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Edição Especial

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Conecta-te a nós no

ano

Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 13 de Julho de 2012 | Ano II | N°38 | E-mail: r.literatas@gmail.com


SEXTA-FEIRA, 13 DE JULHO DE 2012

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LITERATAS

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Editori@l FICHA TÉCNICA

Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Direcção e Redacção

Um bolo de letras à revista

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Literatas. ia 12, um dia mais do que qualquer um, mas sim especial, e não só, como também é importante;

Centro Cultural Brasil - Moçambique

pois além de um ano de existência celebramos um ano de

Av. 25 de Setembro, N°1728,

resistência. Um ano de luta; uma luta cravada na navalha

C. Postal: 1167, Maputo Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 117 117 Fax: +258 21 02 05 84 Fax: +258 21 02 05 84 E-mail: r.literatas@gmail.com E-mail: r.literatas@gmail.comz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz

fedorenta da sociedade; contra tudo e todos, cujo propósito é anti-cultural. Nós, ousados e sem medo de cometer erros; criamos a nossa e vossa arma (revista Literatas) de expressão artística; cujas balas (palavras) por vezes saem-nos a culatra. Como contemplamos, vivemos numa sociedade ébria, de elevado teor de ridicularidade; e a mesma correndo a passos largos num caminho

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu (nelsonlineu@gmail.com) Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane (jarijuane@gmail.com) Cel: +258 82 35 63 201 EDITOR Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Cel: +258 82 27 17 645 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 REPRESENTANTES PROVINCIAIS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa

errado; tornando-se assim o abismo o único destino. Nesse cenário, caros leitores, a vida exibe-se sempre como se de uma festa se trata-se, onde os comuns só embriagam-se; quando os escritores, lúcidos, descrevem os factos; mostrando um novo e certo caminho são por vezes incontáveis conotados de loucos. Pois, que aceitamos a loucura. Para nós, este ano que hoje se assinala foi um ano de trezentos e sessenta e cinco por cento de loucura e de extrema dedicação a literatura; da literatura para a literatura; como forma única e mais clara de manifestação dos nossos valores culturais; dos nossos valores de cidadania e não só; da colectividade lusófona; cada vez mais próxima, entre as comunidades falantes da língua portuguesa em todo mundo. Este ano não só foi, realmente, digno de afirmação e divulgação da nossa e vossa revista, como também foi um ano de angústias e tristezas, mas nunca de felicidades; pois a felicidade nesta festa em que labutamos cabe aos desprovidos de rácio, aos embriagados. Este

COLABORADORES FIXOS Pedro Du Bois (Brasil), João Tala - Angola Mauro Brito (Maputo) Izidro Dimande

ano, meus caros companheiros e leitores; o esforço empreendido e os obstáculos que

COLABORAM NESTA EDIÇÃO

vamos fazer sim, de maneira reflectiva; se vamos continuar, isto esta fora de questão, mas

Lopito Feijoó K.-Angola Filinto Elisio-Cabo Verde Rosália Diogo-Brasil Fernanda Angius-Portugal

sim como continuar nessas mínimas condições? Caro leitor, Literatas consegue e conseguiu

encontramos e passamos e continuamos a passar, só para a edição desta revista, é de louvar a nós mesmos. Hoje além de um champagne aberto e um brinde, como fazem os iguais;

até hoje impor-se de letra erguida e de conteúdo meramente artístico; independentemente dos prós & contras; dos momentos e os meios; criando não só um espaço de divulgação,

COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) Nelson Lineu - Maputo Victor Eustaquio– Portugal

mas também um privilegiado espaço de debates de ideias. Esta última, meus caros, cabe-

FOTOGRAFIA Arquivo — Kuphaluxa Eduardo Quive

os frustrados até aos distraídos, e as inimizades aos parentes, falsos homens das artes. A

ARTE E DESIGN Japone Arijuane PARCEIRO Centro Cultural Brasil—Moçambique

nos os telefonemas anónimos, o não-anúncio de publicidades, e os vulgares apelidos, desde Revista Literatas é a encruzilhada do pensamento do nosso tempo; tudo isso, mais alguma coisa; cabe-nos agora dizer: bem-haja a Revista Literatas e odes aos inventores da internet, nosso forte aliado. Parabéns para você que lê a revista, é por você que ainda existimos. Boa leitura!

Japone Arijuane jarijuane@gmail.com


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Destaque

De onde vem os escritores de hoje? Seja assumida essa verdade, não é dos jornais onde vem os literatos da actualidade, nisso os oradores do debate ―A Imprensa como espaço de debate e literacias‖, Nélio Nhamposse e Lucílio Manjate concordam. Mas se os Eduardo White, Ungulani Ba Ka Khosa, Marcelo Panguana, Juvenal Bucuane, vieram da tão afamada revista que se tornou nome de uma geração, Charrua, o que se pode dizer dos Nélio Nhamposse, Lucílio Manjate e os demais da actualidade? Texto e foto: Redacção

Lucílio Manjate, Nélio Nhamposse e Eduardo Quive

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da revista Proler do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa (FBLP). as opiniões obtidas, ontem, no debate realizado para assinalar a passagem do primeiro ano da revista Literatas, ficou concluído que o escritor

vem a grande contributo da leitura. Mas o que é certo é o livro tem que ter um lugar para ser lido e dentre muitos, o Movimento Literário Kuphaluxa já deu seu salto ao criar esta revista que tem desempenhado seu papel para a revelação de ―uma nova e outra literatura‖ (Lopito Feijó), criando espaço para que os novos se revelem. da Literatas já se forjam escritores do futuro.

Quem partilha da mesma opinião é o escritor Nélio Nhamposse, conhecido como Matiangola, por sucesso das suas crónicas no jornal O País onde é também revisor linguístico. ―os jornais parecem ter uma minuta para elaborar os artigos sobre os livros. Referem-se ao dia do lançamento, título do livro, nome do autor e depois, quando muito, ainda fazem cópia dos excertos do prefácio. Nada mais que isso.‖ Entretanto, uma realidade os dois oradores assumem, a chamada geração Charrua, composta por escritores de renome como Ungulani Ba Ka Khosa,

―A nossa educação não está em altura de criar escritores‖ defende o escritor e docente de literatura, Lucílio Manjate

Eduardo White e Marcelo Panguana,

autores

da

revista do mesmo nome, se criaram o seu espaço

Falando na mesa redonda sobre ―a

foi

Imprensa como espaço de debate

espaço para expressarem

de ideias e literacias‖ o escritor

sua criatividade.

Lucílio Manjate que também é

―assim nasceu também a

docente de literatura moçambicana

Lua Nova e Oásis que

na Universidade Eduardo Mondla-

pude acompanhar de per-

ne (UEM), fez uma análise, para

o seu desempenho. A

além daquele que deve ser o papel

ideia era criar o seu pró-

da imprensa que se moldem novos

prio espaço porque os

escritores na sociedade.

escritores mais experien-

Manjate alertou sobre o papel da

tes não conviviam consigo

educação para que se criem novos

nem os davam um lugar.

escritores, à semelhança dos escri-

Os escritores de hoje tam-

tores já conhecidos que tiveram a

bém ressentem-se disso e

porque

reclamavam a

to

e

―ajuda‖ do antigo currículo do ensino secundário que era carregado de matérias liga-

por exemplo, o Movimento Literário Kuphaluxa, criou por isso, a revista Litera-

das a literatura, como, excerto de obras.

tas‖. Disse Lucílio Manjate.

Na opinião do autor de ―Contador de Palavras‖, recentemente lançado em Maputo, os escritores de hoje vem de onde vieram os de ontem, contudo, assume que a imprensa que é onde muitos desses escritores se expressavam e revelaram-se, está desligada de criar espaços de debate de ideias literárias e até, está desprovida de espaços para a divulgação de poemas ou contos de jovens iniciantes. ―mas isto acontece também porque os próprios jornalistas culturais tem problemas de leitura. As páginas culturais estão recheadas de informação sobre música e dança, isto porque é o mais fácil para os editores‖. Defende Lucílio Manjate, actual editor


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Feliz aniversário Pablo

O Poço

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa. há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.

Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio, em teu abismo de orgulhosa cólera,

Esperemos

e mal consegues voltar, trazendo restos do que achaste pelas profunduras da tua existência. Meu amor, o que encontras em teu poço fechado? Algas, pântanos, rochas? O que vês, de olhos cegos, rancorosa e ferida? Não acharás, amor, no poço em que cais o que na altura guardo para ti: um ramo de jasmins todo orvalhado, um beijo mais profundo que esse abismo.

Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas - há fábricas de dias que virão existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato.

