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Editorial “Você me paga!” Todos já escutaram essa frase, mesmo que não tenha sido dita exatamente dessa forma, com o significado deixado nas entrelinhas das cenas. Das novelas mexicanas aos vilões de desenhos animados, passando por filmes que, por vezes, possuem enredo elaborado, chegando à vida pessoal: dar o troco é uma ideia mais comum do que se imagina. O caminho para ver o alvo destruído pode ser difícil de trilhar. Não parece simples gastar (muito) tempo planejando, calculando os passos e relembrando o motivo que deu início a essa necessidade de reparação, de justiça própria. O rancor é o fermento desse prato que, dizem, deve ser degustado frio, entretanto, quando a hora chegar e a mesa estiver posta, essa iguaria pode não ser tão saborosa quanto parecia.


Editor: Renato Loose Capa: Bruno Martins

Seçþes II Love

Karla Monteiro de Moraes

Matthias Austel

Bruno Delani David GP Giulio Fontanelli Lena Gobbo James Gulliver Marcos Carneiro Maria Finna Rafael Pelisari


recorta e Corta

Fazer arte com papel não é exatamente uma novidade. Os origamis não deixam mentir, porém, é inegável a febre que os paper toys, cada vez mais criativos e elaborados, provocam nos dias de hoje. Para quem é aficionado, vale conferir a II Love, braço do projeto YM (Yebo Maycu). Essa revista está em sua primeira edição e dedica-se, exclusivamente, à diversão feita com papel, tesoura e muita paciência. As peças enviadas, por vezes, são fotografias dos bonecos, entretanto, o ponto forte são os modelos dispostos para que o público possa imprimir e fazer a sua versão em casa.

Visite: www.yebomaycu.com

Trailer é o espaço para a divulgação de outras revistas.


capa

Bruno Martins Para muitos, alguns elementos que fazem parte do nosso dia-a-dia, como tênis, telefones e computadores, passam despercebidos, porém, para Bruno Martins, cada um possui uma singularidade capaz de tirá-lo do comum e trazê-lo para uma sequência criativa. Foi assim que o designer e ilustrador de 25 anos criou sua série Cotidiano. “Esses são meus trabalhos mais gratificantes, assim como um livro-objeto que desenvolvi na faculdade e meu projeto de camisetas chamado Estampido”, destaca.

Há quatro anos na área, Bruno busca inspiração no construtivismo, nas colagens, nos grids suíços, nos grafites e sketches. Para ele, é importante não parar no tempo. “É sempre possível aprimorar, experimentar e criar novas imagens que passem o conteúdo de forma atraente e objetiva. Se gosta do que faz e quer continuar na área, a pesquisa e a busca por novas referências são fundamentais”.

www.brunomartins.info www.brunomartins.info/estampido


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Três histórias,

um só desejo Vengeance; Venganza; Rache; vendetta; wraak; hevn; paghihiganti; venjança; dendam; zemsty; osveta; hævn; pomsta; kosto; atriebties; revanšas; revenge. Vingança: sf 1 Ação ou efeito de vingar ou vingar-se. 2 Desforra, represália, vindita. 3 Castigo, punição. 4 Desejo de se vingar. A vingança é o elemento comum aos três filmes que deram ao diretor coreano Park Chan-wook reconhecimento internacional: Mr. Vingança, Old boy e Lady Vingança. É quase impossível refletir sobre a segunda obra, a mais famosa da trilogia, sem encarar, além do martelo de Oh Dae-Su (Choi Min-sik), o amor machucado de Lee Geum-Ja (Lee Yeong-Ae) e a inconformidade de Ryu (Shin Ha-Kyun) e Park Dong-Jin (Song Kang-Ho) perante a morte. Por isso, os três personagens e suas histórias estão juntos nesta coluna. Os números 1, 2 e 3 fazem referência a Mr. Vingança (primeiro filme da trilogia), Old boy (segundo) e Lady Vingança (terceiro), respectivamente. O ponto de partida e de chegada da trilogia é sempre a vingança. Com uma intensidade que não cabe em si, da retaliação de um personagem, nasce a de outro. E a finalidade da existência torna-se alimentar, planejar e concretizar a vingança – que é início, meio e fim em si mesma. Vingar é mais que uma atitude, é um projeto de vida, cuja elaboração pode levar 15 anos, como a de Dae-Su (2), 13, como a de Geum-Ja (3), ou poucos dias, como as de Ryu e Dong-Jin (1). As vinganças de Park Chan-wook são tão viscerais que, se “destrincharmos” o verbo vingar (aqui, lembro-me do polvo-2 e dos rins-1), podemos fazer uma análise dos três enredos.


*vin.gar: 1. Tirar desforra de (ofensa ou injúria); castigar, infligir punição a;

Eis o objetivo da vingança: castigar e punir o causador daquilo que nos ofendeu. Dae-Su quer vingar-se de Lee Woo-Jin (Yoo Ji-tae) pelos 15 anos que passou preso. O cárcere, contudo, era apenas o início da represália de Woo-Jin (2). É a vingança da vingança, uma dentro da outra, como aquelas caixas que, quando a gente abre, encontra outra caixa, e mais uma, um pouco menor, e mais outra, e outra. O foco já não é mais o presente que há dentro. É abrir quantas caixas forem necessárias. É assim que a vingança nos distrai. No fim das contas, a injúria passa a ser o de menos, e a desforra toma corpo e existência próprios. Vinganças, portanto, são parnasianas**: A vingança pela vingança. E nesse jogo, vale-tudo: troca de favores – via vingança, claro, afinal, inimigo do inimigo é amigo – –, subornos, negócios escusos, tráfico de rim, venda de mão. A punição é corpo a corpo. Dente por dente – literalmente (2). Não é intermediada por terceiros, por uma justiça quase sempre ineficiente. Policiais, tribunais, advogados são colocados à parte. Isso quando não são subornados (1), ou mesmo convencidos a também agirem com as próprias mãos (3).


