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dez 2010

ano VI

nº 110

R$ 10,00

Política, Economia & Cultura do Paraná

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110 Fábio Campana

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m meados do século XVIII Joseph Haydn vivia em Viena e lá se apaixonou pela filha de um fabricante de perucas. Por motivos nunca sabidos, a moça, em vez de se casar com ele, entrou para um convento onde adotou o nome religioso de Josefa. O século XVIII era ingênuo e romântico. Pouco tempo depois Haydn cometia o erro fatal de se casar com Maria Ana Aloísia, irmã mais moça da sua antiga noiva, mas pessoa pouco doce, a quem, anos mais tarde, ele chamaria de una bestia infernale. O episódio comprova que a celebrada eloquência do mestre não era apenas musical, era também conjugal. Una bestia infernale. E nós outros, paranaenses, que não somos músicos e não moramos em Viena, mas que estamos casados com um governo que chega ao fim comprando o que não deve, licitando o que não pode, gastando o que o bom senso e a decência mandariam deixar para o governador eleito que assumirá em 1° de janeiro. Não é fácil qualificar um gesto como esse sem alguma veemência barroca. A insensatez deste final de governo do PMDB, conduzido por Orlando Pessuti, certamente ficará na história como exemplo do quanto um governante pode cometer desatinos em período tão curto. Logo ele que poderia se diferenciar do antecessor, o vulgar Requião, que ajudou a construir essa herança trágica de um Estado sem segurança, sem finanças e sem programas de governo. Mas chega. Quem será a nossa particular bestia infernale? Podem escolher. Em qualquer das hipóteses sua resposta estará certa.


nesta edição O espólio que Beto Richa vai receber ....... 19 Antonio Vera Decálogo das carências de infraestrutura do Paraná ........................................................ 24 Rafael de Lala As musas do Paraná no Congresso ............ 30 Marianna Camargo

pág.

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A mulher que conhece a intimidade dos poderosos do Paraná abre o jogo

O sonho acabou, mas ainda temos o Solda..............................................................36 Fábio Campana Mirlei, a vendedora de orgasmos................38 Carlos Simon Desolação na terra vermelha ...................... 44 Marianna Camargo Aqui, a solução para todos os seus problemas. Basta acreditar.......................... 54 Paloma Barbieri

colunistas Almas parvas................................................... 18 Fábio Campana Catapulta eleitoral.......................................... 28 Luiz Geraldo Mazza Demagogia e Previdência.............................. 29 Luiz Fernando Pereira As perdidas ilusões......................................... 47 Carlos Alberto Pessôa Mudou o Natal? Mude o cardápio................ 58 Vicente Ferreira Hôu! Hôu! Hôu!............................................... 59 Luiz Carlos Zanoni Pela inconstitucionalidade do bom humor matinal ............................................... 60 Camilla Inojosa


índice 36

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Natal é tempo de Guilhobel.......................... 65 Izabel Campana Uma pequena prece........................................ 66 Marianna Camargo Dispensem o próprio, por favor!.................. 67 Rogerio Distefano

seções Editorial ........................................................... 03 Curtas................................................................ 08 Frases................................................................. 10 Gente Fina........................................................ 12

Isabela França..................................................68

Câmara dos Vereadores.................................. 34

É Natal............................................................... 76 Claudia Wasilewski

Prateleira.......................................................... 62

Humor............................................................... 78 Pryscila Vieira

Ensaio Fotográfico.......................................... 48 Balacobaco....................................................... 72 Cartas/ expediente.......................................... 77


cURTAS

A sucessora de Lugo, o presidente emprenhador Pioneira entre as beldades paraguaias que fazem sucesso no Brasil, a exmodelo e empresária Verónica Castiñeira (ao lado quando capa da Playboy), mais conhecida como Zuny, anunciou sua candidatura à presidência do Partido Colorado e, caso tenha sucesso, à presidência da República. O projeto é antigo. Desde os tempos da eleição do ex-presidente Juan Carlos Wasmozy, Zuny Castiñeira fazia planos de um dia chegar à presidência do Paraguai com a promessa de “modernizá-lo nos costumes”. Ora, pois, se o bispo emprenhador Fernando Lugo conseguiu se eleger, por que Zuny, a Castiñeira, não poderia chegar ao cargo máximo do país. Entre outras, ela diz que uma de suas primeiras iniciativas será exigir que Itaipu seja dirigida por um paraguaio, o que contraria o acordo binacional. Mas, como diz a Castiñeira, “não há acordo ou casamento que não possa ser quebrado”.

Infância corrompida Um cruzamento inédito feito pelo CNJ com base em dados da Polícia Rodoviária Federal revelou a existência de 1.850 pontos de prostituição infantil nas estradas federais. O levantamento também derrubou o mito de que o Norte e Nordeste teriam a maior concentração desses locais. O Paraná foi o estado com a maior incidência de pontos de prostituição.

E no Paraná, nada? A mega operação que desmontou o tráfico em territórios do Rio de Janeiro enviou uma penca de chefes do crime para a prisão de segurança máxima de Catanduvas, no Paraná. Não se tem notícia alguma de que o governo fará operação semelhante para estancar o contrabando de armas e o tráfico de drogas na fronteira paranaense de Foz do Iguaçu, principal porta do crime organizado no Brasil.

Advocacia gratuita Um convênio do Governo do Estado com a OAB já garante, em todo o Paraná, serviços de advocacia gratuitos a quem não tem condições de pagar um profissional. O convênio custa R$ 12 milhões anuais aos cofres públicos. 8

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Baile da Ilha Fiscal Dizem as boas e más línguas que o governador Pessuti teria contratado renomados “promoters” da Capital para organizar um baile de gala na reinauguração do Palácio das Araucárias, previsto para o próximo dia 17. Como era de se esperar, o evento já está motivando todo tipo de ironias, tanto de adversários como de aliados do governador. O mais óbvio é o que chama a festa de “baile da Ilha Fiscal”, em referência ao evento que marcou o ocaso da monarquia no Brasil, no final do século dezenove.

Copel, a joia da Coroa, é a mais disputada A presidência da Copel é o cargo mais disputado na administração Beto Richa que começa no dia 1º de janeiro. Compreende-se: ali se decidirá sobre empreendimentos importantíssimos e multimilionários que interessam a uma penca de empresários, empreiteiros, banqueiros e assemelhados. No topo da cadeia estão as POCHs, que agora poderão ser construídas por consórcios em que a Copel entra como sócia minoritária. Isso significa que a Copel deverá ficar com os custos e o seu sócio com as benesses.

Mulheres mal pagas Mulheres paranaenses ganham, em média, 33% a menos que os homens. Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal de pessoas acima de dez anos era, em 2008, R$ 1.144. Dentro dessa média, homens recebem R$ 1.354 e as mulheres, R$ 902. Em âmbito nacional a média é R$ 1.019 e a diferença entre homens e mulheres é de 32% (homens ganham R$ 1.204 enquanto mulheres recebem R$ 814 mensais).

Negros e pardos O IBGE mostrou também que no Paraná negros e pardos ainda recebem muito menos que os brancos. Segundo o estudo, em média, um branco recebe R$ 1.302, enquanto negros e pardos R$ 726.

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frases O senador Roberto Requião, em mais uma declaração polêmica pelo twitter, chamou os moradores da Vila Pinto, em Curitiba, de ‘favelados’.

“Fale bem dos amigos todos os dias. Fale mal dos inimigos pelo menos duas vezes por dia” Conselho de Antonio Belinati, deputado estadual (PP)

"Favelados da Vila Pinto se preparam para a inauguração do Iguaçu. Tomam aulas de valsa e etiqueta. Supimpa!"

“Costumo dizer que sou muito mais que peito e bunda. Pelo amor de Santo Cristo, eu tenho muito mais a oferecer. E não tenho medo de ficar sozinha”. Lavínia Vlasak, atriz

A felicidade de um homem casado depende das mulheres com quem ele não casou Paloma Barbieri

Não sou enólogo. Enólogo, diante de um copo de vinho, toma uma decisão. Eu, diante de decisões, tomo um copo de vinho. Luís Groff

É preciso esclarecer a população que não há delírio na proposta. Nada, nada delirante Alcides Diniz, diretor-geral do STF defendendo o reajuste de 50% para os 107 mil servidores da ativa, aposentados e pensionistas do Judiciário.

“Amor a los minerales”, Bebel Gilberto que queria dizer “los mineros” e provocou gargalhadas na plateia chilena que lotava o Teatro Nescafé, em Santiago.


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Foto: Jader Rocha

Gente fina

Aposta certa

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ernando Ghignone acaba de ser convidado para presidir a Sanepar no governo de Beto

Richa, de quem é amigo e colaborador desde sempre. Ghignone foi secretário de Cultura do governo do pai de Beto, José Richa, no início dos anos 80.

O bravo descende de longa tradição de livreiros. Cresceu em meio aos livros e a ouvir os intelectuais desta província e os da República. Seu pai, José “Dudi” Ghignone, o levava em suas viagens ao Rio e nas visitações às grandes editoras do país. Bons tempos. Hoje, Ghignone é diretor da URBS e responsável pelo funcionamento do transporte coletivo, tarefa que não é pouca nem simples e que mexe com a população. Para encarar a função pública, passou a direção da distribuidora de livros e revistas, parte que lhe toca na partilha das iniciativas da família, aos seus filhos, que constituem a quarta geração Ghignone envolvida com a nobre arte de levar leitura aos habitantes desta área do planeta.

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Gente fina Fazendo arte, tecendo a vida

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anete Mehl é artista de vária vocação. Pintora,

escultora, poeta, ela costuma dizer que tem o privilégio de transformar suas alegrias, conflitos e dores em arte. Arte é a sua maneira de materializar o sentimento. Revelar-se, essa é a grande obra do artista e também o maior desafio, seja contrariando conceitos estéticos, seja andando na contramão do comercial e da vulgarização. Neste momento a bela e inquieta Janete trabalha com aço. Busca a sua leveza e atribui musicalidade à forma. Brinca de amassar o aço, “para retirar meus demônios. Descobri o papel de seda assim que pintei o aço, tanta leveza, ninguém imagina o que se esconde ali”. Como gosta de descansar de uma coisa fazendo outra, “vou aquarelando a música clássica e o resultado é uma fusão de cores dançantes no papel.” Nas horas de folga a poesia a invade e a inventa. Vem aí um texto chamado “fazendo arte e tecendo a vida”, que os amigos esperam com ansiedade.

A bela fera do marketing político

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ianca Mendes não é figura conhecida no circuito de marqueteiros Foto: Dico Kremer

e publicitários que se reúnem para trocar figurinhas e elogios. Ela prefere manter o low profile que respeita a regra de ouro do marketing político: “quem tem que aparecer é o candidato, nunca o assessor”. Nas eleições deste ano Bianca participou de uma campanha que não elegeu o candidato, mas fez tanto sucesso como planejamento de marketing que merece figurar nas antologias. O candidato foi Ricardo Barros, que disputou uma das duas cadeiras do Senado. Os adversários todos conhecem: Gleisi Hoffmann, Requião, Gustavo Fruet, e outros menos votados. Quando todos apostavam em baixa votação para Ricardo Barros, que pela primeira vez disputava uma eleição majoritária e vinha de base eleitoral limitada à região de Maringá, Bianca e seu time descobriram o veio do discurso mais sintonizado com o Paraná de hoje: a defesa dos valores mais antigos da família e do respeito. Resultado: 2 milhões e 190 mil votos. Poucos marmanjos marqueteiros conseguiram essa marca. Não é sem razão que Bianca agora é assediada por políticos nativos e suas presunções grandiosas. dezembro de 2010 |

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Gente fina

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Foto: Dico Kremer

ia desses, um empresário carioca de alto coturno, habituado ao circuito gastronômico europeu, veio a Curitiba para tratar de negócios. Foi levado ao restaurante Durski. Ficou espantado com tudo. A comida, o ambiente, o serviço. Mas principalmente com a carta de vinhos que diferencia o Durski dos demais nesta República de Lulas e Dilmas. São mil e setecentos rótulos de 23 países, entre eles o celebrado Romanée Conti e o Château Haut-Brion de 1934 – além, é claro, de um Château D´Yquem para a sobremesa. Junior Durski é um fenômeno do autodidatismo. Nasceu em Prudentópolis, de família polonesa, e por ela tornou-se empresário madeireiro. Condição que o levou a viver na Amazônia por 12 anos. Quando voltou ao Paraná instalou-se em Paranaguá. Durante todo esse tempo, Durski desenvolveu a verdadeira vocação. Dedicou-se à cozinha e fez dos amigos seus aliados e provadores nessa experiência. Tanta dedicação resultou na decisão de abrir o Durski, restaurante de sucesso imediato. Logo depois, o Madero, proposta contígua muito diferente. Deu certo. Hoje a tendência é que o Durski e o Madero se multipliquem. E com eles a boa comida e o melhor vinho que se pode degustar nestas paragens do planeta.

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Durski, à francesa


Gente fina

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s capos da campanha de Osmar Dias ainda não se conformam com a derrota. E são unânimes em afirmar que a maior batalha perdida foi a do front jurídico. Pois, pois, eles enfrentaram Ivan Bonilha, que chamavam de Ivan, o Terrível, hoje um dos principais conselheiros de Beto Richa e será Procurador-Geral do Estado a partir de janeiro.

Foto: divulgação

Ivan, o temível

Essa compreensão sobre o resultado eleitoral não é apenas do time adversário. No time de Richa, Bonilha também é considerado um dos principais responsáveis pela vitória. Ele foi o chefe da equipe de advogados de Beto Richa que conseguiu fazer com que a Justiça Eleitoral barrasse uma série de pesquisas na reta final da campanha. Pesquisas que poderiam indicar crescimento de Osmar Dias e prejudicar o desempenho do tucano. Um feito inédito no país. A partir das ações de Bonilha, os institutos de pesquisas ficaram sob suspeição e agora ele é solicitado a dar palestras para expor suas teses sobre o papel das pesquisas e a necessidade de restringi-las para evitar que se transformem em enganoso instrumento de propaganda eleitoral. Bonilha é advogado, graduado em 1989 pela Universidade Federal do Paraná. Ele também é pós-graduado, mestre em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor da Faculdade de Direito de Curitiba, conselheiro estadual da OAB/PR (2004-2007) e membro consultor da Comissão de Assuntos Legislativos do Conselho Federal da OAB (2004-2007). Membro eleito do Instituto dos Advogados do Paraná, Bonilha foi vice-presidente do Fórum dos Procuradores-Gerais das Capitais Brasileiras.

Brava Ruth Foto: Divulgação

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uth Bolognese deixou de escrever em uma rede de jornais

do interior porque teve a coragem de revelar aos leitores sua escolha na última eleição. Deixou claro que torcia por Osmar Dias, o perdedor. Nada mais honesto, mas nestas plagas em que a ridicularia da falsa isenção faz sucesso enorme, esse é um pecado capital. Ruth é a mais talentosa jornalista de sua geração. Necessário reconhecer mesmo quando ela nos atinge com suas farpas doloridas. Verdades doem e as verdades ditas pela serpente ruiva doem muito mais. Quem provou que o diga. E não é exatamente esse o papel mais importante da imprensa? Agora, nunca vi a Ruth bajular poderosos ou passar batida no debate sobre uma causa nobre. Ela é punida por suas qualidades, como sói acontecer onde a civilização ainda não pegou. (FC) dezembro de 2010 |

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FÁBIO CAMPANA jornalista

Almas parvas

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odos os dias a malta de almas parvas uiva à minha porta. Exige o que chama de neutralidade. Pede que eu publique apenas o óbvio despido de qualquer julgamento. Recusa a minha opinião e reafirma a tola convicção de que o bom jornalismo é feito da simples reprodução de fatos. Logo eu que passei a vida a lutar pela liberdade de expressão. Minha e de todos. Paguei preço alto pela ousadia, mas disso não me arrependo. Ainda agora a Justiça Eleitoral me impôs multas pesadas pela divulgação de textos em meu blog. É a nova forma de censura que procura intimidar o jornalista com a ameaça de levá-lo à falência. Desolador é perceber que o longo jejum de liberdades deixou marcas profundas nos corações e mentes. Os desafetos latem nas esquinas de satisfação. Atitude é típica da nossa tradição macunaímica. Os pusilânimes adoram a dissimulação e fogem dos conflitos. Por isso insistem na tese de que o jornalista deve apenas reproduzir os fatos. Ah, a santa ignorância. A começar pela risível teoria da reprodução dos fatos. Ora, pois, a imprensa não reproduz o fato e não seria aconselhável que o fizesse, caso pudesse. Reproduzir o fato seria repeti-lo. Imaginem o que isso significaria em casos de assassinato ou de desastre no trânsito. Os energúmenos não entendem que a imprensa faz a descrição do fato, tal como ela pode ser reconstituída pelas testemunhas, pelos repórteres e por quem mais possa produzir informações pertinentes (ou que parecem pertinentes). Agora, a ideia de que existe uma verdade factual, anterior ao debate, à investigação e à controvérsia, e que essa verdade é a única que merece ser publicada e considerada, é uma ideia tão primária e primitiva (além de totalitária), que só se pode impor a espíritos simplórios. 18

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Hannah Arendt em um de seus livros disse que a política não se faz com verdade, se faz com opinião. A política quando se submete a uma verdade deságua no totalitarismo. Só a ignorância e o primarismo (muitas vezes até bem intencionados) podem confundir ins­tâncias diversas, fases necessárias de um mesmo processo de conhecimento. O fato é um só. Na justiça ele é investigado e julgado a partir de versões contraditórias. A das testemunhas (quando há testemunhas), a da acusação e a da defesa. O júri decide pela versão que lhe parece mais veraz ou mais convincente. No caso da imprensa, o procedimento é menos formal, mais expedito. E os “fatos”? Cada cabeça quer os fatos segundo a versão que mais lhe agrada. E é interessante perceber que os que mais protestam contra a imprensa e costumam acusá-la de desonesta são os governantes e seus epígonos que têm como tarefa produzir a versão oficial para apresentá-la como a única que devemos considerar verdadeira. Não faz muito tempo a imprensa esteve sob censura. Era obrigada a publicar apenas a versão das notas oficiais. Melhor do que ninguém, os jornalistas sabem a que excessos, distorções e horrores levou esse monopólio da verdade oficial. Foi debaixo da casamata da censura que prosperaram os monstros que ainda hoje procuramos exorcizar. E que se revelam nessas manifestações de estultícia dos que preferem a farsa da isenção à exposição clara, solar, acompanhada da opinião de quem narra os fatos. A opinião é essencial para um jornalismo honesto. Mas vivemos no país do “me engana que eu gosto”, o que demonstra que ainda levaremos muito tempo para alcançar a contemporaneidade do mundo. Amarrados ao nosso atraso pela maioria que detesta o conflito, não aceita o debate porque prefere a paz dos medíocres.


política

ANTONIO VERA

O espólio que Beto Richa vai receber Um enorme abacaxi para administrar. Essa é a herança maldita que o novo governo receberá em 1º de janeiro. A redução de recursos orçamentários, antecipações de receita e renúncias fiscais podem provocar um déficit de até R$ 1,5 bilhão nas contas do Estado em 2011 Foto: Divulgação

Requião foi um desastre para o Estado e Pessuti conseguiu piorar. O Paraná tem precariedades que se acumularam em oito anos de desídia