Não me temas, não caias de novo em teu rancor. Sacode a minha palavra que te veio ferir e deixa que ela voe pela janela aberta. Ela voltará a ferir-me

Acontece

sem que tu a dirijas, porque foi carregada com um instante duro e esse instante será desarmado em meu peito. Radiosa me sorri se minha boca fere. Não sou um pastor doce como em contos de fadas, mas um lenhador que comparte contigo terras, vento e espinhos das montanhas. Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom. Não te firas em mim, seria inútil, não me firas a mim porque te feres.

Bateram à minha porta em 6 de Agosto, aí não havia ninguém e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira e transcorreu comigo, ninguém. Nunca me esquecerei daquela ausência que entrava como Pedro por sua causa e me satisfazia com o não ser, com um vazio aberto a tudo. Ninguém me interrogou sem dizer nada e contestei sem ver e sem falar. Que entrevista espaçosa e especial!

Biografia Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de Julho de 1904, como Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário, e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adoptou o pseudónimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil. Em 1906 seu pai se transferiu para Temuco, onde se casou com Trinidad Candia Marverde, que o poeta menciona em diversos textos, como "Confesso que vivi" e "Memorial de Ilha Negra", como o nome de Mamadre. Estudou no Liceu de Homens dessa cidade e ali publicou seus primeiros poemas no periódico regional A Manhã. Em1919 obteve o terceiro lugar nos Jogos Florais de Maule com o poema Noturno Ideal. Em 1921 radicou-se em Santiago e estudou pedagogia em francês na Universidade do Chile, obtendo o primeiro prémio da festa da primavera com o poema "A Canção de Festa", publicado posteriormente na revista Juventude. Em 1923 publica Crespusculário, que é reconhecido por escritores como Alone, Raúl Silva Castro e Pedro Prado. No ano seguinte aparece pela Editorial Nascimento seus Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, no que ainda se nota uma influência do modernismo. Posteriormente se manifesta um propósito de renovação formal de intenção vanguardista em três breves livros publicados em 1936: O habitante e sua esperança, Anéis (em colaboração com Tomás Lagos) e Tentativa do homem infinito.


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Especial

| Um ano Revista Literatas

LITERATAS UM VEÌCULO ELECTRÓNICO DE ESTIMAÇÂO

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izer, fazer e sentir literatura, é o combustível que há um ano tem feito circular o mais recente veículo de alta estimação dos escritores e amantes da escrita, entre os falantes da língua portuguesa e não só.

J.A.S. LOPITO FEIJÓO K.- Angola

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A revista LITERATAS é, indiscutível e indubitavelmente, um dos mais importantes meios de aprofundamento e revitalização das relações litero-culturais entre a comunidade dos países falantes da língua portuguesa. Através dela podemos ler e conhecer autores, jovens e menos jovens, mais velhos e menos velhos, dos mais distintos cantos do mundo lusófono,

principalmente. Entrevistas com escritores e poesia de qualidade, para além de profundas reflexões críticas em torno dos nossos processos literários e obras, publicadas aqui, alí ou acolá. Anúncios de concursos e doutras realizações de carácter artístico-literário também podemos lá encontrar. Mas o mais interessante nela é a visão democrática dos editores. Na LITERATAS fala-se e escreve-se sobre tudo e sobre todos. Da senhoríssima Noémia, do madala Craveirinha e do atrevido Okapi. Do imortal A. Neto ao promissor Capelenguela. Do senhor Jorge (por todos...) Amado ao filosofónico Marcelo Soriano. Do histórico Vasco Cabral ao Carlos Edmilson dos ―Contos de N’Nori‖. De Francisco Tenrreiro e da Dona (de árida poesia) São de Deus Lima. Do herói Xanana e do profundo poeta Jorge Lauten. Nas suas páginas já lí sobre Baltazar Lopes e sobre o multifacético Dany Spínola. Sobre o Luís Vaz que a língua portuguesa imortalizou e também sobre um concreto experimentalista que atende pelo nome de Fernando Aguiar. Já lí sobre os irmãos Campos e sobre a mais recente poesia visual. Reencontrei-me também com dois grandes amigos. O Guido Bilharinho da ―DIMENSÃO‖ de poesia lá do triângulo mineiro e o atento Cláudio Daniel. Importa referenciar que como prova do estreitar de relações, nos últimos seis meses, na revista pontificaram nomes de escribas angolanos tais como os de Ana Paula Tavares, João Tala, Luís Kandjimbo, Frederico Ningui, Roderick Nehone, Décio Bettencourt, David Capelenguela, José Luís Mendonça, Abreu Paxi e alguns outros dentre os quais também se inclui o nome deste vosso servidor. Muita poesia angolana dos novos e novíssimos tempos com entrevistas e ensaios à mistura. Passado que está um ano de edições, apraz-nos reconhecer que neste veículo semanal de circulação electrónica -de que é proprietário o movimento literário Kuphaluxa, intalado na sede do Centro Cultural Brasil-Moçambique em Maputo, graças a generosidade do Director Calane da ―Xicandarinha... ‖-, a literatura e os autores angolanos têm ocupado espaço previlegiado. Isto prova que independentemente de um notório esfriamento das relações institucionais da(s) nossa(s) Cultura(s) as palavras correm e percorrem. Passam e perpassam pela oceânica intimidade do Atlântico nesta margem com os nossos pensamentos e do Índico, na outra margem, com os seus temperamentos. Já lá vão os tempos em que a finada Liga Dos Escritores Dos Cinco – LEC, se propôs aproximar Instituições e Homens de pensamento das gerações dos utópicos sonhadores. Reflectindo, cabe aos mais novos redinamizar as acções de Luandino Vieira e de Rui Nogar enquanto secretários gerais da União em Angola e da Associação de Escritores em Moçambique. Urge revitalizar as acções e todo aquele pensamento não só por via de publicações mas, fundamentalmente, organizando encontros, visitas (públicas e privadas), bienais, festivais, recitais, concursos e outros quejandos, cultivando e cultuando os mais nobres propósitos artístico-literários em razão da solidadariedade e fraternidade que subjaz do nosso colonial passado comum. A geração Kuphaluxa e os seus dinamizadores têm hoje a faixa etária e o vigôr dos Brigadistas e Charrueiros dos ídos de 80, que souberam aprender e estar, sempre que possível, ao lado dos madalas de ontem e de sempre, apesar do dialéctico conflito de gerações que com respeito e sem antagonismos de monta permitiu a tarimba e a experiência de hoje. Ao Japone Arijuane, Amosse Mucavele, Mauro Brito, Eduardo Quive, Dany Wambire, ao Nelson Lineu, e tantos outros que certo dia nos fizeram retroceder no tempo e parar nas acções brigadistas de há trinta e tal anos, resta-nos homenagear dizendolhes que com um bocadinho de mais rigor ortográfico, apuro gramatical e vigilância redactorial poderemos, em boa conta, peso e medida, ―Dizer, Fazer e Sentir a Literatura‖, em benefício da História, das gerações vindouras e do próprio porvir.

Finalmente, tendo em conta a necessidade de redizer as coisas servindo-se das mais modernas tecnologias de informação, saibam que é útil e interessante distinguir a ténue fronteira entre a escrita jornalistica e a escrita artístico-literária, principalmente quando se é jornalista e escritor ao mesmo tempo. É importante poder distrinçar os rasgos denotativos dos dribles conotativos da linguagem, porque ambos (o jornalista e o escritor) trabalham talhando uma única munição. A PALAVRA. Ela fere tão bem como lâmina e não raras vezes é mesmo letal. Sereis assim, competentes herdeiros de Craveirinha, David Mestre, Calane, Patraquim, Mia e mesmo de um Mendonça ou Saúte que – com seus textos nos nossos contextos, para lá das circunstâncias e dos nossos circunstantes-, souberam e têm sabido ser agêntes literários de refinada pena! J.A.S. LOPITO FEIJÓO K. BELAS, JULHO DE 2012

Em Literatas por subversivos reinos

S

aúdo, com amizade e cumplicidade, os intelectuais e

activistas culturais moçambicanos, que criam e dinamizam a revista Literatas. Sejamos, nesta viagem da revista Literatas,

plurais

e

soberanos…

sempre. Arménio Vieira, poeta caboverdiano e claramente «um dos nossos», teria dito ser pela metaforização do discurso a salvação do pensamento. Ninguém, mas ninguém mesmo (já que o rei vai sempre nu), é dono da razão, mas não creio que o «mais velho» esteja despido de alguma razão.

