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Comissão Nacional de Moçambique Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 01 de Junho de 2012 | Ano II | N°31 | E-mail: r.literatas@gmail.com

“África padece de um excesso de história”

Torpor da nova poética caboverdiana. Pág 04 Por Filinto Elísio

"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo." Giacomo Leopardi

Entrevista a João Paulo Borges Coelho

Hoje é dia Internacional da Criança


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Editori@l FICHA TÉCNICA

Podridão na literatura moçambicana!

M Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Direcção e Redacção Centro Cultural Brasil - Mocambique

Av. 25 de Setembro, N°1728, C. Postal: 1167, Maputo Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 117 117 Fax: +258 21 02 05 84 Fax: +258 21 02 05 84 E-mail: kuphaluxa@sapo.mz E-mail: kuphaluxa@sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu (nelsonlineu@gmail.com) Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane (jarijuane@gmail.com) Cel: +258 82 35 63 201 EDITOR Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Cel: +258 82 27 17 645 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 REPRESENTANTES PROVINCIAIS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa COLABORADORES FIXOS Pedro Do Bois (Saranta Catarina-Brasil), Victor Eustáquio (Portugal), Mauro Brito COLABORAM NESTA EDIÇÃO João Tala - Angola Rosália Diogo - Brasil Nélio Nhamposse - Maputp Vivaldo Torres - Brasil Patrícia Raphael - Brasil Fernando Aguiar - Portugal Adelto Gonçalves - Brasil Frederico Ningi - Angola COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) Nelson Lineu - Maputo FOTOGRAFIA Arquivo — Kuphaluxa Eduardo Quive ARTE E DESIGN Eduardo Quive PARCEIRO Centro Cultural Brasil—Mocambique

uitas vezes as coisas que neste país acontecem chegam a aborrecer. Chega a fluir nervos de tanta invalidez de algumas coisas. O amigo leitor com certeza não entende o motivo deste aborrecimento! É que soube de pessoas próximas que existe um prémio literário da EDM- Electricidade de Moçambique, denominado PAWA e que ontem, 31 de Maio, foi tornado público o seu vencedor e até premiado numa cerimónia decorrida no Centro de Conferências Joaquim Chissano em Maputo. Vejam só, existe um concurso que se destina à criadores literários, mas que só um grupo é que tem acesso à essa informação e os demais, caso a sorte os convém, só tomam conhecimento do mesmo no dia em que se premeia ao tal vencedor, neste caso, uma vencedora. Bem, o objectivo aqui, não é falar da vencedora, mas do que norteia esse tal concurso, sobre a sua existência e conhecimento que público tem sobre o mesmo. Não se justifica que coisas como um concurso sejam monopolizadas e reduzidas a um pequenito grupo de pessoas e que nem se quer os que circulam pelos cantos da escrita tenham conhecimento. Isto é uma tremenda borrada. Penso que a EDM, empresa que encabeça este concurso, deve tomar medidas de modo a cortar este mal pela raiz. Essa é que deve ser a atitude de uma empresa pública que quer-se como séria nas acções que desenvolve. Caso contrário que seja esclarecido ao público que o tal prémio é destinado a uma única pessoa ou aos nhamas, como diz sempre que pode, o economista João Mosca. E mesmo avançando por estas directrizes, dos concursos, para a satisfação dos artistas dos diversos ramos culturais, o FUNDAC – Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural, realizou uma reunião nacional com os dirigentes dos sectores culturais onde, para a minha própria satisfação, foi convidada a revista Literatas e o Movimento Literário Kuphaluxa para darem o seu contributo à importantes instrumentos que ditam o funcionamento daquela instituição. Eram assuntos desse encontro, a apresentação do Plano Estratégico da Cultura 2012 -2022, a discussão do Regulamento de Assistência Financeira à Produção Artística e Cultural, Regulamento Geral dos Prémios FUNDAC, este último ponto que mereceu o realce sobre a necessidade da sua maior divulgação, visto que à semelhança do concurso PAWA, apenas um grupinho tinha acesso. Bem-haja o Conselho de Administração do FUNDAC que apoia à arte e aos artistas que decidiu sentar à mesma mesa com os protagonistas oriundos de todas províncias do país. Infelizmente, os assuntos acima referenciados, não constituem o foco desta edição, mas, mesmo assim, invariavelmente importantes e, por conta disso, necessário que venham ao conhecimento dos sagrados leitores. Pois bem, hoje que se celebra o dia da criança e porque ninguém se desassocia de si até quando quer ser outra coisa, como ficcionista, por exemplo, João Paulo Borges Coelho, um autor que suscita grandes debates entre corredores literários sobre a sua imposição como escritor, realça que as marcas da história como ciência, não o impede de assinar um acordo com o leitor em que “o escritor finge dizer a verdade e o leitor finge acreditar”. Para João Paulo Borges Coelho, que destaca-se na literatura moçambicana, embora ter se iniciado neste milénio, acrescenta: “verdadeiro é o sal que resta no fim de toda a invenção, verdadeiro é o que o leitor retira da leitura.” E pronto, caro leitor, está aí a dica, leia-nos e retira da leitura, o verdadeiro. Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com


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Destaque V Mostra de Literatura-Afro-Brasileira movimenta Belo Horizonte

Cláudia Caldeira Soares, Cláudio Eduardo Alves, Mara Catarina Evaristo, Patrícia de Souza Santana, Rosa Margarida de Carvalho Rocha e Rosália Diogo

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ntre os dia 21 e 26 de maio, a Secretaria Municipal de Educação, realizou a V Mostra de Literatura Afro-Brasileira. O evento, que agitou vários espaços culturais, estudantes, profissionais da educação e interessados é também uma oportunidade para a apresentação do KIT de Literatura Afro-Brasileira. As Mostras já realizadas - em 2004, 2006, 2007 e 2010 -demonstraram que esse espaço consegue estabelecer diálogosformativos com a comunidade escolar, que potencializam umaconstrução de novas posturas diante do preconceito e dadiscriminação que ainda permeiam o cotidiano das escolas. Alémdisso, ações como essa, de cunho literário, têm sido importantespara estimular novas leituras, novos leitores e escritores. A V Mostra de Literatura Afro-Brasileira de 2012 está estruturada em três eixos: letras que se inscrevem no corpo; letras que se inscrevem no território; letras que se inscrevem no silêncio. As letras se inscrevem no corpo na medida em que o homem, por si, tem o dom de mostrar ao mundo a beleza, nos seus aspectos de intensidade mais sublime. A criatividade e a inventividade se iniciam pelo corpo humano. Esse eixo se materializará na formação do I Encontro “A Escola na Roda da Capoeira”, que será realizado com a colaboração do Festival de Arte Negra (FAN), que também está em curso na cidade. As letras se inscrevem no território em razão de o meio social ser um espaço fulcral para que os homens se conscientizem da necessidade de uma visão ecológica em âmbito planetário. Essa visão ecológica imputa mulheres e homens a reconhecerem e respeitarem as diferenças. Esse eixo se materializará na realização da ação Território Negro. As letras se inscrevem no silêncio, pois é ele que possibilita momentos reflexivos e de interiorização de novos conteúdos e fenômenos à nossa volta. A partir dessa introspecção, aventam-se possibilidades de reorganizar ideias e lugares. Esse eixo será contemplado nas ações e atividades da Mostra que promoverão momentos

de reflexão e debates. O formato da V Mostra está mobilizando aproximadamente oito mil participantes (estudantes, professores e demais integrantes da comunidade escolar), incluindo a Educação Infantil. A mostra está se consolidando como espaço de diálogos literários e de apresentação dos equipamentos da cidade de Belo Horizonte e alguns do Estado de Minas Gerais, que guardam as memórias e as histórias afro-brasileiras e indígenas. As atividades ocorrem pela manhã, a tarde e a noite. As inscrições para cada evento estarão relacionadas ao tipo de atividade, ao público a que se destina e número de vagas disponíveis.


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Destaque Torpor da nova poética cabo-verdiana necessária exegese a que nos convidou o Museu de São Roque, Filinto Elísio - Praia colocando a África e a Cultura no Fonte: Buala.org centro da reflexão e do debate, será mais um importante contributo para, juntos e de mãos concêntricas, pensarmos a Cultura, ou se quisermos as Culturas Africanas na sua condição estruturante e na sua realidade circunstancial.

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Apesar de propostas e projectos literários ousados, crê-se ainda cedo para assegurar a grandeza desta nossa nova geração. Entretanto, se declinasse as minhas preferências por dois poetas cabo-verdianos, eu não teria dúvida de incluir entre eles o nome do meu contemporâneo José Luis Tavares. A sua obra, desde O Paraíso Apagado por um Trovão, induz-me a que nela encontre a moldura para espelhar a dimensão desta nova geração consolidada à margem do rio Claridoso, tendência nascida de alguns da geração da transição como em João Vário, Arménio Vieira, Mário Fonseca e Corsino Fortes. Estes se posicionam, de uma banda, no lapidar da palavra pela impassibilidade, resistência à porosidade, com alguma impermeabilidade ao sentimentalismo nas suas toadas e, de outra banda, se alinham na concepção da palavra enquanto organismo vivo: a palavra-homem, a antropo-palavra, a palavravegetal, a palavra-animal, biodiversidade em toda a dimensão, inclusive social e política. Resume-se que seja uma geração presente e premente, uma geração ainda «on call», de modo que, mau grado alguns rasgos que nos interpelam à euforia, não nos impressionemos com as análises apressadas, com a troca de favores valorativos da imprensa e com os circuitos de marketing editorial, ora que se nos afrontam a Academia de Letras Cabo-verdianas (ideário a ser projecto) e a feitura da História da Literatura Cabo-verdiana, já de conhecimento público. Aqui as escolhas precisam ser cuidadosas e ponderosas para que não tenham efeitos perversos e turvem a água benta da literatura que os cabo-verdianos hoje fazem. Certo é que o artesanato dos novos poemas está seguramente comprometido com os padrões de qualidade da modernidade literária. Portanto, estão aqui uns cabo-verdianos não claridosos que fazem uma poesia inquieta e inquietante, que levam os leitores a olhar Cabo Verde, através do texto, com seriedade e ansiedade. Sereno e ciente de ficar aquém do que se espera de um texto de estudioso, pois que, para meu alegre espanto, os novos dados são o afrontamento permanente. Leio Cabo Verde: Antologia da Poesia Contemporânea, de Ricardo Riso, com a participação de «novos poetas»: Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Margaridas Fontes e Maria Helena Sato. Antes, tivera em mãos «Destino di Bai: Antologia de Poesia Inédita de Caboverdiana», de Francisco Fontes, com Carlos Araújo, Eileen Barbosa, Paulino Dias, Anita Faria, Tchalê Figueira, Margarida Fontes, Adriano Gominho, Lay Lobo, , Chissana Magalhães, Jorge Miranda, Valdemar Pereira, Maria Helena Sato, Luiz Silva, Artur Vieira, José Maria Neves e Elisa Schneble. Novos fluíres poéticos, em que os originários do Movimento Pró-Cultura - alguns: Danny Spínola, Filinto Elísio, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio Sousa, José Vicente Lopes, Kaká Barbosa, Vasco Martins, G. T. Didial, Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca, e também do “movimento” actual dos blogues literários – outros, onde se incluem Paulino Dias, Chissana Magalhães, Lay Lobo, Eileen Barbosa e Margarida Fontes – há sim clara imparabilidade das letras cabo-verdianas. Despretensioso, humilde e talvez imperfeito, ficam estas linhas, mera tentativa de fixar um olhar novo, e quem sabe diferente sobre as letras cabo-verdianas, que é rica hoje por ter a Claridade e a Não Claridade, algo que ainda escapa à generosidade de um certo olhar que insiste no exotismo e no folclorismos para com a escritas dos nossos homens grandes, como o foram outrora Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Gabriel Mariano e Ovídio Martins e ora são Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio, Valentionous Velhinho e José Luís Tavares. E será com esta nova gente que nos alinhamos na nova África, na renascença de uma Africanidade diferente, outra e emancipada, que não tem pejos, nem esteios de colonizados, nem complexos encravados de identidade; será com esta gente de liberto pensamento e de discurso livre, enquanto África múlplica e plural, ao tempo que assume suas especificidades, que nos assumimos, transculturais e mestiços, prontos para a intermediação do diálogo entre todos os mundos, inclusive com aquele que também nos é de pertença, que é o da Cultura de matriz Ocidental, pela sua vertente também da lusofonia, pátria maior de Fernando Pessoa e de todos nós poetas que inquilinos também desta língua que transcende. Espero ter entrado na essência da questão, com a antropofagia que me move, enquanto ser cultural dos mundos, ou bem no diapasão do poeta Manoel de Barros, um dos expoentes que me ilumina, em como «Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto».

