chaúque angulova [18].Chaúque, ele mesmo, tem uma grande experiência como Ndekeni, tal como alguns de nós aqui presentes e muitos aqui ausentes. Montado no dorso de um leão e abraçado à sua farta juba, Chaúque também já se fez transportar de Satare[19] ao encontro da luz em Maputo e em Tete. Foi militar das FPLM e trabalhou na revista Tempo. Regressou à terramãe para vir trabalhar no Tribunal e depois na RM. A sura[20] diária, extraída pelo anónimo kêmi[21], deu-lhe muitas e irresistíveis alegrias. E começou a cantar blues, em Gitonga, nesse tempo. Mas sonhou de novo com a luz e partiu. Foi trabalhar no Savana, na AEMO, no Notícias, no Calowera, no Público, n´A Verdade. Queria trabalhar e voltar, um dia, para a sua terra natal como um grande senhor, arrebatar tudo e casar-se com uma mulher da terra – esse sonho de Ndekeni, entretanto agora já concretizado por Chaúque.Passa quase um ano que Inhambane-Sewi [22] recebeu, de regresso, o seu Alexandre Chaúque, que havia empreendido aquela aventura ao estilo Ndekeniano, para, longe daqui, escrever este livro (e outras crónicas) e receber o Prémio 10 de Novembro das mãos do David Simango, da cidade grande, em Kampfumo (“Pfhumweni” – como nós, gitongamente, dizíamos, antes de ser Maputo). Chaúque ganhou e continuará a ganhar, mas para gaya regressou.E sempre que telemovelmente falávamos, nos dias iniciais, e para me criar inveja e vontade de cá também regressar, diziame, com aquele seu orgulho Tonga, “nyaguhodza mathapa, ndriyango, nya guphudwe ku maiwango. Mathapa nya guphudwe nyi dzitogoma, nyi mavbandzi nyagubange, nyi dzindrolo nya gunone. Nyagumahodza nyi marosa, nyi farinya, nyi mihile nyagugadzingwe gambe” (eu como matapa, meu irmão, feita por minha mãe. Matapa com caracóis marinhos, camarão seco e caranguejo do melhor, acompanhado de arroz, regado de tapioca, e com pescadinha frita, de lado). Regressou e encontrou já a sua pfhumugadzi[23], sinyarane [24] Camila. Escolheu viver, com ela, agora em Nyaposa. Confesso que não sou murembedzi[25]. Ele confidenciou-me isso, naquele final do dia, em que a Camila estava atarefada com os últimos arranjos do casamento 09 | 17 de Agosto de 2012


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Ideias da filha, enquanto nós partilhavamos a preta numa barraca de Nyaposa. E, naquele crepúsculo vespertino, vi o amanhã do Chaúque cantado na saga dos Vanyapose, donos da terra que agora o acolhe e nela vive. Não se escandalizem – sexo entre os Vatonga não era tabu antes da influência islâmica trazida pelos Vamwinye e cristã trazida pelos Vatsungo[26]. Era assunto cuidado, com toda a dignidade, à luz do dia. Por isso os Vanyapose evocam os espíritos dos seus antepassados rezando o seguinte: “nyapose pandre tshigira nongo, gimbolowana gidugwana gu pandra rengo[27]”. Os espíritos dos Vanyapose seguramente vão dar maior fertilidade à escrita literária do Chaúque. Ademais, no recanto da suaphfumugadzi, comendo macoloma[28] e bebendo da sua água, hoje, Chaúque encontra o sossego necessário para ouvir as vozes dos fundos da baía de Inhambane – aquelas vozes que ensinaram medicina à Raci Makwandra e que, a ele, vão inspirar para escrever mais livros. Quanta inveja tenho eu, por isso, por não ser escritor e nem conseguir regressar à terra aonde está enterrado o meu cordão umbilical – esta terra que abandonei, tinha eu 16 anos, quando conclui o 5˚ ano comercial, na mesma Escola aonde estudou a avó do Ndekeni. Ainda não ganhei o suficiente, e nem prémio algum, para regressar, como ele, de cabeça erguida e não como um fracassado. Munganyhega[29]. Eis o meu dilema, que é, afinal, o dilema existencial de todos os Ndekenis. E o livro que Chaúque hoje nos oferece trata exactamente de nós, os Ndekenis – que aventuramos abandonar as nossas terras maternais à procura de melhores vidas em outras paragens, por vezes, madrastas. E sempre com a ilusão de que acumularemos riqueza para, um dia, regressarmos e, com outro estatuto social, casarmos com uma gyagadzyana gya gaya[30]. Para ti, Chaúque, ndriyango[31], digo-te mais uma vez, como disse-te pelo teu Bitonga Blues: ungulova[32]. E mais:ungudandra [33], pois com Ndekeni inicias um novo percurso literário, mais ousado e, nyaposenemente[34], mais fecundo: unapandra rengo[35]. Nyiganedhe[36].

GLOSSÁRIO

nacionalizada) dos pequenos transportes colectivos de passageiros, inicialmente de caixa aberta (e agora também), e eufemisticamente chamados pela oficialidade licenciadora desemi-colectivos. [11] - Junta - importante terminal de transportes de passageiros, em Maputo. [12] GPS - sistema de orientação por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel as coordenadas do mesmo. [13] - Destinos não orientados nem por uma bússola, nem por um GPS. [14] - Minha tia, recentemente falecida. [15] - Bairros e povoados de Inhambane [16] - Ngoma – batuque, música (pl: dzingoma – batuques, batucadas, músicas) [17] - Dança típica de Inhambane. [18] - Escreve (V.Inf: gulova) [19] - Corruptela de Santarém, bairro da cidade de Inhambane, rebaptizado Liberdade, depois da independência nacional. [20] - Líquido divino extraído do coqueiro. Quando doce, a sura é usada como fermento e faz uns bolos deliciosos. Fermentada dá muita alegria a quem a bebe. Ultrapassado o nível de fermentação, transforma-se num vinagre gostoso. [21] - Kêmi – esse homem, geralmente de estatura baixa e pernas arqueadas, trepador de coqueiros, imprescindível para que a divina bebida chegue aos apreciadores, mas ignorado por estes. Ele extrai a sura sob um contrato que estabelece que, numa semana ele entrega o líquido ao dono dos coqueiros, e na outra é para si (ou: dia sim-dia não). [22] - Sewi - cidade (de Inhambane). Embora pura como o céu seja a nossa cidade (daí: “Terra da Boa Gente”) ela não é, como os chapas da Junta nos enganam, Inhambane “Céu”, mas sim, Sewi. [23] - Pfhumugadzi – expressão de ouro, em Gitonga, para designar esposa. Pois, entre os Vatonga, esposa é rainha da casa. Pfhumugadzi é isso. Não é súbdita do marido como os europeus nos ensinaram a tratar a nossa mulher, para, sem vergonha, depois virem ensinar-nos as relações de género.

[1] - Povoado de Inhambane situado a 12km a sul do centro desta cidade. [2] - Em Gitonga - língua falada pelos Vatonga (sg: Tonga) do recôncavo da baía de Inhambane. Palavra corrompida pelos portugueses para Bitonga (e com direito a presença no dicionário electrónico português) e, passando a significar tanto a língua quanto os seus falantes. [Todas as palavras em Gitonga, empregues neste texto, foram escritas conforme a padronização das línguas bantu adoptada em Moçambique e seguiram de perto Laisse, S. (coord) (2007) Dicionário de Português-Gitonga/Gitonga-Português e Compêndio Gramatical, Oeiras, Edição Câmara Municipal de Oeiras] [3] - Nunu (pl: Vanunu) - Palavra de origem árabe ou swahili significando senhora e usada, entre os Vatonga, para designar as mulheres muçulmanas, independentemente da sua raça. O masculino é Mwinye (pl: Vamwinye). Os portugueses corromperam pejorativamente a expressão mwinye para monhé e com ela passaram a designar pessoas de origem asiática, geralmente comerciantes, e independentemente de serem muçulmanas ou não. [4] - Minha mãe (falecida em 1991) [5] - Mãe de Alexandre Chaúque [6] - Mufo – amigo. Mufo wangu – meu amigo. [7] - Pari (pl: dzipari) – expressão do Gitonga, derivada do português par, significando amigo. Pari yangu - meu amigo. [8] - Gaya – casa, no sentido de terra-mãe. Avba – aqui. [9] - A minha ligação com o Chaúque remonta ao dia 10 de Setembro de 1965, na Sala-10, da Escola Primária Carvalho de Araújo, em Inhambane, aonde juntos iniciamos a Pré. (Feliz coincidência: hoje é também dia 10). [10] - Chapa – designação popular (cunhada em Maputo e depois

[24] -Sinyarane – do Sinyare, corruptela de senhora (sinyarane significa senhorita). Originalmente, tratamento dado a “brancas” (portuguesas). [25] - Murembedzi – alcoviteiro ou pessoa que se dedica a arranjar e/ou acompanhar a(o) noiva(o) para alguém. [26] -Tsungo (pl: Vatsungo) – expressão originariamente usada para designar branco (português). Depois também para qualificar pessoas com posses (ou com aparência disso). [27] - Laisse, S (2007:141). O significado da reza é, mais ou menos, o seguinte: os Vanyapose são de uma fertilidade incrível. Mesmo aqueles que têm pénis pequenito geram multidões (fazem muitos filhos). Por serem tantos, um Nyaposa tem que “andar com cuidado” para não pisar/ destruir família [28] - Licoloma (pl: macoloma) – lanho (coco ainda tenrinho). É também o título da coluna que semanalmente Chaúque assina n´A Verdade. [29] - Guhega (v.inf) – rir, zombar, fazer pouco. Munganyhega – se não vão fazer pouco de mim. [30] - Moça da terra. [31] - Meu irmão. [32] - Veja o texto “O livro Bitonga Blues de Alexandre Chaúque”, in Notícias: 16.11.2011 (página cultural) [33] - Estás a crescer (v.inf: gudandra). [34] - Ao estilo da fertilidade dos Vanyapose. [35] - Vais parir multidões (de textos literários). [36] - Falei/Disse (v.inf: guganela). Isto é: tenho dito.

