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IDENTIDADE | Nยบ 6 | OUTUBRO ย‘12

EUROPA


CAPA

INDEX 05 ’ EDITORIAL MANUEL DAMAS

IDENTIDADE | Nº 6 | OUTUBRO ‘12

EUROPA

07 ’ NA CASA ... 15 ’ OLHARES CARLOS MATOS

“THE EUROPEAN DREAM"

16 ’ AS LETRAS COOLTURALMENTE ARRANJADAS PARA SAIR SUSANA SOARES RIBEIRO “A VIAGEM DO GATO”

22 ’ POETISANDO LUÍS CERQUEIRA

COMPOSIÇÃO ’ JOÃO MATOS NEUZA MOREIRA

ID ’ DIRECÇÃO MANUEL DAMAS COLABORADORES ANTÓNIO CASTRO, ANTÓNIO MARTINS SILVA, CARLOS MATOS, DIOGO CALDAS FIGUEIRA, DIOGO VIEIRA DA SILVA, EUGÉNIO GIESTA, FAUSTO PINTO DE MATOS, FILIPE MOREIRA DA SILVA, FRANCIS KINDER, GILBERTO SILVA, HÉLDER PINTO BESSA, JOÃO EDUARDO AMORIM, JOÃO MATOS, LUÍS CERQUEIRA, MANUEL DAMAS, MARÍLIA LOPES, NEUZA MOREIRA, RICARDO PEREIRA, SÍLVIA ALVES,TIAGO JONAS CONVIDADOS TIAGO BARBOSA RIBEIRO JOÃO PAULO MEIRELES REVISÃO DE TEXTOS MANUEL DAMAS DIRECÇÃO DE ARTE & DESIGN GRÁFICO JOÃO MATOS CONTACTE-NOS ’ facebook.com/revistaID ’ id.identidade.revista@gmail.com

A ID ’ é uma revista mensal publicada pelo Centro Avançado de Sexualidades e Afectos ®

Rua Santa Catarina, 1538, 4000-448 Porto 918 444 828 www.ass-casa.com geral@ass-casa.com facebook/AssociacaoCASA 2

24 ’ POLÍTICA NACIONAL I FOGO CRUZADO TIAGO BARBOSA RIBEIRO JOÃO PAULO MEIRELES “EUROPA”

26 ’ POLÍTICA INTERNACIONAL FAUSTO PINTO DE MATOS “FEDERAÇÃO, SIM! AGORA? AGORA NÃO.”

29 ’ ECONOMIA I CETERIS PARIBUS DIOGO VIEIRA DA SILVA “EUROBONDS” OU EUROEXPLOSÃO? O SALTO PARA O PRECIPÍCIO OU A IMAGINAÇÃO PARA VOAR?”

30 ’ DIREITO HÉLDER PINTO BESSA “REENVIO PREJUDICIAL.”

DIOGO CALDAS FIGUEIRA “A EUROPA E OS DIREITOS LGBT”

32 ’ SEXUALIDADES I SEXUALIDADES, AFECTOS & MÁSCARAS MANUEL DAMAS 34 ’ HISTÓRIA I POEIRAS & ERAS EUGÉNIO GIESTA 36 ’ IDENTIDADES “GRANDE ENTREVISTA-CARLOS COELHO”

45 ’ BIOGRAFIAS EUGÉNIO GIESTA “ROBERT SCHUMAN”


46 ’ DESPORTO ANTÓNIO MARTINS SILVA “CORPO EM MOVIMENTO”

48 ’ DANÇA RICARDO PEREIRA TEMÁTICAS DA/NA DANÇA

50 ’ TEATRO LUÍS CERQUEIRA DE TEATRO SE FALA

51 ’ LAZER I MÚSICA TIAGO JONAS “O HINO (NÃO INSTITUCIONALIZADO) EUROPEU.”

52 ’ LAZER I LIVROS NICOLAS MARTINS

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53 ’ DESIGN JOÃO MATOS “O DESIGN E A CULTURA MUÇULMANA”

54 ’ OPINIÃO RICARDO PEREIRA LEITE “O ABORTO PORNOGRÁFICO”

58 ’ MODA I PRODUÇÃO 68 ’ ECOS DO MUNDO FRANCIS KINDER “OLHOS BRASILEIROS EM TERRAS EUROPEIAS”

FILIPE MOREIRA DA SILVA “SENTIMENTO EUROPEU, NACIONALIMO E 25-S”

MARÍLIA LOPES “E A EUROPA ALI TÃO... LONGE!!”

76 ’ FRASES COM’TEXTO 80 ’ DESCØNSTRUIR PAULO RANGEL ANA GOMES RUI TAVARES 82 ’ FARPAS 74

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ARTISTA EM DESTAQUE

GABRIELA MARQUES SÁ

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EDITORIAL ’ MANUEL DAMAS

Num momento em que se comemoram os 20 anos do Mercado Único seria mandatório, ainda que muito complexo, dedicar a 6ªedição da Revista ID’-Identidade à Europa. Mas como o que merece ser feito, merece ser bem feito…decidimos assumir, sem peias, o desafio que a nós próprios colocámos e dedicar toda esta edição ao tema genérico “Europa”, a ser abordado nas mais diversas vertentes que, caracteristicamente, consubstanciam todo o projecto editorial da Revista ID’-Identidade. Mas se o tema se encontra na ordem do dia, mais ainda o é numa fase em que a Europa se debate com uma enorme crise, colocando em questão os princípios e objectivos pela qual foi criada por Robert Schuman e Jean Monnet, mas também, os diversos caminhos e estratégias que têm vindo a ser seguidos ao longo dos tempos. Acima de tudo, equaciona-se, aqui e hoje, com Dignidade, mas também com Transparência, com Realismo e com Frontalidade, se o Projecto Europeu está a ser cumprido, se ainda vale a pena falar em Europa e, indo mais longe ainda, se a Europa fará sentido, no Futuro… Para todo este aparente cepticismo, se necessário fosse justificá-lo, basta relembrar a enorme crise com que a Europa se confronta hoje, com a Grécia, a Irlanda e Portugal tendo já pedido resgate financeiro, com a Espanha a solicitá-lo parcialmente e parecendo estar eminente o pedido de resgate total e tendo o Chipre acabado de oficializar, também, o mesmo pedido. Faltará saber, ainda, quanto tempo a Itália conseguirá resistir a ter o mesmo procedimento… Esta crise levanta imensas questões, muitas delas ainda não abordadas e, como tal, a ID’-Identidade, propõe-se fazê-lo, tendo a ousadia de dedicar uma edição, na íntegra, ao tema. Decidimos, como tal, efectuar a abordagem, de forma construtiva e, acima de tudo, contributiva, à luz das mais diversas vertentes. Antes de iniciarem a prolongada e detalhada viagem que vos propomos, convirá efectuar algumas chamadas de atenção… A primeira é para o facto de a Grande Entrevista ser feita, em directo e ao vivo, a Carlos Coelho, o mais antigo Deputado português no Parlamento Europeu, pelo PSD. Uma entrevista extensa, a ler com máxima atenção, onde Carlos Coelho responde, sem tibie-

zas, às mais diversas perguntas e mesmo a algumas consideradas politicamente não correctas. Acima de tudo uma entrevista que demonstra, felizmente, que há, ainda, detentores de cargos públicos, com lucidez e, acima de tudo, onde se pode verificar que Carlos Coelho é, sem dúvida, um dos políticos que tem uma ideia portuguesa para a Europa, estruturada, linear, consistente, construída por experiência. É a oportunidade para ler verdades que merecem um processo de reflexão atento e detalhado. A segunda para o facto de, nesta edição a rubrica “Desconstruir” surgir totalmente diferente. Com efeito, surge um Desconstruir mais alargado, constituído pelos contributos dos Eurodeputados portugueses Paulo Rangel, pelo PSD, Ana Gomes, pelo PS e Rui Tavares, independente, ex Bloco de Esquerda, que respondem a seis perguntas enunciadas pela ID’-Identidade, consubstanciadas ao título “Novos Desafios para a Europa”. Sem veleidades, mas facto digno de ressalva, esta edição da Revista ID’-Identidade consegue o inimaginável…juntar, numa mesma edição, a colaboração reflexiva dos quatro Eurodeputados portugueses mais iconográficos de sempre. A terceira para o facto de a Produção de Moda ser construida à volta da imagética do bailado clássico, tentando personificar, com musicalidade, com originalidade, com ritmo e com beleza, a imagem subliminar do sonho europeu, consubstanciada num Bailado Europeu para a Felicidade e para a Paz. Uma ultima chamada de atenção para o facto de, a partir deste edição, toda a imagem da Revista ID’-Identidade passar a ter, para além do contributo, desde a primeira hora, de João Matos, o responsável pela criação da totalidade da imagem da ID, agora, também, a contribuição de Neuza Moreira, a quem desejamos as boas vindas a todo este grande, difícil e complexo projecto que a ID’-Identidade consubstancia. Construída esta edição, nº6, da Revista ID’-Identidade, podemos concluir, sem aleivosias mas, também, sem faltas modéstias…objectivo totalmente cumprido. É para esta viagem lúcida, frontal e pedagógica, que te convidamos. ID’ ENTIFICA-TE!

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NA CASA ...

2 | MAIO ’ 12

A MODA

VIOLÊNCIA(S)

Nº1

Nº2

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REVISTA ID ’ O lançamento da Revista ID’ Identidade foi um momento de enorme emoção, na CASA, pelo esforço que implicou mas também e acima de tudo, pelo caloroso apoio que recebeu.

3 | JUNHO ’ 12

EROTISMO

Nº3

Enquanto revista oficial da CASA, de periodicidade mensal e de cariz informativo/formativo, nunca esquecendo a sua índole pedagógica e de abordagem dos grandes temas da Sociedade, a ID’ representa um desafio constante no sentido de conseguir ultrapassar, cada vez mais, as expectativas e cumprindo, sempre, o princípio major da CASA - a Universalidade do Direito à Felicidade.

4 | JULHO ’ 12

Nº4

LAZER

Nº5

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NA CASA

A CASA está estruturada em Departamentos entre os quais se podem elencar aqueles que, pelo seu tipo de trabalho, adquirem maior visibilidade: O DEPARTAMENTO CULTURAL de cujo plano de actividades fazem parte:

CICLO DE “POESIA NA CASA”

CICLO DE “DEBATES NA CASA”

O Ciclo de Poesia na CASA está em vigor desde Janeiro de 2011 com periodicidade semanal. Mensalmente, é escolhido um poeta ou poetisa portugueses e semanalmente, à quarta feira à noite, são declamados poemas da autoria do poeta escolhido, na Sala de Leitura da CASA. Pretende-se, desta forma, cultivar e incentivar hábitos de leitura e relembrar autores que o tempo fez esquecer. Já fizeram parte do Ciclo de Poesia na CASA nomes como Sofia de Mello Breyner, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa - heterónimos, Fernando Pessoa - ortónimo, Natália Correia, António Ramos Rosa, António Botto, Al Berto, Manuel Alegre, Cesário Verde, apenas para citar alguns nomes.

O Ciclo de Debates na CASA está em vigor desde 2009. Uma vez por mês é organizado um debate sobre os temas mais pertinentes da actualidade, sendo convidadas personalidades para participar. Assim são efectuados Debates com o intuito de esclarecer a população sendo intenção que estes debates atraiam público jovem para, desta forma, serem sensibilizados e motivados para as questões da Democracia participativa, da Cidadania e do combate ao alheamento social.

SEMANA QUEER 2012

1 a 7 Julho

21H ABERTURA DA EXPOSIÇÃO QUEER 22H TERTÚLIA “SER QUEER HOJE”

18H CINEMATECA QUEER “FROM BEGINNING TO END” 22H DIÁLOGOS FILOSÓFICOS “AMORES QUEER”

18H CINEMATECA QUEER “BEGINNERS” 22H TEATRO APRESENTAÇÃO DA PEÇA “VIOLÊNCIAS” (GRUPO DE TEATRO DA CASA)

18H CINEMATECA QUEER “THE DREAMERS” 22H CICLO DE POESIA “QUEER”

18H CINEMATECA QUEER “PARTY MONSTER” 22H DEBATE “CRIMINALIZAÇÃO DO BULLYING?”

18H CINEMATECA QUEER “MAMBO ITALIANO” 22H MÚSICA AO VIVO

ARRAIAL QUEER

MEDIA PARTNER

Rua Santa Catarina, 1538, 4000-448 Porto ³ 918 444 828 ³ www.ass-casa.com ³ geral@ass-casa.com ³ facebook/AssociacaoCASA

NOITES QUEER As festas Queer @ CASA animaram as quintas-feiras de Agosto. Em momentos de descontracção e de inclusão, a CASA, conseguir angariar alguns fundos e dar acesso à cultura por forma a alcançar a Universalidade do Direito à Felicidade.

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O Debate sobre “Criminalização do Bullying”, integrado na Semana Queer.

Programação da Semana Queer 2012, que se realizou de 1 a 7 de Julho.

CICLO DE TERTÚLIAS “A CASA ComVIDA” O Ciclo de Tertúlias "A CASA ComVida" está em vigor desde 2010. Uma vez por mês é organizada uma Tertúlia, cumprindo a tradição tertuliana portuense, sobre temas da actualidade. A intenção é que estas tertúlias atraiam, de forma informal, um público diversificado para, desta forma, permitir a troca de ideias inter geracional e sensibilizar para as questões da Democracia, da Cidadania, da Igualdade e do combate à discriminação.

Tertúlia “Os Limites da Liberdade”

GRUPO DE TEATRO DA CASA O Grupo de Teatro da CASA foi criado em Maio de 2011. Dirigido por Eloy Monteiro, conhecido actor profissional, com 50 anos de profissão, o Grupo de Teatro da CASA junta pessoas de várias idades e estratos sociais, unidos pelo amor à arte da representação. Actualmente o Grupo de Teatro da CASA apresenta a peça original, "Violências", escrita na CASA e que aborda o tema da violência doméstica. O grupo de teatro funciona única e exclusivamente com voluntários e tem ensaios todas as semanas, à segunda e quarta feira à noite.

PEÇA DE TEATRO VIOLÊNCIAS 3 JULHO 22H

Rua Santa Catarina, 1538, 4000-448 Porto ³ 918 444 828 ³ www.ass-casa.com ³ geral@ass-casa.com ³ facebook/AssociacaoCASA

EXPOSIÇÃO - PROVOCAÇÕES Periodicamente a CASA inaugura, no seu Auditório, exposições de artistas que, através da sua obra, pretendem desconstruir estereótipos. Presentemente a CASA tem em exibição a exposição "Provocações", da autoria de Carla Sampaio, que merece ser visitada e observada em detalhe.

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NA CASA

O DEPARTAMENTO SOCIAL de cujo plano de actividades fazem parte:

CLÍNICA DA CASA

CAMPANHA “UM CAFÉ, UM PRESERVATIVO – É TÃO FÁCIL USAR UM PRESERVATIVO COMO TOMAR UM CAFÉ!”

A CASA disponibiliza um Serviço de Consultas, designado “Clínica da CASA”, a laborar desde Janeiro de 2011, com 4 especialidades: Medicina, Psicologia, Sexologia e Direito. Os especialistas das diversas áreas são voluntários e o público alvo, sendo, primariamente, a população geral, é constituído, mais especificamente por Mulheres vítimas de violência doméstica, Jovens vítimas de abuso sexual e pessoas com dificuldades na área das Sexualidades e dos Afectos.

É uma campanha de proximidade que pretende fazer prevenção dos comportamentos de risco. É a forma que a CASA encontrou para dinamizar o uso preventivo do preservativo. Assim, nas instalações da CASA, cada vez que é servido um café, juntamente com o açúcar ou o adoçante é oferecido um preservativo com o intuito de tentar desconstruir o tabu, os estereótipos e os preconceitos que ainda hoje estão associados ao seu uso na população portuguesa.

campanha É TÃO FÁCIL TOMAR UM CAFÉ COMO USAR UM PRESERVATIVO!

Projecto "Clínica da CASA" - da autoria da REGREEN PROJECT

Rua Santa Catarina, 1538, 4000-448 Porto ³ 918 444 828 ³ www.ass-casa.com ³ geral@ass-casa.com ³ facebook/AssociacaoCASA

VEJA AQUI O VÍDEO PRODUZIDO PELO REGREEN PROJECT

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DIA NACIONAL DA FELICIDADE A CASA elaborou uma petição pública a solicitar à Assembleia da República a criação do Dia Nacional da Felicidade que se encontra em fase de recolha de assinaturas, a qual tem duas vertentes, a presencial e a recolha pela Internet. Com esta petição pretende-se alertar para a necessidade de uma real Universalidade do Direito à Felicidade promovendo correntes de economia do bem-estar. A petição será entregue na Assembleia da República a 3/9/2012, dia de aniversário de criação da CASA. Assim terá início a segunda fase de recolha de assinaturas, a serem entregues no Parlamento Europeu, a propor a criação do Dia Europeu da Felicidade. Se a criação formal de um Dia da Felicidade não a garante, “de per si”, oficializa, todavia, a obrigatoriedade da sua prossecução. A Petição pode ser consultada e assinada em: http:// www.peticaopublica.com/PeticaoVer. aspx?pi=DNFe2011

Recolha de assinaturas da petição para instituição do Dia Nacional da Felicidade

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NA CASA

O DEPARTAMENTO DE FORMAÇÃO de cujo plano de actividades fazem parte:

PROJECTO ISA – (IN)FORMAÇÃO EM SEXUALIDADES E AFECTOS A CASA disponibiliza a escolas do ensino Secundário e Universitário um Projecto de (In)formação na área das Sexualidades e Afectos. Este projecto é direccionado para todos os membros da Comunidade Educativa, nomeadamente Professores, Alunos, Encarregados de Educação e Pessoal Auxiliar. É um projecto que pretende consciencializar as comunidades educativas para as questões das Sexualidades e dos Afectos, promovendo comportamentos sexuais e afectivos responsáveis e uma Sociedade mais inclusiva.

Mas a CASA também efectua, nas suas instalações, Acções de Formação e Workshops subordinadas aos mais diversos temas.. Formação na CASA em “Voluntariado”

Em 2012 a AVANÇADO CASA iniciou aDE Formação CENTRO Pós-Graduada nos grandes temas® SEXUALIDADES E AFECTOS das Sexualidades CURSOS DE FORMAÇÃO

e Afectos.

curso de pós graduação 12h

curso de especialização 24h

SEXUALIDADES & ENVELHECIMENTO ACTIVO

SEXUALIDADES & ENVELHECIMENTO ACTIVO

curso de pós graduação 12h

curso de especialização 24h

JORNALISMO & SEXUALIDADES

JORNALISMO & SEXUALIDADES

curso de pós graduação 12h

O DESPORTISTA & AS SEXUALIDADES

curso de pós graduação 12h

O EDUCADOR & A SEXUALIDADE DA CRIANÇA

INFORMAÇÕES & MATRÍCULAS Horário de Atendimento 16h às 20h CASA - Centro Avançado de Sexualidades e Afectos Rua de Santa Catarina, 1538 • 4000 – 448 Porto • 918 444 828 www.ass-casa.com • facebook/AssociacaoCASA

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Recentemente a CASA assinou Protocolos formais de Colaboração, com a Ordem dos Psicólogos e com a Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa. através dos quais passa a disponibilizar Estágios Profissionais, oficiais, com a duração de um ano, a Psicólogos recém-licenciados, e com a duração de dois meses para Enfermeiros de Saúde Mental.