Participar da reflexão e do diálogo em torno da produção cultural africana na contemporaneidade, em particular nos países de língua oficial portuguesa, constitui uma forma de darmos o nosso modesto contributo para o problematizar à luz das outras culturas do Mundo, nomeadamente, quando por indicação do presente enfoque, das Culturas de matriz Ocidental. Cientes de que os encontros não são inocentes, nem derivam de insólitos, mas sim resultantes de opções e de escolhas, pelo que afirmam produções de pensares e de saberes em prol de causas e de objectivos pré definidos. Por conseguinte, o apelo do Museu de São Roque para que reflictamos e debatamos Africanidades, suas correlações e articulações - abrindo espaço para que, no vaticínio de Amílcar Cabral, o possamos fazer com as nossas próprias cabeças -, é importante, relevante e consequente. Este apelo vem resignificar, de forma muito particular e assertiva, a razão efectiva (e não inocente, repita-se) de estarmos aqui e agora neste encontro. Perante temática tão vasta quão caudalosa, guardarei as minhas margens pela literatura cabo-verdiana, onde me encontro, com ressalva de escritor, puro esteta se preferirem, e não como estudioso, campo de labor de personalidades como Simone Caputo Gomes, Alberto Carvalho, Elsa Rodrigues, José Luís Pires Laranjeira, Fátima Fernandes, Benjamin Abdala Jr., João Lopes Filho, Manuel Brito-Semedo, Ricardo Riso e José Luís Hopffer Almada, entre vários outros pesquisadores, estudiosos e ensaístas que tanto admiro. A mesma admiração que em mim percorrem os textos críticos sobre as letras cabo-verdianas de Jaime de Figueiredo, Amílcar Cabral, Manuel Duarte, Onésimo Silveira e Manuel Ferreira, sobre outros prismas e por outas temporalidades. Não sendo apologista de classificar a Literatura Cabo-verdiana pelo viés cronológico, nem acreditando haver suficiente virtude que a literatura em Cabo Verde esteja estratificada em três grandes períodos – pré-Claridoso, Claridoso e Pós Claridoso -, quero crer que há outras e múltiplas formas de olhar esta produção literária que, há mais de dois séculos, tem vindo a marcar o seu espaço no contexto da lusofonia e que, desde a Independência Nacional, há pouco mais de trinta e seis anos, se densifica por produções mais modernistas e mais «aggiornadas» com as letras de recorte universalista. Abordo aqui de uma literatura que não se pontifica como pós Claridosa, mas que é assumidamente não Claridosa, isto é que não tem a Claridosidade como seu eixo central e muito menos seu fio condutor. Aliás, esta não é apartada daquela, em sua correlação, mas, fazendo jus a alguma identidade, o dom de não ter mote, nem modo claridosos, não se policiando pelos cânones nem dos precoces nativistas, parnasianos e românticos, nem dos realistas, neo-realistas e nacionalistas que compõem as várias gerações que trocam testemunhos na brilhante estafeta do fazer literário até os anos setenta do século XX. Mesmo a geração transicional do Cabo Verde colonial ao Cabo Verde soberano – onde se pontificam escritores como Mário Fonseca, Arnaldo França, Oswaldo Osório, Onésimo Silveira, Joao Vário, Corsino Fortes e Arménio Vieira -, ao cumprirem a travessia da Independência Nacional, refazem o seu lócus poético que já não fica incólume à nova realidade/ambiente, que entorna o esteta das letras. Tal geração, assumindo novas trincheiras da alma, tal qual no-la explica Octávio Paz, em «O Arco e a Lira», se torna demiurgo de uma nova luz que questiona a escuridão geral do universo pós Independência. E faz, por ventura nossa, a tormentosa pergunta (o que é a poesia?), e todas as respostas levam-na a uma interrogação ainda mais esfíngica, porque ontológica e existencial. Uma pequena incursão pelo livro «Mon Pays Est Une Musique», de Mário Fonseca, nos deixa perceber que os novos sangramentos da alma poética crioula já são de dilema entre a comunhão ontológica e a alteridade existencial. E o que acontece depois do Movimento Pró Cultura, nova primavera literária caboverdiana, liderada em meados dos anos 80, do século passado, por José Luís Hopffer Almada? Ainda sem estudos consequentes (tanto da academia, como da fortuna crítica), deste Movimento de maior respaldo cultural no período pós Independência, dele resultam alguns dos poetas cabo-verdianos do momento, tais como o próprio Hopffer Almada, Daniel Spinola, Jorge Carlos Fonseca, Filinto Elísio, Mário Lúcio, Valentinous Velhinho, José Vicente Lopes, António de Névada e José Luís Tavares, entre os mais conhecidos. Filinto Silva (Praia, Cabo Verde). Poeta, romancista e ensaísta. Tem oito livros publicados – a saber: O Jornal Arteletra, o Caderno Folha de Letras do Jornal Voz di Povo e as revis- "Do Lado de Cá da Rosa" (poesia), "Prato do Dia" (crónica), "O Inferno do Riso" (poesia), "Das Hespéritas Fragmentos e Sopinha do Alfabeto, mas antes Ponto & Vírgula, importantes des" (fotografia, poesia e crónica), "Das Frutas Serenadas" (poesia), "Li Cores & Ad Vinhos" (poesia), publicações literárias (et pour cause, culturais) cabo-verdianas revelaram talen- "Outros Sais da Beira-Mar" (romance) e "Me_xendo no Baú.Vasculhando o U" (poesia) – e mais três tos surpreendentes, como o de Germano Almeida, Jorge Carlos Fonseca, Vera outros no prelo – "Diversa Prosa de Quase Verso" (miscelânea), "Conchas de Noé & Arcas Duarte, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, Vasco Martins, José Vicente Lopes, Ostras" (cantos, contos e causos) e "Caliban Driblando Próspero em Amazónia". Actualmente, exercendo a função de Conselheiro do Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Filinto Elísio já foi assessor do Ministro da Luís Silva e Mário Lúcio, por exemplo. Cultura de Cabo Verde e professor de matemática em Boston e Somerville, nos Estados Unidos da AméJá a revista Raízes disseminou poetas como Corsino Fortes, João Varela/ rica. Membro da Associação dos Escritores Cabo-verdianos , ele é também membro-correspondente da G.T.Didial, Arménio Vieira, Vera Duarte, Oswaldo Osório ou Paula, pseudónimo Academia Cearense de Letras e da Academia Imperatrizense de Letras. de Paula Vasconcelos.


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Destaque Dimas Simas Lopes: O coração da escrita

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caba de lançar o seu primeiro livro Sonata para um viajante, com o subtítulo: Há em todos um Ulisses diletante para uma Odisseia. Chama-lhe ficção, realidade e vida. Pretexto para uma conversa com o médico açoriano, que é também pintor, escultor e um melómano convicto. O JL traça-lhe o perfil A música é a mãe de toda a sua criação. A pintura e a literatura são as filhas. Depois há ainda uma prima, a escultura. "É tudo uma grande família", diz, entre gargalhadas, Dimas Simas Lopes, 66 anos acabados de fazer, a propósito da multiplicidade de projectos que toma entre as mãos. Convém não esquecer que é médico, cardiologista, dono e director da única galeria de arte contemporânea da Terceira, nos Açores, a Carmina.

