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Já no liceu, em Abrantes, Élia Gato se distinguia na área das ciências. Chegada a altura de optar por uma carreira, ainda considerou a hipótese de seguir desporto ou biologia, pelo fascínio que tinha pela investigação na área, mas as duvidosas saídas profissionais levaram-na a decidirse pelo Ensino de Biologia e Geologia na Universidade de Aveiro, consciente de que o curso a iria preparar para a profissão docente.

Élia Mendes Gato

No comando de uma escola única Com 43 anos, uma mão cheia de projectos e um discurso extremamente rico, Élia Mendes Gato é uma das primeiras licenciadas em Ensino de Biologia e Geologia pela UA.

Hoje é Presidente do Conselho Executivo da Escola EB 2,3/S Doutora Maria Judite Serrão Andrade, no Sardoal; uma escola estruturada em Agrupamento Vertical que, por isso mesmo, abrange seis estabelecimentos de educação pré-escolar, sete escolas do 1º ciclo e a escola sede, onde funciona o primeiro,

Com a conclusão da profissionalização em exercício, na Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro, Élia Gato terminou a licenciatura em 1984. “Aprendi muito com o meu orientador de estágio, sobretudo a nível pedagógico. Detentor de uma vasta experiência docente, ensinou-nos que o professor de Biologia e Geologia deve ser um investigador, conhecer profundamente a forma como os jovens de hoje aprendem e, sobretudo, ser um professor com imaginação e espírito criador. Alertou-nos para o facto de ser difícil possuir todas estas qualificações, mas advertiu-nos para nunca as ignorarmos ou esquecermos”. Antes de ter sido colocada como Professora Efectiva do 11º Grupo B na Escola C+S de Sardoal, Élia Gato passou pelas Escolas Secundárias de Ponte de Sôr e de Mação. Hoje é Presidente do Conselho Executivo numa escola única, onde diz trabalhar há 17 anos, “por pura opção”, e onde já desempenhou também as funções de Directora de Turma, Delegada de Grupo, Directora de Instalações, Coordenadora de Departamento e VicePresidente do Conselho Directivo.

o segundo e o terceiro ciclos e, ainda, o ensino secundário. Foi precisamente durante o seu mandato de Vice-Presidente do Conselho Directivo, entre 87 e 90, que a Escola passou a proporcionar aos jovens do concelho de Sardoal o Ensino Secundário. “Com algumas infra-estruturas de base e a aposta em mais recursos educativos, a Escola apresentou-se como uma opção viável para os jovens do concelho. A população escolar foi aumentando e hoje contamos com cerca de 800 alunos e 100 docentes”.

União no combate ao isolamento Como parte integrante de um dos 34 Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) existentes em Portugal, esta escola resulta de uma parceria comunitária que envolve a Câmara Municipal de Sardoal, as Juntas de Freguesia do Concelho, o Centro de Saúde, a GNR, os Bombeiros, a Filarmónica União Sardoalense, e, entre outras entidades, a Associação de Pais e Encarregados de Educação. É um projecto, explica Élia Gato, que visa promover uma acção educativa integrada, combatendo o isolamento entre escolas e entre estas e a comunidade; dinamizar a cultura e o desporto na região, promovendo hábitos de saúde, higiene e respeito pelo património; lutar por um sucesso educativo de acordo com as necessidades, desejos e saberes da população escolar; multiplicar, rentabilizar e gerir de forma integrada os recursos humanos e materiais; e promover a formação permanente de toda a comunidade educativa, com base nas reais necessidades educativas. “Temos, por isso, vindo a desenvolver um conjunto de projectos direccionados para os vários graus de ensino de forma a diversificar a oferta educativa dos alunos. Aventuro-me a dizer que o TEIP de Sardoal cumpriu, na medida do possível, os seus propósitos, atenuando situações de desvantagem e combatendo o insucesso escolar. Criou-se, por exemplo, a Sala em Movimento, Ser Limpo, Biblioteca Escolar, Expressão Físico – Motora, Horizonte Juvenil – Jornal escolar, Clubes de Línguas estrangeiras e de música, Observatório de Qualidade, e Ver e Viver a História, um sub-projecto que, no final do ano lectivo passado, envolveu todas as escolas do Agrupamento e toda a comunidade, fazendo a Vila de Sardoal vestir-se a rigor para receber uma Feira Medieval.”. Esta escola singular, dirigida por Élia Gato, já teve honras de visita do Presidente da República. Jorge Sampaio destacou, na altura, o enorme apoio que a Câmara Municipal do Sardoal dá ao