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OLHARES

CARLOS MATOS

"The european dream"

Europa minha que tanto representas, ignorada pelos que em ti vivem e ostracizada pelos que te rodeiam! É impressionante e magnânime o modo como a cultura americana se encontra enraizada no quotidiano mundial. As razões são as mais diversas, não se devendo culpabilizar somente os meios de entretenimento e comunicação social, passando estes por uma selecção cuidada, propositadamente para induzir em erro os espectadores, acto que denomino de monopolização insana, também designado de violência gratuita. Introduzem-se nas redondezas (não esquecendo que o planeta Terra é redondo) de um modo tão subliminarmente explícito que impossibilitam qualquer tipo de contestação e espírito crítico. Tal aceitação, elevada a filosofia de vida acarraterá danos irreparáveis, traduzidos em despersonalização e equitatividade cerebral, um cocktail explosivo de nome pomposo: estagnação evolutiva. A evolução somente é possível se operada em ideias e ideais distintos, sendo a controvérsia e a discórdia que levam ao crescimento, desenvolvimento e aperfeiçoamento. Jamais deverá ser monopolizada por um regime totalitarista, cujo egocentrismo é o seu santo padroeiro. Bendita religião usada como bode expiatório, naquela que outrora se aclamava de "terra prometida", cujo bilhete de entrada se intitulava de "American dream". Expressão totalmente presunçosa, incutindo promessas e expectativas infundas em todos os que anseiam melhorias na qualidade de vida. Puro progresso material desmedido, hipocrisia, cinismo e imunidade eterna. Clara redoma de vidro, completamente destruída aquando dos atentados do ano de 2001, onde a verdade se despiu por completo, colmatada pela religião para puro atenuamento bélico, nesta saga hollywoodesca - "Welcome to American Nightmare". Que surja o sonho europeu, a meu ver, totalmente oposto ao previamente (agonizante) referido, onde reina a qualidade de vida, sustentabilidade, harmonia, paz e altruísmo, contrariamente ao narcisismo e enfatização do crescimento econónimo americano. Lamento que a sua procura escasseie, dada a crise económica europeia que se vive actualmente, hiperbolizada ao extremo do terror, contudo lamento afirmar que não corresponde à mesma saga acima mencionada. Do mesmo modo que os Estados Unidos da América posaram em trajes menores, a Europa vestir-se-á eximia e levemente, fecundando espírito crítico a seu redor. Um dia ouvirei: "I wanna live the European Dream" ’ Enfermeiro Veterinário

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A V I AG E M D O G AT O

E

spreguiçou-se longamente sobre a cobertura de tecido macio que protegia o sofá. Ficou uns segundos esticado, sem se mover, a garantir que parte nenhuma do seu corpo preguiçoso ficasse por alongar. Por fim relaxou, abriu a boca num imenso bocejo e, logo de seguida, com a pata esquerda rompeu o ar com brusquidão, como que querendo matar um inseto qualquer que esvoaçava apenas na sua imaginação. Rebolou duas vezes sobre si em jeito de louco e por fim deixou-se ficar deitado sobre a barriga, com a cabeça ligeiramente levantada, imóvel, mas com o olhar perscrutante. Manteve-se assim por um longo tempo, em estado de alerta, como se estivesse prestes a agarrar caça. À sua frente, recostada num cesto de vime, repousava uma gata gorda e farta, de pelo despenteado e olho levemente remeloso. Encostados a ela dormitavam dois gatitos jovens, aqueles que, da última ninhada, tinham escapado à doação a quem quer que fosse que os tivesse querido. Nos seus tempos de juventude, antes de ter sido mãe pela primeira vez, era senhora gata de belíssimo porte e muito cuidado pelo. Uma persa de luxo, que custara os olhos da cara na loja de animais mais conceituada da cidade. Agora, depois de umas quantas ninhadas de gatinhos e gatinhas insaciáveis no mamar e nas brincadeiras de treino para a caça, estava gasta e desmazelada. Já quase não alisava o pelo, particularmente porque já não se lembrava de pôr o pé em telhado alheio. Não saía do conforto e da proteção da casa e por isso mesmo não se dava a grandes aprumos. Cumpria com orgulho as suas funções de mãe gata e isso bastava-lhe. O gato, depois da vigília em estado de transe, acabou por deixar cair a cabeça nas patas dianteiras e assumiu uma expressão de aborrecimento acomodado. Deu-lhe para pensar na sua vida. Nascera entre as telhas de um telhado qualquer e vivera livre até à entrada na idade adulta. Nesse tempo fartou-se de passear por todo o lado, conhecendo em cada dia telhados novos e outros gatos exploradores como ele. Meteu-se em brigas, participou em caçadas em becos e aprendeu a namoriscar gatitas de vida solta e alegre. Comia o que aparecia e o único grande mal é que muitas vezes passava fome. Um dia, já gatarrão de porte muito interessante, – era, de facto, um gato muito belo - foi apanhado num momento de distração por uma brigada de limpeza de ruas do município, que em vez de o levar para abate

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o vendeu a uma loja de animais, onde veio a ser comprado pelos donos da casa em que ainda hoje habitava. Apesar das imensas saudades da sua vida de liberdade, que inicialmente muito o atormentaram, dada a comida farta e a horas, e a chegada, não muito depois dele, de uma gata persa digna de capa de revista, acabou por se adaptar com facilidade à nova vida de gato doméstico. Assim esteve na sua tranquila abastança por cinco anos, findos os quais começou a sentir o apelo da sua vida de juventude. Primeiro foi apenas uma memória saudosa, mas com o tempo começou a sentir-se angustiado, como se estivesse preso a uma existência que não estava destinada a ser a sua. No fundo, sentia que a história da sua vida estava a ser constrangida e que uma força de retenção qualquer lhe desviava a direção e o sentido do destino. A gata persa, apesar de pesadamente acomodada aos cantos e recantos da casa, e aparentemente desatenta ao resto do mundo, começou a perceber no gato sinais de mudança. Passava menos tempo a dormir e fazia muitas vezes brincadeiras de gatinho. Repentinamente, e sem razão aparente, desatava a correr pela casa fora, como se estivesse a perseguir ou a ser perseguido, escondendo-se e revelando-se em função das ações de um ser qualquer que o acossava por dentro da sua imaginação. Também passava longas horas a olhar a rua pela janela, ou de olhar fixo nos telhados das muitas casas que constituíam o bairro. À noite, acordava com qualquer coro de miados que soasse perto e depois demorava muito tempo até voltar a adormecer. A gata percebeu então que, mais tarde ou mais cedo, o gato iria partir, quem saberia dizer se para sempre, e que ela, perdida a sua juventude viçosa, não iria ser capaz de o reter. Quando tomou tal pensamento como sentença dada, desligou-se do gato e concentrou-se apenas na sua vida de facilidades e comodismos. Tal como a gata havia previsto, o gato acabou por se decidir a partir. Gostaria de ter planeado bem a sua viagem, mas o facto é que não fez nada disso. Numa manhã que tinha nascido particularmente cedo, num momento de distração de todos e face a uma janela aberta, assomou-lhe uma vontade decidida de se ir embora. Do sofá saltou para o chão, do chão saltou para o parapeito da janela, deste pulou para a varanda da vizinha e desta subiu por uma trepadeira para o telhado, por onde, alegre, caminhou longas horas sem destino, até que a fome apertou. Sem saber onde se encontrava, o gato decidiu arranjar algo para comer. Retomou a memória dos tempos de juventude e lembrou-se de como nos becos, com alguma sorte, lá se encontrava um caixote de lixo que era depósito de algum restaurante. Era só ter cuidado com as pessoas - que nunca gostavam de bicharada vadia e a corriam a pontapé, ou até à paulada – e esperar o momento certo para atacar o banquete. Não demorou grande tempo a arranjar o que queria. Não tinha perdido ainda todas as qualidades de outrora. Bastou-lhe aspirar o ar com olfato apurado e afinar o olhar para logo descobrir um beco onde se encontrava um número considerável de gatos de aspeto não muito respeitável, mas que seriam boa gente, com toda a certeza. Eram mesmo. O gato mal podia acreditar na sorte do seu primeiro reencontro com a vida real. No grupo de gatos vadios estavam dois amigos de juventude. Mostravam-se um pouco pançudos da fraca alimentação, tantas vezes demasiado rica em gorduras, e tinham aparência de pandega e de pouco dormir, mas o ar, esse, era de real felicidade. Estavam de bem com a vida, tão bem que acolheram calorosamente o amigo, que exalava ares de rico e bom trato, sem o mínimo sinal de inveja ou desdém. As memórias da juventude não o permitiam. Apesar do bom aspeto, acharam-no, contudo, de humores poucos e logo ali se comprometeram a devolvê-lo à vida perdida das viagens em busca de todos os lugares. Depois de abundantemente comidos e de o gato ter sido devidamente apresentado à pandilha da zona, dirigiram-se os três para um telhado próximo, para se deixarem acariciar pelos últimos raios do sol poente e para soltarem as memórias dos dias inesquecíveis da juventu-

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de. Falaram das brigas. Do que mais se lembravam era das brigas com bandos rivais, onde imperava um verdadeiro espírito de mosqueteiro, em que uns salvavam outros de unhadas e dentadas alheias, para serem também salvos logo de seguida. Eram um grupo assaz reconhecido pelas lutas embravecidas, que raramente perdiam, o que lhes valia depois momentos de particular glória junto das gatinhas que, a distância segura dos cenários das contendas, os escolhiam pela bravura para idolatrar. Geralmente passavam essas noites sob luares generosos a ronronar em uníssono às gatinhas inebriadas, num coro digno da inveja dos melhores tocadores de serenatas. Entre as conversas saídas a mando da memória, os três gatos lembraram-se de uma promessa antiga que haviam feito entre os três, e entre mais alguns amigos chegados, a quem, por motivo da mesma limpeza das ruas que levara um deles à vida doméstica, haviam perdido o rasto. Tinham decidido nessa altura da sua juventude fazer uma viagem para além dos seus lugares desconhecidos, que se circunscreviam a uma circunferência de raio intuitivamente controlado. Veio-lhes clara a ideia antiga de viajarem pela Europa e foi com enorme entusiamo que a acolheram e que recomeçaram os planos no ponto exato em que os haviam deixado, como se o tempo não tivesse entretanto passado. A Europa era o sonho de todos os gatos jovens da sua geração. Filhos de pais que haviam vivido na clausura de um regime voltado para dentro e cerrado a emanações culturais de qualquer espécie, tinham uma sede imensa de sair e conhecer novos mundos. O traçado da viagem era fácil de definir. Como eram gatos ibéricos, entre caminhadas a pé, em vagões de comboios de mercadorias e à boleia escondidos em camiões, fariam a primeira paragem em França. Daí subiriam à Alemanha e dela fariam o ponto de estada principal, o centro das idas e voltas aos países que a circundam e ainda a outros menos próximos e já não fronteiriços. A comida havia de arranjar-se da forma do costume e bagagem era algo indiscutivelmente dispensável à condição de gatos viajantes. Tinham o sonho de reter na memória todas as imagens de todos os sítios, de privar com as gatinhas mais bonitas do mundo e, com um pouco de sorte, de aceder a sociedades que lhes eram habitualmente interditas, porque aos estrangeiros não é fácil perceber-lhes as menores origens. Os três amigos decidiram manter tudo como haviam combinado anos atrás e partir ao raiar da aurora do dia seguinte. O gato não tinha ninguém de quem se despedir, a sua saída abrupta de casa fora a nota de adeus não escrita, mas os outros dois quiseram ir despedir-se da família, da qual, segundo diziam, iriam ter bastantes saudades. Sem ter mais o que fazer senão esperar pela hora da partida, aconchegou-se entre três chaminés apertadas e dispôs-se a dormir. Demorou a cair no sono. Não porque estivesse com algum tipo de saudade antecipada ou remorso do abandono. Estava mais naquele estado de excitação em que ficam as crianças nas vésperas dos passeios da escola. Por um lado, queria adormecer rápido, para que o tempo passasse mais depressa. Por outro, queria estar acordado para poder rever os planos da viagem e inventar aventuras mil, todas plenas de peripécias impossíveis, mas sempre com solução airosa e feliz. Imaginou mil encontros com o inesperado antes de cair num sono pesado, numa hora já não muito distante da que fora marcada para a saída. Acordou completamente transpirado devido à quentura exalada pelas chaminés. O sol ia já muito alto e a hora dos pequenos-almoços já há muito havia passado. Aliás, pelo calor que sentia, previu que aquela fosse já uma hora muito próxima da hora do almoço. Percebeu que tinha adormecido exausto de tanto ter protelado o sono e que dormira profundamente até tarde. No entanto, não era o único a ter adormecido. Rondeou os telhados com o olhar e não avistou sinal dos seus amigos e futuros companheiros de viagem. Decidiu dar uma volta curta, a ver se os via aproximar vindos de qualquer lado, particularmente daquele por onde tinham partido na noite anterior, mas nada. Nenhum deles aparecia. Decidiu então instalar-

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-se num ponto alto do telhado, à espera que os dois mariolas se dignassem a aparecer. Riu-se sozinho, pensando que havia coisas que não mudavam nunca. Depois de uma longa e prolongada espera viu aproximar-se de si um gatito muito jovem e com um ar que lhe era familiar. O gatito parou em frente a ele e perguntou-lhe se ele era o gato que ia fazer uma viagem para a Europa. Depois de obter resposta afirmativa declamou um discurso ensaiado que se podia resumir em muito poucas palavras: o meu pai e o amigo dele não vão. Mal acabou de dizer as frases encomendadas virou costas e foi-se embora. O gato deixou-se ficar ali parado por uns tempos, como se fosse uma planta de caule forte recentemente nascida no telhado, hirta por falta de água. Não conseguia encontrar explicação para a desistência, depois de tudo o que havia sido relembrado, dito e combinado no dia anterior. Estava embasbacado, mas, por fim, lá conseguiu reagir. Aprumou as orelhas, lançou um miado felino, esticou o corpo, eriçou o pelo, bufou, relaxou e partiu sozinho e decidido para a sua viagem à Europa. Seguiu os planos à risca no que toca aos trajetos. Começou por atravessar a península ibérica a pé, entrando na Europa desconhecida pela França. Fez este caminho de forma continuada, sem paragens que não fossem para arranjar comida ou para dormir um sono breve, somente o suficiente para retemperar energias para o troço seguinte do caminho. Quando chegou a França não descansou enquanto não chegou a Paris. Era já tarde quando se encontrou frente ao Moulin Rouge e se encantou com as gatinhas maravilhosamente cuidadas, cheirosas e ornamentadas que circulavam por aquela rua. Eram gatinhas de trato fácil, dóceis e dadas ao romance. Gostavam de festas e de se verem retratadas pelos artistas de rua, não se coibindo de passar a noite bem acompanhadas num qualquer telhado limpo e aconchegado. Viveu a cidade dos amores com intensidade e encheu a memória de inúmeros momentos de ternura e de risos. Apenas quando já sabia a cidade de cor se decidiu a avançar para o centro dos próximos destinos, a Alemanha. Na Alemanha nem tudo foram rosas. Também ali encontrou pândega farta e borga bem regada, com gatinhas robustas (ao contrário das Francesas, que eram um tanto magrelas) e de pelo muito loiro, mas também se cruzou com bandos de gatos pró-nazis, com pelos rapados, à exceção de umas longas cristas moldadas e fixadas com gel extra forte, e suásticas desenhadas no cocuruto. Ao contrário do que pensou no primeiro contacto, que se tratava apenas de uma gatarrada irreverente, dada a alguma importância, logo se apercebeu que era uma cambada de gatos violentos, useiros e abuseiros do mal. Aprendeu a afastar-se deles, bem como da pobreza que morava nas ruas, se bem que fosse sempre ela que o socorresse nas horas de comer. No salto que deu à Holanda a bordo de um comboio de mercadorias deixou-se enfeitiçar pelas gatinhas da zona vermelha e namoriscou também burguesas de bom porte, navegando nos canais em gondolas embandeiradas, tal como fez quando se aventurou a uma viagem maior, que visou uma passagem do Carnaval em Veneza. Dessa viagem guardava com ternura a memória de ter sido figura amplamente aclamada, o verdadeiro gato da mascarilha. Na Bélgica, por onde também passou, tal como na Holanda, habituou-se a andar à boleia nos cestos das bicicletas, para onde saltava quando as senhoras estavam distraídas em conversas umas com as outras, após feitas as compras das mercearias. Claro que também ficou com a lembrança do sabor a chocolate na língua para todo o sempre, um paladar consideravelmente melhor que o da cerveja, que não apreciava nada. Correu a Europa quase toda. Não gostou muito de subir às zonas mais frias, não se considerou com grandes aptidões para gato de neve. Viajou no Reino Unido, dançou à escocesa e aprendeu os cânticos Irlandeses. Não em gaélico, porque tal lhe pareceu demasiado complexo. Uma das histórias que viveu e que não mais pode esquecer, foi aquela em que ele se predispôs a ensinar uma gaivota a voar, juntamente com um grupo de amigos da boa-vida que

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com ele emparelhavam as alegrias na altura. Teve muitos amigos destes. Muitos, mesmo, mas nunca se ligou particularmente a nenhum, porque aprendeu por si próprio que os amigos de passagem não passam connosco para lado nenhum. Também teve momentos de ternura, como aquele dia em que descobriu um velho iluminado que lia romances de amor, enquanto lhe afagava a cabeça e lhe dava pequenos pedaços de bolachas. Esteve sempre muito feliz, o gato. Entre todas as peripécias, teve uma viagem feliz. Um dia, de volta à Alemanha vindo da Itália, subitamente, sem que nada o tivesse feito prever, deu-se conta que estava com saudades de casa e que a vontade lhe pedia regresso. Primeiro pensou que era a mente a pregar-lhe uma partida desagradável, pois jamais conhecera tempos melhores do que aqueles que estava a passar na Europa, mas com o correr dos dias entendeu que havia chegado a hora de encerrar a viagem e de voltar às raízes. Era um sentimento estranho, porque há muito que assumira que isso de casa e família não era para ele. O que ele gostava era de gozar o mundo em liberdade, sem ter que dar contas ou andar a mando de ninguém. Tinha desenvolvido um jeito de ser playboy, o qual fazia imenso sucesso entre as felinas de qualquer região que visitasse. Sentia-se gato. Um verdadeiro gato. Em função disso, talvez o apelo do retorno fosse mais por vaidade, porque queria ir mostrar-se na sua versão melhorada, talvez fosse mais por isso do que propriamente por qualquer ponta de saudade. Encetou a viagem de regresso sem grandes planos, viajando como pode, apanhando boleia aqui e ali. Demorou intencionalmente a volta. Havia dias em que tinha receio de voltar, como se uma rede de caça o esperasse na fronteira. Outras vezes sentia que tinha mesmo de o fazer, embora não conseguisse explicar porquê. Quando chegou foi direto a casa. Abeirou-se do prédio onde morou e olhou a varanda da vizinha, à qual chegaria com um salto. Viu chegar a gata persa e admirou-se com a diferença que nela notou. Estava de novo bela e elegante e ao seu lado, empinados e de ar importante, dois gatos pretos faziam-lhe guarda. Escondeu-se para não ser visto e ficou a observar a gata a subir para casa rebolando a cauda, deixando os gatos pretos totalmente embevecidos e de olhar tonto. Depois de os gatos pretos se terem ido embora voltou a olhar para a varanda. A partir dela, com um pequeno salto, pôr-se-ia facilmente no parapeito da janela, que por acaso até estava aberta. Ficou ali uns momentos, a olhar. Primeiro hirto, depois bamboleante. Por fim, esboçou um sorriso de gato, virou costas e foi-se embora.