FLIAFRO Minas 01/06, sexta-feira, 16h – Mesa Redonda 9 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA: textos, estéticas e políticas educacionais - Lia Vieira (escritora) - Miriam Alves - Waldemar Euzébio - Jussara Santos - Conceição Evaristo Debatedor: Eduardo de Assis Duarte (UFMG) Coordenadora: Maria Nazareth Fonseca (PUC Minas)

Conta histórias atrás de histórias, umas por dentro das outras. "Nunca me esqueço de...", diz muitas vezes e talvez tenha sido para fixar algumas recordações que escreveu Sonata para um Viajante (ver caixa). "Foi muito interessante bater às portas da memória. Na escrita, como na pintura, na escultura ou na vida, nunca podemos fugir de nós próprios", acrescenta, citando a célebre frase de Flaubert Madame Bovary c'est moi. "Abel é então Dimas?", perguntamos. Um sorriso, e a resposta: "Com este livro voltei a ser menino". Viveu uma infância que já não há. Sem televisão, sem computador, com muita imaginação e liberdade. Nascido em Biscoitos (Praia da Vitória), na Terceira, em 1946, Dimas, que tem três irmãs mais velhas - ficava preso nas vidas dos "heróis da terra". Para ele, o baleeiro, o pastor de gado bravo ou mesmo o artista de circo - que aparecia só de vez em quando - eram verdadeiros modelos. O pai, um pequeno viticultor que tinha uma mercearia, e a mãe, doméstica, filha de lavradores de poucas terras, encorajaram nos filhos o gosto pela descoberta. Ainda muito novo, viu muito cinema: "Nessa altura havia uma ou duas sessões por semana. E vi Fellini, Visconti, Ford... Deixavam-me entrar, sorrateiramente, fechando os olhos ao facto de não ter ainda idade para isso". De Biscoitos a família rumou até Angra do Heroísmo, onde fez a escola primária e o liceu. Depois, veio estudar para Lisboa. "Foi um deslumbramento", diz. Não com os estudos, mas com as actividades associativas, as tertúlias nos cafés, os passeios, os concertos e o teatro. Da Química, que abandonou, passou para a engenharia Química, em que chumbou - e foi chamado para a tropa. Recruta em Mafra e dois anos na guerra colonial: "Na Guiné, sob o comando de 'Caco Baldé', como chamavamos ao Spínola. Não foi das experiências mais felizes da minha vida, mas sobrevivi". Regressado a Portugal voltou à vida de estudante. Encheu-se de brios, assentou praça em Coimbra e formou-se em Medicina. Com o segundo ano do internato hospitalar quase completo voltou aos Açores. Morrera-lhe o pai, a mãe ficara só e o filho quis acompanhá-la. Ali viveu o terramoto de 1 de Janeiro de 1980, que muito o marcou e do qual fala no livro. Só mais tarde, em 1983, com 37 anos, casou. "Infelizmente não temos filhos. E acho que essa é outra das razões pela qual sempre me envolvi em muita coisa". A pintura foi uma delas. Quem mais lhe despertou e gosto por ela e o "ensinou a conhecer as ferramentas da arte, os pigmentos, os primários, os pincéis", foi o pintor espanhol Enrique Valero, que durante 25 anos viveu na Terceira. E começou a pintar um bocadinho às escondidas, pois nessa altura já era chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital de Angra: "Quando não estava de serviço no hospital, fechava-me no meu céu, a explorar as telas, a ver o que poderia sair dali.". Em 1991, foi fazer um estágio no Hospital Central La Paz, em Madrid. Voltou a contatar com o seu 'mestre' Valero, visitou todos os museus, viu pela primeira vez, ao vivo, obras dos grandes pintores e ouviu muita música. No ano seguinte fazia a sua primeira exposição, em Angra, a que se seguiram dezenas de individuais e coletivas em várias cidades portuguesas e nos Estados Unidos, no Brasil e Itália. A cor da palavra, O outro lado da terra, O ouro e os mitos ou Sinais da matéria são títulos de algumas das suas séries (está representado na exposição de homenagem a Fernando de Azevedo, na SNBA, em Lisboa, até 30 de abril). A escultura apareceu mais tarde, em 1998. E tem obras de "arte pública" em vários locais. Entretanto, durante 14 anos - de 1995 a 2009 - integrou a direção do Instituto Açoriano de Cultura, sendo o responsável pelas artes plásticas. E organizou mostras de pintores que nunca tinham exposto nas ilhas. Júlio Pomar a primeira escolha. Seguiram-se muitos outros artistas, como Paula Rego, Graça Morais, Pedro Cabrita Reis ou Julião Sarmento. "Aprendi muito e ficou-me um certo vício de montar exposições. E daí nasceu a Carmina. Só havia uma galeria em Ponta Delgada e era necessário um espaço onde os mais novos pudessem expor. É o que, desde 2004, tentamos fazer. Um caminho duro, difícil, mas vamos resistindo". Neste momento, está com saudades de voltar à pintura. "Sinto que a traí enquanto escrevia o livro", diz a rir. Longe de qualquer traição está a sua eleita música. Mozart, Schubert, Pergolesi, Mahler Wagner, Stravinski, Shostakovich e tantos outros que sabe de cor. Não toca nenhum instrumento nem tão pouco canta. Mas, remata em jeito de mantra, "seguirei a música pela vida fora".

FONTE: JORNAL DE LETRAS

01/06, sexta-feira, 17h30 – Bate-papo Literário Lançamentos de livros, CDs e DVDs - Sessões de Autógrafos 01/06, sexta-feira, 18h30 – Mesa Redonda 10 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA: textos, estéticas e políticas educacionais

- Vera Duarte (Cabo Verde) - Kandjila (Angola) - Melissa Schlinder (State University of New York - Buffalo) - Pedro Matos (Cabo Verde) Debatedor: Camilo Afonso (Casa de Angola) Coordenadora: Sônia Queiroz (UFMG) 02/06, sábado, 9h – Mesa de Escritores(as) LITERATURAS AFRICANAS E AFRO-BRASILEIRA: diálogos e desafios / Bate-papo com Autores(as) Convidados(as): Lia Vieira Miriam Alves - Waldemar Euzébio - Jussara Santos Conceição Evaristo - Kandjila (Angola) - Pedro Matos (Cabo Verde) Debatedor: Ricardo Riso (Crítico) Coordenador: Abdelasy de Sousa (São Tomé e Príncipe; UFMG/Rádio UFMG) 02/06, sábado, 10h30 – HOMENAGEM ESPECIAL Homenageados: Leda Maria Martins (UFMG) e Ailton Krenak (Povo Krenak, MG) Coordenadora: Iris Amâncio (UFF;UFMG; NANDYALA Editora) 02/06, sábado, 11h – CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO Conferencista: Nilma Lino Gomes (UFMG/FaE; CNE) Coordenadora: Sandra Tosta (PUC Minas) 02/06, sábado, 11h30 – ENCERRAMENTO Lançamentos de livros – Sessão de autógrafos Confraternização


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Vivaldo Torres - Brasil O mundo moderno está agitado Com seus carros velozes e a televisão! Os computadores mostrando e fazendo, Apesar de tudo isto... Esta faltando amor em nossos corações. O homem moderno não sabe o que quer, Fica indeciso e sem decisão. Enquanto a ciência se multiplica, Esta faltando amor em nossos corações. A mídia apresenta feitos notáveis. Descobri-se um planeta com luz e calor. No Paquistão e na Índia ouve-se terremoto. Enquanto isto em nossos corações, Esta faltando o essencial, Esta faltando amor. No Iraque um só homem bomba, Conseguiu matar vinte pessoas, O que causou tristeza e muita insatisfação, Isto quer dizer, Que esta faltando amor em nossos corações. O homem moderno não pode deixar, Que a ciência evolua e ele não, Enquanto ele pensar assim, Esta faltando amor em nossos corações.

Atravessar o Silêncio Amosse Mucavele - Maputo A memoria e um inferno provisório onde os nossos dias vistam constantemente . na penumbra de um mar de esquecimento ladeado de flores que brilham ao som do silencio.e ao entardecer.a neve embarca no murmúrio da agua que bate nas pálpebras das pedras na solene viagem do nada.e para alem do sal derramado nas margens, não via-se mais nada, pois o cinzento abacanhou a melancolia do céu que outrora fora azul. e difícil e, descortinar este lado invisível da distancia que nos assiste .A ilha que nos espera e feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar-mil uma visões espalhadas no útero do passado ,uma musica embalada de presentes toca incansavelmente na febre do navio-onde e minha casa? E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas da tempestade.

Poema 37 Patrícia Raphael - Brasil Numa manhã, ele veio Na seguinte também, veio A pobre moça suspirava de felicidade... E em um dia a alegria tranquila e desejada...

O moço vinha ao seu encontro... triste! Ele há perdeu!

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TROMPAS UTERINAS / BRAÇOS DO MUNDO

Poesia ESTÁ FALTANDO AMOR

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JOÃO TALA - Angola

PROCESSO Fernado Aguiar - Portugal

ouço o recomeço acostumada seara de grãos rompidos ainda. as grandes mãos do mundo fixam sementes, algarismos

(Para o Álvaro de Sá)

Escreveu os versos na folha mas não gostou. Amachucou e pôs de lado.

palavras cervicais húmus sobre terra húmida, é esse o caminho que atinge ovários pela boca da labareda.

Tentou outra versão que também não agradou. Amachucou e pôs de lado. Insistiu, sem conseguir o efeito desejado. Amachucou e pôs de lado. Repisou de novo sem resultado. Amachucou e pôs de lado. O poema teimava em não o ser. Desanimado, amachucou e pôs de lado. Ficou sem folhas para escrever. Mas o poema estava pronto. Terminado. Mesmo ali ao lado.

Do Poemário FORNO FEMININO

A Casa Conceição Lima - São Tomé

Aqui projectei a minha casa: alta, perpétua, de pedra e claridade. O basalto negro, poroso viria da Mesquita. Do Riboque o barro vermelho da cor dos ibiscos para o telhado. Enorme era a janela e de vidro que a sala exigia um certo ar de praça. O quintal era plano, redondo sem trancas nos caminhos. Sobre os escombros da cidade morta projectei a minha casa recortada contra o mar. Aqui. Sonho ainda o pilar uma rectidão de torre, de altar. Ouço murmúrios de barcos na varanda azul. E reinvento em cada rosto fio a fio as linhas inacabadas do projecto.

