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Maputo | Ano II | Nº 42 | Agosto de 2012

Reportagem | Pág. 06 Pintar sob a arte de escrita

Ensaio | Pág. 18

“Achei que já estivesse louco”

90 anos de Agostinho Neto| Pág. 07

Entrevista: Andes Chivangue, escritor moçambicano |Pág. 11 COMUNICADO IMPORTANTE

As duas próximas edições da revista Literatas serão dedicadas à Literatura Moçambicana, concretamente - Homenagem a escritora Lília Momplé que sairá no dia 30 de Agosto e outra será dedicada aos 30 anos da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), que sairá no dia 31 de Agosto. Com efeito, receberemos textos referentes aos dois assuntos até o dia 20 de Agosto pelo e-mail: r.literatas@gmail.com.


Cartas | Comentários | Opiniões | Reações

Literatas no facebook - debatendo ideias e acontecimentos. http://www.facebook.com/pages/Literatas/154478737895518 Amosse Mucavele 6 de Agosto A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e o Conselho Municipal da Cidade de Maputo perderam a grande oportunidade de se legitimarem como duas Instituinções sérias, e de credibilizar o próprio Prémio Literário 10 de Novembro, pois a obra vencedora da Edição 2011 não merece ganhar um prémio. A poesia de Domi Chirongo e muito incipiente para ganhar um prémio, carece de qualidade e maturidade na escrita. Assim desenvolvemos a literatura? Curtir (desfazer) · Você, Izidine Jaime, Ricardo Riso e outras 9 pessoas curtiram isso.

Claudio Daniel ... isso é tão comum nos prêmios dados por instituições oficiais... no Brasil, inclusive.6 de Agosto às 14:56 · Curtir · 1

Amosse Mucavele e aqui e mais do que normal,pois tudo leva em conta os alicerces amigais,que pena dos tais juris isentos de leituras atentas,aqui nunca houve um ano sem vencedor, e com tantas obras sem o minimo de qualidade exigida para ser publicado,mas estao ai a ser premiados e o silencio dos leitores responde, ninguem fala das mesmas obras.6 de Agosto às 14:59 · Curtir · 1

Ricardo Riso Realmente vergonhoso, Amosse. Que estou sem tempo para escrever sobre isso, mas não deixarei de fazer esse registro no futuro. 6 de Agosto às 15:55 · Curtir

Lunayca Lurdes Tembe Epah depois dizem k temos k ler os classicos d actualidade... + os mesmos oferecem nos palavras ocas, depauperam a vertente literaria... Escrevem pa exercitar os dedos e n p alimentar as mentes. Axo k eh por ixo k eles sao escritores e n literatas. 6 de Agosto às 16:09 via celular · Curtir

Mauro Demarchi Amigo Amosse Mucavele esse não é um problema que acontece apenas em Moçambique... O Brasil também padece do mesmo mal. 6 de Agosto às 16:26 · Curtir · 1

Victor Eustaquio Amosse Mucavele: estou por fora da notícia. O que aconteceu exactamente? 6 de Agosto às 16:35 · Curtir · 2

Une Mozambique Caro, Amosse Mucavele Sabemos que tem problemas com o autor Domi Chirongo, mas nestes casos é sempre bom a ponderação e honestidade intelectual. É o mínimo que se exige a um “literata”. Olha, de tanto rancor que consigo transporta se esqueceu de rever o seu texto e perceber que: • A obra “Nau Nyau e Outras Sinas” de Domi Chirongo foi vencedora em 2010 e não em 2011; • Escreve que a AEMO e CMCM perderam oportunidade de se “legitimarem como duas Instituinções sérias”. Releia esse seu parágrafo onde diz isso e substitua “Instituinções” por “instituições” antes de reflectir; • A dado passo diz que ninguém fala das obras como “Nau Nyau e Outras Sinas”. Outra mentira grosseira, pois a edição mais recente do semanário “Público” tem um artigo assinado por Laurindos Macúacua a falar da obra, só para citar um exemplo; • O Mucavele está aqui a falar do autor, mais em nenhum momento cita o título da obra! Isto consubstancia a nossa tese de mágoa e rancor que o Sr. ainda tem do Domi Chirongo. Amigo, Domi Chirongo só não é destaque no seu jornal pelas razões que só você mesmo pode apresentar. Porquê não fala o que aconteceu?; • Amigo Amosse Mucavele, deixe de promover amigos e familiares. Deixe de promiscuidade. Isso não lhe leva a lado nenhum. Dedique-se a literatura a sério e um dia também será vencedor. Saudações Literárias 7 de Agosto às 09:11 · Curtir · 1

Japone Arijuane Olha. Desculpa me meter nisso, mas o que significa UNE Mozambuque? Eh uma congregacao religiosa, ou um partido politico? 7 de Agosto às 10:56 · Curtir · 2

costas do proprio autor.isto eu nao sei fazer felizmente digo a verdade de forma crua e nua 7 de Agosto às 14:09 · Curtir · 1

Eduardo Quive Bom, a ver o nome da revista LITERATAS a ser posta em causa pela Une Mozambique sinto-me dentro do debate. Não como dono deste órgão de informação, mas como aquele que vela pelo seu nome, funcionamento e neste caso, bom nome. Entendo os referendos que poderá ter com o colega Amosse Mucavele na sua opinião (o que ele é livre de o fazer como qualquer cidadão e, principalmente, como aquele que vive os contextos literários Moçambicanos), contudo entendo que deve ser sobre o assunto em debate, neste caso, o prémio 10 de Novembro dado ao escritor Domi Chirongo e não a revista LITERATAS. As suas (ou as vossas já que é uma associação) declarações, põem e causa a revista que tem como missão divulgar a Literatura Moçambicana e de língua portuguesa e principalmente, a promoção e divulgação de escritores emergentes. Esse órgão é independente, a pesar de pertencer ao Movimento Kuphaluxa, para publicar qualquer matéria que diz respeito à literatura expressa na língua portuguesa desde momento que seja submetido aos responsáveis devidamente identificado (caso leia a revista poderá ver a ficha técnica) cuja liderança editorial está na minha responsabilidade. Portanto que não venha este debate (penso que pertinente no estágio em que a nossa literatura se encontra) incidir-se numa revista em que nunca tivemos reclamações de exclusão e muito menos de parcialidade como o Sr (ou os senhores) tenta aqui aventar. A que me lembre, a única vez que recebi o comunicado vindo da vossa associação foi a 12 de Junho de 2012, a convidar-me para o lançamento dos livros Ndekeni, de Alexandre Chaúque, e Nau Nyau e Outras Sinas, de Domi Chirongo. Lembro-me de ter ido ao tal lançamento que chegou a ser do lado de fora do Paços do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, isto, pelo que soube depois, por alguma desorganização que depois Alexandre Chaúque veio a explicar na sua coluna Toma Que Te Dou no Jornal @Verdade como tendo sido culpa do CMCM, aliás, facto que nos retratamos na revista LITERATAS na edição 35 datada de 22 de Junho de 2012. Convido-lhe a ver essa edição, caso não tenha recebido vá ao blogue: http:revistaliteratas.blogspot.com Portanto que fique aqui claro que a revista é livre, de acordo com a análise final do editor de publicar qualquer matéria. Até porque fora ao assunto que acabo de me referir nada mais recebi da vossa associação. Bolas baixas amigos. Só um conselho, já agora pegando na ideia do escritor e docente de literatura Lucílio Manjate, caso ache que mandou alguma vez um artigo em qualquer jornal ou revista, em fim, e não foi publicado, aproxime-se do editor e procure saber dos motivos. Mas repito, nunca recebi nenhum artigo vindo do Sr ou dos senhores. Votos de um óptimo trabalho. 8 de Agosto às 12:30 · Curtir · 1

Amosse Mucavele meu caro aqui nesta reportagem,que o jornal Publico tal como refere escreveu sobre a obra,infelizmente o mesmo jornal,incluindo o Escorpiao nao fazem parte das minhas leituras,pois nao sou afeito a especulacoes baratas que tem sido retratadas com frequencia neste mesmo orgao, digo que aqui nos versos acimas descritos no livro Nau Nyau e Outras Sinas carece daquilo que o Benjamin Abdala Junior chama de "'Arte Poetica'' 8 de Agosto às 17:37 · Curtir

Amosse Mucavele veja nos poemas que compoem este mesmo livro usam o pensamento e nao as palavras,o que esta longe de se tornar poesia,pois a poesia usa as palavras :Como ingrediente essencial que acompanha toda classe de criatividade ideologica. A palavra acompanha e comenta todos e cada um dos actos ideologicos.Valentim Voloshinov in O Signo Ideologico e a Filosofia da Linguagem ndo-sea este pensamento: 8 de Agosto às 17:46 · Curtir

Amosse Mucavele eu tenho toda liberdade que o livro presta ou nao presta ,afinal porque e que os mediocres tem medo da verdade,basta de dizer que algo serve enquanto que nao serve: ,basta de dizer que esta tudo bom,afinal porque e que os mediocres tem medo da verdade.:" Não é que a literatura não sirva para nada. Ela serve para o que você quiser. Você não vai escrever um livro para que ele sirva para alguma coisa. Mas o leitor faz com o livro o que quiser.” A literatura faz uma pergunta. O livro é quase uma esfinge, ele apresenta um enigma para o leitor. Mas o interessante é que não existem respostas. O interessante é a pergunta.” CAROLA SAAVEDRA • jornal rascunho edicao 122 8 de Agosto às 17:54 · Curtir

Japone Arijuane Quando ontem procurei saber se esta UNE Mozambique era um partido politico ou uma congregação religiosa, era realmente, para dar sentido o nível de resposta que foi dada por estes em relação a critica destes prémios e livros paraliterários. Mas depois entrei num chat com a mesma congregação; que tentava explicar-me o que era isso de UNE Mozambique e fechei o chat a concluir que se eu tivesse tempo iria ler este tal (mal )dito livro. E li!, aliás, folhei; porque ler esse livresco é realmente difícil, muito difícil, pois não se trata de um livro de versos, muito menos de poesia, são algumas palavras escritas em português, soltas e espalhadas de maneira ridícula e pseudo; e desorganizadas sem nenhuma consistencia literária e feitas no formato de um livro. É triste realmente quando dizem que o mesmo mereceu um prémio literário; muito triste ainda quando esse prémio é atribuído por uma Associação dos Escritores Moçambicanos. Bolas! 9 de Agosto às 12:49 · Curtir

Une Mozambique União Nacional dos Escritores (UNE) é uma associação cultural.7 de Agosto às 10:59 · Curtir

Amosse Mucavele CARO Amigo da ''Une'' eu desconheco complentamente o rancor que tenho com este autor,sera que o senhor leu a edicao passada na qual eu e os meus colegas retratamos sobre a pouca vergonha que passamos juntamente com os proprios autores no Conselho Municipal. 7 de Agosto às 13:48 · Curtir · 1

Mauro Demarchi Mete bronca amigo Amosse Mucavele. Orgãos oficiais de cultura costumam ceder quando o valor da doação é maior que a reação do público. Se não reagimos, a cultura irá cada vez mais desaparecer em vista do valor do dinheiro. 7 de Agosto às 13:58 · Curtir · 1

Amosse Mucavele claro Mauro Demarchi ,em deterimento do amiguismo, os mocambicanos que se dizem de ser escritores e que sabem que sao ,muitas vezes tem medo da verdade, estao acostumados ao elogios baratos e que ao virar a esquina dizem o livro y e merda nas

Helder Faife No meu tempo, quando estivéssemos a brincar (no meu tempo brincava-se), e dois amigos começavam a cutucar-se (como agora os amigos que pararam de discutir poesia para afrontar os egos), um de nós prontamente enchia as mãos de areia, cruzava os braços e desafiava-os a desafiaremse. Os desafiantes tinham que bater numa das mãos e a areia caía em sinal de desafio. Quem não batesse estava com medo. O primeiro a bater começava o fight. Ora aqui quem são os desafiantes? Amosse Mucavele e Domi Chirongo? Ou vai ser uma luta de gangs, Literatas contra UNE Moçambique? O local pode ser o átrio da AEMO, lá temos areia, temos uma esplanada, e até temos livros de poesia. Isto se ”sô“ Secretário Jorge de Oliveira autorizar. Podíamos também convidar outros poetas: Mauro Manhiça, Mauro Brito, Aurélio Manuel Furdela, Songari Okapi, Lucílio Manjate, Poeta Militar, Amarildo Valeriano Ajasse, Clemente Bata, Ricardo Riso, Chagas Levene, Sara Laisse, Manuela Xavier, Hélder Folige… Edjê! Já cruzei os braços, quem bate primeiro? Um abraço! 10 de Agosto às 13:12 · Curtir

Joao Tala Pelo discurso, Amosse Mucavele tece uma opinião centrada numa consciência crítica. Não se vá descuidar e entrar em bate bocas ordinários, nada intelectual, sem merecimento. A Literatura e a crítica que dela advém é coisa adulta, sem os desafios que enchem mãos de areia. A palavra é vossa. Sábado às 20:03 · Curtir · 2


Sumário Personagem

pág. 4

Editorial |

Notícias

Eduardo Quive

Eis a neblina dos nossos tempos!

pág. 5 Romance "Hebo" de João Miranda já nas bancas

Livaningo: uma luz para novos autores

Danny Spínola escritor de Cabo Verde

Entrevista

pág. 11 a 13

Ensaio

Alex Dau – Reclusos do Tempo (nova literatura de Moçambique)

Entrevista: Andes Chivangue, escritor moçambicano

Poesia

pág. 14 e 15

pág.20 e 21

Outras Artes

pág. 19

LAMPIÃO, REI DO CANGAÇO: Exemplo de Nordestern Sangare Okapi - Moçambique

A influência de Malantagana Ngwenya na pintura angolana

Ana Rüsche - Brasil

Ficha técnica

A

té poderá parecer uma réplica daquilo que o jornal angolano de Artes e Letras, Cultura, vem se referindo na introdução do seu director e editor-chefe, José Luís Mendonça, sobre a pressa e alguma imaturidade em algumas obras de novos autores angolanos, facilitada pelo facto destes terem algum capital para custear as suas publicações. Certo, caro Mendonça, é verdade que há em algum momento, uma exacerbada paixão pelos passos rápidos, esquecendo-se do ditado que diz “de vagar vai-se longe”. Mas como nos vínhamos introduzindo, justificando a possível não réplica da justa opinião de José Luís Mendonça, no Cultura número 10, queremos concordar com o escritor (apesar de ele não se considerar), Andes Chivangue que regressado de Portugal a semanas, aceitou ser entrevistado pela Literatas. Chivangue chega à conclusão mais conhecida, só que falada nos corredores e pelas costas de muitos escritores, que há na Literatura Moçambicana, fantasmas que de lírica e arte só tem, o temor que as pessoas sentem delas e, os lóbis que eles conseguem para chegar à determinados fins. E o que concordamos na verdade? É que há de facto a mania de se fazer da literatura um campo de batalha bastante sangrento para se sustentar a soberba e a ganância de um punhado de gente. Tal punhado que, infelizmente, encontra-se espalhada um pouco por todos os lados, acabando se parecendo a maioria. Andes Chivangue que não cede entrevistas já há tempos remotos desde que esteve envolvido numa polémica iniciada pelo seu companheiro Midó das Dores, ambos fundadores do Núcleo Literário Xitende da cidade de Xai-xai, província de Gaza, sobre a suposta morte de literatura moçambicana, é quanto a nós, uma pessoa que se afigura na literatura nacional como coerente e que poderá não lhe passar pela cabeça, se calhar, ser um dos vencedores desses tais prémios, já que não deixa de tecer críticas sobre os mesmos. Ou cala e como ou fala e morre de fome. Ou deixamos andar ou paramos com as falcatruas que ao mesmo tempo nos acabam. Uma escolha ditará o futuro de qualquer um que a faz. A verdade é que urge quebrar-se os sussurros que vão de ouvido a ouvido, olho a olho piscando sobre alguma dúvida já mais esclarecida no seio da classe literário. Esses sussurros podiam ser um forte barulho para que isto tome um outro rumo. O crítico literário Francisco Noa é ciente que esses são problemas que não se ultrapassarão enquanto o estômago depender da boca, ou melhor, enquanto a fome e falta de comprometimento artístico por parte de tais senhores dos negociatas não cessar, havendo por conta disso, uma chuva de obras vencedoras de prémios e que só agradam a pressa e arrogância de tal autor condenado a pagar dízimos aos júris ou organizadores dos prémios. Noa vendo-se cercado desses esquemas que deixamos andar, traz uma nova e, quanto a nós, boa ideia, sobre a instituição de concursos de leitura em vez de escrita, afinal, os nossos escritores que se consagram logo na primeira obra que até vence prémios, são iluminados na escrita, mas da tal escrita, o que se consegue chegar à verdade é que não vem de leitura nenhuma. Portanto, caros leitores e, em particular ao José Luís Mendonça, se o problema de Angola é o facto de ter escritores que se fazem pela capacidade financeira de publicar o que quer que seja, há alguns cá, neste país tido como a Pérola do Índico, que até são pobres, pobre duplamente: intelectual e economicamente. O presidente da República chama-os pobres mentais quando vai aos distritos em acções de Presidência Aberta e Inclusiva, mas eles não se encontram lá, estão aqui, entre nós a camuflarem-se como autênticos Halakavumas, ou Pangolim no português que nos une. No entanto, o jeito para publicarem seus livros é mesmo ganhar um concurso literário, de escrita. Eis a neblina dos nossos tempos …

Centro Cultural Brasil-Moçambique | Av. 25 de Setembro, Nº 1728 | Maputo | Caixa Postal | 1167 | Email: r.literatas@gmail.com | Tel. (+258): 84 57 78 117 | 82 35 63 201 | 84 07 46 603 Movimento Literário Kuphaluxa | http://kuphaluxa.blogspot.com | www.facebook.com/movimento.kuphaluxa

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu | nelsonlineu@gmail.com Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane | jarijuane@gmail.com Cel: +258 82 35 63 201 | +258 84 67 29 929 EDITOR Eduardo Quive | eduardoquive@gmail.com Cel: +258 82 27 17 645| +258 84 57 78 117 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele | amosse1987@yahoo.com.br Cel: +258 82 57 03 750 | +228 84 07 46 603 CONSELHO EDITORIAL Eduardo Quive | Amosse Mucavele | Jorge Muianga| Japone Arijuane | Mauro Brito.

REPRESENTANTES PROVINCIAS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa Jessemuce Cacinda - Nampula REVISÃO LINGUÍSTICA Jorge Muianga COLABORADORES Moçambique: Lilía Momplé Izidro Dimande Brasil: Rosália Diogo Marcelo Soreano Pedro Du Bois Samuel Costa Portugal: Victor Eustaquio

Angola: Lopito Feijóo João Tala Cabo Verde: Filinto Elísio COLABORAM NESTA EDIÇÃO: Angola - Johnny Kapela; Fredrico Ningi; Luís Kandjimbo e Simão Souindoula Brasil - Guido Bilharinho; Ana Rüshe; Donizete Galvão; José Inacio Vieira de Melo e Ricardo Riso Moçambique - Jacinta Saene; Pré-Destinada; Sangare Okapi; Léo Cote; Domi Chirongo e Helder Faife

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Portugal - Ana Paula Mabrouk Galiza - Alberte Momán PAGINAÇÃO Japone Arijuane Eduardo Quive PERIODICIDADE Quinzenal

A revista Literatas é uma publicação electrónica idealizada pelo Movimento Literário Kuphaluxa para a divulgação da literatura moçambicana interagindo com as outras literaturas dos paises da lusofonia. Permitida a reprodução parcial ou completa com a devida citação da fonte e do autor do artigo.