’ Prof. Universitária

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- Poetisando TEXTO LU ÍS CERQUEIRA E ILUS TRAÇÃO SÍLVIA ALVES

SÍLVIA ALVES

LUÍS CERQUEIRA

Palavras de Alcofa

Noites a dois

Atravesso noites em claro. O meu cérebro pára, congela. O meu pensamento neutraliza-se nos teus olhos. Os teus olhos nos meus olhos. Não há vento, não há sol, não há luz ou até chuva. Não há som, só respirações, não há nada, não há ninguém.

Nunca pensei sentir. Sentir assim a tua respiração. Sentir assim o teu sexo. Naquela noite passageira, repleta de abusos, lacunas de memória e do leve fumo do meu cigarro… acabado de acender.

Só nós, tu e eu, os dois. A pairar um sobre o outro, como duas nuvens num dia quente de Verão.

Recuperávamos o fôlego. Voltávamos às acções. Acções mudas, sem diálogo. Movimentos sincopados, interrompidos pelo som da cama, que ferrugenta lançava os gemidos que esforçavas para conter dentro de ti.

Toco-te na face. Tens a pele tão sedosa, tão nítida, tão transparente, tão opaca. Perdeste as palavras. Eu perdi a noção do tempo. Mas nunca perderei as palavras. Nunca perderei as palavras, pois é através delas que digo que te amo. As acções nada significam sem palavras. Tal como eu nada significo sem elas. Só estarei completo quando me ouvires. Pena não ser hoje o dia em que tais palavras saiam da minha boca. Pois, eu não te vejo. Apenas espero por isso. Apenas espero por esse dia, esse momento, essas palavras.

Naquele misto de movimento, sons reprimidos, suor, prazer e pecado, olhaste-me nos olhos. Tinhas de estragar tudo, como sempre. Por momentos, acreditei que estivéssemos a sentir. Por momentos, acreditei que era mais do que o normal. Sexo pré-combinado, com limite de som, movimento, sentimento, cumplicidade, verdade, e até com limite de tempo. Peço desculpa mas, no teu caso, com limite de duração… E também de prazer!

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POLÍTICA NACIONAL

TIAGO BARBOSA RIBEIRO

A EUROPA E OS SEUS FANTASMAS A Europa vive um dos momentos mais críticos da sua existência. Como no passado, quando os nossos antepassados celebravam os anos finais da belle époque ignorando o fio da navalha que os levaria ao abismo da primeira grande guerra, o projecto europeu está hoje sob ameaça de desintegração. Como outrora, vivemos tempos de decisão ou tragédia. Estas não são afirmações pessimistas. Tal como o conhecemos, o projecto europeu resulta da aliança histórica entre socialistas e democratas-cristãos, concretizando o mais longo período de paz no continente após a guerra mais fratricida da Humanidade. A União Europeia é uma das mais notáveis associações voluntárias de Estados da história, mas está para além disso: até ao advento do liberalismo radical de Tatcher e à progressiva financeirização e formatação ideológica da Europa a partir da década de 1980, conseguimos conjugar crescimento económico com sólidas estruturas de protecção social, conquistando a admiração do resto do mundo. O Estado de bem-estar europeu é uma realização extraordinária. Desde então, nos últimos 30 anos, vivemos décadas perdidas de crescimento e desenvolvimento. Cruzando diferentes realidades geopolíticas, onde se inclui a derrocada do comunismo do leste e a queda do Muro de Berlim, o neoliberalismo triunfante derrotou também as visões sociais de mercado, incluindo as socialistas e as democratas-cristãs. A direita europeu cavalgou nesse momento histórico e promoveu um agressivo programa – político, económico, social e cultural – de desmantelamento dos valores europeus. A crise económica que explodiu em 2007-2008, resultado directo da financeiração e desregulação, agravou justamente os problemas que a suscitaram. A ausência de uma resposta coordenada na Europa agravou os desequilíbrios continentais e alastrou como mancha de óleo o divórcio entre os povos europeus e suas lideranças. Em Portugal, sob o manto da tecnocracia, temos o Governo de direita mais radical da nossa história e aquele que é ideologicamente mais vincado desde o gonçalvismo. O seu pensamento europeu é a obediência ao mais forte, mesmo que isso implique o agravamento das dificuldades portuguesas e invibialize soluções a médio prazo para esta profunda crise. E sem soluções políticas, democráticas e justas, a história está aí para ajudar à percepção das alternativas sombrias que a Europa terá de enfrentar. ’ Deputado Municipal do PS

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JOAO PAULO MEIRELES

- NACIONALIDADE ? - SOU PORTUGUÊS E EUROPEU Todo aquele que acredita no projecto europeu é criticado pelos chamados eurocépticos (que cada vez mais moderam o tom de crítica, com excepção dos verdadeiros liberais que continuam a cavalgar alguns dos detalhes regulados como verdadeiros e inconcebíveis ataques ao Santo Mercado). Todo aquele que verdadeiramente acredita no projecto europeu e o quer ver aprofundado é imediatamente criticado, mas desta vez por muitos mais, e na falta de melhor “insulto” tem garantido o título de federalista, na melhor das hipóteses ou na pior é acusado de ser alguém pouco patriota. Pois bem, talvez me possam apontar o dedo no mesmo sentido. No entanto, emociono-me com o Hino, vibro pelas selecções nacionais, raramente viajo sem levar algo com a nossa bandeira, falo Português sempre que possível, orgulho-me do nosso passado e tento conhecê-lo…Se quisermos ir mais longe não troco uma francesinha por nenhum outro prato, e a nossa Super Bock pouco fica atrás da maior parte das cervejas (a versão mais a Sul provavelmente poderia ser à base de caracóis e Sagres mas é que além de um putativo “federalista” tenho também o “defeito” de ser Regionalista – e aí vem outra crítica (injusta) porque incorrectamente alguns tentarão encontrar nisso alguma incoerência de princípio). Se esta recusa vem de uma efectiva reserva a qualquer manifestação supranacional, se vem da nossa memória genética ou de sermos desde o tempo dos Romanos “um Povo que não se Governa, nem se deixa Governar” ou ainda se está mais relacionado com o desconhecimento e desinteresse que muitos manifestam face “aos de Bruxelas”, (esquecendo que “eles em Bruxelas” também somos nós !) a verdade é que poucos se sentem mais motivados a votar em Eleições Europeias do que em quaisquer outras, poucos são aqueles que conhecem os seus Eurodeputados (apesar de em numero reduzido) e poucos são aqueles que perdem algum tempo em reconhecer diariamente as vantagens de pertencer a este clube! E no fundo, somos uns privilegiados por podermos circular só com o cartão de cidadão sem passaporte e sem vistos, sem necessidade e riscos cambiais na Zona Euro, com facilidades em estudar e até trabalhar noutro Países, ou poder estar num qualquer país sem Embaixada Portuguesa e ainda assim termos a mesma protecção porque há um outro Estado-membro que a tem. Se no futuro vão existir Estados Unidos da Europa e se a bandeira tem fundo azul (e confesso que por mim até preferiria que fosse azul e branco – às riscas e sem coroas), não é o que mais me interessa…interessa-me sim, que se continue

a reforçar o mercado interno, que no futuro se possa alargar a zona Euro, que continue a existir uma Política Agrícola Comum ou que o QREN seja um efectivo instrumento de desenvolvimento regional. E hoje, estamos demasiado absorvidos por uma crise económico-financeira para que pensemos e dediquemos muita energia a objectivos que se prendam com cooperação judiciária e penal, com harmonizações legislativas a nível do direito processual ou das formalidades de constituição de empresas, ou até com metas energéticas e ambientais – embora se continue a avançar nestas últimas! Mais, existe demasiada desconfiança, entre agentes para que se possa aprofundar o que quer que seja…essa desconfiança vai ao ponto de atribuir características humanas ao Estado e aos seus Povos para poder ver neles o “inimigo”… …”a Alemanha é que nos faz mal…a Chancelerina Merkel é que é a culpada disto tudo”. Talvez assim seja mais fácil suportar as dores mas no fundo…todos sabemos que não é bem assim ou que isso é apenas insistir em ser cego ou só ver metade do problema. Durão Barroso, (que por acaso é Português, apesar de ser um dos “Srs lá em Bruxelas”) disse na última sessão do Parlamento Europeu que era necessário adoptar “ um novo rumo e um novo pensamento” e por acaso até resolveu o problema da nomenclatura apelando à evolução tendente a uma “Federação de Estados-Nações” (julgo que o plural em Nações terá sido propositado!) aprofundando a sua integração em várias dimensões. E alguém poderá ter dúvidas que o crescimento económico, a geração de emprego, um uso mais eficiente dos recursos existentes, uma política industrial realmente assente em clusters e especialização, maior investigação e mais fácil acesso aos capitais são corolários de uma maior integração? E que essa integração também se traduzirá em melhorias nas tecnologias de informação e comunicação, redes energéticas e sistemas de transportes competitivos e racionais (a AirFrance “voa” de Bruxelas para Paris por comboio)? Só que tudo isto implica um reforço do orçamento europeu para o próximo período de programação (2014-2020), e os Estados-Membros que reclamam este maior investimento à Europa em políticas sectoriais, são os mesmos que advogam (em muitos casos por necessidade, reconheço) uma menor comparticipação para o orçamento comunitário sem sequer permitirem que a Comissão adopte recursos próprios consagrados no Tratado sobre o Funcionamento da União. Assim é difícil…. ’ Deputado Municipal do PSD

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POLÍTICA INTERNACIONAL

F A U S T O P I N T O D E M AT O S

Federação, sim! Agora? Agora não.

É

pouco conhecida a posição de Portugal sobre o projeto europeu. Aparentemente, apenas Paulo Portas sabe o que quer. E tal como a Alemanha quer uma Federação Europeia, ao virar da esquina. Já o escrevi nestas páginas diversas vezes: é necessário discutir a Europa, ter uma visão sobre o(s) caminho(s) que deve tomar. A União Europeia está a mudar. Cabe a cada um de nós perceber e influenciar essas mudanças: no caminho da Federação, no caminho dos Estados-membros, na manutenção dos status quo ou até numa qualquer outra direção. Certo é que a União Europeia faz parte do nosso dia a dia! No discurso ao Parlamento Europeu que marca a abertura do ano político, o “Estado da União”, Durão Barroso falou abertamente da necessidade de uma Federação Europeia de Estados Nação, em que a soberania é, portanto, partilhada. A meu ver, por oposição a dois níveis de poder estanques, os Estados-Membros e a União. No mesmo dia, à CNN, Durão Barroso foi ainda mais longe e disse que “a Federação é inevitável”. Aliás, acrescentou que em certa medida temos já uma Federação: entre outro elementos, temos o Banco Central Europeu, o Mecanismo de Estabilidade Financeira que não é mais que um FMI europeu, limites à divida. Eu não iria tão longe, afinal o BCE é muito mais limitado do que os seus congéneres mundiais; os Bancos respondem ainda aos bancos centrais de cada estado membro. Enfim, a União europeia distribuiu a riqueza gerada no seu interior de forma muito limitada. São inegáveis os tiques federalistas, mas a arquitetura institucional do euro (ainda) não é um deles. Este não é porém o momento para ter esta discussão. Que não restem dúvidas, eu acredito numa Federação Europeia.

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Posso até estar de acordo com a posição de Durão Barroso, de Paulo Portas e do Ministro dos Negócios Estrangeiros Alemão, entre outros. Mas não agora. Agora não passa de oportunismo político: da Alemanha para adiar ainda mais tomar as decisões necessárias sobre o Euro; de Barroso que, à boa maneira europeia, quer deixar um discurso para a história e manter o apoio alemão; um oportunismo de Portas, que não perde uma oportunidade de se associar a momentos “históricos” e de eurocéptico passou a Federalista. A discussão tem de ser outra. Tem de ser sobre o que podemos fazer agora para melhorar a União, sobretudo o seu desenho institucional. É inegável que temos certos interesses comuns. Independentemente da perspectiva que possamos tomar. É certo que precisamos de uma nova arquitetura para o Euro. É certo que temos interesse numa política energética externa comum. É certo que precisamos de uma política de imigração comum. É certo que no palco global, apenas juntos “podemos bater o pé” em questões como o ambiente, segurança e defesa, regulação dos mercados financeiros ou o comércio mundial. O que precisamos de dar à União são pois os instrumentos para os nossos interesses comuns. Enfim, para a defesa dos interesses da União. O primeiro desses instrumentos deveria ser um Orçamento. A União não pode ficar bloqueada por minorias e necessita de meios para combater crises que possam resultar da União monetária ou da não justa distribuição da riqueza gerada pelo mercado interno. Pode-se questionar a oportunidade da proposta, afinal estamos em recessão, estamos em crise, mas a verdade é que o orçamento da UE apenas


A União não pode ficar bloqueada por minorias e necessita de meios p a r a combater crises que possam re s u l t a r d a U n i ã o m o n e t á r i a ou da não justa distribuição d a r i q u e z a g e r a d a p e l o m e rc a d o i n t e r n o . representa (aproximadamente) 1% do PIB europeu. O orçamento português consome incomparavelmente mais do nosso PIB. Mas este aumento deverá provir sobretudo de mais receitas próprias da União, enquanto reduz o peso da Política Agrícola Comum no orçamento comunitário (atualmente consome quase 50% do orçamento). Em segundo lugar, não podemos ter receio de alcançar uma arquitetura institucional para o euro assente sobre as instituições verdadeiramente comunitárias. Isto é, o processo de decisão necessita de ser menos dependente dos Estados Membros. Não só este processo seria mais transparente, como seria menos dependente da política nacional, conferindo por isso mais solidez ao Euro enquanto moeda de um bloco. Afinal, como pode alguém eleito pelo seu país decidir pensando apenas nos interesses da União? Em terceiro lugar, é necessário aumentar o escrutínio democrático sobre a Comissão Europeia. Na sua génese, esta era uma instituição sobretudo – senão mesmo, exclusivamente – técnica. Hoje em dia, e sobretudo no que respeita à política monetária e económica, a Comissão Europeia

tem uma orientação política. O seu grau de discricionariedade é, e tem de ser, cada vez maior. Os seus poderes executivos cada vez mais utilizados. Influenciar ou ter poder sobre a política orçamental dos estados membros – como vai passar a acontecer com o fiscal compact – é em si mesmo mais do que aplicar formulas matemáticas. Para um aumento de legitimidade desta instituição, basta que se institua a tradição (em parte já iniciada por Durão Barroso) de responder perante o Parlamento Europeu. Mais ainda, basta que os Comissários criem a tradição de responder perante o Parlamento Europeu sobre as decisões tomadas nesta área. Não podendo ser formalmente destituído pelo Parlamento Europeu, certamente que uma censura teria impacto político fortíssimo. Acima de tudo, reconhecer e politizar o trabalho das instituições não pode ser um tabu. O argumento de que estamos perante uma organização internacional ou perante negociações entre estados não vinga, dado o atual estado de evolução da UE. A realidade de todos nós é provavelmente mais influenciada pelas leis europeias do que as leis nacionais. Estas “propostas” podem parecer abstratas e carecem, seguramente, de mais reflexão. No entanto, a serem concretizadas poderiam melhorar o nosso presente mais imediato e o nosso futuro mais distante. Podemos precisar de uma Federação Europeia, pode até ser uma inevitabilidade da história que ainda se vai escrever. Mas hoje não é o tempo dessa discussão. Vamos explorar tudo o que o Tratado de Lisboa permite. Hoje é tempo das Instituições e os líderes europeus respeitarem os seus cidadãos, resolvendo de forma rápida e eficaz os problemas que ensombram o nosso futuro hoje e que podem condicionar o amanhã. ’ Jurista

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ECONOMIA

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DIOGO VIEIRA DA SILVA

CETERIS PARIBUS “Eurobonds” ou Euroexplosão? O salto para o precipício ou a imaginação para voar?

S

e provas fossem precisas para demonstrar que na Economia a condição “ceteris paribus” raramente pode ser aplicada, os tempos que vivemos, atualmente, são a prova soberana desse facto. Atualmente já muitos ouvimos falar em “eurobonds”, mas será que sabemos, exatamente, no que consiste? Simplificadamente, “eurobonds” é exactamente o mesmo que as obrigações soberanas que um Estado emite por forma a financiar-se nos mercados financeiros (no senso comum designado por contração de empréstimos, apesar de serem amplamente diferentes). A única diferença é que essas obrigações seriam “Europeias” e não de “Portugal” ou da “Alemanha”, tal como acontece atualmente. O que quer dizer isto no concreto? Basicamente, um Estado da zona euro poderia “emitir obrigações” por forma a obter financiamento, dando como garantia que os 17 Estados que compõem a Zona Euro iriam estar comprometidos/obrigados à liquidação dessas obrigações. Devem-se estar a questionar… “Mas isso quer dizer que um Estado pode ter de pagar a dívida de outro?”. A resposta é simples…SIM. Exatamente por isso é que inúmeras questões se levantam quando falamos sobre as “Eurobonds”. Em que circunstâncias se poderia recorrer aos “Eurobonds”? Qual a entidade/organização que seria responsável pela sua aplicabilidade? Teria um Estado de priorizar o pagamento das “Eurobonds” sobre as outras dívidas? Tendo em conta o acima exposto, os “Eurobon-

ds” são algo positivo ou negativo? Deve-se ser a favor ou contra? Para responder a estas questões nada melhor do que ver as justificações dos prós e dos contras. Prós (ex. Países Periféricos e França) • Maior equidade entre Países Europeus no financiamento aos mercados financeiros; • Redução dos juros aos países em crise, os PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) • Coerência com o projeto Europeu a partir da Solidariedade entre Países. Contras (ex. Alemanha) • Maior risco no financiamento dos Países estáveis financeiramente; • Aumento do custo de financiamento dos Países com taxas reduzidas (nomeadamente a Alemanha). Isto porque os mercados iriam considerar que o risco da zona euro como um todo seria maior, em alguns casos, do que o País individualmente; • Possibilidade de gasto, desbaratado, de recursos financeiro, pelos países em crise, com a facilidade de financiamento garantida. Existem casos semelhantes aos dos “Eurobonds”? Sim, temos como exemplo os Estados Unidos da América, com a compra por parte do Governo Federal das dívidas estaduais, ou mais próximo de nós, o caso Alemão. Mas a Alemanha não se opõe aos “Eurobonds”? Sim, mas

internamente a Alemanha é um Estado Federal, em que cada estado federado tem um governo, um orçamento e formas de financiamento próprias. Recentemente o Governo Central, liderado por Angela Merkel, aplicou internamente uma prática semelhante aos “Eurobonds”, com a garantia, por parte do Estado Central de assumir as dívidas de cada região. Conclusão…a Alemanha, como um todo, é responsável por pagar as dívidas individuais de cada estado federado. Não quero finalizar sem antes falar de uma nova ideia, as “Project Bonds”, que seriam semelhantes às “Eurobonds”, mas da responsabilidade da Comissão Europeia. O dinheiro emprestado iria servir para Bruxelas usá-lo em infraestruturas e em outros investimentos que potenciariam o crescimento e a Comissão ficaria como responsável por pagar estes títulos. Finalizo sem dar a minha opinião sobre a matéria, pois penso que os factos nos guiarão para uma possível solução. Quero só acrescentar que na minha opinião, é incompreensível que o maior bloco económico do Mundo (a União Europeia) ou que até mesmo uma das maiores zonas monetárias do Mundo (a Zona Euro) não tenha a capacidade de criar mecanismos que resolvam os seus problemas internos, nomeadamente obrigando-se a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

’ Economia

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DIREITO

Hélder Pinto Bessa

REENVIO PREJUDICIAL

N

este mês em que o tema é subordinado à Europa, não especificamente União Europeia, eu sei, decidi abordar um mecanismo/processo que, já no tempo de Faculdade, me suscitou muito interesse e que, provavelmente muitos desconhecem. O reenvio prejudicial é um mecanismo que pode ser exercido perante o Tribunal de Justiça da União Europeia. Este processo permite que uma jurisdição nacional interrogue o Tribunal de Justiça sobre a interpretação ou validade do direito Europeu. O reenvio prejudicial faz parte dos processos que podem ser exercidos perante o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). Este processo permite aos juízes nacionais dos Estados-Membros, interrogar esse Tribunal sobre a interpretação ou mesmo sobre a validade do direito europeu num determinado processo em curso. Contrariamente ao que sucede com outros processos jurisdicionais, o reenvio prejudicial não é um recurso formado contra um acto europeu ou nacional, mas antes, uma pergunta relativa à correcta aplicação do Direito Europeu. O reenvio prejudicial pretende assim fomentar a cooperação activa entre as jurisdições nacionais e o Tribunal de Justiça e, por outro lado e, em igual mediada, a uniformização da interpretação e aplicação do Direito Europeu em toda a UE. Qualquer jurisdição nacional, que deva dirimir um litígio no qual a aplicação de uma norma jurídica europeia suscite dúvidas (litígio principal), pode decidir dirigir-se ao Tribunal de Justiça para ver esclarecidas estas dúvidas. Existem, então, dois tipos de reenvio prejudicial: • O reenvio para interpretação da norma europeia: o juiz nacional solicita ao Tribunal de Justiça que especifique um ponto de interpretação do Direito Europeu para o poder aplicar correctamente; • O reenvio para apreciação da validade da norma europeia: o juiz nacional solicita ao Tribunal de Justiça que controle a validade de um acto jurídico europeu.