* Título da nossa autoria. Texto de apresentação do livro “Ndekeni” a 12 de Agosto nas celebrações do dia da cidade de Inhambane. 10 | 17 de Agosto de 2012


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Entrevista

“Cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão”

11 | 17 de Agosto de 2012


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Entrevista Amosse Mucavele - Moçambique

Literatas (L): A tua poesia se difere tanto dos outros poetas angolanos da actualidade, refiro-me ao Abreu Paxe, Nok Nogueira, onde nas suas criações poéticas eles têm a palavra como instrumento para fabricar outras realidades. E no teu caso acontece o inverso, você tem a realidade como a matriz do teu poema. - Como é que faz este exercício? O que é feito do poeta na criação dos seus livros? Décio Bettencourt (DB): Precisamos de diálogo, na nossa África. Muito diálogo. Precisamos de dialogar para exorcizar os fantasmas da guerra, dos genocídios, dos golpes de estado, das intolerâncias, das diferenças regionais, raciais, sociais e outras mais. Precisamos de vencer a fome, a doença, o analfabetismo, enfim, o subdesenvolvimento. Enquanto criador entendo como meta da criação não só a inevitável procura do belo, do artístico e de novos mundos, todavia de igual forma, o fluir de um despertar e chamar atenção social via mensagem. É preciso comunicar e falar África. E aí a poesia dialogante tem uma palavra de importância. É evidente que o processo criativo é (suposto ser) livre, e cada um à sua maneira e jeito. Agora o menos bom é fazerem-se ajuizamentos literários em função do estilo de preferência pessoal. L: A maneira do seu olhar a realidade circundante, faz-me lembrar a poesia do Agostinho Neto, José Craveirinha, Aires de Almeida Santos, António Jacinto. Que importância tem esta constante revisitação aos escritores de ontem na formação do poeta de hoje? DB: O poeta é um constante absorvedor de elementos materiais e espirituais do meio envolvente. Uma caminhada pode ser rotineira no dia de hoje, todavia altamente reveladora no dia de amanhã e depois. As leituras e revisitações – como chamou –, são manancial inevitável de colheita de inspiração, conhecimentos e aperfeiçoamento de técnicas literárias – no caso poéticas. L: Uma das barreiras que o “escritor engajado” tem no seu percurso, é esta: de ser lido pelo seu público-alvo. Será que a tua poesia é lida pelo candongueiro? Pela zungueira? E pelas restantes gentes dos pés descalços? DB: As gentes dos pés descalços da minha terra caminham com uma criança de fome às costas e um balaio de procura de sustento à cabeça. São jovens que passam o dia de sol intenso nas estradas a vender um negócio de miséria aos automobilistas que passam. Ou crianças que carregam quilómetros de um balde de água potável de má qualidade à cabeça. E outros mais dolorosos e humilhantes modus vivendi. Quem luta pela sobrevivência não tem, no geral, tempo para sentar-se e deliciar os prazeres mágicos de uma boa leitura. Enquanto criador, cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão. L: Como poeta angolano, avento que pensa e vive no meio onde o idioma predominante é o kimbundo, e outras línguas nacionais. E logo lembrei nas palavras de uma escritora brasileira que já não vem o nome, que diz: ‘’os escritores africanos não escrevem para os africanos, o que é um problema.’’ - Que dificuldades atravessa ao escrever os seus sentimentos na língua portuguesa? DB: Vivo num meio em que a cultura e consequentemente as línguas da terra sofreram traumática e dolorosamente com o processo de colonização. Mas pior do que isto é fazer-se um quase nada em mais de trintena de anos, para corrigir ou reverter esta situação. Luanda, por exemplo, está lamentavelmente a perder o kimbundo a nível das gerações mais recentes. Mas a minha escrita identifica-se sobremaneira com as marcas, gentes e coisas da terra. É em primeira instância sobre os africanos que escrevo. L: A tua produção poética obedece um intervalo de tempo de dois ou três anos, com esta periodicidade não teme o abandono dos teus leitores? DB: Absolutamente não! Ainda assim, penso produzir o possível: trabalho numa indústria de muita exigência profissional – petrolífera –, sou pai, esposo e chefe de família. Gasto cerca de três horas e meia, diárias no dificílimo trânsito da cidade de Luanda, no trajecto casa serviço e vice-versa. Então é já quase que miraculosamente que tenho quatro livros publicados desde 2004. L: No livro “Xé Candongueiro”, você atribui datas e locais de cada poema, será que tem a precisão exacta que escreveu na data x e local y? DB: Quando escrevo, dato sempre o que escrevo. Apenas isto. Não escrevo uma linha hoje e outra depois de amanhã e outra no mês seguinte. Não. Escrevo um poema assim de uma só vez. É claro que depois ele (o poema) vai para o laboratório onde é exaustivamente re-trabalhado durante o tempo que for necessário. Anoto data e local da criação. Gosto de fazê-lo. L: O poema a “A Dor da Poesia’’ diz: (…) escuta as gentes empobrecidas/(…)/ as gentes esfomeadas/e vivenciadas de vexame/(…)/escreve a voz das gentes analfabetas/nas ruelas das kubatas/as gentes sofridas da hipocrisia dum discurso polido/e armadilhado. - Como avalia a democracia angolana? DB: É tudo um aprendizado. Estamos a caminhar, estamos a aprender. A história de Angola tem episódios deveras traumáticos, deveras dolorosos e de muito sangue entornado. Estamos a caminhar, algumas vezes com passos seguros e firmes, outras vezes não tanto e até com alguns recuos. Mas não restam dúvidas de haver sinais de amadurecimento na consciência politicodemocrática dos angolanos. Estamos a caminhar a aprender…

L – Qual é o papel do poeta? E que espaço ocupa o mesmo na sociedade angolana? DB: O poeta é um sonhador, é um criador. E o desenvolvimento alicerça-se nestas duas componentes: sonho e criação. O poeta é manancial activo e vivo do desenvolvimento. É transmissor de conhecimentos e realidades. Quanto ao seu papel na sociedade angolana, desejar que a sociedade nas suas mais diversas formas organizacionais, crie espaços para que o mesmo possa expandir a sua actividade, de forma a que a sua beneficência se converta em realidade visível. L: O factor globalização tem como seu epicentro a juventude, onde os nossos países recebem, digerem, sem uma mínima selecção, e no poema ‘’As Minhas Pretas” sintetiza esta minha pobre afirmação. - Será que os africanos não são capazes de vender a sua cultura? DB: Para tal é preciso que acreditem e valorizem a sua própria cultura. É preciso que os africanos gostem de si e aceitem-se como são. Não percebo o que motiva uma negra africana a implantar na sua cabeça cabelos de uma mulher branca, rejeitando assim a sua própria natureza. Isto é ridículo e coloca de imediato as africanas, de modo voluntário, em posição de subalternização em relação a mulher europeia. Não percebo porque um africano acha que deve clarear o tom da sua pele usando químicos. E sabe, a natureza é tão generosa para com os africanos que abençoo-os com as mulheres mais lindas do planeta. Todavia não crêem e buscam padrões que nada têm a ver com a nossa realidade. Por isto escrevi “As Minhas Pretas”, “Negra da Terra”, e outros mais. L: A maioria dos escritores tem a poesia como o seu pano de fundo, tal como diria o critico português Eduardo Lourenço “a poesia é a palavra fundamental, a claridade de uma época.” Contudo nos teus poemas acontece algo de pouco culto nos poetas, de se recorrer a crónica ou mesmo ao conto na sua criação poética. Que espaço a prosa ocupa no seu percurso literário? DB: É um pouco difícil comentar, pois cada um escreve como escreve, a seu estilo pessoal, à sua marca. Estas coisas são natas. Quando comecei a escrever poesia não decidi que seria assim; descobri-me a escrever assim. Deve ser um pouco semelhante à forma como andamos, pronunciamos as palavras, etc. Quanto ao espaço da prosa no meu percurso literário, foi decisivo. O meu primeiro contacto com as letras foi via prosa. Era uma estante abarrotada de livros que o meu pai tinha lá em casa. Os livros fazem parte dos meus primeiros brinquedos. Eu e os meus irmãos brincávamos às escondidas com os livros: um procurava um título, anunciava, e o outro tinha de encontrar o tal livro. Começamos por aí. Depois passámos a devorá-los, o Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, Eça de Queirós, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa, Júlio Dinis, Lusíadas, Luís de Camões, etc. Andei também pelos policiais, Agatha Christie e outros, e até Julias, Sabrinas e Biancas devorei. E muitos. mais, naturalmente. O contacto com a poesia veio depois. L: É possível tornar Angola num país de leitores? E como formar leitores? DB: Sem a menor dúvida: é possível tornar Angola num País de leitores. Porém é preciso vontade, é preciso que se queira. Criar leitores é fácil demais. Mas primeiro é preciso que se perceba as vantagens de se criar leitores – ou pelo menos que se deixe de fingir que não se percebe É bem mais difícil e dispendioso buscar petróleo nas entranhas da terra. É bem mais difícil e dispendioso criar cidades de betão. É mais difícil e dispendioso construir estádios gingantes de futebol. Alguns elementos: que haja em cada município, bairro, aldeia, casa, etc. uma biblioteca (ou pequena biblioteca) e que se incentive as crianças, adolescentes e jovens a fazerem uso. Que se baixe o preço do custo do livro. Que haja comida básica para todos – que de barriga vazia ninguém lê! Quando isto acontecer teremos menos alcoólatras, menos delinquentes, menos desempregados, enfim estaremos a criar os sustentáculos para o desenvolvimento de Angola: estaremos a produzir angolanos de qualidade. L: O poema ‘’Um Homem Num McDonald’s” diz: (…) E parte perdido na ilusão das europas brancas/A vergonha das Áfricas ignorantes/E sua gentes/A barriga de fome a roer/A vergonha a doer/e um homem parte na desilusão das Áfricas.’’ Comente este poema. DB: Os poetas (alguns) não gostam muito de comentar os seus poemas. Eu faço-o com gosto quando solicitado. Trata-se de um olhar crítico àqueles africanos que deixam os seus países à procura duma Europa doirada que afinal não é bem assim – não quero dizer que não devam sonhar ou procurar melhores condições de vida. Estava sentado num McDonald’s em Paris, a saborear uma refeição ligeira quando apareceu um irmão meu africano a pedir gorjeta. Achei interessante que se tivesse dirigido a mim, quiçá por ser o único negro como ele. Recusei inicialmente, todavia acabei chamando-o e dando-lhe algum dinheiro. Nasceu assim este poema, pensando naquele homem que sai da sua terra e se põe mendigo nas Europas.

12 | 17 de Agosto 2012


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Entrevista A ZUNGUEIRA O miúdo nas costas, faminto O sol queimando O sol assando O miúdo nas costas, faminto de alimento As moscas acariciando-o E o lixo distraindo-o! A zungueira zunga, cansada Na cabeça, o negócio e o sustento E nos pés empoeirados O cansaço dos quilómetros galgados O cansaço da distância percorrida A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto! A zungueira zunga, cansada E vai gritando e berrando a plenos pulmões: Arreou, arreou, arreou nos limões... A zungueira zunga, empoeirada E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto Arreia o preço do sustento O miúdo nas costas faminto A lombriga na barriga rói, a lombriga pede O miúdo nas costas, faminto de alimento Chora e berra Não é birra É a fome que aperta, é a fome da sede! A zungueira zunga, apressada E arreia o negócio, arreia o preço: Arreou, arreou, arreou no chouriço... A zungueira zunga empoeirada E arreia o preço do negócio Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício Depois, a viatura da fiscalização Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto E os homens arrogantes a perseguirem E a baterem E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento Caídos, espalhados no chão! Depois vem o fiscal, também faminto, “Você tem autorização? Acompanha, isso é transgressão!” A zungueira implora e mostra a fome: Tem dois dias o miúdo não come A lombriga na barriga precisa alimento! O fiscal, também faminto Arreia o lucro da zungueira cansada E desesperada Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa Senão a zungueira não volta a casa E a zungueira cede, com medo no pensamento Depois a zungueira chega a casa De bolsos vazios, mas alívio no coração E grata, afinal não foi presa Afinal não foi à prisão A zungueira chega a casa, o miúdo faminto O miúdo sedento de alimento

A Poesia de Décio Bettencourt Mateus MEU POEMA ACORDA DORIDO! À memória de Luzia Bettencourt M., minha mãe.