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á meses, ainda no tempo em que Roberto Requião era governador, passeava ele pela Granja do Canguiri com um grupo de amigos. A certa altura, alguém lhe deu para experimentar um desses pios que os caboclos fabricam e que servem para chamar passarinho. Requião experimentou e imediatamente um dos seus acompanhantes entusiasmou-se: “governador, o senhor está piando melhor que o jacu.” Pobre jacu. Na verdade, maiores que a visão e o talento dos nossos administradores da catadura de Requião,

só o talento e a convicção dos seus bajuladores. Requião já não é governador e nem foi assim tão poderoso. Podese imaginar o que ouvem de assessores e áulicos outros sacerdotes mais graduados e próximos de Júpiter. Pode-se imaginar o que deve ouvir deles o governador eleito Beto Richa, ainda mais agora, quando se aproxima a hora de tomar posse e nomear milhares de pessoas em cargos do primeiro, segundo e terceiro escalões. Só através da imprensa, talvez, Beto Richa terá uma imagem menos blandiciosa de si mesmo e de seu governo. dezembro de 2010 |

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Foto: Divulgação

Isso se lhe sobrar paciência e humildade para ler tudo de Paranaguá que ele impediu com argumentos risíveis. Requião atrasou o crescimento econômico impedindo o que precisa ser lido, o que não é pouco e nem sequer agradável. Seu antecessor, Requião, preferia consultar investimentos públicos e privados para satisfazer setores a si mesmo. Diga-me espelho meu, haverá no mundo muito pequenos da vida empresarial. O apoio de uma base social cada vez menor explica-se pelo populismo governante mais sábio do que eu? Ora, pois. Não é de crer que Beto Richa repetirá os explícito em programas de inclusão social e distribuição desvios de personalidade de Requião que tanto combateu. de benesses. Nisso esmerou-se em programas como Leite Presume-se que estamos livres do autoritarismo chin- das Crianças, Luz Fraterna e Tarifa Social de Água, pela frim e da administração ineficiente que caracterizaram instituição do salário mínimo regional e pela adoção de os últimos oito anos do PMDB. Até porque os problemas medidas de cunho fiscal como a isenção do Imposto soe desafios que vai herdar são enormes. A começar pelo bre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para caixa vazio e o orçamento de as microempresas, em 2003, 2011 comprometido em inie para uma lista de mais de ciativas que vão do asneirol 95,0 mil itens de consumo às intenções mais questiobásico, em 2009. Essas iniciativas foram náveis, como esse apressado ofuscadas pela relação conpagamento de precatórios e a inusitada compra de superflituosa entre o governo e computadores. os agentes privados e pelo perigoso descuido com a inO Paraná tem precariedades que se acumularam em fraestrutura, especialmente oito anos de desídia. O jornana área de transportes (marlista Rafael de Lala, que escada pela flagrante debilituda o tema há meio século, dade da malha rodoviária, organizou o Decálogo das Priinsuficiência e restrições do vações Paranaenses. São dez modal ferroviário e probleurgências urgentíssimas para mas físicos e gerenciais da O fardo que Beto Richa está recebendo não é leve. cobrir nossas carências mais base portuária), variáveis Os problemas são crônicos. gritantes de infraestrutura. chaves para a construção de um virtuoso ambiente de São obras necessárias que foram simplesmente deixadas de lado por Requião e seu negócios e a preservação da competitividade do Paraná interino, Orlando Pessuti. Prioridades sabidas e apontadas na atração de projetos estratégicos. desde o fim dos anos 90. (Este decálogo você lê na matéria A negligência de Requião no caso das rodovias foi publicada a seguir e assinada por Rafael de Lala.) gritante. Derrotado na promessa da “queda do preço Requião foi um desastre. É o que se depreende da versus fim do pedágio”, travada com as concessionárias análise que Gilmar Mendes Lourenço, Coordenador do que operam os serviços desde 1997; alternativa pública Curso de Ciências Econômicas da Unifae, tem feito de retratada no programa de obras nas estradas estaduais, forma recorrente e pouco ouvida. Segundo ele, o período conhecido como “caminhos da liberdade” foi um fiasco recente do PMDB no governo do Paraná foram de oito sem precedentes. anos de resultados frustrantes. A começar pelas iniciativas O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do grotescas que prejudicaram a matriz produtiva expor- governo federal, ignorou o Paraná, resultado da tímida tadora e agronegócio no Paraná. As políticas adotadas presença e influência política do Estado na órbita federal. no governo de Requião foram sempre conflitantes com A consequência da desadministração de Requião é que a orientação macroeconômica do governo federal e espe- o Paraná registrou tímida inserção no estágio ascendencialmente com o esforço produtivo privado. Como confiar te vivido pela economia internacional depois de 2002, em um governo preocupado com a reversão do processo acompanhado de forma otimizada pelo Brasil a partir de privatização da infraestrutura sem oferecer qualquer de 2005, o que pode ser evidenciado pelo declínio das alternativa viável para o desenvolvimento? Isso ficou participações no produto interno bruto (PIB), de 6,4% evidente na área da produção de energia, nos programas em 2003 para 6,1% em 2008, e no valor das vendas de saneamento e na construção do cais oeste do porto externas do país, de 9,8% em 2003 para 7,3% em 2009. 20

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Na mesma linha, o valor adicionado pelo parque fabril paranaense cresceu apenas 3,0% ao ano entre 2003 e 2007 contra 4,0% do brasileiro, e o Estado amargou a perda de vultuosos investimentos como a Suzano Petroquímica, e as fábricas japonesa de pneus Yokohama, para o Nordeste, e a norte-americana Guardian, produtora de vidros, e a japonesa Toyota, para o interior de São Paulo. Mas o maior passivo produzido por Requião foi a perda da oportunidade de restauração de uma linha estratégica e de intensificação do uso de instrumentos de planejamento público, como elementos definidores da correção das distorções e imperfeições do tecido econômico e social, ocasionadas pela exacerbação da predominância do livre jogo das forças de mercado, e indutores da otimização das vantagens competitivas dos diferentes espaços regionais. Nesse sentido, os maiores desafios da próxima administração estadual estariam centrados em algumas ordens relevantes de prioridades. Não existem dúvidas quanto ao caráter crucial da ampliação e modernização da rede de infraestrutura do Paraná, de forma a recuperar

física e científica e tecnológica e em programas de capacitação de mão de obra, e da utilização de linhas de crédito oficiais subsidiadas, particularmente aquelas disponibilizadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), inclusive para gestão organizacional, e de incentivos fiscais, alocados em atividades com pronunciado grau de geração de emprego. O Estado também necessita de ampliação da base em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), mediante a busca de articulação e otimização entre as ações do setor público e da iniciativa privada, visando ampliar as vantagens competitivas do Estado nas áreas nobres da produção e difusão dos ativos ligados ao conhecimento, com substancial participação das instituições estaduais de ensino superior, dos institutos de pesquisa e das Universidades Federal Tecnológica do Paraná (UFTPR) e Federal do Paraná (UFPR). Para Gilmar Lourenço, será necessária a modernização e multiplicação das oportunidades turísticas do Estado, aproveitando os potenciais de geração de emprego e renda proporcionados pela natureza transversal da atividade, e a possibilidade de disseminação de ações envolvendo a

O Estado amargou a perda de vultuosos investimentos como a Suzano Petroquímica, Yokohama, Guardian e Toyota a competitividade na atração de novas empresas e na expansão do parque produtivo, para obter desdobramentos na formação da renda, no mercado de trabalho e na integração intrarregional, com especial atenção aos trechos rodoviários secundários e vicinais. Igualmente importante seria a expansão da oferta de bens e serviços públicos, especialmente saúde, educação e habitação popular, de forma pulverizada pelo território estadual, priorizando as regiões com menor grau de desenvolvimento humano, objetivando minimizar os fluxos migratórios, criar oportunidades de trabalho e restabelecer um clima de favorável aos negócios e à inclusão social. Seria oportuna a multiplicação da capacidade de competição privada, sobretudo das empresas de média e pequena dimensão, e da qualificação da mão de obra, conforme as peculiaridades e aptidões dos diferentes espaços regionais, com ênfase para a experiência cooperativa acoplada aos Arranjos Produtivos Locais (APLs). Não pode ser mais adiada a promoção de maior desconcentração geográfica das atividades produtivas, por intermédio do reforço das inversões em infraestrutura

terceira idade e a população em idade escolar. É vital ainda a implantação de políticas sociais compensatórias para as regiões pobres, acopladas à perseguição da descoberta de fatores de mudança, com a participação de entidades de representação política descentralizadas como fóruns, associações, conselhos, etc. É imprescindível a concessão de incentivos à diversificação da matriz energética com a intensificação do emprego de álcool e biodiesel e ao adensamento da matriz industrial do Estado, por meio do aprofundamento da complementaridade dos ramos metal-mecânico e eletroeletrônico, especialmente das atividades de subfornecimento da área automotiva. É importante a perseguição de elevação da produtividade e de diversificação agrícola, através de orientação gerencial e de fornecimento de assistência técnica, extensão e crédito subsidiado aos pequenos produtores, para a viabilização da produção familiar rural, par­ticularmente com a consolidação da fruticultura, e da acentuação da verticalização das cadeias agroindustriais, na direção da instalação das etapas finais de beneficiamento, da maior adição de valor à dezembro de 2010 |

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produção, mediante o aproveitamento da estrutura cooperativista existente no Estado. Por fim, seria estratégica a busca do restabelecimento do equilíbrio estrutural das contas públicas e, consequentemente, da recuperação do poder de gasto e de investimento público nos campos econômico e social, a restauração do uso de instrumentos de planejamento público, e a realização de exercício de pressões políticas ativas para a recuperação da influência paranaense junto às decisões tomadas na esfera federal (executivo e legislativo). Como se vê, o fardo que Beto Richa está recebendo não é leve. Os problemas são crônicos. Por certo, o novo governador não terá tempo para passear com os áulicos e muito menos para experimentar apitos de chamar passarinhos. Essa fase, graças aos céus, terminou.

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Foto: Daniel Derevecki/Gazeta do Povo

área que pode informar se há contas a pagar, quais são, quando vencem, se há dinheiro para pagar ou se há riscos e mesmo necessidade de alguma renegociação de prazos previstos em contratos em 2011”, relatou Giacomini. No último dia 26 informações complementares ao diagnóstico da situação financeira e do Orçamento para 2011. O relatório complementar detalha, em uma lista com 24 itens, as previsões orçamentárias subestimadas, as antecipações de receita e as renúncias fiscais que podem provocar o déficit em 2011. A lista (página 23) mostra, por exemplo, que a necessidade de reformas em 1.500 escolas em condições precárias de funcionamento exigirá R$ 125 milhões extras, não previstos pelo atual governo. A dívida com fornecedores de serviços de Saúde chega a R$ 73 milhões. O orçamento para o Sistema de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) foi reduzido pelo governo atual em R$ 36 milhões. O programa Leite Estado terá das Crianças terá um déficit de “choque de R$ 14 milhões. “Seguimos a orientação do gestão” Giacomini, coordenador da equipe de transição governador Beto Richa de dar de Beto: “a situação é bastante delicada em todas Redução de recursos ormáxima transparência ao nosso as áreas, com destaque para saúde, educação, trabalho. Com planejamento e çamentários, antecipações de segurança e nas finanças do Estado” mais eficiência na gestão públireceita e renúncias fiscais podem provocar um déficit de até ca o novo governo mostrará que R$ 1,5 bilhão nas contas do Estado em 2011. O cálculo é é possível superar essas dificuldades”, disse Giacomini. da equipe de transição do governador eleito Beto Richa, Como a equipe de transição do governo Beto Richa que apresentou no último dia 24 um diagnóstico da si- encontrou uma série de inconsistências na proposta orçatuação financeira do Estado e do Orçamento para 2011. mentária encaminhada pelo governo atual à Assembleia “Não há como negar que a situação é bastante delicada Legislativa do Paraná, foi apresentado um conjunto de em todas as áreas, com destaque para saúde, educação, se- propostas à Lei Orçamentária, com emendas aditivas no gurança e nas finanças do Estado. Cabe ao novo governo o valor de R$ 202 milhões, para cobrir despesas em áreas desafio de reverter essa situação e temos um planejamento como saúde, educação, agricultura, meio ambiente, trapara isso, com um choque de gestão”, afirmou Carlos Homero balho e assistência social. Giacomini, coordenador da equipe de transição de Richa. Entre as preocupações da equipe de transição do O relatório foi elaborado com informações entregues futuro governo estão a perspectiva de descumprimento pela equipe de transição do atual governo, complemen- da Lei de Responsabilidade Fiscal, decorrente de decisões tadas por uma equipe de 44 técnicos. Até o momento, de de gastos nos últimos meses de 2010 do atual governo. 165 informações requisitados ao atual governo, aproxi- Essas medidas podem deixar o Estado sem recursos em madamente 70% das respostas foram enviadas. “Até o dia caixa no Tesouro Público para cumprir compromissos a 23 recebemos as informações da Fazenda, por exemplo, serem pagos já no começo de 2011.


Preocupam também atos (Leis, Decretos, Portarias, Resoluções etc.) de política tributária, administrativa e financeira que podem resultar em decréscimos (“renúncia fiscal”) ou antecipações de receitas, com respectivo impacto financeiro e as medidas necessárias para suas compensações. Da mesma forma, foi observado que os valores previstos na Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) do Estado do Paraná para 2011 são insuficientes para o cumprimento de custeio de pessoal, de contratos e compromissos vigentes para funções essenciais nas áreas de Saúde, Educação, Segurança, Agricultura e Abastecimento, Infraestrutura, entre outras. Há ainda obras

sociais concluídas ou por concluir ainda em 2010 para as quais não foram programados recursos orçamentários para a devida operacionalização (despesas com pessoal, com equipamentos, materiais de consumo etc.). A equipe de transição também manifestou preocupação com a dificuldade do atual governo para pagar o 13º salário do funcionalismo estadual. Os recursos não foram contingenciados ao longo do ano e o atual governo dá sinais de que, para obter os recursos, tentará antecipar receitas. Veja a seguir o quadro de constrangimento orçamentário e financeiro para o Governo do Estado em 2011. O déficit soma R$ 1.533.600.000,00

1

R$ 245 milhões

Ampliação da base orçamentária do Poder Judiciário e do Ministério Público

2

R$ 200 milhões

Emenda Constitucional referente a Subsídio de Policiais Militares

3

R$ 169 milhões

Renúncia Fiscal ao setor produtor de álcool etílico anidro e álcool etílico hidratado

4

R$ 168 milhões

Benefícios concedidos a Auditores Fiscais

5

R$ 125 milhões

Necessidade de reformas em 1.500 Escolas com condições precárias de funcionamento

6

R$ 90 milhões

Antecipação de utilização de receita de contrato referente à gestão da folha de pagamento dos beneficiários da Paranaprevidência com a CEF

7

R$ 73 milhões

Dívida com prestadores privados de serviços de Saúde (Hospitais, Laboratórios etc.)

8

R$ 72 milhões

Déficit para 2011 por extrapolação do teto financeiro da Saúde

9

R$ 70 milhões

Descumprimento de prazos por parte do governo do estado, para ampliação de 6.000 vagas em casas de custódia

10

R$ 68 milhões

Diminuição de previsão orçamentária 2011 com relação a 2010, para Assistência Farmacêutica

11

R$ 64 milhões

Insuficiência de previsão orçamentária para 2010, sem possibilidade de suplementação, com projeção em restos a pagar em 2011, em custeio

12

R$ 40 milhões

Antecipação de receita de ICMS do setor de energia elétrica

13

R$ 36 milhões

Diminuição de previsão orçamentária para 2011 com relação à 2010 para Sistema de Atendimento Médico de Urgência (SAMU)

14

R$ 30 milhões

Déficit orçamentário para o transporte escolar

15

R$ 20 milhões

Falta de previsão orçamentária para 2011 para aquisição de equipamentos a fim de dotar hospitais inaugurados semi-acabados de condições de funcionamento

16

R$ 14 milhões

Déficit de previsão orçamentária para 2011 para o programa Leite das Crianças

17

R$ 12 milhões

Desembolso imediato não previsto, junto à CEF, para retomar o andamento das obras de 3.376 unidades habitacionais inacabadas

18

R$ 9,6 milhões

Déficit de previsão orçamentária para 2011 na área de Esporte

19

R$ 7,5 milhões

Atrasos no repasse de recursos para os Consórcios Intermunicipais de Saúde

20

R$ 5 milhões

Déficit de previsão orçamentária para 2011 para manutenção da estrutura administrativa na SEAB

21

R$ 5 milhões

Falta de previsão orçamentária para 2011 para Postos de Fiscalização, para Estado livre de aftosa sem vacinação

22

R$ 4 milhões

Falta de previsão orçamentária para 2011 para unidades de acolhimento à mulher em situação de violência

23

R$ 3,5 milhões

Insuficiência de previsão orçamentária para 2010, sem possibilidade de suplementação, com projeção em restos a pagar em 2011, em equipamentos para hospitais

24

R$ 3 milhões

Falta de previsão orçamentária para 2011 de recursos para destinação final dos depósitos de BHC no Estado

TOTAL: R$ 1.533.600.000,00

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Decálogo das carências de

A

primeira reunião do governador eleito Beto Richa com a Bancada Federal para apresentação de propostas de emendas ao orçamento federal de 2011 serviu como indicativo das relações entre o novo governador e a delegação paranaense no Congresso. Mas o Paraná precisa mais: juntar investimentos federais de fontes externas e recursos próprios para atacar o autêntico decálogo das carências, sem os quais não conseguirá mudar de patamar. Há muitas demandas – de sistemas de transporte multimodal a infovias de comunicação, passando por hidrovias, duplicação do Anel Rodoviário do interior –, etc. Dentre elas há dez projetos estruturantes prioritários:

1 2 3

Transbrasiliana (BR-153) – Construção do trecho Alto do Amparo (Rodovia do Café)/Imbituva, em integração com o lote em obras Ventania/Alto do Amparo, completando o traçado dessa importante via no Paraná. Corredor Ferroviário do Oeste – Para eliminar o gargalo existente entre Guarapuava e a região Centro-Sul, a ser conduzido pela iniciativa privada sob o regime de PPP; sendo melhor alternativa o traçado Guarapuava-Ipiranga. Ligação BR-376 / BR-277 – A implantação no Paraná da BR-101 – rodovia litorânea que em outros estados já está sendo duplicada –, reduzirá o percurso para os Portos do Paraná, evitando o trajeto de serras. Sua primeira fase, a “Alça de Guaratuba” entre Garuva e Matinhos, se divide em dois trechos: Garuva/Cubatão, contornando a Baía de Guaratuba, com melhoria de estrada já existente, e Cubatão/Rodovia Alexandra – Matinhos. Outros estudos incluem o segmento Alexandra/Ponta do Poço, viabilizando o

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acesso ao Porto de Pontal do Sul; e o trecho Entroncamento da BR-277/Antonina, já com anteprojeto.

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Anel Rodoviário de Curitiba – Prioritária a restauração do Contorno Sul (BR-376) na área da Cidade Industrial de Curitiba e conclusão do Contorno Norte (entre a Rodovia da Uva/Estrada da Ribeira (BR-476)/BR116, completando o Anel Viário de Curitiba. Contorno Ferroviário de Curitiba – Construção de novo contorno ferroviário de Curitiba, desviando das áreas de proteção ambiental existentes no trajeto. O novo traçado vai liberar a capital paranaense


rafael de lala

infraestrutura do Paraná de um gargalo representado por 82 passagens de nível e elevado risco urbano; além de ampliar a capacidade operacional da linha a ser implantada.