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O reenvio prejudicial constitui, assim, um reenvio «de juiz para juiz». Não obstante poder ser suscitado e posteriormente solicitado por uma das partes na demanda, é a jurisdição nacional que toma a decisão de instar o Tribunal de Justiça. A este respeito, o artigo 267.º do Tratado sobre o Funcionamento da UE precisa que as jurisdições nacionais que em última instância, ou seja, cujas decisões não podem ser objecto de recurso, têm a obrigação de exercer um reenvio prejudicial se uma das partes o solicitar. Pelo contrário, as jurisdições nacionais que não são de última instância não são obrigadas a exercer este reenvio, mesmo que uma das partes o solicite. De qualquer modo, todas as jurisdições nacionais podem espontaneamente recorrer ao Tribunal de Justiça em caso de dúvida sobre uma disposição europeia.

O Tribunal de Justiça pronuncia-se, então, apenas sobre os elementos constitutivos do processo de reenvio prejudicial sobre os quais é instado, cabendo à jurisdição nacional o julgamento da questão principal. Por princípio, o Tribunal de Justiça deve responder à questão colocada. Não pode recusar responder pelo facto de a resposta não ser relevante nem oportuna em relação ao processo principal. Pode, em contrapartida, rejeitar o reenvio se a questão não integrar a sua esfera de competência. Por último cumpre esclarecer que a decisão do Tribunal de Justiça tem valor de caso julgado. É, além disso, vinculativa não só para a jurisdição nacional que tenha estado na origem do processo de reenvio prejudicial, mas, ainda, para todas as jurisdições nacionais dos Estados-Membros. No âmbito do processo de reenvio prejudicial sobre a validade de um acto europeu, se este for declarado inválido, também o serão todos os outros actos já adoptados que nele se baseiem. As instituições europeias competentes deverão, então, adoptar um novo acto para ultrapassar a situação. Um até já deste cidadão Europeu. ’ Lic. em Direito pela Universidade do Minho, Pós-graduado em Direito Judiciário


Diogo Caldas Figueira

A EUROPA E OS DIREITOS LGBT

Q

uando nos é pedido para falar de Europa, enquadrando-a numa perspectiva jurídica, muitos e extensos temas poderiam ser abordados. No entanto, seguindo um pouco a lógica temática das anteriores crónicas e, por condicionantes de espaço e tempo, entendi fazer chegar aos leitores uma breve resenha do panorama europeu no que diz respeito à protecção dada aos direitos LGBT. Podemos, desde logo, avançar com o facto de o continente Europeu, ainda que com diferenças díspares e com toda a diversidade intrínseca ao mesmo, ser o continente que mais avançou já na protecção dos direitos LGBT. Desde logo, oito dos onze países que legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo são europeus. Além destes, outros catorze países europeus legalizaram uniões civis ou outras formas de reconhecimento legal para casais do mesmo sexo. Numa lógica mais abrangente e ampla, centrando-nos na União Europeia, por facilidade de análise e por razões de relevância com o caso português, dado a própria génese da mesma, é pacificamente aceite que esta matéria de discriminação e luta pelos direitos humanos, é algo que deve ser uniformizado em todos os Estados-Membros garantindo assim a total integração de direitos e o consequente respeito fundamental à própria dignidade da pessoa humana. Entende-se assim que é função da União Europeia, através dos seus órgãos oficiais, promover a luta contra todo e qualquer tipo de discriminação, nomeadamente garantindo a protecção total dos seus cidadãos em qualquer território dos seus Estados-membros. Outra posição não faria sentido numa Europa em que crescentemente se pugna pela liberdade de circulação, pela ausência de fronteiras, não se podendo nessa realidade permitir que direitos tão fundantes da personalidade humana sejam protegidos e garantidos nuns locais e completamente ignorados e/ou violados noutros locais. Assim sendo, coloca-se a questão de saber actualmente qual é o quadro legal comunitário relativo à protecção dos direitos LGBT? Actualmente, existe uma única Directiva Europeia que garante a protecção de todo e qualquer cidadão contra toda e qualquer forma de discriminação tendo por base a orientação sexual, na área do emprego e do mercado de trabalho. Na prática, tal significa que, por toda a União Europeia, ninguém pode ser despedido ou ver a sua candidatura a qualquer trabalho recusada tendo por base a sua orientação sexual ou então ser vítima de assédio moral por parte dos colegas de trabalho por se ser gay ou lésbica. Ainda que extremamente positiva, questiona-se onde estará o resto da protecção? A actual legislação europeia não protege e é omissa no que diz respeito à discriminação tendo por base a orientação sexual no acesso a bens e serviços, protecção e assistência social, educação ou cuidados de saúde. Na prática, tal significa que nem todos os cidadãos

da União Europeu estão protegidos contra o bullying homofóbico na escola, contra a eventual recusa de tratamentos médicos a pessoas assumidamente LGBT, contra a eventual recusa de ser atribuído um quarto duplo num hotel a um casal LGBT, contra a eventual recusa de acesso a prestações sociais, tais como pensão de sobrevivência, entre outras. Ainda que a legislação comunitária seja omissa e não garanta uma maior protecção, não podemos deixar de referir que, na maioria dos casos, os vários países têm indo mais longe do que as directivas comunitárias, garantindo, através das suas legislações nacionais, um conjunto de direitos LGBT. Vide, por exemplo, o caso português, em que além de se seguir a directiva comunitária de proibição de discriminação na área do trabalho, prevê especificamente na Constituição da República Portuguesa, uma proibição genérica de discriminação por orientação sexual. Por outro lado, destaca-se a consagração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e consequentes benefícios inerentes ao mesmo ou a possibilidade de mudança de sexo recentemente simplificada e consagrada. Por outro lado, não podemos deixar de mencionar o trabalho fundante e notável que tem vindo a ser desenvolvido pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que tem permitido criar jurisprudência e precedentes ao mostrar-se particularmente sensível para toda a temática LGBT, condenando os vários Estados em inúmeras situações por flagrantes atropelos aos direitos fundamentais dos seus cidadãos, nomeadamente por discriminação em função da orientação sexual, seja em domínios como o casamento, a adopção, direitos parentais, serviço militar, doação de sangue, cuidados de saúde, entre outros. Entendemos que o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido é positivo, assistindo-se a uma clara mudança legislativa nos vários países favorável aos direitos da população LGBT. No entanto, não podemos cair no erro de entender que tal deve ser resolvido numa lógica individual, de país a país. Não podemos permitir a existência de disparidades tão grandes num continente como o Europeu. Situações flagrantes como o caso Russo não poderão nem deverão ser toleradas. É mister entender que os direitos LGBT são direitos humanos e devem e só podem ser tratados como tais. É fundamental abandonar a ideia de que se tratam de meros direitos sociais que deverão ser analisados caso a caso, estando cada sociedade mais apta para se pronunciar sobre os mesmos. Mais do que nunca, o princípio da universalidade dos direitos fundamentais tem que funcionar e ser aplicado, devendo a União Europeia e a Europa, através dos seus órgãos oficiais e de plenos poderes, promover as mais diversas medidas para garantir uma correcta e integral uniformização na protecção da população LGBT, corrigindo, assim, de uma vez por todas, os constantes e diários atropelos a direitos que se entendem como intimamente ligados à própria dignidade da pessoa humana. ’ Mestre em Direito Privado pela Universidade Católica Portuguesa com o tema “A Adopção no âmbito da Parentalidade Homoafectiva”

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M A N U EL DA M A S

Não é tarefa fácil escrever uma crónica de Sexualidades e Afectos quando o tema desta edição da Revista ID’-Identidade, é a Europa. Mas falar de Afectos é, também, falar de Portugal, da portugalidade, da nossa forma de ser português… Até porque falamos de Portugal que, com 869 anos de história, 92.080 Km2 de território, quase 11 milhões de habitantes e uma imensidão de mar, considero ter um papel a cumprir, ainda hoje, nesta aldeia global e uma palavra a dizer sobre o futuro da Humanidade. Por tudo isso e muito mais, defendo que este espaço geográfico, detentor de um património histórico, humano e cultural, merece ser respeitado. Por tudo o acima exposto e inclusive pela responsabilidade histórica da sua existência, o papel dos portugueses passa, prioritariamente, por uma re-engenharia de comportamentos da população. Mas deverá ser um processo de aprendizagem, efectivo, consistente e estruturado, reflectido, relativamente ao modo de pensar e, acima de tudo, de agir. Assim, neste contexto, permito-me parafrasear Saramago quando afirma que “o fim de uma viagem é apenas o começo de outra” e que “é preciso recomeçar a viagem sempre.” E é essa, talvez, a nossa maior omissão. Recomeçar a viagem. Portugal ainda não recomeçou a viagem, no sentido da modernidade, mas tenho esperança que um qualquer dia a inicie... É imperioso que assim seja, até por uma questão de justiça para com o passado histórico português. Portugal precisa de voltar a viajar! Portugal merece voltar a viajar! Já não numa qualquer Nau Catrineta, mesmo que modernizada. Talvez já não a dar novos mundos ao Mundo, mas a dar um novo mundo a si próprio. Todos sentimos que, para o rumo em que esta Europa se parece encaminhar, poderá surgir o dia em que rebente uma nova revolta dos descamisados, talvez a nível global e então poderá surgir uma outra realidade, ainda que com todos os perigos que os actos revolucionários, de massas, desencadeiam…a História mantém, escritos, os relatos sangrentos de todos estes fenómenos, verdadeiros cortes epistemológicos, como diria Gaston Bachelard. E a Modernidade pode tornar-se assustadora… E Portugal continua, ainda, muito longe da verdadeira Modernidade! Também porque esquecemos, muitas vezes ou quase sempre, a diferença abismal entre ser moderno e estar moderno. Nós, portugueses, podemos estar mais modernos, seja lá o que isso for. Mas não somos modernos e não o seremos nos próximos anos. Porque temos receio do desconhecido, da novidade ain-

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da que, contraditoriamente, invejemos a dita Modernidade que outros usam e da qual, por vezes, abusam. Falta-nos tanto caminho para percorrer! Falta-nos coragem. Falta-nos espaço. Espaço e vontade de querer e de crer. Principalmente porque para querer é preciso força e coragem e, para crer, é necessário acreditar. E os portugueses não sabem acreditar...também e principalmente por medo. E tudo isto efectivado por este País que se quer e julga ímpar. Talvez o seja, realmente, mas não em qualidade, certamente. E isso ilustra a nossa forma de ser e de estar. Na essência acredito que, como povo, temos imensa qualidade...apenas a mesma se encontra coberta, recoberta e encoberta por densas camadas, estratificadas, como que reportando à Teoria Tectónica das Placas, que impedem e inibem o acesso ao núcleo...à verdadeira qualidade em ser português. Por vezes parece que temos “um vago medo de viver”, como refere José Gil. E eu atrevo-me a alterar para “um vago medo e falta de coragem”, porque considero diferentes, na essência, o medo e a falta de coragem. Principalmente dispares em termos de gradação. Para mim o medo é mais forte e intenso do que a falta de coragem... O medo é mais pesado, mais inibidor. Se a falta de coragem atrasa, o medo impede. Como eu dizia, exijo mais e melhor para Portugal! E não cumpro, assumo-o frontalmente, os requisitos para ser considerado um daqueles “Velhos do Restelo” que fizeram história e a própria História se encarregou de denegrir. Por mais difícil de acreditar que vos possa parecer... Tenho muito orgulho em ser português! Detesto, todavia, a forma que a maioria adopta de o ser! E o que é inacreditável é que cada um de nós acha que o é, de forma original, quando os modelos estereotipados se repetem, consoante os clãs, sociologicamente definidos, estruturados e caracterizados. São as nossas pequenas e domésticas contradições. Mas as nossas cicatrizes passam, também, pela nossa forma de portugalidade. Principalmente nós, portugueses...eternos insatisfeitos, ainda desgostosos por termos perdido a influência mundial conquistada com os Descobrimentos. Foi um dos nossos momentos de glória universal, assumo-o, mas deixem-me que vos diga...Já passou tanto tempo que considero obsceno que ainda nos agarremos a isso, em todo e qualquer momento, de forma doentia. A portugalidade tem que ser mais, muito mais! O acto de ser português merece-o.


SEXUALIDADES

Sim, nós, povo envergonhado da sua própria existência, como se, permanentemente, tivéssemos a necessidade e a obrigação de pedir desculpas ao mundo por um dia termos tido a ousadia de existir. E isso marca, em definitivo, o nosso modo de ser e de estar. crescer e de mudar, na senda da evolução. Continuamos, como povo, a tentar viver e, acima de tudo, sobreviver, de lembranças, da glória do passado. Persistimos eternamente presos ao fado, sempre chorado, sempre sangrado, sempre sofrido. Mas também ao xaile, inevitavelmente preto, como se de luto tivesse que ser a nossa existência. Reconheço que são símbolos iconográficos de um povo que se fez País...mas acabam por ser usados como argumento e desculpa para quase tudo e é, já, exagero. Permanecemos, ainda hoje, estacados no areal, contemplativos e nostálgicos, receosos de ver os outros partir, aqueles que, lá no fundo, invejamos por terem tido outra coragem, que não a nossa, que nos acorrenta a este quintal lusitano. Achamos que sabemos e podemos criticar tudo e todos mas não aceitamos nem sabemos lidar com as críticas que nos fazem. Principalmente porque achamos que destrói a imagem supostamente imaculada que tentamos projectar para o exterior. E o português não sabe coexistir com a crítica. Prefere exercê-la, a recebê-la. Acima de tudo falta-nos a coragem para tentarmos ser felizes, também como povo! Porque será que continuamos a ter medo de nos considerarmos um povo igual aos demais? Sim, porque nós, neste canto luso, consideramo-nos obsoletos e demonstramo-nos internacionalmente submissos. Essa postura é até visível quando, fascinados por um qualquer estrangeiro que nos visita, tentamos a todo o custo falar o seu idioma quando, noutros países, a “praxis” é que quem chega tente arranhar, da melhor forma possível, a linguagem nativa... E não me venham com a argumentação de que essa é uma das características dos bons anfitriões. Lamento, mas ser bom anfitrião não é sinónimo de ser submisso ou sem identidade. Uma coisa é saber gerir a realidade vigente e outra, bem diferente é, de forma submissa, perdermos a identidade, pervertermos o eixo axial. Só mesmo nós, portugueses, envergonhados por pertencermos a este triste e escuro canto luso, é que nos submetemos, nos tornamos irritantemente servis, perante o que nos fascina...Para nós o que vem de fora, sinónimo de estrangeiro é, só por si, superior e, como tal, invejável... Mas somos nós, também, que usamos e abusamos dos “inhos”.