Manhã virgem manhã cedo meu poema acorda dorido manhãs frias vai à igreja vai à missa em pernas de pressa: ó Senhor pão às minhas crias. Meu poema sofre a madrugada a espreitar a aurora acarreta água ensonada enche bidão enche tamborão de olho na torneira música sofrida no coração. Dorme insónias na noite escura acorda constrangido a praça a vender gelados compra esperança recebe troco ternura bem diz os kwanzas bem diz trocados. Caminha um sol abrasador preocupação no rosto meu poema tem dor a rusga a falar serviço militar a rusga: kwata-kwata miúdos a passear kwata-kwata miúdos, oh desgosto! Meu poema desperta alvorecer lava roupa amontoada no tanque rebenta mãos de sofrer vende gelo no Roque e sofre filho fugidio emigrado filho mwangolé exilado. Meu poema dorme cansado é pai mãe marido mulher... cuida os miúdos atende o marido dorme dorido prazer dorrme dorido sonho de trocados. Meu poema dobra joelhos em manhãs frias: ó Senhor pão às minhas crias!

XÉ CANDONGUEIRO! Candongueiro tem pressa Sobe na baúca Não tem conversa Condução louca Pé no acelerador, velocidade Não respeita prioridade! Eh! Candongueiro dono da estrada Ultrapassa pela direita Manobra arrojada Ultrapassa Vuza na estrada estreita “Trabalha não dá confiança”, tem pressa! Candongueiro abarrotado Não afrouxa na lomba Leva gente p’ra mutamba Pé no acelerador, velocidade Dono da cidade “Dinheiro trocado, dinheiro trocado!” Eh! Candongueiro tem cobrador Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga… Pé no acelerador, zunga-que-zunga Abarrotado de gente Não respeita cliente: “Ou encosta ou desce meu senhor!” Zé Pirão, São Paulo, Roque “Não há maka emagrece meu kota” Candongueiro manda na estrada Leva gente do musseque Gente enlatada Roda batida é dono da rota! “Trabalha não dá confiança” Prenda, Mulembeira, Mulembeira Leva gente do povo gente da praça Candongueiro transporte do povo Não é carro novo Arranca levanta poeira! Zunga-que-zunga sobe o passeio Carro cheio Xé candongueiro Respeita passageiro E espera prioridade Candongueiro é dono da cidade! Eh! Candongueiro é gente importante No carro velho Leva gente p’ro trabalho Carrega gente descarrega gente Ku Duro música alta Xé candongueiro olha multa! !

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar Amanhã a zungueira voltará a arrear: Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…

13 | 17 de Agosto de 2012


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Poesia | Voltei para morrer

CÃO E GATO, AMIGOS DA ONÇA

Eduardo White – Moçambique

Lopito Feijóo - Angola

Palmira Marques - Timor Leste

Meu Oriente Médio, minhas tâmaras, meus palácios dourados e meus verdes jardins. Meu Oriente Médio onde me sento para degustar o carneiro e o chá, minhas caravanas e grandes tendas, meus cavalos negros com seus negros cavaleiros de sabres em riste, hoje que te lembro, aqui, por dentro da minha língua, adoçando-a apaladadamente sobre o pão amargo, o trigo das iguarias ao por do Sol e as canções acordando os desertos para as areias revoltas, para os ventos e para os frios. Trememe a pele de pensar-te e a memória, os teus poetas, as mulheres transparentes sob a seda, os véus negros ajanelando-lhes os olhos, os perfumes de âmbar e de rosas delicadas a que exalam com sua rara beleza, os banhos de leite de cabra para os seus haréns. Ai Oriente meu dos nómadas e dos guerreiros com os olhos a negro pintados, oriente do ouro e do petróleo, da delicadeza, da fineza, dos tamborins a celebrar os nocturnos amores e seus banquetes. Oriente dos Reis e dos magos, das histórias secretas,

Voltei a Tutuala¹ depois de muito ter andado errante pelo mundo. A palapa², continua de pé. Entrei. As esteiras no chão, convidam a um merecido repouso. As tais³ que deixei penduradas - numa decoração de tribalismo – convidam-me a pegar na vida e lutar! Perdi anos da minha vida na procura do “eu”. Agora, vou deixar de lado essa busca 4 e ficar por aqui: baloiçar-me na rede frente ao Jaco, plantar o café e amanhar o jardim hortícola que possuo em volto da palapa; soltar os galos e as aves de capoeira. Pescar e regalar-me com as frutas da floresta. Regressar às origens e viver a vida simples. Fazer uma regressão em Ilikerekere. Caminhar na areia e deixar nela impressa, o peso do amor que um dia, há muito, muito tempo comecei a nutrir por este lado do mundo em que apenas e tão só, quero viver hora a hora, um dia de cada vez e então, sem mágoa, morrer na Pátria que considero minha!

Nem sempre fiéis amigos do Homem Mordem e por vezes arranham os próprios donos Lutam ladram e miam, por dá cá aquela espinha Irracionais não sabemo que consomem Nem sabem dos seus adornos Seguem sempre para onde o vento caminha Parecidos amigos da onça Vaidosos nos seus contornos Militantes de pura gingonça 5

Ambos ostententam caudas fofas Não raras vezes caras balofas De tanto apanhar ralhetes e bofas! In DOUTRINA DOS PITÓS (20 POEMAS PARA CRIANÇAS ESQUECIDAS) no prelo

Amanhã

2011-01-16

1- Líndissima praia do extremo mais ocidental de Timor Leste. 2- Casa típica de Timor Leste coberta de folhas de árvores. 3- Tecido típico de Timor Leste. 4- Ilhéu no mais extremo da Ilha de Timor Leste. 5- Grutas com misteriosas pinturas (rupestres?) na região de LosPalos.

Diego Mileli - Brasil

dos refinados temperos para o arroz, as uvas secas, as macas, Oriente que te vejo morrer, que te vejo sofrer em suas ternas crianças, o fogo que arde sobre as casas, as bombas, os aviões. Médio Oriente do encanto, tão dividido, tão dilacerado, hoje, aqui, tudo o que tenho por entre as mãos, os versos que ainda possa, também, evocar, são para ti que gemes e morres porque te martirizam sem que ninguém te lembre, sem que ninguém te chame como e' justo que seja e como Deus te vê. Perdoa-me tanta ignorância, tanta triste e injusta indiferença. Oriente que

Alberte Momán - Galiza

correndo em direção ao tempo cumpre-se

ser um equivoco Octávio Cesar Bule - Moçambique

pairo... meu verme sinico olhar de desesperança olha firme na indeterminada imagem e eu dono da minha propria malquerença firmo me na voz do pecado original de repente chove meu cascatear lacrimejo molhando meu desespero nesta noite de sensaxao (...)

desfeito retiro-me livre do poder de namorar condensado todo ele na tua vulva o tempo passa cumprido onomatopéia labiodental atraiçôo o porquê perguntas houve um momento em que volveria se mo pedisses mas prefiro aguardar a que te vás devagar do livro Erótica

Eu prefiro não olhar para frente; Prefiro olhar para o céu enquanto caminho; Prefiro não fazer planos para o futuro porque eles sempre dão errado. Quero que a vida passe da melhor forma possível, Seja no claustro, Seja a céu aberto. No dia em que eu estiver vivendo o dia que virá, Eu farei o que tiver vontade naquele dia. Se eu tiver com vontade de sentar-me à praia para ver o mar, Se eu tiver que me deitar no chão do quarto e chorar, Se eu precisar beber até cair, se eu precisar amar, Se eu precisar gritar, se eu precisar dormir, se eu precisar cantar... Eu assim o farei. Não pretendo agora imaginar o dia que um dia vai chegar. Se é chorar que você quer agora, então chore. Se é sonhar, sonhe. Se é amar, ame. Esqueça o que você quer amanhã. O que você quer hoje para amanhã pode não ser o que quererá quando acordar. Quantas vezes já não se quis algo para um dia E no dia seguinte se fez outra coisa Com a certeza de que era isso somente que tinha que ser feito? Importa-me que o sol se sinta sempre sol, Que a noite saiba sempre sua hora de vir, independentemente da minha vontade. O mais... Não faz diferença.

14 | 17 de Agosto de 2012


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Poesia | Monólogos da Impaciência

POEGRAFIAS

Das preciosas

A Moça do Pateta MUSSA MBIQUE Xiguiana da Luz - Moçambique

I Não sei porque é Mas às vezes sinto a medula a subir-me pela espinha Mungir de contrastes nas sensações da noite. Escuto vozes a cantar de rancor Enquanto só o peito rusga de mágoas. Calado! se quer pergunto o que se passa. Rio-me do que passo, mas nunca de mim enfurecido

Por mais esta injusta espera incansável II Muitas vezes caio em mim Já espatifado na erótica do baixo-ventre. Logo desato a lembrar-me de muitos amores Estes outros desamores Sísmico, invento alguns ventos que fluem de dentro E tenho a certeza que estas noites são assim - Sempre foram assim – Cantam hino que não entendo Chamam nomes de várias mulheres! Caramba, Como elas são diferentes! Será que só no escuro estas mulheres vivem?

Amosse Mucavele - Moçambique Filinto Elísio – Cabo Verde

À pedra do retorno, Mário, Cantava-lhe o ruidoso dentro Em seu labiríntico entorno… O que é da resiliência da pedra, Senão esta amorfa e fluída veia, Que medra, em vida sua, inerte?

CRUZAMENTOS

IV E miro outra vez este silêncio Guardado dentro do resto de mim Nada! Volto a sofrer. Isto é assim? Não me conformo com isto que sou. Ah! Não me conformo. Eu sou eu?

Aviso Izidine Jaime - Moçambique

As crianças galopam goiabeiras, “Não pisem a relva” Trémulo nos olhos Acenei passos distratados Mas eu já estava pisando aquele lugar De chão sem horizonte, Mas o meu consolo Foi a tristeza de não haver Relva nenhuma naquele jardim Os cabritos também comeram-na? Que lástima!

Havia uma pétala vermelha que crescia no fumo de um cigarro. onde um homem puxava incansavelmente na esperança de querer vencer o medo que se instalava na porta dos seus devaneios E Dentro da casa onde os sonhos eram Guardiões .