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Extensão da Ferroeste para Foz e Guairá – A nova linha para Foz do Iguaçu compõe a projetada Ferrovia do Mercosul, cortando o continente sul-americano entre o Brasil (Paranaguá) e Chile, viabilizando a futura integração bioceânica na América do Sul. A implantação do trecho para Guaira facilitará o escoamento da produção agroindustrial do Extremo Oeste paranaense, Mato Grosso do Sul e Leste do Paraguai.

7

Nova ferrovia Curitiba-Paranaguá – O trecho ferroviário atual, em operação desde o Império, tem destacadas características de engenharia e serve como atrativo turístico, mas não suporta o tráfego entre o hinterland e a região portuária. A segunda Ferrovia Curitiba-Litoral deve aproveitar as obras já realizadas.

8

Retomada da Estrada Boiadeira (BR-487) – Retomada das obras da Estrada Boiadeira (BR487), entre Cruzeiro do Oeste e a divisa Paraná/ Mato Grosso do Sul, em Porto Camargo; com a correção de aspectos impugnados pelo Tribunal de Contas da União, de modo a garantir a efetivação do projeto, de origem também secular.

9

Ampliação do aeroporto de Curitiba – A ampliação do Aeroporto Afonso Pena enseja projetos alternativos: extensão da pista atual para assegurar a operação de aviões de porte, ou construção de nova pista, de 3.400 metros. O fundamental é superar as atuais limitações do aeroporto metropolitano da capital paranaense – incluindo obras complementares: pátio de aeronaves e novo estacionamento de veículos.

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Novo porto em Pontal do Sul – O Paraná não pode prescindir de um porto de águas profundas em Pontal do Sul (Porto do Mercosul), para operação competitiva com navios transoceânicos. Em paralelo, é necessária a modernização do Porto de Paranaguá com a construção do Cais Oeste; dragagem de seu canal de acesso; e berços de operação. No Porto de Antonina, obras para operação especializada.

Foto: stock.xchng

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cidade

Marisol Vieira

Infância preservada em Tamandaré

O

município de Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, divulgou recentemente mais uma conquista. De acordo com pesquisa do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), a região diminuiu significativamente o índice de mortalidade infantil nos últimos anos. Entre 2008 e 2009 o decréscimo foi de 35,4%, passando de 14,7 para 9,5. Alguns programas voltados para a humanização e saúde aplicados em Almirante Tamandaré têm apresentado resultados. A mortalidade infantil é consequência de uma combinação de fatores biológicos, sociais, culturais e de falhas do sistema de saúde. As mortes precoces se concentram nas populações mais vulneráveis, refletindo as desigualdades socioeconômicas e étnico-raciais. Por isso, a prefeitura de Almirante Tamandaré investiu em ações como: aumento da cobertura do Pré-Natal, Grupos de Gestantes (equipe multiprofissional que enfatiza o aleitamento materno e aborda assuntos relacionados ao Pré-Natal), entrega de

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Kits Gestantes segundo critérios estabelecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, e a implantação do Comitê de Prevenção à Mortalidade Materno-Infantil. Outro programa importante é o que acompanha o desenvolvimento das crianças menores de um ano, mês a mês, através da avaliação do peso, altura e medição. É a chamada Puericultura. Os bebês que são assistidos de perto e com frequência não apresentam quadros de desnutrição e crescem de forma mais saudável. Com ações como estas, a cidade de Almirante Tamandaré consegue aumentar a qualidade de vida da população e contribuir para um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em compromisso assumido pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano 2000. A mortalidade infantil é grave, porém é considerada evitável quando os investimentos na área da saúde são bem aplicados e o atendimento à população é realizado de forma digna e respeitável.


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luiz geraldo mazza  jornalista

Catapulta eleitoral

E

leger-se na Capital é sempre um avanço pela circunstância de configurar o eleitorado mais exigente. Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola foram prefeitos de Belo Horizonte e Porto Alegre e isso serviu de apoio para ganhar o pleito estadual. No caso de Juscelino e de Jânio Quadros foi chave para chegar à presidência. Há, no entanto, um risco muito grave: o de o candidato, que deixou de ser prefeito de Curitiba, acreditar que irá encontrar na gestão estadual as mesmas facilidades de um sistema razoável com um modelo financeiro de primeira ordem, no qual inclusive há um represamento para as despesas de pessoal bem inferior a 40% quando na administração estadual ultrapassou, há muito, o chamado limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Tivemos vários governadores que passaram pela prefeitura como Ney Braga, aliás, o primeiro eleito em 1954, Requião e Jaime Lerner. Ney fez uma revolução ao proceder a integração física do Paraná com obras de infraestrutura e telecomunicações, energia e mormente a diversificação da economia tanto na agricultura como em serviços e indústria igualmente. Requião tentou dar continuidade ao ritmo do PMDB, causa aliás do maior desequilíbrio, ao longo do tempo, nos padrões gerenciais. Lerner foi razoável no primeiro mandato e dispersivo no segundo, mas deixou algo como uma tatuagem, o salto da industrialização com as montadoras e respectiva malha produtiva, um ganho do Paraná como rompimento à sua condição de economia de complementaridade à paulista.

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Uma rotina produtiva A rotina administrativa da prefeitura, por se dar num módulo menor e muito mais organizado, com um orçamento menos comprometido com despesas de custeio, é de eficiência ao contrário da dispersão estadual, entregue, há muito, ao espontaneísmo porque o PMDB detonou aquilo que era orgânico nos governos anteriores à sua ascensão: um nível de coordenação e planejamento para botar racionalidade na administração. O pior é que não temos as condições hoje de operar o salto de Ney Braga em 1961: a escassez de massa cinzenta e de um condicionamento à dispersão nas relações intersecretariais, não raro marcadas por paralelismos e superposições, mais dissenso do que consenso. Beto leva uma vantagem sobre Ney, a de contar com maioria parlamentar, mas essa circunstância o obrigou a uma negociação com a oposição, especialmente o PTB e que estaria presente na campanha em favor de Jango pela volta do regime presidencialista e de um relativo apoio às reformas de base. Na prefeitura, por maiores que sejam os vícios, é mais fácil visualizar pontos de estrangulamento e áreas que possam decolar com potencial deprimido. A centralização dos últimos gestores tirou a flexibilidade que era visível até o segundo governo Ney Braga, inferior ao primeiro e que foi obnubilada pela marca da dispersão e do improviso. No município, mesmo num de menor porte como Londrina, que também foi escalada do governa-

dor José Richa (que contava com um homem-chave, de primeira linha, em Wilson Moreira), é mais viável fazer o monitoramento de obras e ações.

Sem moleza A preocupação dos futuros governantes com a herança do período Requião-Pessuti é justificável, ainda mais depois das apurações do IBGE da queda havida no PIB paranaense (de 6,1% para 5,9%) entre 2007 e 2008 e a registrada pelo Ipardes de baixa de 0,5% no ano passado que projetará números negativos nas próximas tabulações. O governo sempre se valeu de dados macroeconômicos para sugerir que o ativismo estatal o justificava, o que sabidamente é falso. Como observa o economista Gilmar Mendes Lourenço ‘’O Paraná sempre se sobressaiu nos anos em que o Brasil passava por muitas dificuldades e ficou para trás quando o País melhorou’’. As pressões contra o governo Pessuti mostram que não temos o hábito da oposição. Se essa postura fosse adotada desde Requião com essa mesma firmeza a situação seria outra. Caso o Psdb fosse oposição verdadeira teria no mínimo tentado o ‘’impeachment’’ de Lula no episódio dos mensaleiros. Precisávamos de uma radiografia da situação real do Paraná, mas ela será escamoteada até o próximo levantamento do Ibge. A acomodação é o nosso estilo como se tentará fazê-lo mesmo num caso hediondo como o da fantasmice no legislativo.


LUIZ FERNANDO PEREIRA advogado

Demagogia e Previdência

M

bilhões de reais. Já com a economia que nos deu o fator previdenciário dos tempos de FHC, concebido à luz da ladainha atuarial. Foto: Vagner Benites

ês passado li na Folha um artigo que comentava a crise da previdência da Europa. Lá pelas tantas, o autor, um tal Ricardo Melo, manda o seguinte palpite: Os reformistas franceses argumentam que, se em 1945 havia oito trabalhadores na ativa para sustentar um aposentado, daqui a 15 anos a proporção descerá a um para um caso nada seja feito. É mais ou menos a mesma ladainha atuarial ouvida no Brasil. Ladainha atuarial! O impacto na previdência em função do aumento da expectativa de vida virou, na “científica análise”, ladainha atuarial. Algo como lengalenga ou conversa mole. Vendo o rombo que Requião deixa para Beto Richa administrar no ParanaPrevidência, chego a pensar que este Ricardo Melo possa ter sido o consultor do último governo para o assunto... Não há sistema previdenciário eficiente sem técnicas atuariais adequadas. E a expectativa de vida é um elemento essencial do cálculo atuarial. Previdência que desconsidere expectativa de vida, enfim, não pode ser coisa séria. No último século a expectativa de vida explodiu. Para ficar com os dados brasileiros, a nossa expectativa era de apenas 35 anos no começo do século passado. Estamos em mais de 70 anos e vamos chegar a 80 anos em 2030. O déficit da nossa previdência em 2010 será de 45

Na Europa não é diferente. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) informa que o continente europeu gasta quase 12% do PIB para bancar os regimes de previdência, quase todos públicos. A Grécia, em crise generalizada, verá o colapso do sistema de aposentadorias já em 2013, mostra o mesmo estudo. Levando em conta a ladainha atuarial, França e Inglaterra promovem reformas emergenciais nos sistemas de aposentadoria, aumentando, nos dois casos, a idade mínima. Será inevitável para todos os países. O drama da previdência não está no aumento da expectativa de

vida, é claro. Viver mais é algo a ser comemorado. O avanço da medicina (o surgimento da penicilina, sobretudo) é uma conquista que mudou a história da humanidade. O problema está no tratamento demagógico do tema. Aqui no Brasil e no mundo todo. Qualquer argumento sério na análise do regime previdenciário deve levar conta a ladainha atuarial. Não se pode conceber nenhum sistema com os critérios atuariais da época de Bismarck, o pai da previdência social. Mas isso é fonte inesgotável de impopularidade política. Lester Thurow prenunciou o ambiente gradativamente mais hostil para o debate em torno da reforma previdenciária. O americano mostra, no seu “futuro do capitalismo”, que a crise dos sistemas cresceria na mesma medida do aumento dos aposentados-eleitores, complicando a equação política da reforma. Noutras palavras, quanto mais passa o tempo, mais a coisa se agrava e pior fica a resistência política em função da elevação do contingente de eleitores atingidos pelas reformas. Foi o que aconteceu. Da Folha de S. Paulo se esperava algo diferente do coro demagógico. Ricardo Melo, o gênio da expressão ladainha atuarial, se anunciou coordenador da folha.com. Fui pesquisar o “coordenador”. Descobri que é autor de um livro de autoajuda com o seguinte título “A arte de lidar com pessoas difíceis”. Isso sim é ladainha. dezembro de 2010 |

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política

Marianna Camargo

As musas do Paraná no Congresso Depois de décadas enviando marmanjos feios e mal-humorados para o Congresso Nacional, desta vez o Paraná elegeu duas mulheres inteligentes, preparadas e que não fariam feio em nenhuma reunião de beldades, embora elas prefiram ser lembradas antes pelas suas qualificações intelectuais e pelo trabalho.

Gleisi Hoffmann será a primeira senadora eleita no Paraná. Esta foi a primeira vitória eleitoral em sua trajetória política. Como se vê, começou no topo, vencendo uma majoritária estadual. Antes dela, nenhuma outra mulher se elegera senadora. Só homens dos mais diversos partidos e convicções. No mais das vezes, políticos em idade de aposentadoria, o que fez do Senado uma instituição geriátrica.

Foto: Divulgação

Gleisi Hoffmann será a primeira senadora eleita no Paraná 30

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Foto: Divulgação

Diálogo e construção Gleisi Hoffmann é militante do PT e começou sua caminhada nas lutas estudantis ainda nos anos da ditadura militar. É casada com o ministro Paulo Bernardo e mãe de João Augusto e Gabriela Sofia. Ainda na adolescência, quando entrou no movimento estudantil por meio do Grêmio Estudantil Edson Luis de Lima Souto do Colégio Nossa Senhora Medianeira, depois passou a integrar a União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas e Grêmio Cida Borghetti é recordista Estudantil do Cefet na caem propostas importantes pital paranaense. na Assembleia Legislativa Também fez parte da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas Cida Borghetti foi deputada estadual por três man- (Ubes) e filiou-se em 1989 ao Partido dos Trabalhadatos. Elegeu-se agora deputada federal com mais de dores (PT). Sua formação é em Direito, sendo tam147 mil votos. Um fenômeno político que ultrapassou bém especialista em Gestão de Organizações Públicas as esperanças de centenas de outros candidatos que e Administração Financeira. Gleisi já foi secretária de disputavam uma das 30 vagas da bancada paranaense Estado no Mato Grosso do Sul e secretária de Gestão na Câmara Federal. É casada com o deputado federal Pública em Londrina no Paraná. Ricardo Barros, com quem tem uma filha, Vitória. DesIntegrou, em 2002, a equipe de transição de governo de já é apontada como uma das futuras candidatas a do presidente Lula, ao lado da ministra Dilma Rousseff. cargos majoritários no Estado. Com a vitória de Lula à Presidência da República em As duas simbolizam a luta das mulheres na vida 2002, Gleisi foi indicada ao cargo de diretora financeira pública, na política e na integridade de suas propos- da Itaipu Binacional, onde aprimorou os seus conhecitas. Talento, inteligência e determinação são naturais a mentos em gestão pública. ambas. Partidos e posições diferentes, porém objetivos Por iniciativa de Gleisi, a Itaipu Binacional em iguais. O que chama a atenção na similaridade entre parceria com a ONG Casa Família Maria Porta do Céu, elas é como pensam, que vai além de qualquer partido implementou a Casa Abrigo para mulheres e seus deou convicção política. União, diálogo e construção são pendentes vítimas de violência doméstica e em risco palavras ditas de maneira exata e sincera, o que é raro de morte. Ainda sob sua gestão e seu apoio foi criado o nestas paragens. Veja a trajetória destas duas mulheres Programa Saúde na Fronteira, para combater a prostique representam com dignidade e maestria a escolha tuição infantil. Em 2006, foi candidata do PT ao Senado Federal pelo Paraná. Mesmo sendo sua primeira partidos paranaenses. dezembro de 2010 |

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cipação em eleições, conquistou mais de dois milhões tada Cida Borghetti (PP) deixará legado de preocupação de votos dos paranaenses, o que representou 45,14% com causas sociais na Assembleia Legislativa. do total da votação. Em 2008, tornou-se candidata do Com experiência acumulada de dois mandatos partido (PT) à prefeitura de Curitiba. Todo o trabalho consecutivos, a deputada tem uma imagem de política desenvolvido por Gleisi na política a levou à disputa atuante engajada em causas sociais. “Para promover ao senado nas eleições deste ano. Elegeu-se com 3,1 reformas estruturais na legislação brasileira e ampliar milhões de votos, ficando à frente de Roberto Requião as políticas públicas que já implantamos com grande (PMDB), que liderava a disputa no início. Na semana sucesso aqui no Paraná, lancei-me na disputa por uma seguinte ao resultado das eleições, fez esta declaração, vaga de deputada federal”, afirmou a deputada, lemque comprova o por quê da vitória. “O Senado Federal brando que atualmente a bancada federal do Paraná não é um lugar de oposição, é um lugar de mediação e não tem nenhuma mulher. construção. Construção de consensos e boas relações “Nesses quase oito anos de mandato, pudemos dar entre o Estado e a União para que possamos posicionar nossa contribuição para o Estado com leis importantes em melhor os interesses dos paranadiversos segmentos. Mas o poder de legislar do deputado estadual é limienses. Quero ser senadora para As duas simbolizam tado, muitas mudanças precisam vir buscar esse diálogo, para buscar de cima”, explica Cida Borghetti, a construção dessa harmonia. Eu a luta das mulheres que é recordista em atividade na quero ser senadora para a união na vida pública, na Assembleia Legislativa. do Paraná”, afirmou. Uma das leis propostas pela política e na integridade deputada que tiveram maior reperde suas propostas. Carisma e luta cussão no Paraná determina o conTalento, inteligência Cida Borghetti nasceu em Catrole da frequência dos alunos na çador (SC), passou a infância em rede estadual de ensino, prevendo e determinação são Curitiba e tem suas bases eleitorais responsabilização civil e até criminaturais a ambas. concentradas principalmente na nal dos pais de alunos com elevado Capital e na região norte do Estado. número de faltas na escola. Partidos e posições Estimulada pelo pai, Ivo Borghetti, Outra lei bastante debatida, diferentes, porém militante getulista de carteirinha, que se arrastou durante anos na objetivos iguais. entrou na política ainda na adolesAssembleia Legislativa e passou cência, filiando-se ao PDS Jovem. a vigorar depois da intervenção Antes foi empresária na área da da deputada, instituiu as regiões comunicação. Trabalhou como produtora do primeiro metropolitanas do Paraná. Foi o ponto de partida Talk Show do Paraná, chamado Curitiba Vip, da Rede para discussões importantes, como a integração do Bandeirantes de Televisão, e, posteriormente, dirigiu a transporte entre municípios de regiões onde há conagência de marketing e propaganda VGB Comunicações. turbação, assuntos como coleta de lixo, consórcios Unindo carisma, bom-humor e a motivação em intermunicipais de saúde, uso de recursos hídricos e servir a comunidade aprendida na Igreja, Cida Borghetti habitação passaram a ser planejados de forma integrada não encontrou barreiras na entrada para a vida pública. nas regiões metropolitanas do interior do Estado após Trabalhou como voluntária do Provopar em Maringá, o advento desta lei. chefiou o escritório de representações do Paraná em Mas na opinião de Cida Borghetti, a instituição do Brasília, foi candidata à prefeitura de Maringá, e, em Dia de Luta contra o Câncer de Mama é sua iniciativa de 2003, eleita deputada estadual pelo Partido Progres- importância direta para os paranaenses. Ela lembra que sista, com 53.225 votos, sendo reeleita, em 2006, com a doença faz mais de 600 vítimas anualmente no Paraná, mais de 66 mil votos. e, em sua opinião, o estímulo às campanhas de prevenção Nestes eleições elegeu-se deputada federal pelo PP e a realização de exames poderá reduzir a mortalidade com mais de 147 mil votos, sendo a deputada mais votada nos próximos anos. da história do Paraná. Leva uma experiência interessante Na área ecológica, a deputada tem duas leis de para a Câmara Federal. Autora de 92 leis estaduais, depu- incentivo à produção de biodiesel, uma lei que prevê 32

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“As eleições passaram e agora é momento da união. Precisamos trabalhar juntos pelo Paraná. Focar em saúde, educação e segurança pública, e construir um Estado melhor para vivermos” Cida Borghetti

“O Senado Federal não é um lugar de oposição, é um lugar de mediação e construção. Construção de consensos e boas relações entre o Estado e a União para que possamos posicionar melhor os interesses dos paranaenses. Quero ser senadora para buscar esse diálogo, para buscar a construção dessa harmonia. Eu quero ser senadora para a união do Paraná” Gleisi Hoffmann

o repovoamento de rios do Paraná, com distribuição de filhotes de peixes nativos, e, ainda, uma matéria sancionada recentemente que estimula a cultura do bambu. Cida Borghetti também liderou discussões importantes, entre elas, a reestruturação da Defensoria Pública do Estado e a valorização dos profissionais da educação, da saúde e da segurança pública. Em novembro, participou na bancada federal paranaense de duas reuniões para debater o Orçamento Geral da União de 2011: a primeira com entidades represen-

tativas do Estado e a segunda com o governador eleito Beto Richa. A deputada, em mais uma demonstração de força e liderança afirmou que esse é o momento da união da bancada federal, das entidades representativas paranaenses e do Governo do Estado na atração de investimentos e na solução de demandas históricas do Paraná. “As eleições passaram e agora é momento da união. Precisamos trabalhar juntos pelo Paraná. Focar em saúde, educação e segurança pública, e construir um Estado melhor para vivermos”, disse. dezembro de 2010 |

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Por dentro da Câmara

Acompanhe o trabalho dos vereadores da Câmara Municipal de Curitiba CRECHES A regularidade no atendi-

ALIMENTAÇÃO A partir de 20/11

mento de uma creche e dois asilos no Bigorrilho foi questionada pelo presidente da Câmara de Curitiba, João Cláudio Derosso (PSDB), a pedido de moradores. Derosso solicitou informações para a prefeitura.

os restaurantes e lanchonetes que trabalham com sistema de delivery devem usar os lacres invioláveis nas embalagens, em cumprimento à lei 13.491, de autoria do vereador Tito Zeglin (PDT).