Sim, leu bem, os “inhos”. E não me refiro aos diminutivos carinhosos mas sim aos “inhos”, pequeninos, pegajosos, usados em todo e qualquer contexto. Quem já não foi confrontado com a pergunta “Então o que vai ser hoje”? Nem sequer me vou deter muito no tempo verbal da frase “o que vai ser?”... Vai? Mas se eu já estou, não vou para lado nenhum, pelo menos no momento em que me preparo para adquirir algo. Por isso, até a forma verbal é desajustada. Mas a questão não fica por aqui. Logo a seguir, vem o terrível “É o jornalzinho”? Não! Não pedi nenhuma miniatura, nem nenhum jornal infantil. Por isso, não quero nenhum jornalzinho! Quero um jornal, o do costume, inteiro, grande. Quero o jornal! Depois vem outra pergunta assassina... “Quer um cafezinho”? Não! Quero um café, eventualmente curto, mas um café. Não o tal “cafezinho” que pressupõe, pelo enunciado, que seja pequenino, meiguinho, fofinho. Não é esse tipo de sensação de carinho que pretendo quando tomo café. “Precisa de uma mesinha”? Outro! Não! Não quero uma “mesinha”...Para isso ia para um infantário ou organizava uma visita ao “Portugal dos Pequeninos”! Sei que não sou alto, mas não preciso de viver em miniatura... “Prefere a carninha?” “Olhe que o peixinho é fresquinho”! Chega! Quero um jornal! Quero uma mesa! Quero um café! Por vezes prefiro carne, outras peixe, mas odeio que me perguntem se opto pelo “peixinho” ou pela “carninha”! E recuso-me a escolher entre “o arrozinho” e “a batatinha”! Até na rua odeio quando me pedem “um cigarrinho” ou uma “moedinha”...A dar, e quase sempre dou, é um cigarro que estendo ou uma moeda. Nunca miniaturas. Irrita-me que haja uma tendência, quase nacional, para a minusculização depreciativa das entidades, animadas ou não! São os “inhos” da nossa mediocridade! Não podemos continuar a ser um País de supostas miniaturas. Não quero os “inhos”, depreciativos ou redutores. Quero um País, não um paízinho. Quero um Portugal, não um portugalzinho... ’ Médico e Sexólogo

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HISTÓRIA

Eugénio Giesta

E

uropa. O velho continente. O berço da civilização Ocidental. E o que sabemos nós ao certo sobre este espaço? É verdade que hoje em dia a Europa como unidade política (com todas as limitações note-se), especialmente ao abrigo da União Europeia, é notícia constante, quer pela crise que se vive, quer pela contínua fragmentação de um poder que outrora foi quase uno e indivisível. Este espaço foi baptizado há 25 séculos, entrando na história através da mitologia grega. Para este povo, o mundo dividia-se em 3 continentes: Europa, Ásia e África (Líbia na altura). Para lá das colunas de Hércules (estreito de Gibraltar) ficava Oceano (agora Oceano Atlântico). Acreditavam que a Europa era limitada do lado esquerdo pelo Oceano, pelas colunas de Hércules que a separavam da Líbia e, à direita, pelo rio Don, na Rússia. Na mitologia dos gregos, Europa não tem uma definição muito própria. Há quem a considere uma princesa fenícia, raptada por Zeus, levada para Creta onde deu à luz 3 filhos do deus. Outros consideram-na, em conjunto com a sua irmã Ásia, filha de Oceano e Tétis. De qualquer forma, o que convém salientar é que à época, os nomes dos 3 continentes conhecidos derivavam de figuras mitológicas, dando uma espécie de sacralidade a cada um dos lugares. Para os gregos existem europeus e não europeus. Os primeiros apreciam a liberdade e lutam por ela e o seu regime político é a democracia. Os segundos são mais adeptos da servidão e de regimes políticos despóticos. Este sistema ideológico grego vai persistir até ao Iluminismo do século XVIII. A civilização grega propôs valores intelectuais: ideia de natureza, ideia de razão, ideia de ciência, ideia de liberdade e o conceito de dúvida e sua prática – a dúvida metódica. Foi esta Permitiu as grandes descobertas a partir do século XVI. Outra característica europeia foi o espírito crítico, um dos grandes instrumentos e um dos grandes trunfos dos europeus e da civilização Ocidental. É também um grande trunfo contra o ritualismo e o fun-

Império Romano no seu apogeu

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damentalismo. Os gregos inventaram o conceito de "polis", cidade-estado, que teve um papel fundamental no seu conceito de identidade. Deram também grandes contributos na área da Filosofia, Humanismo, Racionalismo, História, no Teatro e na Escrita, na Medicina e na Ciência. Entre outros nomes poderemos falar de Aristóteles, Sócrates, Platão, Heróduto, Homero, Hesíodo, Hipócrates, Galeno, Arquimedes, Euclides e Pitágoras. Outra grande influência veio de Roma e do Império Romano, desenvolvendo o conhecimento grego e expandindo-o por todo o seu domínio. Deixaram a sua marca nos campos da lei, língua, Engenharia, Arquitectura e governo. Durante o declínio e consequente queda do Império Romano a Europa fragmentou-se e conheceu as migrações dos povos chamados “bárbaros”, entre outros, os Godos (Visigodos e Ostrogodos), Vândalos, Hunos, Francos, Anglo-Saxões, Eslavos, Vikings e Magiares. Foi durante esta época que o que conhecemos hoje da Europa começa a moldar-se: os Francos estabeleceram o seu domínio num território que hoje pertence à actual França na sua maioria. Os Visigodos estabeleceram-se na Península Ibérica. As tribos Germânicas e Eslavas, na Europa Ocidental e Oriental, respectivamente. Desta época destaca-se o reino de Carlos Magno, que conquistou uma boa parte da Europa Ocidental e no ano de 800 foi coroado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, criando uma espécie de unidade política que relembrava o Império Romano. A partir do ano 1000 a Europa conheceu um crescimento económico, desenvolvendo-se rotas comerciais entre vários pontos do continente. Desenvolve-se o feudalismo em França que se estende também a todo o continente europeu, intensificando as lutas de poder entre a nobreza e a monarquia. A fonte principal de cultura nesta época vinha da Igreja Católica Romana e o Papado atingiu o pico do seu poder durante a época medieval. Fazem-se as cruzadas à Terra Santa, formam-se as primeiras Inquisições e em 1492 expulsam-se definitivamente os Islâmicos da Península Ibérica. Conhecem-se as invasões dos Mongóis, liderados por Genghis Khan. É durante a Idade Média que se dá uma das pandemias mais mortais da história da Humanidade, a Peste Negra, que na Europa se estima que tenha dizimado cerca de 25 milhões de pessoas, um terço da população total do conti-


nente. Esta pandemia teve um efeito devastante na vida social europeia, gerando um clima de medo e suspeita, levando as pessoas a viver o momento e aumentando a perseguição de Judeus, estrangeiros, pedintes e leprosos. Na época Medieval a Europa escapa ao monolitismo teocrático de Bizâncio, sendo uma amálgama étnica dos reinos Cristãos, havendo uma diversidade cultural e uma mestiçagem. Devido à unidade religiosa, nesta altura as pessoas identificavam-se como pertencentes à Cristandade, o conceito análogo ao de Europa nos dias de hoje. Nos inícios do século XVI a Europa tinha os meios técnicos para conquistar o mundo, assim como a China. A razão da supremacia europeia explica-se com o desapego europeu pela tradição e com o apego à mobilidade social. Há uma unidade cultural na Europa, que deriva do Cristianismo, que sempre evoluiu e se adaptou à história. Isto permitiu que o Renascimento, com génese em Itália se propagasse, gerando novas correntes de pensamento. Como consequência surge o Protestantismo, que irá dividir profundamente a Europa, levando a Igreja a fazer uma contra-reforma. A época Moderna caracterizou-se muito pelos Descobrimentos e subsequente colonialismo. Este movimento iniciado pelos Portugueses em 1415 levou a um grande “despertar” pelos novos mundos, à descoberta da América em 1492 por Colombo, à descoberta do tão almejado caminho marítimo para a Índia em 1498 por Vasco da Gama e a descoberta do Brasil em 1500 por Pedro Álvares Cabral. Estabeleceram-se novos Impérios, emergiram novas potências, nomeadamente o Holandês e o Inglês. Dão-se as grande revoluções científicas, surgem as teorias de Galileu, de Newton, de Kepler ou de Copérnico. A Europa irá abraçar aos poucos o absolutismo vindo originalmente da França de Luís XIV onde se irá libertar em finais do século XVIII. A revolução francesa foi um despertar da Europa, presente na declaração dos direitos humanos, na abolição da feudalidade e no surgir do espírito republicano. No entanto a revolução francesa desconhece o poder da religião e acaba por resvalar para a guerra, o nacionalismo e o terror, apesar da mensagem inicial ser de paz. Napoleão surge com um novo sistema e dá um exemplo daquilo que a Europa não pode ser: um império governado por um homem só, algo que se vai repetir

no século XX com o nazismo alemão. No século XIX a Europa conhece novos sinais de modernidade: a revolução industrial e o romantismo. A Europa dá ao mundo as suas vitórias, bem como as suas derrotas. Surge também o socialismo que vai ter um grande impacto no século XX. Na segunda metade do século XIX há nova derrapagem: o anti-semitismo. A outra derrapagem foi o colonialismo. Nesta altura a Europa é um continente carrasco, principalmente da Ásia e do Médio Oriente. Outra derrapagem é a confusão entre ciência e cientismo, que vai resvalar no racismo. A Europa vai também expulsar a moral da ciência. Explode o nacionalismo que tem os seus prós e contras, o que irá despoletar a 1ª Guerra Mundial. O século XIX lança, no entanto, a semente da democracia, surgindo a democracia parlamentar. A Europa do século XX é o resultado de uma grande evolução, mais intensificada nos acontecimentos do século XIX, que moldou a Europa e a preparou para o novo século. É o século das grandes guerras, do mítico crash da bolsa de 1929, a Europa da Guerra Fria, do profundo anti-semitismo proveniente do nazismo alemão, protagonizado por Hitler e da desagregação da ex URSS. É o século dos totalitarismos, mas também dos grandes avanços da Física e da Química, de que são exemplo a invenção da bomba atómica e dos computadores. A integração europeia cresceu pós-segunda guerra. O tratado de Roma em 1957 estabeleceu a Comunidade Económica Europeia entre seis estados da Europa Ocidental com o objectivo de uma política económica unificadora e de um mercado comum. Em 1967 a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e a Comunidade Europeia da Energia Atómica formaram a Comunidade Europeia, a qual, em 1993, se tornou na União Europeia. Esta estabeleceu um parlamento, tribunal e banco central, introduzindo o euro como moeda unificadora. Em 2004 e 2007 mais países de Leste ajudaram a expandir a UE para o seu tamanho actual de 27 países, tornando a Europa mais uma vez um grande centro de poder político e económico. Esta Europa que logo na viragem do milénio conheceu a ameaça do terrorismo, materializado nos atentados às torres gémeas de Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001. Conheceu também uma profunda crise económica que ameaça a união europeia (não confundir com o termo União Europeia) e a sua supremacia que foi oscilando ao longo da sua história. A Europa conhece hoje um despertar da memória, para relembrar, combater e evitar erros e crimes passados. A sua idade e longevidade é um esforço para a unidade e para a manutenção da diversidade.

Uni\ao Europeia

’ História

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ID’ENTIDADES

ID’ENTIDADES

Esta é uma entrevista de Pensamento Político. Uma das mais importantes peças, recentes, em termos de Política Europeia e onde sobressai, sem qualquer dúvida, uma ideia concertada sobre a Europa e, acima de tudo, acerca da posição de Portugal na Europa dos Cidadãos. Acima de tudo é uma extensa peça de Teoria Política, consistente e lúcida, que define um Pensamento e que deve ser lida detalhadamente e como objecto de reflexão.

Quem é Carlos Coelho? Sou Deputado ao Parlamento Europeu, tenho 52 anos e exerci as mais diversas funções em Portugal. Fui membro do Governo, Deputado à Assembleia da Republica, membro de uma Assembleia Municipal em Sintra e fui Presidente da JSD. Sou alguém que dá muito valor à Formação por isso tenho investido muito, nomeadamente na Universidade de Verão, nas Universidades da Europa e nas Universidades do Poder Local. “Semear para colher” é o meu princípio de vida que sempre me norteia. Treze anos de Parlamento Europeu deram-lhe, certamente, uma noção muito real do funcionamento desta Instituição Europeia. O Parlamento Europeu, hoje, existe? O que é o Parlamento Europeu, em efectivo, para o cidadão comum? O Parlamento Europeu existe e cada vez mais. Ao longo da História e com a assinatura dos mais diversos tratados, o Parlamento Europeu viu reforçados os seus poderes. No início era perfeitamente adjectivo, era uma espécie de Senado da Europa. Hoje não. Actualmente o Parlamento Europeu é uma Câmara que decide. Tem competências reforçadas, com o Tratado de Lisboa, em matéria orçamental e em matérias legislativas. Mais de metade dos novos poderes legislativos do Parlamento Europeu foram conseguidos com o Tratado de Lisboa ou seja as bases jurídicas em que há co-decisão. Hoje em dia o Parlamento Europeu é uma peça essencial do mecanismo de decisão comunitária. E, por isso, relevantíssima para o Presente e para o Futuro dos Europeus. Não seria necessária mais proximidade entre o Parlamento Europeu e os cidadãos? Seguramente. Há uma grande distância e isso verifica-se, principalmente, na periferia. Um dos dados mais preocupantes é a abstenção que se verifica nas Eleições Europeias. Portugal, por exemplo, tem, sistematicamente, uma taxa de participação em Eleições Europeias inferior à média comunitária a qual esteve, nas ultimas três eleições europeias, abaixo dos 50%. Ou seja, mais de metade dos cidadãos eleitores não foi às urnas. E isso é um dado preocupante. Principalmente pelo facto de que a única instituição europeia que é directamente eleita pelos

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cidadãos europeus resulta de um processo em que mais de metade dos cidadãos europeus se alheia. Se nós queremos mais Democracia europeia, que haja mais participação dos cidadãos nas instituições europeias, temos que conseguir inverter este estado de coisas. O futuro das instituições europeias passará por um Governo único, um Primeiro Ministro único, um hino oficial único? Ou seja, uma vez que há uma união económica, poderá ou deverá haver uma união política única? Eu acho que a circunstância de termos línguas, culturas e realidades diferentes vai sempre levar a que subsistam identidades diferentes. E isso é positivo. Acho que a identidade europeia, que é crescente, obriga a um reforço de eficácia. Tivemos essa prova de realismo com a união económica e monetária. A união monetária, através do euro, funciona bem. Mas o mesmo não foi conseguido em termos de união económica. Hoje temos a radiografia, evidente, de que faltam mecanismos de coesão económica na Europa. A existência dessa lacuna, desse défice, prejudica a Economia da Europa e a dos diversos Estados Membros. Por isso, se nós queremos que a união económica e monetária seja bem sucedida, temos que transferir competências de coordenação económica que, presentemente, se encontram nos diversos Estados Membros, para um poder federal e é por isso que hoje se fala na governação económica. Teria sido mais lógico começar pela união política e depois evoluir para uma união económica ou a “praxis” adotada foi a correcta? Seguiu-se a lógica dos pequenos passos. A partir do momento em que no início da aventura europeia tudo o que era união política foi chumbado, nomeadamente o projecto da comunidade europeia de defesa, considerou-se que se conseguia chegar à união através da economia. E é verdade que os passos fundadores da Europa, que os passos estruturantes da Europa, desde 1952, foram sempre de natureza económica. Em 1952 houve a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1957 tivemos a CEE, a Comunidade Económica Europeia, tivemos depois o Acto Único, com o desafio do Mercado Interno. Tivemos, mais recentemente, o


Euro como moeda comum. Ou seja, as grandes medidas da construção europeia foram, sempre, de natureza económica. O problema é que chegámos a um nível em que percebemos que não basta termos uma união económica se não tivermos uma união política. O facto mais evidente talvez sejam as questões da governação económica que já abordámos ou as questões que resultam da evidência de alguns países terem mais poder do que outros. Quando a Senhora Merkel, com a insegurança que a economia alemã tem, toma decisões, nós não podemos pedir à Senhora Merkel que esteja preocupada com a Europa, por exemplo. Ela responde perante os cidadãos alemães. Os portugueses, por exemplo, não votam na Senhora Merkel. Ela é reeleita ou não se os cidadãos alemães o quiserem. Ou seja, nós temos que encontrar um poder federal europeu que garanta que não seja Paris, Bona ou uma outra grande capital europeia a decidir, mas que seja um verdadeiro poder federal europeu eleito por todos e não só por alguns. A comissária luxemburguesa veio lançar para cima da mesa a hipótese de Durão Barroso 3. Essa é uma boa hipótese? A nível pessoal é bom. Continuarmos a ter à frente da Comissão Europeia um português é, seguramente, positivo. Resta saber se a Europa está preparada para, pela primeira vez, dar um terceiro mandato a um Presidente da Comissão Europeia. Isto é, saber se a Europa está preparada para ter à frente da Comissão Europeia alguém em exercício de funções mais do que dez

anos e também se há ou não uma tentativa de legitimação do Presidente da Comissão Europeia nas eleições europeias. Há quem considere que o Presidente da Comissão Europeia deva uma legitimidade mais próxima dos cidadãos e que as principais famílias europeias anunciem que se tiverem maioria nas próximas eleições europeias qual vai ser o candidato a Presidente da Comissão. Se isso acontecer o mais provável é que as diversas famílias europeias apresentem candidatos a Presidente da Comissão Europeia que sejam oriundos dos grandes países e isso torna mais difícil que um português seja Presidente da Comissão Europeia. Há a tentação de um cada vez maior distanciamento entre o cidadão comum e os agentes da politica europeia. Não deveriam existir campanhas exaustivas de proximidade, de Pedagogia? Eu tenho a consciência tranquila. Aceito, praticamente todos os convites que recebo, quer por parte de autarquias, quer de escolas, para fazer conferências, participar em debates, para produzir publicações, para fazer pedagogia. Preocupa-me que nos dados da Eurostat Portugal seja um dos quatro piores países em termos de informação acerca das instituições europeias. Mas vamos ser claros. Existe, em Portugal, um problema claro de falta de informação, até porque existem diversos mecanismos disponíveis a serem utilizados. Os cidadãos portugueses podem recorrer aos seus Deputados. E aqui não falo apenas dos deputados do PSD mas dos 22 Eurodeputados eleitos. Eleger 22 pessoas para

o Parlamento Europeu significa eleger 22 embaixadores do interesse nacional. E posso afirmar isso hoje, claramente. Nas questões que são estruturantes para Portugal, não há diferenças significativas entre o BE, o PCP, o CDS, o PS ou o PSD. Todos votamos da mesma forma quando está em causa Portugal. E todos os portugueses podem contactar-nos com facilidade. No meu site, por exemplo, está o meu número de telefone assim como os emails de todos os 22 deputados portugueses do Parlamento Europeu. Por isso, quem quiser escrever a um Deputado português no Parlamento Europeu não pode dizer que não sabe como. Tem é que escrever. Em muitas matérias, designadamente de natureza económica, é mais frequente eu receber emails de franceses, alemães, espanhóis, italianos ou outros a solicitar o meu voto para uma determinada medida do que de portugueses. Nós continuamos a ter uma Sociedade Civil pouco organizada e a assistir a uma capacidade de iniciativa cívica portuguesa pouco organizada, pouco activa e pouco frequente, se compararmos com os cidadãos de outros países. Isso levanta a questão do lobbying. Nós portugueses não sabemos, não fazemos e temos medo de fazer lobby… Há uma dimensão, que é de lobby, que é de representação legitima de interesses, que são colectivos, mas há também uma dimensão de iniciativa individual. Nõs não estamos, em Portugal, vocacionados para tomarmos esse tipo de iniciativas. Excepto em questões muito circunstanciadas relacionadas, sobretudo, com as tou37


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radas e com os direitos dos animais em que por exemplo organizações internacionais sugerem aos seus congéneres portugueses que se dirijam aos eurodeputados. Há organizações, inclusive, que disponibilizam os textos para os cidadãos enviarem. Por vezes chego ao ponto extremo de receber emails de cidadãos portugueses escritos em inglês…Isso diz tudo da forma de funcionar dos portugueses em termos de sensibilização dos seus eleitos. Como eu dizia, excepto em situações muito precisas, nós eurodeputados não estamos habituados a receber solicitações dos nossos concidadãos. E isso é uma lacuna grave. Deixe-me, agora, direcionar esta Grande Entrevista, para as questões da Igualdade de Género, do combate contra a Discriminação e para as questões das minorias, uma vez que esse é o território de trabalho, por excelência da CASA-Centro Avançado de Sexualidades e Afectos, a que presido e à qual pertence a Revista ID’-Identidade. Há alguma preocupação na Europa com estas questões? Haverá, por exemplo, a hipótese de virmos a ter uma mulher Presidente da Comissão Europeia? Sim, com certeza. Já tivemos, inclusive. Uma grande mulher. Simone Weil. Uma mulher fantástica, que foi vítima do nazismo, que esteve num campo de concentração nazi, que tem, inclusive, tatuado o número de detenção. Uma liberal francesa, que foi Presidente do Parlamento Europeu e que foi Ministra em França na altura em que foram discutidas muitas leis relacionadas com questões fracturantes, como o div��rcio, o aborto, etc. Foi a altura de muita produção legislativa nessas áreas. Mas o Parlamento Europeu orgulha-se de ter uma grande percentagem de mulheres, quer como Deputadas, quer exercendo funções de grande responsabilidade. Conheci várias mulheres notáveis que tiveram funções de grande responsabilidade. Uma delas, inclusive, foi convidada por mim para vir a Portugal, Ana Palácio, Ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha, no Governo de Aznar. Foi Eurodeputada. Foi Presidente da Comissão dos Assuntos Jurídicos e das Liberdades Cívicas no Parlamento Europeu, foi Presidente da Conferência dos Presidentes das Comissões Parlamentares. Ela e Loyola Palácio, que faleceu de cancro e que foi Comissária Europeia, foram duas mulheres espanholas que marcaram fortemente a presença feminina no Parlamento Europeu. Apesar de se ter a ideia de que a Espanha, como Portugal, é um país muito machista, foi interessante ver a presença de duas mulheres espanholas que marcaram muito fortemente, na mesma altura, uma no Parlamento e outra na Comissão, o funciona-

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mento do Parlamento Europeu. Mas há outras minorias. A questão dos ciganos, a questão das minorias linguísticas, a questão da Igualdade de Género, a questão dos homossexuais, entre outras. O Parlamento Europeu orgulha-se, quer através do Prémio Sakharov, quer através das suas resoluções e dos seus actos legislativos, de ser um dos parlamentos do Mundo mais avançados na defesa das liberdades individuais, na linha do que é a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, de que nós todos somos fieis interpretes, da qual somos todos signatários, mas também daquilo que hoje já é a carta dos nosso valores, que é um passo à frente relativamente à Convenção Europeia dos Direitos do Homem e que é a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais que, com o Tratado de Lisboa, ganhou força jurídica e que já não é apenas uma declaração de intenções. Sob esse ponto de vista, hoje, o Parlamento Europeu pode orgulhar-se de ter dos corpos jurídicos e da prática política mais avançada no Mundo em termos de proteção dos direitos das minorias. Mas a época de Simone Weil era uma época em que havia muito para fazer e, como tal, as questões não se tornavam tão complicadas. A ideia que se tem hoje e peço-lhe que me corrija se eu estiver errado, é que tudo se complicou. Não porque ainda há muita coisa para fazer mas porque, hoje, os problemas são outros e bem mais específicos, o que torna tudo muito mais complexo. Nós já não estamos na época da Guerra Fria. Nós não vivemos numa época de conflito entre blocos.