Filinto Elisio-Cabo Verde

Queríamos ver mais poemas, mais contos e mais ensaios nas páginas da Literatas. Ver mais gente, dos já consagrados aos mais jovens, estes nem por isso menos talentosos. Ver mais palavras moçambicanas, outras, todas em toadas… inumeráveis. Num quântico de qualidade literária, desafio que não perderemos, amigos. Em cada tempo e por cada geração, as coisas precisam acontecer. Com as palavras, em falado ou escrito, bem como em prosa ou verso, precisam acontecer. As tais palavras que, de tão subversivas, mesmo em formas de pluma, fazem caír muralhas – e que muralhas temos nós, cercados da pobreza, da improdutividade e da corrupção, nos impõe fazer ruir. As palavras que, nessa própria destruição criativa, são literatas. E que, inexoráveis, vão promovendo vidas. Meus amigos, vidas, porque dialécticas, éticas e estéticas. Porque, em seu ovo, diria até em seu Bóson de Higgs, infimamente subatómicas, são mudanças. As mudanças (que ninfas) emergem das palavras e, tal como na Génese, para que ao sétimo dia se nos configure a criação e, em reverso, o coarctar o Verbo se nos reconfigura o sétimo (dizem que derradeiro) selo. Outro intelectual, o nigeriano Chinua Achebe lembrou que o poeta em não tendo problemas com o rei, teria chatices com a sua poesia. É que o rei vai nu, porra. E o resto, meus confrades, é poeira em seus mais invisíveis fragmentos.


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Poesia

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Kinaxixi

Traduzir-se

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Índicos Caminhos

Calane da Silva- Moçambique Os caminhos

Ferreira Gullar-Brasil

são teus na lonjura destes

Uma parte de mim

Agostinho Neto-Angola

é todo mundo:

passos.

outra parte é ninguém: Gostava de estar sentado

As palavras e metáforas

num banco do kinaxixi

são às vezes minhas

Uma parte de mim

às seis horas duma tarde muito quente

rimadas de íntimos

é multidão:

e ficar...

cansaços.

outra parte estranheza

Alguém viria

e solidão.

talvez sentar-se

As flores do Índico

sentar-se ao meu lado

são nossas

Uma parte de mim

E veria as faces negras da gente

pétalas do mar

pesa, pondera:

a subir a calçada

insubmissas...

outra parte

vagarosamente

delira.

exprimindo ausência no kimbundu mestiço

fundo sem fundo.

Assim o Amo

das conversas Uma parte de mim

Veria os passos fatigados

almoça e janta:

dos servos de pais também servos

outra parte

buscando aqui amor ali glória

se espanta.

além uma embriagues em cada álcool Nem felicidade nem ódio

Uma parte de mim

Depois do sol posto

é permanente:

acenderiam as luzes

outra parte

e eu

se sabe de repente.

iria sem rumo a pensar que a nossa vida é simples afinal

Uma parte de mim

demasiado simples

é só vertigem:

para quem está cansado e precisa de marchar.

Sophia de Mello Breyner -Poprtugal

— que é uma questão

Assim o amor Espantado meu olhar com teus cabelos Espantado meu olhar com teus cavalos E grandes praias fluidas avenidas Tardes que oscilam demoradas E um confuso rumor de obscuras vidas E o tempo sentado no limiar dos campos Com seu fuso sua faca e seus novelos

de vida ou morte —

Em vão busquei eterna luz precisa

outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na outra parte

(Sagrada esperança)

será arte? Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética” De Na Vertigem do Dia (1975-1980)


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Entrevista Ler com a alma

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| Fonte: Jornal Rascunho

Há muito Alfredo Bosi é reconhecido como um dos mais importantes críticos literários brasileiros. Afeito à linha de leitura pautada pela conjunção de formalismo literário e implicação histórica, o autor de Dialética da colonização é dono de uma obra que resolve com felicidade os impasses instituídos por correntes analíticas refratárias à pluralidade. Nesta entrevista, concedida a estudantes da pós-graduação da UFRJ (Eduardo Rosal, Heleine Domingues, Luiz Guilherme Barbosa, Marcos Pasche, Mayara Guimarães, Priscila Castro, Roberto Lota e Wellington Silva), no Centro de Estudos Avançados da USP, do qual é coordenador, Alfredo Bosi fala detidamente de seu mais recente livro — Ideologia e contraideologia —, recapitula seu percurso intelectual e destaca a importância do Padre Antônio Vieira para as letras do Brasil.

La Rochefoucauld, Pascal, prenunciada no século 17, hoje é estudada JR: Hoje assistimos a uma espécie de revitalização de Machado de Assis. Ele passa a ser lido fora do Brasil, sob os mais diversos pontos de vista. Como o minuciosamente. Depois veio também a volta da literatura dos gêneros, da mulher, das raças, e que a antropologia dos estudos culturais senhor avalia essa voga: Machado de Assis internacional?

AB: Eu acho que aí nós realmente podemos dizer que Machado de Assis ficou na sombra por um motivo histórico sabido: ele escreveu em português, no Brasil. Então, isso pode estar acontecendo em outras culturas, chamadas na época de periféricas. Hoje, acho que o termo está um pouco relativizado, porque o mundo está polarizado de várias maneiras, sendo impossível dizer ―aqui está o centro, aqui está a periferia‖. Mas durante muito tempo essa metáfora foi válida. E os países que estavam, vamos dizer, numa condição de industrialização mais lenta e ainda não tinham uma língua de projeção, como o francês e o inglês, ficaram na sombra. O caso de Machado de Assis foi uma injustiça histórica que terá sido cometida também com outros autores. Mas, nesse sentido, a chamada globalização foi-nos favorável porque houve um momento em que a cultura brasileira e, sobretudo, o estudo da língua portuguesa, passou a ser um fato na Europa e também nos Estados Unidos. Hoje podemos dizer que há um conhecimento razoável da literatura brasileira em alguns centros europeus: Berlim, Roma, Paris, Milão, Salamanca, Santiago, Madri e, nos Estados Unidos, nas melhores universidades. Acho que Machado de Assis se beneficiou dessa possibilidade de ser estudado e lido em grupos universitários, além, naturalmente, dos estudos sociológicos que se fizeram. Não só de Machado, os escritores contemporâneos estão aparecendo na pauta. Clarice Lispector tem sido muito traduzida, por exemplo, e Guimarães Rosa também é considerado um dos maiores escritores do século 20, como Machado e outros grandes nomes. Pena que alguém como Graciliano Ramos, que é um escritor tão poderoso, ainda não encontrou, a não ser muito limitadamente, a reputação que merece, mas há de chegar ainda seu momento como grandíssimo escritor. Euclides da Cunha é muito estudado pelos sociólogos, antropólogos americanos. Então, Machado está sociologicamente começando a ser redimido da situação, mas isso do ponto de vista sócio-histórico, porque do ponto de vista da mensagem, isto é, do ponto de vista do texto do Machado, realmente ele começa a se impor como alguma coisa excepcional. Aqueles que têm mais sensibilidade nos aspectos individuais da literatura perceberam que estão diante de um autor extremamente complexo, da altura de um Henry James, a quem alguns aproximam muito, e alguns contistas americanos e ingleses. Aproximam às vezes do Proust, mas aí eu já acho uma coisa meio forçada. Mas vê-se que a complexidade existencial de Machado é digna da época em que apareceu Freud, por exemplo, embora este absolutamente não o conhecesse, mas ele estava sintonizado com uma época que estava cavando um conceito de inconsciente. Então, pode-se fazer uma leitura interna de Machado com parâmetros muito modernos. A psicanálise e suas várias correntes, a literatura como despistamento, tudo isso que hoje é estudado com tanta finura pelos críticos da modernidade foi descoberto em Machado. Machado era um escritor só aparentemente linear, mas ele tinha, vamos dizer, um subterrâneo. Uma luta das paixões de um lado, do outro lado, do ponto de vista marxista, ou, digamos, sociológico lato sensu, os interesses materiais são muito fortes na obra de Machado, os personagens estão profundamente ligados aos seus interesses materiais. Daí deriva, vamos dizer, o sentimento de posse, deriva um aliciamento que os personagens fracos fazem dos fortes. Eles aliciam para poder subir. E daí também, psicologicamente, tem a traição, a ingratidão. Essa dinâmica, que é uma dinâmica que os moralistas estudaram, os grandes moralistas franceses,

americanos também colocou em primeiro plano. Então, de repente, num espectro de 30 a 40 anos, Machado se revela um autor extraordinariamente moderno. Acho que aí ele se beneficiou também dessa abertura da globalização.