ALEITAMENTO O vereador João do

ANTIFUMO O vereador Tico Kuzma (PSB), autor da Lei Antifumo, estuda novas medidas para ampliar o rigor da legislação. A ideia é acatar propostas recebidas pelo twitter: estender a proibição de cigarro em locais de aglomeração de pessoas, como shows ao ar livre, parques e praças.

Suco (PSDB) encaminhou requerimento ao Executivo sugerindo a promoção de campanhas permanentes de aleitamento materno. A proposta foi aprovada por unanimidade no Legislativo. COPA 2014 O líder do prefeito na

Câmara Municipal de Curitiba, Mario Celso Cunha (PSB), quer o Estatuto do Torcedor funcionando, de olho na Copa de 2014. Ele destaca o cadastramento dos membros das torcidas organizadas, que deve começar nas próximas semanas em Curitiba. CIDADANIA O vereador Jair Cézar

(PSDB) propôs ao Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) instalar centrais do eleitor nas Ruas da Cidadania para facilitar o atendimento à população. Hoje, para ter acesso a tais serviços os cidadãos precisam se deslocar até a sede do TRE, no Prado Velho.

RIO BELÉM A Câmara autorizou a

SAÚDE II “As emendas orçamentárias são as principais fontes de captação de recursos do HC, fundamentais para sobrevivência da instituição de saúde”, enfatizou Maria Elisa, na tribuna da Câmara Municipal. O reitor Zaki Akel Sobrinho complementou, dizendo que “cada real colocado será revertido em prol da saúde pública”. TORCIDAS O vereador Julião Sobota

(PSC) anunciou seu afastamento temporário do cargo DE presidente da torcida organizada Os Fanáticos. “A decisão foi tomada por motivos pessoais e profissionais”, afirmou o parlamentar.

liberação de verbas para a ampliação do Parque Municipal das Nascentes, no valor de R$ 180 mil, a ser utilizado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, dentro do programa Biocidade.

PROTETOR Empregados de empresas

SAÚDE I O reitor da UFPR, Zaki Akel,

CORITIBA Responsável pelo retorno

e Maria Elisa Ferraz Paciornik, assessora de relações institucionais do Hospital das Clínicas, pediram aos vereadores que incluam o HC nas emendas orçamentárias do município de Curitiba.

do Coritiba à elite do futebol brasileiro, o técnico Ney Franco receberá o título de Cidadão Honorário de Curitiba. Indicação do vereador Felipe Braga Côrtes (PSDB).

públicas ou privadas que no exercício das suas atividades ficam expostos à radiação solar terão que receber protetor solar (15 FPS). O projeto é do vereador Juliano Borghetti (PP).

Câmara Municipal de Curitiba • www.cmc.pr.gov.br R. Barão do Rio Branco, s/nº — cep 80010-902 telefone: (41) 3350-4500 fax: (41)3350-4737 34

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perfil

fábio campana

Foto: Dico Kremer

O sonho acabou, mas ainda temos o Solda

"O sonho acabou. Mas ainda tem cuque", Solda.

S

olda, o Luiz Solda, é humorista em tempo integral. Em qualquer hora, qualquer circunstância, ele está a olhar o mundo de maneira enviesada, diferente, que desmonta qualquer lógica inspirada no senso comum. Ele nos faz rir, e como, porque mostra, pelo avesso, o desconserto do mundo, o desatino dos homens, a loucura das nações e, principalmente, a ridicularia de políticos em sua bufonaria cotidiana. Hoje Solda 36

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tem um blog que bate recordes de visitação. Tornou-se uma referência do humor e da cultura neste país que muito precisa do humor crítico para desvelar constantemente suas mazelas. Em nossa cultura periférica e reflexa o humorista costuma ser tratado como intelectual menor, dedicado ao circunstancial e de maneira superficial. Pois, pois, é necessário rever esses conceitos correntes nesta área do


Foto: Dico Kremer

planeta sempre que nos deparamos com a genialidade de humoristas como Millôr Fernandes, Jaguar e o nosso Solda. Creio que foi Roland Barthes que escreveu que o que causa o riso é a repentina transformação de uma expectativa tensa em nada. Aquela incongruência subitamente introduzida na ordem habitual ou lógica dos fatos é a motivação do riso e do cômico. Solda é um mestre nesse ofício, que exige mais, muito mais, do que a simplória capacidade para a piada que alguns confundem indevidamente com humor. A capacidade do Solda para se distanciar e enxergar de outro ponto de vista que nos leva ao estranhamento diante da obra dos homens. A essência do seu humor está no contraste entre o sentido e o desatino, no contraste das representações – surgidas dos deslocamentos de significados – e nos seus desdobramentos no desconcerto que leva à perplexidade. Os humoristas do quilate do Solda, por olhar tudo com o senso crítico apurado, demonstram sua inadequação para estar no mundo. Um mundo que ainda produz misérias, guerras e poderosos que insistem em tornar a nossa vida mais difícil. Solda viveu uma experiência radical durante quase uma década. Isolou-se do mundo, temeroso de suas armadilhas e receoso de repetir o final de amigos muito próximos que sucumbiram. Entre eles, o mais próximo foi o escritor Paulo Leminski, com quem Solda conviveu durante anos de bar e criatividade etílica. que despontou como um dos maiores craques do cartum Foi preciso que ele se internasse em uma clínica brasileiro. A sua história inclui passagens pelos principsiquiátrica antes de voltar a encarar o mundo com a pais jornais do Paraná, colaborações em veículos como coragem do humorista. Mesmo dentro do hospital, onde Pasquim e Bundas e prêmios em vários salões pelo País. encontrou amigos artistas, Há um livro que faz jus ao seu talento. Intitulado Solda exercitou sua veia de Ele nos faz rir, e como, porque mostra, pelo simplesmente Solda (formahumor. É desta época uma avesso, o desconserto do mundo de suas histórias impagáveis. to 25 x 25 cm, 144 páginas Solda gostava de ficar nas em papel de luxo, capa dura grades do portão da clínica para falar com as pessoas e sobrecapa), com prefácio de Jaguar, traz um resumo de que por ali andavam. A pergunta que fazia ao passante sua carreira, com cartuns de várias épocas. A “marca registrada” de Solda é o uso de letras e núera surpreendente: “tem muito louco aí dentro?” Primeiro o susto, depois o espasmo e a seguir o riso. meros nos desenhos. Ao mesmo tempo em que esse efeito Ora, pois, o que nos faz rir também nos provoca inquie- compõe o quadro, torna-se parte integrante do trabalho tações e nos convoca a sair da modorra, da mediania, da gráfico. No livro há seis desenhos curiosos, que fogem um pouco a esse estilo, nos quais o cartunista mostra suas medíocre vida comum. Solda é paulista de Itararé e, segundo ele, teria par- versões (bem distorcidas) de Mafalda, Alfred E. Neuman, ticipado da batalha que não houve. Mas foi em Curitiba Pato Donald, Snoopy, Capitão América e Superman. dezembro de 2010 |

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capa

A mulher que conhece a intimidade dos poderosos do Paraná abre o jogo

N

inguém conhece tantos segredos de alcova de beneméritos, ricaços e figurões paranaenses quanto Mirlei de Oliveira. Não por acaso, o simples soar do nome da principal cafetina do Estado nos últimos 30 anos ainda causa calafrios em círculos influentes, gabinetes de megaempresas e corredores dos três poderes. Cada aparição dela em Curitiba – como na segunda quinzena de novembro, quando participou de audiência do processo que responde por tráfico internacional de mulheres, na Justiça Federal –, é cercada de certo alvoroço, de um temor que verdades constrangedoras venham à tona e maculem quem sempre cultivou imagem de respeito. “Se eu falar tudo que sei, acabo com metade dos casamentos do Estado”, gracejou a Baronesa do Sexo – apelido que, por sinal, diz odiar. Hoje morando em São Paulo, cursando faculdade de Direito e alegando dificuldades financeiras, Mirlei não contou tudo o que sabe a Ideias, em entrevista concedida a este signatário e ao editor Fábio Campana na cinzenta tarde de 17 de novembro, uma quarta-feira, na sede da revista, pouco depois da audiência judicial. Mas revelou em cerca de três horas de conversa, com sua verborragia sinuosa característica, algumas das confidências picantes que pretende reunir em um livro autobiográfico, ainda em fase de projeto. 38

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orgas m


Fotos: Dico Kremer

carlos simon jornalista

"Eu vendo "

s mos

A “Chácara da Mile”, como era conhecida, no bairro Alto Maracanã, em Colombo, por duas décadas concentrou a fina flor da prostituição de luxo da capital paranaense. Por lá passavam políticos, empresários, notáveis da cena local e endinheirados em geral, atraídos pela qualidade do, digamos, cardápio oferecido pela dona do bordel. “Se o cara é um bom cliente, vou arranjar o melhor. Sei qual é a mulher mais bonita e a que faz bem feito, qual conversa bem e qual não tem estria nem celulite”, contou. Para seduzir as melhores garotas, ela cobrava 30% do valor do programa, porcentagem inferior à que diz ser habitual no mercado do sexo. Por vezes, como forma de agradar uma competente subordinada, abdicava da comissão. Além das moças da casa, Mirlei oferecia serviços sexuais de atrizes, modelos famosas e capas de revistas masculinas, que vinham de avião do Rio ou São Paulo exclusivamente para satisfazer algum cliente mais exigente (e, claro, abonado). Caprichava no ambiente e servia regalias como uísque 21 anos. Fluente em inglês, por ter morado quatro anos na África, atendia bem executivos e empresários estrangeiros. E procurou se aproximar de autoridades como policiais de alto escalão, deputados e juízes, que a permitiam tocar o negócio sem dissabores. Assim, fez fama e fortuna – ela calcula que no auge do empreendimento, em meados dos anos 90, chegou a faturar R$ 5 mil nos dias mais movimentados. Nessa época, o dinheiro corria mais solto no mundo da alta prostituição. Sem os mecanismos de controle de caixas 2 e contas públicas disponíveis na atualidade, e dezembro de 2010 |

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Mirlei de Oliveira, a Baronesa do Sexo, quer trocar a cafetinagem pela advocacia e escrever um livro.

"Transar e gozar não é crime nenhum, é uma necessidade de todo homem. É como comer" nem o Big Brother da era do celular e das câmeras por toda parte, era fácil, e tentador, despejar lucros (muitas vezes ilícitos) no colo das profissionais do sexo. No começo dos anos 90, Mirlei chegou a fornecer 70 garotas para uma festa de arromba em um motel da cidade. Enviava com frequência até 20 de seus melhores ‘produtos’ a uma ilha de Santa Catarina, onde um conhecido empresário curitibano, já falecido, presenteava juízes de diversas varas. Também animava reuniões de autoridades federais em Brasília.

Segundo gabinete Não foram poucas as personalidades locais que já desfrutaram seus serviços. Sempre exigindo que os personagens não fossem identificados, ela contou por exemplo que o político C. (iniciais, daqui por diante, fictícias), de grande expressão local, perdeu a virgindade aos 15 ou 16 anos com uma garota agenciada por ela, num apartamento em São Paulo. Outro político, F., muito conhecido por aqui, 40

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alvo de antigas insinuações indecorosas, teve a reputação defendida pela cafetina. Um proprietário de veículo de comunicação em Curitiba era habitué da chácara e participava de festinhas regadas a cocaína. Ainda mais assíduo era o empresário N., ligado ao futebol, cujo grande fetiche era as mulheres famosas. “Foi um dos que mais colocaram dinheiro por lá, me ajudou até a comprar a chácara. É um grande amigo e uma pessoa incrível”, disse ela. Ligação bem mais íntima ela teve com o delegado aposentado J., que já ocupou alto cargo na Polícia Civil. “Fui apaixonada por aquele homem”, contou. Os irmãos R., empresários curitibanos, um deles já falecido, também gozam de prestígio com Mirlei, os quais considera homens íntegros e corretos. “O S. (um dos irmãos) era adorado pelas meninas. Transava bem, terminava (o programa) em 20 ou 30 minutos e não ficava enchendo o saco depois”. Outro freguês habitual fazia duas exigências: não queria mulheres com aplique nos cabelos nem seios turbinados por silicone. Por outro lado, o estereótipo do mau cliente, na visão de Mirlei, é o usuário contumaz


de droga, do qual traçou um curioso perfil. “Quando o drogado tá no começo, o p. fica duro por horas. Depois de cinco ou seis anos, não levanta mais. E se continua usando, depois de velho começa a dar o c.”, teorizou. Já o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca nunca fez questão de esconder sua proximidade com Mirlei – certa vez, quando era deputado estadual, pronunciou-se em defesa da cafetina e contra a polícia na Assembleia Legislativa. “Foi o homem mais inteligente que conheci”, afirmou Mirlei, que disse ter ficado encantada com o acervo artístico e literário da casa do ex-prefeito. Ao contrário, Roberto Requião não gostava de Mirlei. O motivo, segundo ela, foi um mal-entendido com um assessor próximo do ex-governador. Apesar disso, ela

que Mirlei tentou extorqui-lo, exigindo dinheiro para não revelar à multinacional que ele envolvera-se com uma prostituta. Em sua defesa, a Baronesa alegou apenas cobrar dívidas do executivo, e que a garota agia por ciúme do protegido. Com o desenrolar das investigações, surgiram acusações pesadas: furto, tráfico de drogas, clonagem de telefones celulares e tráfico internacional de mulheres. Mirlei, que jamais negou trabalhar com prostituição, rebate com veemência a prática dos outros crimes. Sobre o suposto envio de mulheres a países como Estados Unidos, Inglaterra, Suíça, entre 2002 a 2004, de acordo com a denúncia do Ministério Público Federal, ela apenas nega as acusações, mas não entra em detalhes porque o

"Todo homem gosta de novidade, de se sentir o primeiro. Depois de 10 anos, a garota não serve mais, tem que reciclar. Quando chega uma nova, todos caem em cima. São coisas que se aprende com o tempo" não credita sua prisão a uma possível interferência de Requião, à época chefe do executivo estadual. A cafetina circulava com desenvoltura em todas as esferas do poder. Trocava os favores sexuais de suas garotas (e eventualmente, com volume bem menor, de seus garotos) por privilégios em diversas áreas. Quando um conhecido, dirigindo alcoolizado, causou acidente com duas vítimas fatais, Mirlei foi chamada e acionou o amigo delegado, que amenizou a situação. Quando um dono de hospital envolveu-se sentimentalmente com uma de suas meninas, Mirlei obteve condições favoráveis de atendimento. Se precisasse de um benefício financeiro, não faltavam empresários para abrirem o cofre. Gostava de alardear que era ‘intocável’, segundo várias testemunhas de acusação dos processos que responde.

Queda O império da Baronesa do Sexo começou a desmoronar em setembro de 2004, quando conheceu a cadeia pela primeira vez. Foi presa em Balneário Camboriú (SC) pelo delegado Silvan Rodney Pereira, sob acusação de extorsão e favorecimento à prostituição, com base nas denúncias de Maria Luiza Carvalho, garota de programa que frequentava a chácara em Colombo. A jovem apaixonou-se por um executivo norte-americano e disse

caso está em segredo de justiça. A respeito dos processos na Justiça Estadual do Paraná, ela os atribui à “perseguição” por parte do delegado Silvan, a quem acusou de ter montado um prostíbulo e de tentar tomar dela o controle do mercado. Silvan Pereira rebateu firme e, na época, também acionou Mirlei por calúnia e difamação pelas declarações. Para quem vivia rodeada de luxo e gente poderosa, os sete meses de prisão no 9º Distrito Policial e depois na Penitenciária Feminina de Piraquara foram dramáticos. “Tentei me matar várias vezes na cadeia”, conta ela. A história ganhou manchetes de jornal e Mirlei perdeu, além de parte da clientela, a proteção oficial. Em 2006, migrou para São Paulo, matriculou-se numa faculdade de Direito e deu entrevistas dizendo que mudaria de vida e fundaria uma instituição para ajudar filhos de detentas. Mas em agosto de 2007, foi presa novamente. Em seu apartamento na capital paulista, a polícia encontrou nomes de 570 garotas de programa de vários Estados, além da famosa agenda com os nomes de mais de cem clientes, muitos deles conhecidos. Gravações telefônicas obtidas com autorização judicial, e exibidas pela TV em rede nacional, mostraram Mirlei falando sobre uma garota de programa e R$ 150, e conversando por código com um suposto cliente por desconfiar que estava sendo grampeada. Sinais de que o negócio seguia a todo vapor. dezembro de 2010 |

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A

Web ‘roubou’ mercado

profissão mais antiga do mundo não está imune aos efeitos das novas tecnologias. As grandes casas de prostituição seguem movimentadas, mas sofrem pesada concorrência de garotas de programa ‘autônomas’, que divulgam seus serviços pela internet. “Antigamente os homens pagavam bem, mas hoje o mercado está desvalorizado. Muitas meninas põem fotos num site qualquer e fazem programa por R$ 200 ou R$ 300”, observa Mirlei de Oliveira, a Baronesa do Sexo. Uma das razões para a queda no preço médio é lógica: sem a figura do atravessador (no caso, o cafetão), que cobra até 50% do valor do encontro sexual, lucro vai direto para o bolso de quem deu duro. Ideias apurou que um anúncio nos principais sites de divulgação de ‘acompanhantes’ em Curitiba custa em torno de R$ 100 a R$ 250 mensais. A variação pode depender da popularidade do site e do destaque que o perfil da anunciante recebe na página de abertura – quanto mais no alto, mais caro; e se o destaque é dado à tarde (período em que a maior parte dos programas sexuais são agendados), o valor é maior ainda. Em seu perfil, a garota disponibiliza uma série de fotos, idade, medidas, número de telefone celular próprio, revela suas preferências de atendimento (homens, mulheres, casais...), de local (se vai ou não à residência do cliente), de pagamento (normalmente em dinheiro vivo), se está disponível para festas e viagens, entre outras informações. Muito raramente, o preço é divulgado de antemão – mas algumas lembram que o pagamento deve ser feito antes do programa e que não há desconto em hipótese alguma. E a maioria prefere não mostrar o rosto. A discrição, por sinal, é outra vantagem da prostituição on-line. Muitas profissionais não querem correr o risco de topar com conhecidos nas boates ou nas ruas. E anunciando na internet podem sincronizar a agenda com as atividades cotidianas. A clientela, por sua vez, é atraída pelo anonimato e pela possibilidade de escolher a garota a seu gosto. Já os sites tentam driblar eventuais complicações legais afirmando que não influem nos contatos entre as garotas e os clientes. Deixam claro que não são agências, mas apenas “veículos de divulgação e propaganda”, e alguns disponibilizam telefone de disque-denúncia contra prostituição infantil. O Código Penal determina que há prática criminosa somente quando o site expuser menores de idade ou pessoas sem autorização prévia, ou ainda se agenciar ou aliciar mulheres para a prostituição. Garotas de programa trocaram ruas e boates pela internet