Frederico Ningi - Angola


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Entrevista

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FONTE: www.buala.org | Por Cármen Tindó Secco

“Vivo um tempo póscolonial, mas tenho o privilégio de ter a memória de um tempo colonial”*

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oão Paulo Borges Coelho é historiador. Ensina História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Actua como professor convidado, no Mestrado em História de África da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e no Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra. Temse dedicado à investigação das guerras colonial e civil em Moçambique. Literariamente, estreou como escritor, em 2003, com o livro As duas sombras do rio, e, já no ano seguinte, recebeu o Prémio José Craveirinha, um dos mais importantes no género, em seu país. Desta data em diante, publicou praticamente um livro por ano, todos pela Editorial Caminho: As duas sombras do Rio (2003), As visitas do Dr. Valdez (2004), Índicos indícios I. Sententrião (2005), Índicos indícios II. Meridião (2005), Crónica de Rua 513.2 (2006), Campo de Trânsito (2007), Hinyambaan (2008). A maturidade e a riqueza da ficção de João Paulo despertam o interesse de muitos estudantes e pesquisadores, tendo também motivado esta entrevista que, com certeza, será de grande valia aos que se debruçam sobre a obra do escritor. Fale um pouco de sua história pessoal, de sua identidade plural, já que nasceu no Porto (Portugal), em 1955, mas, tendo vivido durante muitos anos em Moçambique, optou pela nacionalidade moçambicana. Muitas vezes me fizeram esta pergunta, e confesso que ela me causa um certo desconforto. Não no sentido que seria de esperar, pois me sinto bem na minha pele, (salvo as ocasionais angústias que invadem a todos nós e não temos como evitar), mas, antes, na medida em que, como muitos já disseram, existe uma relação directa entre a visibilidade do texto e o apagamento do autor. Sinto-a, pois, como uma “invasão de privacidade”. Mas, enfim, o que posso responder é que a minha nacionalidade resulta muito mais de uma condição que de uma opção (digo isso sem pretender retirar nobreza ao acto de optar). Tenho família há muitas gerações nos dois países e, dessa condição, me vieram fios cruzados daquilo que se pode designar de sentido de pertença física à terra e uma substância cultural da qual decorre uma visão do mundo. Foi em Moçambique que tive consciência de pertencer fisicamente a uma terra, enquanto que uma parte importante e não renegada da minha cultura é portuguesa. Isso a que chama pluralidade é, pois, um ponto de partida, e não de chegada: não escolhi, “nasceram-me” assim. Isto não tem nada de extraordinário, uma vez que é cada vez mais comum pelo mundo todo, embora o continente africano, por razões que levariam tempo a explorar, seja ainda, infelizmente, mais um espaço de partida que de chegada. Já agora, deixe-me dizer que a procura da chamada “pureza” (da origem, da raça…) é sempre uma construção, e sempre de desconfiar. O que a faz mover são, não só propósitos nostálgicos que têm que ver com mecanismos de defesa, e, portanto, reveladores de fraqueza, mas também – o que é cada vez mais frequente – manipulações obscuras, religiosas ou políticas. Ultimamente tudo se cruza na terra. É, portanto, inevitável que os seus habitantes também o façam. A resistência a esta tendência carece muito mais de explicação que a tendência em si. Essa duplicidade identitária se reflecte em suas obras ficcionais? De que modo? Pelo que fica exposto, não me parece que a designação de duplicidade identitária seja adequa-

da para caracterizar a minha condição. Até porque, como se depreende, não acredito em unicidades identitárias. Amin Malouf, nas Identidades Assassinas, disse praticamente tudo a este respeito. Para mim a identidade é um processo aberto. A noção da identidade como um todo fechado (monopolar ou bipolar), qualquer que ele seja, é pré-moderna, transforma-nos em vítimas de um destino, retira-nos a condição de agentes. Retira-nos, com isso, a inteligência, uma vez que vai contra a possibilidade de nos transformarmos e evoluirmos. Toda a gente veio de algum lugar e, depois desse acidente, fez historicamente um percurso, cruzou-se, transformou-se. Nada há de extraordinário nisso. Em qualquer condição, mesmo a mais precária, podemos ser tolerantes (gosto desta palavra, frequentemente vilipendiada) e cosmopolitas. Dito isso, claro que a condição se reflecte em tudo o que fazemos. Reflecte-se, portanto, na ficção que escrevo, mas, felizmente, não como uma angústia ou um malestar. Dois é mais que um, mil é mais que novecentos. Aliás, esta condição hybrida (o termo latino designa literalmente alguém não só proveniente de país de duas raças diferentes, mas de dois países diferentes) aplica-se, no meu caso, também ao tempo. Vivo um tempo pós-colonial, mas tenho o privilégio de ter a memória de um tempo colonial. Penso que isso me permite (assim o creio) relativizar as coisas e passear-me no espaço e no tempo com mais desenvoltura. Gosto de pensar que isso agudiza em mim uma espécie de sensibilidade crítica e, também, uma modéstia (no sentido de relativizar sempre os absolutos), das quais não estou disposto a abdicar. A história de Moçambique é uma de suas principais especialidades como historiador, não? Gostaria de que mapeasse as fases e momentos mais significativos da trajectória histórica moçambicana, desde antes dos colonizadores chegarem aos tempos neoliberais actuais. A escassez, na altura, de estudos históricos alternativos aos coloniais, associada à


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necessidade de afirmação identitária que a independência trouxe, fez de nós – os historiadores formados no período dessa mesma independência – historiadores, por assim dizer, “nacionalistas”. Ou seja, inclinados a trabalhar a história da terra. Por isso, se criou esta tendência curiosa de recebermos centenas de historiadores estrangeiros, chegados para nos estudar, enquanto que nós próprios não manifestávamos a menor disposição de fazer a história “alheia”. Se isto é fundamentalmente positivo, tem também aspectos menos bons, no sentido em que, como disse atrás, actualmente, tudo se cruza e essa atitude nos enriqueceu e empobreceu ao mesmo tempo. Em relação à sua pergunta, diria que antes da colonização não existia Moçambique. Existia, sim, uma multiplicidade de unidades políticas maiores (Gaza, Undi, etc.) ou menores (pequenas chefaturas autónomas). Ao definir as fronteiras e ao subalternizar quem vivia dentro delas, o colonialismo português criou o denominador comum da moçambicanidade. Embora num sentido talvez negativo, e seguramente involuntário, foi o colonialismo português que deu o primeiro passo para a criação da nacionalidade. Depois, nos anos sessenta do século passado, o movimento nacionalista de libertação transformou esse factor negativo em factor positivo, a mancha maldita em motivo de orgulho. Criou uma utopia e um sentido de destino. Esse sentido foi ferozmente erodido nos anos oitenta e noventa, por diversas razões que não temos agora espaço de explorar. Experimentámos uma guerra intestina de uma violência inaudita, fruto não só da agressão externa, num contexto regional, que nos era hostil, mas também da falta de flexibilidade e visão de um sistema que tinha por responsabilidade manter em nós o sentido dessa utopia. Actualmente, conquistamos a paz, e o valor desta é incalculável. Com ela veio um certo desenvolvimento material, mas também todos os problemas que normalmente andam associados àquilo que referimos como neo-liberalismo. O neo-liberalismo, hoje, é incontornável em todo o mundo. Mas não estávamos vacinados contra ele, e o resultado é de algum modo preocupante. Politicamente, custa-nos vencer essa transição para a pluralidade. Além disso, vivemos um sistema que se desinteressa da cultura e da solidariedade social. Precisamos urgentemente de readquirir um sentido de destino novo, mas que seja consensual e não resulte da imposição de uma visão monolítica. Precisamos de mais cultura e de muito mais educação, precisamos de espaços de visão crítica alternativa que instalem equilíbrios e contrariem um certo deserto que as visões únicas normalmente criam. A temática das guerras em Moçambique é recorrente em sua obra. Por quê? Você crê no poder catártico de a literatura ser capaz de exorcizar traumas e fantasmas ainda muito presentes na memória da sociedade moçambicana? As guerras estão presentes no que escrevo, em primeiro lugar, porque elas estiveram terrivelmente presentes na nossa história recente. Mais de metade dos últimos 45 anos foram vividos em guerra, praticamente nenhuma família moçambicana escapou aos seus efeitos directos ou indirectos. Milhares de mortos, milhões de deslocados e refugiados. Além disso, pesquisando profissionalmente a história recente, tenho trabalhado sobre esses conflitos. Quanto ao papel da literatura na exorcização de traumas, a existir, será modesto. Tão modesto, quanto o lugar que a literatura ainda ocupa na sociedade moçambicana. Em seu percurso profissional, você acumula as carreiras de Professor de História e de escritor. Como conjuga essas actividades? Sintetize sua experiência como pesquisador e docente em cursos de Pós-Graduação em Moçambique, Portugal e em outros países. No professorado tenho de facto uma carreira de muitos anos, mas não na literatura. A literatura (pelo menos no sentido do texto publicado) é uma prática recente e nãoplaneada. Envolvo-me nela como gostaria de me envolver em muitas outras coisas (pintar, por exemplo, ou estudar filosofia, ou tocar um instrumento musical). Mas enfim, são duas ocupações que convivem sem sobressaltos, porque, de alguma maneira, se complementam. O único problema é o dia ser sempre tão curto, nunca haver tempo para nada. As fronteiras entre a história e a ficção são, muitas vezes, bastante ténues. Como isso está presente em sua obra? Discorra um pouco sobre os processos ficcionais utilizados por sua escrita literária. Tais fronteiras podem, de facto, parecer ténues, mas, para mim, são muito claras. Li, algures, acerca da indignação de Umberto Eco com o Código da Vinci, de Dan Brown, pelo facto de este último autor fazer passar especulações por indícios de verdade. De facto, para mim, é este o limite último da ficção, a única coisa que não lhe é permitida, a linha que jamais pode ser transposta: confundir-se deliberadamente com a verdade. Numa das suas aulas de literatura na Universidade de Cornell, o escritor Vladimir Nabokov afirmava que A literatura é invenção. A ficção é ficção. Chamar a uma história uma história verdadeira é um insulto tanto para a arte como para a verdade. Em suma, há uma definição muito conhecida de ficção que a apresenta como uma espécie de contrato em que o escritor finge dizer a verdade e o leitor finge acreditar. Trata-se de um contrato que não pode em circunstância alguma, repito, ser quebrado. Sob pena de anular irremediavelmente a magia (a verdade) da literatura. Dito isto, não quer dizer que a ficção não aspire a uma certa verdade dentro dela, a “sua” verdade. Ou seja, ela deve desempenhar a sua parte do contrato com competência, buscando a verosimilhança, aquilo a que António Cândido chamou o sentimento de verdade. Mas não é uma verdade literal, objectiva. É, antes, a verdade que cada leitor retira privadamente da leitura. Neste momento, trabalho num romance histórico que flirta com esta questão, correndo até uns certos riscos ao movimentar-se ao longo dessa fronteira que não pode nunca ser cruzada, fazendo conviver personagens inventados com figuras que, de facto, existiram, acontecimentos hipotéticos com acontecimentos que a história narra como verdadeiros. A questão-chave que me coloquei foi: E se o desfecho de um determinado acontecimento historicamente verdadeiro, do conhecimento de todos, não tivesse sido como foi? E se ele tivesse sido de outra maneira? Mas, no fundo, trata-se de um exercício que não aspira à verdade literal, nunca poderia fazê-lo. Recorro, até, à introdução de personagens historicamente muito conhecidas para criar uma certa inverosimilhança, e, assim, ir lembrando ao leitor de que nada do que conto é verdadeiro. Até porque, no nosso caso, em que a cultura da leitura é mais recente e frágil, o risco se apresenta redobrado. Enfim, verdadeiro é o sal que resta no fim de toda a invenção, verdadeiro é o que o leitor retira da leitura. O Zumbo aparece em muitos dos seus textos. Por que a afinidade com essa região de Moçambique? Visitei o Zumbo algumas vezes, por razões profissionais. É um lugar particular por mais do que uma razão. Desde logo, porque é aquilo a que se poderia chamar um lugar remoto, “esquecido”, de muito difícil acesso. Das três vezes que lá fui no imediato pósguerra, não havia estrada de acesso pelo território nacional. Era necessário ir de avião para Harare, a capital do vizinho Zimbabwe, e, dali, percorrer cerca de 500 quilómetros, na sua maior parte, por estrada de terra, até chegar à fronteira e voltar a entrar em