JR: Especificamente sobre a leitura de um professor de Portugal, Abel Barros Baptista, existe alguma produtividade no tipo de leitura que é proposta por ele? AB: Eu já teria dificuldade de responder a sua pergunta e aí não sei se vou dizer mais do que devo e menos do que posso. Eu não entendo muito as coisas do Abel, mas se eu disser isso vai ser lido de uma maneira irônica, de uma maneira ferina, e eu não gostaria que saísse dessa maneira, mas não sei como dizer isso fluentemente agora. Eu tenho dificuldade, porque ele tem uma polêmica muito viva contra a leitura sociológica. É uma polêmica na qual eu me incluí em parte. Em Brás Cubas em três versões, precisei dizer que a leitura sociológica já estava de alguma maneira extrapolando, mas que também as outras leituras podiam extrapolar. Mas, como essa era hegemônica, principalmente na Universidade de São Paulo, era preciso que alguém dissesse: não, Machado é mais do que um cronista do Rio de Janeiro do século 19, ou do Brasil; ele é mais, por trás disso tem uma visão subterrânea, como diz Augusto Meyer, que vai decompondo, vai tirando sentido disso e de tudo aquilo que ele toca. As crônicas que ele faz, e que têm referência à Europa, à Inglaterra, à França, também estão penetradas dessa visão. Nesse livro procurei dizer o que penso. O último capítulo é justamente sobre o teatro político na crônica de Machado de Assis. Realmente, a política aparece a ele, que foi observador do Senado quando jovem e um jornalista reputado do Diário do Rio. Ele via realmente aquilo que era uma farsa, um teatro, mas esse teatro é um teatro que ele acha que é uma coisa ligada ao final mesmo da política, que o poder instaura um teatro de representações em toda parte, no mundo inteiro, como o poder se teatraliza. De modo que eu queria que sua pergunta não se estendesse especificamente ao Abel, porque ele, nessa polêmica anti-sociológica, acho que extrapola, no sentido de não reconhecer as várias dimensões do Machado: a dimensão social; a dimensão existencial; que Augusto Meyer mostrou admiravelmente bem; a social, que vem do Schwarz e de seus discípulos; e a dimensão propriamente intertextual, que foi descoberta em grande parte pelo [Sérgio Paul0] Rouanet. Gosto muito do livro do Rouanet, sobretudo a ligação com Sterne. Ele faz uma leitura completa do quanto realmente Machado deve a Tristram Shandy, numa análise miúda.


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Entrevista

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| Fonte: Jornal Rascunho

Então, essas dimensões, separadamente, não conseguem explicar Machado. Só uma A gente sente que, em geral, atrás daquele pessimismo, daquele ceticismo, há delas transforma-se num verdadeiro fanatismo crítico. Agora, como conseguimos inter- uma revolta, um desejo de que as coisas não sejam como são. Então, você relacionar as três — o Machado público, o Machado íntimo, o Machado formal —, no acaba tendo uma posição crítica. meu ponto de vista, é mais interessante, mais enriquecedor. Então, deixemos em JR: A crítica literária é ideológica ou contraideológica? Se ela for santa paz o Abel, porque minha confissão vai ser tomada de uma maneira irônica.

O leitor que entrar em empatia com esses organizadores da experiência, esses estimuladores, certamente terá uma postura diante da vida mais engajada, mais nobre, mesmo quando pessimista. Mais compassiva." O senhor dedicou sua vida à literatura tanto como pesquisador quanto como professor, se é que podemos dividir uma coisa da outra. O que o senhor pensa do ensino de literatura enquanto possibilidade de inquietação, de levar a paixão pelo objeto?

ideológica, como aponta a contraideologia do texto? E se ela é contraideológica, em que medida se aproxima e se afasta da literatura?

AB: O problema da escrita ideológica e contraideológica é que o crítico precisa estar sempre atento ao que escreve. Ele não vai fazer nada gratuitamente. Acho que quando o crítico descobre, ou acha que descobriu, num romancista, ou numa personagem, um ícone ideológico — típico caso de Machado de Assis, que tem famosos personagens, como o Pádua, ou o Cotrim, que são verdadeiras alegorias ideológicas, a própria essência daquela burguesia cruel —, tem que ter o trabalho de desdobrar isso, de mostrar como isso tem fios que levam à história contemporânea, porque ali houve um esforço do Machado de Assis, no caso, de representar, um esforço de representação, mas não só.

Minha experiência é cinqüentenária, comecei dando aulas no colegial, ali pelos anos 1960, e eu tive uma surpresa, porque todos diziam que os alunos iam resistir muito. Tinha-se que dar literatura mesmo, desde o primeiro colegial, com alunos de 15 e 16 anos, para o científico. Eu dava Há personagens que à primeira vista podem ser aula no colégio Mackenzie, depois no Santa Cruz. só catalogados dentro do livro, como Brás Cubas, Dei aula em vários lugares, e mesmo no Estado, que em várias de suas ações, quando conta suas uma experiência que eu achei muito viva, no termo ações de juventude, seus atos em relação à integral. A partir da minha tese de doutorado sobre Eugênia, por exemplo, mostra que foi um pulha, Pirandello, em 1964, tive que deixar, mas eu deixei um covarde, uma expressão da ideologia da com uma certa tristeza, porque gostava muito de época. Aí está, no final do meu livro, o nó lidar com adolescentes, desmentindo tudo aquilo ideológico de Machado de Assis. Mostro que há que diziam: ―Eles não vão se interessar, em Machado uma denúncia rigorosa desse absolutamente. Você vai dar história literária, que universo, só que não é só isso, porque se fosse está no programa, e pode começar com Camões só isso ele estaria como os naturalistas da época, ou com os poetas medievais, e eles vão bocejar o que estão fazendo denúncias sem parar. Eça tempo todo e vão fazer a coisa para ter nota‖. fazia, Aluísio de Azevedo fazia, Raul Pompéia, a Apesar dessa carga pessimista, que me assustou seu modo, como também Lima Barreto. São um pouquinho, eu tive uma experiência muito grandes escritores contraideológicos, mas diferente, porque a maneira como eu abordava a Machado de Assis, como tem essa dobra de literatura conseguiu despertá-los. Porque eu lia reflexão, faz com que, no caso do defunto-autor, mesmo os textos, e isso eu aconselho muito aos ele fale do que fez e depois, como defunto-autor, jovens, aos meus assistentes, às pessoas que eu reflita sobre o que ele era, quer dizer, a ―luz da formei e ficaram professores depois. Vocês não consciência‖ está lá dentro. Então, essa ―luz da devem ter pudor da poesia, vocês têm que ler a consciência‖, usando um termo mais de psicologia poesia em voz volta. ―Ah, professor, eu tenho ética, a ciência como uma luz, ela pode ser vergonha, ficar mostrando meus sentimentos.‖ A contraideológica, embora ele não precise fazer poesia envolve evidentemente toda a vida uma afirmação. (…) ―Então, Machado de Assis fez subjetiva. Nós precisamos nos controlar, mas ler, sátira da sociedade.‖ Sim! Mas acontece que as porque é no momento da leitura que tudo se personagens dele, algumas delas, que são as que esclarece. Vocês já estão interpretando, como valem mais, como Bentinho, por exemplo, que alguém que vai tocar alguma coisa no piano, num depois vira Dom Casmurro — essa transformação instrumento. Interpretar é tocar bem, já se sabe o dele o que é? É o momento de autoreflexão a que valor daquilo. Então, vocês têm que ler em voz alta se chega a uma certa idade. Foi verdadeira ou Alfredo Bosi por Robson Vilalba e mostrar também que estão profundamente não a história que ele conta? Ela é articulada em interessados naquilo. termos de reflexão, que não pode ser colocada simplesmente como tipo social, Eu tive experiências tão emocionantes. Quando eu dava, por exemplo, Camões, que porque o tipo social não reflete. A literatura de caricatura tem muito isso, a estava no programa de Literatura Portuguesa, e parava, por exemplo, no Velho do sátira vive muito disso: aquilo que as pessoas fazem e farão sempre igual, Restelo ou, sobretudo, na história do Adamastor, que é épico, tem um certo vigor, os porque estão já com caracteres bem formados. Alguns datam de Rousseau alunos se entusiasmavam. Alguns até subiam na carteira. E ficavam declamando (não vou fazer agora estudo da história da arte), numa literatura autobiográfica, Camões! Parecia que ia ser incompreensível, coisas que tinham sido escritas tantos das confissões dele; outros remontam a Montaigne; outros chegam mais perto séculos atrás. Não! Líamos, aqui e lá fazendo uma observação de vocabulário, mas o de nós, da grande literatura introspectiva de Proust, de James Joyce, de contexto todo era um contexto que tinha uma unidade de significados, de sentimento, Pirandello, de Kafka, enfim, um espectro enorme de literatura de auto-análise. que eles se apaixonaram. Então, depois que entrei na universidade, onde o clima era Esse momento de auto-análise quer me parecer que pode ser contraideológico, outro, um pouco mais sóbrio, um pouco mais moderado, mesmo assim eu vi que era pelo menos ele dissolve a opacidade do tipo, que só é aquilo, aquilo, aquilo. ler, era ler os poemas. Eu percebi que a leitura, uma leitura expressiva, uma leitura Por isso nunca aceitei que Bentinho fosse um homem da alta classe que empenhada — como se faz numa oração, em que se dá o coração todo naquilo —, é desprezava, portanto, necessariamente, uma moça vinda de outra classe. Isso melhor não fazer se você não tem fé. Você tem que ler aquilo com a alma e com certo é um empobrecimento terrível, coloca cada um na sua classe, então só se pode entusiasmo. Professor de literatura tem que ter certa vitalidade, entusiasmo, não pode agir daquela maneira. Não! O romance é todo um desejo de confissão, de ser muito anêmico, tem que ter algum vigor na sua leitura para que ele contamine, no autoconfissão, de auto-análise, de perplexidade, de tristeza. E isso Augusto melhor sentido, para que ele chame à vida. Porque tudo transborda para a vida, por Meyer viu bem. Nós demos sorte de ter tido um crítico como ele, que não era isso a literatura acaba sendo, vamos dizer, uma organização da vida, uma formulação universitário. Eu aconselho que vocês leiam com muita atenção a obra dele dos nossos sentimentos, de nossas experiências, seja ambígua, seja moderna. Então, sobre Machado. O Álvaro Martins também escreve de maneira muito bela e a literatura na universidade tem uma grande função humanizadora, ela humaniza. Os nada acadêmica, mas ele foi muito sensível; como era um grande leitor de trabalhos que a gente consegue são muito bonitos quando a gente percebe que há Dostoiévski, um grande leitor de Pirandello — e aí se vê a importância da esse empenho da parte dos alunos. E esse espaço é público também, você fez uma literatura comparada —, ele sai e consegue ver em Machado um ―eu‖ pergunta que transborda os limites da universidade; eu acho que todos esses autores subterrâneo que a crítica sociológica não conseguiu. FIM que vocês estão estudando, cada um deles organiza sua própria experiência de um certo modo. O leitor que entrar em empatia com esses organizadores da experiência, esses estimuladores, certamente terá uma postura diante da vida mais engajada, mais nobre, mesmo quando pessimista. Mais compassiva. Vocês podem ter uma visão muito negra. A literatura contemporânea tem momentos muito negros, o sujeito fica, assim, aterrado na violência, com desrespeito pelo ser humano.