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Mundo selvagem Depois dos dias de glória, Mirlei redescobria atrás das grades a face obscura da moeda, que já experimentara na dura infância e adolescência vividas no interior de São Paulo. Foi apresentada à brutalidade do mundo quando o pai matou a mãe. Abalada pela tragédia familiar, aos 15 anos, apanhou a irmã mais nova e foi tentar a vida na capital paulista. Trabalhou em hotéis, envolveuse com um rico libanês e morou com ele na paupérrima Libéria. Na volta ao Brasil, veio parar em Curitiba depois da morte do pai. Trabalhava numa agência de eventos quando, através de uma colega que nas horas vagas vendia o corpo, conheceu o mundo da prostituição. “Adorei conviver com os homens e vi que sabia lidar com eles. Logo fui para a zona”, conta. Com menos de 25 anos, Mirlei tornou-se agenciadora de garotas de programa (ela própria garante nunca ter se prostituído) e montou uma espécie de escritório num apartamento na rua Des. Westphalen, esquina com a Av. Pres. Kennedy, no bairro Rebouças. Cooptou belas meninas da agência em que trabalhou e, impulsionada pelo tino comercial, começou a prosperar. Montou o primeiro meretrício na Vila Guaíra, passou para a BR-277, na saída para Ponta Grossa, até fundar a chácara em Colombo. Parte da fama de Mirlei se deve ao modo singelo como sempre encarou o mercado da prostituição de luxo. “Transar e gozar não é crime nenhum, é uma necessidade de todo homem. É como comer”, compara. Despida de preconceito, não trata clientes como pecadores ou exploradores, mas como consumidores comuns – de certa forma, trouxe profissionalização ao setor. Também foi perspicaz o suficiente para detectar as predileções da mente masculina num prostíbulo. “Todo homem gosta de novidade, de se sentir o primeiro. Depois de 10 anos, a garota não serve mais, tem que reciclar. Quando chega uma nova, todos caem em cima. São coisas que se aprende com o tempo”.

Hoje, aos 51 anos, a Baronesa do Sexo garante estar fora do mercado. Durante a entrevista a Ideias, porém, seus cinco telefones celulares não pararam de tocar, e Mirlei, sem cerimônia, agendou mais alguns encontros. “Não ganho mais nada. Mas conheço só puta, cafetão e cafetina, sempre foi o meu mundo. Tem pessoas de que gosto muito e ajudo no que for preciso”, explicou. Ela apresenta-se em trajes simples – camisa, jeans e tênis – e afirma trabalhar somente com venda de passagens aéreas. Também diz receber R$ 500 mensais da irmã, juíza do trabalho, e mais US$ 1.000 de um amigo que lhe deve um favor. Veio de ônibus de São Paulo a Curitiba e recorreu a um advogado da Defensoria Pública no processo da justiça estadual paulista – o relato destes obstáculos foi o único momento da entrevista em que derrubou lágrimas. A origem destes aborrecimentos ela dedica a dois empresários curitibanos, a quem acusa de terem se apoderado de R$ 500 mil da venda da chácara de Colombo. Os dois fogem dela como o diabo da cruz. Outra das duras lições ensinadas pela vida. “Por isso me apaixonei pelo Direito e quero viver dele. Na faculdade vejo todas as sacanagens que foram feitas comigo. A vida não funciona quando você quer só foder as pessoas”, disse, expressando-se, está claro, em sentido figurado. Mirlei reconhece o poderio explosivo das informações de que dispõe, e ainda guarda a agenda cujo teor é capaz de derrubar alicerces da política e da economia do Paraná. Mas por ora, para alívio de dezenas de poderosos, não pretende expor todas elas – talvez mais tarde, e salvaguardando aliados, no futuro livro. “Sei até quantos minutos o cara leva pra gozar. Mas não vem ao caso, cada um faz o que quiser. Também nunca vou dizer nome de puta. Só tem uma coisa de que não gosto: gente indecente”, ataca. Se observarmos sob este prisma, de fato há bem mais decência em vender um orgasmo do que em muitos atos do nosso poder público.

“Não ganho mais nada. Mas conheço só puta, cafetão e cafetina, sempre foi o meu mundo. Tem pessoas de que gosto muito e ajudo no que for preciso”

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história

marianna camargo

Desolação na terra vermelha

Foto: João Urban

Episódio conhecido como “Geada Negra”, ocorrido em 1975, mudou definitivamente a economia paranaense

“U

m verdadeiro cataclismo”. Assim noticiaram os jornais da época a respeito da geada negra que se abateu sobre o Norte do Paraná, dizimando cerca de 850 milhões de pés de café e mudando definitivamente as configurações econômicas de Londrina e região. O fato aconteceu no dia 18 de julho de 1975. O inverno era pesado. Os curitibanos haviam acabado de ver, extasiados, a neve que caiu 44

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sobre a cidade. Apesar de bonito, o espetáculo da natureza trouxe consigo outro fenômeno meteorológico, mas de efeito catastrófico: uma forte geada que destruiu todos os cafezais do estado, que até então tinha sua economia dependente da produção de café. O céu azul ficou marcado por manchas vermelhas que anunciavam a tragédia. Nas horas mais frias os termômetros despencaram e de repente nada mais restou. Este episódio ficou conhecido como “Geada Negra”.

Foi a maior geada de que se tem notícia no Brasil. O fim dos cafezais resultou, ao longo dos anos seguintes, em um dos maiores êxodos populacionais ocorridos no Brasil e um dos maiores do mundo. Londrina, que já ostentara com orgulho o título de “capital mundial do café”, depois da terrível geada era pura desolação. Do dia para a noite, trabalhadores do campo ficaram sem nada. A pesquisadora Vera Maria Biscaia Vianna Baptista, moradora de Primeiro


Foto: Arquivo Canet

e 1,6 milhão na década de 1980, segundo dados do IBGE. O historiador explica, “talvez tenha sido a Geada Negra de 1975 o maior golpe da história na economia e na sociedade do Paraná, um acontecimento que precisa ser estudado, expli­ cadas as suas consequên­cias. Buscamos, tateando, ainda hoje uma nova identidade econômica. Acredito que a solução de nossa economia e a construção de nossa riqueza se encontra na terra, em novas culturas e atividades, com a industrialização derivando também dessas atividades.”

Documentário

Apesar de sua importância, o fato jamais foi registrado em um documentário. Foi assim que o diretor e jornalista Adriano Justino teve a ideia de realizar o documentário “Geada Negra”, que estreou em Curitiba no último dia 29. “O filme trata, de certo modo, da força da economia sobre as pessoas, de como a mudança da cultura agrícoJaime Canet Jr., então governador do Estado, desolado diante da devastação la foi devastadora

Foto: Arquivo Estado do Paraná

de Maio, Norte do Paraná, lembra: “Os pés de folhas verdes não existiam mais, era uma floresta de pés pretos, completamente queimados, esturricados. Um horror”. Vera descreve no livro “Sangrim e Sanhaço” o contexto da época. “Foram erradicados oitocentos e cinquenta milhões de pés de café. Abandonaram a terra vermelha mais de dois milhões de paranaenses do campo. No governo de Jaime Canet Junior, o Paraná foi todo asfaltado e interligado por uma rede de estradas vicinais. Acabou o pó e a lama”. Depois da destruição dos cafezais, a soja e o trigo tomaram  seu lugar. Vera conta que hoje, ainda existem alguns pés de café que os lavradores “teimosa ou afetivamente insistem em cuidar”, mas economicamente, a cultura cafeeira não tem mais significação. O historiador Roberto Bondarik, professor de História do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, em Cornélio Procópio, escreveu em 27 de junho de 2005 um artigo intitulado A Geada Negra de 1975 para a Folha de Londrina, quando completou 30 anos do fenômeno. Segundo Bondarik, foi o maior fluxo migratório em tempos de paz, o êxodo rural norte paranaense retirou do Estado, quase 2,5 milhões de pessoas na década de 70,

para as cidades paranaenses, grandes e pequenas. As periferias das grandes cidades surgiram naquela época, e as cidades pequenas do interior esvaziaram”, explica. Justino realizou várias entrevistas com pessoas que perderam tudo na época, inclusive com Jaime Canet Jr., governador do Estado de 1975 a 1979. No dia do acontecimento, Canet desembarcou pesaroso no aeroporto de Londrina. Ele já havia sobrevoado – durante cinco horas – toda a região do Norte do Estado e se dirigiu à sede imponente do Instituto Brasileiro do Café (IBC) para trazer a confirmação daquilo que ninguém queria aceitar. O empresário, hoje com 85 anos, dono da Fazenda Horizonte, em Bela Vista do Paraíso, diz que não tem mais café em suas propriedades. E lembra no documentário Geada Negra aqueles dias em que esteve no olho do furacão deste fenômeno que devastou os cafezais paranaenses. Confira a entrevista realizada por Justino. dezembro de 2010 |

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Qual era a situação do café quando o senhor assumiu o governo?

Eu tinha sido empossado quatro meses antes, no dia 15 de março. Tinha um programa de governo baseado naquela situação e, quando veio a geada, tivemos que rapidamente adaptar porque ela mudou totalmente a economia do Estado. Eu nunca fui político, sempre fui dirigente de empresas e entrei no governo com esse pensamento. O café tem a primeira colheita, razoavelmente econômica, depois de quatro anos. Quando é queimado pela geada, só produz dali dois anos. Então o governo tinha que custear esta cultura sem produção. A gente via que a relação do Paraná com o café tinha que mudar. O café vinha atravessando uma fase relativamente ruim. Os preços já tinham caído pelo excesso de produção no mundo. A geada veio e aí foi um total desânimo. Como foi aquela noite anterior à geada?

A previsão da meteorologia era de que iria ser uma noite muito fria. Peguei meus companheiros de governo e montamos um plantão no Palácio do Governo, pra sentir o efeito do frio naquela noite. Nós recebíamos notícias a todo o momento do interior e, de madrugada, já sabíamos que a geada seria muito violenta. Tanto é que, no clarear o dia, peguei o avião e fui para o interior, pra sentir in loco o estrago que tinha feito. O que aconteceu com os cafezais no dia seguinte?

É só o sol despontar que, estando no solo, você sente o cheiro de queimado. É incrível. Embora, quando eu digo queimado não pegou fogo, nem nada. Mas o cafeeiro fica marrom, e dali dois, três dias, começa a secar e as folhas caem. Uma geada parcial não era novidade, queimava aqui e ali, mas esta de 1975 foi a primeira que atingiu minha fazenda. As anteriores não tinham me atingido, eu estava em uma região mais alta, mais protegida. Me abati porque eu senti que iria ter dificuldades, que o Paraná ia ter dificuldades, então eu fui conversar com 46

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os cafeicultores entristecido e confesso que cheguei a chorar com eles, de ver a tristeza deles. Qual era a estrutura que o senhor tinha em sua fazenda?

Duas escolas de alvenaria, clube de futebol, igreja, duzentas e trinta casas. Cheguei a ter perto de mil pessoas morando na fazenda, porque eu tinha um milhão e meio de pés de café. As crianças tinham que ir para a escola e eles tinham que ter um clube para o fim de semana. O pessoal se casava na igreja da fazenda. As casas eram de alvenaria, com água encanada, esgoto, luz elétrica. Tenho até hoje, intocável — porque era um fanático por café —, oito secadores grandes, 16 mil metros quadrados de terreiros para secar o café, lavadores para tirar as impurezas, máquina de benefício, tulhas, armazéns pra guardar, tudo feito há cinquenta anos. Tudo bem conservado, graças a Deus. E quando o café foi erradicado...

Na hora que você tira o emprego no campo, automaticamente essa população vem para a área urbana. Em 1975, a população no campo era maior do que a urbana. Essa inversão, nós sabíamos que ia acontecer. E aí, começamos a refazer o nosso programa. Tínhamos primeiro que reforçar a estrutura urbana. Em uma propriedade rural, ele tinha tudo, quando ele sai, o governo tem que prover educação, transporte, polícia, água, esgoto. Essa massa vinha para a cidade, que não estava preparada pra receber, em um prazo curto, esse número de pessoas saídas do campo e que vieram pra cidade em busca de emprego. Qual foi o vínculo da Geada Negra com a saída do homem do campo?

A geada veio e queimou todos os cafezais. E com produção ou sem produção, ele tem que ter o mesmo trato. E o café sempre foi de trato muito manual. Tinha que ser carpido com enxada, aplicação de veneno manual, ainda hoje

Jaime Canet Jr. esteve no olho do furacão

cerca de oitenta por cento da colheita é manual. Então todo o tratamento, a fertilização, a limpeza da área, tinha que ser feito pelas pessoas. Por isso tinha um emprego grande no campo, porque o café dependia muito do trabalhador. Houve campanhas do governo para reter as populações no campo?

Sim, logo em seguida à geada eu corri o Paraná e dizia a todos para tornarmos novamente o Paraná verde. Isso para que não viesse todo mundo para a cidade de uma só vez. Em seguida o governo comprou uma centena de ônibus e kombis e demos para as prefeituras, para tentar segurar o pessoal no campo. O ônibus levava os moradores do campo para a cidade para estudar e as kombis levavam as professoras para as propriedades para ensinar. A Geada Negra teve algum efeito positivo?

A geada foi importante até para uma mudança qualitativa de produção. Tínhamos uma cultura expressiva e mais técnica, mais evoluída, na cafeicultura. O resto era uma cultura de pequenos produtores. Depois dessa geada é que nós evoluímos, que vieram as grandes propriedades e essa produtividade de soja e milho que não deve nada à Europa e Estados Unidos. A Coamo, em Campo Mourão, é a maior cooperativa da América Latina. É um mundo! Acabamos nos adaptando à nova vida, à nova economia, com rapidez e eficiência.


CARLOS ALBERTO PESSÔA  jornalista

As perdidas ilusões

A

o ler “A Lanterna na Popa”, as obrigatórias memórias do maior brasileiro de 1945 para cá, melhor e mais profundo reformista do Brasil, Roberto Campos, dei de cara com novidade que me deixou com a pulga atrás da orelha — para usar gíria bastante nova na inculta&bela, última flor do Lácio, a língua Portuguesa.

OH! Quando cônsul do Brasil nos EUA, em Los Angeles, Campos conviveu profissionalmente com atores e atrizes hollywoodianos. Que decepção! Todos — e todas! — invariavelmente nanicos e nanicas. Mais! Macérrimos! Com única, escassa exceção; estou a me referir a Kim Novak. Que felizmente era parente remota do polaco Tadeu Novak, dono do café, em Irati, ao lado do cinema do Wasilewski, na rua XV de novembro, centro nervoso-intelectual-artísticofinanceiro-fofoqueiro da Pérola do Sul. Nas férias, Kim pintava na bendita terra. E era a alegria da rapaziada... O comércio fechava, a indústria entrava em férias coletivas, a agricultura suspendia o plantio da batata, os serviços entravam em ponto morto, e a

gente fazia fila pra vê-la... Tenho pelo menos uns dez autógrafos dela! Todos de próprio punho. E que punho! Ah! Kim! Onde estás? Em que brumas? Em que bromas? Em que brahmas?

OH! OH! Voltemos às memórias do Roberto Campos. Fingi não ter lido o decepcionante trecho sobre a pequena altura de astros&estrelas, procurei esquecê-lo; não deu. Logo em seguida, ao ler os romances do Gore Vidal que integram o que chamou de “uma crônica americana”, voltei a dar de cara com a triste realidade: a quase unanimidade dos atores e atrizes de Hollywood é de anões. As exceções confirmam a regra. Como John Wayne, o grande fordiano. E agora?

BUÁ Bem, não posso mais fingir que ignoro a triste desmontagem dos heróis de carne e osso, tão grandes na telona, tão verticalmente prejudicados na vida real; passei a vê-los nas suas reais dimensões. Cá entre nós, mui brochante, mui brochante. Como sustentar paixão virtual por atriz de 1,50? Como ficar em suspense na hora

do tiroteio se sabemos que os atores não tem sequer 1,60 de altura? Só de porre! Ou dopado!

VERFREMDUNGSEFFEKT Ou você acredita num Rambo nanico? Que tem de usar salto carrapeta e enchimentos para ver filmes para maiores de 16 anos? Ou você crê nas tábuas da lei de um Moisés que tem de subir numa cadeira para urinar na pia do bar? Ou no galã tampinha, que tem de subir num praticável pra jogar sinuca ou lançar tímido beijo na face da mocinha? Ou no machão de 1,20 que intimida a todos no saloon? Ou na vamp de 1,11? Posso estar enganado, mas Tom Cruise tem um metro de altura... Recebe providencial ajuda sempre que deve montar um pônei. Esse efeito distanciamento, VERFREMDUNGSEFFEKT no original alemão, brechtiano, provocado pelas revelações do Roberto Campos e do Gore Vidal, revelações confirmadas por mim, tem provocado frouxos de riso. Especialmente nas cenas de pancadaria. Confira. Você nunca mais será o mesmo. O que também não deixa de ser positivo efeito colateral, não? Leia mais em negopessoa. com/blog)

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fotografia

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Fรกbio Campana


Foto: Ricardo M. Garcia

Dico Kremer e os privilégios do olhar

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om exceção de alguns excêntricos, hoje ninguém mais duvida que a fotografia é arte. Nem sempre foi assim. Baudelaire em sua crônica do Salão de 1859 escreveu que a fotografia só pode ser humilde servidora das artes e da ciência. Curiosa cegueira do gênio. Baudelaire via na câmara fotográfica o substituto da pintura. Equívoco que por muito tempo ajudou a construir a compreensão de que a fotografia, ao ocupar territórios da realidade visível que até então eram exclusivos da pintura, relegou-a a se autorreferenciar.

Com o avanço da fotografia, a pintura teria deixado de ver o mundo para explorar as essências, os arquétipos e as ideias. Tornou-se pintura da pintura. Cubismo e abstracionismo. Distanciou-se dos domínios que Baudelaire chamava “do impalpável e do imaginário”. Pintura daquilo que vemos de olhos fechados. A realidade não tardou em desmentir a teoria de Baudelaire e seus epígonos. Os fotógrafos, ao explorarem os mundos da abstração e dos sonhos, ao interferir no resultado captado pela câmara, passaram a fazer sua própria arte. Única.