III Levanto… Luz acesa Ao meu lado copo vazio A frente, uma luz enfrenta o espanto Por baixo de mim, pedaços de garrafas Em baixo de mim, pedaços de gente esquecida Com o fel ardido a escorrer pelo teto Olho outra vez para frente, É mesmo verde Está lá uma lâmpada que me descasca. É madrugada e o chão se afasta. Que formigas são essas na minha boca? Céu nefasto, afaste-se de mim esse fim Cuspam-se as formigas e cuspam-se os céus. Estou em terra, vivo?

Ao Rui Knopfil

A Mário Fonseca

Nynna - Moçambique

Eu queria ser de novo moço Como o mocinho dali da esquina; O mocinho do jornal... Eu queria ser de novo moço Como um mocinho de recados Sempre alegre e pronto pra mais uma jornada Queria sim ser de novo moço Como o moço da minha aldeia que, Sonhador e jovial Se encanta embevecido nas suas próprias paixões Eu queria ser de novo moço Para na mesma inocência experimentar Tudo de novo sem tropeçar Queria ser de novo moço Capaz de na mesma tesão rebuscar a razão da minha adesão Tactear na escuridão da minha mente A imensidão do Horizonte Eu queria ser de novo moço Capaz de no infindável sonhar da vida Masturbar uma outra chance E no mesmo percurso de antes, desarmar minhas ilusões Queria sim ser de novo moço Forjado na mesma imensidão De esperanças sem fim EU queria ser de novo moço Como o mocinho da esquina ou o do jornal Gritar indómitas minhas vitórias como em cada jornal comprado Eu só queria ser de novo o mesmo EU, como que; Numa ejaculação precoce...

Havia uma pedra encostada a janela onde sussurrava nos ouvidos de Inhambane (quando lembra-se de alguém de olhos abertos deve-se sonhar de boca fechada). Mas Ninguém deu ouvidos ao sussurro da pedra. Encostado a inocência da pedra um sujeito levantou a mão no meio da multidão que pescava predicados e outros silêncios na sala da casa. ( Eu quero aprender a doutrina das cores que se manifestam nas pedras).

A pincel a saudade relampeja no arquipélago da insónia do meu poema (quando durmo sinto a sensação de acordar no terceiro dia ,e quando morro passa-me pela cabeça a ideia de acordar no anoitecer das manhãs) Na corda da lembrança há um mar que desagua os incensos das suas ilhas pela via rápida da fome dos peixes, há uma cegueira que se assiste no injusto suicidio do arquipélago na insónia dos mangais. Há uma L Á G R I M A que cai. nos solavancos das ondas que ondulam na sepultura onde jaz a flor murcha de abandono.

ERRATA Na edição passada (44) foram publicados dois poemas com o mesmo título sendo um da autoria de Nelson Saúte e outro de Albino Magaia. No entanto, o verdadeiro título do poema de Albino Magaia é “Nós Descolonizamos o LandRover”. Pelo ocorrido, as nossas desculpas.

15 | 17 de Agosto de 2012


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Conto O conto de Blimundo – Cabo Verde

H

avia um boi chamado Blimundo. Era grande, forte e amante da vida e da liberdade. Além disso, era muito amado e respeitado por todos, pois sabia pensar por si próprio, além de ser muito gentil com todos. Ao saber da existência de criatura tão autêntica, Senhor Rei perguntou-se que boi seria esse, que ousava ser tão livre em seus posicionamentos e fazendo com que os outros bois lhe seguissem o exemplo. Se ele continuasse assim, quem faria, depois, o trabalho pesado do reino. Ordenou, então, que Blimundo fosse pego morto ou vivo, a trazido até a sua presença. Os homens do Senhor Rei saíram em busca do boi, mas este os encontrou primeiro e deu um fim neles. Ao saber da notícia, Senhor Rei reuniu os homens mais valentes do reino e os mandou capturar Blimundo, e os homens partiram. O boi, novamente, deu cabo dos homens. Quando recebeu tão triste notícia, Senhor Rei desesperou-se, mas logo ouviu falar de um rapaz que fora criado no borralho da cinza e que se prontifica a ir buscar Blimundo. O menino pediu um cavaquinho, um “bli” d’água e uma bolsa de “prentém”. Além disso, quando retornasse queria a metade da riqueza do reino e a mão da

princesa. Senhor Rei concordou e o jovem partiu. Então o jovem sai em busca do boi cantando uma canção que deixa Bilmundo encantado, na qual o jovem diz que, se Blimundo for com ele, casará com a Vaquinha da Praia. O boi pergunta se é verdade, o rapaz responde que sim. O jovem pede a Blimundo que o deixe montar, pois o caminho é muito longo. Ele deixa com a condição de que o rapaz continue cantando. Senhor Rei colocou a tropa em pontos estratégicos para receber Blimundo. Ao ver o boi chegar, carregando o rapaz no lombo, cansado e feliz, Senhor Rei não acreditou. À porta do palácio, o rapaz pediu para descer do lombo de Blimundo a fim de fazer a barba antes de ser apresentado à Vaquinha da Praia. O jovem conta o seu plano ao Senhor Rei e leva até o boi um barbeiro com seus instrumentos. Atrás deles, Senhor Rei. O barbeiro, enquanto Blimundo sonha com o amor da Vaquinha da Praia, corta-lhe a garganta com a navalha. Antes de morrer, o boi atinge o rei com uma patada que o mata. O rapaz e o barbeiro fogem, mas jamais esquecem o último olhar de revolta de uma criatura cujo único erro foi acreditar na harmonia, na justiça e na liberdade. http://contosdeadormecer.wordpress.com

Nas manhãs no sul do mundo l Samuel da Costa - Brasil Escolho o pecado! Encolho-me! Fujo! Traio! Minto para mim mesma! Já não sei quem sou... Estou viva? Pelo menos... penso que existo... Em outra dimensão... Tento fugir... de mim mesma! Escolho o pecado. Afronto! Magoo quem me ama Escondo-me Na agonia de ser eu mesma... Minto para mim mesma! Escondo-me na bruma No outono da minha vida No outono decadentista... Ouço o madrigal Escuto o Idílio Choro de saudades Lembro... de quem já se foi... Escondo-me no meu passado Finjo estar em outro lugar... Finjo que me importo com alguém... ... que diz amar-me. Prendo-me em um mundo só meu Esqueço... minto para mim mesma Para Francisco Gomes Wambar e Andersom Jamaica da Silva

A

dérito Muteia tinha hábitos discretos, regulares e simples. Pois, como dissidente político que era, preferia passar despercebido aos olhos da maioria. Toda a manhã acordava bem cedo, saia da cama vestido apenas de pijamas. Arrastava-se até cozinha, para tomar uma xícara de café preto, forte e sem açúcar. Desperto se dirigia até o toalete, tomava um demorado banho, fazia a barba de forma mecânica e lenta, com uma lâmina de aço bem antiga e bem afiada. Saia devagar do pequeno banheiro vestido só de roupão, caminhava até o pequeno vestíbulo, ia ao guarda-roupa, separava as peças que

pretendia usar no dia, e se vestia sem muita presa. Colocava a camisa golapólo branca, o paletó cinza e puído, vestia a calça cinza e gasta, vestia as meias de algodão branca, vestia os velhos sapatos pretos cuidadosamente engraçados e por fim, levava os óculos de aro de tartaruga, que um dia pertencera ao seu avô, até o rosto. O cabelo ralo à moda militar não necessitava passar pela escova ou pente. Voltava ao banheiro e escovava os dentes brancos, iguais a marfim, cuidadosamente. E finalmente, municiado de uma bolsa de couro sintética, saia como se fosse dar aulas, talvez uma forma de recriar o que deixara para trás, na sua outra vida que um dia tivera no velho mundo, em um passado remoto, distante e diáfano. Após essa rotina diária, Adérito Muteia, se considerava pronto para ganhar às ruas, para enfrentar um novo dia, no novo mundo. Sem antes, claro, parar diante da cama, que estava vazia, e pensar por uns instantes na mulher que morrera, nos filhos que ele planejara ter com ela, que nunca nasceram e nunca nasceriam. Descia os degraus da escada, fugia do elevador, do prédio modesto em que viva, localizada na zona periférica da cidade praieira, descia as escadas como se fosse enfrentar um pelotão de fuzilamento. Descia as escadas, cheio de culpa, remorso e mágoa. Nesse momento pensava no turbilhão de tempos atrás, quando tudo parecia querer explodir. Quando, o turbilhão arrastava tudo e a todos, e não deixava nada no lugar. Quando ninguém era poupado das mais severas privações e punições de um carrasco implacável, que alguns chamavam de destino, já outros nominavam das mais variadas formas materiais e imateriais. Muteia preferia nominar de ganância, fome pelo poder, aquela eterna vontade de subjugar o mais fraco, desejo de subjugar o outro e transforma-lo em sua imagem e semelhança pela força bruta, quando não mais em vence-lo e por fim destruí-lo pura e simplesmente. Algo tão comum, em todos os tempos e em toda parte, e tão bem documentada pela história da humanidade. Era um passado distante, em uma terra distante, mas que vivia e vinha forte na cabeça de Adérito Muteia naquelas manhãs solitárias de agonia e dor. Era sempre assim, em todas às manhãs, invariavelmente o que acontecia na vida do professor doutor Muteia. O outrora emérito doutor Adérito Muteia, que vivia escondido e bem protegido no mundo das rotinas diárias, no invariável, da mediocridade e do imutável de uma vida comum, de uma pessoa comum que habitava um país estrangeiro. Mas, o passado sempre vinha forte, todas às manhãs, como se cobrasse do professor Adérito Muteia uma dívida impagável, incontestável e intransferível. Cedo ou tarde, o cruel algoz tinha que vir, para cobrar a conta de Muteia, o professor Adérito Muteia tinha contas a acertas consigo mesmo e com os outros. Esse sentimento vinha bem vivo e forte, todas às manhãs, para depois se dissipar, com os raios fortes do sol de um novo dia, no novo mundo, em uma vida que não pertencia ao professor Adérito Muteia e em um país que não era o dele. Venha para lembra-lo quem ele era de fato, quem se tornou e aonde se encontrava.