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Jorge Amado é homenageado em livro na 22ª Bienal de São Paulo

VALDECK ALMEIDA DE JESUS –Brasil* Jornalista lança antologia com artigos, redações e crônicas em homenagem ao centenário de Jorge Amado O livro “Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus – Homenagem ao Centenário de nascimento de Jorge Amado (1912-2012)” será lançado no estande da PerSe Editora, em 10 de agosto, das 19 às 22 horas, mesmo dia do nascimento do grande Jorge. A obra é resultado de um concurso internacional patrocinado pelo jornalista jequieense Valdeck Almeida de Jesus e traz artigos, crônicas, redações e poemas de 64 escritores de várias partes do mundo. São eles: Abraão Leite Sampaio, Adriana Quezado, Agostinha Monteiro, Alice Gödke, Amanda Löwenhaupt, Ana Claudia de Souza de Oliveira, Ana Rosa de Oliveira, André Kondo, Beatriz Moraes Ferreira, Betty Silberstein, Bruno Monteiro Flores, Carlos Souza, Clarissa Damasceno Melo, Crispim Santos Quirino, Danilo Souza Pelloso, Denílson da Silva Araújo, Dhiogo José Caetano, Diogo Cantante, Diogo Rocha Braga, Domingos Alberto Richieri Nuvolari, Ed Carlos Alves de Santana, Edweine Loureiro, Elson Carvalho Alves, Eulália Cristina Costa e Costa, Gil Nascimento, Gustavo Zevallos, Isadora Sabar, Janio Felix Filho, Josafá de Orós, Júlio César Freid’Sil, Karline da Costa Batista, Léa Costa Santana Dias, Lénia Aguiar, Lina Macieira, Lucas Expedito Claro Prado, Lúcia Amélia Brüllhardt, Marcelo Canto, Márcio Santos Sales, Maria da Conceição Braga de Castro, Maria das Graças Evangelista Santos, Maria Fernanda Reis Esteves, Maria José de Oliveira Santos, Maria Letra, Maria Luiza Falcão, Marilene Maria de Oliveira, Marilene Oliveira de Andrade, Marina Fernanda Veiga dos Santos de Farias, Neva Scarazzati de Oliveira, Nubia Estela, Olmira Daniela Schaun da Cunha, Paula Alves, Quitilane Pinheiro dos Santos, Renata Leone, Renata Rimet, Roberto Augusto de Piratininga Ferrari, Roseli Princhatti Arruda Nuzzi, Silas Correa Leite, Silvia Helena Machuca, Silvio Parise, Solange Gomes da Fonseca, Varenka de Fátima Araújo, Vó Fia e Zeca São Bernardo. Primeiros colocados “NEM O ÓDIO, NEM A BONDADE”: JORGE AMADO E A LUTA PROLETÁRIA NO ROMANCE CAPITÃES DA AREIA (Léa Costa Santana Dias) O Evangelho segundo Jorge Amado (Sílvia Helena Machuca) Sem-Pernas: o retrato de muitas crianças baianas (Marilene Oliveira de Andrade) A Construção Econômica e Social de Jorge Amado: O País do Carnaval, Cacau e Suor; Capitães da Areia; Os Velhos Marinheiros (Denílson da Silva Araújo) Salvador de um Amado Jorge (Edweine Loureiro) Vozes do Sertão (Bruno Monteiro Flores)

Jorge Amado é sinônimo de Brasil, de Bahia, de brasilidade. Falar da obra é falar do ser humano criador; falar das personagens é identificar o falar natural das pessoas da rua, da gente que circula e inunda praças e avenidas desse grande país, que é mais interior do que capital. A presença de Jorge está nas esquinas, nos costumes, que o tempo não deixa morrer. O escritor está vivo, sempre, na vasta e diversa obra. E o tempo, senhor da vida, junto com a justiça dos orixás que protegem Jorge Amado, imortalizam a obra desse homem. CONCURSO LITERÁRIO O certame acontece desde 2005 e tem o apoio do Núcleo Baiano da União Brasileira de Escritores, que se junta à justa homenagem a Jorge Amado. Totalmente patrocinado pelo escritor Valdeck, o prêmio já publicou treze livros com mais de 1.100 textos diversos de autores do Brasil, Argentina, Espanha, Portugal, Estados Unidos, Moçambique, China, França, Inglaterra, Japão, Suécia e Suíça, num trabalho sobre-humano de difusão da literatura e da língua portuguesa. * (1966) é jornalista, funcionário público, editor, escritor e poeta. Embaixador Universal da Paz, Membro da Academia de Letras do Brasil, Academia de Letras de Jequié, Academia de Cultura da Bahia, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Poetas del Mundo, Fala Escritor, Confraria dos Artistas e Poetas pela Paz e da União Brasileira de Escritores. Publicou “Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden”, “Feitiço contra o feiticeiro”, “Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia”, “30 Anos de Poesia”, “Heartache Poems”, ”Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland”, “O MST e a Mídia: uma análise do discurso sobre o Movimento dos Sem Terra nos jornais A TARDE online e O Globo online” (coautor: Jobson Santana), dentre outros, e participa de mais de 75 antologias. Organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005, o qual já lançou mais de 1000 textos. Colabora com os sites Favas Contadas, Artigonal, Web Artigos, Recanto das Letras, Portal Literal, Portal Villas, Pravda, PodCultura, Overmundo, Comunique-se, Dzaí, Difundir, Jornal do Brasil, Só Artigos e À queima roupa. Tem textos divulgados nas rádios online Sol (Diadema-SP), Raiz Online (Portugal) e CBN (Globo). Site: www.galinhapulando.com

Jorge Amado e o cinema (Quitilane Pinheiro dos Santos) Jorge “O Bem” Amado (Ana Claudia de Souza de Oliveira) Amado foi Jorge, que desenhou suas raízes escrevendo! (Domingos Alberto Richieri Nuvolari) Jorge Amado e a União Brasileira de Escritores (Carlos Souza) Menções Honrosas A contribuição de Jorge Amado para a Literatura Brasileira (Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho) Terra adubada com sangue (Bruno Monteiro Flores) As Mulheres de Amado (Karline da Costa Batista) Visita à casa de Jorge Amado (André Kondo) Primeiro Dia em Salvador (Marilene Maria de Oliveira)