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Depois de um século de discussão, a crítica voltou ao ponto de partida. Não para condenar a fotografia à maneira de Baudelaire, que a via como pobre sucedâneo da pintura, mas para exaltá-la como arte nascida da mesma tradição. Diante das fotografias de Dico Kremer temos a dimensão da arte e do artista que a produziu. Não é necessário

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conhecê-lo como eu o conheço com suas inquietações literárias que vão de Proust a Joyce, de Saramago a Machado, ou de suas incursões filosóficas em várias línguas, para perceber que um homem sensível, herdeiro da cultura ocidental, usou a lente fotográfica para subverter a objetividade com uma poética que alterna exposição e recolhimento, o visível e o invisível.


Pobre Baudelaire. Irritado com os poderes da reprodução imediata da fotografia, esqueceu que atrás da lente fotográfica há um ser humano, uma sensibilidade e uma fantasia. Um ponto de vista como esse que somente fotógrafos como Dico Kremer conseguem descobrir. Nesta pequena mostra da extensa obra de Kremer há temas e objetos cotidianos. Há imagens colhidas durante

suas andanças pelo mundo, como a da esquina em uma rua de Veneza em que a igreja se defende com um cartaz onde o pároco pede encarecidamente “non lordare su muri della chiesa”. Há também fotos de estúdio e Kremer é considerado excelente fotógrafo de publicidade porque domina como ninguém o ambiente, a luz, os contrastes, a perspectiva.

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Mas entre suas melhores fotos de estúdio estão as que fez de seus amigos. A de Paulo Leminski, sentado no chão, nu, tornou-se antológica. É dele também outras fotos do mesmo Leminski, de quem era um dos amigos mais próximos. Das fotos de gente que compõe sua galeria de afetos, há uma que é verdadeira epifania da presença feminina. Sua mulher, Carmen Lucia, a cachorra Witch

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e a filha do coração Giovanna. Fotografia feita num final de tarde, quase sem luz, quase improvisada, que conseguiu reter a expressão de felicidade que ilumina a cena simples, doméstica, as três na escadaria diante da casa do fotógrafo. São fotos carregadas de significados obtidos pela composição, pelo ângulo, pela felicidade no momento do registro. Ao mesmo tempo, estas fotos são enigmas em


branco e preto. Calado mas eloqüente. Sem dizê-lo aludem a outras realidades e, sem mostrá-las, evocam outras imagens. A fotografia de Dico Kremer é arte poética porque ao mostrar-nos algo, remete-nos a outra dimensão. Estabelece a comunicação contínua entre o explícito e o implícito, o já visto e o não visto. O que é eterno, por exemplo, na imagem do poeta Paulo Leminski? Nu, ele nos olha. Nós o olhamos enquanto

ele nos encara. Talvez o eterno dessa foto esteja nisso, o olhar-se, o ser olhado, o olhar. A claridade, a luz nos olhos que perguntam, questionam, contemplam, compreendem. Ver. Iluminar. Iluminar-se. Dico Kremer nunca pretende contar uma história. Ele nos mostra realidades fixadas em uma fração de tempo capturada para sempre. Revelação do instante. Instante de revelação. Por isso a sua fotografia é arte e nos alumbra.

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comportamento

paloma barbieri

Aqui, a solução para todos os seus problemas. Basta acreditar Foto: Divulgação

É

infeliz no amor? Não é correspondido? Sua vida sexual é um fracasso? Tem doenças graves? AIDS, sífilis, hepatite A, B ou C? Maleita? Câncer? Erisipela? Espinhela caída? Calo no calcanhar? Unha encravada? Bunda caída? Impotência? Encosto? O diabo na alma e no corpo? Não perca a esperança. Há remédio para tudo isso e o que mais lhe aflija, garantem os nossos curandeiros profissionais das mais variadas cataduras. E se tiver dúvida sobre o futuro, consulte o próprio ou um dos videntes que agora também estão na internet 54

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em sites que batem recordes de acessos, o que é mais uma prova de que web é também o repositório do asneirol que faz mais sucesso que qualquer texto inteligente. São muitos em Curitiba. E não imaginem que esse tipo de profissional sobrevive graças às crendices do povo mais pobre e carente de outras medicinas. Não é verdade. Curandeiros e videntes são consultados por gente de todas as classes sociais. Seu mercado é o da ignorância, que há muito deixou de ser monopólio das chamadas classes populares. É comum encontrar madames, peruas, empresários,


políticos do alto e do baixo clero na fila de espera para receber uma bênção ou encomendar a caveira do desafeto. É natural que estes paguem mais que os pobres e oprimidos. De resto, recebem o mesmo tratamento, garantem bruxos e pais de santo, tarólogos e alquimistas. Até gente considerada culta e inteligente recorre a esse tipo de profissional para resolver o insolúvel. O presidente da República, José Sarney, nada fazia antes de receber, pela manhã, o seu mapa astral. Outro, o desastrado Fernando Collor de Mello, mandava um jato ao Rio de Janeiro para buscar uma senhora que lhe lia a mão e revelava seu futuro. Não conseguiu prever o impeachment. Nem por isso perdeu a pose e a clientela cativa que até hoje recorre aos seus serviços. Famoso tornou-se o caso do vidente, benzedor e pai de santo que o então deputado federal Rafael Greca de Macedo mandou buscar em Salvador nu m jatinho. Ao sobrevoar Curitiba enfrentou tempo ruim. O avião jogava tanto que o pai de santo passou a rezar e mesmo assim não conseguiu conter os esfíncteres e o frouxo intestinal deixou o avião irrespirável. Uma senhora da chamada alta sociedade curitibana jura que recuperou o marido graças à orientação de uma vidente que lhe receitou a oração da Cabra Preta Milagrosa, retirada do livro “São Cipriano — O Legítimo Capa Preta”. Pediu sigilo do nome, mas revelou a esta repórter a oração para que possa fazer uso se for necessária. Quem sabe? Passo à frente para que outras mulheres em situação de abandono possam tentar o milagre. Antes, é preciso dizer que deve ser rezada com uma vela acesa na mão esquerda e uma faca de ponta na direita. Anotem, aí vai a oração da Cabra Preta Milagrosa exatamente como a recebi da madame que recuperou o marido e hoje acredita que melhor seria se o tivesse deixado com a outra. “Cabra Preta Milagrosa, que pelo monte subiu, trazei-me Fulano, que de minha mão sumiu. Fulano, assim como o galo canta, o burro rincha, o sino toca e a cabra berra, assim tu hás de andar atrás de mim. Assim como Caifás, Satanás, Ferrabrás e o Maioral do Inferno, que fazem todos dominar, fazei Fulano ser dominado, para trazê-lo cordeiro, preso debaixo do meu pé esquerdo.

Fulano, dinheiro na tua e na minha mão não há de faltar; com sede, tu, nem eu, não haveremos de acabar; tiro e faca, nem tu, nem eu há de nos pegar; meus inimigos não hão de me enxergar. A luta vencerei, com os poderes da Cabra Preta milagrosa. Fulano, com dois eu te vejo, com três eu te prendo, com Caifás, Satanás e Ferrabrás.”

Pois, pois, esta ilustre senhora jura que muitas de suas amigas passaram pelo mesmo desconforto de ver o marido fugir de seu controle, e quando usaram a oração da Cabra Preta Milagrosa todos eles voltaram ao aprisco. Agora, pasmem. Uma delas, herdeira de uma das famílias mais tradicionais desta cidade, que anualmente vai a Paris para exercitar seu perfeito francês, garante que foi curada de um câncer nos ovários por interferência direta de um espírito do além que costuma ocupar o corpo de um humilde pai de santo da periferia. Jura que tem os atestados médicos que comprovam a cura milagrosa. Mas nem todos os dias há clientes desse quilate. Curandeiros, tarólogos, quiromantes, videntes e afins vivem mesmo é do grande mercado. Gente simples, que economiza os trocados para saber o futuro ou amarrar o amor que quer escapar. dezembro de 2010 |

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Foto: Divulgação

Há fila diante dos consultórios nos bairros de Curitiba. E se as filas não diminuem e aumenta o número de bruxos e assemelhados, é sinal de que o negócio é promissor. Na verdade, em nossa cultura marcada pelo sincretismo religioso que admite todas as crenças em convivência harmônica, não há pejo dos católicos ou crentes de religiões pentecostais na visita ao profissional da cura pelo milagre, mesmo que os padres e pastores insistam que tudo não passa de pura enganação. Há uma queixa crescente dos bruxos contra a concorrência desleal dos que usam a internet. Os sites de videntes e curandeiros roubam parte significativa do mercado. Para enfrentar esse desafio, nossos bruxos se reuniram e iniciaram intensa campanha boca a boca para defender a teses de que a mágica só funciona quando o autor está de corpo presente. Vão mais longe. Denunciam o “roubo” de orações e receitas da cultura oral para preencher os sites com um conteúdo que garante milhares de acessos diariamente. Das receitas mais procuradas na internet estão as de feitiços para separar casal. Há dois entre os preferidos. O primeiro é o feitiço para separar casa com tranca e chave. Aí vai a receita para quem queira fazer uso imediato. Não exige prática nem habilidade, basta acreditar: 56

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“Para fazer este feitiço, pegue uma tranca e a chave correspondente. Segurando a tranca na posição aberta sussurre o nome do casal através da abertura na fechadura por três vezes. Depois pegue a chave e tranque a fechadura. Com isto os membros do casal imediatamente deixam de sentir paixão um pelo outro. O efeito deste feitiço mantém-se enquanto a fechadura for mantida fechada. Para desfazer o feitiço e juntar o casal de novo, basta abrir a fechadura com a chave, mas cuidado pois ao fazer isto, o feitiço poderá voltar-se contra si.”

Por via das dúvidas, há outra receita para separar casais. Esta faz uso de bonecos. É a que segue: “Quando for noite de Lua Minguante, faça dois bonecos de pano representando as pessoas do casal que você quer separar, os bonecos não precisam de ficar iguais ou parecidos às pessoas, basta que você saiba quem eles representam e os faça com intenção verdadeira de que representem essas pessoas. É importante que a cor das linhas usadas para costurar os bonecos seja diferente para as duas pessoas: Linha preta para o boneco da pessoa que


deve ser afastada, e linha branca para o boneco que representa a outra pessoa. Este feitiço funciona melhor se você usar pedaços de tecido de roupas que pertençam aos membros do casal para fazer os bonecos mas isto não é essencial. Em seguida, pegue pedaços de algodão e embeba-os numa mistura que previamente preparou com vinagre, sal, e pimenta. Use o algodão para encher o boneco que representa a pessoa que quer afastar. Para o outro boneco use algodão simples, sem ser embebido no líquido. Para o próximo passo, enrole os dois bonecos dentro de um pano preto, certificando-se de que ficam de costas voltadas um para o outro. Enterre a pano com os bonecos ao lado de uma planta com espinhos e espere até que faça efeito.”

Bruxas e magos, videntes, mães e pais de santo, cartas de tarot, búzios e candomblé, velas, incenso e magia são algumas das especialidades que você pode escolher para entrar no outro mundo através dos profissionais da área. Mas escolha com cuidado. Há queixas de pessoas que entregaram seus segredos e depois foram chantageados para que não fossem revelados. “Senti um chamamento”, conta Márcia Sugare, que não admite revelar a idade, taróloga, médium e vidente. Numa pequena sala improvisada e devidamente ornamentada de panos coloridos, velas e crucifixos, ela lança, uma a uma sobre a mesa, as cartas de tarot da vovó cigana, como ela gosta de dizer. Cada carta, conta a dona Márcia Sugare, mais conhecida como Mãe Suga, “tem um significado” e é através da leitura que vai fazendo as mesas, e da forma como vão sequenciando, que esclarece as dúvidas do presente e do futuro dos curiosos e crentes que lhe solicitam uma consulta. As perguntas mais freqüentes dizem respeito aos dramas de amor e do dinheiro. Neusa Traiana, mãe de santo, pratica candomblé há 10 anos. Diz que abandonou uma carreira numa “empresa multinacional” para se dedicar exclusivamente à “espiritualidade e medicinas alternativas”. O candomblé, explica, é “uma religião com origem

na Nigéria” e assenta nos orixás, que “representam as energias da natureza” e que lhe permitem ajudar quem a procura. Atrás dela está de azul Iemanjá, o orixá do mar de quem diz ser filha. Foi Iemanjá quem quis que se dedicasse ao seu espírito “de corpo e alma”. Crenças e simpatias à parte, tudo é permitido para contrariar a roda da fortuna e encontrar a felicidade em áreas distintas como amor, trabalho, negócios e saúde. Quem quiser arriscar a sorte com um desses profissionais, pode seguir as indicações dos panfletos de propaganda distribuídos pela cidade. Por eles se vê o que esperar. Mas, no desespero, quem sabe se funciona ou não, como diz um empresário que, na dúvida, recorre sempre aos profissionais do além. dezembro de 2010 |

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VICENTE FERREIRA  professor e gastrólogo

Mudou o Natal? Mude o cardápio

N

ão é necessário que o cardápio do Natal repita a mesmice do peru, a gordura do pernil, o bolo rei, o panetone e assemelhados. Substitua tudo isso por um menu tipicamente francês que pode ser realizado sem provocar o break-down do anfitrião e a demissão da cozinheira. Estas receitas estão reunidas sob o título de “Grand Menu Familier” e foi elaborado pelo antigo chef Álvaro Dubini, do Le Bec Fin, restaurante que marcou época nos bons tempos do Rio de Janeiro. Aí vai: • Les Scotchs Woodcock • Les Filets de Sole Marguery • Le coeur de Filet Monegasque • Le Parfait de Biscuit au Grand Marnier Scotchs Woodcock 12 ovos, 120g de manteiga, sal, pimentado-reino (branca), 48 filés de enchovas (de preferência espanholas), 12 fatias de pão de 8 por 6 centímetros. Bater o ovos. Temperar com sal e pimenta-do-reino. Mexê-los na manteiga até que fiquem ligeiramente corados. Cobrir com eles as fatias de pão (torradas) e formar por cima uma grade com os filés de enchovas, decorando com folhas de salsa. Servi-los numa bandeja forrada com um guardanapo em forma de flor.

Filets de Sole Marguery

Coeur de Filet Monegasque

1 kg e meio de filés de linguado, 1 kg de manteiga, 150g de cebolas brancas, algumas folhas de louro e de segurelha ou de tomilho, uma garrafa de vinho branco seco, 6 gemas de ovos, 24 mexilhões, alguns camarões pequenos. Retirar os filés do linguado e com as aletas, a espinha e a cabeça do mesmo fazer um caldo bem forte. Juntar dois copos de vinho branco, rodelas de cebolas, as folhas de louro e de tomilho (ou segurelha), um ramo de salsa, e deixar ferver durante 12 minutos. Passar na peneira fina depois de haver também acrescentado o purê dos mexilhões (que antes foram cozidos em vinho branco) e de ter deixado tudo ferver junto. Temperar os filés de linguado com sal e pimenta-do-reino (branca) e levá-las ao forno numa assadeira untada com manteiga. Molhar com algumas colheradas do molho já mencionado e cobrir com um papel (impermeável ou de alumínio) também untado com manteiga. Fogo baixo. Retirar os filés da assadeira quando estiverem secos e colocá-los numa travessa oval. Em cima de cada um colocar um mexilhão e dois camarões pequenos. Conservar na estufa enquanto se prepara o molho. Juntar ao caldo mencionado a manteiga da assadeira em que foram cozidos os filés. Ferver até que o caldo esteja reduzido a um terço do seu volume. Deixar esfriar um pouco e ir adicionando lentamente, sem deixar ferver e mexendo sempre com um batedor, mais 150 gramas de manteiga derretida. Verificar o tempero, passar numa peneira, cobrir os filés e levar a travessa ao forno bem quente durante alguns instantes, para gratinar.

12 filés de 90g (cada um), 12 alcachofras, 12 pedaços de batata torneadas em forma de dente de alho, 12 azeitonas verdes, 150g de manteiga, 12 fatias de pão. Temperar os filés com sal e pimenta-doreino e levar os mesmos à grelha até que fiquem dourados. Evitar que percam sangue depois de grelhados. Colocá-los numa travessa, sobre as fatias de pão fritas na manteiga, e completar a guarnição com alcachofras (cozidas, naturalmente), com os pedaços de batata (idem) e com as azeitonas. Molhar os filés com o resto da manteiga (levemente derretida) e servir bem quente. Parfait de Biscuit au Grand Marnier 400g de açúcar de confeiteiro, 4 gemas, 2 decilitros de Grand Marnier, 12 biscoitos champagne, 50g de geleia de damasco, 1 litro de creme de leite. Colocar no fundo de um pirex de tamanho regular duas camadas de biscoito champagne, entremeadas com a geleia de damasco. Levar ao fogo em banho-maria, num recipiente de cobre, as gemas, o açúcar e o Grand Marnier e bater (sem deixar ferver) até que essa mistura fique bem espumosa e o açúcar dissolvido. Continuar mexendo fora do fogo, com o batedor, até que ela esfrie por completo. Juntar então três quartos de creme de leite bem batido, misturando lentamente para manter a espuma. Derramar tudo isso no pirex onde já se encontram os biscoitos e levar à geladeira. Quando o doce estiver gelado, decorá-lo com o resto do creme de leite batido.

Embora estas receitas nada tenham de complicadas, é sempre bom lembrar aos gourmets amadores que o dia em que se recebe convidados não é mais para experiências culinárias. Reduzam um pouco as receitas (as quantidades aqui indicadas são para doze pessoas) e façam o teste qualquer dia desses. 58

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LUIZ CARLOS ZANONI  jornalista apreciador de vinhos

Hôu! Hôu! Hôu!