Às segundas-feiras saiba quem é a personagem da semana em: http://revistaliteratas.blogspot.com

Personagem | Cabo Verde

Danny Spínola

Obras Participa nas antologias: Mirábilis de Veias ao Sol – Antologia de poemas, (1998);Palavra de Poeta – (1999, colectânea de entrevistas e breve antologia de poemas); Petit Anthologie du Cap Verd, archipel de poèmes et dechansons (2005); Destino di Bai, antologia de poemas; Divina Música, antologia de poesia sobre a música para celebrar o 25º Aniversário do Conservatório Regional de Música do Viseu; Cabo Verde, Insularidade e Literatura, (1998); Cabo Verde 30 Anos de Cultura, (2005); e O Ano Mágico de 2006. Tem publicado, de entre outros, os seguintes livros de referência: Lágrimas de Bronze, ficção, E.A, Praia – 1991 (3ª edição – 2006); Na Kantar di Sol, poesia, E.A, Praia – 1991; Adon y Éva, poemas, ICLD, Praia – 1999; Infinito Delírio, poemas, IBNL, Praia – 2002; Evocações, ensaios, IBNL, Praia – 2004; Vagens de Sol, poemas, IBNL – 2005; Lagoa Gémia, contos em crioulo, Spleen-edições, Praia – 2006 e Ámen Na Nha Xintidu, poemas em crioulo, EA, Praia – 2006; Os Avatares das Ilhas, Ficção, Spleen-edições, Praia – 2008; Cabo Verde e As Artes Plásticas, edição especial do Ministério da Cultura – 2009. Enquanto artista plástico, já expôs em Cabo Verde – Centro Cultural Francês, 1998; Palácio da Cultura, 2002 e 2006; Câmara Municipal da Praia, 2006; na Áustria: Afro-Asiatishen Instituts Graz, 2003; Viena: Institut fur Romanistik – Universitat Wien, 2001; Associação Amizade Áustria Brasil, 2004; Centro Cultural Francês, Palácio da Cultura e Convento de S. Francisco, com Xposições – Sonatas de Sol, 2009 e Xposições, no Cachito, 2010.

GA PASÁ

E SO D S A D

Daniel Euricles Rodrigues Spínola nasceu em Ribeira da Barca, concelho e freguesia de Santa Catarina da ilha de Santiago de Cabo verde. Cursou Língua e Literatura Portuguesa no Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário da cidade da Praia, Cabo Verde, e Licenciou-se em Língua e Cultura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi professor de língua e literatura portuguesa nos liceus da Praia, da Achada de Santo António, da Várzea e de Santa Catarina, tendo ainda leccionado na Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Havana e na Guiné-Bissau aos voluntários do Corpo da Paz. Foi assessor do Ministro da Cultura para as áreas da comunicação e da cultura, e é doutorando em Estudos Literários – Literatura Comparada, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Tendo feito alguns estágios e algumas formações na área da língua portuguesa e da pedagogia no ICALP, e no domínio do jornalismo para o desenvolvimento rural com técnicos da FAO, no Instituto Nacional de Investigação Agrária, e com técnicos portugueses e cubanos no Curso de Superação para Jornalistas no Instituto Amílcar Cabral, enveredou-se pelo mundo da investigação e divulgação cultural, realizando, dirigindo e apresentando vários programas radiofónicos e televisivos, nomeadamente: Contacto e Action, programa radiofónico para jovens – 1982/89; Gentes, Ideias & Cultura, programa radiofónico artístico-cultural – 1986, do Movimento Pró-cultura; Alô Cabo Verde, programa radiofónico e televisivo para emigrantes – 1991/92; Artes & Letras – 1992; Cultura Versus Cultura – 1994/95; Clari (e)vidências e Nos Identidadi – 1997/99; Finason di Konbersu, 2006; Arte & Cultura – 2007, programas televisivos de investigação, informação e divulgação cultural e artística, para além do programa televisivo sócio-cultural intitulado Testemunhos do Tempo. Já desempenhou o papel de consultor literário e dinamizador cultural, tendo sido membro da comissão de leitura do Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco e da revista Fragmentos e já integrou vários júris do Carnaval da Praia e de prémios culturais e literários, de entre os quais se destacam o Prémio Jorge Barbosa, da Associação dos Escritores Cabo-verdianos; o Grande Prémio Cidade Velha, o Concurso Bolsa de Criação Cultural e o Prémio Pantera, Descoberta de Talentos Jovens, do Ministério da Cultura; assim como o Concurso de Documentários da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa DOCTV e Cabo Verde Music Awards. Foi membro fundador do Movimento Pró-Cultura, da Associação de Escritores Caboverdianos (AEC), na qual teve (e tem) a função de membro do conselho coordenador e responsável pelo Departamento de Actividades Culturais e do Departamento de Edições. Foi Secretário Executivo da SOCA e é, actualmente, Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Cabo-verdiana de Autores – SOCA, da qual é membro fundador. Com colaboração dispersa em vários meios de informação e divulgação, nos domínios de prosa, poesia, ensaios, reportagens e entrevistas, já publicou nos jornais Voz di Povo, Tribuna, A semana, Novo Jornal e Jornal Horizonte. Foi editor da revista Emigrason, do Instituto de Apoio aos Emigrantes e do Caderno Cultural do jornal Horizonte, para além de ter pertencido à direcção das revistas Seiva e Fragmentos. É director da revista Pré-Textos, da Associação dos Escritores Caboverdianos e Editor da Revista SOCA Magazine. Foi distinguido: pelo Governo de Cabo Verde, em 2005, com o 1º grau da Medalha de Mérito, em reconhecimento pelo seu especial mérito demonstrado no domínio da cultura; e em 2007, pela Câmara Municipal da Praia, com uma medalha de mérito enquanto escritor. Em 2010 foi condecorado pelo Presidente da República com a 1ª classe da Medalha do Vulcão, em reconhecimento pela sua importante contribuição para a promoção e o desenvolvimento da Cultura Nacional.

L

I

Como água e como sol que somos, De nós mesmos nos alimentamos e procriamos Inventando cascatas de luz no escuro das trevas Concebendo luares de água em inóspitos desertos Construindo pontes, jangadas, céus e paisagens mil. Às vezes passamos, como um sonho, Ou como uma brisa pelas asas de um pássaro; Outras vezes somos um pesadelo, uma alucinação, Numa planície louca que é o outro lado de nós E, para se ser mais explícito, é preciso confessar Que, se por dentro trazemos esse rio, onde nos bebemos e saciamos, Na mesma proporção somos esse Sahel e esse sol insaciável Que nos consomem inteiramente e não nos deixam florescer.

Mas, assim como uma ameba, dela mesma se faz, Nós, também, nos completamos – de água e de luz E saímos a voar, girando como uma nebulosa, Ou nos quedamos silenciosos, Qual Oásis sedentário Povoados de conchas e de estrelas celestiais. E assim seguimos o nosso caminho Refrescando a vida, Aclamando o mundo; Melodia nos nosso passos Pomos, De cantos os nossos gestos Enchemos E o verbo encontra-se sempre presente, Na extensão da nossas mãos, pronto para o conforto e a consolação, Esconjurando a desolação e o pranto do rosto do dia

04 | 17 de Agosto de 2012


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Notícias Romance "Hebo" de João Miranda já nas bancas FONTE: Agência Angola Press

O

romance intitulado “Hebo”, que quer dizer gravidez prolongada, do escritor angolano João Miranda, foi apresentando a dias na União dos Escritores Angolanos (UEA). Com 198 páginas, a obra, que foi bem concorrida neste dia do seu lançamento, por parte dos amantes de literatura e não só, é um notável apontamento sociológico, consubstanciado no registo romanceado da história político-social mais recente de Angola. Apresentada pelo escritor Jomo Fortunato, a obra literária retrata, de igual modo, o tempo das ideologias e reencontro de famílias desavindas. O romance leva ao leitor a uma reflexão de pendor pedagógico sobre a real possibilidade de uma paz duradoura, evitando a repetição do conflito armado. A sucessão e o encadeamento da génese dos episódios constituem um pretexto para destapar o “véu” das origens das famílias e da degenerescência dos valores culturais endógenos, face à antinomia entre a preservação da tradição e a crescente absorção dos valores característicos da modernidade. Um dos grandes méritos do autor, de acordo com o apresentador da obra literária, terá sido a selecção de um conjunto de ocorrências reais , organizadas de forma sequencial , prevendo operações e opções tácticas precisas, com o intuito de atíngir objectivos previamente estabelecidos, reutilizando, por transfiguração, nomes e locais que resguardam, frescos, na sua memoria.

“A realidade ficcional, em Hebo, deve ser entendida, dessa forma, como pseudorealidade, através da construção de mundos possíveis, ou seja, mundos cuja existência é meramente textual, mas sempre com endereço conhecido, no mapa politico de Angola”, descreve Jomo Fortunato. Acrescentou que “Hebo” foi particularmente talhado para modernizar em registo ficcional os conflitos do passado, as tensões e o devir do homem angolano inscrito na história e na sociedade do futuro, sem guerra e em plena paz.. Com esta estratégia, com 500 exemplares, João Miranda leva a relembrar que a guerra foi travada, de facto, entre irmãos desavindos, retratanto assim a seguinte ocorrência: Pedro Kaumba Saviemba, filho de Tshilombo Afonso Pedro Kaumba, julgada morta na corrente do rio Zambeze, acabou por ser julgada pelo tio, Paulo Kaumba, Sabino Sithole encontrou Tchilombo Kaumba, no centro de refugiados de Viana … uma historia interessante. No fundo “Hebo” é um estudo da complexidade de alma e do absurdo da vida humana, no sentido existencialista, com os seus defeitos e virtudes das relações sociais, em reflexão filosófica, em reportagem e em testemunho polémico. Assistiram a apresentação da obra, políticos, deputados à Assembleia Nacional, governantes, corpo diplomático acreditado em Angola, a esposa do falecido representante especial do secretário geral da ONU em Angola, Alioune Blondin Beye, Beye Kadi, assim como famílias e amigos. João Miranda é autor da obra “Nambuangongo” (1998) e “Pathelo-a-Kuma”, O Menino de Inteligente, lançado quadro anos depois da primeira estreia.Membro fundador da União dos Jornalistas Angolanos (UJA), João Miranda é, de igual modo, membro da União dos Escritores Angolanos (UEA).

Livaningo: uma luz para novos autores A 10 de Maio de 2012, quando decidiram “sonhar alto”, ao idealizar uma editora, os jovens Elcídio Bila de 23 anos, José dos Remédios de 25 anos e Jossias Guambe de 45 anos de idade, ambos a frequentar o ensino superior na área das letras e ciências sociais, não sabiam em que mares pretendiam navegar. Mas agora ao lançarem os dois primeiros livros da sua editora, tem já em mente os desafios que irão enfrentar para implantar-se no panorama literário nacional através de uma editora que faz livros a partir do cartão. Eduardo Quive - Moçambique

U

m facto exclusivo na Literatura Moçambicana e da cultura de uma forma geral. Jovens que procuram medidas alternativas para fazer face ao alto custo do livro, poucas oportunidades, se não nenhuma, para a publicação de novos autores e a acessibilidade do livro aos que tem pouco dinheiro, mas precisam de ler. Elcídio Bila frequenta o terceiro ano de licenciatura em Ensino de Português, no mesmo ano estão José dos Remédios e Jossias Guambe a frequentar licenciatura em Literatura Moçambicana e Ensino de Inglês, respectivamente. Ambos apostaram na criação de uma editora de livros de cartão denominada Livaningo – Cartão d’Arte. O primeiro passo da editora deu-se no dia 27 de Julho com o lançamento dos dois primeiros livros por si produzidos, nomeadamente, Mutxukumetiwa da autoria de Rei do Gado e Estatuto e Focalização de Aurélio Cuna. Mas como garantiu-nos Elcídio Bila, esse foi o começo de uma nova história, há mais livros por lançar e mais jovens a divulgar. A ideia de formar a Livaningo, teve como base, a criação daquela que foi a primeira editora de livro a cartão no país, Kutsemba Cartão, graças a experiência adquirida de docentes universit’arios dos Estados Unidos da América que estiveram em Moçambique a orientar uma oficina sobre o corte, pintura e análise de textos literários, onde participavam estudantes da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (FLCS-UEM) em Maputo. A formação que foi dada pelo casal Luís Madureira e Celine Kheldon foi abraçado

por este grupo de jovens que a medida das suas capacidades foram editando livros a cartão dentro da faculdade o que hoje culmina com a sua junção independente. “Tínhamos a faculdade para nos encontrarmos, os meios disponibilizados para o trabalho, mas preferimos que por mais que ficássemos um pouco sacrificados criar a nossa própria editora.” Disse Elcídio Bila para depois explicar o porquê dos três terem se juntado para levar a cabo a iniciativa. “Na criação dessa editora, como éramos muitos estudantes, vimos que não era possível termos todos no projecto e só estamos nós os três. Não foi uma escolha aleatória, foi tudo propositado, um artista plástico, um revisor linguístico e outra pessoa que cuida do design e da paginação e que depois temos algumas funções que exercemos em simultâneo.” Livaningo ou Iluminação Traduzido literalmente para o português, Livaningo significa Iluminação. Trazer uma luz no caminho dos que tem os seus escritos engavetados, seja porque escrevem há muito tempo e não tem espaço para publicar ou mesmo pela

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Leituras simples timidez de expor o seu talento, é o que pretendem os jovens da Livaningo Livro d’Arte. “São as iluminações que queremos dar à literatura porque achamos que ela anda adormecida por vários factores: livros carros, pouca oportunidade para lançamento de novos autores, isto é, os que tem a facilidade de publicar são as mesmas pessoas, nós queremos vir quebrar a maneira monótona de fazer a literatura e dar espaço às pessoas, para além de juntar à arte a ideia de reciclar. Portanto, a Livaningo é também um projecto ecológico, estamos a juntar o pensamento a favor do meio ambiente com a pintura, artesanato, muita arte junta.” E é por isso que se chamam Livaningo, palavra originária da língua Changana do sul de Moçambique. Contudo, Elcídio Bila ainda acrescenta que “queremos mostrar a sociedade que como jovens, estudantes e artistas, pensamos de forma diferente.” A força de vontade, torna-os subcarregados, tendo que cumprir com os deveres da faculdade, pessoais e agora, assumindo um trabalho de editar livros. Perguntamos ao Elcídio, quem fala em representação dos restantes integrantes da editora, sobre o tempo que dedicam a esse empreendimento. “Normalmente nos encontramos no mínimo três vezes por semana das 16 às 18 horas na minha casa. É nesse tempo que trabalhamos o cartão, desde ao corte, pintura, a própria edição do livro, às vezes é necessário chamar o autor para discutir alguns aspectos ou mesmo para questões organizacionais. Em fim, todo o processo de manufactura é feito durante esses dias.” “Por exemplo, nós temos mais trabalho em procurar apresentadores dos livros do que autores para publicar. O apresentador nos é difícil porque não conhece a obra, o autor, nem a editora, então temos que falar com os apresentadores das obras depois de identificarmos.” Desafios que levam a Livaningo a ser mais dinâmica e de certa forma, persistente no seu trabalho. Aliás, Elcídio Bila, disse que ao sair da editora da faculdade para criarem a sua editora, estavam cientes das dificuldades que podiam enfrentar. No entanto, sugere que tais dificuldades serão ultrapassadas a medida em que vão publicando mais títulos, se tomar-se em consideração o sucesso obtido dos lançamentos do dia 27 de Julho. “Custou-nos muito editar os primeiros livros. Durante esse tempo para tirar as obras passamos por grandes sufocos financeiros. Mas estávamos cientes desse sufoco porque já participamos em oficinas relacionadas com esse trabalho e estávamos preparados. Já sabíamos quanto custa uma caixa de tintas, um agrafador, impressões e fotocópias, portanto, cientes disso, decidimos ir em frente.” E para custear as primeiras despesas “tiramos dinheiro dos nossos bolsos, não temos por enquanto algum patrocínio e nem se quer perdemos tempo com isso porque se calhar não vai acontecer, e íamos ficar desmotivados logo a primeira, fazendo com que o projecto parasse num simples sonho. Não queríamos depender de ninguém.” Dependendo dos seus bolsos, das obras “Mutxukumetiwa” e “Estatuto e Focalização” foram feitas os primeiros 60 exemplares, sendo 30 para cada título. No decorrer do lançamento, os livros esgotaram e do dinheiro conseguido, produziram mais 60 exemplares, metade para cada título. A avaliar pelo sucesso obtido no lançamento a Livaningo conclui “tivemos um pontapé de saída bastante positivo no que diz respeito aos custos, e pelo menos para as próximas edições já teremos dinheiro para comprar tintas, pincéis, para fazer as posteriores fotocópias. Isto será assim: quanto mais vendermos mais exemplares de livros faremos.” E se os tempos das boas vendas não se repetiram? “Se tivermos lançamentos pouco satisfatórios teremos mesmo que sofrer porque não fazemos isto por dinheiro, é porque gostamos e sentimos que temos que fazer este trabalho em prol da literatura e da arte no geral.” Explicou Bila.

espaço cedido pelo pai. Aliás, a família dos três jovens, participa como protagonista para tornar real o sonho de ter uma editora que leve livros à todos. Depois de deambularem pelas residências dos três, decidiram manter a sede dos seus trabalhos na casa de Elcídio Bila por questões de facilidade de localização e de acesso ao transporte por parte dos outros dois integrantes do projecto. Sendo assim “a editora tem apenas três pessoas que dão a cara, mas na verdade há muita gente envolvida no projecto: a minha mãe fornece-nos as caixas que usamos para fazemos as capas dos livros, o meu pai dá-nos algumas tintas, os meus irmãos ajudam-nos nos cortes e a pintar, a irmã do José dos Remédios dános algum material, a esposa do Jossias Guambe e a sua sobrinha também ajudam. Portanto é algo que quando as pessoas vêem sentem-se capazes de dar alguma ajuda. Ficam cativadas ao nos ver a pegar no pincel e fazer as capas. Isto prova que o projecto é de muita gente até dos que vêem aos lançamentos para comprar os livros.” ...e não param de sonhar Porque a editora é recente, os seus mentores percebem que devem ser mais céleres no seu trabalho, esse é a principal filosofia. Passam dias depois dos primeiros lançamentos e para este mês, há mais dois títulos projectos. Um nos foi revelado e outro, fica para se saber nas vésperas “Com o dinheiro que temos podemos custear os próximos lançamentos. Vamos lançar agora uma colectânea de crónicas de Niosta Cossa, será na Escola de Comunicação e Artes (ECA) com a apresentação do Cremildo Baúle e teremos outro provavelmente de poesia, mas isso ainda será anunciado.” A olhar pelo dinamismo dá para se fazer a ideia dos tempos que virão. O representante da Livaningo Cartão d’ Arte, já tece alguns planos para o futuro, mas sem grandes ambições. “Termos um lugar onde pudéssemos sentar sem que fosse a minha casa porque há uma certa intimidade a ser violentada. A parte íntima dos meus irmãos a ser invadida. Seria muito bom se tivéssemos um espaço que não dependesse de nenhum de nós.” “Agora salários não são nosso desejo. Por mais que chegássemos a uma fase em que fizéssemos 100.000 exemplares não vamos precisar de salário. Porque se os três tivermos salários implica pagar uma série de serviços e colaboradores da editora, terão que ser pagos. E se calhar isso nos pode remeter novamente, à ideia de vendermos o livro a preços elevados. Porque temos editoras que se calhar não fazem preços baixos por causa desses custos. Isso ia levantar questões económicas e voltaríamos a burocracias que pensamos que as outras editoras têm. É tudo artesanal.”