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16| 17 de Agosto de 2012


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Conto

Conto contigo

Kibala, o Rei Leão

Maxaquenina

Gabriela Antunes - Angola

N

ão, eles já não podiam aguentar mais aquele leão. Está bem que era o rei, mas um rei tem de melhorar as condições de vida do seu Povo. E aquele rei não fazia nada disso. Pelo contrário: só se sentia feliz quando sabia o povo infeliz. E como é que o seu Povo podia ser feliz com um rei assim? Não, eles já estavam fartos daquele rei. Eles tinham de fazer alguma coisa. “Mas o quê”, perguntavam entre si os animais, as árvores, as flores e os frutos da mata. O rei não gostava do Bom... nem do Belo... nem dos outros... Quando havia luar, não conseguia dormir. E então berrava, berrava, berrava até acordar todos os animais. Depois ria. Ria e dizia satisfeito “Se o rei não dorme, os escravos não podem dormir”... Como ele só gostava de carne, achava que os frutos não prestavam para nada. Então, quando as árvores estavam carregadinhas, ele abanava-as e espezinhava os frutos caídos, sem se incomodar em estragar a comida de tantos animais. Depois ria. Ria e dizia satisfeito “Se o rei não gosta de frutos, os escravos não podem gostar”... E nem sequer se importava com os pássaros cujos ovos ou filhinhos repousavam nos ninhos que, ao cair, se desfaziam! Quando chegava a estação das chuvas e as flores vermelhas e amarelas, azuis e brancas, rosas e lilases brotavam das ervas, das plantas rasteiras e dos arbustos, ele espezinhava-as, não se preocupando em saber aonde as borboletas iriam poisar, não se preocupando em saber como é que as abelhas iriam fazer o seu mel... E os animais sofriam e lamentavam-se... e a pouco e pouco começaram a pensar no que poderiam fazer para se livrarem do rei. E um dia... um dia, o rei estava com fome e resolveu ir à procura de caça. À sua aproximação, todos os animais fugiam. Ele olhava para um lado, olhava para outro, até que viu um lugar cheio de flores de várias cores, junto do qual se achavam uma palanca com ar de doente e duas crias. E ele, maldosamente, pensou: “Depois de comer aqueles desgraçados, já tenho uma cama fofa para me deitar e dormir uma boa soneca”. E quando, sorrateiro, ia saltar sobre o fraco animal... catrapuz... caiu num buraco fundo. E mal caiu, começou num berreiro que, se assustou uns, não assustou outros, pois a armadilha fora o resultado de muitas conversas, discussões e trabalho nocturno de vários chefes de família das redondezas... E por uma ou outra razão, ninguém se aproximou do rei; mas no íntimo todos se sentiam mais felizes por verem o tirano naquelas condições. E ele berrava, berrava e rugia e assim continuou pela noite fora, noite essa de calma para o resto da mata... E na manhã seguinte, a vida continuou. Uns ficaram a tratar da casa e dos filhos, outros saíram para o trabalho e as crianças foram para a Escola. E pararam quando passaram pelo rei. Mas não riram, que as crianças não se riem dos adultos! Mas sorriram... E passaram por lá de novo, quando vieram da Escola. E o rei, ou melhor o leão, disse-lhes: “Tragam-me água. E digam aos vossos pais que me venham libertar, senão...” Mas eles nem ouviram tudo. Chegaram a casa, deram o recado aos pais, mas estes não se preocuparam em libertar o rei, não se preocuparam em matar-lhe a sede. Eles estavam mais preocupados com a organização da mata... a divisão de tarefas... o auxílio aos velhos... a Escola para os mais novos... os medicamentos... E naquela manhã, quando a palanca ia para o centro médico tirar umas análises, teve de passar pelo leão... Não quis olhar, mas ele disse-lhe: “Bom dia, amiga; ajuda-me a sair daqui”. Ao que ela respondeu: “Eu? A quem querias comer?”. E lá se foi... Depois foram os catuitis e os peitos celestes, que iam ao casamento do amigo bico de lacre, que ouviram. “Venham... venhamme ajudar. E tragam-me água... águuuua”... E o Xexe, que era o pássaro mais atrevido da mata, respondeu. “Isto é que era bom!” E assim se passaram muitas horas e alguns dias. E Kibala, o rei-leão, só olhava, pois já não tinha forças para pedir ajuda. E as crianças eram as únicas que por lá paravam, apostando “hoje ele vai falar. Não, hoje, ele não vai falar”... E numa tarde, o cágado, que regressava de férias em casa do primo, viu que havia uma total mudança na sua mata. E foi ter com um grupo de mais velhos que falavam debaixo de uma árvore. Perguntou-lhes o que se passava. E ficou a saber tudo... tudo o que acontecera. E o cágado pensou. Pensou e depois disse-lhes: “Meus amigos, vocês já mostraram que não querem mais este rei. Já o castigaram. Já mostraram, também que podem e sabem governar a mata. Todos em conjunto! Mas se deixarmos o leão morrer nestas condições, seremos tão cruéis como ele. Vamos dar-lhe água, comida e tratar dele. Depois mandamo-lo para um local onde ele ainda possa ser útil... Mas não devemos deixá-lo morrer. Isso não!...” E todos concordaram com as palavras sábias do velho cágado que já conhecera três reis-Kibala, o rei-leão, o pai deste rei... e o avô deste rei... in 4 Estórias (2003)

B

Japone Arijuane - Moçambique

em na palma da cidade de Maputo, agarra-se um subúrbio, uma selva cercada a cal e cimento; selva onde o cifrão traz crinas e jubas, e goza de um eterno reinado. Maxaquene, como quem diz - familiares, ergue-se na assombração da vida humana; entre madeira e zinco, ecoa o rugir de um clamor desnutrido pela desigualdade socializada da cidade. A vida corre asfaltada de raiva e tinha, e vai latindo de lamentações como um canino ao anoitecer da convivência social; estendida à rápida metamorfose e ladra o ser suburbano aliás, sub-humano. “Elas” são sempre o sacrifício da família, o garante dos demais membros verem o amanhã; ver a mesa pelo menos uma vez ao dia. Ter filhas, ser chulo, é algo indiferente. Elas exibem-se no tropel da vida e alimentam a cidade de gemidos, gozos e delírios outrora ocultos à gente da mesma idade. Era, é, e não se sabe até quando será assim a vida, nas maxaqueninas. Essas atletas a mercê da fome, num jogo em que quem ganha o presente perde o futuro e muito mais. Mas o que fazer quando a única saída é só para boca do tubarão? As bonitas vivem pela beleza, as feias procuram outro argumento para encarar a vida, não tendo outro, estas presas a fome e nada. A Maxaquenina eleita aqui, como protagonista, era reunida de uma pigmentação preconceituosa do ser (mulata), quanto mais for clara a pele, maior é o escuro do futuro. É essa a regra e a alma do subúrbio, regra não-negra, desalmada na vastidão nãobranca. A Maxaquenina julgava-se na sentença máxima de pertencer a cor; uma rainha (dês) coroada da cor doada violentamente. Só compatibilizava-se pelas mesmas epidermes místicas, as igualitárias oriundas de um passado comum, de mercadores árabes a colónias europeias; que a convivência suburbana esbarra ao preço do pão. Para ela, tudo valia a pena; era a cor o seu preferencial e companheirismo ideal. Vinha sempre uma alma nua, ancorada em mares mistos e místicos; independentemente da faina, labutava neste desconceituo ofício da vida. É triste quando o que achamos que nos é igual de outro, o outro não valoriza. A convivência suburbana é uma aventura sem viagem alguma; um tempo sem compromisso com a hora. A Maxaqunina era, talvez pelo esforço viase quase, linda; trazia um fogo guardado, que o mesmo afugentava os negrinhos e aquecia os homens de cor; em vivências mal concebidas. Pois, a maldade sentir-se-á triste pela tal comparação; ela passava a vida nas piores das formas que uma moça do seu porte e cor poderia passar. Engraçado, dava tudo para manter aquela aparecia barata, aquela aparência aparentada dela mesma. A preocupação era a aparência, não a essência. Uma vez, no dia em que, não se sabendo por que razão, conseguiu somas consideráveis de cifrão. Pegou e gastou, em o quê? Roupa e cabelo. Dizia a mãe: - Você nem cama têm, mal come; porque tchunabeibes e tizagens?, coisas caras... minha filha, tenha juízo. Juízo era realmente algo que nem a binóculos a filha contemplaria. A maxaquenina pensava rápido e curto; um pensar típico e suburbano. Aliás, um pensar que qualquer um pode, desde que pense em pensar. Pensar para logo vencer! A Escola é pensar para esperar; esperar é paciência, no subúrbio paciência traz derrota, e escola serve para ter boneca; sonho de toda menina; ela, não querendo ser excepção até na quinta classe foi suficiente para concretizar o sonho, suficiente para deixar de sonhar e ter o seu boneco; um bebé malnutrido, aliás sem nutrição; mas feliz para ele, pois seus companheiros foram anulados enquanto feto, outros jogados vivos na sarjeta. Que sobreviva assim que estás, quem sabe no futuro... os outros nem presente tiveram. Dizia a Maxaquenina, quando o bebé fazia o que bem sabia fazer: chorar, chorar e chorar. O tempo dá azo aos seus ensinamentos tardiamente. Quanto ao exemplo desses exercícios fazia-lhe frente, virou frango para os mesmos negrinhos: assado, cozido, por vezes cru. Hoje, os sem cor, os sem alma não a erotizam, ninguém por nada, mergulha neste (mar) morto que um dia foi praia quente e os coloridos navegaram-na descamisados; uma praia virgem e exploraram-na todo atractivo erótico. Hoje paisagem, somente onde o tempo faz delas histórias de uma viagem estática. Uma viagem que traz ao mundo da pequena selva (Maxaquene) dentro da já suburbana cidade de Maputo, mais sentido ao ciclo vicioso; mais índice a obscenidade.