ensino, o que se traduz na melhoria das condições de vida dos seus munícipes e na quebra do isolamento, esbatendo-se as desigualdades entre o interior e o litoral mais desenvolvido. Com um dia-a-dia sempre imprevisível, extremamente activo mas, graças às características de uma Vila do interior de Portugal, livre de stress, Élia Gato aplica a maior parte do seu tempo no exercício das funções inerentes ao cargo que ocupa na Escola. “Resolvo os problemas que vão surgindo no dia-a-dia, redijo ofícios, despacho correio, leio actas, participo em reuniões, e desloco-me, uma vez por outra, à DREL e ao CAE da Lezíria e Médio Tejo. No entanto, a minha equipa, constituída por quatro Vicepresidentes e uma Assessora, facilitam-se muito a vida. Todos trabalhamos no sentido de construirmos uma Escola mais ligada à comunidade, mais participada, mais interventiva e atenta à cidadania”. Momentos inesquecíveis É por tudo isto que Élia Gato não tem dúvidas em afirmar que se sente realizada. “O meu dia-a-dia tem vindo a mostrar-se uma espécie de luta motivada pelos meus sonhos. Construí com muitos uma vida que, tanto familiar como profissionalmente, me faz sentir realizada, mas continuo a ter o desejo de ser mais para com os outros; uma intenção que está muito associada à perspectiva de cidadania e ciência postas em prática na Universidade, aquando da minha formação”. Uma carreira profissional que só conheceu o sentido ascendente, a par da grata sensação de realização não é, contudo, sinónimo de falta de projectos futuros. Élia Gato revela um conjunto de acções que realmente gostaria de ver concretizadas através do estabelecimento de parcerias com o poder autárquico, “para promover, por exemplo, o artesanato local”; com instituições locais ligadas ao Ministério da Saúde, “para coerentemente se difundir informação/formação sobre a temática da sexualidade”; e com o Ministério da Ciência e do Ensino Superior, “para tornar possível a realização de

casos de sucesso

trabalhos de investigação e experimentação associados ao conhecimento das potencialidades da cultura científico – tecnológica.”. Entre os seus planos está ainda a realização de trabalhos que evidenciem tanto a formação de uma mentalidade ecológica como o aprofundamento das potencialidades da Internet; “projectos que muito teriam a ganhar se desenvolvidos em parceria com a UA”. Com o mesmo entusiasmo com que fala de todos estes seus planos, Élia Gato recorda os bons momentos que passou enquanto estudante da UA e os episódios que considera inesquecíveis. “As aulas práticas, leccionadas pelo Prof. Doutor Rino, eram sempre momentos entusiasmantes de trabalho. Alegre e bem disposto, transmitia o seu estado de espírito aos alunos. Aprendíamos num clima de auto-confiança e autoestima. Lembro-me, por exemplo, das nossas observações ao microscópio óptico diatomáceas. Pedíamos-lhe para verificar se era ou não uma alga o que se encontrava no campo do microscópio e ele dizia Ó tecto, não caias!. Bastavanos esta expressão para sabermos que estávamos a observar qualquer outro corpo estranho, menos aquele grupo de algas unicelulares. E a colecção de xaropes, Doutor Rino? E o livro que se dispunha escrever sobre As novas formas de escrever em Português? E as aulas teóricas? E a quantidade de informação transmitida, a forma como se envolvia na exposição, o enlevo e a magia que punha nas palavras? Enfim, houve professores que, pelo seu empenho, dedicação e amor à profissão, desenvolveram estratégias e adoptaram um estilo de ensino de tal modo eficaz que foram capazes de desenvolver nos futuros professores de Biologia e Geologia, um pensamento de inquérito científico, essencial ao carácter mutável da ciência biológica e consequente necessidade de mudança dos objectivos do ensino. A todos o meu bem-haja!”.

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Revista Linhas 02  

Ano 1 Outubro 2004

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Ano 1 Outubro 2004