Uma editora artesanal Em conversa com Elcídio Bila, representante da Livaningo Cartão d’Arte, ficamos a saber mais do que o comum sobre o trabalho feito para a produção dos livros. Conhecemos os bastidores dessa iniciativa. No interior do bairro Laulane, arredores da cidade de Maputo, dentro de uma casa está a editora Livaningo. Trata-se da casa do representante que nos fala nesta entrevista, num pequeno

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O SÉCULO DE AGOSTINHO NETO

O pai do “Sacred Hope “ alteado em París O facto foi concretizado pela última remessa da tenaz revista “Latitudes. Cahiers Lusophones”, publicada na capital francesa, cuja substancia e, predominantemente, consagrado a obra do Poeta – Maior. Esta é constituída de uma quinzena de contribuições que permite reapreciar vários aspectos do pensamento cultural e da força poética do Kilamba. Este número dedicado ao nacionalista angolano beneficiou, naturalmente, do apoio da Fundação António Agostinho Neto e da Calouste Gulbenkian. O facto foi concretizado pela última remessa da tenaz revista “Latitudes. Cahiers Lusophones”, publicada na capital francesa, cuja substancia e, predominantemente, consagrado a obra do Poeta – Maior. Esta é constituída de uma quinzena de contribuições que permite reapreciar vários aspectos do pensamento cultural e da força poética do Kilamba. Este número dedicado ao nacionalista angolano beneficiou do apoio da Fundação António Agostinho Neto e da Calouste Gulbenkian. Johnny Kapela - Angola International Networking Bantulink

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a sequencia de um editorial assinado pelo clarividente Professor Manuel dos Santos Jorge, reencontra-se, ai, o inusitado discurso proferido pelo engajado Homem de Letras no ato da posse do cargo de Presidente da Assembleia Geral da União de Escritores Angolano, em 24 de Novembro de 1977. Lê-se com interesse o depoimento político de Silvino da Luz, Embaixador de Cabo Verde em Angola; a esperada análise de Luís Kandjimbo, actualmente, em posto no Secretariado Geral da CPLP, que realça a dinâmica histórica que fora do jovem colaborador do ousado jornal da Igreja Metodista, “O Estandarte”, um intelectual orgânico, quer dizer, estruturalmente, parte da nação em luta pela independência e do Estado alforriado. Avalia-se a erudita demonstração da potencialidade pedagógica das tiradas poéticas do autor de “Com occhi asciuti “, com Pires Laranjeira e Ana T. Rocha, Professores nas Faculdades de Letras da Universidade de Coimbra. Quanto ao José Luís Mendonça, este confirma, num relevante exame, a clara inclinação da mensagem poética de Neto, homem de esquerda, para a justiça social, que para, ele, e o principal garante do desenvolvimento duradoiro de África. Esta visão e apoiada pelo tributo de António Faria, que caracteriza a filosofia política do Presidente do movimento dos Plebeus, como do arrasamento e da reedificação; movimento que produzira, segundo Inocência Mata, herdeiros do nacionalismo literário angolano. Este originara, evidente e igualmente, segundo Joseneida Mendes Eloi de Souza e Maria

Poeta angolano, Agostinho Neto | FOTO: Jornal Cultura

de Fatima Maia Ribeiro, Professores na Universidade Federal de Bahia, assim como, Maria Nazareth Soares Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, reapropriadores no Brasil, da “Speranza sacra”. Houve, paralelamente, em Cabo Verde, onde Agostinho Neto foi consignado, no início dos anos 60, a residência fixa, herdeiros. Luiz Silva estuda o caso Nho Balta que canta, inevitavelmente, “Havemos de voltar”. O número 41/42 da revista parisiense conta com dois artigos do prolífico historiador angolano Simão Souindoula. Homem, engajado em leituras inovadoras, ele propõe uma análise “within”, de dimensão linguística e antropológica, da construção poética do nativo de Kaxicane. Com efeito, nascido no início dos anos 20, numa zona rural, onde a língua veicular e o kimbundu, Agostinho Neto falara e assumira, naturalmente, toda a carga antropológica, subsequente, do uso deste idioma bantu. O poeta nacionalista, incluíra, consequentemente, no seu edifício, numa dinâmica de particularização do português escrito em Angola, vários bantuismos evocando, personagens sociais, antropónimos, topónimos - genéricos ou de memória - a flora, a organologia musical ou crenças hidrogonicas, etc. Membro do Comité Cientifico Internacional do emblemático Projecto da UNESCO “A Rota do Escravo”, Souindoula faz, numa segunda contribuição, uma análise de uma principais linhas temáticas da prédica poética do generoso Medico, a brutal escravidão e a sua inaceitável continuação. O número de Latitudes, ora publicado, confirma o cunho do Musoneki Ionene na história politica e cultural, contemporânea, do pais, cujas estacas caracterizarão “O Século de Agostinho Neto”.

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Ideias

Africanidades

O passo certo no caminho errado

A falácia de rejeitar o racismo e ser cristão

A Saudação Victor Eustáquio– Portugal

Nelson Lineu - Maputo

Q

uando Alberto entrou no chapa, uma questão pairava na cabeça dos passageiros: “ de que lado ele estava?”. a questão era por causa da ligadura na testa, pontos na parte exterior do nariz e os lábios inchados; propriamente, se ele pertenceria a turma do assaltantes ou dos assaltados. Com todos os olhos sobre ele, como se advinha-se o que os outros estavam a pensar, tratou de esclarecer, lamentando-se, foi assaltado, eram vinte e três horas, numa rua sem iluminação, sem policiamento; logo que saudou os meliantes, ao dar por si viu-se sem telemóvel, carteira. O estado do rosto era correctivo dos assaltantes por causa dos seus gritos - embora inconscientes - e uma resistência por instinto. A partir desse momento, as pessoas foram dando opiniões acerca das razões que podiam estar por de trás daquele incidente, os que eram a favor apoiavam os argumentos ou acrescentavam, os contras não só refutavam davam as suas posições. Um funcionário público disse que era por causa da crescente desigualdade social. Uma senhora que era revendedeira num dos mercados da cidade disse que o problema era da hora do assalto, e que a desigualdade social era algo que acontecia em todo mundo e nem todos eram assaltantes. Um empregado doméstico concordou com a senhora, mas tinha um outro factor, a falta de iluminação. Contrapôs um segurança duma empresa privada, para ele esse não era o motivo suficiente - até porque certos assaltos também aconteciam de dia -, com isso o problema era dos policias que não andam nas ruas para proteger os cidadãos, algumas vezes eles mesmos participavam nos crimes directo ou indirectamente. Rebateu uma moça que contou, que numa noite, graças a ajuda dos policias escapou de uns homens que queriam violentar-lhe sexualmente, e como agradecimento pele serviço prestado não só a ela mas ao povo no geral teve que se deitar com eles, mesmo na estrada. Os que chegavam no seu destino desciam e outros subiam, o debate continuava, mas as opiniões não fugiam muito do que os outros disseram. Quase a chegarem na paragem, um homem que estava no último banco do lado esquerdo, que até então não tinha falado nada, era como se não ouvisse o que os outros diziam, por isso todos prestavam atenção quando ele falava, seguro de cada palavra que saía da sua boca, os gestos confirmavam, o olhar decepava qualquer duvida. – Todas as posições são plausíveis, a desigualdade social podia estar atrás desses assaltos, a escuridão, a falta de segurança na rua. Pela minha experiência, o que foi decisivo e originou o assalto, foi o facto de o Alberto ter cumprimentado os assaltantes, o que revelou medo por parte dele, tornando-o vulnerável. Essa posição teve aplausos, não se sabe pelo certo, se pelo conteúdo ou pela habilidade na fala. Mas a duvida mas relevante é que todos desceram com uma mesma questão: De que lado o homem estava? Se dos assaltantes ou assaltados.

A

razão da cor é a sua ausência, a sua própria negação, porque objectivamente não passa de uma ilusão óptica e procurar sentidos no ângulo de reflexão e refracção da luz mais não é do andar em círculos até à infinitude. Contudo, é a cor que tem ditado as pequenas e as grandes tragédias da história da cidade dos homens. A cor das ideias, a cor do território, a cor da pele e dos olhos, a cor da existência humana, tanto mais que não parece ser possível habitar um mundo monocromático apartado da diferença. Ainda assim, a grande ironia é que acabamos sempre por nos render aos ditames da cor. Um bom exemplo é rejeitar o racismo e ser cristão mesmo tempo. É que acreditar em Deus segundo os termos propostos pelo cristianismo é tãosomente uma forma de dar cor à religião, porque a adesão, consubstanciada na fé, implica subscrever um sistema de crenças que convida a defender o princípio de que a cosmologia cristã tem um papel de supremacia sobre todos os sistemas de crenças dos “outros” pela simples razão de que são obra do demónio. Dito de outra forma, aceitar uma proposição como uma verdade religiosa mais não é do que negar o que os outros consideram ser verdade, pelo que as “verdades dos outros” têm de se fundar necessariamente numa mentira. E mais: uma mentira que deve ser combatida, porque a missão de um bom cristão é levar a “luz” aos que dela estão afastados. O que quer dizer que, na prática, ser cristão implica rejeitar a diversidade como algo válido. Na melhor das hipóteses. É claro que as mentes mais moderadas podem sempre agitar a bandeira da coabitação entre credos. E ainda bem que assim é. De resto, tem sido esse o discurso formal do Papa Bento XVI. Mas não resolve o problema. E insistimos. A componente estruturante da fé é a crença, a convicção da conquista da “verdade”, o que obriga a localizar todas as “outras verdades” no campo da “mentira”. Esta dinâmica cultural assenta numa narrativa hegemónica e traduz-se pela assunção de uma política identitária. Afinal, em tudo semelhante aos mecanismos que conduzem ao racismo. Com efeito, a epistemologia eurocêntrica ocidental tendeu sempre a defender um padrão de pensamento que se obrigou a estudar o “outro” como objecto e não como sujeito capaz de produzir conhecimentos. Ou seja, reconhecendo apenas aos indivíduos ocidentais brancos a capacidade de produção de conhecimento científico, remetendo consequentemente toda a produção feita por indivíduos negros para a esfera do folclore e das cosmogonias mitológicas. Ora, isto mais não é, de novo, do que subscrever políticas identitárias que atribuem única e exclusivamente aos brancos do Ocidente a legitimidade para a produção do conhecimento científico. Numa palavra, preconizando o chamado racismo epistémico e negando a diversidade do mundo. É que, tal como a religião, também a epistemologia adquiriu cor. E neste pilar se alicerçou o monopólio universal da distinção entre o verdadeiro e o falso, pondo em evidência a relação etno-racional imperialista do Norte global num quadro de dominação do Sul global. Eis pois o drama da cor. Se ser cristão implica negar a diversidade, as narrativas imperialistas pontuadas por uma utilização persistente e acrítica de noções e conceitos baseados em pressupostos coloniais e racistas, também beneficiários do malfadado atributo da cor, conduziram precisamente aos mesmos efeitos. É evidente que se trata de uma problemática complexa, até porque há variáveis que merecem reflexões adicionais, como o fenómeno da miscigenação, mas uma coisa parece ser certa: a revisão crítica de conceitos hegemónicos definidos pela racionalidade moderna, aplicável igualmente aos afectos resultantes da supremacia da cosmologia cristã, a partir de uma perspectiva e condição de subalternidade, podem alavancar mudanças consideráveis. Numa palavra, é necessário aprender a descolonizar a cor para combater o estranho paradoxo da sua capacidade de colonialidade.

08 | 17 de Agosto de 2012


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Escrevilendo Frederico Ningi - Angola

P

orque, muito simplesmente, Camões, na Ilha de Moçambique, era um ser humano, que precisava de agasalho, de água e de comida para sobreviver, retocar, completar os seus Lusíadas, compilar o seu Parnaso. Além do amor, não lhe teria facilitado Bárbara tudo isso, abrigo e sustento, na Missanga, vila macua de Ilha, cheia de hortas, árvores de fruta e criação de animais domésticos, entre galinhas, patos mudos, marrecos e cabritos, ficando o Poeta cativo, pelo amor de Bárbara, dos laços de solidariedade da família matriarcal macua? Não contaria a família alargada de Bárbara entre os amigos não identificados, que ajudaram Camões na Ilha de Moçambique? Ele até o reconheceu: “E, pois nela vivo...” Na ilha de Moçambique estava sem amigos portugueses, até chegar Diogo do Couto, mas não lhe faltaram amigos moçambicanos. Por culpa de seu espírito independente, Camões tinha-se desligado de Pedro Barreto, que o trouxera de Goa para a vila portuguesa da Ilha. Diz Diogo do Couto que “houve uma questão entre Barreto e Luís de Camões devido ao temperamento impulsivo deste”. Com questão ou sem questão, a verdade é que Camões queria ficar na Ilha, onde faziam escala as naus da carreira da Índia, ao passo que Pedro Barreto seguia para Sofala, para tomar as funções de VisoRei do Estado da África Oriental de curta duração, que pouco sobreviveu ao estrangulamento, por portugueses mandados, de Dom Gonçalo da Silveira, em 16 de Março de 1561. Dom Gonçalo da Silveira estava a ensinar e catequizar em terras de Manica, com autorização do Monomotapa do grande Zimbabuè, o seu cadáver foi deitado aos crocodilos duma lagoa do rio Mossenguese. Era amigo de Camões da mesma geração, que o cantou nos Lusíadas e de quem escreveu o soneto “de um que trocou finita e humana vida por divina, infinita e clara fama” e “que sempre deu na vida claro indício de vir a merecer tão santa morte.” Alguns biógrafos conjecturaram que Camões teria comprado uma escrava africana na Índia. Esta hipótese não é verosímil, porque do Extremo Oriente tinha trazido, para Goa, um escravo jau, natural de Java, baptizado com o nome de António. Ele chama escrava e cativa à Bárbara e, na Ilha de Moçambique, isolado dos moradores da vila portuguesa e bem integrado, na vila macua da Missanga, não devia ter dinheiro para comprar uma escrava bela como era Bárbara, mais bela, a seus olhos, que as rosas em molhos, que as flores do campo e as estrelas do céu. Camões não nos deixou o nome da sua amada. Chamou-lhe Bárbara, dando a entender que não seria nem cristã ou rume, nem muçulmana, mas pertencia aos povos ditos bárbaros ou gentios, que naquela época, ainda não eram considerados civilizados, nem seguiam uma religião monoteísta. Além do cativeiro em que a mantinha, pelo seu amor, não teria Camões pago um dote (lobolo, ou alambamento) para se casar com ela? Para um português, em particular, indo-europeu, em geral, o dote pago pelo noivo não se pode chamar dote, porque o dote dos costumes indo-europeus é pago pelo pai da noiva. O dote dos costumes africanos e semíticos mais parece a compra duma escrava,

visto na óptica dos costumes indo-europeus. Camões era um homem maduro e respeitável e em nenhuma aldeia ou vila de África se permite a um homem ficar sozinho e solteiro, nem por pouco tempo. Terão aparecido e sido apresentadas várias pretendentes, mas só Bárbara, cuja pretidão dos cabelos e da figura subvertiam os padrões estéticos dos cabelos loiros e da alvura da pele de toda a literatura clássica e da Renascença e do próprio Camões, contou para ele e marcou a vida e a obra do grande poeta. Luís de Camões foi o primeiro poeta moçambicano de língua portuguesa e Bárbara Vaz de Camões a primeira cidadã de Moçambique, que só é Moçambique porque foi Portugal e maior não foi, porque Portugal já entrava em decadência, naquela altura. Poucos anos volvidos, Moçambique voltava a ser uma capitania do Estado da Índia. O amor de Bárbara e de Luís de Camões derrotou o racismo, mesmo antes que nascesse e criasse raízes, em outras Áfricas e Américas. Séculos antes de financiarem a recuperação de Portugal, obra do ministro das finanças, Professor António de Oliveira Salazar, com o suor do seu trabalho, nos profundos poços e galerias das minas de ouro do Rande, os povos de Moçambique já tinham financiado com a “leda mansidão” do seu amor e carinho, “que o siso acompanha”, os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, obra prima da língua portuguesa. (*) Estas notas foram inspiradas pelo doutor Duarte Marques, que foi professor de português dos liceus de Goa e de Lourenço Marques. Fim

Prêmio São Paulo de Literatura anuncia lista FOTO: Rascunho

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VEJA) O Prémio São Paulo de Literatura anunciou ontem os 20 escritores que terão a chance de concorrer, em Setembro, ao título de autor do melhor livro do ano e ao cheque de R$ 200 mil - o maior valor entre todos os prémios literários brasileiros. Dois romanc istas se rão premiados: um estreante e outro que já teve um romance publicado. Escritor Hélio Pólvora, autor de "Don Solidon" Em sua quinta edição, o concurso promovido pelo governo do Estado que revelou nomes como Altair Martins, Marcelo Ferroni, Edney Silvestre e Tatiana Salém Levy e premiou Cristóvão Tezza, Rubens Figueiredo, Raimundo Carrero e Ronaldo Correia de Brito, recebeu a inscrição de 209 livros escritos em português e editados no País em 2011. Entre os escritores experientes estão Adriana Lunardi, com "A Vendedora de Fósforos" (Rocco); Bartolomeu Campos de Queirós, falecido em janeiro deste ano, com "Vermelho Amargo" (Cosac Naify); Domingos Pellegrini, com "Herança de Maria" (Leya); Hélio Pólvora, autor de "Don Solidon" (Casarão do Verbo); Luiz Ruffato, por "Domingos Sem Deus" (Record); Luiz Vilela, por "Perdição" (Record);

Michel Laub, autor de "Diário da Queda" (Companhia das Letras); Paulo Scott, por "Habitante Irreal" (Alfaguara); Silvio Lancellotti, que concorre com "Em Nome do Pai dos Burros" (Global); e Tatiana Salém Levy, com "Dois Rios" (Record). Na lista dos estreantes, Ana Mariano, com "Atado de Ervas" (L&PM); Bernardo Kucinski, autor de "K" (Expressão Popular); Chico Lopes, com "O Estranho Escritora Adriana Lunardi | FOTO: Amálgama no Corredor" (Editora 34); Edmar Monteiro Filho, com "Fita Azul" (Babel); Eliane Brum, autora de "Uma Duas" (Leya); Julián Fuks, que concorre com "Procura do Romance" (Record); Luciana Hidalgo, com "O Passeador" (Rocco); Marcos Bagno, autor de "As Memórias de Eugênia" (Editora Positivo); Susana Fuentes, com "Luzia" (7 Letras); e Suzana Montoro, com "Os Hungareses" (Ofício da Palavra). Um júri com dez profissionais do meio literário seleccionou os finalistas. Outra comissão com cinco jurados escolherá os vencedores. A curadoria é de José Renato Nalini, Joaquim Maria Botelho, José Castilho Marques Neto, Marisa Lajolo e Márcia Elisa Grandi. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

09 | 17 de Agosto de 2012


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Ideias

Luís Kandjimbo

Variações e Tendências dos Discursos Críticos Africanos - O Campo da Crítica Literária Africana e suas Linhas de Força

A

crítica literária africana pode ser entendida como um sub-sistema dentro dos sistemas literários nacionais. O seu campo apresenta uma estrutura em que avultam problemáticas de natureza epistemológica. Abordar a crítica das literaturas africanas é levantar questões acerca do sujeito e do objecto do discurso, dos métodos, princípios operatórios e das condições da sua eficácia. Não pretendo introduzir a ideia de crítica a partir do nada. Pelo contrário, parto do pressuposto da precedência dos fundamentos da crítica relativamente ao surgimento das literaturas escritas. Segundo Locha Mateso, "a crítica literária na África tradicional é uma actividade de multiplas facetas(...) concentra os critérios de apreciação que correspondem à finalidade conferida à obra por um determinado grupo social" . Pius Ngandu Nkashama, Ecritures et Discours Littéraires,Paris, L'Harmattan, 1989, p.241. O seu objecto é constituído por um conjunto de textos resultantes de dois sistemas de comunicação: a comunicação oral e a comunicação escrita. Do primeiro temos a literatura oral e do segundo temos a literatura escrita. Alguns autores põem em causa os canones da literatura escrita, tal como têm sido apresentados. É o caso do professor nigeriano Emmanuel Obiechina que, no estudo dedicado à literatura panfletária de Onistsha, leva a concluir que essa categoria de textos não pode ser negligenciada, apesar de os seus destinatários serem aqueles segmentos sociais com baixo rendimento e gostos diferentes dos da classe média. Perante este quadro heterogéneo de textos, a posição e a atitude dos sujeitos dos discursos críticos têm-se revelado polémicas. É que o elenco de tais sujeitos também não tem sido homogéneo. Não são apenas africanos entre eles. Contamse também criticos não africanos. Contudo, a variedade de textos assim como os problemas que se colocam na sua recepção têm suscitado suspeitas quanto a relativa ineficácia da utensilagem teórica e crítica ocidental. Donde se compreendem as posições de certos críticos africanos a este propósito. Eldred Jones observa que "as literaturas africanas apresentam uma importância capital para os africanos e deve-se, naturalmente sobre esta matéria esperar dos críticos africanos opiniões substanciais" . Estas considerações impõem-se com algum vigor ao serem transpostas para o plano institucional do ensino. No dizer de P.Ngandu Nkashama" as literaturas africanas transformaram-se em verdadeiras paradas económicas, dando direito a vantagens e lucros em moeda sonante ". Aludindo o comportamento dos "colegas" das universidades ocidentais, acrescenta: "evidenciando sem escrupulos uma incompetência notória(...) os homólogos africanos não são considerados senão nas relações de beligerância, enquanto obstáculos a eliminar(...)com um pouco de condescendência eles reduzem-no ao triste papel de mendigo, pedinchão de esmolas facilmente manipulável" . Mais adiante poder-se-à ver uma manifestação dos debates entre criticos africanos e não- africanos e as modalidades dessa conflitualidade que não parece ser apenas uma "deslocada hostilidade", como diz Solomon Ogbede Iyasere.