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Africanidades

O passo certo no caminho errado

A produção literária em contextos adversos

Trezentos e sessenta

Victor Eustáquio– Portugal

e tal dias A definição de diplomacia está longe de ser con-

Nelson Lineu - Maputo

sensual. Das várias soluções propostas, duas parecem ser bastante aceitáveis, pelo menos no

M

contexto que aqui se pretende perseguir: (1) a persuasão contínua para a busca de soluções esmo conhecendo a máxima do Nietzs-

mutuamente aceitáveis ou (2) a delicadeza no tra-

che Segundo a qual tínhamos que fazer

to com que se conduz um negócio entre partes na iminência do desentendimento.

as coisas com amor de mãe, por elas não quererem recompensa dos filhos; a

Ambos casos conduzem à sugestão de Adriano Moreira (uma figura controversa para

Deusa da palavra deu-me luz nesse maningue naice espaço do mundo, nas

os africanos que dele se lembram), a saber, que ―a guerra começa onde acaba a diplo-

mãos kuphaluxadas que todos dias apanhavam e continuam apanhando lenha

macia‖.

para que eu conte estórias, numa fogueira que cruza mares, renascendo em

Significa isto que, mesmo com as oscilações na definição do conceito (impostas pelas

cada cultura num dinâmico e mestiço vocábulo, em sotaques que lhe tornam

exigências das várias dimensões em que o mesmo pode ser situado), a diplomacia é

único e belo, pincelado por um respeito mútuo que se quer reinventado.

sempre, em sentido lato, uma ferramenta aconselhável se o que se visa é esgotar to-

Eu, o areópago onde os criadores acentuam o seu paradigma de libertar

dos os caminhos em busca de um entendimento sobre um objecto em disputa entre

conhecendo o seu valor por necessidade não por vaidade, com o testemunho

partes e travar até ao limite o confronto directo das mesmas pela via da violência.

do poeta da Mafalala, a dificuldade da verdadeira poesia não são as ideias

Ora, sendo a produção literária uma manifestação representativa e opinativa, mesmo

mas as palavras. Que nascem das letras, e fazem frases, que por seu turno

que de forma subliminar, sobre as mais variadas problemáticas, com a particularidade

apresentam-nos textos, que se harmonizam em livros, e os livros vivem de

do seu exercício entrar na esfera pública, a consequência é óbvia: a literatura é um ob-

fazer. Acção que levou-me a dar volta aos Trezentos e sessenta e tal dias,

jecto capaz de influenciar, gerar e condicionar, não importa em que direcção, juízos de

quero que cada encontro de palavras seja o ómega, como digo: não existe fim,

valor, opiniões e afectividades. O que é um problema em territórios cuja organização

o que existe é um novo começo.

política não convive bem com a liberdade de expressão e criação artística, em ter-

O deixares de ser você não é para ser outro, mas para ser mais você mesmo.

ritórios que tendem, por necessidade de legitimar a sua orientação ideológica, a erguer

Essa conexão é a minha alegria, lembrando que as tristezas passam e alegrias

limitações, constrangimentos e, no limite, linhas de transgressão.

são para sempre. Não para serem conservadas mas criadas dando-lhes novos

Para os escritores africanos, como para muitos outros que vivem em sociedades com

tons, quanto mais cúmplices forem, mais energia transmitirei um ano outro, já

regimes políticos intrusivos, decerto que tudo isto não é novidade alguma. Mas importa

que os passos de alguém revelam se já se encontram no seu destino e quem

saber, e reflectir, e analisar, de que forma os constrangimentos da liberdade de expres-

conhece o seu caminho, conhece o seu bom vento, como falou uma vez Zara-

são se manifestam naquilo que escrevem, tanto mais que a militância política (não con-

tustra na sua caverna.

fundir com a partidária, que essa é outra história) é uma característica inalienável de

Aqui onde o erro é necessário, chegando a dar-se passo certo mesmo no

qualquer ser humano. Em boa verdade, basta dizer que qualquer relação entre o sujei-

caminho errado. Como quem anda por cima da água, eremita na multidão,

to A e o sujeito B é um acto político. Já se sabe e não vale a pena insistir no assunto.

múltiplo na solidão, num ser ou não, ora contemporâneo ora extemporâneo,

A dúvida é outra: que tipo de literatura se produz em contextos adversos? Uma literatu-

entre tudo e nada, podendo até ser nada desde que em si exista. Não existe

ra de compromisso, com a delicadeza no trato com que se conduz um negócio entre

fronteira no sentir ou como quero nas palavras, quem tenta impor limita-se a si

partes na iminência do desentendimento? É que, caso não seja panfletária, só pode ser

mesmo.

paliativa, o que faz com que não entre na equação. Ou então dissonante, o que implica

A língua, esse fio que nos missanga não deve ser o nosso único elo de liga-

a assunção de um risco elevado. Ou haverá uma terceira via? Uma habilidade secreta

ção, podendo rebentar do lado mais fraco e nos dispersar-mos. Ela não existe

de erosão até ao limite que permita que certos autores se movimentem de forma incólu-

fora de nós, Nós é que damos-lhe existência, muitas vezes movidas por nos-

me nos países africanos mais controversos? Será justo resolver o problema ao catalo-

sos interesses que nem sempre são comuns e nem necessariamente devem

gar esses autores como produto de um regime, com a mera produção de palavras anó-

ser. Nela devemos encontrar o nosso rosto como se fosse espelho, e esse

dinas ou de militância partidária? Ou serão alguns deles as verdadeiras vozes da disso-

espelho entre outros nomes pode chamar-se literatura. Quando vamos ao

nância? Os obreiros do discurso da liberdade fundado na inteligência da persuasão?

espelho cinemar-nos, bonito ou feio, quem diz não é o espelho somos nós, ele só repete o que o dissemos, só que na sua linguagem.

Literatas agora é todos os dias!

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LITERATAS: Um ano de encontros...