Nós vivemos na época dos micro conflitos regionais. Como vai ser a Europa daqui para a frente, perante estas novas realidades? Como é que vai a Europa preparar-se para ser uma Europa do Futuro, se é que tem lógica pensar-se numa Europa para o Futuro? Eu acho que a grande diferença entre a época de Simone Weil e a de hoje é de natureza económica. Na altura de Simone Weil nós estávamos numa fase em que a Economia se encontrava a crescer e as pessoas podiam concentrar-se em questões que eram relativamente novas para o momento. Tinham maiores vencimentos, podiam equacionar novas realidades para os filhos, tinham grandes desigualdades, tinham arbitrariedades, tinham violações dos direitos fundamentais, tinham cidadãos que, por terem uma raça diferente, por terem uma cor diferente, por terem um credo religioso diferente, por terem uma orientação sexual diferente, eram discriminados e como é que nós íamos garantir que não seriam discriminados, uma vez que são parte integrante de uma Sociedade. Nós hoje não estamos nessa fase. Nós estamos, hoje, numa fase em aquilo que preocupa os cidadãos são questões de natureza económica…é o desemprego, é a garantia, que hoje já não pode ser dada, de que os nossos filhos vão viver melhor do que os próprios pais viveram e portanto começam a prevalecer estas necessidades primárias e os outros valores tendem a ser esquecidos. Os portugueses, acerca disto, têm um ditado que diz…”Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Assim quando há outras questões que tendem a prevalecer,


nós assistimos na Europa, em muitos países, ao renascimento de fenómenos de xenofobia e não só. Nalguns casos chegam a ser fruto da violência estruturada de minoras religiosas fanáticas. Estou-me a recordar, por exemplo, do caso da Holanda, com movimentos islâmicos extremistas, que inculcaram o terror na sociedade holandesa, com o assassínio de políticos e de realizadores de cinema, por exemplo. Mas noutros países este tipo de reacção tem a ver com o desemprego, porque vêem os emigrantes como alguém que vem roubar o emprego nacional, ainda que, na maior parte dos casos, o emprego que é disputado pelos emigrantes não é preenchido pelos nacionais desses mesmos países, porque não o querem. Neste contexto torna-se fácil o aparecimento de movimentos radicais, extremistas, sejam eles de extrema esquerda ou de extrema direita, que inflamam o discurso contra os valores e a favor da discriminação. Por isso eu creio que a grande diferença de hoje com a Europa de Simone Weil é que actualmente as sociedades são confrontadas com desafios que quando são explorados de forma demagógica e populista inspiram o que de pior os povos têm e que é a lógica de “vamos proteger os nossos” e discriminar aqueles que não são como nós. Fala-se já hoje, em Portugal, até que ponto, em crise, não seria lógico ou razoável fechar as portas às correntes migratórias, como por exemplo às provenientes de África… Mas, mudando um pouco de assunto. Hoje qual é a imagem que a Europa tem de Portugal? Portugal já foi o bom aluno…agora é o quê? Grego? Cigano? Preguiçoso? Somos o quê? Nós somos bem vistos. Somos um país que está com dificuldades, que precisa de ajuda. Mas que não tem a mesma trajectória da Grécia. A maior parte dos europeus acha que a Grécia mais tarde ou mais cedo vai ter que sair do euro, porque não tem condições para continuar. Há um grande cepticismo em relação à Grécia. Em relação a Portugal há esperança. Há uma leitura muito positiva daquilo que Portugal é capaz e do esforço que os portugueses estão a fazer. Mas nós continuamos a ser PIIGS…Uma designação muito infeliz que espero tenha sido inocente… Esta designação inocente não foi com certeza, porque estas coisas nunca são inocentes. Os PIGS, ou seja, Portugal, a Irlanda, a Grécia e a Espanha, ainda que alguns digam que o “I” não é apenas referente à Irlanda mas também à Itália, independentemente de serem países beneficiários ou apenas países do Sul, corresponde, no entanto, a uma verdadeira discriminação

Norte-Sul. Hoje há uma guerra Norte-Sul, como há uma guerra Leste-Oeste, como há uma guerra entre países que têm costa contra os países do interior. Vamos ser claros. Cada país tem os seus interesses, as suas características, as suas idiossincrasias. O que nós temos que garantir é que as diferentes especificidades tenham um ponto comum e que esse ponto comum se traduza no interesse comum da Europa. Essa será a solução de futuro, essa será a solução de sucesso para o futuro da Europa. Alberto João Jardim sugeria, há dias, a criação de uma plataforma destes países em dificuldades, com o intuito da defesa das dificuldades, das necessidades e dos interesses comuns. Esquecendo a personalidade de João Jardim, que se ama ou se odeia, esta ideia de uma plataforma comum não lhe parece interessante mas, ao mesmo tempo, perigosa? Há sempre uma plataforma de troca de informações diplomáticas entre países que estão nas mesmas circunstâncias. Dai fazer uma plataforma oficial, com visibilidade, tenho muitas dúvidas. Pode criar-se a noção de que somos o “grupo dos coitadinhos”. Quando o Primeiro Ministro italiano, Monti, convidou os primeiros ministros desses países para irem a uma reunião a Roma, o Primeiro Ministro português, invocando questões de agenda não foi. E eu acho que ele teve razão. Considero que Portugal não ganha nada, perante a Europa, em estar no “lobby” dos coitadinhos. Portugal ganha no “mundo europeu” se demonstrar que está a fazer tudo o possível para sair da situação económica difícil em que se encontra, em demonstrar-se igual aos grandes países da Europa. Portugal ganha se provar que está a preparar a sua Economia para fazer parte do clube que interessa e que é o clube dos bons e não do clube dos maus. Nós queremos ser daqueles que passam com distinção e não daqueles que são reprovados. Acha que efectivamente há, hoje, uma ideia portuguesa para a Europa? Há, concretamente, uma politica portuguesa para a Europa? Há. Portugal é seguido em muitas áreas, nas quais a sua opinião é respeitada. E ajuda muito para isso o facto de termos um Presidente da Comissão Europeia, que é português. Apenas não somos nem norma, nem exemplo a seguir, nas questões económicas. Em tudo o que é economia Portugal não é um exemplo a seguir, pelas razões que se percebem. Embora aqui e ali haja áreas, com dimensão económica, em que Portugal conseguiu marcar. Foi na produção de energias alternativas, como

a energia eólica, com o investimento estratégico que se fez em alguns sectores. Aí as pessoas percebem que Portugal esteve bem. Mas, de uma forma geral, Portugal não risca nas questões económicas sendo, no entanto, ouvido e com atenção em outras áreas. Aqui em Portugal passou a ideia de que Carlos Coelho era, para todos os efeitos, um dos rostos das energias eólicas. Há no entanto a ideia de que a questão das eólicas, que foi uma prioridade do anterior Governo, hoje deixou de o ser. Estou certou ou errado? Eu acho que há uma percepção errada daquilo que nós temos que fazer. Nós temos que diminuir a nossa dependência do exterior, nomeadamente a nossa dependência em termos energéticos. Eu acho que nós temos que investir naquilo que em Portugal temos mais e que diminua a nossa dependência. Nós não temos petróleo, ainda que haja quem diga que ele existe e vai ser explorado. Existem já algumas prospeções em território português que têm tido alguma visibilidade. Mas como, pelo menos para já, nós não temos petróleo, temos que apostar em energias não poluentes. Nós temos mar, nós temos marés, nós temos sol e nós temos vento, muito. E temos alguns rios. De tudo o que é aposta nas energias das marés, pelo estado actual da Ciência, ainda não temos hipótese de tirar grande partido. Mas temos outras linhas de investimento no que se refere às energias alternativas. Na energia solar, por exemplo, onde há cada vez maior evolução e já se pode fazer aproveitamento de energético, nomeadamente em termos de consumo doméstico, através dos painéis solares. Mas também existem, ainda, as novas linhas de investimento, nos dispositivos de nova geração, nomeadamente de tipo fotovoltaico. Também no aproveitamento hidroelétrico e da energia proveniente dos ventos há, seguramente, muitas áreas em que Portugal pode tirar partido das condições naturais que tem, reduzindo a sua dependência económica do exterior. E eu acho que isso se deve tornar uma das estratégias de investimento nacional. Esquecendo Portugal e regressando a Carlos Coelho. O Parlamento Europeu representa um exilio dourado ou um opção? Foi uma opção. Com excecção de um curto espaço de tempo, pouco mais de um ano, em que fui membro do Governo eu tinha sido, como dizia, deputado nacional quase vinte anos. O Parlamento Europeu foi uma oportunidade de ter uma experiencia diferente, tendo em conta tudo o que eu já tinha feito ate então. Nessa

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fase o Parlamento Nacional já não tinha grandes segredos para mim. O Parlamento Europeu era uma aventura e dava a possibilidade de, em Bruxelas, fazer coisas que acabavam por ter grande influência para Portugal. Foi a possibilidade de intervir no jogo legislativo e no jogo politico com outros horizontes. Eu em Portugal nunca poderia ter tido a relevância que tive, com enorme visibilidade mundial, como por exemplo o caso dos voos da CIA. Nós no Parlamento Europeu temos uma dimensão para participar em debates, em investigações, em dossiers que, em Portugal nunca existiu. Eu devo dizer que aprendi muito no Parlamento Europeu. Sobretudo à escala de decisão e de análise das matérias, mas também ao nível do poder de decisão. Não tem nenhuma comparação com aquilo que se faz em Portugal. A questão dos voos da Cia foi, na realidade, uma questão emblemática para Carlos Coelho. Pessoalmente foi uma questão complicada? Foi muito complicado. Não se esqueça que chegou a ser “contra sensu” relativamente à família europeia em que eu me encontrava integrado. Recordo que um colega meu, húngaro, chegou a virar-se para mim e a dizer “Carlos, é uma vergonha. Estás a presidir a uma Comissão de Inquérito que está a interrogar os americanos como se eles fossem, fora da lei. Os Estados Unidos são um estado democrático, isso é tudo mentira e tu estás a colaborar com uma mentira”. Eu respondi “Eu não estou a colaborar com nenhuma mentira. Sou Presidente de uma Comissão de Inquérito que está a fazer perguntas. Não estou a fazer juízos”. Mas, entretanto o Presidente George Bush faz uma comunicação ao Mundo em que reconhece tudo aquilo de que era acusado, com excepção da tortura. E nós hoje temos provas evidentes de que nessa questão o Presidente Bush mentiu porque, efectivamente, as forças americanas efectuaram tortura, contra a Convenção da ONU que os EUA também subscreveram, havendo uma violação evidente do Direito Internacional. Nessa altura eu virei-me para o meu colega húngaro e disse-lhe “Tenho uma testemunha que não pedi, na Comissão. O Presidente George Bush, “himself”, veio reconhecer que tudo era verdade”. É preciso não esquecer que as forças secretas americanas tinham retirado pessoas do seio das suas famílias, sem acesso a advogados, sem acesso às famílias, sem acesso, sequer, à Cruz Vermelha que foi, repetidamente, impedida de contactar os detidos. O que se veio a provar foi que, tudo aquilo que nós questionávamos na Comissão de Inquérito, era verdade. Na primeira fase esse processo foi muito complicado. Depois da confissão de Bush, 40

tornou-se mais simples e houve mais gente no Parlamento Europeu a sentir embaraço do que gente a protestar. Nessa altura houve quem chegasse a dizer que Carlos Coelho era anti americano… Eu percebo o simplismo. Quando nós fazemos criticas, tornamo-nos anti. Mas esquecemos, que a critica pode ser positiva, pode ser construtiva. E o mesmo se passa ao nível dos amigos. Eu acho que só há verdadeira amizade quando somos capazes de criticar algo que vemos de errado, o que vai para além da amizade. Se nos calamos, não estamos a ser verdadeiramente amigos. Os EUA são, de longe, a potência do Mundo, que está mais próxima dos valores da Europa, mas isso não nos pode levar a que nos calemos. Quando nós vemos um amigo nosso, que partilha os nossos valores, mas que os viola, não nos podemos calar. A China mata muito mais pessoas do que os EUA. A China é uma

ditadura sanguinária. Eu não tenho nenhuma razão para achar que quando morre alguém na China deva protestar na Amnistia Internacional ou em outros organismos internacional. Mas também não posso defender que, quando o mesmo sucede nos EUA, isso seja uma coisa perfeitamente aceitável por eles serem uma Democracia. Bem pelo contrário. Como eles são uma Democracia, têm que ter mais responsabilidade e não permitir que seja chamuscada a imagem que nós temos das nossas sociedades. Foi Condoleezza Rice, na altura Secretária de Estado norte americana, do Governo de George Bush, que escreveu um preâmbulo notável no Relatório Anual que os EUA fazem sobre tortura no Mundo. Estamos a falar de 2007/08, se não estou em erro e Condoleezza Rice afirma “para alguns pode parecer irónico que os EUA publiquem um relatório sobre Violação dos Direitos Humanos no Mundo, quando disso somos acusados. Mas a situação de estarmos


Nunca agi, numa lógica científica, a construir tijolo a tijolo o meu futuro. Tudo o que eu fui na Política, resultou de desafios que me foram colocados e em que eu achei que podia ser útil. Continuo, hoje, nessa perspectiva. Se me for feito um desafio em que ache que possa ser útil, com certeza que responderei afirmativamente. Agora, não me ando a colocar em bicos de pés a oferecer-me para desempenhar funções, nem ando a negar-me a desafios. Há aqui duas vontades que têm que coexistir. Uma é a de quem convida considerar que é importante o meu contributo e a outra é a minha convicção de que a desempenhar essa função ou a dar esse contributo eu sinta que posso ser mais útil. A questão é que a imagem que passa de si, cá, é precisamente a de não fazer carreira, de não querer fazer carreira. De não ser um “boy” do regime e isso dá-lhe uma outra credibilidade, uma outra garantia. Poder-lhe-ia dar outra responsabilidade? Eu acho que todos nós temos a responsabilidade que advém daquilo que sabemos. E temos a obrigação de pôr esse património de experiência ao serviço da comunidade. Agora a forma como isso se traduz em cada momento não depende só de nós. Quando nós achamos que depende só de nós, então estamos a sucumbir à vaidade. Depende, também, dos outros. Mas eu sou o que sou. Há coisas que os outros podem achar que eu faço muito bem mas que eu não me sinta seguro ou que não tenha essa convicção.

sob suspeita não impede os EUA de ajudarem a denunciar situações de violação no Mundo inteiro”. E, nesse aspecto, acho que Condoleezza Rice tinha razão. A autoridade moral dos EUA ficou diminuída, com George Bush, mas não é por acaso, quando Obama é eleito, que este vem afirmar que uma das coisas que pretende, no seu mandato, é devolver a autoridade moral aos EUA. Obama tinha toda a razão e era necessário que os EUA recuperassem a autoridade moral que foi perdida com George Bush. Não querendo usar um argumento seu, contra si próprio, eu ouvi-o dizer “Aprendi muito no Parlamento Europeu”! Para quando a aplicação de toda essa aprendizagem em Portugal? Isso é uma falacia, porque eu trabalho mais para Portugal e pelo território português lá do que se calhar estivesse cá noutras funções. Hoje quase metade da legislação portuguesa é transcrição

de directivas comunitárias. A maior parte das directivas comunitárias, hoje, passam pelo Parlamento Europeu. Hoje sente-se mais Portugal no Parlamento Europeu do que na maior parte das funções exercidas em Portugal. Eu atrevo-me a ir um pouco mais longe. Portugal está em crise em diversas frentes e todos somos chamados a intervir, aos mais diversos níveis. Eu compreendo perfeitamente que para o Deputado Carlos Coelho o exercício das suas funções no Parlamento Europeu seja o ideal. Mas quando se fala, por exemplo, no regresso de Durão Barroso a Portugal, configurando uma candidatura à Presidência da República, não seria possível ter Carlos Coelho, em Portugal, numa outra função, quiçá no Governo? Com certeza. Ninguém pode fechar portas aquilo que se poderá fazer amanhã. Eu nunca desenvolvi a minha actividade numa lógica de carreira. Nunca pensei no que queria ser amanhã.

