Jornalismo e Cidadania Nº1/2016

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Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade - PPGCOM/UFPE | 11

lembrar que esse mesmo jornal relacionou o nome de Dilma nas coberturas que fez sobre as investigações da operação Lava-Jato cujo investigado não era a presidenta, mas o ex-presidente Lula.

Um retorno a 1950?

O

jornalista e ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Brasil, Franklin Martins, em seu livro Jornalismo Político (Editora Contexto, 2005, p. 13), fez um levantamento desse segmento jornalístico, afirmando que “hoje em dia, a maior preocupação da cobertura é informar o leitor, e não convencê-lo a adotar determinadas ideias”. Para embasar tal afirmação, Martins fez uma comparação entre as manchetes dos principais jornais brasileiros em 1950 e nos anos 2000, e como resultado certifica que no século XX os jornais “entraram em campanha” e em 2002 a imprensa “cobriu a campanha”. Ele segue sua narrativa afirmando que, algumas décadas atrás, os jornais tinham uma posição quase partidária no tocante à cobertura política, com uma narrativa resultante de texto jornalístico acrescido de opinião, e que nos dias atuais “a grande imprensa, de modo geral, tem a preocupação de separar nitidamente a informação da opinião na cobertura política” (MARTINS, 2005, p. 17). Quatorze anos após as eleições que serviram de corpus para a análise de Martins, é possível afirmar que esse contraste entre as coberturas não se apresenta em 2016. É certo que o objeto aqui analisado não se trata de uma corrida eleitoral direta, mas de um processo posterior à eleição presidencial de 2014 que postergou o clima de rivalidade, contribuindo para a segregação instaurada no momento das urnas e construindo uma espécie de terceiro turno das eleições disputado entre coxinhas e petralhas. Ao olhar as coberturas dos principais veículos de comunicação acerca do impeachment e seu contexto, o leitor/espectador mais atento perceberá que a separação entre informação e opinião é, em sua maioria, inexistente. A mídia transformou-se em cabo eleitoral de um projeto de governo que não obteve êxito na última eleição presidencial, elaborando narrativas tendenciosas que exacerbavam questões negativas para o então governo de Dilma e camuflavam as mesmas questões que diziam respeito à oposição. O papel da mídia também foi determinante para as manifestações de rua que pediam a destituição do governo do PT, funcionando como uma espécie de panfleto de propaganda, cujo enredo começou a ser elaborado dias antes dos protestos, e teve seu ápice nas várias transmissões ao vivo durante a programação e nas fotos de capa dos

jornais impressos, que ressoaram o “caráter pacífico” das mobilizações e o seu incansável combate à “corrupção do governo de Dilma”. Essa modalização discursiva é uma clara estratégia de defesa de interesses particulares, e joga ao relento os princípios do fazer jornalístico. Vale ressaltar que a presença de várias fontes ou mesmo a veiculação de uma matéria favorável ao governo ou desfavorável à oposição, não classificam a cobertura midiática desse processo como isenta de interesses ou neutra. A presença dessas estratégias que denotam um certo grau de imparcialidade podem, na prática, não significar o que pretendem. O teórico Denis McQuail, citado em texto de Robert Hackett, sugere algumas manifestações de parcialidade, dentre as quais elenca “a utilização tendenciosa de factos e comentários, sem qualquer declaração explícita de favoritismo; o uso de linguagem que dá outra cor a um relato de outro modo factual e transmitindo um implícito mas claro juízo de valor” (MCQUAIL apud HACKETT, 1999, p.104), entre outras. Esses juízos de valor são materializados na escolha das fontes, das imagens, das manchetes, que compõem narrativas capazes de impulsionar determinadas versões de um mesmo fato, como nas capas de jornais que ilustram esse texto. A narrativa contada pela mídia, com raríssimas exceções, nos encaminha para a mesma versão da história. Esse modo de fazer jornalismo, que alguns estudiosos afirmam ser o “ápice da especulação e da falta de profissionalismo” (TORRES, 2016), expressa o lado mais sombrio e, ao mesmo tempo, poderoso dos veículos de comunicação. A mídia, que tem como um de seus princípios ser instrumento de informação, levando conhecimento e contribuindo para a diversificação de conceitos, e, consequentemente, para a ampliação do debate público acerca de determinada questão, está andando na contramão. Passados 66 anos, a tecnologia contribuiu para a modificação da vida política e das formas de participação social e é uma importante aliada na produção e veiculação da notícia. Entretanto, apesar de toda mudança de linguagem, o jornalismo político brasileiro, no que se refere a muitos aspectos da cobertura do impeachment, parece ter regredido à década de 50. Escrita pela jornalista Laís Ferreira, mestranda em comunicação pela UFPE, a coluna Jornalismo e Política em Pauta irá abordar questões relacionadas a esses dois campos, analisando seus comportamentos e debatendo fatos do contexto político sob a ótica da comunicação.


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