2. Corresponder a uma ofensa ou injúria com outra; tirar vingança de afronta, ofensa ou injúria recebida; Uma injúria que causa outra injúria, e mais outra, e outra, e já não se sabe mais quem começou. E muitas vezes, o primeiro ultraje sequer foi proposital. É o caso de Dae-Su (2), de Ryu (1) e de Geum-ja (3). Mas todos eles fizeram suas escolhas, e todas elas tiveram consequências. É o tal “efeito borboleta”, que permeia as três obras. “Seja pedra, seja grão de areia, ambos afundam”. É o lema do inimigo de Dae-Su (2). Outra fonte de problemas é a comunicação. Falhas são frequentemente notadas: a mudez de Ryu é uma das causas da morte da filhinha de DongJin (1) e, portanto, determinante para a vingança. Uma outra mudez, a de Dae-Su (2), o livra do peso da mão de Woo-jin, e também o une a Mido (Gang Hye-jung). Antes, seu erro foi ter falado demais. A diferença de idiomas é outra barreira, representada pela dificuldade de compreensão entre Geum-Ja e sua filha. Falar uma língua estrangeira é uma oportunidade para o professor de inglês sequestrador e uma tragédia para várias famílias (3).

3. Dar satisfação a: Vingar a honra de marido, vingar o sangue de alguém; A crença na convivência e na comunicação com os mortos, e o conceito de honra acima de todas as coisas, tão presentes na sociedade oriental, são fundamentais na decisão entre vingar e tocar a vida para frente. Woo-Jin deve vingança à finada irmã (2), assim como Ryu (1); DaeSu, à falecida esposa (2); Geum-Ja e Dong-Jin, às crianças mortas em cativeiro (3 e 1), isso sem falar nas famílias vítimas do sequestrador (3). Sangue e honra pesam na decisão pela vingança, ainda que olhar para frente seja mais promissor. Amor (Dae-Su e Mido - 2; Ryu e a namorada -1), adoção (Dong-Jin e o filho doente de seu ex-funcionário 1), prosperidade (Woo-Jin e sua fortuna - 2), maternidade (Geum-Ja e a filha, que retorna - 3) não são apelos suficientes para refrear o desejo de represália. Contudo, mais uma vez, a oportunidade de escolha é apresentada. Os laços familiares são sempre muito fortes em toda a obra e, na maioria dos casos, conturbados: incestos (2); irmãos que cuidam um do outro (1); mãe que perde a guarda da filha, que por sua vez amarga um complexo de rejeição (3); pai abandonado (1); crianças sequestradas e assassinadas (3); e até uma quadrilha formada por parentes que traficam órgãos (1); fora as diversas subtramas envolvendo presidiárias e seus maridos (3).


4. Desafrontar, promover a reparação de: Vingar um prejuízo, uma calúnia.

5. Dar-se por satisfeito; compensar, consolar, galardoar, recompensar

Na origem de todos os planos de vingança da trilogia, há um grande prejuízo: a liberdade. Assim como as mortes, o cativeiro está presente nos três filmes. Dae-Su fica preso em um quarto com uma TV (2); A filha de Dong-Jin é sequestrada por Ryu (1); Geum-Ja rapta um garoto e é presa injustamente por seu assassinato (3). É como se Park Chan-wook tivesse eleito dois bens maiores para o ser humano: a família e a liberdade.

Vingar-se nunca repara a situação. Isso é fato em toda a trilogia, e ponto. Não há nada a ser consertado. A finalidade da desforra não é reparadora. Trata-se de uma compensação pelo dano causado. O objetivo é obter alívio, satisfação, “redenção”, para usar o termo escolhido em Lady Vingança.

A custa de ter se tornado um “monstro” (Dae-Su - 2); uma mulher fria e solitária (Geum-Ja - 3) e de ter perdido a própria vida (Dong-jin - 1), os personagens abdicaram a tudo em nome de vingar a liberdade e os seus familiares. Mas Chanwook faz questão de deixar claro que não valeu a pena.

Redenção que, segundo a filha de GeumJa (3), que narra o filme, nunca chegou para a mãe, por mais que ela tenha lutado por isso. O desespero de Dae-su (2) e a perplexidade de Dong-jin (1), essa última verbal, também deixam claro o sentimento de frustração experimentado ao final de suas trajetórias em busca de represália.


Não existem heróis. Não existem inocentes. Apenas seres humanos feridos, que por serem vítimas da vingança, descobriram que devem ter falhado em algum ponto de suas vidas, até então, supostamente perfeitas.

*Definições do Dicionário Michaelis **Alusão ao movimento artístico chamado parnasianismo, cujo lema era “A arte pela arte”, isto é, “os parnasianos acreditavam que o sentido maior da arte reside nela mesma, em sua perfeição, e não no mundo exterior” fonte: www.portrasdasletras.com.br.

Karla Monteiro de Moraes é jornalista, especializada em História e Literatura pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). karlademoraes@gmail.com


Vingar-se não é devolver na mesma – ou numa pior – moeda imediatamente. Planejamentos e conjecturas são feitas em prol do resultado final, processo que pode ser lento e agonizante. Transmitir esses sentimentos foi o que o fotógrafo Matthias Austel captou em suas lentes, radicadas em Pequim, China, desde 2006. Cada movimento do ensaio foi embalado por algumas canções que, segundo o rapaz, completariam o clima para uma grande revanche.


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Inspirada em Old Boy.

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