No primeiro atelier destacam-se as definições de crítica e povo. A crítica é entendida como "uma actividade de reflexão cujo objecto é a criação artistica; uma ciência cujo objecto é explicar o produto cultural criado e sua difusão". Por povo entende-se "o conjunto de uma comunidade partilhando uma mesma cultura e tendo línguas comuns que realizam as funções de referências". Lançou-se alguma precisão sobre o conceito de crítica africana sendo entendida como o reflexo da visão do mundo própria do povo e em particular da sua estética. Relativamente às condições necessárias para a emergência e difusão da actividade crítica são indicadas duas que subentendem a necessidade de políticas culturais nacionais: condições políticas, no âmbito das quais se considera a liberdade de expressão e a democratização da informação; condições técnicas do discurso em que destacam os níveis da crítica, as modalidades e técnicas de crítica, as tendências da crítica tradicional e actual; e o aspecto ideológico de toda a crítica. Estas condições convalidam a necessidade de autonomização efectiva da crítica e a constituição do seu objecto. De resto, o exercício do discurso integra igualmente esse objecto. No segundo atelier debatia-se a indissociabilidade da crítica de outros domínios como a educação e a comunicação, havendo entre eles uma apertada conexão com a problemática linguística. Ficou consagrada uma recomendação às altas instâncias dos Estados Africanos, dentre elas a OUA. Recomendava-se a adopção de "uma política sistemática de formação de linguistas africanos(...)" bem como "a multiplicação e desenvolvimento de editoras africanas que se encarreguem de publicar obras inter-universitárias por serem indispensaveis para o renascimento cultural do continente. No terceiro atelier, as conclusões visavam completar algumas definições fornecidas no primeiro. A obra literária - no contexto das literaturas africanas - foi definida como "um discurso oral ou escrito organizado exprimindo uma visão do mundo numa perspectiva estética". Em sentido amplo, a crítica é analisada enquanto "reacção de um individuo ou de um público manifestada diante de uma obra literária, sendo por isso compatível com a ideia de um certo pluralismo. Atribuem-se determinadas funções ao crítico africano. A tarefa que lhe é conferida como primordial reside na formação de formadores nos vários níveis de ensino e no quadro de programas de animação cultural. E na qualidade de criador, considera-se que o crítico" deve contribuir, de modo permanente, para a promoção do espírito criador, entendendose que qualquer acto de promover a leitura visa uma multiplicação das actividades criadoras. Foi ainda proposta a criação de uma Associação de Críticos Africanos. O colóquio de Yaoundé constitui um dos importantes pontos de referência, na história das reflexões africanas. Do conjunto das comunicações apresentadas, prenderam a minha atenção, pela lucidez e vertente de focagem, nomeadamente os textos de M.aM.Ngal:"O artísta africano: tradição, crítica e liberdade criadora; de Pierre Ngijol "A crítica literária africana na literatura tradicional oral"; de Nguessan Kotchy e H.Memel-Foté": A crítica na África tradicional"; de Noureini Tidjani - Serpos "A crítica africana: os critérios de recepção"; e de Mohamadou Kane "Sobre a crítica da literatura africana moderna ". Retomarei a leitura de alguns destes textos posteriormente. Haverá alguma razão para sustentar que a diferença entre a crítica dos africanos e a crítica dos não africanos representa uma polarização irremediável? Num artigo publicado em 1969, na revista Présence Africaine, o nigeriano Joseph Okpaku demarcava o alcance e os limites da intervenção das duas críticas. Observa que "o primado da crítica das artes africanas deve ser conferido aos africanos fazendo uso de padrões africanos". Por outro lado, "o papel do critico ocidental é diferente",. "A única actividade válida deste último consiste em interpretar as literaturas africanas e outras artes para audiências ocidentais". Com efeito, as posições que fazem a apologia dessa primazia são bem mais antigas. Remontam aos anos dos congressos de escritores negros. Nessa época a investigadora belga Lylian Kesteloot, escreveu:" Estou convencida de que só os críticos africanos serão capazes de destilar toda a essência, sabor, significado e poesia, toda a " suculência" dos frutos" de sua herança ancestral para maior glória da literatura mundial". O debate foi tomando outras feições, tendo chegado a opor, mesmo entre críticos africanos, negadores e defensores do monopólio do discurso crítico legítimo. Encontramos algumas destas manifestações na revista African Literature Today, especialmente no seu número dedicado à crítica (Focus on Criticism). No editorial desse exemplar Eldred Jones, que é editor da revista, advoga já a tese do primado da crítica endógena. No mesmo encalço alinha Thomas Melone, quando em 1970, escrevia: "A situação hoje nos impõe uma revisão total do processo. Trata-se de restituir ao povo o privilégio de que foi detentor durante os tempos imemoriais(...) O problema essencial consiste em não perder de vista o que na tradição constituia a base da crítica artistica e literária tal como o povo a exercitava .

Locha Mateso, La Littérature Africaine et sa Critique, Paris, ACCT/Karthala, 1986,p.55. Eldred Jones, African Literature Today (Editorial), nº7,1982 Por outro lado, os próprios críticos não-africanos revelam-se insatisfeitos com os instrumentos que utilizam. Edgar Wright refere que o crítico ocidental que se dedica ao estudo das modernas literaturas africanas enfrenta duas grandes obstruções:"a primeira reside em saber se qualquer teoria geral pode funcionar, quando aplicada a uma cultura que é completamente diferente nas suas origens daquela que constitui o suporte material da teoria(...); a segunda relaciona-se com o público leitor e a intencionalidade do autor" . Em 1973, a Sociedade Africana de Cultura promoveu a realização do colóquio de Yaoundé sob o tema: O crítico africano e o seu povo como produtor de civilização. A presidir a sua realização estava o seguinte argumento: "Cada sociedade tem as suas normas de apreciação. Estas são parte integrante da sua ética da vida. As correntes externas, por mais generosas que sejam, não saberia substituir o esforço pessoal de pesquisa e de confrontação que apenas permite esclarecer os juízos através do contexto especifico de uma civilização"(...) "Quem poderá melhor que os criadores africanos apreciar a necessidade de sentir a condição do seu povo, ou indicar aos escritores a via a seguir, os obstáculos a evitar? Trata-se de integrar o criador africano na vida da sua civilização e de libertá-lo da dominação excessiva do Ocidente". Estes são os postulados básicos do colóquio que durante quatro dias reuniu cerca de 50 especialistas das literaturas africanas, entre os quais alguns europeus e americanos. Os debates subdividiam-se em três eixos, nomeadamente: Teoria - o povo e a actividade crítica; Doutrina a crítica em África; Pedagogia- Crítica e Joseph Okpaku, "Tradition, Culture and Criticism", Présence Aricaine, 70, 2º comunicação. trimestre, 1969,pp.137-146 Solomon Ogbede Iyasere, no texto inserido na revista mencionada, sustenta que Pius Ngandu Nkashama, Ob.Cit. Edgar Wright, "Critical Procedures and the Evaluation of African Literature", in The "não é por sermos africanos que as nossas explicações serão melhores que as do crítico não-africano". Ele reage ao requisitorio produzido por Ernest Emenyonu Critical Evaluation of African Literature, ed. Edgar Wright (London, contra o crítico americano Bernth Lindfors. Este ataque suscitou outros Heinemann,1978)p.8 Apesar da leitura das comunicações que, reputei de importância imediata cujos comentários da parte de Solomon O.Iyasere. Condena Emenyonu por agir "como resultados merecerão desenvolvimentos ulteriores, limito-me, em primeiro lugar, a se fosse um cego perante uma qualidade relevante como é a distinção das situações e factos, ele fecha os olhos à distinção entre a arte e a realidade, fornecer referências das conclusões a que chegaram os participantes. representação artistica e reprodução fotografica" . Continua na próxima edição

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Entrevista

“Achei que já estivesse louco”

M

uito já ouvimos dizer que um pouco de loucura faz bem para um provável escritor. Mas agora, ao entrevistarmos Andes Chivangue, que apesar de se destacar naquela que se pode chamar Literatura Moçambicana (que ele considera moribunda), tem a humildade de afirmar sem receio “não sou escritor”. E por quê um autor de duas valiosas obras que marcam, de acordo com Ricardo Riso, a ruptura dos tempos literários moçambicanos que se dividem com os tempos sociopolíticos, a não chamar-se escritor? Estamos a nos referir a um dos poucos escritores, apesar das suas dúvidas, que vítima de muita leitura, pauta na sua escrita pela lírica, inquietação e transpiração, o que acaba o levando ao “doloroso” exercício de reescrita. Um escritor que está em constante diálogo com o ego e sempre irritado com o produto final da sua criação. Porquê tantas palavras se o autor fala por si e, inclusive, as suas obras “Alma Trancada nos Dentes” e “A Febre dos Deuses”, apesar de raríssimas no mercado explicam melhor que caminhos trilha este que é jovem quanto pessoa e adulta quanto escriba .. Eduardo Quive - Moçambique

L: Andes, falemos do leitor, poeta, contista, e de si próprio como pessoa, o cidadão, em fim, essas pessoas existem? AC: Existem sim, mas com quem queres falar primeiro? L: Podemos começar pelo Andes leitor, como é que te entra o monstro da leitura? AC: Comecei a ler com 16 anos, influenciado por amigos. Comecei pela leitura pouco instrutiva tal como a banda desenhada e o policial, mas posteriormente evoluí para coisas mais interessantes. Em 1996 conheci o Danúbio Afonso, hoje antropólogo, que me introduziu aos livros mais instrutivos. É nessa altura que entro em contacto com a poesia de Al Berto e os textos de Giovanni Papini e Loyola. Com o tempo conheci outras pessoas, amigos que me deram a conhecer autores. Dentre vários posso referenciar o escritor Rogério Manjate. Diria que o Andes leitor teve imensa sorte, pois teve sempre alguém que lhe mostrasse o caminho. É neste percurso que acabei lendo coisas que mudaram completamente a minha vida, a minha maneira de olhar para a literatura e para o mundo no geral. Infelizmente, nos últimos tempos leio mais material de trabalho, coisas que tem a ver com a minha profissão. Como decente universitário, para além da pesquisa inerente à própria actividade, é preciso estar atento ao que se vai publicando e tudo isso exige imensa leitura, não sobrando assim tempo para a leitura de laser, a literatura. Esta situação acaba tendo influência ao nível da escrita criativa, dado a minha escrita resultar da leitura. Portanto, sobre o Andes leitor eu posso dizer que nos últimos tempos ando mais preocupado com problemas ligados a governação, desenvolvimento económico e construção de cidadania em África, no geral, em Moçambique, em Particular. Como cidadão o Andes anda preocupado com a constante defraudação do património dos moçambicanos. É absurdo que perante um roubo como o que ocorreu no INSS as pessoas permaneçam impávidas e desinteressadas. Acho que são poucos os que têm a consciência de aquele dinheiro resultar das suas contribuições como trabalhadores. Perante uma situação daquelas devíamos cobrar responsabilidades, exigir que rolem cabeças, etc. Mas como se vê, para além da

imprensa e alguns comentadores políticos, muito poucos discutem seriamente o assunto. Isto é grave e constitui um sintoma de uma doença muito mais séria. Ou seja, começa-se a aceitar o roubo, a desonestidade e a falta de carácter como valores. Numa sociedade nem todos têm de ser ricos (ou endinheirados). Aliás, se pararmos para pensar, chegaremos à conclusão de que o dinheiro é uma ficção e que muitas das necessidades que temos não são verdadeiras necessidades. Há outras coisas que podem e devem ser valorizadas tais como o conhecimento, a honestidade, o profissionalismo, etc. Só com a interiorização de valores como estes últimos é que poderemos construir o verdadeiro cidadão moçambicano, orgulhoso da sua pertença e história. Portanto, o Andes escritor, cidadão e docente cruzam-se nesta grande preocupação. L: Que ambiente ou ambientes propiciaram a sua aproximação à literatura? AC: Eu nasci numa casa cheia de livros. Esta foi outra grande sorte que determinou parte do meu percurso como indivíduo e amante de literatura. O meu pai é professor de profissão e a minha mãe trabalhava no Instituto Nacional do Livro e do Disco. Como pode imaginar, a estava cheia de livros e de discos (de vinil). Foi neste ambiente que cresci. Devo acrescentar que, contrariamente ao que acontece com outras pessoas que escrevem, os meus pais não leram para mim estórias de criança à hora de dormir. Como disse anteriormente, o gosto pela leitura chega-me aos 14 ou 15 anos através de amigos. Ter livros em casa permitiu-me usa-los para conseguir outros mais. L: Disse que não fazia uma leitura instrutiva, isso significa que lia o quê? AC: Como já referi, lia policiais e banda desenhada mas depois fui evoluindo e essa evolução aconteceu rapidamente e passei a devorar autores como Ngugi Wa Thiongo, Sembene Osmane, Wole Sonyika, e Emile Zola, W. Somerset Maugham, Dostoievsky, Eríco Veríssimo e tantos outros. L: Foram leituras de qualidade… hoje parece-me haver dificuldade por parte da juventude em encontrar esses livros…

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Entrevista conto e a poesia. Mas com o tempo passei a escrever mais contos do que poesia. AC: A dificuldade em conseguir bons livros hoje prende-se com diversos factores. Antes tínhamos o Instituto Nacional do Livro e do Disco e os livros eram acessíceis, embora houvesse uma tendência para encher o mercado de literatura russa e chinesa, incluindo montanhas de manuais sobre marxismo-leninismo. Mas havia coisas para ler. Existia, por exemplo, a colecção Vozes de África, editada pelo INLD, com autores como Chinua Achebe, Birago Diop, Mongo Beti, Alex La Guma, Cyprian Ekwensi, etc. Para além de alguns autores que mencionei anteriormente. Eu tive a felicidade de encontrar esse material na estante do meu pai. Hoje uma parte considerável do meu salário vai para livros. E o livro está caro. Há a considerar também o facto de termos pouquíssimas bibliotecas em condições, o que não nos permite desenvolver a cultura de frequentar e estar numa biblioteca. Os nossos decisores políticos não estão preocupados com a cultura. Como diz Lobo Antunes, uma população inculta e mal formada constitui uma vantagem para as elites governantes, pois têm de fazer muito pouco para garantir a sua manutenção no poder. Em Moçambique é o mesmo. Há universidades que despejam toneladas de graduados por ano mas depois colocase o problema de saber-se se estas pessoas estão pelo menos preparadas para exercer a sua cidadania como moçambicanos. Ou seja, as pessoas deixam-se distrair com certificados e o grau, passando o essencial ao lado. Portanto, é preciso que haja um comprometimento sério com a cultura. E o acesso ao livro constitui um dos passos. Isentar o livro de taxas no processo de importação não basta. O Estado tem de dar um sinal no mercado livreiro, transformando-o numa possibilidade de negócio com benefício para o cidadão através da aquisição de livros a preços baixos. L: Disse que o te fez escritor é a leitura… foi no primeiro contacto com o livro que começou a escrever ou foi depois de muita leitura? AC: Primeiro li e depois escrevi. Para mim a escrita funciona bem quando se lê primeiro. É preciso saber o que o existe para ousarmos contribuir com alguma