17 | 17 de Agosto 2012


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Ideias| Debates e Reflexões

Poesia: Uma morada constante Mauro Brito - Moçambique

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odo ser vivente tem a sua dor, seja ela de que grau for, ela representa nesse ser que a transporta a presença de sensibilidade física ou espiritual onde estão incluídas pessoas, objectos, animais, seres não vivos, etc. Assumo que o poeta (escritor) não se desvia desta norma natural, o poeta a sente como o professor quando o aluno não assimila a matéria, o pai quando o filho se desvia ou não acata as ordens, o médico quando os seus doentes se lhe escapa, e tantos outros; o poeta não é um deus fantasmagórico, de soluções e pós mágicos, mas é um arquitecto da palavra, o marceneiro que talha e molda a madeira consoante o seu agrado e o seu dispor e as ferramentas que tiver a disposição. O poeta (gente) sente-a quando fica de boca selada (calado) e consente, se não for transmitir, mesmo que seja para os seus botões, é uma dor enorme, que carrega nos restantes dos seus dias; criar poesia é criar interrogações nas próprias crenças, descolorir o colorido, fazer barulho aos silenciosos, é uma visita ao uns e outros que não sou, uma visita a si mesmo, à um aquele EU que sempre ajeitamos directa ou indirectamente, infiltrar-se sem de nada saber. Sábio não é o poeta, eu como poeta aprendiz, procuro não a verdade tampouco o real, procuro o irreal, apenas memórias que podem ou não me invadir e preencher, pois antes de percebermos

o real, devemos compreender o irreal e o incompreensível. Eu escrevo quando não posso mais comigo mesmo, quando a água na boca já não se vai pela goela abaixo, atravessando as 24 horas de um dia, acordando até aos silêncios dentro de mim e dentro dos outros desde os mais medonhos e profundos que podem existir, dentro de um cidadão tão comum e tão maluco e tolo como os políticos o são. Um poeta o defino, um amigo, um esfarrapudo, um amigo inimigo, uma voz que nunca fala em público ou as televisões, em capas de revista ou ainda forbes e magazines, um poeta não é um deus fantasmagórico, é uma luz, que inventa a sua própria sombra, uma figura desconhecida mesmo no corpo em que habita, estranho a tudo e todos, desde a sua própria poesia, por favor, não pode ser a poesia mais ou menos importante que o poeta, corre-se o risco de pôr em o perigo os dois, o objecto e o sujeito criador; estes completam-se, a poesia não existe sem o poeta, nem o poeta existe sem a poesia, tal como a escrita não existiria sem o escritor, ambos são a mesma coisa, provém da mesma árvore. Poesia, luz, silêncio, estrada deserta, parede nua e crua, uma vida todas vidas. Se rompemos com esse cordão umbilical, rompemos também com os que estão ligados. Por vezes me meto na cama e depois de escassos minutos me vejo invadido e perturbado por vozes e escritas, sem saber a proveniência nem o destino, como se já estivesse prescrita uma missão de realizar a escrita, como se o ser poeta fosse uma missão assumida a partir do momento que se começa nas fainas literárias, rompo com a hora, a praxe e rabisco se esvai, seja onde for, agora me habituei a dormir com pedaços de papel por baixo da cama, das almofadas (travesseiro). Sendo poeta, não sou somente na escrita, mas na maneira de falar, de ouvir, escutar, estar com amigos e pessoas, não sou poeta maduro, nem imaturo, tampouco se pode amadurecer nas lides literárias; disseme o amigo Willian Delarte, “és uma semente de uma árvore frondosa”, o Poeta Patraquim disse uma vez na sua entrevista que não existem poetas bons nem mãos, apenas existem poetas. E eu como cidadão de Moçambique, sou mais um de poucos que cá existem, sou apenas um adolescente que a cada dia aprende a construir seus mundos interiores, porque o de cá fora anda muito conturbado, sou jovem escritor, aprendiz, e amador da escrita, mais um poeta, só poeta.

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18 | 17 de Agosto 2012


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Reportagem

Paulina Chiziane: “Isto chama-se preconceito e alienação cultural!” FONTE: Jornal @Verdade - Moçambique

A

célebre escritora africana, Paulina Chiziane, considera que fazer da figura do curandeiro o diabo do século XXI é um preconceito cultural e uma tentativa de alienação cultural aos moçambicanos. Nos dias que correm, a escriba possui mil e um argumentos que defendem a tese. Até um (novo) livro já começou a escrever... Nos dias quem correm é voz comum que contrariamente ao que acontecia na antiguidade o curandeiro se tem tornado numa entidade vil, muito em particular, nos espaços urbanos como a cidade de Maputo, por exemplo. Em resultado disso, para alguns, o curandeiro ganhou o sentido de diabo. No entanto, a conceituada escritora moçambicana, Paulina Chiziane, encontra em tal atitude um atentado contra a cultura e tradição moçambicana. Por isso, argumenta que se não fosse pelo papel desempenhado pelos curandeiros, quando, no século XV, os europeus chegaram ao continente africano não teriam encontrado negros saudáveis, bonitos e fortes, os quais – além de escravizar brutalmente – vendiam-nos nas Américas. Decorrente disso, para si, considerar que essa figura é o diabo dos nossos dias, no mínimo, é um preconceito cultural. Uma tentativa de alienar os africanos. Com esta premissa, os leitores (mais saudosos) dos seus livros podem aguardar a sua nova obra literária. Naquela noite, no Instituto Cultura Moçambique-Alemanha, em Maputo, criouse uma espécie de lareira moderna. Paulina Chiziane e Orlando José da Conceição, duas bibliotecas ambulantes, recorrendo à tradição oral que caracteriza os povos africanos, passaram um conjunto de valores, experiências e advertências aos seus contemporâneos, mormente os jovens. Na ocasião a Timbila Chopi, a mulher e a literatura moçambicana, os recursos minerais e energéticos – que se descobrem sistematicamente no país – além de animarem os discursos políticos nacionais, a Imprensa local, bem como a figura milenar do curandeiro, o médico tradicional africano, constituíram o roldão dos temas que prenderam os jovens no mesmo espaço durante mais de duas horas. Contar-te Estórias foi como se rotulou o evento. Na capital moçambicana, já há bastante tempo que se tornou voz comum que (alguns) os curandeiros são falsos. Paulina comunga da opinião. No entanto, o sentido que alguns cidadãos não encontram no facto de tal personagem social – em plena época do vigor da sociedade de informação – valorizar a actividade de marketing para divulgar e promover o seu ofício serve-lhes de argumento para aguçarem as suas descrenças nos médicos tradicionais. Dizem que o marketing publicitário dos curandeiros os tornou na coisa mais vil dos nossos dias. Curandeiro que é não faz publicidade. Até há alguns anos era assim. Mas, convenhamos, as sociedades são dinâmicas e os comportamentos humanos – incluindo os curandeiros – são influenciados pelo referido dinamismo. O confundir-se os negros com a figura do diabo é bem antiga. De acordo com Chiziane, foi uma produção da igreja do ocidente. Ora, se nos dias que correm o ocidente pretende desvirtuar os médicos tradicionais africanos, os curandeiros, atribuindo-lhe o estatuto de diabos – isso não deve ser aceite. Para si, os curandeiros são pessoas com a sua importância nas nossas sociedades. Numa situação em que muitos de nós, os moçambicanos, não temos muita informação sobre o nosso passado, as nossas práticas tradicionais, incluindo o curandeirismo, a medicina africana – devido ao desenvolvimento tecnológico – acabamos por corroborar com o raciocínio de acordo com o qual os curandeiros são diabólicos. E levando essa posição ao extremo, passamos a vida a vilipendiar o curandeiro – assim lamenta Chiziane. É nesse sentido que, para desconstruir, ou, no mínimo, tentar desconstruir esse ponto de vista, uma maneira (linear) de pensar que nos indica um só caminho, a escriba, ainda que tenha interrompido a meio caminho o seu discurso, naquela noite apareceu com argumentos formais. No continente africano, antes da chegada dos árabes, o povo vivia feliz com a sua medicina. Passado algum tempo, chegaram os europeus que olharam para os negros, fortes e felizes, e disseram: Que pretos tão bonitos! Vamos vendê-los nas Américas. Tais populações de negros eram fortes e felizes porque foram tratadas pelo seu curandeiro. É esta a percepção de Paulina Chiziane. Mas os seus fundamentos não terminar por aí. Afinal, passado algum tempo, “os europeus baptizaram-nos, cristianizaram-

nos com os seus nomes. Disseram que o diabo é/era preto. Isso presenciei na minha infância, aos dez anos de idade, no catecismo católico. Ao longo dos anos a situação transformou-se. O diabo já não é, necessariamente, o preto mas aparece com a cara de um curandeiro”, lamenta Paulina ao mesmo tempo que explica essa ostracização do curandeiro no espaço social pode ser definido como “um preconceito e/ou alienação cultural”. É que na percepção de Chiziane, a mesma autora de Niketche e O Sétimo Juramento, se não fosse pelo papel desempenhado pelos curandeiros da antiguidade, quando os europeus chegaram ao continente africano não teriam encontrado pretos (no sentido de cidadãos africanos, o quais mais adiante foram brutalmente escravizados) felizes, saudáveis. É fundamental e salutar que se compreenda isso! A partir daqui, apesar de que quando feita uma análise profunda no centro da cidade de Maputo nada mais se encontra além de uma proliferação desenfreada de curandeiros, alguns dos quais afirmam que curam a SIDA, uma enfermidade que só possui tratamento paliativo, talvez façam sentido os pronunciamentos de Paulina Chiziane quando, em certa ocasião, considerou: “O curandeiro é o guardião da religiosidade e da sabedoria africana. É o guardião de toda uma cultura moçambicana”.

Estatísticas que (não) mentem Conforme a abordagem de Paulina Chiziane, não devem restar dúvidas de que o curandeiro é uma pessoa (muito) importante na nossa sociedade. Basta que se tenha em mente que, segundo a escriba, “pelas estatísticas nacionais, só 30 porcento da população moçambicana é que tem acesso às unidades sanitárias. Os restantes 70 por cento de cidadãos realizam as suas consultas no curandeiro”. Mais do que isso, perante a situação de pobreza em que nos encontramos; diante da nossa realidade cultural, em relação aos curandeiros, pode-se engendrar uma série de questões. “O que faremos? Iremos transformar o curandeiro em inimigo ou em nosso amigo? A resposta estratégica é transformar o curandeiro no amigo da sociedade, mas, em contra-censo, infeliz e sistematicamente, tem-se vilipendiado os curandeiros”, lamenta Chiziane. No entanto, que se reconheça que é verdade que existem curandeiros malandros. Em que parte do mundo não há meliantes? Mas, provavelmente, a pergunta pertinente por se fazer seria reflectir no investimento que tem sido feito desde a época anterior à chegada dos europeus a África até à actualidade em relação aos curandeiros.