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Moçambique. Sempre que chego a estes lugares, não consigo libertar-me da sensação de que eles gritam em silêncio, que não têm como ser ouvidos. Além disso, é um lugar que me ensinou a importância do rio, um lugar, onde as pessoas convivem com os espíritos e com a magia, com uma naturalidade desconcertante. Ali existem também vestígios muito antigos da presença portuguesa, do século XVI, e o facto de se tropeçar, constantemente, em pedras e inscrições “não-preservadas”, dá ao lugar uma característica muito especial. Há uma espécie de promiscuidade com a história que anula o sentido do tempo. Tudo isto se conjuga para fazer do Zumbo um lugar especial. Finalmente, foi, a partir de notas e registos de trabalho deste lugar, que escrevi o meu primeiro romance. Fora tudo isto (que não é pouco), o Zumbo não me é mais especial do que outros lugares. Do que o norte da província do Niassa, por exemplo, onde vivi experiências importantes na minha juventude e sobre o qual espero escrever um dia. “As duas sombras do rio” (2003), sua primeira obra literária publicada, narra histórias passadas em Moçambique. Aí, a metáfora do rio é muito significativa. Fale um pouco da significação literária e histórica desse rio dentro e fora de seu romance. Esse livro é-me particularmente caro, porque, como disse, foi nele que, pela primeira vez, me dei conta de que podia transformar material de outra natureza em ficção. De alguma forma, ele incutiu em mim uma forma de escrever ficção a partir da surpresa provocada pelos lugares. O rio é importante, de facto, por ser ele que marca indubitavelmente a vida das comunidades retratadas e porque ele é uma espécie de chave do Moçambique actual, tal como se configura. Aquele rio é imenso, um dos maiores do mundo (um dos mais fundos, no sentido divisório). O rio distingue sistemas de estruturação social, mitos e línguas. Separa a terra feminina da cobra, no norte, da terra masculina do leão, no sul. Separa a água do fogo. Sempre olhei com grande preocupação a ausência de uma ponte – facto que em si constituía uma poderosa ameaça. Hoje, decorridos mais de trinta anos de independência, conseguiu-se finalmente fazer uma ponte. Passei pelo lugar há muito pouco tempo e pude constatar que está quase pronta e é majestosa. A visão encheu-me de contentamento. Voltando à ficção, o rio serviu vários propósitos: traçando uma poderosa fronteira entre dois distintos mundos, “serviu-me” para tratar a questão da guerra. Transformado em veia imensa e pulsante, ajudou-me a perceber que, ao sairem por ele os escravos, saía também o sangue daquela terra. No Brasil fala-se muito da tristeza que foi a vida numa terra de escravos. Aqui, da tristeza, quiçá ainda maior, de um lugar de onde foi arrancada a sua gente enquanto escravos. Uma tristeza associada a um vazio. “As visitas do Dr. Valdez” (2004) ganhou o prémio José Craveirinha pela Associação de Escritores Moçambicanos. Que importância teve esse prémio para sua carreira de escritor? Comente algumas passagens e personagens que considera fundamentais nesse livro. Obviamente que foi um prémio que me lisonjeou, um prémio que – como tudo o que contribui para o alargamento do espaço da literatura moçambicana – considero importante. Relativamente ao impacto na carreira não saberia o que dizer. Pelo menos, até agora, não vejo na prática da escrita uma carreira, mas apenas isso mesmo, uma prática. Interessa-me, mais que uma coerênca que configure um itinerário, a experimentação, o prazer de tentar coisas novas. E asseguro que esta não é uma resposta blasé: não vivo da escrita, ela não tem impacto no meu orçamento. Quanto ao livro, ele trata de um tempo e de uma experiência pessoal e familiar. Para quem o conhece, surpreenderia a “percentagem” elevada que ele tem de não-ficção. As três personagens centrais (e mesmo a personagem fantasmagórica, o Dr. Valdez) existiram realmente. Eu próprio, quando era criança, brinquei com a cadeira de rodas da minha tia-avó Mameia. “Rua 513.2”, seu quinto livro, focaliza o Moçambique dos anos 80. A rua que dá título a essa obra teve existência real em seu passado ou é apenas um espaço criado ficcionalmente? A minha ficção tem partido quase sempre de uma base real. A Rua 513.2 foi, de algum modo, a minha rua, nesses “anos de brasa”. O que é curioso (e me deixou muito satisfeito) é que muita gente me disse ter reconhecido nessa rua a sua própria rua. Essa rua é, portanto, a minha rua e, simultaneamente, todas as ruas da cidade nessa altura. Esse livro é um balanço de um certo passado, nem positivo, nem negativo. Um ajuste de contas no sentido literal. De arrumação, com um relativo rigor. Além dos romances mencionados, escreveu outros, entre os quais, mais recentemente, Campo de trânsito (2007). A temática desse livro e a dos demais também aborda fases e episódios significativos do contexto histórico moçambicano? O Campo de Trânsito flirta com a realidade dos campos de reeducação do nosso passado socialista, mas, desde o princípio, que visava a algo mais geral. Num certo sentido, é mais abstracto que os livros anteriores e procura colocar algumas questões relativas ao absurdo na nossa civilização global. Ou seja, não se trata de uma abordagem “cautelosa” dos campos de reeducação. Quando quiser abordar essa mancha da nossa história, fá-lo-ei frontalmente, apesar da dificuldade que a pesquisa encerra, pelo secretismo que ainda cerca tudo o que com esses campos se relaciona. Entristece-me um pouco que o livro seja reduzido a uma abordagem cautelosa desses campos. Que autores das literaturas moçambicana e universal o influenciaram? É uma pergunta para a qual não tenho resposta. E esta ausência de resposta prende-se à forma como escrevo. Não concebo a priori um projecto, nem procuro um estilo. Simplesmente, sigo um instinto e prezo muito essa componente “não-racionalizada” da escrita. Só assim consigo vivê-la como libertação. Talvez pudesse responder que tudo o que li de algum modo me influenciou. Embora, claro, esse já lido não seja uma massa informe. Há, dentro dela, uma hierarquia, obviamente, mas não sei através de que mecanismo misterioso esta é transposta para as opções tomadas no acto da escrita. Talvez possa responder de uma outra maneira, dizendo que, na juventude, me marcou a clareza do português de Eça de Queiroz (a ironia e o humor…), o mistério de Poe, o absurdo kafkiano, tal como me impressionam hoje os incontroláveis impulsos de Lobo Antunes e a serenidade de Chinua Achebe, e como invejo o rigor e a austeridade de J.M. Coetzee.


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que, a meu ver, o cosmopolitismo sempre traz. Por exemplo, a contundência e a austeridade de Juan Rulfo ou a indignação de Raduan Nassar, o sentido de saga de García Marquez, mas também o subjectivismo e o ritmo de António Lobo Antunes. Até a lógica particular de alguém que parece a milhas de distância, como o Gonçalo M. Tavares, me parece interessante do nosso ponto de vista. Busco uma literatura aberta, não conformada aos estereótipos que pululam por aí. Uma literatura que tenha os pés assentes no chão, mas o olhar perdido por aí, atento ao que se vai passando. A ideia de que o nosso papel é transmitir mensagens de um pretenso âmago não me entusiasma, nada me diz. A literatura é soberana, e isso não significa descomprometimento, significa, sim, que não é posta ao serviço de absolutamente nada, nem ninguém. Estabelece ligações com o mundo a seu bel-prazer. Ela paga por isso o preço elevado de não ser decisiva em nenhum contexto. Relativamente ao diálogo entre literaturas, gostaria ainda de dizer que me parece importante buscar outras literaturas africanas fora do âmbito da língua portuguesa. Quando falo em diálogo com literaturas que nos são próximas, mas escritas numa outra língua (inglês, por exemplo), os pretensos “amantes do português” afivelam normalmente um ar de preocupação ou desinteresse, que é a expressão daquilo que consideram ser um ataque à língua portuguesa. Acho que é uma visão curta, um absurdo. Nenhuma língua me é mais cara do que o português. Por isso mesmo penso que, pelo contrário, dessa atitude só pode advir uma dinâmica de alargamento da língua portuguesa. Você poderia apontar as principais tendências da poesia e da ficção moçambicana contemporânea? Não sou um estudioso da literatura moçambicana, sou apenas um leitor, e, frequentemente, menos atento do que gostaria de ser. Nessa qualidade, o que me ocorre dizer é que me parece que a literatura moçambicana é, neste momento, demasiado frágil para se verificarem nela tendências. O fim da utopia significou também o fim de uma tendência nacionalista. A literatura entrou num longo período transitório, individualizou-se e subjectivou-se. Para haver tendências, a literatura tem de viver. Penso que, neste momento, ela apenas sobrevive.