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Especial

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| Um ano Revista Literatas

A HISTÓRIA DOS 365 DIAS DE PACO COM O FUTURO

Q

uando nos finais de 2010, na redacção do seminário Escorpião, aproveitando-me clandestinamente das condições que tinha para fazer algo que não fosse só para mim, mas para os meus companheiros também, sem deixar de envolver amigos virtuais já construídos na altura, criei um blogue e aleatoriamente optei por intitular Literatas, vinha-me apenas a ideia de partilhar experiências que não passassem da literária forma de escrever. Mas veemente, depois de criado e ornamentado o blogue já em Janeiro de 2011 cujas primeiras publicações foram, infelizmente, sobre a morte do embondeiro das artes moçambicanas, mestre Malangatana Valente Ngwenha, que se sucedeu a 06 de Janeiro do mesmo ano, foi vendo evoluções. Em Fevereiro Eduardo Quive-Maputo desse mesmo 2011, informei os companheiros sobre a ideia e o blogue, aliás, nesse altura já tinha como cultura visitar outros espaços virtuais que falassem da literatura, dentre eles, ficam-me na memória o Portal de Literatura Contemporânea Brasileira, o Cronópios que de São Paulo, conseguia reunir culturas e debates sobre a literatura universal, e que cheguei a colaborar, fui vendo alguma incerteza dos kuphaluxinos, em carregar a mala rica de conhecimentos que tem e viajar pelo diálogo artístico por meio virtual. Lembro-me que na altura, celebrávamos o primeiro aniversário do Movimento Literário Kuphaluxa, este que já tinha sido rodeado por olhares curiosos de toda a parte, querendo inteirar-se da sua existência e objectivos. Era de facto, altura ideal, ao meu entender, para que criássemos um meio que estabelecesse essa linha infomagnetica para a faixa iniciante da oblíqua literatura moçambicana e até, divulgar os ―colossos‖ pouco partilhado pelo país a fora. Foi um começo inflamado, cheio de incertezas e medos, tal como norteou-se a Geração 80 angolana, já agora, lembrando-me das ideias do estudioso Luís Kandjimbo que chama esses tempos de ―Geração das Incertezas‖. É verdade que a vaidade e um pouco de coragem devem ser os bons princípios para se dar os primeiros passos. Deve haver sempre, o medo de cair, mas nunca o receio, porque este é mais forte que a própria potência da queda. Pelo menos no sul de Moçambique, quanto mais areai uma criança como, mais forte a sua espinha dorsal fica – diz a tradição. E como comer areia de pé? Será mesmo como fazem as mulheres de agora? Ir ao Malanga comprar quilos e quilos daquele produto que alimenta os nossos chãos e que serve para fermentar corpos moribundos para alimentar vícios de apenas gastar por inutilidades? Não, a areia come-se deitado de barriga; de cabeça ao alto, mas de barriga estatelada, como os lagartos. Os nossos bebés são assim e assim devem ser – mandam os nossos avós sabidos. Por isso, ao criar este Literatas, nada nos podia intimidar, podíamos até temer caiar, mas estávamos proibidos de cair para os chãos que os nossos avós fermentaram. Chãos que nossos espíritos, dos mais antigos ancestrais deixar os segredos da vida, na areai faminta que pode alimentar seguranças e perseveranças. Os kuphaluxinos precisavam dessa doutrina. Isso é que os fez acreditar quando disse-lhos as minhas ideias, vamos companheiros, vamos inventar novos tempos, que tal uma revista de Literatura que fosse moçambicana, mas em comunhão com a de outros falantes da língua portuguesa? Lusofonia, era o termo ideal, embora fosse em tempos da sua emancipação. Tempos de tamanha incompreensão sobre o mesmo. E isso nos favoreceu para que não temêssemos a tamanha ousadia. Lembro-me do Pedro Du Bois, o primeiro aparecido das terras brasileiras para dar crédito ao projecto ora tornado verdade. Daí, o Pedro Maciel, José Inácio Vieira de Melo este mais amigo e verdadeiro companheiro, presenteando-me sistematicamente com os seus livros enviando-os fisicamente desde Baía onde se encontra para este Maputo. Estavam já lançados os dados, o resto era da nossa responsabilidade. Aleatoriamente dentro do Kuphaluxa foi se instalando um movimento de dar crédito a esse sonho ousado de lidar com um produto ainda tão escasso em Moçambique. E é verdade. a internet em Moçambique ainda é para uma minoria, valendo os telemóveis que atraem dinheiros de todas classes do país que facilitam com que essa minoria seja numerosa. Depois de muitos ensaios, fiz o leyoute da versão que seria enviada por correio electrónico semanalmente da revista Literatas. Esta que é a que funciona com uma regularidade de dar gosto. Esta que hoje tomou o espaço de muitos outros projectos do Movimento Kuphaluxa e que até, ofusca o nome desta agremiação. Esta que depois de eu ter saído do Escorpião, em Novembro de 2011, passou verdadeiros momentos de apocalipse por já não se ter como editá-la uma vez que o material necessário que não passa de um computador, o pequeno Movimento Kuphaluxa não tinha, obrigando uma paragem obrigatória por dois meses, o que significa 8 edições não tiradas. Mas por fim é este mesmo Literatas que nos guia e nos une hoje pela passagem dos seus 365 dias de sobrevivência. E não disse que cair era inevitável para que ficássemos com uma forte espinha dorsal? Dois meses caídos a comer areia valeu-nos a continuidade até hoje. Verdade é que ainda não temos recursos próprios, aliás, que recursos esperaríamos ter, fazendo a arte que não é das atenções dos grandes detentores de dinheiro? Que cultura é essa de informar sobre as letras através das letras? Mesmo a propósito do fim desta história que já se aproxima, vou lembrar da entrevista ao popular músico Carlos Lhongo (companheiro da Zaida, ambos já falecidos) em As Inconfidências dos Homens da Rosa Langa, que disse ter tido o maior cachet de 15.000, 00 Mt (quinze mil meticais), uma verdadeira micharia, como dizem os brasileiros, para artistas da dimensão do casal Carlos e Zaida Lhongo.

Isto para dizer que a cultura, aquela que não se conhece o preço baixo dela por tão valiosa ser, nesta pérola do Índico está na maior desvalorização. Mas tempos bons virão. Tempos que não só o País deve perspectivar, nós, os Literatas também temo-os em mente. Tempos que já os iniciamos tendo semanalmente novos colaboradores na revista; Tendo verdadeiramente, uma revista que seja para a divulgação da literatura e espaço de debate intelectual sobre o que é a arte de alma. Hoje as pontes lusófonas uma vez referidas por Lopito Feijóo, este angolano padrinho do Kuphaluxa nas suas lutas, estão restabelecidas. Falta apenas a sua consolidação através de encontros a que se encontrão esses criadores. Quanto a nós Literatas, já nos abrimos para o mundo como casa para o criador literário de língua portuguesa e, já agora, não só, uma vez termos já publicados poetas e ensaístas mexicanos e finlandeses. É agora nossa meta nos estabelecer através de uma presença fixa com actualizações diárias na internet. Falamos do regresso ao primeiro passado dado. É agora a hora de criarmos um verdadeiro portal de Literatura Moçambicana e Lusófona e, aí está iniciada essa campanha de angariação de fundos para a efectivação desse projecto. Estão mais uma vez lançados os dados e os pedidos de envolvimento de todos, afinal neste projecto, o lucro é ver a arte a fluir e a emoção de promover o oculto levando-o ao debate de toda a comunidade. Bons tempos nos perseguem companheiros. Agora não refiro-me aos companheiros do Movimento Literário Kuphaluxa, refiro-me aos cerca de 100 colaboradores de Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-bissau, Portugal, Brasil, México, entre outros cantos que se vão aliando ao projecto, incluindo, obviamente aos cerca de 20 mil leitores alcançados e o milhares que nos lê desempedidamente, afinal, somos livres e abertos para o mundo. Somos gratuitos e disponíveis. Somos a palavra, quem nos manda? Não vos falo de um projecto sonhado. Falo-vos de um sonho realizado, isso é que vale.

1 ANO DA REVISTA LITERATAS Fernanda Angius-Portugal

Para o PRIMEIRO aniversário da LITERATA

A

LITERATA marca o início de uma nova geração de intelectuais em Moçambique. Herdeira das anteriores Charrua e Lua Nova, ela é, contudo, a pioneira como Revista literária moçambicana "Online". Os seus colaboradores e responsáveis, o grupo de jovens que produzem LITERATA NÃO SE LIMITA À PRÁTICA DA LITERATURA COMO PRODUTO DE BELAS LETRAS. Ele quer fazer ouvir a sua voz de cidadania responsável e contribuir para a formação de uma consciência nacional identitária de moçambicanidade. Os olhos postos na circunstância que faz o homem de cada dia, não deixa de apontar os aspectos positivos e negativos que marcam o percurso da vida moçambicana hoje, no presente convulso mas prometedor de um devir que estes jovens garantem mais limpo de guerras e rico de esperanças. Gosto de vos ler. Gostarei de vos ver chegar ao 2º aniversário mais fortes e mais perfeitos na língua (ou nas línguas) adoptadas para comunicarem as notícias e os textos que marcarão a Literatura moçambicana e demonstrarão a sua natural evolução. Nenhuma Literatura persiste sem a presença de um olhar crítico sobre ela. Mas a exigência de qualidade deve partir do criador. Pegar numa ideia e transformála em mensagem exige talento e esforço, "a ideia busca a forma" para recordar Camões e Platão…

Parabéns a LITERATA e aos seus redactores e progenitores.


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Especial Feliz aniversário para as letras da Literatas

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| Um ano Revista Literatas O artcismo nos olhares dos escritores da província do Niassa pelo primeiro aniversário da revista literatas Mucuruza - Niassa