19 | 17 de Agosto de 2012


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Ensaio

Eneida Nelly: um novo discurso para um outro olhar para o cânone literário caboverdiano

Dejair Dionísio¹ - Brasil

L

uís Kandimbo, ensaísta e crítico literário angolano, diria que não era possível elogiar o cânone já que o mesmo não se confundiria com a "meditação sobre os clássicos" de Harold Bloom, autor de O Cânone Ocidental (The Western Canon-The books and school of the ages), pois a formação daquele cânone está definitivamente comprometida com a civilização ocidental. Nesse sentido, propunha como réplica a existência do cânone ocidental, a anacronia do cânone Negro Africano ou Bantu, para a perspectiva angolana. Em se tratando da apologia para um outro cânone para as literaturas africanas em geral, a pretensão totalitária de Harold Boom em incluir na sua profecia de canonização autores africanos, integrando o que ele denominava por chaotic age, anula as especificidades das literaturas africanas. Para a literatura afrocaboverdiana este paradigma confronta-se hoje com um discurso crítico produzido por africanos que, com a mudança atual de atores na formação do cânone para as escolas e universidades, já está trazendo para o discurso a representação de ruptura epistemológica que sempre viu com reservas todo o tipo de produção intelectual africana. Com o advento do pensamento crítico e pós -moderno associado a globalização cultural, o discurso feminino na literatura vem se impondo não somente pela necessidade de inclusão de um grupo tido como marginalizado nas letras. Se impõe pela qualidade do discurso, pelas temáticas inovadoras, pela necessidade de dar a conhecer outras latitudes anteriormente não abordadas pela poesia. Eneida Nelly, poetisa caboverdiana que escreveu em crioulo a sua obra, nos brinda com a não caoticidade pensada por Bloom e nos proporciona um outro olhar para esse novo olhar do que é e quem é que será canonizado nessa nova escrita dita Africana de Língua Portuguesa. Palavras-chave: cânone. Eneida Nelly. Literatura afro-caboverdiana

Um olhar da alteridade

Em termos representativos, de construção de uma identidade própria que dialoga com outras identidades africanas, o pensamento de Chinua Achebe nos parece bastante interessante. Ele pensará essa identidade que quer dizer algo, que fala sobre alguma coisa e que a identidade africana ainda está em processo de formação. Não há uma identidade final que seja africana. Mas, ao mesmo tempo, existe uma identidade nascente… quando alguém me encontra, fora do continente africano, ele indaga: ‘Você é da África?’ O que significa que a África é alguma coisa para algumas pessoas. Cada um desses rótulos tem um sentido, um preço e uma responsabilidade. Todos esses rótulos, infelizmente para o negro, são rótulos de incapacidade.” Chinua Achebe

E é esse rótulo de incapacidade, de equívoco quando pensamos a manutenção do locus comum para a África, coisificando-a e deixando-a hermeticamente fechada numa caixinha pré-selecionada, que não nos deixa perceber a criação e a representação dessa identidade específica, afeta nesse caso, a de Cabo Verde. Também não se compreende dentro dos estudos relacionados a literatura produzida em África por autores que tem como berço aspectos culturais e de língua próximos ao Brasil, a escrita que fuja do estereótipo e das amarras condicionantes as quais foram reservadas por estudiosos ocidentais. Por mais que haja vontade e intenção positiva para olhar para essas narrativas, tentando perceber a oratura e a reserva estética, principalmente quando a atribuição do uso da língua nacional ou materna está presente, muitos dos nossos estudiosos enviesam as análises e “fogem” da possibilidade de olhar para essas escritas, amedrontados que estão em entender conceitualmente e filosoficamente essas escritas. Afinal, a segurança da teoria pronta, está disponível e gera mais empatia acadêmica. No caso das escritas que emanam de Cabo verde, verificamos haver pouquíssimos estudos voltados para a produção literária em crioulo. Talvez pelo fato de não poderem ser enquadradas dentro das possibilidades pensadas por Harold Bloom que, ao escrever sobre as escritas africanas em Língua Portuguesa, entendeu haver um caos de compreensão, porém não nos esqueçamos que ele partiu do seu olhar eurocentrista. Havia, na nossa concepção, boa vontade para fazer, mas havia, para além disso, uma necessidade de mantes o olhar de distanciamento e de negação da diferença da

20 | 17 de Agosto de 2012


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Ensaio escrita produzida naquele arquipélago, o de Cabo Verde. Localizado a 500 km da costa do continente africano, Cabo Verde sempre esteve com um pé aqui e outro acolá, quando se pensa em países africanos. Devido a sua localização geográfica e ao distanciamento terrestre do continente, muitos estudiosos buscaram outras significações, outras latitudes, no sentido de compreensão do fazer cultural no arquipélago. Tendo como berço cultural a possível mais ainda questionável achamento das ilhas no século XV, Cabo Verde se insere dentro do contexto histórico de navegação orquestrada pela frota portuguesa, em busca de soluções para encontrar um outro caminho que não passasse pelo comércio europeu centralizado nas mãos dos venezianos. Encurtar a viagem para a Índia, era a missão e, no meio do caminho, aconteceu o achamento do Arquipélago. Constituído pelo cruzamento de portugueses e africanos que, forçosamente via escravidão foram levados para as ilhas (inicialmente a ilha de Santiago, a maior e que concentra a maior população atualmente) originou uma população tipicamente crioula, devido a essa situação. Dessa mistura e confluência de culturas nasce a língua crioula, termo português que originalmente foi usado para designar os escravos criados na casa dos senhores e posteriormente passou a ser designador às línguas por eles faladas. (CRISTÓVÃO, 2005) Por razões de imposição de uso a língua portuguesa serviu de base para o surgimento do crioulo em Cabo Verde, daí haver a denominação basilar da mesma, para o crioulo. Porém, como outros usuários não comungavam da língua dominante, trazendo dos seus grupos étnicos outros arranjos linguísticos, essa forma inicial de comunicação desembocou para o meio comercial, para o meio social e demais, formando-se então um pidgin(2) facilitador de comunicação pela sua forma direta e simplificada de construção frasal. O crescimento rápido e exponencial do crioulo fez com que se tornasse tão importante que, em 1784 um escritor anônimo afirmou que os brancos em Santiago “raros (são) os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão seguindo o estilo da terra”. Durante o colonialismo, o português foi a língua primeira sendo utilizada no ensino, na administração, a única escrita, e, sendo a língua do colonizador, o uso do crioulo não era permitido chegando ao extremo de ser proibida por lei em 1849. Apesar das proibições, perseguições e demais formas de cercear o uso da língua caboverdiana, a mesma ganha outro estatuto após a independência, passando a ser permitida, falada nos discursos políticos ao lado de outras manifestações culturais que também foram banidas do contidiano caboverdiano durante o colonialismo, como a tabanca e o finaçon, além do funaná. Passa a ser permitido mas não é língua oficial, já que o português mantém esse estatuto, sendo língua de comércio e de comunicação no país e meio de contato com o mundo. As duas línguas, o caboverdiano e o português, coexistem em paralelo e não em sobreposição nem por exclusão, construindo assim um verdadeiro bilinguismo. O mesmo observou Jorge Amado, em visita oficial a Cabo Verde com a comitiva do presidente do Brasil à época, José Sarnei, em 1986, disse numa entrevista que “ a vida decorre em crioulo”, uma vez que ela está presente nas relações informais, mesmo naquelas que dominam o português. Esta, a segunda ou oficial, deixada pelo colonizador, “adquiriu aos olhos dos nacionais um prestígio desmesurado, que nem a independência conseguiu reduzir totalmente às suas proporções normais” (DUARTE, 1998). Se a vida decorre em crioulo, mas tendo a língua oficial o português, essa característica aparecerá na literatura e em todos os afazeres em Cabo Verde. Conforme a observação de Dora Pires que o fenômeno do bilinguismo não afeta globalmente a sociedade caboverdiana; nem todos os caboverdianos falam o português, embora o português seja muito mais utilizado na camada culta e rudimentarmente falado nas camadas populares. Como o português nunca foi uma língua de domínio afetivo e global mas sim uma língua de domínio administrativo-político, a língua cabo-verdiana continua sendo o instrumento de comunicação oral privilegiada. (PIRES, 2009)

Possíveis percepções para uma diferente recepção desse instrumento privilegiado podem ser vistos a partir do início da tradição da escrita em crioulo, buscando afirmar-se enquanto identidade descolada da cultura lusófona e da língua que a representa – o português. Portanto, os poetas crioulófonos, a se destacar os advindos da ilha de Santiago, berço da criação do crioulo, inspiram-se atualmente na tradição da oratura caboverdiana e trazem para as suas obras as contribuições das estruturas basilectais, utilizando, também, muita criatividade, o que faz pensar que em médio prazo, a língua terá o se reconhecimento como língua de literatura. Apesar de somente recentemente o crioulo começar a ganhar uma roupagem sugestiva de que com a criação de alguns “instrumentos indispensáveis à sua reconversão em língua escrita”, conforme análise de Dulce Almada Pereira (2005), alguns ensaístas, poetas e romancistas já estão produzindo textos em crioulo, apesar de ter concorrido historicamente com o nascimento do percurso literário de forma perversa, uma vez que o colonialismo impôs aos caboverdianos a literatura em português, dentro dos moldes europeus, em detrimento do nascimento clássico literário que vem da oratura ou da literatura oral. Essa literatura insular nascerá de forma diferenciada daquela que foi sua inspiração (sic). Aparecida dentro do contexto literário em fins do século XIX, coincidentemente no período em que poetas e compositores musicais foram escolarizados em português, havia somente no primeiro momento, o modelo literário praticado na Europa acima descrito, com base nas narrativas orais, os cantos dos épicos ou as canções de gesta. Mesmo assim, alguns autores como Eugênio Tavares, Pedro Cardos, Sérgio Frusoni, Luis romano, Teixeira de

Sousa, Mário Macedo Barbosa, Ovídio Martins, Gabriel mariano, Jorge Pedro Barbosa – interessante notar que nenhum deles é santiaguense. Mesmo assim, os dois últimos citados, do primeiro período de escrita em crioulo, que data até 1960, escreveram a partir da variante da Ilha de Santiago. Mas será somente no fim daquela década, que um escritor da Ilha de Santiago usará o crioulo como vaso comunicante, o poeta “Kaoberdiano Dambará”, pseudônimo de Felisberto vieira Lopes, o qual escreveu, nos finais dos anos 60, um livro de poemas de exaltação patriótica verdadeiramente notável, Noti, na forma basiletal da variante de Santiago. (PEREIRA, 2005: p. 12) Surgirá a partir dele um grupo que revelará via sua linha poética e discursiva a vitalidade cultural de Cabo Verde, trazendo junto consigo as potencialidades e possibilidades que a língua sustenta. Exemplos de autores a sere citados são os de Corsino fortes, Kaká (Carlos) Barbosa, Kwame Kondé (Francisco Fragoso), David e J. Luis Hopfer Almada, Arménio vieira, Oliveira Barros, emanuel Braga Tavares, César Fernandes, Tomé Varela da Silva, Daniel Spínola, que valorizarão a identidade local, os valores nacionais mas dando uma dimensão universal a essa novo fazer poético. No romance, já na década de 1980, surgirá pelas mãos de Manuel Veiga Odju d’Águ (Olho d’Água), trazendo no seu enredo toda a dinâmica da diacronia com a sincronia, tendo como participante na narrativa o público, no formato de uma espécie de auditório, revelando a necessidade de comunicação. Eutrópio Lima da Cruz escreverá em finais da década de 1990 Perkurse de Sul d’Ilha (Percurso de uma ilha do sul), escrito na variante da Ilha de Boavista, difere do romance de Veiga, pois o mesmo não tem as características de uma longa história tradicional, mas concebe-se dentro da estética caboverdiana pela sua estrutura e sua concepção. É nessa esteira de obras que nasce a coletânea de poemas Sukutam (Escutame) de Eneida Nelly, publicado em 2011. A narrativa contida em seus 50 poemas musicados por Princezito, vão dialogar com sua infância no Tarrafal, cidade da Ilha de Santiago. Conforme prefácio à obra de Miguel Anacoreta Correia, o testemunho da sua solidão vivida em Lisboa, testemunham os vários dias solitários, a esperança em um futuro melhor, a saudade da família, do mar, da areia, da Lua, do Sol, da dor e do amor e, principalmente, da música, que simboliza tanto para si o que é Cabo Verde. Mas, mais uma vez, o olhar europeizante do prefaciador aparece, ao anotar que é por isso de saudar a vontade da Eneida, que começou a escrever poesia muito jovem e cuja escrita foi sempre muito considerada por todos, em vir a escrever em Português. Desta forma permitirá que as suas obras sejam apreciadas por um universo mais alargado de leitores e amigos. CORREIA, 2011: p.3)

Aqui merece uma observação pensada por Kandimbo, que indaga se será necessário rever o cânone. Nos parece que é necessário rever também o olhar de quem supostamente canoniza, que na sua fala não complementa e nem suplementa, conforme Derrida, a literatura caboverdiana. O seu olhar é de exclusão e dialoga diretamente com o pensamento neocolonizante, não diríamos que por intenção mas por impregnação. Assim, a obra se sustenta, mesmo fora dos padrões esperados para a literatura produzida em África, ou seja: na não conformidade com as línguas de imposição colonial, o que seria de esperar de uma autora caboverdiana. Comecemos pela primeira impressão de alteridade que é a de que, dos crioulófonos citados, ela é a primeira que aparece no sentido da possibilidade de inserir o gênero feminino na discussão, na concepção, na autoria e na própria possibilidade de publicação. O próprio título da obra, Sukutam já avisa para que veio: para ser ouvida.