Quais os seus livros de cabeceira? Tenho o privilégio de não ter de ler ficção profissionalmente, de o fazer apenas por fruição. Não tenho, portanto, qualquer método de leitura (a havê-lo, será inconsciente). Sigo o acaso, embora, por vezes, me surja um veio que a curiosidade obriga a seguir durante um certo tempo. Ultimamente, surgiu-me um caso desses com o escritor W.G. Sebald, que nunca havia lido. Li em poucos dias, e, de seguida, o Campo Santo, a História Natural da Destruição, e estou agora a ler Austerlitz. Da mesma maneira, segui recentemente o veio do filósofo Giorgio Agamben (Profanações, A Ideia da Prosa, Bartleby – Escrita da Potência). Há livros que permanecem muito tempo na cabeceira, por serem longos ou exigirem ser lidos muito devagar (a Recherche de Proust, traduzida pelo poeta Pedro Tamen, que me acompanha há dois anos). Não me move a busca de erudição, longe disso, mas apenas a fruição. Por outro lado, a minha relativa falta de memória acaba por ser-me útil, pois leva-me a regressar a algumas obras com certa regularidade, a ter o prazer de as descobrir mais do que uma vez (O Quarteto de Alexandria, de Durrell). Há autores de que leio tudo o que sai e assim que sai (J.M. Coetzee, sempre em inglês, pela escrita magra e rigorosa, e por ter muito a ver conosco), outros que entram e saem da cabeceira, mas, enquanto permanecem, brilham como estrelas (entre os brasileiros, Laços de Família, da Lispector, Lavoura Arcaica, de Nassar). Na cabeceira, há sempre alguma poesia (Kavafis, Akhmatova). Nada de diferente, portanto, de um leitor comum. Se me perguntasse o mesmo, daqui a uns tempos, a resposta seria quase inteiramente diferente. Que autores da geração contemporânea de Moçambique e do exterior tem lido? Quais o agradaram mais? Por quê? Como deve calcular, nem sempre é fácil acompanhar novidades literárias, onde quase não chegam livros (o que chega é frequentemente mau – a famigerada auto-ajuda, por exemplo – e muito caro). Dos brasileiros li ultimamente Bernardo Carvalho e Milton Hatoum. Mia Couto, Ungulani Ba ka Khosa, além de Paulina Chiziane, Lília Momplé, Suleiman Cassamo e outros são escritores moçambicanos que também operam com a história de Moçambique em seus romances. Que diferenças e semelhanças pode apontar entre a ficção deles e a sua? Sendo eu historiador, talvez a diferença esteja em que eles procurem ir ao encontro da história e eu tente libertar-me dela, sem, até a data, o conseguir. Às vezes tenho a sensação de que a história nos esmaga, nos impede de fazer uma literatura mais atenta ao quotidiano. Aliás, penso que África, de certa forma, padece de um excesso de história, que se enreda nessa teia que, por vezes, assume foros de armadilha, e que isso lhe dificulta abordar com mais eficácia o presente. Mas é justo não esquecer que, além da história, sinto com o mesmo peso a geografia, a respiração dos lugares. Enfim, de entre os autores que mencionou, acho que o Ungulani recorreu à história de uma forma não maneirista e particularmente eficaz. Entre as literaturas da América Latina, incluindo o Brasil, e as da Europa, em especial a portuguesa, consegue depreender algumas tendências que dialogam com a literatura moçambicana. Quais? Depende muito daquilo que entendemos por diálogo. É sabido que no passado colonial os escritores moçambicanos acorriam às livrarias a buscar os livros de Jorge Amado ou os romances neo-realistas portugueses. Sabemos também, por exemplo, que a linguagem de Guimarães Rosa inspirou Luandino Vieira e Mia Couto. O que posso dizer a este respeito é que, para a nossa realidade, me parecem interessantes muito mais propostas do que seria de esperar. Não no sentido utilitarista ou instrumentalizador, mas como refracção positiva

Apesar da potência demonstrada nos últimos anos, as literaturas africanas de língua portuguesa ainda continuam a ter tímidos espaços nos fóruns internacionais. Por que razões? Que soluções amenizariam tais limitações? Penso que essa situação tem a ver, em primeiro lugar, com o mercado e as suas perversidades. O que torna visível um bom livro, hoje em dia, está longe de ser apenas, ou sequer principalmente, a “qualidade”. Intervêm muitos outros factores, poderosos a ponto de conseguir transformar coisa nenhuma num best-seller. O gosto educa-se, manipulase. Por outro lado, há também uma expectativa estereotipada, construída no mercado “do norte”, que o leva a procurar na literatura africana a imagem que tem de África, em doses variáveis: alguma nostalgia do passado colonial, o exótico e a tragédia (esta última despertando solidariedades, mas também um voyeurismo mórbido). Tudo isto condiciona a literatura africana, pressiona-a a assumir um determinado tipo de perfil para que possa ocupar, ordeira e docilmente, um espaço perfeitamente delimitado nos escaparates das livrarias. E se o livro tiver um glossário de termos exóticos no final, ainda melhor; quanto mais gordo for esse glossário, mais garantias há de que o livro é genuinamente africano. Mas, por outro lado, existe também uma outra vertente, quiçá mais fundamental, para explicar essa fragilidade, e que tem a ver com a inexistência de mercados nacionais do livro, onde ele é escrito. Nos países africanos de língua portuguesa, o mercado do livro é modesto, diria mesmo que quase inexistente. Pouca gente escreve, quase ninguém lê, e eu diria que menos pelas elevadas taxas de analfabetismo (embora estas sejam uma realidade), que pelo facto dos livros não estarem ao alcance da maioria das bolsas. Daqui resulta que o percurso de um livro africano escrito em português depende, sobretudo, do seu sucesso no mercado português e, progressivamente, também no brasileiro. Ou seja, configura-se uma espécie de síndrome esquizofrénica, em que se escreve para leitores que estão longe de nós sobre realidades que estão longe deles. Obviamente que o mercado não se cria de um dia para o outro, depende da confluência de muitos factores. Um deles, que considero muito importante, é a mudança de atitude das elites que nos governam relativamente ao livro. África tem um passado espiritual que o neo-liberalismo se dedica afanosamente a destruir. Hoje, quem manda patenteia uma extrema agudeza relativamente ao que é material, mas negligencia totalmente o âmbito espiritual e cultural (a não ser que deles se possa tirar proveito político ou material imediato). Não prometendo ainda a circulação de grandes valores financeiros, a ficção só lhes interessa enquanto propaganda e corroboração. É, portanto, muito importante que isto comece a mudar. Só valorizando a nossa literatura, podemos esperar que ela seja valorizada noutros lugares. A sociedade procura fazer a sua parte, nas centenas de jovens entusiastas que acorrem aos eventos literários. É altura dos governantes fazerem a deles. Voltando àquilo a que chama de fóruns internacionais, devemo-nos interrogar por que razão se destingue literatura universal por um lado, e literatura africana por outro. Ou seja, remetem-nos para um gueto e é-nos muito difícil sair dele. Que planos tem para o futuro? Não tenho planos literários. Apenas usufruir o prazer da leitura e exercer o vício da escrita. Ler e escrever o que me der na real gana, motivado por indefinidas necessidades pessoais e sociais.

(*) Titulo da nossa autoria ___-________-

Entrevista publicada originalmente em Metamorfoses 10. Revista da Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ. A publicação foi feita pela Editora Caminho de Lisboa e da UFRJ, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010-1.


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Croniconto

O passo certo no caminho errado

Dany Wambire - Beira

Nelson Lineu - Maputo nelsonlineu@gmail.com

Finalmente, a resposta da produtividade

E

P

A infanti-sida enso que poucos em Fim-de-Mundo conheciam o casal Disciplinado e Irrequieta, esse casal, que quase venceu o anonimato, por viver nas imediações da inexistência. Tudo isso sucedeu, por causa de uma emigração mal sucedida, de Início-de-

Mundo para Fim-de-Mundo.

u já estou farta dessas incriminações e acusações mais levianas que vocês, a boca pequena vem falando de mim, inventando nomes e episódios, capacidade para isso nunca vos faltou. Com um

tom elevado a vossa voz fez-se mal sentir no memorável cinco de Fevereiro, nos um e dois de Setembro, naquelas manifestações populares aquando da subida do preço dos combustíveis consequentemente o transporte e os produtos da primeira necessidades, houve mortos, destruições de bens de inocentes. Quando os pseudocavalheiros vieram ao público primeiro disseram que as manifestações foram por causa das mensagens enviadas pelo telefone, desculpa de criança que faltou na escola por causa da chuva. Sendo verdade e reconhecendo a eloquência tínhamos que implorar pelos serviços de quem as enviou para chamar pessoas as urnas. Em segundo lugar disseram que vivia-se aquela miséria por causa da produtividade, logo eu que mal conheçovos, passo na vossa frente esperando um aceno vosso mais nem um sinal, apenas limitam-se a apreciar o meu traseiro, nesses quarenta graus esfriam-se com o meu andar. E se não fossem as consequências das manifestações, quando é que iriam aparecer ao público reconhecer a vossa não virilidade? Reconhecer como

Em Fim-de-Mundo, Irrequieta e Disciplinado obrigados a casarem foram. Cumpriram com escrúpulos. Esse não mais importante mecanismo de ordenamento social. Sim, cumpriu-se um casamento triplo, a contentar os distintos segmentos sociais. Quer dizer, enquanto os pais fizeram pressão, Disciplinado e Irrequieta casaram, pela primeira vez. O chamado casamento tradicional. Depois, veio o realizado no principal cartório de Fim-de-Mundo, o válido na Justiça local. O chamado casamento civil. Por fim, para alegrar o segmento religioso, foi forjado o casamento religioso. Então, para ter merecido respeito, uma verdadeira integração social, um casal não devia incumprir este triplo casamento.

O casal Irrequieta e Disciplinado era exemplar. Um bastante fiel ao outro. Mas, de súbito, a infidelidade se acomodou no macho do casal. Sim, o homem Disciplinado passou a ser infiel. E os motivos? Talvez por causa da perseverante insistência das muitas mulheres, sem maridos, mas que necessitavam de prazer sexual e de dinheiro. Talvez à conta da gravidez, que a Irrequieta contraíra, nove meses após o casamento, passando a não ter bom desempenho sexual, diga-se de passagem. Talvez mesmo por outros motivos. A verdade é que, com as inúmeras aventuras extra-conjugais, Disciplinado

quem diz, porque vocês como sempre atiram culpas para os outros não fugiram a regra, agora eu é que sou a culpada, põe-me sobre a responsabilidade da vossa fraqueza da mudança, se a vitória prepara-se e organiza-se como vocês dizem é assim que estão preparados e organizados para vencer? Não a mim, mas aos vossos fantasmas.

conseguiu contrair o vírus de HIV, que passou, no seguido, para a legítima

De principio achei que eu seria tinta de mais para a vossa caneta, tentei aproximar de vocês, mandar recados, olhares, parece que mais distanciou-me de vos. Limitam-se apenas a ouvirem histórias dos que já possuíram-me e vão-se deleitando terminando em masturbações, Sonhos, desejos, planos. Até quando? O mais chato para mim é quando gabamse, tendo-se como os mais maduros, como o exemplo para os outros seguirem, o mais grave ainda é o facto desses outros consentirem.

vírus, ignorando-os, e por consequência, menosprezando o tratamento.