O

bom velhinho que os apreciadores de vinhos veneram não usa barba branca postiça, nem a suada túnica vermelha. E a bem da verdade não é um, são muitos, a maioria deles originária do sudoeste da França, ambiente que tanto favorece vidas longevas. Poderia ser um Latour 1955, um Mouton Rothschild 1945, ou outro Bordeaux, seja lá qual for, nascido em 1982. Estes sim arrancariam da enogalera um unânime e entusiasmado hôu! hôu! hôu! caso pousassem na mesa natalina. Infelizmente, a chance de que isso aconteça é nenhuma. Ceias de Natal são uma alegre miscelânea que associa peru com farofa, bacalhau, doces, pudins, toda a família e seus agregados. Um vinho de estirpe, venerável e austero, expõe-se aí à indignidade de ser diluído em água com açúcar por uma tia bonachona e sem noção. Quais, então? Pois essa é a ocasião fazer valer o sábio provérbio que diz estar a virtude no meio. Festas como as de Natal ou do Ano Novo pedem tintos e brancos descomplicados, que não reclamem atenções e cumpram, com discrição e eficiência, o papel de simples coadjuvantes. Ao escalá-los, um bom critério é dividir o evento em seus vários momentos. Para começar, na fase de aquecimento dos convivas, um espumante. Serra gaúcha ou champanhe, cava ou prosecco, é imenso o arco de possibi-

lidades. E temos nessa área escolhas nacionais de qualidade, a bom preço. Nossos espumantes, marcas como Chandon, Miolo, Geisse, Vallontano, Aurora ou Dal Pizoll, andam fazendo sucesso em outros países. Melhor o estilo brut, mas sempre haverá quem

aprecie um demi-sec, com o sabor mais adocicado que o torna parceiro também das sobremesas. Deixe uma garrafa no balde de gelo. Alguns continuarão fiéis a ela. Abertos os presentes, feitos os brindes, passa-se à mesa, onde imperam as carnes brancas de aves, de leitão, o bacalhau, os acompanhamentos de sabores adocicados. Um tinto jovem, frutado, aromático, de médio corpo, fará virtuoso enlace. Costumam se dar bem os que vêm de regiões mais frias, com acidez um ponto acima. Espanhois de Ribera Del Duero e Rioja, portugueses do Dão e Bairrada, chilenos de Casablanca, italianos do Norte – Dolcetos e Barberas do Piemonte, Chiantis da Toscana. Os Malbecs argentinos, macios, sem arestas, amigos de todos e de tudo, são o curinga da harmonização. Mas brancos também se encaixam, até porque anda farta a oferta de Chardonnays e Alvarinhos. E chega, finalmente, a preferên­ cia da ala feminina, as muitas sobremesas. Aí, qualquer que seja a escolha, colheita tardia ou passito, Sauternes ou Tokay, a popularidade do anfitrião subirá como nunca. Ponto final? Depende. Se a turma for animada, um Porto Tawny ou um Madeira manterão acesas as ideias e o papo pela noite feliz adentro. Quanto aos bons velhinhos, paciência. Ficam para outra festa. dezembro de 2010 |

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camilLa Inojosa cronista

Pela inconstitucionalidade do bom humor matinal

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Ô criatura. Cala a boca e fecha o olho, ou cala a boca e vá tomar banho. Em silêncio, por favor. Entrar no chuveiro cantando faz o mesmo efeito, ou talvez seja pior, muito pior. Você, em paz, lutando contra o travesseiro, repassando mentalmente a tarefa diária, e o ruído da água misturado com músicas de Rita Lee — “Suspenderammm os jardinnnsss de Babilôniaaa”. É a morte. É o desejo da morte. Como querer que você acorde educadamente e sem espalhar gritos e olhares de fúria?

palhem a depressão. Mas apenas que as pessoas tenham o bom senso e o respeito pelo acordar alheio. Levantarse é tarefa árdua e cada pessoa a trata de uma maneira, e, nada pior que um ser excessivamente feliz para tornar as suas manhãs mais sacrificantes.

O pior é quando a pessoa, que passou pela infância nos anos oitenta, quer fazer você levantar para tomar café ao som da inesquecível Xuxa cantando: Quem quer pão, quem quer pão, quem quer pão. Que tá quentinho, tá quentinho, tá quenti-

Foto: flickr.com/photos/Outburner

rritante. Simplesmente irritante. Sabe aquele adulto que acorda parecendo que está indo para uma grande excursão escolar? Não sabe? Considere-se uma pessoa abençoada. Esse ser acorda desejando bom dia ao sol, bom dia a nuvem, bom dia a todos que o rodeiam. Irrita-me o pensamento. Deveria ser declarada a inconstitucionalidade do bom humor excessivo matinal. Não prego a má educação, o mauhumor, ou tampouco pessoas que es-

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nho. Tão gostosinho, gostosinho, gostosinho. Quero mais um. Sim, existem adultos que acordam assim, lembrando da infância. E olha que somos da fase do ilariê, alguém merece? Não, eu não quero pão. Dane-se se está quentinho. Quando eu estiver com fome, vou na cozinha e faço o que quiser. Permita-me que eu viva ou durma os meus cinco minutos de sono da maneira que melhor me aprouver, e sai para lá, dançando feito o Praga! Pela manhã nada se faz, acordase e pensa na vida. Toma-se café, divaga-se. Em silêncio. Tem que ser uma regra da vida, um direito fundamental protegido constitucionalmente. Requer-se a paz pelas manhãs. O respeito pelo sono alheio. A deferência pelo silêncio matutino. É pedir demais? À noite devemos silêncio. Eu, notívaga, não posso exaltar Rita Lee no meu banho, ou dar boa noite para a lua, ou olhar para o ser amado, enquanto dorme e cutucá-lo para dizer, boa noite, amo você. Quer um pãozinho quentinho na madrugada, benhê? Tá gostosinho, gostosinho, gostosinho. Deve-se aos notívagos o respeito dado aos matutinos. Eu não cobro que ninguém fique comigo pela madrugada, sendo feliz e bem humorado. E não preciso ser feliz e bem humorada pela manhã. Ponto final. Assim mesmo, escrito, para ver se se torna inteligível.


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Livros

Minda-Au

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Swift atual Foto: Divulgação

O jornalista Marcio Renato dos Santos acaba de lançar o livro “Minda-Au”. A obra reúne sete contos, cada um deles com uma proposta de linguagem, de estética e de narrativa. Há textos em primeira e outros em terceira pessoa. Alguns apresentados no presente, outros no passado, e há ainda aqueles nos quais o autor mescla passado e presente. De modo geral, os contos falam e tratam de questões humanas e são todos ambientados em Curitiba. Minda-Au. Ed. Record, 84 pág., R$ 19,45)

O burgomestre de Simenon

A insistência do Nêgo Pessôa derrubou meu preconceito contra a obra de George Simenon, que considerava escritor menor das histórias policiais do seu investigador Maigret. Li “O gato” e acabo de ler “O Burgomestre de Furnes”, dois romances sem Maigret. É um estudo sobre o embrutecimento, o ódio e a avareza. Joris Terlink é o burgomestre que comanda a população, a economia e os conselheiros do povoado. Todos o temem. Sua vida está associada a tragédias: a filha idiota sob os seus cuidados, o câncer da mulher, os filhos fora do casamento e a própria gestão de Furnes, tão insensível que produz um suicídio logo no início da história. Há algo menos sedutor? Pois leia e compreenderá a genialidade de Simenon. (FC)

A Editora UNESP acaba de publicar “Modesta proposta e outros textos satíricos” de Jonathan Swift. “Modesta Proposta” é uma paródia de artigo científico, escrito por um presuntivo estudioso que julga a canibalização das crianças a resposta mais sensata para a erradicação da pobreza na Irlanda. É o modo pelo qual Swift nos convida para a liberdade de pensar. Pensar pelo avesso. Irlandês, nasceu em Dublin em 1667, morreu em 1745. Sua obra-prima, “As viagens de Gulliver”, é um dos livros mais inteligentes da literatura universal. Da sátira aos whigs, recriados nos anões de Lilliput, à invectiva contra a humanidade em geral, o autor recompôs o mundo de acordo com sua fantasia mordaz. (FC)


Música

Dissonâncias de Thelonious

O nobre rebelde

Foto: Divulgação

“Cemitério”, livro inacabado de Paulo Emílio Salles Gomes, foi publicado 30 anos depois de sua morte em 1977. É narrativa sui generis. Um obscuro contínuo de editora, que tem entre suas tarefas a leitura e edição de originais, libera a publicação do manuscrito “Cemitério”. O livro desperta a ira de personagens da elite paulista que se julgam caluniados. Na verdade, há muito de autobiográfico neste “Cemitério” em que Paulo Emílio acerta contas com a elite paulista tendo como pano de fundo os anos 30, da ditadura de Vargas. (FC)

Lançamento

O Calendário da Taschen inspirado em Matisse é ótima dica para 2011

Os CDs de Thelonious Monk estão na praça. São suas as obrasprimas “Round Midnight”, “Blue Monk”, “Straight No Chaser”, “Ruby, My Dear” e “Epistrophy”. O estilo diferente do pianista tornou-o único. Pausas, compassos irregulares, dissonâncias, um toque percussivo e anguloso fizeram dele um músico único no jazz. Até o nome, Thelonious Sphere Monk, era esquisito. Nascido em 10/10/1917 em Rocky Mount, Carolina do Norte, aprendeu a tocar aos 11 anos e se profissionalizou aos 22. Fez parte do grupo que criou o bebop, no início dos anos 40, gravando com Charlie Parker e Dizzy Gillespie. De 47 a 59, produziu seus maiores clássicos. Acompanhado por Milt Jackson, Sonny Rollins, Art Blakey e John Coltrane (com quem formou um lendário quarteto, no final dos anos 50), entre outros. “Monk’s Music”, “Brilliant Corners” e “Thelonious Monk with John Coltrane” estão entre os melhores discos dessa época. Consagrado, fez várias excursões pela Europa nos anos 60. Em 71 e 72 integrou o grupo “all stars” Giants of Jazz, que incluía Dizzy Gillespie, Art Blakey e Sonny Stitt. Morreu em 17/02/1982, de ataque cardíaco. (FC) dezembro de 2010 |

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Filmes

O Passado

“O Passado” (2007) é o último filme de Hector Babenco e o último em que Paulo Autran atuou. Baseado no livro do argentino Alain Pauls e traduzido por Josely Vianna Baptista, narra a história de amor entre Rímini e Sofia. Rímini, interpretado por Gael García Bernal, é um jovem tradutor que terminou recentemente um casamento de 12 anos com Sofia – Analía Couceyro – sua primeira namorada. O relacionamento termina, mas Rímini não consegue refazer a vida dele. O passado (Sofia) permanece, intacto, paralisado, emaranhado. Rímini sofre então uma espécie de amnésia que o faz esquecer todas as línguas que ele conhece e precisa saber para poder trabalhar. A narrativa vai de declínio em declínio, numa espiral de tempestades. Tem uma fala no filme que diz “Ninguém se separa, mas se abandona”. O passado é como um bloco, você precisa tirá-lo por inteiro, é uma pequena morte. Viver no passado é se repetir. Memória de fragmentos, peças que não se encaixam, quebra-cabeças interminável. O vento sopra, sempre. (MC) 64

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O amigo americano Oito anos depois de Easy Rider, filme de 1969, quando transgredir já não encontrava eco nas aspirações coletivas americanas, Dennis Hopper interpreta Tom Ripley, o escroque protagonista de Patrícia Highsmith às voltas com o submundo da arte. O ator está novamente em um road movie, ao qual comparece também Nicholas Ray. Vale a pena ver o DVD deste filme de 1977. Hopper morreu em maio, de câncer. Depois de uma luta insana para se separar da mulher, Victoria Duffly, preservando o papel de pai da menina Galen, de seis anos. (FC)

Trinta anos esta noite

Ou “Le Feu Foullet”, a obraprima de Louis Malle. Agora em DVD. Filme baseado em romance de Drieu La Rochelle. Com Maurice Ronet, Léna Skerla, Yvonne Clech, Hubert Deschamps e a maravilhosa Jeanne Moreau. Alain Leroy (Maurice Ronet) sai da clínica onde estava internado por alcoolismo e nas 48 horas seguintes reencontra em Paris lugares, amigos e amantes. Faz um balanço de sua vida para encontrar um sentido para ela. Decide se suicidar na noite em que completaria trinta anos. O drama de Alain, como expõe a Milou (Bernard Tiphaine) na véspera do suicídio, é a angústia de não conseguir tocar e ser tocado com sinceridade, um vazio existencial que não permite a vivência amorosa plena. (FC)


Izabel Campana cronista

Natal é tempo de Guilhobel

M

eu avô adorava natal. Aliás, adorava todo tipo de algazarra. Festa, folia, carnaval, ou oba-oba, tava lá o Guilhobel. Mas o natal era a coroação de um ano de festas. A Festa-Mor. Lampadinhas por toda a casa. Eu nunca disse nada, mas por anos temi um incêndio. Pinheiro escolhido a dedo. Alto, cheio e torto. Sempre. Papai Noel atleticano na varanda. Todo ano. Quanto mais gente melhor. Ninguém que conhecesse o Guilhobel passava natal sozinho. Todos os avulsos convidados. Além da família, que já era grande. Filhos, netos, agregados, ex-maridos, ex-esposas e ex-namorados. Coração grande, tinha o Guilhobel. Passava meses a elaborar a ceia. Ponto alto da festa. Cozinhava por uma semana. Leitão por dias na vinha d’alho. Era ceia tradicional, pode-se dizer. Mas sempre com o toque de Midas de Seu Guilhoba na cozinha. Peru, tender, rosbife. Cada carne com seu molho. Um ano teve até papo de peru recheado. Invenção do anfitrião. Mais uma dezena de acompanhamentos. Arroz à grega, farofa, salada. De sobremesa não tratava. Os convidados que trouxessem. E muita bebida. Uísque, na certa. Fazia questão de guardanapo de pano, elogio e presente. E de um

bom papo. Ele tinha uma centena de histórias que contava e recontava, às vezes rindo, noutras chorando de saudades. Certa vez foi velar um amigo, ficou bebendo o morto e esqueceu do enterro. Noutra, resolveu fumar um cigarro enquanto tocava corneta em um desfile de sete de setembro. Levou pito de um padre. O padre levou corneta no cocuruto. Inventou visão de Nossa Senhora, fez chover peixe em Morretes e instituiu que cantassem o hino de Antonina antes de servir o barreado no seu restaurante. Grande humor, tinha o Guilhobel. Me ensinou muito na cozinha. Até hoje penso nele s empre que preparo um prato. Não tire a segunda casca da cebola! Não lave os cogumelos! Não é assim, Regina! Perfeccionista, tinha uma didática muito própria com os ajudantes. Mas comigo sempre foi um doce. Quando meu marido o conheceu pela primeira vez, levou

uma conversa séria com o velho. O vô foi logo avisando. Você vai namorar minha neta? Então tem que aprender uma coisa. Coitado do Lucas. E continuou: tem que aprender a preparar meu uísque. Copo alto, pouco gelo, ... Lembro dele sempre que meto o pé na cozinha. Com o fim de ano não é diferente. Natal é tempo de Guilhobel. Grande figura, meu avô.

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MARIANNA CAMARGO jornalista

Uma pequena prece

Foto: Edouard Boubat

Um dia paramos em frente àquele pôr do sol, quase instinto, quase ritmo Suspenso foi o dia, como nuvem

Um dia céu azul, um dia sol escaldante, um dia mar Como uma benção, como crença, como prece

Como ventos do mar distante que se ouve perto da concha Fossem alguns suspiros, fossem alguns momentos

O lugar onde todos os medos foram suspensos, onde todas as buscas se encontram, onde mora o sonho

Depois da tempestade, depois de um cansaço, depois daquele abraço

Assim, ardente manhã, calma tarde, inundamos os instantes, afagamos nossa pressa No céu agora estrelas, finda manhã nascida em mormaço

Memória tingida de brisa, voraz paisagem, leva aos meus pés bromélias rubras Como se o sim fosse para sempre

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ROGERIO DISTEFANO advogado

Dispensem o próprio, por favor!

O

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Foto: Flickr_dryicons.htm

próprio tornou-se epidemia Sim, os cursos de jornalismo, abo- formação jurídica — os advogados na imprensa do Paraná e se lidos e cujo restabelecimento é ban- são objetivos, apesar de logorréicos. alastra rapidamente pelo Bra- deira da classe. Sou contra o curso, Cai-me na mão o ofício do burocrata sil. Aparece no final de outubro quan- pois entendo que o jornalista deve ter pedindo parecer jurídico sobre o caso do a Gazeta do Povo dá a manchete: formação pluralista, vinda de qual- do funcionário que matara a “própria “Filha esfaqueia a própria mãe na re- quer curso, até o de jornalismo. Até mulher em pleno horário de trabagião metropolitana”, quando o jornal, assisti uma única aula do curso, na lho”. Fiz o parecer com a solução da não satisfeito em editorializar o no- então Universidade Católica, levado lei, porém cometi a indelicadeza de ticiário, introduz a estrutura urbana por Antonio Senival Silva, querido mostrar ao colega que bastava dizer na anatomia. O próprio é insaciável; amigo, que hoje edita o Diário do Céu. que o sujeito matara a mulher, disna semana seguinte ataca em Arau- Não esqueço a aula e esqueço o nome pensável a própria, seja pelos padrões cária, quando foi o filho quem feriu a do professor, cara brilhante. Falava de legais, seja pelos da linguagem. O própria mãe. Ponta Grossa contribui editorialização (é assim?) da notícia, importante seria distinguir se a vípara a retumbante manchete do Bem que acontece quando o jornal esquece tima fosse mulher de outro, porque Paraná, versão elequando alguém mata “a mulher”, sem qualtrônica do Jornal do quer complemento Estado: “Para defen- O próprio tornou-se epidemia na imprensa do gra­matical, é sempre der a avó, adolescente mata a própria mãe”. O Paraná e se alastra rapidamente pelo Brasil a própria, nunca a Correio Braziliense, no alheia. O problema Distrito Federal, regisdo próprio é sempre tra que a “Mãe mata o próprio filho que sua opinião deve ficar na página o mesmo: ele quer fazer nossa cabeeditorial e a transfere para o noticiário, ça, induzir nossa opinião. ao confundi-lo com ladrão”. Longe de mim extrair humor que deve ser factual e objetivo. dessas tragédias. Neste departamento O professor dava como exemplo parei com a emblemática manchete de exato esse próprio, que aporta O Dia, o jornal sensacionalista do Rio todos os dias, geralmente no notide Janeiro: “Cachorro faz mal à moça”. ciário policial, sempre que o filho, Não, não foi estupro canino; sim intoxi- a mãe, o pai cometem violência ou cação provocada pelo cachorro-quente homicídio uns contra os outros. servido no carrinho da esquina. La- Os cursos de jornalismo pioramento as tragédias, daquelas em que ram, os jornalistas amantes dos a maior punição não é a cadeia, mas próprio faltaram coletivamente viver com o remorso de matar filho, à aula de editorialização, ou isso matar mãe ou pai ou vices-versas. saiu do programa escolar? Preocupa-me a redundância no uso Minha bronca com o pródo próprio, em que a indignação do prio é antiga, vem do tempo da jornalista se sobrepõe à objetividade advocacia, sempre em nome da pregada nos cursos de jornalismo. objetividade, subproduto da


ISABELA FRANÇA

Praça Espanha está se fechando em torno de marcas bacanas de gastronomia, moda e design. Quem gosta de belisquetes e comidinhas espera a abertura da primeira Cervejaria Devassa da região Sul, que deverá abrir as portas, na primeira quinzena de dezembro, na Rua Fernando Simas. Com projeto do arquiteto Gustavo Salles, a casa vai seguir a linha e o cardápio das outras 20 cervejarias da marca que já existem no Rio de Janeiro, onde tudo começou, e em São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Campinas, Brasília e Vitória. A grande novidade promete ser o exclusivo chope Devassa que só poderá ser degustado em Curitiba. Como as cervejas, o chope Devassa homenageia as mulheres e traz opções para todos os gostos: Loura, Ruiva, Negra, Índia e Sarará (chope tipo Weiss, feito de malte de trigo e de cevada, com aromas que lembram banana e cravo). Os petiscos têm nomes irreverentes como a Carnuda (fumegante frigideira de filé ao molho roti da casa, com cubos de cebola, salsa, queijo prato derretido e aipim crocante), o Bem Dotado (meio metro de linguiça fresca grelhada, acompanhada de uma saborosa cesta de pães) e o Piu-Piu (pequenos bocados de coxa, sobrecoxa e peito de frango sequinhos, com lascas de alho). 68

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foto: Kraw Penas

PRAÇA ESPANHA O quadrilátero da

Bien sûr A jornalista Sâmar Razzak, chefe da comunicação do Porto de Paranaguá, como toda mulher, gosta de moda. No caso dela, porém, este gosto vai além de apreciar as novidades. Sâmar acaba de ser aceita no Centro de Estudos da Moda, da Faculdade de Sociologia da Sorbonne, de Paris. Uma pesquisa iniciada em sua especialização em Sociologia Política, na Universidade Federal do Paraná, em 2004, foi ampliada e apresentada para o mestrado pleiteado na universidade francesa. O estudo de caso sobre a mudança na maneira de vestir de Lula e a conquista do poder no primeiro mandato, em 2002, foi aceito pelo sociólogo Michel Maffesoli, um de seus autores de referência bibliográfica dela. Discreta, Sâmar contou a conquista ao receber elogios da blogueira Lelê Saddi, que esteve em Curitiba, no mês passado. A bolsa, em couro cru e detalhes dourados, faz parte de uma restrita coleção de peças exclusivas feitas por Sâmar para ela e as amigas. Quem pode, pode.