L: “Alma Trancada nos Dentes”, seu primeiro livro. Pode o coração caber na boca? AC: O que acontece é que hoje eu acho esse título um pouco falhado. Este livro é muito denso sob ponto de vista de imagens, tendo propositadamente procurado trabalhar a metáfora até à náusea, à exaustão. E é por isso que ele é um pouco pesado até um certo momento. Mas eu quis trazer esta tensão, digamos, esta confluência de vozes, sabores e memória. E o título Alma Trancada nos Dentes, nessa altura, pareceu-me bom, porque parecia aglutinar essa simbiose. Mas com o tempo percebi que outras opções talvez fossem melhores, podia ter testado mais ainda a sensação de limite. Enfim, diria que caí na minha própria armadilha. Para se compreender melhor o que pretendo dizer, talvez fazer referência aos autores que me influenciaram da fase em que escrevia a “Alma”. Foram basicamente quatro. O primeiro autor foi Manuel Gusmão, com o livro Migrações do Fogo. O livro preocupase em, como o próprio autor diz, explorar a palavra até ao limite, como uma corda de violino esticada. Recorre a alguma técnica cinematográfica, o que dá ao livro uma densidade imagética espectacular. O segundo autor é Ferreira Gullar, para mim o maior poeta vivo em língua portuguesa. A poesia do Gullar é qualquer coisa do outro mundo. Tentar imitá-lo só pode resultar naquilo que ele chama de fluir à toa. Mas constituiu uma boa base para encontrar o meu próprio caminho, a minha voz interior. O terceiro poeta é Herberto Hélder, que nem sequer se pode tentar imitar. Trata-se duma poesia para ir sendo digerida ao longo da vida. O quarto é o poeta espanhol Leopoldo Maria Panero e as suas elucubrações em torno da morte e da loucura. L: Ao ler-se a sua obra e como aqui já o disse, pode notar-se a preocupação em fazer uma poesia diferente, preocupando-se muito com as técnicas e estética. Tinha já em mente contrariar o cenário literário que se vivia na altura? AC: Eu só posso explicar isso tendo como referências o Xitende. O Xitende surge num contexto em que tanto eu, como Dó Midó das Dores, e outros membros do movimento tínhamos acesso à coisas que eram escritas lá fora. Feliz ou infelizmente isto tornou-nos muito críticos em relação àquilo que se escrevia cá dentro, a forma como os escritores viviam e produziam literatura. Portanto, quisemos escrever alguma coisa que se demarcasse da abordagem desenvolvida naquela altura. É por isso que sempre que escrevemos nos preocupamos com essas mudanças. Se repararem a obra do Midó, A Bíblia dos Pretos, há uma particularidade, aliás, há várias, mas tem uma dimensão muito grande para além da carga poética e da forma como ele aborda o assunto; tem uma carga filosófica muito forte e que não se encontra muito na nossa literatura. A nossa ideia era tentar contribuir com alguma coisa e trabalhamos até ao limite. E acho que foi essa preocupação em escrever qualquer coisa diferente que nos permitiu chegar a algo relativamente diferente sob ponto de vista de criação literária. Já nessa altura as nossas referências tinham deixado há muito de ser autores moçambicanos, o que trouxe esse perfume de alguma coisa diferente na escrita. Essa preocupação sempre existiu, mas como deve saber há muito que se inventou a pólvora. Contudo, é muito boa aquela fase em que se acredita que se pode fazer algo novo, pois dá-se tudo e trabalha-se com garra. L: E portanto, assim foi até ao conto, ao escrever A Febre dos Deuses, que maneira de contar é aquela? Acho que é uma das melhores obras que já li e com o justo prefácio de Ungalani Ba Ka Khosa que te acha um contista quase que formal. AC: O conto é um género muito difícil, é o que te posso dizer. É muito complicado. Se lhe disser que ainda hoje ando a procura de ensaios e de contistas que aprimorem a minha escrita não vais acreditar. “A Febre” é o resultado da minha convivência com a frase curta de Ernest Hemingway e de Ignácio de Loyola Brandão. O livro Dentes ao Sol de Loyola Brandão é uma obra notável. O autor transforma o sórdido e corriqueiro em intriga e diegese. A Febre dos Deuses é um pouco isso e mais. Através da frase enxuta e relativamente fluida procuro dialogar com os moçambicanos sobre alguns problemas prementes desta sociedade. Os textos “O Sacrifício”, “João Namburete” e outros que constam do livro não são mais do que um retrato da atrocidade e desumanidade que aos poucos se vão tornando um lugar-comum no país. O livro chama atenção para a degradação de toda uma sociedade e fá-lo da forma mais directa possível. Há pessoas que se sentem chocadas com as opções linguísticas usadas nalguns dos textos mas o que está ali escrito não são mais do que as mesmas palavras que recebemos nos nossos celulares ou mails todos dias. O que ali aconteceu foi a transposição do discurso urbano. E acho estranho que algumas pessoas não o reconheçam, quando estes mesmos indivíduos entre amigos usam exactamente aquele vocabulário.

coisa. Os círculos de leitores e os núcleos literários ajudam imenso na partilha de informação e troca de experiência. E os anos 1996 foram frutíferos nesse aspecto. Tivemos o Xitende em Xai-Xai e a Oásis em Maputo. Havia outros movimentos noutros cantos do país. Trocávamos livros, pontos de vista etc. a minha escrita é o resultado desta confluência vivências. O encontro que motivou a criação da Revista Literária Xitende (organizado pelo Celso Manguana e Guilherme Mussane, em Xai-xai) foi decisivo na medida em que eu e os outros confrades da cidade ganhamos consciência da nobreza do exercício da escrita, o que motivou maior partilha de livros e opiniões. Portanto, primeiro a leitura e depois a escrita. E comecei por escrever sonetos, vilancetos e outros textos ligados a algumas coisas que ia tendo no ensino secundário, durante as aulas. L: Portanto, inicia-se na poesia? AC: A minha maior ambição, se calhar sonho nessa altura, era ser poeta. Não imaginava se quer que podia um dia escrever prosa. Mas a vida prega-nos muitas partidas. L: E como explica essa mudança ou partilha da mesma pessoa para vários géneros literários? AC: É uma coisa muito complexa e que só se pode explicar pelas coisas que lia. Houve uma fase durante o meu percurso em que trabalhei intensamente a escrita criativa. Exercitei entusiasticamente três géneros, nomeadamente a crónica, o

L: Os contos que constam desse livro têm traços do quotidiano que vivemos, terá tido a intenção de fazer relato de coisas que viveu? AC: Não. De forma alguma. A escrita não se pode basear nas coisas vividas, então não seria literatura e não faria sentido. Qualquer escrita ou conto que se preze tem de apresentar um conflito, isso é o mínimo que se pede. Se fosse escrever uma estória, por exemplo, sobre meu trabalho como docente, sem nenhum conflito ou diegese construída, não seria um conto. Aquele livro tem uma particularidade interessante, é o resultado das coisas que ouvi, li, eventualmente de algum potencial Andes no futuro. O que fiz naqueles textos foi pegar nessas coisas e dei-lhes a volta. Trabalhei o material, dei-lhe ossatura e alguma geometria. É basicamente isso. Entretanto, porque toda a ficção assenta numa certa realidade, facilmente as pessoas visualizam as estórias com factos de alguma forma conhecidos. Ouvimos quase todos os dias notícias de mulheres cujos maridos, devido ao alcoolismo ou alguma insanidade qualquer, golpeiam as suas mulheres com catanas ou outros objectos contundentes. Para saber de alguma estória triste de prostituição já nem é preciso ir à Rua Araújo ou à 24 de Junho, as residências universitárias femininas dão-nos um quadro muito mais triste e deprimente. Mas voltando à tua questão, essa aproximação dos textos ao quotidiano foi algo feito conscientemente. E mesmo quando decidi reeditar o livro procurei preservar isso. A maior parte dos textos foram reescritos, tirei-lhes os adereços, os cosméticos, sempre à procura dessa perfeição inalcançável…. L: De facto um livro é o culminar de muita escrita e reescrita… AC: Acho que nenhum autor fica contente com o seu livro mesmo depois de terminado. O que acontece é que depois nos cansamos dele e perdemos também alguma capacidade de identificar erros e algumas falhas. Cansámo-nos e decidimos entregar. Mas todo autor tem sempre a necessidade de reescrever, refazer, de dizer de outra

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Entrevista forma, porque as pessoas a cada dia que passa evoluem, vê outras coisas, essa é que é a questão. Muitos daqueles textos excepto “O Sacrifício”que para mim é o melhor texto daquele livro. Aliás, é um texto que me caiu do céu. É um dos poucos textos em que não tinha nenhum referente, que só me sentei e comecei a escrever, o texto ficou fechado logo a primeira. Foi o único texto que não reescrito, desconstruído. Tudo o resto é resultado das coisas que ouvia, das conversas enfim. L: Nas suas abordagens vê-se com frequência assuntos como loucura, conflitos familiares, marginalidade, machismo e o sexo. Aliás, acho que descreve muito bem os actos sexuais… AC: No livro “A Febre dos Deuses” pode haver tudo menos a descrição de um acto sexual. Aliás, acho que não saberia dizer-lhe ao certo o que é exactamente descrever bem um acto sexual. L: Mas a loucura e o sexo o que lhe dizem como pessoa? AC: Os textos que abordam o sexo, só para reiterar, acho que não descrevem o acto sexual em si, porque descrever o acto sexual implicaria descrever os preliminares, o próprio acto e provavelmente o fim dele e o estado psicológico das pessoas depois de terminar. Mas as partes do livro ou do texto que fazem referência ao sexo, procuram introduzir um momento crítico nas acções dos personagens ao longo de todo o texto. E tudo tem a ver com opções que cada autor escolhe. Podia, simplesmente, deixar o leitor intuir. Mas aqui devo culpar o adolescente Andes por ter optado por aquele caminho em detrimento de outros muito mais interessantes sob o ponto de vista de enriquecimento do diálogo leitorescritor. Sim, o adolescente Andes porque aquelas estórias foram escritas entre os meus 20 e 23 anos. L: Mesmo porque estamos a falar de sexo e loucura que são questões que muitas vezes são atribuídas aos escritores por exemplo, pode falar do seu vício? AC: O meu primeiro vício é a música. Desde os meus nove anos de idade que oiço música. Até cheguei a tentar ser música. Fundei uma banda e tenho algumas coisas gravadas. Tive o privilégio de trabalhar com o falecido Tony Django dos K10. Mas por diversas razões acabei por desistir. Portanto, o que lhe posso dizer é que sou um músico falhado. Outro grande vício que tenho são livros. Tenho uma compulsão muito grande pelos livros. Não poço entrar numa livraria com dinheiro e sair sem um livro. L: Nunca teve medo de ficar louco? AC: Isso é verdade. Não só tive medo como achei que já estivesse louco. L: Quando e como é que foi isso? AC: Toda a gente tem neuroses e eu tive várias. Uma delas, por exemplo, tinha a ver com a minha relação com espaço. Eu passava muito tempo dentro do quarto e havia aqui um problema porque sempre que saísse não podia deitar-me (leio deitado ainda hoje) sem que antes espreitasse por todos os compartimentos a certificar-me se a coisa (que até hoje não sei bem o que é) que me atormentava não estava lá. Eu já era crescido, tinha mais de 20 anos. O que ilustra o meu estado de espírito nessa altura é o facto de ter feita amizade com uma árvore, cheguei inclusive a dar-lhe nome, chamava-se Joshua. O Midó das Dores escreveu um poema muito simpática sobre a minha relação com a árvore. L: Hoje descobri que já esteve na rádio Cidade e durante 12 anos esteve a editar a revista literária Xitende, qual é sua relação com o jornalismo? AC: A minha relação com o jornalismo é de biscateiro. Eu não me posso considerar um jornalista, não sou e nem posso ter essa pretensão. Se fiz jornalismo é porque queria sobreviver e… L: Mas sabe-se que a vida do jornalista é quase miserável porque pouco ou nada se ganha nessa profissão, terá sido por isso que pautou por outras coisas? AC: Eu nunca quis ser jornalista. Surgiu-me a oportunidade de trabalhar num jornal como responsável de uma página de actualidade internacional e aproveitei a oportunidade, procurando inovar a forma como se apresentavam as notícias internacionais. O que os outros jornais fazem é colocar na página do internacional, notícias de agências noticiosas estrangeiras. Eu ia as notícias dessas agências e confrontava com a opinião de analistas nacionais. Por outro lado, ser jornalista num país como o nosso, a pessoa sujeita-se a muita humilhação e alguma estagnação, incluindo a morte quando se pretende realmente fazer coisas sérias. Ainda não estamos totalmente livres. A partir daí podes inferir o resto. Em parte foi também por isso que optei por outras actividades. L: Fale-nos do vosso Núcleo Literário Xitende, em particular da idealização da revista do mesmo nome. AC: Foi uma coisa difícil. Fui editor do Xitende durante 12 anos, o que foi simplesmente um acto de coragem se se considerar a escassez ou mesmo inexistência de recursos. O Xitende não tinha nenhum financiamento ou patrocinador, nada, nós fazíamos aquilo sem apoios. É verdade que fomos sortudos nalgum momento. Houve gente de boa-fé em XaiXai que nos ajudou com papel, fotocópias e impressões, sem que tivéssemos de pagar, o que ajudou imenso. A revista existiu durante muito tempo e as pessoas foram-se cansando, foram deixando de apoiar e tivemos de financiar a revista com os nossos próprios recursos. Mas de qualquer forma foi a experiência que talhou o escritor ou o possível escritor que seria o Andes Chivangue. L: …o possível escritor! AC: É preciso que tenhamos clareza das coisas. Há muitas pessoas inclusive algumas são da minha geração, que olham para o espaço literário como espaço de afirmação. Usam a literatura para ganhar status político e social. Para mim a literatura é uma coisa sagrada, é uma coisa muito especial e não tenho problemas

em dizer que não sou um escritor. Eu gosto de literatura, escrevo, publico quando tenho o que publicar, mas prefiro não assumir-me como escritor e não tenho problemas com isso porque existem pessoas que realmente trabalham, cuja actividade consiste mesmo em escrever. Então qual é a diferença que estabeleceríamos entre eu digamos que esporadicamente escrevo e publico e aqueles que todos dias acordam escrevem, têm prazos, metas, se somos todos escritores? Você poderá dizer que são os dois escritores mas que cada um tem seu ritmo, é possível…é algo para discutir. L: Você viveu um tempo em que havia revistas literárias e que a imprensa de certa forma dava espaço para a publicação de textos literários, mas hoje o cenário mudou. O que tem a dizer sobre isso? AC: Eu e o Midó quando aparecemos com o debate da morte da literatura moçambicana, o objectivo era alertar para o marasmo que se vive no campo da literatura. Usamos um discurso polémico para chamar atenção a coisas que já estavam a acontecer nessa altura. Existe uma grande promiscuidade, pelo menos aqui em Moçambique, entre a literatura e a política e os respectivos políticos. Alguns escritores usam a literatura para se projectar politicamente, esse é o problema. E não é só isto, se olhares para o mundo dos concursos tenho a incrível sensação de que é um mundo que está muito sujo. Na maior parte dos concursos nacionais, os vencedores são o resultado de vários esquemas de concertação do que do trabalho que apresentaram ao concurso. Depois há um problema, dos vários, é que existe um medo muito grande de dizer-se aquilo que se pensa. As pessoas não fazem crítica aberta, privilegiando os corredores e bastidores emitirem as suas opiniões. Tudo isto cria uma situação de letargia, uma situação em que não evoluímos, são sempre as mesmas pessoas a publicar, são sempre as mesmas sensações, quando é para discutir discute-se as mesmas coisas. É como se o tempo não passasse e as pessoas mais atentas acabam por afastar-se desses meandros. Provavelmente a falta de revistas literárias não seja só de hoje. Quando olho para a época em que me estreei, havia o Xiphefu, o Xitende, Oásis, Horizonte e talvez mais duas ou três. Não muito mais. Mas sim, estávamos melhor comparativamente à sua geração. Os jornais reservavam algum espaço para a poesia ou conto. E isto tem impacto ao nível dos iniciantes na criação literário. Não têm um espaço para comunicar e a primeira opção ou ambição acaba sendo a publicação de um livro, o que na minha óptica não está certo. Se o nosso Ministério da Cultura não fosse um antro de incompetência e mau gosto talvez tivéssemos melhor cenário L: Durante o seu discurso vem citando muito o Dó Midó das Dores, aliás, aquele que juntos têm dado opiniões consideradas contundentes sobre a Literatura Moçambicana… AC: Eu e Midó somos camaradas de batalha há muitos anos. E sempre usamos a literatura como um instrumento de luta. A literatura serve para mudar coisas, mais do que esta função lúdica. Não se pode ter uma literatura útil se ela estiver desligada dos problemas prementes dessa sociedade. A escrita criativa ajuda a reflectir e, sobretudo, alertar as pessoas para os diversos perigos sociais. É por isso que insisto em dizer que a literatura deve estar em cima dos acontecimentos. Os jovens não podem querer escrever como Craveirinha, Rui Nogar ou Knopfli porque estes fizeram-se escritores num contexto específico. São bons, mas são bons no seu tempo. E porque os contextos mudam, é preciso adequar os nossos óculos de leitura a essas mudanças. Ou seja, em vez de termos jovens a reproduzir o verso “eu sou carvão e tu arrancas-me brutalmente do chão” devíamos tê-los a dizer coisas como “meu estômago voa preso no bico duma gaivota”. Os problemas de hoje são os nossos desafios hoje. Não estou aqui a desvalorizar Craveirinha ou Knopfli, atenção, são bons e foram bons no tempo em que viveram, no tempo em que escreveram, têm um lugar reservado, mas sinto que nós precisamos de coisas que reflictam os assuntos actuais. Poder-se-á dizer que é preciso tempo para decantar os assuntos, mas nós não nos podemos dar o luxo de ficar a esperar pelo tempo. L: Em tempos terá dito que a literatura moçambicana estava morta, e agora que opinião tem sobre ela? Terá saído da tumba? AC: Dizer que a literatura está morta foi uma forma que o Midó encontrou de colocar o problema. Mas que ela continua moribunda isso é verdade. Se reparares quantos grandes autores já surgiram, quantos grandes eventos ligados a literatura foram organizados desde o tempo em que lançamos o debate sobre a morte literatura, são muito poucos. Continua a ser o Mia Couto a publicar, a Paulina Chiziane, o Ungulani, o Marcelo Panguana, etc. Existe, obviamente, uma nova vaga de autores como o Mbate Pedro, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Sangare Okapi, Midó das Dores, etc. Mas sinto que precisamos de muito mais para poder criar a diversidade necessária. E isto só é possível se houver políticas e alguma humildade por parte dos que têm estado a surgir. Falta-nos isso. Uma pessoa publica um ou dois livros e já se julga a máxima referência do país. O caminho é muito mais longo e exigente. Gostaria de poder comentar mais sobre isto mas estes quase dois anos em que estive fora do país não só me tiram essa legitimidade mas também não me permitiram ir acompanhando o que aconteceu por aqui nos últimos tempos.

13 | 17 de Agosto de 2012


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Poesia | Veja

Jacinta Saene – Moçambique

Veja bem…….. Pode ser a última vez que vês Este rosto amargurado e desconcertado por ti Que por ti clamou quando não ouviste Que por ti esperou no luar Veja bem… As palavras que te escrevo São veneno em meu peito Que sufocaram minha alma quando estava em teu leito E agora que vejo como um passado lamento, e cada vez mais lamento… Lembras de mim…? Lembre como um foco de luz Um fiapo de vida que o vento conduz E que agora sem rumo se deparou E a luz que havia se apagou Lembra de mim...? Lembre com o fogo do amor que te dei E a pureza mais pura que te entreguei Na contenda mais dura te confortei Mesmo quando foste embora te esperei Lembra de mim….? Com a ânsia que eu ainda te espero Com a fúria do fogo que há em mim E o calor destas tardes de cetim E a paixão residente em meu coração foi embora, Lamento… Ficou o vão.

banco

UM ARCO E UM BARCO

Helder Faife – Moçambique Lopito Feijóo - Angola

1. no norte da capulana um nó providencial é cofre seguro

É mais veloz que eu o meu arco de barril Atei-o à uma corda que juntei ao pau volante

o pano com que se enroupa agasalha a receita do dia

Percorro este kimbo por vales, montes e montanhas Dizendo adeus a multidão que me vê sempre na brasa

2. adentro o soutien um depósito profundo prudente conta bancária

Passando. Giro giro giro e não me canso de girar Volante à esquerda ora à direita lá vou eu levando meu arco.

3. o corpo é um banco muito próximo nina a poupança com amor no colo mesmo que amamenta os machos e as crias

Gostaria mesmo é de um barco merecer Saber pilotar e no alto mar amanhecer

in “Poemas Em Sacos Vazios Que Ficam de Pé”

Mandar-me deste paraíso de injustiças E os oceanos partilhar com algumas algas castiças Imagino-me numa veloz embarcação Transbordando deste sonho a iluminação no fundo do coração!