Notas 1—Leitor brasileiro na Universidade de Cabo Verde – Uni-Cv e no Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP. Doutorando do programa de pós-graduação da Universidade Estadual de Londrina e colaborador no Núcleo de Estudos Afroasiáticos da Universidade Estadual de Londrina – UEL e no Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da universidade Federal do Espírito Santo – UFES. 2—Para o surgimento do crioulo de Cabo Verde Dora Oriana Pires no seu artigo Situação linguística deCabo Verde apresentado no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DA LÍNGUA E CULTURA DE/EM LINGUA PORTUGUESA NA CPLP, ocorrido na cidade de São VICENTE de 24 A 28 DE MARÇO DE 2008 dirá que ele “resultou assim do contato dos dialetos africanos com o português, nascendo num contexto social em que se pretendia resolver os problemas do dia-a-dia a partir de códigos mínimos e muito limitados – um “pidjin” -, para aos poucos e com recursos a empréstimos e adaptações do português e das línguas africanas, evoluir e dar assim origem a uma língua viva como as outras e sujeita a mudanças, que é a língua Cabo-Verdiana.”

Bibliografia DUARTE, Dulce Almada. Bilinguismo ou Diglossia?, Spleen Edições, Praia 1998. _____________________. A literatura cabo-verdiana (crioula) entre o oral e o escrito. Revista Papia ed. 15, pp. 7-14, São Paulo, 2003. NELLY, Eneida. Sukutam, Edição da autora, Praia, 2011. PIRES, Dora O. G.. Ensino da Língua Cabo-verdiana no Ensino Básico, 3ª Fase (5ª e 6ª classe) – Proposta de um fragmento de Manual Ensino da língua cabo-verdiana – Tese de Mestrado – CEA - FLUP - fev, 2008. ____________. Situação linguística de Cabo Verde, Simpósio Internacional do IILP da Língua e Cultura de/em Língua Portuguesa na CPLP, São Vicente, CV, 24 a 28 de março, 2008.

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Ideias Finais

Retalhos

“Aristides Pereira, Minha vida, nossa história” apresentado em Lisboa

Ximatanini ou nossa Praia Landinha

FONTE: Sapo

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epois de ter sido lançado no início deste ano na Praia, em Cabo Verde, o livro "Aristides Pereira, Minha vida, Nossa história" foi apresentado pelo seu autor, o jornalista e escritor José Vicente Lopes, na sede da CPLP, em Lisboa.

Na sequência dos seus trabalhos de investigação sobre os bastidores da história recente de cabo Verde, José Vicente Lopes resgata a figura de Aristides Maria Pereira, o primeiro presidente de Cabo Verde, em que este, entre diversos aspectos, recorda a infância e a adolescência, e ainda a sua vida na Praia, entre 1923 a 1948. Neste livro de 496 páginas, produzido pela também jornalista Marilene Pereira, o autor fala dos momentos em que Aristides Pereira viveu na GuinéBissau e Conakry até chegar a luta armada, onde conviveu com Cabral, a sua morte e a negociação para a independência de Cabo Verde (1948 a 1960). Com esta obra, José Vicente Lopes procura ainda mostrar os caminhos que percorreu Aristides Pereira, após a independência, à frente da presidência da República, bem como a sua retirada da cena política, após as eleições multipartidárias de 1991, em Cabo Verde. O livro traz diversas revelações sobre a personalidade de Aristides Pereira, a forma como encarou os desafios que as suas funções no PAIGC o obrigaram a enfrentar, para além do papel desempenhado no palco da diplomacia internacional, como por exemplo o ter servido de ponte entre o presidente norte-americano George Bush (pai) e José Eduardo dos Santos, de Angola. Nascido na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, a 6 de Outubro de 1959, José Vicente Lopes é jornalista, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil é autor de "Os Bastidores da Independência", "Tarrafal/Chão Bom - Memórias e Verdades", entre outros. É considerado um dos melhores jornalistas cabo-verdianos, tendo integrado as redacções do Tribuna, Voz di Povo, A Semana, para além de ter sido o correspondente local dos jornais portugueses 'Expresso' e 'Público'.

Eduardo Quive - Moçambique

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eu Deus, quanta água! Muita água! Em todo canto é só ver água e mais água! Tudo se transformou no tão precioso líquido! Vejo gente a bailar nos braços da chuva grande. Eu e Netinho saímos escalando esse mar que os céus cinzentos nos trouxeram no pobre Patrice. Chamamos Simone e Pala. Corremos descalços de calções e sem camisa galgando a terra que se fartava de tanta água. O chão prostrava-se perante o poder de quem está lá em cima. A minha mãe dizia que é Deus. Deus no céu e diabo em baixo das areias do bairro, mas quando fazíamos covas para construir as casas dos nossos palitos, representando aquilo que éramos, ou o que seríamos, lembro-me, aparecia um bichinho gordo que auto locomovia-se rastejando. Aí os mais velhos diziam é “nwinho wa missava”. Dono da terra. Aí mais uma coisa, as areais do meu bairro afinal não eram em que se encontrava o diabo! Então ficávamos felizes. A chuva mesmo seria a única barreira para as nossas brincadeiras, mas em vão. Enquanto ela caía eu ainda dentro da casa espreitando cobiçosamente ouvia malta Djossefa, Lulu, Florêncio e outra rapaziada, a cantar “treinador Maxaquene, Treinador Maxaquene”. Cheio de vontade de aliar-se àqueles amigos filhos do tio Pedro e tio Luís que o meu pai chamava-o Ndondondo porque bebia muito Tontonto (três palavrinhas), ao ver os rapazes brincar nas águas da chuva enquanto o tronco estava exposto aos pingos. Olhava para o chão quase com as lágrimas a cair e via na minha mão a ameaça de que se saísse, ia apanhar. Mas sempre dá um jeito quando Netinho entrasse em casa. Ele inventava qualquer coisa mas fazia a casa cuspir-me para fora. Aí saímos ambos de calções correndo para lá das bandas do tio Zefanias o pai de Pala onde tinha um tubo que tirava a água das caleiras. Era mesmo bom sentir aquele bater forte das águas da chuva nos nossos corpos. Uníamo-nos todos meninos, eu, Netinho, Simone, Lulu, Djossefa e Florêncio. Corríamos toda rua a fora. Depois pulávamos para as bandas do Singathela onde por causa da força dos pingos e da pequena ventania oportunista, todas as mangas caíam por terra. Apanhávamos aqueles frutos silvestres, mesmo na casa da professora Rossana onde tinham as mangas mais doces. Mas era tudo escondido, aí saber correr era um factor importante. Mas o pior mesmo, foi o dia que fomos conhecer a nova casa de Netinho, onde tio Pedro, seu pai, com salário de miséria como professor da escola primária, investia tudo para saírem da rua “O” e viverem felizes em família. O bairro onde morariam chama-se Ndlavela, fica depois de São Dâmaso. E é por lá onde tínhamos a nossa praia Landinha, uma porção de água cercada de terra. Mas não era assim que diziam os mais velhos, chamavam de “mati ya ndabi”, água que vem das cheias. Cheias de 2000. Mas nós não tínhamos esses preconceitos com aquela praia solitária que se instalou para nós meninos pobres do bairro onde tinha tudo, ladrões, sarnas e bilharziose, malária, diarreias, gonorreia e TB aos mais velhos. Agora também eclodiu nova doença. A gravidez. E íamos correndo ao Ximatanini como também chamavam. Dias de calor após quase um mês de chuvas torrenciais que encheram-nos as casas, as ruas e até as vidas. Na escola já não íamos a tempo e eram nossas ferias aquelas que as chuvas nos deram. Netinho que era mesmo bom das espertezas pediu-nos que o acompanhássemos lá para nova casa deles. Chegamos a praia Landinha e ainda a distância vozes de meninos que gritavam de alegria. Aí corremos ainda mais. Tiramos as camisas e as calças, ficávamos de calções ou mesmo de bicho fora sem temer as diferenças. Praia Landinha estamos aqui hoje nós da rua “O” e queremos tomar banho nas suas águas onde dizem que morreram muitas crianças. Nós que te somos solidários perante as injustiças que as pessoas te dão para não seres reconhecida como nosso Ximatanini onde banharemos os nossos troncos. Onde mulheres com bebés nas costas vem lavar as roupas que sujam na vida. Ah! Que saudades daqueles tempos em que os trópicos ardiam sob a nossa pele negra, indefesa do intenso calor típico de Janeiro e Fevereiro e lá no Ximatanini aquela praia de negros e mulatos pobres do subúrbio, afogávamos as nossas diferenças sem história! Horas passavam despercebidamente no banho da Praia Landinha. Entrávamos e saíamos correndo e gritando. Éramos felizes e confidentes com o nosso Ximatanini lá do Ndlavela. Só quando a noite começa a ameaçar chegar nos recolhemos, trémulos e mulatos de tanto banho. Mesmo com o cessar da tarde evidente, restavam vontades de continuar na alegria de Ximatanini que já era a nossa praia Landinha. Voltávamos a correr para casa como sempre gostávamos. Uma provocação a outros meninos dos bairros que passávamos agitava-nos ainda mais. Corríamos apressados para a porrada que receberíamos em casa. Ou pelo menos eu e Netinho. Já na rua, ainda na entrada chegavam-nos as vozes do medo. Gulherme, irmão mais novo de Florêncio é que vinha a correr para chamar-nos atenção do que nos esperava. Mas eram apenas ameaças de quem não podia afogar-se naquelas águas. Tudo em vão, a praia era nossa e nós tínhamos que nos banhar nela.

22 | 17 de Agosto de 2012

Revista Literatas - 45  

Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona

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