Jazz CAiu NA REdE Os jovens empresários Claudio Miguel Mikza Filho e Jefferson Paraná estão

comemorando o sucesso do recém-nascido site de compras coletivas Local Club. Em suas primeiras inserções locais conseguiram números recordes em Curitiba. Em menos de 48 horas, o Lucca Café vendeu 2.370 cafezinhos e o restaurante japonês No Tubo serviu 595 combinados de sushi e sashimi por meio de promoções do site. O resultado animou a dupla a inaugurar sucursais em Ponta Grossa, Cascavel e Londrina, onde o desempenho tem sido o mesmo. Os descontos nas compras coletivas variam de 50 a 90%.

cortesia

Brasil – EUA

É inegável a elegância do curitibano cosmopolita Vicente Frare. Mesmo diante de todas as bobagens perguntadas pelo Jô em sua entrevista com o moço – que tinha muito mais a dizer – ele manteve a fleuma e até agradeceu ao entrevistador a “honra”

Pululavam no FB e outras redes sociais as críticas e vaias a Jô Soares durante o programa.

PRAÇA ESPANHA 1 Do outro

lado da praça, na Rua Coronel Dulcídio, um imenso tapume anuncia a chegada de mais um Madero, do chef Júnior Durski, com projeto de sua musa, Kethlen Durski. Porém, os amantes do hamburguês terão de esperar um pouco mais. Antes de abir a loja do Batel, a estratégia e Durski prevê a inauguração da filial do Cabral, onde já funcionou em idos tempos o elegante restaurante L’Etage, e a casa do centro, na antiga loja Tok & Stok. O Madero da Praça Espanha está previsto para inaugurar em abril do ano que vem.

foto: divulgação

de ter sido convidado ao programa.

O casal de advogados Marçal e Monica Justen trocou o Brasil pelos Estados Unidos por um tempo. O jurista e professor Marçal Justen Filho está em temporada de estudos em Yale, Connecticut. Nem assim, deixou de lado suas relações com a sua vasta e importante clientela brasileira, e sua banca de advogados curitibana. No dia 3 de dezembro, com a Editora Fórum e o escritório norte-amerciano Smith Law International realiza um grande painel de discussões sobre a legislação brasileira na área de infraestrutura. Será um dia todo de palestras de debates, no hotel Ritz Carlton de Miami, que contará com a presença da ministra do Superior Tribunal de Justiça Fátima Nancy Andrighi, o secretário de Turismo do Ministério do Turismo Frederico Silva da Costa, o cônsul brasileiro em Miami, Luis Abbot Galvão, além de outras autoridades e representantes da área jurídica. Na oportunidade, a Editora Fórum lançará a obra “Infraestructure Law in Brazil”, coordenada por Justen Filho e César Guimarães Pereira, que traz artigos de ambos, além dos advogados Marçal Justen Neto, Maurício Gomm Santos e Quinn Smith. Entre os assuntos que serão debatidos no encontro, estão os investimentos que podem ser feitos no Brasil na área de infraestrutura, as oportunidades do atual momento econômico, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. O evento fecha com a participação da professora norte-americana especializada em temas do Brasil Susan Purcell, que fará uma análise da Era Pós-Lula. dezembro de 2010 |

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ISABELA FRANÇA Corrida SP-Rio , O Desafio dos 600K

Seguindo sua linha de peças muito elaboradas e cheias de personalidade, a coleção é bastante orgância lembra corais, plantas, algas e texturas de conchas. As pedras passam por quase todos os em tons de azul e verde e remetem às praias do Pacífico Sul. Mais chic impossível.

foto: Daniel Kfouri

A bela designer de jóias contemporâneas Adriana Beigel, que passou mais de uma década na cidade do Porto, em Portugal e desde o ano passado restabeleceu seu domicílio em Curitiba, premiou as curitibanas com sua nova coleção, Oceanos, inspirada na vida marinha. Apresentou as peças no lançamento primavera verão 2011 da VK Empório, num almoço concorrido, na última semana de novembro.

foto: Gerson Lima

foto: Kraw Penas

Coral

SUPERMÃE Mãe de quatro filhos – Camila, Facundo, Giorgio e Chloe, a empresária argentina Paula Costantini, 32 anos, tem pique de sobra. Na vice-campeã Equipe Curitiba, a moça completou em nono lugar, entre as mulheres, a prova Desafio Nike 600K, que fez o circuito entre São Paulo e Rio de Janeiro, em outubro, em três dias consecutivos de corrida e, um quarto dia de 10 quilômetros o Nike Human Race. Para manter a forma, ela treina diariamente às 5h30 da manhã, antes de iniciar a maratona rotineira casa/filhos/ trabalho. E, para descansar, às vezes corre com o marido, o diretor administrativo do Hospital Costantini, Alessandro Costantini. A dupla correu a Maratona de Curitiba, no final de novembro. Paula completou a prova em 3 horas e 56 minutos, exatos 50 minutos antes do maridão.

TANSY KASCHAK Após longa temporada no exterior, deu o ar da graça em Curitiba nestas

festas de fim de ano, a encantadora Tansy Kaschak. A bela que mudou-se para Roma ao se formar em Jornalismo , conclui o Master em Gestão de Produção de Cinema e TV, foi para Nova York, onde trabalhou na RAI International e passou um tempo em Bruxelas, que a espantou por tédio de volta para Roma. Lá, de setembro a novembro, trabalhou no Festival do Filme de Roma e agora curte férias em Curitiba. Em janeiro, deverá retornar ao eixo NY-Roma.

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Ao PÔR Do SoL Os promotores de eventos Carolina Mendes e Dado Borell foram os anfitriões de uma das mais belas e originais festas de casamento dos últimos anos. Caru, como é mais conhecida a filha da renomada decoradora Yara Mendes, escolheu como cenário a praia de Mariscal. Como boa parte dos protagonistas da cerimônia, de uma forma ou de outra é ligada à área, uma grande parceria entre organizadores de eventos e alguns dos mais competentes fornecedores do setor renderam um resultado único que encantou os 300 amigos e familiares presentes. Cris França, prima da noiva, cuidou da ambientação, que teve flores assinadas por Manu Daher e velas da Kalaiá. O vestido da noiva, feito pela estilista Karina Kulig, não poderia ser mais apropriado, com flores que se estendiam pela saia longa e leve. Américo Mendes, o pai, vestia um elegante blazer de linho branco e um legítimo Panamá. Ao entregar a filha ao noivo, passou ao descontraído Dadão, a moça e o chapéu. Mereceu os primeiros, de uma série de aplausos da noite. A cerimônia foi conduzida pelos A posse do governador Beto Richa fez irmãos, primos e amigos dos noivos, ao pôr do sol.

1000

foto: Gilson Camargo

aumentar o público remanescente na cidade para as festas de Réveillon. No Graciosa Country Club, por exemplo, no primeiro dia de venda de mesas foram reservados mais de 1 mil lugares. Este ano, o festerê do Country vai repetir a fórmula do ano passado e acontecerá nas quadras cobertas de tênis, com queima de fogos no campo de golfe. Dado Dantas e Ilse Lambach assinarão a superprodução outra vez. No Clube Curitibano, a procura por lugares para o Ano Novo se repete. As mesas começam a ser vendidas no começo do mês e acomodar os sócios que ocuparão todos os salões do clube o primeiro desafio do novo presidente Joaquim Miró. A festa será produzida por Marcos Soares. dezembro de 2010 |

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BALACOBACO Nizo Gomide (DJ)

Bernardo Duarte, diretor do Graciosa Country Club Irit Czerni

Monica Gulin

Verão no Country O casal Nicole e Nanau Hauer

No Country Club aconteceu a Two Thousand Summer. Na festa de abertura oficial do verão foi inaugurado o novo restaurante do tênis e o bar da piscina. Alegria. O sol fez questão de aparecer. Os sócios tiveram o som do DJ Nizo Gomide para embalar a festa. Bar de caipirinha e salgados do Neno de Caiobá servidos durante o dia. Delícia. Sucesso.

Gustavo, Camila e Henrique Gossling

Marco Aurélio Nasser de Moraes brinca com o seu sobrinho, João Eduardo Senff, na piscina do clube

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ni

Bazaar Fashion Andréa El Omeiri, Márcia Almeida e Solange Elias fizeram a festa de Natal da Bazaar Fashion no último dia 25. Showroom de lançamento da coleção de verão. Encantadora. Fresca. Solar. E saiu a edição especial de fim de ano do jornal Inside Bazaar, onde as clientes da maison aparecem em cliques da fotógrafa Fran Hunter.

Izaura Mueller e Márcia Almeida

Raphael Mendonça

Larissa Macedo e Eliane Fadel de Castro Dirce Keppen

Cristina Nacli, Elvira Ramon e Simone Yared

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BALACOBACO

O que agrada as mulheres

Lelê Saddi, Flávia Guimarães e Thalita Cruz

Patrícia Teig, da HOPE do Parkshopping Barigui, ofereceu coquetel de inauguração para blogueiras de moda de Curitiba e convidadas. Na festa, mais de 50 convidadas e os ingredientes que agradam as mulheres e garantem sucesso em qualquer lugar do planeta: trufas de Viviane Malucelli, champagne, lingerie, moda e brindes. Melissa Galvão, Adriana Cardoso, Fabiana Gomes

Lívia Oura, Lelê Saddi e Patrícia Teig, proprietária da loja da Hope

Fabulosas felinas Fabiana Gomes e a modelo Kaylah Yarck na MAC Mueller

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A marca canadense de cosméticos MAC apresentou, na noite do dia 9 de novembro, a nova coleção de maquiagem, batizada de Fabulous Felines. Participação especial da maquiadora sênior da MAC no Brasil, Fabiana Gomes. Curitibana, mora há mais de 10 anos em São Paulo e ocupa o principal cargo artístico da MAC no país. Faz parte de um seleto time de 54 maquiadores top da marca ao redor do planeta. Na loja da MAC do Shopping Mueller.


Música no ar No Shopping Mueller, a música domina o clima de fim de ano. Além da decoração inspirada no maestro João Carlos Martins, o shopping preparou exposição interativa com instrumentos musicais. De 18 a 21 de novembro, o Piso Cinemas recebeu o Yamaha Play Now. Na abertura da exposição um pocket show com o Duo Sciotti ― Derico Sciotti, integrante do sexteto do Jô Soares e seu irmão Sérgio Sciotti seguido de um happy hour no Babilônia Mueller.

Mariah Marra e Iza Zilli

Eduardo Mourão, Elizabeth Mourão e Rita Mourão

Sérgio Sciotti, Adriana Cardoso, Derico Sciotti, Carlos Alberto Ferrari Merussi

Reizinho

Notável Iza O lançamento da 8ª edição da revista anual Personagens & Empresas Notáveis da jornalista Iza Zilli foi no último dia 23. A festa aconteceu no Studio Casa do arquiteto Eduardo Mourão e reuniu mais de 600 pessoas. Na comissão de frente belas modelos da Toyota Sulpar. Buffet japonês do Taisho, coquetel de Gabriela Carvalho, do Quintana, chocolates da Kopenhagen e doces da Barbara Trevisani. Iluminação da Classic Som & Imagem. dezembro de 2010 |

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CLAUDIA WASILEWSKI  cronista

É Natal

S

eria normal escrever sobre o espírito natalino, pessoas que ficam boazinhas e caridosas. Sobre a explosão do consumo, a obrigação de presentear, mesmo que acarrete mais dez meses de prestações e dívidas. Quero contar o que na minha família batizamos de “Xaropada de Natal”. Provavelmente minha mãe gostaria de viver em Nova York todo o período natalino. Felizmente ela só tem um broche de pinheirinho, mas lá se sentiria a vontade de usar brincos e blusas de lã com estampas de boneco de neve e Papai Noel. Por aqui ela põe a cabeça para funcionar e criar novidades para a decoração. Ano após ano. Obviamente não faz sozinha, porque não se trata apenas de montar um presépio ou pinheirinho. Vai bem mais além. Os Papais Noéis saem das caixas, rebolando, tocando sax, andando de bicicletas, dormindo. Este pelotão apelidamos carinhosamente de compadres. E assim eles têm suas roupas limpas, ajeitadas, os sapatos são lustrados e quase um carregamento de pilhas é instalado. Aí vem o desesperador serviço de desembaraçar as luzinhas para o pinheirinho e janelas. Parecem ter vida própria e de um ano para outro se transformam em um grande nó. Já fiquei tão desesperada a ponto de fazer uma simpatia. É só pensar fixamente em uma pessoa bem fofoqueira. Deu certo embora a metade delas tenha se quebrado. 76

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Aí vem o trabalho com os enfeites de feltro. Devem ser passados e esticados. São toalhas, portas-cartão, caminhos de mesa, e mais uma infinidade de miudezas. Alguns desses trabalhos feitos por ela mesma, mas na grande maioria presenteados pela minha Tia Nilce. A minha tia passa meses do ano se dedicando a confeccionar verdadeiras maravilhas. Depois dos lustres, espelhos, cozinha, banheiros decorados, o que leva mais ou menos dois dias, finalmente será descoberta qual a Xaropada de Natal. Pode ser qualquer coisa. Desde milhares de lacinhos, florzinhas, estrelinhas, assim mesmo tudo no diminutivo, ou algo muito grande e desajeitado para ser pregado ou colado. E assim como uma maes-

trina rege a posição e a altura. Mais para cá, mais para lá. Tudo pronto? Não, vamos aos presentes. A Xaropada dos presentes segue uma lógica. Três filhos e cinco netos. Portanto oito compadres idênticos. Segundo Dona Carmen, depois que o contrabandista Law Kin Chong foi preso, os produtos natalinos decaíram. Eu mereço ouvir isto? Pois é... Então começa a busca frenética pelos compadres. Não consigo todos iguais, quando consigo não funcionam, ou são muito caros. Tenho que aliar os fatores preço e qualidade. Uma vez depois de 12 horas de entra e sai de lojas, achei uns pinguins lindos. Tinha uma etiqueta que dizia “touch me”, toque-me. Fiquei feliz porque iria inovar, variar a figura. Apertei o primeiro, nada aconteceu. No segundo idem. No terceiro, perdi o juízo e o enforquei. Causei espanto e indignação nos que estavam à minha volta. E somente depois da uma hora da manhã comprei a versão Compadre Carteiro em um supermercado. O grande prazer da decoração é acender todas as luzinhas, e ligar todos os Papais Noéis, com suas alegres musiquinhas ao mesmo tempo, para qualquer desavisado que aparecer aqui. E ainda tem o discurso feminista, que é um absurdo, a Mamãe Noel fazer tricot enquanto o Papai Noel dorme. Que sempre termina assim: — Preciso arrumar um jeito de tirar as agulhas e encaixar um livro nas mãos dela. Pobres visitas!


Cartas do Leitor Escreva para cartas@revistaideias.com.br

!Oh Amílcar! Também o vejo assim, como escreveu Nêgo Pessoa, genial, elegante, único: sua percepção da forma nos vãos das esculturas recortadas em ferro, as leves pinceladas soltas num gesto só e a precisão visual dos projetos gráficos são mesmo modelo de admirável economia e riqueza plástica. Anna Maria Kluppel Vale-tudo Gostei muito da reportagem sobre o vale-tudo da edição 109. Muitas pessoas que não sabem direito do que se trata pensam que quem pratica esse esporte só quer bater e machucar os outros. Temos ótimas pessoas que o praticam em Curitiba. Parabéns Giovana Coutinho Langouste Thermidor Cada vez que vejo as receitas do Vicente Ferreira me dá vontade de ir na mesma hora comer o que ele indica. Dessa vez foi difícil de me conter, essa lagosta deve ser excelente. Parabéns ao colunista. Silvia Vasconcelos Ofícios Fiquei muito feliz e surpresa em saber que temos um luthier por aqui. Um ofício tão maravilhoso merecia mesmo uma matéria linda dessas. As fotos estão excelentes. Parabéns a todos os envolvidos e em especial ao artista. Maria Helena Alves

ACABOU - O ciclo político de Requião chegou ao fim Fábio, sua percuciente crônica de um demagogo anunciado já por ocasião do primeiro mandato de governante, retrata a falência das autoridades de controle público e da própria sociedade, aquelas compadrinhando-se com a vontade personalíssima do governante, esta lhe outorgando três mandatos de governador, com Ferreirinha e tudo mais visto e sabido. Pior do que suas gestões estapafúrdias é a conivência geral com esse tipo de gestor público, a ponto de lhe dar mais um mandato, este, mero escudo protetor contra o caminhão de processos judiciais a que está ou estará sujeito. Só faltou um detalhe, não menos escabroso: o monumental passivo que deixa de herança à sociedade, em incompetência administrativa e prejuízos a serem suportados pelo erário público, sem qualquer expectativa de responsabilização. Estaremos vacinados contra esse tipo de vírus político? Tenho séria dúvida. Fábio, a propósito, a qualidade de Ideias honra o jornalismo. O acesso via internet está sendo fundamental para acompanharmos as matérias, informarmo-nos e por que não, sendo formados por uma visão crítica singular. Parabenizo a todos. João Gualberto Sejamos práticos, porém brilhantes Ótima a crônica da Marianna Camargo. Verdadeira, lúcida e singela. Algumas frases anotei em minha agenda para lembrar sempre. Fernanda Montello

Revista Publicação da Travessa dos Editores ISSN 1679-3501 Edição 110 – R$10,00 www.revistaideias.com.br e-mail: ideias@revistaideias.com.br 01 de dezembro de 2010 Editor-CHEFE Fábio Campana CHEFE De Redação Marianna Camargo Redação Antonio Vera, Carlos Simon, Karen Fukushima, Larissa Reichmann Lobo, Marisol Vieira, Paloma Barbieri, Rafael de Lala. COLUNISTAS Camilla Inojosa, Carlos Alberto Pessôa, Claudia Wasilewski, Izabel Campana, Luiz Carlos Zanoni, Luiz Fernando Pereira, Luiz Geraldo Mazza, Pryscila Vieira, Rogerio Distefano, Vicente Ferreira. Colaboradores Isabela França, Kraw Penas. Diretor de fotografia Dico Kremer tratamento de imagem Carmen Lucia Solheid Kremer foto capa Dico Kremer Projeto gráfico e Diagramação Clarissa M. Menini, Katiane Cabral e Luigi Camargo capa Clarissa M. Menini DiretorA FINANCEIRA Clarissa M. Menini Conselho editorial Aroldo Murá G. Haygert, Belmiro Valverde, Carlos Alberto Pessôa, Denise de Camargo, Fábio Campana, Lucas Leitão, Paola De Orte, Rubens Campana. Para anunciar comercial@revistaideias.com.br Para assinar assinatura@revistaideias.com.br

Rua Desembargador Hugo Simas nº 1570 cep 80520-250 / curitiba pr Tel.: [41] 3079 9997 www.travessadoseditores.com.br

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Revista Ideias 110  

Política, Cultura e Economia do Paraná

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