Fuga Sangare Okapi - Moçambique

Cisão

Amêijoa minha nocturna tua é a cápsula aberta, como na flor apta a corola para a acepção do pólen. in Mesmos Barcos ou Poemas de Revistação do Corpo

José Inácio Vieira de Melo - Brasil Donizete Galvão – Brasil

um corpo que pesa Feito de pedra e ferro um corpo espesso Com articulações calcárias um corpo que se exaure de tanta dor um corpo muralha impenetrável pelo espírito que ronda sem conseguir habitá-lo

In “mundo mudo”

As crianças galopam goiabeiras, sentem o gosto da paisagem de êxtase. As crianças são deuses, mas não trazem o germe do sofrimento, só brilham. Alberte Momán - Galiza

sofrendo o prazer dos silêncios perdendo a elegância no esforço sente-te longe o meu suor escorrega nos sulcos da tua diversão inocente longe onde não te emprenhe o meu orgasmo de tédio

Quando o homem chega dentro da criança, o infinito cai e a casa começa a ter entranhas, a criar paredes. Quem mais sofre com isso são as pedras: sem sangue, sem respiração, sem ritmo, seus escombros preenchem toda a terra; seus sonhos – fuzilados no horizonte. Eu ainda saio dessa ciranda, entro no primeiro buraco negro e vou me inventar em outra galáxia.

do livro Erótica

in Roseiral

14 | 17 de Agosto de 2012


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Poesia | Porta Nocturna

Fotografia da Cidade da Praia José Luís Peixoto –Portugal

Domi Chirongo - Moçambique

Na calada da noite amo-te clandestinamente com a mesma veemência e consciência d’amar á luz do dia na praça pública na presença da multidão abençoando o nosso futuro futuro amoroso in Nau Nyau e Outras Sinas

IX.

A Cidade da Praia são filhós de banana e são bolos doces quando acordo a meio da tarde. A Cidade da Praia tem sol e tem lábios feitos de pormenores. Um dia, eu e a Cidade da Praia adormecemos enquanto nos beijávamos. Esse sono foi o centro da nossa ilha. E quisemos que ficasse lá longe, para nos recordar sempre que, em cada Cidade, pode existir um fim de tarde assim: as ondas estendem-se sobre a areia, as ondas estendem-se sobre a areia

POEGRAFIAS A Moça do Pateta MUSSA MBIQUE

Amosse Mucavele - Moçambique

Á ilha................. onde te conheci. in Gavetas de Papéis

Léo Cote - Moçambique

Na acrópole deitam-se todas as sombras da esfinge e Em letreiros nominais vemos sarcófagos todos, interRompe-se a escrita e vejo todos os deuses antigos. Além dos heróicos símbolos de todos, eu estou sem calças e com a pia levantada.

Minha macua Samira Ilha cor azul do meu lençol, camarão que dorme na boca do meu anzol Espero que aceites esta oferenda de mar e sol Afrodite com m’siro no rosto misturado de prazeres milenares Tu que espalhas felicidade na minha fortaleza Os homens do além mar assaltaram o seu coração sem pedir licença: O 1º fez-te mulher O 2º fez-te escrava Moça linda , filha única Inundaram-te de nomes/ raças: Lisboa, Goa, Salvador, Mossuril, terra da boa gente e pergunto: onde deixaram o Muhipiti? Despiram-te a roupa( os árabes) e cobriram-te de túnicas Tornaram-te prisioneira dos seus anseios . mas o vento derrubou os cárceres.

11.02.2011 In “ Carto Poemas de Sol a Sal

Janela

A timbila

Ana Rüsche - Brasil

Hoje, quando o mundo ainda não existia vomitei meu útero inteiro pela boca um gosto de contração amarga enjoada dessa raiva de não ser desse planeta de todas as coisas sem nenhum sentido. Mas como nem havia mundo, as estrelinhas de meu ventre saíram flutuando pelo vazio e pelo seu afora e, aos poucos, lentamente, porque mesmo o tempo era novidade iam bipartindo-se, recriando-se, saudáveis pontinhos de luz pirilampos de energia dos meus sonhos inundavam, amamentavam de leite cósmico o buraco negro, até transbordar novamente de mundos, planetas de histórias, de constelações, galáxias de carinho Em algum lugar do outro planeta, mesmo que absolutamente não exista

Pré-destinada-Moçambique

Naquela noite, o escuro convidava-nos a celebrar desejos desenhavamos nossos corpos, nossas mãos, eram pedaços de olhos evadiam nossa indecência,

Ana Paula Mabrouk - Portugal

do profundo da minha alma gelada abro a janela para o mundo e vejo claro, sem flocos de neve céu azul, horizonte profundo (Poema inédito)

a timbila dos meus olhos, rimou com a serenidade dos teus lábios o roçar dos nossos desprevinidos labios autorizou-me a deliberar o grito dos bichos…

in Nós Que Adoramos Um Documentário

15 | 17 de Agosto de 2012


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Conto O conto do pequeno Édipo Suleiman Cassamo - Moçambique

O

HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta: -Uma cerveja. Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime. A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos. - Vá brincar lá dentro - berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca. O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante. - Que tal? - perguntou a mulher, tentando animá-lo. Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino. - Que tal, é boa? O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o "chapa" e a casa, uma pausa para relaxar. À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo: - Boa. A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz

tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza. O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera. - Suca daqui! - ordenou a viúva. Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe… - Dá-lhe um pacote de "Maria" - disse o cara. E acrescentou, peremptório: - na minha conta. Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço. À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou: - Boa como a própria dona? Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra. - Xixi cama! - berrou o homem. O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões: - Rua-rua-rua! Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta. Poesia e Contos de Autores Africanos moçambicano (n.1962)

A prostituta que me provou o teste Izidro Dimande - Moçambique

S

exta-feira. Na cidade. Meia-noite. Lua cheia. Verão de Dezembro. As miúdas alegres na carne masculina que enfileirava a rua delas. Os guardas mais ricos ficavam no aluguer dos sítios. Eu (Mbopene), Xiguimane, Muzila vestidos de roupa de passeio descemos a cidade baixa com a ejaculação na mente. Mente esta que estava alcoolizada de tantas garrafas derrubadas no covil da Xitique. Mulher incerta e experiente na arte de vender aos assalariados que mês á mês colhia do cantineiro, do camionista que chegava ao mercado vender hortícolas e legumes, do armazenista que descarregava vagões de produtos contrabandeados, do mulungo do escritório. Descemos nos cânticos de alegria e no provoco dos inocentes que cruzaram caminho com os três assalariados. Mulheres expostas na rua como se de manequins das lojas fossem caminhavam em direcções incertas a vender o que entre as pernas lhes é sagrada. No silêncio dos homens atenciosos e na boca larga do Muzila ouviu-se uma frase grave, aterrorizadora, inerte, grossa, má, que deixou os homens de verdade silenciosos, as mulheres da rua a vociferarem, os seguranças das boates a entrarem na zaragata. - Calma ai! Não foi isso que ele queria dizer e não se referia a senhora. - A quem dizia, eu ouvi, foi esse cão duma figa que disse. - Vais apanhar que nunca viste hoje, nos estão aqui a fazer a vida e tu se não queres nada fica em tua casa. Seu nquenho. - Pega ai, e vocês não se metam se não apanham também, leva o gajo para lá em cima. E vocês ficam aqui. Quem seguir apanha, juro mesmo. Este tipo vai aprender. Sumiu na escuridão da garagem daquele edifício. Fiquei lúcido. Pensei na polícia. Pensei em fugir. Pensei na milícia. Pensei. - Agora vás dizer de novo aqui que disseste na rua ou vás fuder com a malta. - Juro que não dizia a vocês. Gritos de dor, de tristeza, de amparo. Ninguém ouve. Fraqueza do homem. - Tira-lhe as calças e a camisa e a cueca se tiver. Nu. Amarrado contra dois postes de canalização de água ali colados a parede. Gritava. A primeira tirou a calcinha. Nua ia ficando. A outra apalpava-lhe o que o homem preserva. Outra metia um lencinho a boca para lhe silenciar. Apalparamlhe. Acariciaram-lhe. Chuparam-lhe como se de rebuçado fosse. Ficou erecto mesmo com dor. Calou-se com lágrimas de medo. - Vais dizer mas aqui? Silencio mudo. A nua segurou-o e introduziu na miúda. Fez movimento que animais em cio, sentiu

prazeres, gemiam na doçura do acto sexual. Ia perdendo o directo ao medo, ia perdendo o medo a vida, ia ficando com mas prazeres. Saiu e entrou a outra, mas brava na arte de satisfazer o cliente mexeu com tudo, sentiu sua vagina delirar, sentiu sua vagina amadurecer, sentiu o pénis fazer-lhe sentir o prazer da vida. Mijou. - Agora vai dizer aos teus amigos aquilo que você pronunciou na rua. Saíram de volta ao serviço. Feliz e ele enforcado com o sexo grátis. Teve medo de voltar a ver seus amigos, quando no fundo da escuridão ouviu vozes se aproximando em seu auxílio. - Então? O que te fizeram Muzila. - Sexo sem protecção. - Vamos a policia faz queixa, se te transmitiram o sida a força. Um ano depois enquanto Muzila cuidava dos seus afazeres, surgiu uma mulher com meia-idade, a cara era linda, o vestuário a medida. Perguntou quando custava o produto olhando para a prateleira ao lado. Quando os olhos se cruzaram, Muzila ficou minutos a discernir suas lembranças. - Conheço a senhorita de algum lado. - Todos me conhecem. - Mas não me recordo. Pagou a conta e saiu. Minutos depois Muzila seguia para confirmaram o local. - Desculpa senhorita, trabalha na baixa da cidade? - Onde? - Desculpe, na rua! - Sim, porquê? Já estivemos juntos. Silêncio. -Sim, recorda do jovem que a um ano foi obrigado a fazer sexo por ter ofendido três senhoritas e os homens todos ali presentes ajudaram-nas. - Sim lembro-me. - Sou eu! Silencio. Olhares. Perguntas por fazerem-se. - Como está? - Casada há 6 meses com um estrangeiro e mãe de um bebé de três meses. - A tua amiga que também me possuiu. - Morreu! - De doença? - Não foi isso que levou a te possuirmos, de desconfiar que nos éramos umas cheias de SIDA. - Foi!

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16| 17 de Agosto de 2012


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Conto 1 HORA ( Em casa de Narguiss)* Lilía Momplé - Moçambique

Q

ue força é esta que não a deixa levantar-se e correr para o seu Abdul que , já impaciente, quase derruba a porta aos pontapés. “ Não grita...Espera só pouco”, roga ela, tremendo de receio que ele se vá embora. Mas Abdul não se vai embora, continua a dar pontapés na porta e a gritar como se alguém, lá fora, lhe estivesse a fazer mal. E ela sem poder abrir aporta. Está tão perto, só alguns passos, poucos, tão poucos que ela resolve ir de rastos, já que não consegue pôr-se de pé. Lutando contra a força que a paralisa, avança com lentidão que os gritos de Abdul tornam insuportáveis. Está quase...um pouco mais...agora é só levantar o braço, alcançar a fechadura e rodar a chave...uma, duas vezes. Mas o braço pesa-lhe... pesalhe tanto...não consegue...não... Narguiss acorda a transpirar, apesar do cacimbo de Maio que entra pela porta de rede que liga a cozinha á varanda. “ Afinal tudo pode ser um sonho...Abdul não vem”, lamenta ela, desiludida, á sua volta. Foi um sonho terrível, mas Abdul. Era melhor do que estar assim sozinha, sem marido, no dia de Ide. Não se lembra de ter adormecido sentada, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a mesa da cozinha. Lembra-se, no entanto, do pesadelo de onde acaba de emergir e da estranha sensação de ter visto Abdul através da porta que ele batia com os pés por ter as mãos cheias de embrulhos. “Mas pode ser tudo sonho, mesmo. Abdul não está aqui”, geme baixinho. Experimenta mexer as pernas e os braços e constata, aliviada, que lhe obedecem perfeitamente. Tudo foi mesmo sonho. Abdul não veio e nada lhe tolhe os movimentos. Porém... os gritos e o barulho esquisito que chega da rua não é sonho, não. São reais e cortam o silêncio da madrugada, com assustadora nitidez. Curiosa. Narguiss rebola o corpo imenso até á porta de rede e sai para a varanda. A princípio não quer acreditar no que vê. Supõe mesmo ter mergulhado num novo pesadelo, tão estranho lhe parece tudo. Na varanda do primeiro andar , mesmo em frente, o casal que lá vive e que ela só conhece de vista, desfaz-se em gritos. Ela grita apenas por socorro e ele, embrulhado no que parece lençol, repete qualquer coisa que Narguiss não consegue compreender. De vez em quando, grita também por socorro. Apesar da escuridão da noite sem lua e d acácia rubra que os oculta um pouco, Narguiss consegue vê-los agora, perfeitamente, iluminados por holofotes manejados da rua. O homem continua a bradar qualquer coisa incompreensível e a mulher não para de pedir socorro. De repente, põem-se a correr de um lado para outro lado, na exígua varanda, numa dança macabra. Narguiss não sabe se as balas que os atingem vêm de dentro de casa ou dos homens dos holofotes que também disparam sem cessar. Mas , quando os vê cair, desta ela a gritar. - Está matar gente... muanene inluco... está matar gente... ali... muanene inluco... Não vê o homem que, da rua, lhe aponta a arma pois toda atenção está centrada na varanda da flat em frente. As balas atingem-na, certeiras, no pescoço e no peito e ela espanta-se da sensação de infinita paz que a acompanha na queda. Já nada a faz sofrer, nem o Ide sem ver a lua, nem as filhas sem casar, nem mesmo o Abdul. Como se o enorme corpo se recuasse a ceder, dá uma volta sobre si mesma e , escorregando lentamente, Narguiss cai por fim, sentada, com as costas apoiadas no gradeamento da varanda. E é assim que, pouco depois, as filhas alertadas pela gritaria e pelos tiros, a vêm encontrar.

*in Neighbours pag 107 e 108, 3ª Edição da autora 2008 Glossário muanene inluco – Meu Deus – Língua Macua- falada no norte de Moçambique particularmente na Provincía de Nampula ____________________________________ Lilía Maria Clara Carriére Momplé nasceu a 19 de Março de 1935, na Ilha de Moçambique, fez o ensino secundário na então Lourenço Marques( hoje Maputo) Frequentou o 2º ano de Filologia Germânica e licennciou-se em Serviço Social no Instituto Superior do Serviço Social de Lisboa, viveu em londres, Baía, São Paulo. De volta á Moçambique,trabalhou no Ministério da Cultura,onde foi Directora do Fundo para o Desevolvimento Artsitíco-Cultural, Secretária Geral da Associação dosa Escritores Moçambicanos. É membro da Southern African Writers Council. Em 1997 participou no International Writing Program, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos de América. Obras Publicadas: Ninguém Matou Suhura 1988 – Contos Neighbours 1995- Romance Os olhos da Cobra Verde 1997- Contos As suas obras estão Publicadas na Itália, África do Sul,etc.

Conto contigo

Entre (à) vista do Madala Kelembe

A

Japone Arijuane - Moçambique

dorava eu, ao crepúsculo da tarde, nas vezes que a sedução do álcool e do clima falassem tão alto, fazer-me presente numa barraca algures na cidade de Quelimane. Já que existem de forma retumbante barracas que bibliotecas; aliás, em Moçambique no geral. Actualmente professa-se o culto pelas e nas barracas. É sempre assim quando o espírito de decadência atinge um país; nada mais que as pessoas acobardarem-se no álcool. Voltemos ao que interessa. Quando lá eu fosse; encontrava-me sempre com um homem, um homem com idade a esbranquiçar-lhe a carapinha. Um desses dias, cansado de o contemplar decidi enfrenta-lo. E lembro hoje, a nostalgia deste passado; este pássaro que sobrevoa-nos nas costas, que por vezes faz ninhos em algumas cabeças. O madala chamava-se kelembe; um velho despreocupado, mantinha sempre o seu olhar médico nas coisas. Abordei-o, colocando as questões de LEAD de qualquer bate-papo; lá veio, dizendo coisas que naquela altura eram para mim tão estranhas. Dizia o madala, que foi em tempos um estivador do ónus da desgraça; sua vida passeava nas mentes alheias, como pertence doutrem. Viveu para dar sentido a vida, para ele viver e continuar vivendo não era um acto heróico, mas sim autêntica cobardia. Para quem não vive por nada, melhor morrer por algo. Mas o que fazer?, quando não existe o tal algo para fazer? Se a vida é, em si, uma tremenda ilusão; quando achamos que perdemos, lá vem um sentimento que nos diz, um dia podemos vencer, e vivemos esperando esse dia chegar; por vezes esse dia nunca chega, se chega não é como idealizamos. Dizia estas palavras como quem nada queria dizer. E prosseguia, calmo e sereno, em jeito de suspiro, com os dedos a roçarem os já esbranquiçados bigodes; — Muitos anos de vida, nenhum vivido. Aquelas palavras eram-me indiferentes. S-ó hoje me entristeço; e fico realmente muito agastado. A lembrança de um velho na tamanha idade, a não sentir-se feliz por viver tanto tempo. No rosto, mas nada, se não tédio e angústia; angústia dos dias que viu passar. Continuamos; não me lembro precisamente da questão mas, eis aqui a resposta: — Tenho mais medo de viver que morrer! Entrego-me a morte como quem soubesse o que é morrer, mas a vida que eu levo sempre sujeita-me a morte. Se morrer é acordar de novo, então quero nunca dormir este novo acordar. Eu vivo, sem vida para viver! Quando quis saber mais acerca do tempo que levou e os dias que viu nascer e morrer nas noites; e o que ele fez. A resposta dessa questão me persegue até hoje; como um cão solitário que viu uma cadela passar. O Madala falava com cio nos sentidos, com raiva na língua. Dizia com todas as letras que morrer é melhor que estar como esta ele na vida. As oportunidades vão sempre para os oportunos; a sorte é uma gaiola em que os pássaros quando livres não voam. Tudo na vida resume-se numa armadilha, em que o desfazer é praticamente deixar de ser. Falando na suas palavras ele dizia e redizia: — Até que teria tudo!, hoje, tenho nada! Atropelei os sonhos da minha desastrosa vida! Tentei mas não consegui! Lutei e não venci! Há quem dizia que nunca é tarde; mas para me, entardeceu demasiado, que até ficou escuro. Escuro este que ilumina meus dissabores. O Malada Kelembe encontrava-se deitado no asfalto do tempo, esperando um veículo qualquer de cargas de almas para esvaziar a sua; e talvez assim, fazer-lhe algo. Já que nada conseguia fazer por ele, até mesmo a morte. O Madala vivia esbanjando palavrões; sem saber nada, muito menos ser gente. Mas uma coisa ele sabia, até certeza tinha; a liberdade. Sabia que a liberdade era natural, que homem que é homem não a prende a ter, muito menos a ser. A paz é a simplicidade de ser; a justiça a única forma de estar; o homem é feito de verdades e de sensualidades, a qual divinizaram e chamarão de amor. E dizia ainda, que ele é o que é, por que a vida é o que não deveria ser; assim como ele é o que não deveria existir. Quando questionei sobre se ele nunca tentou empregar-se, ironicamente disse: cárcere!, escravatura sofisticada, assim como era o tradicional escravo. Hoje trabalha-se em troca de pão e ínfimo lugar para passar poucas horas, pois as maioritárias devem passar-se em trabalho. Dizia ainda que o emprego era acima de tudo um banquete servido na boca dos tubarões; música linda entoada por pássaros no cárcere. — Eu até seria um bom gestor, banqueiro, PCA de qualquer firma. Se assim fosse, teria uma casa, esse cárcere; um cão no quintal. Hoje tenho uma casa que é a liberdade!, e um cão vadio, claro que sou eu! Quando já preparava meu rol de questões, o madala levantou-se e disse: — Só ou não independente?! Fui! Só hoje arrependo-me de não o ter exprimido

totalmente, de não ter-me embriagado pelo seu teor douto, meramente independente. Eu bem que podia o procurar e prosseguir com a eloquente conversa. Lembro-me, mas, que naquela fatídica tarde permaneci ali, jogando meu futuro no álcool e nas gastas meretrizes, ambulantes carnudas delas mesmas, que exibiam-se arredores. E hoje… quem dar-me-á tal sapiência?, quem será tão independente?, nesse país que se mostra cada vez mais na decadência intelectual e na progressão bajuladora. Quantos Kelembes existem?, se é que existem!