Eu não posso chegar para vocês e simplesmente entregarme, além de não estar tão carente assim como vocês eu também tenho meu orgulho feminino, no vosso caso admito ser tradicional, não como as que se dizem modernas indo atrás dos homens. Pelo vosso perfil percebi que não me darão valor mais tarde. Por caridade digo: o vosso problema não sou eu, produtividade mas sim a improdutividade (a casa dos fantasmas), como vocês próprios apontam no vosso discurso sobre a pobreza absoluta ela também está no mesmo lugar, vossa cabeça.

esposa, sem saber. E foi esse vírus de HIV que pôs Disciplinado a definhar, ossos salientes, a servirem de cabide às escassas carnes ainda existentes. E acabou morrendo, sem nunca ter ido a uma consulta de médico nem recebido os anti-retrovirais, esses fármacos que ajudam ao adiamento da morte. Pois, em Fim-de-Mundo, não acreditavam ser atacados por esses Seis anos de casados foram. A Irrequieta passou a viver infeliz, como nunca antes. Para mais, fiel que ela era, custava-lhe aceitar o rumo dos acontecimentos: ficar infectada e perder o marido. Foi, no entanto, a partir desse impreciso momento, que os acontecimentos da vida ela quis inverter. Ou melhor, perverter. Já que lhe deu para espalhar o vírus, que maquinalmente contraíra, para outras pessoas, sobretudo crianças. Afinal, ela era bastante cobiçada por miúdos arrojados, consumidores de produtos de distante idade. Esses jovens apreciavam as carnes desenrugadas que enchiam os vestidos, justos, da senhora. Na verdade, muitas foram as crianças que morreram à conta do vírus de HIV, o virus da Irrequieta. Uma a uma, as crianças foram emigrando para o lado avesso da terra. E a senhora Irrequieta ia assistindo, orgulhosa, às inúmeras mortes dos seus amantes, gabando-se de infanticida, por ir assassinado crianças, com o vírus do HIV do SIDA. Era pois uma assassina especializada em crianças, jovens. E como as matava com Sida, bem merecia que lhe chamassem a infanti-Sida.


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João Rasteiro

João Rasteiro (Ameal - Coimbra, 1965), poeta e ensaísta. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores e membro dos Conselhos Editoriais das revistas Oficina de Poesia e Confraria do Vento (Brasil). Possui poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, Espanha, Finlândia, República Checa, Colômbia e Chile. Obteve vários prémios, nomeadamente a “Segnalazione di Merito” do Concurso Internacional Publio Virgilio Marone, Castiglione de Sicilia, Itália, 2003, e o Prémio Literário Manuel António Pina (Câmara da Guarda/Assírio & Alvim, 2010).Publicou os seguintes livros: A Respiração das Vértebras, 2001, No Centro do Arco, 2003, Os Cílios Maternos, 2005, O Búzio de Istambul, 2008, Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, 2009, Diacrítico, 2010, A Divina Pestilência, 2011, Tríptico da Súplica (Brasil), 2011 e Elegias Bárbaras, 2011. Em 2009, organizou para a revista ARQUITRAVE da Colômbia, uma antologia de poesia portuguesa, intitulada “APoesia Portuguesa Hoje”. Mantém o blogue: h t t p : / / www.nocentrodoarco.blogspot.com/

Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras, mas onde não há uma linguagem, dirigi-me para a ilha coberta de neve. António Gamoneda A natureza do poeta é fingir a existência mais íntima da linguagem aquele lugar onde a morte resplandece em todos os sentidos dos pulmões pois desde sempre a chuva amansou os vestígios do sangue que jorra do estilhaço das palavras inócuas, na desesperada procura do silêncio amo a tempestade e repudio o relâmpago e contudo as tuas sílabas dissecam-me a peçonha do clarão da seara e da cesura em que me avivo júbilo de mim mesmo. Que precisão existirá no ângulo do poema?

In, A subtileza das sensações inúteis (inédito)

Deverá ser o último momento a última fala que ascende o silencioso alento aextremosa nostalgia da quimera que precinge a promessa que me planta com desiguais tumultos da minha procedência a violência primordial do timbre fingindo a indução da piedade da palavra para que ela deflagre por dentro renovando-se um modo de pecar em carne viva pois por entre alvoroços e abundâncias a morte adquirirá a blasfémia: “quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” In, Elegias da Barbárie (inédito)


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Resenha

Um campo de concentração nos trópicos Adelto Gonçalves* - Brasil

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I

e o Brasil já soube reverenciar os seus grandes escritores, como ao tempo de José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (18391908), Olavo Bilac (1865-1918), Graciliano Ramos (1892-1953) e Jorge Amado (1912-2001), hoje não o faz tanto. E não é porque não existam grandes escritores. É por desconhecimento mesmo das novas e velhas gerações que são bombardeadas por literatura norte-americana de baixo nível, que aqui chega em formato de livros de auto-ajuda. Quem é professor de Língua Portuguesa na graduação conhece bem o drama: se pedir para que seus alunos escrevam resenha crítica de algum livro que já tenham lido nos últimos anos, será contemplado com apreciações sobre os chamados best sellers de autores norte-americanos. E mais: na maioria, são resenhas que tiram da Internet e que assumem como suas, praticando apropriação indébita. Mas o que esperar de um País que há muito tempo não prepara seus professores do ensino fundamental e médio, mas pretende “inundar” as escolas públicas de lousas digitais, provavelmente porque algum figurão há de ganhar gordas comissões nas vendas para prefeituras e órgãos públicos? Mas nem tudo está perdido. Ainda bem que, de vez em quando, aparece um editor de visão e bons propósitos, como Nicodemos Sena, que, aliás, é também um fino escritor. Diretor da Associação Cultural Letra Selvagem, de Taubaté-SP, Sena vem relançando vários livros que já deveriam ter sido canonizados na História da Literatura Brasileira. Mas que, sabe-se lá por que, não o foram. É o caso de Selva Trágica, de Hernâni Donato, que, lançado em 1960, causou grande impacto no leitor a ponto de esgotar quatro edições. E não só. Em 1963, em função do sucesso de crítica e de público, foi transformado em filme em preto e branco pelo diretor Roberto Farias, marcando a estréia de Reginaldo Farias, que viria a se tornar um dos principais atores do cinema brasileiro. O filme ganhou o Prêmio Saci, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, e representou o Brasil no Festival de Veneza. Hoje, é considerado um “clássico” do Cinema Novo brasileiro e não pode faltar no acervo de uma cinemateca. Hernâni Donato, 90 anos, nasceu em Botucatu, interior de São Paulo, em uma família de imigrantes italianos. Filho de um operário, mesmo com dificuldades, tornou-se um intelectual de sólidos conhecimentos e, profissionalmente, desempenhou a atividade de publicitário. Membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros, nos mais variados gêneros, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Traduziu a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Como romancista, publicou ainda Chão Bruto, Rio do Tempo, O Caçador de Esmeraldas e Filhos do Destino, que obtiveram êxito editorial nas décadas de 1950 e 1960. II De que trata Selva Trágica? É um romance-documento como poucos na história da Literatura Brasileira. À maneira de Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902), o jovem Donato empreendeu uma minuciosa pesquisa não só em fontes impressas como in loco, visitando a região em que situou o seu romance e entrevistou pessoas que serviriam para compor seus personagens. Ouviu casos terríveis contados por antigos trabalhadores das “minas” de erva-mate no Mato Grosso, na fronteira com o Paraguai, que só não surpreendem porque no Brasil de hoje os jornais, de vez em quando, ainda trazem notícias de que as autoridades federais flagraram trabalho escravo em fazendas. É do que trata, em poucas palavras, o livro de Donato. Até 1938, período do primeiro governo de Getúlio Vargas, o nosso clone de Hitler e Mussolini, manteve-se o monopólio da Companhia Mate Laranjeira, empresa argentina que explorava a extração do mate nos ervais do Mato Grosso. O trabalho era desumanamente desenvolvido em condições que fariam o Inferno, de Dante Alighieri (1265-1321), parecer um oásis. Ao final da década de 1950, quando Donato embrenhou-se nos ervais em busca de material para o seu romance, ainda havia cerca de cinco mil homens e mulheres que trabalhavam em condições subumanas, sem descanso, durante 14 horas por dia, na colheita e transporte da erva. Ainda assim, há historiadores que afirmam que o período Vargas (1930-1945) foi aquele em que pela primeira vez os trabalhadores tiveram seus direitos

reconhecidos e respeitados. Talvez isso se tenha dado em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, porque no interior o Brasil sempre foi um imenso campo de concentração, que nada ficaria a dever a Auschwitz-Birkenau ou ao Gulag soviético, ainda que em tempos de paz. III Entre as muitas histórias que Donato recolheu e transportou para a literatura, estão a do homem que teve de lutar de garrucha em punho e viu seu filho morrer, porque ousou escrever sobre o que se passava na cultura do mate; e a do peão que trazia no corpo sinais de 18 facadas, com cortes que haviam sido costurados com agulha e barbante de costurar saco. Mas isso ainda era pouco: diariamente, os homens tinham de transportar o mate entre a “mina” e o acampamento, pelo meio da selva bruta, em fardos de 150 ou 200 quilos, amarrados às costas. Qualquer passo em falso causava a quebra da espinha dorsal do carregador. A vítima gemia a noite inteira, até que os demais trabalhadores pediam ao administrador que tivesse caridade. Então, os próprios companheiros recorriam ao jogo de cartas para que ao perdedor coubesse a tarefa de “de dar paz ao moço desgraçado”, ou seja, dar um tiro na cabeça daquele ser agonizante (pág.36). Os bebedores de mate – hábito ainda largamente difundido não só no Centro-Oeste e Sul do Brasil como nos países de fala hispânica – que viviam na cidade, provavelmente, nem imaginavam como a erva-mate seria cultivada. Talvez tenham ficado indignados com os fatos narrados em Selva Trágica, o que justificaria a procura que o livro despertou no acanhado ambiente cultural paulista e carioca daquela época.


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São narrações pungentes que horrorizam pela brutalidade com que era tratado o “uru”, o homem responsável pelo “barbaquá”, espécie de forno de madeira em que a erva era preparada para o consumo. Esse coitado era obrigado a trabalhar dia e noite sem parar, remexendo as folhas da erva sob um calor infernal. Depois de algum tempo trabalhando sob essas condições atrozes, todos os pelos de seu corpo secavam, caindo. O trabalhador ficava esturricado e se transformava num feixe de ossos, talvez parecendo um salame defumado, enquanto os diretores da Companhia Mate Laranjeira confraternizavam-se com os donos do poder no palácio do governo em Cuiabá, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, na Casa Rosada, em Buenos Aires, e no Palácio de los López, em Assunção, garantindo o privilégio do monopólio da extração da erva.