Ou não tenha essa vontade… Ou não tenha essa vontade, como é evidente. Vamos supor uma situação totalmente absurda. Vamos supor que o actual Primeiro Ministro, me chama e me diz “Carlos Coelho, preciso de ti para Ministro das Finanças, substituindo Vitor Gaspar, que está cansado e se quer ir embora”. Eu imediatamente recusaria porque acho que seria um péssimo Ministro das Finanças, porque não tenho as qualidades para desempenhar da melhor forma essas funções. Ainda que o meu sonho, o meu desejo ou a minha ambição passasse por exercer, unicamente para seguir o exemplo dado, as funções de Ministro das Finanças em Portugal, eu teria sempre que ter os pés assentes na terra e achar que daria um péssimo Ministro das Finanças porque não tenho qualidades ou formação para o desempenho desse cargo específico. Há coisas que nós sabemos fazer bem, há coisas que nós não sabemos fazer e há coisas que podemos aprender a fazer. Agora não temos é o direito de subme41


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ter um conjunto de concidadãos à experiência de “Vamos ver se aprendo a fazer isto bem…” A ideia que ficou foi que Carlos Coelho vai para o Parlamento Europeu porque dá um murro na mesa, e peço-lhe que me corrija se estiver errado, afirmando “Eu tenho mais qualidades do que isto, eu não tenho pachorra, estou sub aproveitado e, como tal, vou para a Europa”. Esta é a versão mais ou menos justa, mais ou menos correcta ou nem por isso? Não foi exactamente assim. É verdade que foi uma decisão minha e que houve pessoas que ficaram… Aliviadas? Não. Isso há sempre. Há pessoas que, vendo-nos pelas costas pensam “Menos um concorrente no jogo”. Na realidade houve pessoas que ficaram aborrecidas por eu ter decidido vir para a Europa, porque preferiam que eu tivesse continuado. Agora eu fui, porque fui chamado. Isto é, eu fazia parte da lista de candidatos a Deputados ao Parlamento Europeu. Entretanto houve alguém que saiu, no caso específico foi António Capucho, que foi eleito Secretário Geral do PSD, na Presidência do Professor Marcelo Rebelo de Sousa e eu fui chamado para ocupar o meu lugar. Eu podia ter renunciado e ter ficado. Agora eu tinha sido candidato ao Parlamento Europeu. E, efectivamente, tinha vontade de ir para o Parlamento Europeu. Se eu dissesse que não, iria contrariar aquilo que eu próprio tinha pensado e que tinha vontade de fazer. Acima de tudo eu iria negar o mandato que me tinha sido conferido pelo eleitorado, ainda que não directamente. Eu fui o primeiro não eleito e quando foi necessário fazer uma substituição eu sabia que me cabia a mim essa função. E, repito, eu tinha sido quase 20 anos Deputado na Assembleia da Republica, era a altura de passar por uma experiência diferente. Acho que foi muito bom para mim aprender, com a experiência no Parlamento Europeu e tenho a veleidade de achar que o meu desempenho não terá sido mau. Regresssemos à Europa, que é um tema mais calmo, tranquilo e menos polémico. Carlos Coelho falava há pouco das questões das minorias. Depois falou nas questões LGBT. Há um lobby LGBT no Parlamento Europeu?

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Há. Há um inter grupo no Parlamento Europeu, constituído por Deputados, que promove a agenda LGBT e que garante que em todas as peças legislativas em que há referencia aos direitos, aos valores, ou a outras questões que não se possam considerar directamente relacionadas com a agenda LGBT, como por exemplo questões de Educação Sexual, questões relacionadas com a Não Discriminação, questões relacionadas com a Adoção, garante, como dizia, que haja uma abordagem LGBT. Mas aí há um problema…é uma questão de fronteira entre aquilo que é Europa e aquilo que não é. As instituições europeias só têm competência para se pronunciar sobre as questões para as quais os tratados lhes conferem competências. A matéria do Direito de Família, por exemplo, é uma matéria do Direito Nacional. Nestas questões o que prevalece são os princípios que estão consignados na legislação de cada Estado Membro… embora que, em nome, por exemplo, da liberdade de circulação, haja questões que nós possamos desenvolver. Se um País, por exemplo, não reconhece os casais homossexuais, esse mesmo país tem obrigação, face aos Tratados Europeus e às Convenções Internacionais dos Direitos do Homem, de respeitar os direitos individuais de cada um. Se num país há o reconhecimento de um casamento homossexual e noutro não, há a possibilidade de assumir, oficialmente, uma agenda de equivalências, em termos de direitos, tornando, na prática, as situações equivalentes. Ou seja, há uma abordagem no sentido de respeitar a competência nacional de cada Estado Membro respeitando, sempre, princípios fundamentais, como por exemplo o princípio da não Discriminação e o princípio da Igualdade de Tratamento, em função da orientação sexual. Por outro lado procura-se que haja a garantia de que toda a população, independentemente, da orientação sexual, por exemplo, tenha igualdade de acesso, nomeadamente aos cuidados de Saúde, entre outros. Quando falávamos das questões da Igualdade de Género e do combate a todas as formas de Discriminação, nomeadamente em relação à orientação sexual, lembrei-me da petição pública que a CASA tem a decorrer, para a criação do Dia Nacional da Felicidade. A própria ONU recomendou aos seus Estados Membros, numa das ultimas Assem-

bleias Gerais, que passassem a usar, nos seus discursos oficiais, a palavra Felicidade e, acima de tudo, o conceito de Felicidade. Porque é não há nenhum Dia Europeu da Felicidade? Eu acho que por duas grandes razões. A primeira porque, por vezes, a Política é muito técnica e as pessoas acham que a Política é para discutir níveis salariais ou contratos colectivos de trabalho ou outras matérias jurídicas e não é para discutir, abordar ou cobrir aspectos que são considerados mais íntimos, mais da vida das pessoas. E em segundo lugar porque me parece evidente que sendo a Felicidade um Direito que cada um tem, não é menos verdade que não há uma agenda oficial da Felicidade. Cada um é agente da sua Felicidade, é autor da sua Felicidade, é protagonista do seu próprio destino. Portanto não cabe a ninguém, excepto numa sociedade totalitária, decidir como é que os outros vão ser felizes. Cada pessoa é intérprete do seu sentido de Felicidade. Eu sou defensor de que a Felicidade deve ser um valor Político, isto é que um decisor, quando toma medidas, quando aprova resoluções, quando desenvolve programas políticos, deve pensar nos cidadãos e na forma em como eles podem ser felizes. U sou defensor que haja um espaço para que cada um possa interpretar a sua Felicidade. Nessa perspectiva, como todas as pessoas são diferentes, o que a mim me importa é que todas as pessoas tenham espaço para ter acesso à sua Felicidade. Nós não podemos garantir que, à chegada, todos têm o mesmo nível de Felicidade, ou de Riqueza ou de Realização Pessoal, porque todas as pessoas são diferentes, mas podemos garantir que ninguém se sinta discriminado porque não tem o mesmo dinheiro ou porque não nasceu no mesmo berço ou porque nasceu mais longe do litoral ou porque nasceu mais longe dos centros de poder ou sem falar a mesma língua ou por partilhar do mesmo credo religioso ou por ter orientação sexual diferente ou por outra razão qualquer. Nesse ponto de vista a resposta que podemos dar, relativamente à questão da Felicidade, o que podemos garantir é, através das estruturas públicas, que todos tenham condições para construir o seu próprio caminho no sentido da Felicidade , ou seja garantir, acima de tudo, a Igualdade de Oportunidades, porque esse é, verdadeiramente, um valor Social Democrata. Eu penso que Carlos Coelho conhece o “It gets better project” que, recentemente, teve


uma iniciativa no Parlamento Europeu. Penso que sabe que, neste momento, a CASA detém a exclusividade dos direitos do projecto para Portugal o qual vai ter a designação “Tudo vai Melhorar”. Caracteristicamente estas matérias das minorias encontram-se tradicionalmente ligadas à Esquerda, que se acha detentora do direito ao património das questões das Sexualidades e dos Afectos. Eu acho que isto sempre se deveu à demissão da Direita até porque considero que estas questões das Sexualidades e dos Afectos são transversais às Sociedades, não podendo estar reféns de ideologias. Qual é a sua opinião? Eu concordo consigo. Eu acho que a defesa destas questões não deve escolher quadrantes ideológicos, sejam eles de Esquerda ou de Direita. Há pessoas mais sensíveis e outras menos sensíveis, há pessoas mais tolerantes e outras menos tolerantes. Mas é também verdade que na tradição da Europa, ainda que tal não aconteça na tradição portuguesa, na tradição da Europa como dizia, de uma forma geral a Esquerda foi mais arrojada na defesa destes valores do que a Direita. A Direita foi sempre, tradicionalmente, mais conservadora. Mas repare, por exemplo os comunistas foram, sempre, os mais conservadores de todos nestas matérias. Ainda hoje vemos, nos regimes comunistas que subsistem, as enormes dificuldades que se sentem nestas matérias de Discriminação relativamente às questões das Sexualidades e dos Afectos. Mas a marcha da História faz-se, sempre, no sentido de uma maior Liberdade e de uma maior Tolerância e eu quero acreditar que, quer à Esquerda, quer à Direita, as pessoas tendem para um sentido de maior Igualdade, de maior Liberdade. Falando, ainda, na questão das Sexualidades e dos Afectos o Presidente e o Vice Presidente da CASA são, há cerca de meio ano, Peritos Transnacionais para a Prostituição. Em relação à questão da Prostituição a CASA tem uma posição pública e oficial, perfeitamente definida, de defesa da Legalização da Prostituição. Pela proteção da Mulher, pela proteção do Homem, por uma questão de Dignidade e por uma questão de Cidadania. Qual é a sua posição relativamente a esta questão? Aliás nunca houve uma posição oficial da

Europa em relação à Prostituição… Em relação a essa matéria, em específico, não tenho nenhuma posição fixa, para ser sincero. De uma forma geral, digamos que de uma perspectiva meramente estética, custa-me um pouco a questão da legalização porque associo sempre a prostituição a uma exploração do corpo e choca-me a ideia de que eu possa legalizar uma qualquer forma de escravidão. Mas compreendo perfeitamente o vosso argumento de que será mais fácil proteger as pessoas, proteger a dignidade de quem faz disso profissão, assim como a saúde de quem acede a essas práticas, numa vertente de legalização, tal como sucedeu no Estado Novo. Não tenho uma posição clara, nem sequer imutável. Por outro lado nem sequer é uma questão que se coloque na Europa porque essa, como outras matérias, são da competência do Direito Nacional assim como acontece, por exemplo, com a questão do consumo de drogas. Na questão por exemplo do consumo de drogas há países que proíbem com severidade o mesmo, há outros em que o consumo é relativamente discriminalizado, à imagem do que sucede em Portugal, há outros em que é liberalizado, como na Holanda, por isso cada país tem as suas regras. Os Códigos Penais são, ainda, muito nacionais e não vislumbro, a curto prazo, possibilidade de existir um Código Penal Europeu, porque tem muito a ver com a Cultura de cada País e com o conceito de infração que varia de País para País. Nestes assuntos, inclusive, as questões e os princípios religiosos não são indiferentes. O Calvinismo de uns países, o Catolicismo de outros ou até mesmo o Laicismo de outros, tem muito peso nestas questões, não sendo muito fácil encontrar pontos comuns. Eu diria que, no plano Europeu, não será no curto prazo que seremos confrontados com um Código Penal Europeu. Eu não quero incomodar muito mais até porque não tenho o direito de o fazer. Mas, pegando em tudo o que acabou de dizer, é possível, ainda, um projecto de uma Europa comum, de Economia comum e de Política comum? Claro que sim. Mas o projecto de uma europa comum não é o projecto de uma europa única. É um projecto em que nós pomos em comum as matérias em que há vantagens em que as mesmas sejam colocadas em comum. E como

a lógica de alteração dos Tratados é uma lógica de unanimidade ou seja não é possível à Europa, hoje, enveredar por políticas ou por estratégias em que nem todos os países estejam de acordo ou seja só podemos converter em matérias comuns questões e temas em que todos os Estados Membros estejam de acordo em que sejam equacionadas, nós temos a garantia de que a dimensão da construção comum é o que resulta das matérias em que todos estão de acordo que sejam abordadas. Por isso, neste momento, eu creio que há muitas áreas em que as questões são comuns, havendo, por outro lado, ainda muitas áreas em que as coisas se podem tornar objecto de políticas comuns, sendo a governação económica claramente um exemplo e não estou nada preocupado, neste momento, em que ainda existam matérias, hoje, em que a questão do interesse comum não se consiga. Para terminar, a ultima pergunta. Aquela que considero a mais fácil e, em simultâneo, a mais difícil. Regressando à questão da Felicidade. Carlos Coelho é um Homem Feliz? Eu acho que sim. Eu acho que a Felicidade não é um estado permanente. Nós temos momentos em que nos consideramos felizes e outros em que não. Temos sempre momentos em que estamos alegres e outros em que estamos tristes. Há momentos para rir e momentos para chorar. E ai daquele que não chore ou que não ria…é porque não vive.! A vida é feita de contrastes e só é bela por ser feita desses mesmos contrastes. Num balanço geral, eu acho que sou um tipo feliz e que sou um tipo com sorte. Num balanço geral fui Deputado aos 19 anos, numa idade em que as pessoas não têm funções de responsabilidade. Fui o mais novo Deputado Nacional em toda a Europa. Fui dos mais jovens Deputados Europeus. Fui membro do Governo muito cedo. Hoje tenho 52 anos e tenho mais de 30 anos de vida pública. Os meus colegas do Parlamento Europeu, que estão na mesma fase que eu, estão todos a reformar-se. Mas eu vejo ainda, pela frente, muitos anos para fazer muitas coisas. Como tal e de uma forma geral, posso dizer que sou um homem feliz.

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BIOGRAFIAS

BIOGRAFIAS E U G É N I O G I E S TA

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uma altura em que a crise anda, como se diz, na boca do povo e numa altura em que se nota uma certa fragmentação da unidade europeia (não confundir com União Europeia) parece-me bem, depois da resenha histórica da Europa (muito breve note-se), falar daquele que é considerado o “pai” da União Europeia, o político francês Robert Schuman. Nascido a 29 de Junho de 1886 no Luxembrugo, Schuman fez os seus estudos primeiro no Luxemburgo (até ao ensino secundário) e depois na Alemanha, onde seguiu Direito, sendo eleito para a câmara da cidade francesa de Metz. Participou activamente na Segunda Guerra Mundial, fazendo parte da resistência francesa, chegando a ser interrogado pela Gestapo, conseguindo escapar e voltar a juntar-se à resistência. Após a guerra torna-se Ministro das Finanças e, logo depois, primeiro Ministro Francês, entre 1947 e 1948. No fim do seu mandato é nomeado ministro dos negócios estrangeiros, anunciando que o seu objectivo era criar uma organização democrática para a Europa, onde a Alemanha pós-nazi e democrata podia entrar. Entre os anos 49 e 50 faz uma série de discursos onde fala de uma comunidade europeia supra-nacional, cuja estrutura deveria criar uma paz duradoura entre os seus membros. A 9 de Maio de 1950 anuncia os princípios desta comunidade, que mais tarde viriam a tornar-se na Declaração de Schuman (sendo por isso considerado este como o dia da Europa). Em Abril de 1951 assina-se o Tratado de Paris, nascendo assim a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, declarando-se a data (18 de Abril) como a data da fundação real da Europa. Em 1957 é assinado o Tratado de Roma, que cria a Comunidade Económica Europeia e a Euratom (Comunidade Europeia da Energia Atómica). A evolução destas comunidades acabará por culminar na União Europeia. Como Ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro-Ministro, Schuman foi uma peça chave na criação da NATO. Serve como Ministro da Justiça e, mais tarde, torna-se o primeiro presidente do Parlamento Europeu, valendo-lhe o cognome de “pai da Europa”. Retira-se da política em 1962 e vem a morrer na sua mansão a 4 de Setembro de 1963. Actualmente está aberto um processo de beatificação, tendo Schuman já sido considerado “servo de Deus”. O seu corpo repousa na igreja de Saint Quentin, perto da cidade de Metz. ROBERT SCHUMAN

’ História

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DESPORTO

CORPO EM MOVIMENTO ANTÓNIO MARTINS SILVA

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alar de Europa nos dias que correm é falar de algo abstrato. Não sabemos bem ao que nos referimos, se ao continente, se às diversas uniões existentes: de países, de clubes, de pessoas, de outra coisa qualquer. Se falamos de ocidente ou de oriente, de legados comunistas ou mais liberais, se de autoritarismos camuflados que convergem com muita facilidade ao domínio de uns sobre os outros, a todo o custo e em beneficio de uns quantos só. O que sabemos, e facilmente, é que falar de Europa é falar de confusão, de divergência. Nem é por questões humanas ou de território como no passado, ou até de ideologias e pensamentos que mais à frente ou atrás tinham como finalidade comandar ou pelo menos orientar o povo que preenche os mais diversos sítios dessa mesma Europa territorial. Nem é por causa da religião que sempre dividiu mais do que uniu os povos, mas por um palavrão que faz questão de se manter firme, e …já veremos por quanto tempo: A Crise! Será este palavrão inocente ou anda a tapar algo que não nos querem deixar ver? Será só o resultado de inúmeras besteiras e incompetências governamentais, a que se juntam os enriquecimentos colaterais aos deveres do servir o povo e não de se servir dele? O tom politico das minhas palavras e até todas as farpas que aqui vão resvalando não são inocentes, porque este palavrão e tudo o que está por detrás e pela frente dele afeta (e como!!!) o desporto e a atividade física, embora não pareça. Ora vejamos: A atividade física sai logo prejudicada: se lembrarmos que a maioria usa ginásios e instalações do género para se exercitar, com o problema da falta de recursos financeiros é logo aqui o primeiro corte. Andar na rua e dar a sua corridinha é até mais agradável, mas os tempos de Verão já la foram e mesmo que ainda estivessem….é calor demais ….queima a pele, e claro, não se é visto e não se vê, a outra faceta das academias de atividade física - a social! Convenhamos aqui que muitos dos utentes o fazem por prazer e/ou por estética, mas há muitos outros que necessitam de forma terapêutica dessa atividade, já que não souberam usá-la de forma profilática noutras alturas ou noutras idades. E como vão pagar agora por algo que lhes custa suor e até nem gostam, “só” lhes fazia bem, mas é caro! O Desporto, bem esse meu amado, está a sofrer em toda a linha. Sempre foi uma atividade que necessitou de apoios, fossem eles estatais ou de entidades privadas, aqui já mais numa vertente de patrocínio. Agora como ficamos? Quem ajuda? Quem apoia? Obviamente que não falo do Desporto de alto rendimento e de massas como o futebol, esse sempre está protegido por algum Xeique, grupo económico e até por muitos dos

que estão por detrás do Palavrão (CRISE) e que são eleitos à base desses círculos e dessas massas que o envolvem. Falo dos desportos com menor impacto e da formação. Temos inclusive o facto de um dos maiores clubes portugueses ter deixado cair o Basquetebol profissional porque não tinha verbas! Foi uma modalidade ao ar, foram muitos miúdos e miúdas ao ar, foi um entretenimento e um espetáculo ao ar. Foram tardes de emoções e de convívio que voaram…. O mais grave é sem dúvida o futuro. Falo dos jovens e das crianças que gostam do Desporto, que criam hábitos, que querem inclusive ser atletas de topo. Como o fazem agora? Não há recursos. Sem recursos, não há treinadores competentes, não há instalações condignas, tudo se torna demasiado não atrativo. Logo, para onde vão os filhos do hoje e os homens do amanhã? Pois imaginem… não será grande o esforço. Não há apoios de lado nenhum e mesmo a ajuda dos pais que é fundamental não é o bastante. A parte formativa tem custos e esses estão deixados de lado. Vamos voltar ao Zé do café que vai treinar os miúdos porque até percebe de bola… Todos estes casos parecem muito nacionais, mas são fenómenos europeus. Em Espanha a coisa corre assim também. A Itália não consegue organizar campeonatos juvenis de muitas modalidades. Nos países mais ricos onde a realidade é bem diferente a aposta é aumentar e não diminuir o mais importante (por vezes choca-me ver nos balneários por onde trabalho os miúdos das mais diversas idades terem 2 e 3 pares de chuteiras consoante o piso onde vão treinar ou jogar e falamos que cada par é de marca e ultrapassa os 150€). Mas na Zona “Crise”, primeiro o que mais interessa é a visibilidade e a propaganda, depois as reais necessidades, sim, porque a atividade física e o desporto são uma necessidade. Será que não entendem que estão a hipotecar uma geração…que estão a criar seres biologicamente inferiores na sua fisiologia e desempenho motor e tudo o que isso acarreta para um futuro muito próximo! Está provado cientificamente que alunos desportistas têm melhores desempenhos escolares, ou seja, que o cérebro melhora e está mais capaz se também o corpo for exercitado. O governo Português, iluminado como tem sido nos últimos anos, quer “acabar “ com a Educação Física na Escola. Último reduto dos profissionais da área, onde podem pôr em prática rotinas, ensinamentos e criar gerações mais lúcidas e mais “móveis”, logo mais saudáveis e menos dispendiosas ao Estado mas…. Quando andaram a distribuir a inteligência o governo não estava, estava em Bruxelas a dar graxa aos alemães e foi no que deu…. Esperemos que o Zé do café não faça muitas asneiras, porque é tudo o que nos resta….. Até à próxima… em movimento! ’ Mestre em Desporto de Alto Rendimento