17 | 17 de Agosto 2012


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Ideias| Debates e Reflexões

A

qui quero deixar minha simpatia à Revista Literatas e a você e meu respeito. Ela é a que abre as portas não somente aos famosos e ilustres e célebres escritores como também aos iniciantes, como eu. Sou um escritor iniciante, meu nome é Maurício Gomes, o livro é de poesias, com o nome de (Des)Caso com a poesia: inquietações, editado pela Editora Scortecci. Ao escrever, minha primeira preocupação, não foi o fazer poético e sim a temática poética, não queria escrever aquilo que todos os poetas iniciantes fazem, uma construção repetitiva, com temáticas repetitivas ou repetindo poetas consagrados. Uma grande tristeza para um poeta iniciante como eu, é saber que há nas livrarias renomadas livros sem crédito e sem merecimento literário e preenchem as prateleiras. Por quê? Qual a política das editoras que não entendo? Por que os bons escritos estão escondidos, guardados ou subjugam como eu a pedir um merecimento de estar nas livrarias conceituadas. Por que oportunidades não são dadas a nós escritores, mesmo que estes iniciaram na seara da escrita com poemas, pois como as editoras dizem, poesia no mercado tem pouca saída, não vende? Senhores, meu pedido é simples, preciso de todos. Preciso da compreensão, preciso da oportunidade, preciso da divulgação. Dêem-me uma chance. Dêem-me crédito. Sabem da maior dificuldade que o escritor iniciante tem em divulgar a obra dele. Lêem e vejam. Lêem um poema meu. Verá que eles fogem ao convencional, fogem às mesmices que estão aí no mercado. Basta que dêem crédito e confiança a mim. Ele foi lançado por uma editora de respeito no mercado livresco, a Scortecci. Estará na 22ª Bienal Internacional do Livro(será um relançamento). O livro está sendo apreciado na França e em Portugal. Segue um anexo do meu livro(uma cópia do livro e nele há na contracapa um texto de um grande crítico literário e escritor, mora em Marselha-França e o prefácio. Lêem e se possível divulguem na revista e se possível, coloque alguns

– 10 – Eu e o tempo O tempo, eternamente, sorri Dos desejos e Paixões humanas. Homem fragmentado Em busca da eterna Interrogação: Quem sou eu no mundo? O tempo, um eterno Ignorante No firmamento. Em todos os lugares Conduz sua prole. Na mesmice do dia, Apático E vingativo, Não perdoa. Sua superioridade, Sua onisciência, Sua onipotência, Sua prepotência, De Deus, Fazem do homem um fantoche de seu jogo, De seus pêndulos perenes. Quando parar? Como parar? Como é sarcástico com a Frágil humanidade. E eu? Contrário aos seus dogmas, 55 (DES)Caso com a poesia: inquietações Do seu autoritarismo, De sua reacionária visão Rio!

Minha frágil carne Não se curva à sua força eterna. Ser de mil e uma faces Ser de mil e um braços. Ser de mil e um dias. Minha alma não se entrega Aos seus sopros de decadência. Aos seus quereres De introduzir em minha carne Seu hálito de morte. Não! Não sou frágil, assim! Tenho ânsia de vida. De viver! Sou mais que dinamite! Sou mais que Nietzsche! Sou mais que as divindades! Tenho vários mundos. Respiro vida! Meu corpo se renova A cada célula morta Meu espírito, meu guerreiro! Ele é pueril. É vigor! É vida finita eterna! Não me entrego! Nele, conduzo minha vida! É com ele que o tempo é frágil! É brisa! É companheiro! Nada mais que um eterno e finito Companheiro! (Des)Caso com a poesia: inquietações Mauricio Gomes

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18 | 17 de Agosto 2012


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Outras artes | Cinema

LAMPIÃO, REI DO CANGAÇO: Exemplo de Nordestern Guido Bilharinho - Brasil

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ob o influxo da repercussão e do êxito de O Cangaceiro (1953), de Vítor Lima Barreto, gesta no decorrer da década de 1950 e surge no princípio dos anos 60 o então denominado nordestern, um dos subgêneros do drama, cuja produção fílmica se estende até o final dessa década para ressurgir, com um ou outro exemplar, nos anos 90. Configura espécie de faroeste nordestino, que, no entanto, mais se diferencia do que se identifica com o western, estadunidense ou não. Se se descartar, por isolado, O Primo do Cangaceiro (1955), de Mário Brasine, sátira a O Cangaceiro, o nordestern tem início com A Morte Comanda o Cangaço (1960), de Carlos Coimbra (Campinas/SP, 1928-), que ainda realiza mais três filmes no gênero, Lampião, Rei do Cangaço (1962), Cangaceiros de Lampião (1966) e Corisco, o Diabo Louro (1969), cuja qualidade, registrada pela crítica da época, decresce de filme para filme ou, dito de outro modo, cujos defeitos crescem a cada filme. Além deles, nessa mesma década, ainda são produzidos nada menos de outros onze nordesterns, a exemplo de Os Três Cangaceiros (1961, também sátira), de Vítor Lima, e de O Cabeleira (1963), de Milton Amaral, baseado no romance bomônimo de Franklin Távora, de 1876, até Quelé do Pajeú (1969), de Anselmo Duarte, e Meu Nome é Lampião (1969), de Mosael Silveira. Nesse mesmo ano surge nova sátira com Deu a Louca no Cangaço (1969), de Nélson Teixeira Mendes e Fauzi Mansur, título diretamente inspirado em Deu a Louca no Mundo (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World, EE.UU., 1963), de Stanley Kramer. Lampião, Rei do Cangaço ainda apresenta atributos ou menos precariedades que os congêneres que se lhe seguem. Com base nos livros Lampião, o Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa, e Lampião – Capitão Virgulino Ferreira (título da 5ª edição), de Nertan Macedo, o filme de Coimbra focaliza alguns dos enfrentamentos entre o bando de Lampião e as forças policiais nordestinas, antes, porém, em poucas cenas, informa o motivo principal do surgimento dessa saga mais sanguinária que aventurosa. O cangaço é desencadeado de maneira impetuosa a partir da grande seca de 1877/1879 que assolou o Nordeste, conforme lembra Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos, p. 132), agravando e exacerbando condições patrimonialistas altamente concentracionárias e excludentes da estrutura econômico-social da região, preexistindo, pois, de muito, a Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, Serra Talhada/PE, 1898 – 1938). Foi justamente seus contatos fortuitos com um cangaceiro antes do assassínio de seu pai, que lhe teriam indicado o caminho que depois seguiria, de 1917 a 1938, transformando-se no mais famoso e ousado dos cangaceiros que infestaram o Nordeste nas primeiras décadas do século XX, período em que essa prática sobremaneira se intensificou paralelamente ao fenômeno do messianismo, ambos expostos e sintetizados, já com toques de genialidade, por Gláuber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), que, todavia, por sua amplitude, abrangência,

enfoque e significado não se enquadra na categoria, extrapolando-a de muito. Já o nordestem propriamente dito não teve preocupação outra que não fosse comercial, cingindo-se nos estreitos limites da narrativa e do espetáculo cinematográfico. Lampião, Rei do Cangaço, por isso, não ultrapassa esse nível, não portando nenhuma qualidade cultural e artística. Contudo, expõe, com seriedade, a temática elegida, convocando para esse feito os principais atores que se destacaram no gênero, a exemplo de Leonardo Vilar (Lampião), Vanja Orico (Maria Bonita), Milton Ribeiro (um dos imediatos de Lampião, celebrizado anteriormente como ator principal de O Cangaceiro, de Lima Barreto), Glória Meneses (muito travada nesse filme de Coimbra, não repetindo a excelente interpretação de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte), Antônio Pitanga (desenvolto como sempre), Dionísio Azevedo (de destacado papel como padre no filme de Anselmo Duarte), e Geraldo del Rei. O filme caracteriza-se, pois, dada sua finalidade congênita, pela ênfase na estória e pela narrativa linear e convencional, destituída de preocupação e elaboração artística e recriação autoral da realidade enfocada e de qualquer tentativa interpretativa do contexto, por mais tênue e longínqua que seja. Alguns dos principais lances da saga de Lampião são nele expostos, inclusive seu comissionamento, em 1926, como capitão da Reserva do Exército para combater a Coluna Prestes, contra a qual, no entanto, não lutou, segundo Nertan Macedo porque “informado de que os oficiais pernambucanos não reconheceriam a sua patente, deixou a Coluna Prestes movimentar-se livremente” (op.cit., 5ª ed., p.144). Já a respeito da atuação, posição e papel de Lampião, afirma Neil Macaulay: “Lampião não era um jagunço comum – um pistoleiro de aluguel, com vida organizada e pacífica, exceto quando chamado às armas por seu patrão – mas um cangaceiro fora de série, um bandido errante, de tempo integral. Frio e cruel, Lampião, em 1926, tinha admiradores declarados; bravo, brilhante, sempre bem vestido, era também um perfeito sanfoneiro cuja toada Mulher Rendeira transformou-se num sucesso permanente no Brasil, figurando até nas paradas de sucesso nos Estados Unidos sob o título de The Bandit. Lampião tinha todos os requisitos de um herói popular e como tal seria festejado após a sua morte. Na década de 1920, no entanto, parecia ser a verdadeira encarnação da maldade”. (A Coluna Prestes. 2ª ed. Rio de Janeiro−São Paulo, Difel-Difusão Editorial, s.d., tradução de Flora Machman, p. 186/187). A propósito da Coluna Prestes, esse mesmo atilado brasilianist revela sua natureza e finalidade, responsáveis maiores de seu êxito, além da “coragem e a habilidade de alguns oficiais dedicados – Luís Carlos Prestes acima de todos”: “Assim como a caminhada de Siqueira Campos ao longo da praia de Copacabana, a marcha da Coluna Prestes foi empreendida com o propósito de inspirar. A operação não era militar; não fora estabelecida para apreender ou tomar terreno, para destruir o inimigo ou sua vontade de lutar [...] só tinha por objetivo a própria sobrevivência” (op.cit., p. 22 (do livro O Cinema Brasileiro Nos Anos 50 e 60, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2009 www.institutotriangulino.wordpress.com)

__________________________________ Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba/Brasil e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional. (Publicação autorizada pelo autor)

A influência de Malantagana Ngwenya na pintura angolana Simão Souindoula - Angola

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ma das figuras dentre das mais marcantes das artes plásticas africanas contemporâneas e, sem duvida, a do veterano - pintor moçambicano, Valente Malantagana Ngwenya. Tirando a sua originalidade das suas composições em bloco, reagrupando personagens, invariavelmente, roliças e com olhares, extraordinariamente vivas, e sendo assegurar-se uma larga promoção internacional, o velho pintor de Maputo, influenciou vários jovens artistas do continente. Isso e particularmente verificável em Angola, onde vários criadores inspiraramse, utilizando a pintura a óleo, o acrílico ou técnicas mistas, do pincel do Mestre moçambicano. É, o caso de Fernando Nunes, Gabriel Quissanga ou de Alves Manuel. A ilustração da réplica malagataniana angolana a mais acabada e a mais impressionante, saiu das broxas do espantoso autodidacta, de génio, Fernando Caterca Valentim. Com efeito, seduzido pelo estilo da composição do taumaturgo ronga e sob o enquadramento do seu mentor, o saudoso Luzolano, o jovem Valentim, se engajará, em Luanda, numa epopeia artística, verdadeiramente heróica, num contexto social e económico assolado pelo longo conflito armado.

Fazendo bem armas iguais com o Mestre da contra – costa, no continente niger e na Península ibérica, o pintor-poeta originário de Gabela, na generosa província angolana de Kwanza sul, fará eclodir o seu imenso talento, dentro e fora das fronteiras de seu pais, em Portugal, nomeadamente, com numerosas exposições, a publicação de vários catalogos e a integração de seus espectaculares quadros em diversas colecções. Fará o, também, na África central, no quadro da Bienal da Arte Bantu Contemporânea. Recebera, em Brazzaville, na margem direita do Congo, em 1994, o Grande Premio deste certame, e a tela premiada, nesta ocasião, fará objecto da primeira impressão têxtil, significativa, produzida, em Libreville, no Gabão, pelo Centro Internacional das Civilizações Bantu. Seguindo o decano -pintor originário da aldeia de Matalana, nas margens do Oceano Indico, Valentim se engajara, igualmente, na poesia ; tirando a titularização suas obras, nesta base. Enfim, na senda do antigo estudante da fileira « Pintura Decorativa » da Escola Industrial de Lourenço Marques, o afiliado da União Nacional das Artistas Plásticos Angolanos, adoptara, também, nas suas composturas, a estampilhagem gravurante do venerável preto e branco, mas analogamente, a refulgente cor enxofre. __________________________________ Simão Souindoula é Historiador e critico de arte. Membro do Comité Cientifico Terceiro Festival Mundial das Artes Negras

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Ensaio

Alex Dau – Reclusos do Tempo (nova literatura de Moçambique) Ricardo Riso - Brasil

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literatura moçambicana inicia o século XXI sob o signo da desconfiança, sofrendo acusações de sua morte por parte de uma nova geração de escritores que reivindica visibilidade para seus textos e oportunidades de publicação. Configura-se, então, um conflito de gerações, principalmente com os partícipes da revista Charrua e com a histórica AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos, esta acusada de favorecer os escritores oriundos daquela revista. Uma breve consideração para situar o contexto histórico dos anos 1980, época de criação tanto da AEMO (aglutinando os nomes literários que contribuíram no processo de independência do país, em 1982, e seguindo os passos da coleção Autores Moçambicanos, do Instituto Nacional do Livro e do Disco/INLD, lança diversos nomes históricos que não tiveram suas obras publicadas durante o colonialismo) quanto o da revista Charrua (criada em 1984). Os escritores de Charrua promoviam uma literatura com viés telúrico, existencialista e onírica, alargando o verbo poético enrijecido pela Poesia de Combate. Para Cármen Lúcia Tindó Secco, “os poetas de Charrua que de novo facultasse o direito aos sonhos, compreendidos estes como estratégias de resistência cultural, como elementos propulsores da imaginação criadora e dos desejos reprimidos” (SECCO, 2006, p. 236). Charrua, já em um novo momento e por uma nova geração, aponta para o ato de revolver a terra, de fertilizála, atitude que será posta em prática e transferida para a poesia de escritores como Eduardo White e Armando Artur que, segundo a Profª Rita Chaves: beneficiando-se também das vantagens de estar situado na capital do país, o grupo de Charrua alcança grande projeção e consegue, de fato, alterar alguns dos elementos que estavam na base do projeto literário de Moçambique. Serenados de certa maneira os ventos animados pela conquista da independência, consolidada a convicção de que um novo tempo estava aberto, preparava-se a cena para novas exigências também no plano da criação literária. (...) A reivindicação altera seu foco, deslocando sua ênfase para a construção de um projeto estético voltado para a recriação da dimensão lírica, assentada na valorização da subjetividade.” (CHAVES, 2005, p. 167) Depreendemos que ao remexer nas propostas formais, estéticas e temáticas da poesia moçambicana durante a década de 1980, essa geração mostra o caráter revolucionário, para usar um termo da época, em prol de uma poesia pluralista e universalizante. Retomando a discussão para os dias atuais, o Prof. Dr. Francisco Noa ao refletir sobre a polêmica da suposta morte da literatura moçambicana aponta alguns pontos relevantes que ajudam a compreender as dificuldades por que passa “a geração dos condenados a não publicar”: escassos recursos financeiros das editoras e o receio em investir em novos nomes; ausência de uma política de incentivo à leitura no país; a desatenção da Educação que não estimula o hábito da leitura, principalmente àqueles que estão no Ensino Básico; e a perda de valores da sociedade, cada vez mais materialista, reduzindo a aura do escritor, da literatura e da arte em geral (NOA, 2008, p. 132). Por outro lado, o Prof. Lourenço Joaquim da Costa Rosário apresenta uma visão otimista do atual momento da literatura de seu país, pois, de acordo com os concursos literários que organiza, percebe que “a quantidade de originais não para de aumentar. Portanto, a produção de textos está muito bem e recomendase” (ROSÁRIO, 2010, p. 135-136¬). Ou seja, a nova geração segue cumprindo o

seu papel, de dar continuidade e valor à história literária de Moçambique apesar das barreiras impostas pela pós-modernidade. A respeito disso, Francisco Noa ressalta que: Enquanto verdadeira consciência das nações, a literatura tem sido a grande utopia de si própria e do porvir das sociedades. Nenhum intelectual, nenhum escritor, particularmente em África, se pode assumir como tal enquanto não for um produtor de ideias e de valores. Ser escritor em países como os nossos significa, hoje mais do que nunca, uma imensa responsabilidade estética, ética, intelectual e social (NOA, 2008, p. 132). Apreendemos que o Prof. Noa exige uma postura participativa do escritor moçambicano enquanto intelectual atuante na sociedade, sendo um cidadão que incomoda a ordem estabelecida, o que nos leva a recordar Jean-Paul Sartre quando afirma que “o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta” (SARTRE, 1964, p. 14). Assim sendo, a partir do momento que uma nova geração de escritores grita por seu espaço, essa geração age, por meio da literatura, como intelectuais ativos que deseja expor suas ideias, angústias e anseios para a sociedade. Como é reduzida a disseminação da leitura em Moçambique, os escritores acabam atuando à margem da sociedade, tornando-se exilados em seu próprio país. Condição esta estimulada pelo próprio poder público com suas ineficazes políticas. Para Edward Said, esse exílio torna-se a condição do intelectual, aquilo que lhe é imposto passa a ser algo que valorizará as suas observações, o seu olhar perante o meio em que vive, ou seja, “é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros” (SAID, 2005, p. 60), por que se afastando “das autoridades centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver coisas que normalmente estão perdidas em mentes que nunca viajaram para além do convencional e do confortável” (SAID, 2005, p. 70). Apesar das críticas que a AEMO sofre, novíssimos nomes são lançados por sua editora, tais como os bons poetas Andes Chivangue e Sangari Okapi. Na prosa, podemos destacar “Reclusos do Tempo”, a estreia em livros de Alex Dau, pseudônimo de Paulo Alexandre Dauto da Conceição, natural de Quelimane-Zambézia, nascido a 23 de Maio de 1972. Frequentou o curso de Literatura portuguesa ministrado pela Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane em parceria com a Embaixada de Portugal em Moçambique, mais tarde também cursou literatura Africana promovida também pela Universidade Eduardo Mondlane. Foi funcionário da Televisão de Moçambique onde para além de outras atividades exerceu a função de realizador tendo dirigido o programa literário “Leituras” apresentado e editado por Nelson Saúte. Têm obras em prosa e poesia publicados em diversas revistas e semanários de Moçambique e Brasil. “Reclusos do Tempo” foi lançado em 2009 pela Associação dos Escritores Moçambicanos e reúne doze pequenos contos e um glossário. As narrativas de Dau navegam entre os ambientes urbano e rural, trágicas em sua maioria, envoltas em personagens marginais, feitiços e espíritos irritados com o descumprimento das oferendas por parte dos homens, assim como as sombras da triste guerra civil que arrasou o país por anos. Para além de problemas típicos do cotidiano urbano contemporâneo, como a doença SIDA/AIDS e o infortúnio de um jovem que, após o exame, descobre não ter contraído a doença, contudo, morre atropelado por um carro quando se encaminhava para avisar à namorada em “Os imortais da minha terra”. Nesse conto, ainda destaca-se a dificuldade de tratar essa moléstia pelo interior do país, pois nesses lugares as pessoas “não querem saber de usar preservativo. Eles não acreditam nessa doença, admitem sim que, depois de um tratamento tradicional, ficam imunes a qualquer doença de transmissão sexual” (DAU, 2009, p.46). Há uma atmosfera de intensa tensão nos espaços urbanos narrados nos contos de Dau. Sem melhores esclarecimentos psicológicos, seus personagens agem,