Por aqui se vê que Selva Trágica é um romance épico, que, incompreensivelmente, estava esquecido. E olhem que não foi por falta de reconhecimento da crítica. Temístocles Linhares em História Econômica do Mate (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1960) já o considerara um “romance másculo, forte, bárbaro, como bárbara era a selva, como bárbaro era o trabalho nos ervais”. Artur Neves, na Revista Anhembi (São Paulo, 1961), já o definira como “uma história como nunca foi escrita em nossa terra”. IV Como observa o professor e crítico literário Fábio Lucas em O Caráter Social da Literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1970), em texto que serve de prefácio para esta edição, Selva Trágica constitui “um dos mais altos momentos da novelística de conteúdo social no Brasil”. Lembra Fábio Lucas que os ervateiros eram mobilizados na fronteira BrasilParaguai e levados por máfias para casas de prostituição, até que, bêbados, assinavam um contrato leonino com a companhia. Ficavam devedores para sempre, ganhando apenas para comer. Aos que tentavam escapar do inferno, restava a perseguição dos capangas da companhia que, quando os capturavam, espancavam-nos até a morte. “Não pense que gosto de mandar bater. Mas quem segura esse povo no duro do trabalho se não usar dureza?”, dizia Curê, o administrador (pág.142). Os capatazes da companhia eram tão sórdidos que se sentiam no direito de abusar das mulheres dos ervateiros, enquanto estes se embrenhavam no mato. As mulheres serviam também para pagar dívidas, funcionando como moeda de troca entre os homens. Mas, apesar da sordidez da vida que levavam, havia ainda aqueles que encontravam forças para lutar contra a exploração e defendiam a extinção do monopólio da companhia. Entre esses, estavam os changa-y, “os mais miseráveis dos miseráveis dos

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trabalhadores da erva”, aqueles que tentavam trabalhar sem o patrãoalgoz. Luisão era um desses que escapara do inferno verde e andara por Cuiabá e Rio de Janeiro em conversas e peditórios com os políticos favoráveis à extinção do privilégio da companhia ervateira. Dizia aos companheiros: “A Companhia faz também essa e faz a grande política em Cuiabá, em São Paulo, no Rio, em Buenos Aires, sei lá onde mais. Assim, cobre os gemidos e os gritos da pobre gente dos ervais. No andar em que vamos, nem no fim do século teremos forças para emparelhar o nosso passo com o passo da Companhia. Lá fora é que é preciso gritar. O Governo é que nos pode ajudar se chega a nos ouvir. Mas o Governo só ouve ribombo, soluços não” (págs. 136/137). Não por coincidência publicado em 1956, mesmo ano em que saiu à luz Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (1908-1967), Selva Trágica é um passo adiante do romance regionalista da década de 1930, época em que o pobre entrou triunfalmente na Literatura Brasileira. Ambientado no mundo da fronteira, traz ainda uma complexa linguagem narrativa, um verdadeiro amálgama da língua portuguesa com o linguajar guarani, como observa a professora Nelly Novaes Coelho, da Universidade de São Paulo, na apresentação que escreveu para esta edição. Nesse sentido, é de acrescentar que Selva Trágica tem muitos pontos de aproximação com o trabalho do romancista, contista e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), autor de Los Ríos Profundos (1956), Todas las Sangres (1964) e El Zorro de Arriba y el Zorro de Abajo (1971, póstumo), entre outros, que igualmente fazia um trabalho de campo antes de escrever sobre a realidade do mundo quechua no Peru. Não por acaso os livros de ambos são permeados por inevitáveis notas de rodapé que servem para explicar as palavras tiradas do idioma indígena. Houve ainda quem comparasse Hernâni Donato com Erskine Caldwell (1903-1987) e John Steinbeck (1902-1968), a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de Chão Trágico (Tragic Ground, 1944), um mergulho na vida dos vencidos e desgraçados do Sul dos Estados Unidos, e o Steinbeck de As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath,1937), que conta a história de uma família pobre no estado de Oklahoma durante a Grande Depressão de 1929, que, obviamente, nada têm a ver com a atual geração de norte-americanos produtores de best sellers que envenenam a nossa pouco letrada juventude. ______________________ SELVA TRÁGICA, de Hernâni Donato. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 288 págs., 2011, R$ 35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br ________________________ (*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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Tomates para o 13

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CAMA 13 Eduardo Quive

Nélio Nhamposse

amarada Quive, gostava primeiro de felicitá-lo pelo texto e, acima de tudo, por continuar a fornicar muitas vaginas nesta vida. Já imaginou o mundo sem laranjas, bem disse António Cabrita. Pois é, seria uma tristonhesa. E que tal, sem vaginas, sem virgens, sem mangalhos? Certamente seria um mundo melhor, claro, sem Adão e Eva. O mundo seria um lugar sagrado, do avesso. Mas deixemos de blasfémias e concentremo-nos no cerne da questão. Confesso que depois de ler esta proposta fiquei irto e, para a minha tristeza e gáudio dos meus testículos, estava no serviço e, como deves imaginar, não podia sequer masturbar-me. Caramba! Até com o meu pénis e tomates tenho que sofrer. Do ponto vista descritivo e de estrutura, está lá. E, verdadeiramente, consubstancia uma cama 13. E repare que 13 é um número de sorte. Certamente ele foi para o paraíso 13 e com quatro mulheres. Sim, quatro mulheres. 4 é número de estabilidade, por isso, o carro tem quatro rodas. Já imaginastete no paraíso com 4 gajas. Porra! Deve ser maningue nice! A propósito, preciso que me apresentes a cama 13 e a medicina quatro. Talvez eu possa partir para esse futuro, onde o mundo é feito de vaginas e luas cheias, de sonhos e vagueios, de cannabis sativa e blague. E, quiça, de fornicação. Deve ser fixe, fodas. Sim, um mundo onde não há laranjas e onde só há tomates. Só tomates. Por isso, sinto-me na obrigação de dizêlo, ilustre, que tens tomates para o 13. Tomates que demorei a perceber por causa desta mania ridícula de linguista de merda. Sim, verdadeiramente, os tomates que me geraram foram uma autêntica lástima. Faltou 13. Esta merda de querer fazer poesia até nos tomates. Lixa-te puto! Já pensaste num mundo sem tomates, certamente que sim e, queres saber, estaríamos são e salvos desta porra de masturbação. Sabe, sem mácula e hipocrisia, por acaso imaginas quantas gajas já forniquei nesta vida? Só em sonhos foram 250. E, se não estou equivocado, masturbei umas 300 vezes. Lembro-me de ter fodido a primeira mulher e a que mais amei na vida numa masturbação umas 13 vezes, numa noite. Sim masturbei-me 13 vezes e, para o cúmulo, quando a consegui, forniquei-lhe 7 vezes, o número do Jackpot, numa campa 13. Sabe, clarividente, eu só um gajo do sete e do 13 e, para o meu gáudio e tua amargura, vou patinar e ou transfigurar para a outra dimensão 13 num 13 e às sete horas ladeado de quatro gajas. O futuro dependerá desse sete e dessas gajas. Sou um sete para o 13. E, queres saber, esta história dos 13 recorda-me o “Retorno do bom Selvagem”. Sim, o “Retorno do bom Selvagem” de Severino Ngoenha. Lembro-me que li-lhe os tomates até que o gajo ficou zarolho e, para o espanto de todos, o gajo ficou 13 em plena palestra. Uma autêntica justiça social, pois, se ao mínimo pudesse masturbar-se. Mas não, permaneceu ali na plateia teso e já órfão de um testículo e, nessa altura, o gajo perdeu o segundo e ficou órfão de testículos. O curioso é que os testículos foram a enterrar numa segunda 13 com manning beat. E, nesse enterro, enquanto sepultávamos os badalhos, corvos e abutres em debandada escavavam os tomates. Queriam purificação 13. E, this is the end, onde há vagipoesia, há beat.

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A metade vencida em ti converteu-te no seu próprio duplo? António Cabrita, in NÃO SE EMENDA, A CHUVA Ao Orlando António Quive, o júnior

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ntes do insólito que assolou os seus descendentes, o paciente da cama 13 disse e prometeu ao seu eleito primogénito “estás a chorar? Não tenha medo, papá vai ficar bem”. E era suposto que fosse mesmo ficar bem na óptica de quem se lambuzava de amarguras e choros pelo seu padecimento. No entanto, o infortúnio o escalara para as próximas 48 horas. Enquanto padecia no chão que o esculpiu como homem de família, Bovane, senhor que é, preso nos quarenta e na elegância do corpo, queixava-se de nada que lhe corria pelo corpo. Prendia-lhe o pé direito e o respectivo braço, ao mesmo tempo que uma espécie de pedregulho rompia de repente e estremecia a sua barriga. Daí, não passava a sua doença: convulsões e imprevistas secagens dos membros direitos. Algazarra. Correria total pela noite de domingo e pela manhã subsequente de segunda e terças-feiras rumo à cura do tal surto que o afectava sem comer o corpo que se mantinha na sua elegância, na altura e feitio, tamanho e reticências. Quem ainda acreditava em si galgou os caminhos divinos e diabólicos, na expectativa de o manter entre os vivos. Correria em vão! Ele próprio já se tinha apercebido do novo caminho que, errante, percorria rumo à glória da peste. Não se recusara nem por um instante em rumar com os deuses assassinos. Enquanto outros corriam para o seu mantimento nestas terras, ele também o fazia, mas em contra-ataque, sem se quer alertar aos sofridos sobre a sua decisão de se tornar mais um deus na negra família ora assumida como africana. Pelos caminhos divinos, morou na medicina 4, cama 13, por onde sossegou os seus intentos por curto tempo na hegemonia das lágrimas do seu júnior que não o entendíamos, antes dele partir para esse novo abrigo. O júnior, júnior que era, dilatava-se na porta da casa onde Bovana podia andar sem camisa, o típico dos mulumuzanas. E aí lembro-me dos dois significados das lágrimas: dor e ternura, paz e prisão, amor e vingança, morte e nascimento. As lágrimas, do sabor amargo do sal que elas mesmas produzem no corpo, embora alguns encontrem nelas, o leite que sustenta alegrias a fartura. Malditas lágrimas. Ah! Benditas lágrimas, é essa a controvérsia da vida, paralelamente às emoções dos homens. E lá estava Bovana predestinado à cobardia dos deuses. Nascer é que já não podia. No seu lar provisório, onde o terreno atribuído está para uma simples cama número 13, apenas presenciou duas luas com os olhos terrenos. O remanescente foi já em glória na madrugada da quarta-feira. Depois disso, só o insólito: “ele morreu”! Chegada a notícia dessa trajectória sob a vida, dominaram lembranças no seio dos vivos. “A morte é mais tranquila na madrugada!” Imigrei para as mais supremas imaginações “não terá sido tão doloroso como muitos imaginam”! E vaguearam as lembranças sobre a sua parábola: “papá vai ficar bem”. Reflectindo sobre a dor que enquanto homens estamos sujeitos a passar, na ironia da existência, mergulhei nessa promessa acreditando que, de facto, Bovane terá decidido pelo melhor, ficou bem na vida que todos aqui não temos. Na vida que todos tememos sem ainda saber como é. E ainda pensei, “ele já tinha cessado as funções, optou pelo mais difícil de alcançar em vida, o bem-estar”, longe dos instintos e amores, distante de ódios, dos tempos e dos dias que escravizam os homens. Afinal, o que vale a vida reduzida de um quintal para uma cama? Há lugares bem melhores. Entretanto, cabe-nos ainda a hipocrisia da existência que a coragem da inexistência.

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