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Rosália Diogo-Brasil

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o mês de julho, a Revista Literatas completou 1 ano de vida. Cá do atlântico, saúdo essa data querida e desejo a ela longa vida. Que essa criança cresça bem saudável, inventiva e poética. O contentamento que me toma é amplo. Tentarei, à guisa de nortear o leitor sobre a dimensão da importância que atribuo a esse instrumento de comunicação – trata-se de uma revista que cumpre o propósito de informar, e formar, no planeta, cidadãos interessados em boa prosa sobre a diversidade das marcas literárias que amalgam os continentes. Essa produção cumpre ainda o salutar papel de possibilitar ao leitor conhecer melhor o universo societário moçambicano. Para mim, que tive o privilégio de viver nesse país e usufruir da riqueza cultural lá existente, e, sobretudo, da refinada e gentil forma com a qual o povo daquele país convive conosco, os ―estrangeiros‖. Passei a dizer, porque sinto profundamente, que Moçambique é uma das minhas terras de pertencimento. Destaco algumas matérias publicadas por esses jovens escritores, que enfrentam limitações diversas para nos presentear com esse precioso material de leitura. As temáticas para as quais solicito especial atenção reverberam significativo esforço pessoal que tenho envidado para dar visibilidade à literatura afro-braileira e moçambicana. Afora isso, acentuo a narrativa do escritor Mia Couto, que tem soberbamente traduzido, em nível planetário, os enredos que permeiam o modo de vida e os embates presentes no seu país. O primeiro acesso que tive da revista foi por meio da edição número 2, datada de julho de 2011, quando se passavam poucos dias que havia retornado ao Brasil, após ter traçado, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, um pouco da literatura afro-brasileira de Conceição Evaristo e Paulina Chiziane. Na ocasião, privilegiei as marcas textuais das duas escritoras que nos facultam uma melhor compreensão do modo feminino de ver o mundo por meio da matéria poética e prosaica. Com perspicácia, os organizadores do semanário registraram a minha tentativa de estreitar relações culturais e afetivas com Moçambique. Também em 2011, o escritor Mia Couto enriquece o espaço das Letras Literatas para dissertar sobre a provisoriedade que o mundo, e os desafios para o continente africano, que assume características de acentuadas diferenças no que se refere à parte subsaariana em comparação à parte norte, cujos países muitas vezes desconhecida como pertencente ao conjunto do continente. O mote da escrita de Couto foi a situação caótica vivida pela Líbia, ainda sob a batuta do ditador Kadhafi. Tendo observado de perto os embates, limites e possibilidades experimentados pelos ecos do norte que chegaram a Moçambique, quando lá estive, de novo me senti profundamente tocada pelo assunto. Em se tratando de Mia Couto, dotado de reconhecida sensibilidade para compreender e encenar no campo literário as alegrias e dores do mundo, o seu relato nos impulsiona a pensar em alguns desafios a serem vencidos na cena contemporânea. Em uma edição posterior, já em 2012, me apropriando desse instrumento, por meio do qual me cederam cadeira cativa para partilhar impressões e testemunhos, relatei a vinda da escritora Paulina chiziane ao Brasil e a sua valorosa contribuição na I Bienal do Livro e da Leitura de Brasília. No evento, Chiziane, além de traçar um elucidador papel da matéria literária de

m conversa com o autor de Nykonkwe a Reforma da Prostituta, a propósito do primeiro aniversário da revista Literatas com sede na capital dos país, Mukwarura mostrou-se satisfeito por esta ter abrangência internacional e não só mas também ao nível provincial. Aliás, Mukwarura compara Literatas a outras revistas de literatura que desfilaram e/ou desfilam em Moçambique, tais como Oásis, Proler, Lua Nova, e outras pelo seu empenho. No entanto, o dinamismo desta, supera outras antes referidas daí, a importância da sua continuidade no trabalho que tem vindo a desenvolver. entretanto, algo se pode melhorar, no entender do nosso interlocutor, a Literatas deve igualmente, desenvolver um trabalho nas províncias com os vários movimentos literários. a título de exemplo na província do Niassa com o Clube dos Escritores da Escritor Mukuarura-Niassa Província do Niassa. ademais, Francelin Wilson de seu nome verdadeiro, assinala o que de mais importante a revista faz. ―é de louvar as várias actividades que esta revista faz principalmente pelo facto deesta não escolher escritores para publicar, ou seja todos terem espaço.‖ Ainda a nossa fonte acrescentou que a revista não só deve ter a componente de publicar mas também deve proporcionar festivais de poesia e com isto transportar para a revista em forma de notícias relatório. Também proporcionar encontros entre autores consagrados e os emergentes.

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SEXTA-FEIRA, 13 DE JULHO DE 2012

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LITERATAS

Croniconto O frangófono Dany Wambire - Beira

A

língua francesa já era autorizada a ser escrita e falada em Fim-de-Mundo, cumprindo-se um compromisso saído de um acordo entre o nosso governador e o ministro francês das línguas. E criou-se um instituto, com escola e internato, para educar os fim-demundenses em Língua Francesa. Ainda, o instituto estava abastecido de tudo, com destaque para alimentação. Sim, havia carapaus, frangos e conservas. Tudo quanto exótico havia, atrapalhando os citadinos de Fim-de-Mundo, que, ultimamente e à velocidade astronómica, iam seguindo religiosamente os novos e exóticos hábitos em detrimento dos seus. De facto, já havia escasso espaço nas três refeições dos fim-de-mundenses para mandioca, batata-doce, macacana, marora, matapa, camarão, verdura, etc. Recorria-se a alimentos anteriormente referidos quando o dinheiro era escasso, incapaz de comprar frangos, conservas, ou os fast-food. Quer dizer, comia-se do bom quando o dinheiro era pouco, curiosamente. Com esses hábitos globalizados, ― digo em ausência de adjectivo ― havia Bomrício dos Santos, que era por sinal, o director do Instituto francês. Já que o instituto tinha muitos frangos, Bomrício passou a exigir para as duas refeições, a que ele não tinha direito no Instituto, igual número de frangos. Um ao mata-bicho, e outro ao almoço. E esperava-se que, em qualquer dia ele exigisse mais outro frango, para também mais outra refeição, do ilegítimo direito. Os problemas não demoraram a aparecer. Bomrício foi amontoando gorduras, inúteis, junto ao coração, ameaçando o pleno funcionamento deste. Depois, concorria para o gripamento do motor desse Bomrício, o sedentarismo, que concomitantemente afligia a todos citadinos de Fim-de-Mundo. Também com cedo, Bomrício foi a uma consulta de médico cardiologista, que depois de tantas análises aconselhou-o a não mais consumir comida enlatada, os fast-food e os frangos. Estes últimos eram aves que cresciam mais à custa dos produtos químicos, tóxicos com certeza, desrespeitando a ordem natural de crescimento. Quer dizer, Bomrício tinha de viver mais à natural, ignorando os produtos industrializados, entendidos como os mais saborosos e, que, quem não os consumia era psicologicamente excluído. De deixar de consumir a comida enlatada e os fast-food, todavia, Bomrício não teve receio de o fazer. O problema estava nos frangos. Pois ele, estava num instituto abarrotado dessas aves de crescimento efémero. E mesmo sem direito a eles, ele como chefe, podia criar condições para tê-los, como já o fazia. Então pediu compreensão do doutor. Que se encontrasse outra maneira de salvar-se-lhe a saúde sem deixar os frangos de lado. E o médico respondeu, peremptoriamente. ― Ou deixas de comer os frangos ou vais directamente ao cemitério mais próximo! A saúde está em primeiro lugar. O homem gasta a saúde à cata de dinheiro, mas nem sempre o dinheiro, comprando alimentos e medicamentos, corrige a saúde. Portanto, era mais do que necessário acatar às módicas recomendações médicas. Nos dias sequentes, Bomrício estava no posto de trabalho, já recuperado, a pedir apenas verdura, preparada de forma mais simples possível. E não demoraram a chegar vozes de troça, quando viam-no consumir alimentos que ele antes associara-os aos pobres. ― Chefe já não come frangos? ― Não, essas aves que crescem no laboratório fazem mal. Engraçado! Só agora é que ele tinha descoberto isso, depois de mal ser conduzido pela moda, a malvada moda. E não resistiu muito. Pois, nos sequentes dias estava a visitar ao cardiologista, depois de uns amigos aconselharem-no a de novo comer frangos, mas tirando-lhes antes a membrana exterior. ― Sô médico, não posso comer frangos mesmo depois de tirar a pele? O médico fitou a aflição do homem, estupefacto. Algumas vezes, os pacientes vinham-lhe com as curas, precisando apenas do aval dele para seguir tratamento. Mas dessa vez, vinha-lhe um impaciente paciente com própria morte, também precisando do seu aval. Ele condescenderia com a morte?

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FILOSOFONIAS Marcelo Soriano –Brasil

O Apócrifo Enquanto leres as letras que fiz para nós, Estarás em salvaguarda. A salvo de mim, que agonizo em tuas mãos. A salvo de ti, teu maior perigo. A salvo do vírus corruptor de idéias. Esqueça. Delete tudo até aqui. É tarde demais para salvarmos arquivos! Lázaro! Lázaro! O Messias está atrasado. ------------------------Nosso Grande Algoz O Desejo é o maior de todos os carrascos. Para cada passo, uma chibata. Quando tropeçamos e caímos, ele nos levanta com blasfêmias. O Desejo nos empurra para frente, quando tudo o que queremos é desistir à beira do caminho. Se a cruz do mundo pesa sobre nossas costas, ele nos faz suar sangue. E para que não pensemos, decreta: "coroa-de-espinhos!". Trespassanos as costelas com sua lança aguda. Para o mal da sede: "vinagre!". Para a vaidade do corpo: "apedrejamento!". E depois do ―Pai, por que me abandonastes?‖, a morte. E mesmo depois da morte, o carrasco nos desperta da cova e nos pune com a vigília eterna. ------------------------Noturno 1 Teu cigarro nu escuro vaga luminescência -------------------------

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