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Ensaio muitas vezes, pelo impulso, ora pelo desejo incontrolável de satisfazer-se sexualmente com uma prostituta, “Estaria eu enfeitiçado por aquela ‘striper’, de tal maneira, que nem sequer era capaz de abandonar aquele local e voltar para os braços da minha esposa?” (DAU, 2009, p. 9), ora na desmedida vontade de possuir uma prostituta, porém mulher branca, “A destemida mulher acorda-lhe um sonho que era quase irrealizável: possui um ‘white-girl’. (...) Acalma-se quando revê a foto da loira, que foi sua amante, nos escassos minutos, que os cinquenta euros proporcionaram” (DAU, 2009, p. 14-15). Como também no sonho de consumo desenfreado impulsionado por uma sociedade cada vez mais capitalista e egoísta, o que conduz a vida ao desengano, ao banditismo com o intuito de manter um patamar social elevado e apresentado em “Silêncio Baleado”. O infortúnio demonstra-se no texto, pois o seu protagonista é um ladrão, contudo, ao deixar a casa de sua menina, deparase com uma batida policial. O desespero apodera-se e resolve fugir. “Só podia ser azar – repensou, depois de se lembrar que homenageara os espíritos dos seus defuntos. Será que esquecera de invocar algum ente querido?” (DAU, 2009, p. 42). A perseguição o leva a invadir a casa de sua amada, tornando-a refém. O final se dá com a morte do ladrão e a menina e família salvas. Ou ainda por antigas desavenças terminadas em mortes e a justiça feita pelas próprias mãos: Já possuído pelos nervos, Nhassengo avançou firme, como um soldado fiel à pátria, e segurou seu inimigo. (...) Sua vítima ofegava calado (...) Um tiro fez-se ouvir (...) O corpo de Nhassengo tombou. Todas as testemunhas, numa comunhão de vingança e coabitando um silêncio pagão, marcharam decididas pelo chão ensanguentado. Macamito não teve tempo de raciocinar a fuga, quando cento e cinquenta dedos lhe apertaram a garganta. Sentiu o hálito da morte por perto, e lembrou-se de todas as vítimas que fizera. Antes de se arrepender, deu o seu último suspiro. (DAU, 2009, p. 1112). As marcas da guerra são expostas de forma irônica no pequeno conto “Controataque”, ao narrar a luta de uma pessoa que é acordada por um inimigo, um mosquito, motivo para o narrador utilizar todo o conhecido vocabulário militar: “O corpo aniquilado ficou derrubado no chão. (...) Ainda patrulhei uns dez minutos, para averiguar se não haveria mais nenhum intruso no meu território.” (DAU, 2009, p.16-17). Entretanto, ao final, deixa-se o registro de uma vida desgarrada: “Tomei uma decisão, que faria questão de cumprir: da próxima que arranjasse uns cobres, iria comprar uma rede mosquiteira, em vez de os investir numas médias de cerveja” (DAU, 2009, p. 17). A crueldade das circunstâncias históricas que descartam aqueles que lutaram por um país independente ganha contornos imprevisíveis, às vezes hilários, no conto “Comandante Wambara”. Seu protagonista é destituído de suas atividades com a chegada da paz, “Capitão, estando o país em paz e seguindo as cláusulas do Acordo de Paz, não precisa de líderes guerreiros, por isso o senhor será desmobilizado” (DAU, 2009, p.49). Wambara perde a cabeça, agride seu superior, é preso e acaba louco quando sai da prisão. A partir daí, começa a comandar “enfurecidos soldados invisíveis” e passa a recrutar “vagabundos que habitavam a cidade”. Como era um exímio estrategista militar, seu exército passa a atuar como uma milícia, defendendo os cidadãos de marginais, mas cobrando uma taxa por isso. Ao final do conto, uma autêntica guerra é travada entre as forças nacionais e o exército de Wambara, que exige para ele e seus homens como acordo “a (re)integração no exército regular, com todas as regalias inerentes à sua patente” (DAU, 2009, p. 54). No que foi prontamente atendido. Do conflituoso e degenerado espaço urbano, percebemos que os contos de Dau adquirem um interesse maior na valorização do espaço rural em situações que nos levam a refletir a mundivivência das cidades; nas suas diversas formas de expressar as religiosidades; na rigidez de suas classes sociais e no poder do régulo, contrapondo-se ao desrespeito às pessoas em uma sociedade neoliberal e com escravistas relações de emprego – “Depois o régulo bateu palmas com autoridade. Senti inveja, gostaria de ter aquela autoridade, pois lá na cidade não passo de um simples empregado que tem de aturar o desaforo do patrão, que me humilha em frente aos clientes.” (DAU, 2009, p. 30). Maneiras de viver que diferem da correria descontrolada e da competitividade insana da vida urbana contemporânea que as narrativas de Alex Dau encontram ótimos resultados. É latente a tensão entre os espaços urbano e rural assim propostos nos textos de Dau: “Fiquei preso às minhas origens. Queria indubitavelmente redescobrir a terra que me vira nascer, encontrar a árvore que meu pai plantara, amar Midanga e esquecer a cidade que me roubara a alma” (DAU, 2009, p. 34). Apreendemos que no excerto final de “Minha alma gémea” há uma clara intenção de questionar o caos do cotidiano urbano onde vivemos, portanto, inferimos que seus contos, aproximando-se dos consagrados por Mia Couto, procuram trabalhar com as dicotomias “tradição e modernidade” e “o campo e a cidade” como espaço de reflexão crítica e matéria de engrandecimento literário. Recorremos a Francisco Noa que muito bem esclarece a presença da tradição no texto moçambicano: a tradição é enfaticamente convocada (...) – não só como factor regulador do caos individual e colectivo das personagens, mas muito especialmente como aspiração e afirmação de uma estética particular que configura a demarcação de um determinado território literário e cultural (NOA, 2008, p. 12).

Impressiona a naturalidade como o sobrenatural surge em seus contos, expande as nossas percepções diante de situações insólitas. Segundo o Prof. Noa, há “uma lógica outra na redimensionação do mundo assente na transcendência em relação ao que pode ser palpável e verificável e que desafia as convicções e experiências do leitor, alargando ou perturbando mesmo o âmbito do verossímil” (NOA, 2008, p. 10). Situação próxima da narrada em “Fracasso de N’Dani”, quando um leão (o espírito de um rei já falecido) disputa a mulher (Malia) que seria sacrificada com um jovem guerreiro: “Um leão rugiu, ao mesmo tempo que Samage clamava. A disputa começara, ambos disputavam a mesma mulher. Malia perdeu os sentidos quando viu o leão de juba grande avançar em direcção ao seu amado” (DAU, 2009, p. 20). É na inserção de fatos inusitados para nós, citadinos, que o texto de Dau flui com criatividade, reforçando a assertiva do Prof. Noa em relação à ficção moçambicana contemporânea e que não surpreende uma espécie de naturalização do sobrenatural que passa não apenas pela forma como são integradas as representações dos fenómenos transcendentes, mas sobretudo pelo modo como essa mesma transcendência se institui como totalidade enquanto ordem que inexoravelmente se impõe, da qual se precede e para a qual se caminha (NOA, 2008, p. 12). No conto que dá título ao livro, destaca-se a renovação das tradições através da escolha do novo régulo – “(Buzueque) Tornou-se o régulo mais novo de toda a região. Com apenas vinte e um anos fora incumbido da difícil missão de dirigir os seus semelhantes (...)” (DAU, 2009, p. 36) – e a permanência da fé nas religiosidades do interior do país, demonstrando que as soluções para as adversidades podem ser encontradas em suas crenças. A aldeia passava por dificuldade, pois “os espíritos de seus ancestrais estavam desgostosos com o seu povo, por estes na última colheita terem ignorado o ritual que sempre efectuavam e que consistia em fazer oferendas aos espíritos” (DAU, 2009, p. 36). Entretanto, a escolha do jovem régulo gera o boicote de um pretendente ao cargo, Ozias. Inescrupuloso, recorre à feitiçaria para impedir o líder legitimado de cumprir suas obrigações. Contudo, o mal jamais se perpetua e Ozias acaba sendo vitimado pela sua ação e a aldeia reencontra o caminho da perseverança: A víbora precipitou-se então em direcção a Ozias que acompanhava o grupo, e este, perante o flagrante, precipitou-se numa fuga. O réptil perseguiu-o, alcançou-o ferindo-o de morte. O mukutto recomeçou, o céu reabriu, o sol foi espreitando gradualmente, emitindo seus raios de lus dourados, que se reflectiam nas dentaduras encardidas dos Duanganas, que sorriam felizes (DAU, 2009, p. 38-39). Para finalizar, destacamos que é na reconfiguração dos sentidos, na valorização do ambiente rural frente às mazelas de um neoliberalismo avassalador e inspirador do que há de pior no Homem, dilacerando o respeito ao próximo, favorecendo o egoísmo e a ganância desmedida que o texto literário de Alex Dau intenta os nossos conceitos, a racionalidade para lá de questionável que nos move. As doze narrativas de “Reclusos do Tempo” contribuem, sobretudo, para mensurar o vigor da nova geração de escritores e intelectuais, galgando o seu espaço entre os grandes nomes da literatura moçambicana, mostrando que esta não morreu, mas sim sendo partícipes ativos do seu desenvolvimento enquanto sistema literário, por conseguinte, acompanhando o crescimento e a afirmação do país como nação soberana no oscilante e perverso jogo da pós-modernidade. BIBLIOGRAFIA: CHAVES, Rita. Eduardo White: O sal da rebeldia sob os ventos do Oriente na poesia moçambicana. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 163-188. DAU, Alex. Reclusos do Tempo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2009. NOA, Francisco. Tendências da actual ficção moçambicana. In: A letra, a sombra e a água – ensaios & dispersões. Maputo: Texto Editores, 2008. p. 8-14. NOA, Francisco. A literatura morreu em Moçambique. In: A letra, a sombra e a água – ensaios & dispersões. Maputo: Texto Editores, 2008. p. 128-134. SAID, Edward. Exílio intelectual: expatriados e marginais. In: Representações do Intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. SARTRE, Jean-Paul. (1965) Em defesa dos intelectuais. Tradução de Sérgio Góes de Paula. São Paulo: Ática, 1994. SECCO, Carmen Lucia Tindó. Entre sonhos e memórias: trilhas da poesia moçambicana. In: Poesia Sempre – Angola e Moçambique. Nº 23 – Ano 2006. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, p. 229-249

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Ideias Finais

Retalhos Um amigo em terras desconhecidas Eduardo Quive - Moçambique

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antos em algures da Ilha de Luanda durante a caminhada na calçada ainda em construção, encontrou-me a falar de peito trancado sobre quão custavame conhecer os nomes daquela cidade, sei que o lugar chama-se ilha, uma autêntica face do futuro que Luanda procura para si, investindo rigorosamente na (re)construção. Santos vem de longe, mas tão perto para si que muito gosta da vista marítima que acompanha os sons da maquinaria da Monta-Engil Angola. Lá vem o menino de 10. De lá vem para cá vai. Santos caminha para junto de um desconhecido que sou para si. Pára e conversa. Giro a sua volta e inicio uma nova marcha a favor da direcção que ele toma. Lado a lado, Santos conversa. Vai andando enquanto contempla a sua cidade que está ansiosa para o futuro. Inquilino da sua amizade, também converso feliz por ter achado, finalmente, um amigo nesta terra que me é difícil relacionar com as coisas, com as gentes, com os códigos e com as ruelas. Uns verdadeiros mussques ditos e bem descritos por Luandino Vieira nos derradeiros momentos da (re)novação de que Luanda é vitima. A ilha é mesmo um lugar inexistente. O potencial que este invisível cercado de mar tem é de embalar emoções Santos tem noção disso e por isso vai cantando e contando. _ Antes a estrada era aqui, agora é ali. Isto está mesmo a mudar – reconhece, Santos, o meu amigo. Ele conta-me que está a caminho de casa, mas antes passará de casa de alguns amigos. Diz-me que foi “enxotado” da sala de aulas porque não trazia o caderno da prova. Mas não é assim que contou. _ De onde vens? _ …da escola. _ Ah, que bom! Eu também estudo. A que horas entraste? _ Entro às seis horas. _ … E sais a esta hora? _ Não. _ Não! Então porque é que te encontras aqui? Fugiste? _ Não fugi, tinha prova. _ Então como foi? _ Não fiz porque não trazia o caderno da prova. Esqueci em casa. _ Como assim? Tu tens a prova e deixas o caderno em casa? Eu nunca deixo o caderno. O rapaz calou-se e consentiu, para de repente voltar à conversa. _ Em que escola você estuda? _Bem, eu estudo na Escola de Jornalismo em Moçambique. Sou moçambicano. Consideram-me jornalista. Santos levanta a cabecinha e olha-me já com desdém. “Não é possível que este gajo seja jornalista, está a gozar comigo” imagino que ele pensa enquanto continua com o riso irónico para a minha cara. Olho para aquele menino com emoção. “Ele é meu amiguinho” – digo para mim mesmo. _ Sabes que tenho um sobrinho assim como tu? Ele anda na 5ª classe. _ Tenho um amigo na 4ª e eu vou passar para li encontrar. _O meu sobrinho chama-se Helder e tu? _ Meu nome é Santos. Os meus amigos chamam-me de Kutchu, mas a minha mãe

A Conversa entre o Chá e a Solidão

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solidão: - já viste como a rua anda movimentada esses dias?

O Chá: - nem digas, logo que amanhece as pessoas colocam o pé fora de casa, algumas nem tem tempo de tomar o pequeno almoço como deve ser , outras nem tomam. A Solidão: é verdade. Outras fazem tudo por dinheiro , são capazes de matar, mentir, fingir gostar de alguem, até chorar. Para depois no final ficarem sozinhas com o dinheiro,mansões, carros de luxo que de nada valem quando tidos só, ou seja, podem servir até para ela comprar um homem mas já mais irá comprar o amor, amizade, afecto verdadeiro porque isso não se compra, conquista-se. O Chá: - os tempos mudaram meu querido amigo, as pessoas pensam que dinheiro compra tudo, quando falamos de amor nos dias de hoje já nem se sabe se ele existe. É certo que o dinheiro é importante para nossa sobrevivência no dia-a-dia: para comprarmos bens materiais, termos uma refeição condigna , mas ele não é tudo. A Solidão: - é isso ai meu companheiro, mas há pessoas que não entendem isso que cham que com o dinheiro podem fazer e desfazer e terem o que bem entenderem. Enfim, é assim que correm os dias de hoje O Chá: - sem dúvidas, não recordas do que dizia o magnifico presidente Samora M. Machel? A Solidão:

chama-me de Santos. _ Santos, grande nome! Eu também sou Santos. _Mentira… _ Pois, menti mesmo. O meu nome é Edu, Eduardo… Edu. _ És Eduardo. _ Isso mesmo. E vai se fazendo esta amizade enquanto contra-peamos a calçada olhando para o mar, os peixes, homens e as respectivas mulheres quase nuas. _ Eu vou daqui – aponta a estrada. _ E vais atravessar a estrada, sozinho! _Não. Estou contigo. Segurei na sua mão e atravessamos para a direcção que ele bem conhece. Apercebido que fui “vitima”das tentações deste grande amigo, já não me saem perguntas. Apenas cumpro ordens inspirado no letreiro da Base Marinha de Luanda cuja ilustração é do presidente José Eduardo dos Santos “Comandante em Chefe, às suas ordens. Ordene, ordene, ordene”diz o cartaz. Calo-me e contemplo. Angola é um país de ordens também! Santos bem sabe as dar. Ordena-me e eu cumpro. “Às suas ordens, Santos”. Caminhamos agora intercalando as casas sobrepostas, cheirando a peixe e outros mariscos com águas turvas à mistura. “Isto é Mafalala!” reconheço as igualdades. Aqui há cães vadios. Cães que atentam a moral, fazendo sexo na rua no olhar dos homens. Cães que matchimbam na rua atentando a saúde pública. Isto é mesmo Mafalala e Chamanculo, Unidade “7”, Urbanização, Maxaquene e etc. É daqui que saem os poetas, dançarinos, timbileiros, actores e outros grandes artistas. Mulheres cobertas de capulanas sentadas de pernas para o ar conversam num silêncio inquietante. As raparigas, mulheres adultas e crianças, decoradas a moda Tchuna-Baby, vão mostrando as suas pernas decoradas de varizes que nem se quer respeitam a idade. Aqui, os homens andam sem camisas e as raparigas apenas de panos que só lis cobre os seios. É tudo gente de Santos. Enquanto caminhamos ele saúda essa gente. Os homens de calções e descamisados, uns com peixes nas mãos, mulheres de mini-saias e jeans rasgado. Mulheres adultas na moda. São todos conhecidos de Santos. Casa pintada a cor-de-rosa e com antena de TV digital é da sua avó. E me mostra esses lugares, o meu amigo, preocupado em apresentar-me, principalmente à sua tia-mãe, como ele intitula e à sua mãe. Chegados no seu beco, Santos saúda a sua tia que o indaga sobre o porquê de estar ali naquela hora “já para casa”, vociferou. Logo na porta da varanda, o único quintal que a casa tem, saúda uma mulher que não consigo ver o rosto. É sua mãe. Calado, senti que era aquele, o fim da nossa amizade, pois aos que me perguntavam apenas dizia que o ajudava a atravessar a estrada. Ele apresentou-me as pressas à sua mãe que zangada pela sua chegada antes da hora habitual, nem se que presta-me alguma atenção. _ Ele é meu amigo mãe. Da sala saia uma menina. Tão linda! Devia ser irmã de Santos. Olha para mim e pisca os olhos em jeito de saudação. Que criança linda e espertinha! Mas não me alongo, dispenso-me da família e do meu grande amigo, o Santos. Dia inesquecível este 17 de Abril de 2012. Dia ímpar naquela ilha anexa à cidade de Luanda onde nem amigos tinha, além de poetas. Agora, um já figura a minha lista. Seu nome é Santos. Celso Munguambe - Moçambique

- não, o que? O chá: - “ um ambicioso é capaz de tudo, vender a pátria só porcausa da sua ambição, do seu interesse individual. Não sei se um ambicioso muda, mas a minha experiência prova que não, muda de táctica, mas não elimina a ambição”. A Solidão: - e alguns venderam mesmo, sem dó nem piedade e venderam também a vida de um homem, que era um impecílio para os seus interesses gananciosos... é melhor eu para por aqui antes que comece a falar coisas que não devo O chá: - é verdade se não vais acabar como o jornalista ou aquele do ex Banco Austral que agora é Barclays. Mudando de assunto, é de notar também alguns aspectos positivos. A Solidão: - quais? O Chá: - a nossa gente tem sonhos, é trabalhadora batalhadora e perseverante. A Solidão: - é verdade pode perder a batalha mas não perde a guerra. O Chá: - com muito barrulho e várias greves os orgãos competentes acabaram por reabilitar a principal via de acesso a cidade de Maputo e que da acesso as outras provincias do nosso país. Promoveram também a recolha de lixo na cidade e arredores, montaram postes de iluminção em algumas ruas, enfim... A Solidão - não fez mais do que o seu trabalho...

22 | 17 de Agosto de 2012

Revista Literatas  

Revista de Literatura Mocambicana e Lusofona

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