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DANÇA

Ricardo Pereira

TEMÁTICAS DA/NA DANÇA

A Dança na Europa

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tema desta rubrica vai ser diferente e desviar-se-à levianamente daquilo a que me propus na 5ª edição da ID’, que conteve a primeira crónica sobre Dança, e ondw convidei o leitor a reflectir sobre. Em vez de um carácter coreosófico e fenomenológico, apresento-me com uma nota informativa sobre a história da Dança na Europa e a sua importância no panorama mundial, conquistando, cada vez mais, um estatuto indelével, e as principais ofertas a nível escolar e profissional, que visam o futuro da Dança europeia. O ponto de partida é o início do séc. XX. Loie Fuller e Isadora Duncan, pioneiras e percursoras da Dança Moderna, encontram na Europa o local ideal para a exortação dos seus ideais artísticos e um público que as possa apreciar e aplaudir, ao contrário da sua pátria, a América. Assim, a Europa torna-se o fulcro de novas concepções artísticas pós-Ballet Clássico . Os dados estavam lançados, o jogo em aberto e a Europa torna-se o pólo profícuo artístico durante todo o séc. XX até aos nossos dias (as Artes Plásticas, o Cinema e o Teatro encontram-se aqui também homologados). Nesta analepse vemos nascer Merce Cunningham (coreógrafo sucessor de Martha Graham que faz a ponte para o pós-

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-modernismo), Pina Bausch (a mãe da Dança Contemporânea, amplamente influenciada pelo impressionismo alemão e pela Nova Dança Americana dos anos 60), a Nova Dança Portuguesa com pioneiros como Jorge Salavisa, Olga Roriz, Vasco wellenkamp, Ballet Gulbenkian e Companhia Nacional de Bailado e muitos outros nomes e correntes que hoje constituem pedras angulares na história da Dança Mundial. Exemplos disso são Richard Alston, Javier de Frutos, Dimitris Papaioannou, Wayne McGregor (tendo o seu começo na América, mas o seu âmago na Europa), Peeping Tom, DV8 (companhia londrina de Teatro Físico), Alain Platel, Les Ballets C de la B, entre tantos, tantos outros. Além da diversidade de estilos, o Ballet Clássico e a Dança Moderna nunca perderam o seu lugar nesta evolução. Assim, as escolas congratulam-se por esta panóplia de escolhas que podem ser feitas por parte de quem as dirige dependendo do seu próprio estilo e da sua própria maneira de ver a Dança. Quem quer ingressar numa carreira na Dança e pode, obviamente, terá que fazer opções devido a vários factores: - dentro da Dança Contemporânea, se prefere algo mais técnico, como a Rambert School of Ballet and


ofertas educativas e profissionais europeias contemporâneas, sob uma perspectiva historicista.

Contemporary Dance em Londres ou a Codarts em Roterdão, ou mais interpretativo/criativo, como é exemplo a Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance, também em Londres, ou a P.A.R.T.S., em Bruxelas; - propinas a serem pagas em relação às condições/ conteúdos programáticos que a escola dispõe. Por norma, as escolas de renome, como são exemplo as supracitadas, têm propinas elevadas mas ótimas condições de aprendizagem e currículos de estudo bastante aliciantes; - a projecção da escola no panorama mundial da Dança e bailarinos finalistas que ingressam no mercado; - total do financiamento que inclui propinas, alojamento, alimentação extras. Normalmente, há planos de bolsas e empréstimos disponíveis na escola. Estes factores tornam-se decisivos e impretríveis para um estudo internacional sério da Dança.

a mudar o seu programa de estudos, e o Fórum Dança, que se baseia num curso de dois anos virado para a Dança Contemporânea e criação performativa contemporânea. A nível profissional, temos a Companhia Nacional de Bailado que nos presenteia com repertório clássico e contemporâneo e várias companhias voláteis contemporâneas, no sentido de internacionalização, mas que merecem um papel ainda mais de destaque, como a Quorum Ballet, Vortice Dance Company e Companhia de Dança do Norte. Não pense, contudo, que só por Portugal conter um ínfimo mercado de trabalho da Dança que nos mantemos no fim da fila, muito pelo contrário. Mesmo com os problemas sócio-políticos que se enfrentam, coreógrafos e bailarinos lutam para que, com o pouco que se tem, conseguir fazer muito e com muita qualidade, o que se verifica. Muitas vezes, a solução é a saída para fora. Para quem fica cá, a única saída é lutar por um lugar nesta corrida interminável de dançar para viver, em que alguns chegam mesmo a sobreviver, note-se.

Em Portugal, a oferta educativa e profissional não se encontram no seu auge. Temos a Escola Superior de Dança, em Lisboa, vocacionada para a Dança Contemporânea, que neste momento sofreu cortes e vê-se obrigada

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TEATRO

TEATRO

Luís Cerqueira

DE TEATRO SE FALA

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esde a Grécia Antiga até à Contemporaneidade, o Teatro sofreu variadas mutações. E isso aconteceu aos mais diversos níveis… o figurinismo (que evoluiu da Máscara Teatral utilizada pelos gregos no séc. V a.C. até hoje), à cenografia e mesmo a nível de interpretação o ator em si vê também o seu lado técnico fortemente desenvolvido. Acompanhando todas estas mutações (progressivas ao longo do tempo) o Teatro assume diferentes linhas de criação, pois diferentes públicos e criadores conduzem à criação de diferentes obras. Temos então com o desenrolar do tempo, o desenvolvimento por toda a Europa de uma panóplia de, digamos, estilos teatrais diversos. Podemos, a título de exemplo, identificar a Comédia de Moliére, o Teatro do Absurdo de Beckett, o Teatro Clássico e Romântico de Shakespeare ou até o Teatro Contemporâneo de Sarah Kane. A Europa, constituída por variados povos, culturas e tradições é, consequentemente, constituída por uma área artística diversificada e eclética.

Concluo dizendo que, apesar de não concordar nem achar possível uma linha de criação homogénea por toda a Europa, apoio visceralmente o intercâmbio cultural entre os diversos países.

Nas últimas décadas observámos o avanço de Portugal no Teatro Contemporâneo, Espanha e França a destacarem-se no cinema (no caso português, o País tem, recentemente, conquistado vitórias, como por exemplo com o filme “Sangue do meu Sangue” de João Canijo). Mas noutros países temos assistido a evolução como a Inglaterra com o seu eterno Teatro Musical e a Holanda com a sua Arte Conceptual. Face a tal diversidade criativa lanço a questão:

Porquê?

Deveríamos nós, europeus, constituir (ou tentar pelo menos construir) uma linha de criação homogénea?

São, ainda, de vital importância as residências artísticas em países estrangeiros assim como a formação académica, pela riqueza daí adveniente.

≥ A esta pergunta a minha resposta é decididamente “NÃO!”.

≥ A Arte e o Teatro não têm limites, não devem tê-los, não podem ter!

≥ A existirem tais limites, a identidade teatral de cada país perde-se.

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Da mesma forma que cada pessoa tem a sua própria e característica forma de comunicar, ser e estar, cada criador tem a sua forma única de criar a sua obra, a sua arte. Cada criação pode, sem dúvida alguma, ser inserida numa linha de criação específica (clássica, contemporânea, musical, física...), mas é difícil tentar delimitar uma única. A par da singularidade de cada criador e da sua obra temos, ainda, os diferentes “backgrounds” de cada país. Além de uma Rússia muito técnica em relação ao actor, ao encenador,ao cenógrafo (...), surge uma Holanda muito conceptual, direccionada para o estudo do corpo e da arte conjugada com a Humanidade, e uma Península Ibérica que, apesar de tudo e contra todas as probabilidades, avança “a passo de caracol” assumindo o seu papel na área artística europeia e global.

Porque mesmo não havendo uma linha de criação homogénea, é possível ao artista europeu construir uma mente cultural eclética, possuidora de diferentes visões, perspectivas, opiniões, conclusões e conceptualizações, dessa forma contribuindo para uma expressão artística bastante mais rica, completa e complexa.


LAZER I MÚSICA

Tiago Jonas

M

O HINO (NÃO INSTITUCIONALIZADO) EUROPEU.

úsica composta por Ludwig Van Beethoven, partin-

do da Ode de Friedrich von Schiller escrita em 1785, Ode an die Freude (conhecido entre nós por Hino à Alegria ou Ode à Alegria), sempre foi conotada como sendo o Hino da Europa. Apesar de o Hino ser entoado em cerimónias oficiais da União Europeia, e em vários tipos de manifestações e eventos de carácter europeu, não é (como muitas pessoas pensam) um Hino institucionalizado pela Europa, ou União Europeia, propriamente dito. Em 1972, o Conselho da Europa (organismo que concebeu também a bandeira europeia) adoptou o "Hino à Alegria" de Beethoven como hino europeu. Solicitou-se ao célebre maestro Herbert Von Karajan que compusesse três arranjos instrumentais - para piano, para instrumentos de sopro e para orquestra. No entanto, o poema de Friedrich von Schiller não foi aceite, sendo o suposto Hino Europeu um Hino sem palavras, onde na linguagem universal da música, exprime os ideais de liberdade, paz e solidariedade que constituem o estandarte da Europa. Não obstante a adopção do Hino à Alegria pelo Conselho da Europa, este nunca foi oficialmente institucionalizado como símbolo da União Europeia em nenhum Tratado. A 29 de Outubro de 2004, foi aprovado em Roma um Tratado que estabelecia uma Constituição para a Europa- “Tratado Constitucional” ou “Constituição Europeia”- onde revogava os Tratados anteriores, criando um único Tratado e entidade subjectiva- a União Europeia- atribuindo-lhe vários símbolos (bandeira, hino, lema, moeda e dia). No entanto, devido à necessidade de ratificação do dito Tratado por parte de todos os países integrantes, esta Cons-

tituição Europeia não foi avante, devido obviamente a um claro medo de perda de soberania por parte dos países. Como é do conhecimento geral, foi assinado em 2007 o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor a 1 de Dezembro de 2009, onde desaparece a referência aos símbolos, subsistindo apenas a moeda. Deste modo, e apesar de a Ode à Alegria ser uma alusão à União Europeia, tal não se encontra formalmente institucionalizado. Hino à Alegria é o quarto e último andamento da conhecida sinfonia n.º 9 em ré menor de Beethoven, completada em 1824. A sinfonia coral mais conhecida como Nona Sinfonia é uma das obras mais destacadas do repertório ocidental, considerada tanto um ícone como a predecessora da música romântica, e uma das grandes obras-primas do compositor. Com o andamento supra referido, Beethoven foi o primeiro exemplo de um compositor importante que tenha utilizado a voz humana com o mesmo destaque que a dos instrumentos numa sinfonia, criando assim uma obra de grande alcance, que deu o tom para a forma sinfónica que viria a ser adoptada pelos compositores românticos. Em suma, e apesar de informal, a sinfonia n.º 9 tem um papel cultural de extrema relevância no mundo actual, principalmente devido à pseudo- adopção do último andamento por parte da Europa como Hino, mas também devido à sua magnitude como obra musical, levando Stephen Roe a considerar a obra “um dos maiores feitos do homem, ao lado do Hamlet e do Rei Lear de Shakespeare".

’ Música

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LAZER I LIVROS

Nicolas Martins

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uma altura em que a Europa vive uma situação preocupante, onde as vozes gritam em "uníssono" um "Basta!" ensurdecor, veja-se o exemplo do que acontece em Espanha ou aqui mesmo em Portugal, anteriores impulsionadores da Descoberta, até que ponto poderá a Literatura ser uma arma fundamental para a luta dos revoltosos, que anseiam por uma vida mais digna e equilibrada? Não precisamos de ir muito longe no tempo para recordarmos a Literatura de intervação presente em Manuel Alegre, por exemplo, numa ânsia de liberdade e de libertação apenas conseguida através da evasão lírica. Almeida Garett, por seu lado, expunha em prosa e bem ao gosto romântico todo o lado "obscuro" polítco e social da sua época, ou então José Cardoso Pires, com o fabuloso "O Render dos Heróis". Infelizmente, atualmente, pouco ou nada (talvez seja demasiado generalizador) se produz com um cariz interventivo tão vincado como o dos supracitados. Não pretendo com isto apelar à revolta mas sim à utilidade desta expressão artística que, indubitavelmente, consegue chegar a um grande número de pessoas e produzir os mais diversos efeitos, por mais ficcional que o seu texto possa ser. Por isso, é tempo de pararmos e reflectirmos, darmos aso à imaginação e escrevermos, escrevermos o nosso descontentamento, pintarmos o país com as suas cores e, através das palavras, darmos eco à mensagem. ’ Literatura

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O Design e a cultura Muçulmana Para este número da ID', com o tema 'Europa', a minha intenção seria falar sobre Design Global, as suas características, vantagens e desvantagens. Porém após ver uma notícia nos órgãos de comunicação social referente a mais uma controversa caricatura do profeta Mohammed, lançada pela publicação francesa Charlie Hebdo, achei que seria oportuno olhar resumidamente para a cultura Muçulmana, do ponto de vista do design. A importância e peso da cultura Muçulmana na Europa é inquestionável, especialmente quando olhamos para França que alberga cerca de 2.1 milhões de muçulmanos. Frequentemente vemos nos noticiários embates e choques entres as culturas nativas e a cultura Muçulmana, muito devido à falta de compreensão mútua que seria exigido para uma pacifica e harmoniosa coexistência em sociedade. É do senso comum que a cultura Muçulmana é, predominantemente, extremamente conservadora, como se verifica especialmente na publicidade e é, sobretudo sobre essas questões que irei falar nesta edição. Toda e qualquer identidade ou marca é, à luz da lei islâmica obrigatoriamente adaptada e traduzida para a língua árabe. Para este feito é necessário não só o domínio do código linguístico mas também simbólico e os seus respectivos valores, na cultura islâmica. Por exemplo, os cães são vistos como animais sujos e inferiores, os peixes simbolizam o cristianismo e os camaleões a hipocrisia, o que os leva a ser muito raramente utilizados em publicidade.

da (mesmo que seja uma garrafa ou copo de champanhe vazio!). Também, como seria de esperar, está banida a representação de qualquer forma de sexualidade que vá contra a considerada "normal" e socialmente aceite. Do ponto de vista simbólico também existem cuidados a ter, nomeadamente no uso da cruz que é proibido. A organização Cruz Vermelha teve de proceder à alteração da sua identidade para "Crescente Vermelho".

Talvez a proibição do conhecimento mais alargado é a da representação de qualquer forma de nudez, podendo ser apenas mostrada na cara, mãos e pés. Qualquer violação desta norma é atempadamente corrigida pela mão do censor. Noutros casos, efectuam-se retoques ou alterações nas imagens originais. Ainda mal olhamos para os constrangimentos culturais e sociológicos que são necessários ter em conta quando trabalhamos para algo que poderá ter visibilidade ou impacto na comunidade islâmica e já podemos ver o quão complexo é. Realidades que deverão/terão de ser tomadas em conta não só por designers mas pela sociedade em geral.

Quaisquer elementos sobrenaturais, tais como: vampiros, feiticeiros, mágicos, extraterrestres, ou outros que possam questionar ou equalizar o poder divino estão proibidos de ser utilizados, à semelhança das palavras "criação" e "todo poderoso", já que estão associadas a Deus. Ilustração ou menção, mesmo que reduzida e breve, a qualquer bebida alcoólica, está também proibi-

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3ª e última parte

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s argumentos esgrimidos, tanto a favor como contra o Acordo Ortográfico são numerosos, muitas vezes revelando um profundo desconhecimento do seu conteúdo, outras tentando trazer falsas questões para o campo de discussão. E não têm faltado também as motivações políticas e económicas, bem como diversos interesses empresariais mais ou menos bem encapotados. E no meio de tudo isto, o menos importante parece ser a preservação e valorização da Língua Portuguesa… Creio que é, nesta altura, bem evidente que sou contra o Acordo Ortográfico. Pelo menos, sou contra este Acordo. Mas para que não digam que sou contra só porque sim, porque sou comodista e não quero mudar a minha forma de escrever ou porque sou retrógrado e impermeável à mudança ou à evolução, vou “dissecar” alguns dos ditos ”argumentos” que têm alimentado esta guerra de palavras. Sejam elas grafadas pelo novo Acordo ou não. Dizem os promotores e defensores deste Acordo que… • O Acordo assegura a unidade da língua entre todos os países que a assumem como idioma oficial, salvaguardando as situações em que a divergência da escrita resulta de diferenças de pronúncia.  Mentira! Tendo em conta as inúmeras facultatividades e duplas grafias que este Acordo permite, ele é tudo menos unificador, legitimando situações nas quais é deixado ao livre arbítrio do autor a escolha da forma de grafar os vocábulos, levando in extremis a que cada cidadão tenha a sua própria ortografia. • A situação actual (pré-Acordo) é insustentável, com duas grafias diferentes, uma para Portugal e outra para o Brasil, o que poderá levar a uma deriva ortográfica extensiva a todos os países lusófonos, ficando cada um deles com grafias diferentes.  Mentira! A única “deriva” existente é a brasileira, justificada ou não pela diversidade étnica e aportes trazidos pelos imigrantes vindos dos quatro cantos do mundo que constituem a base demográfica do Brasil. Os restantes países lusófonos têm mantido uma “fidelidade” coerente ao longo de séculos ao Português de Portugal, mesmo incorporando os

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naturais regionalismos ou servido de componente essencial aos dialectos regionais ou línguas locais. • A escrita é simplificada, perdendo boa parte da sua base pseudo-etimológica, passando a escrever-se o que se diz, eliminando acentuação gráfica redundante, consoantes mudas e outros elementos “inúteis” à pronúncia correcta, facilitando o ensino da língua aos mais novos e aos estrangeiros. Mentira! Quando me conseguirem convencer que as criancinhas vão aprender com mais facilidade a distinguir um facto de um fato, um espetador de um espectador e que os egípcios agora vivem num Egito sem p, então pode ser que eu mude de ideias… • Assegurar a difusão internacional do Português, sustentando que uma grafia unificada é condição sine qua non para a aceitação do Português como língua de trabalho nas organizações internacionais, nomeadamente na O.N.U., bem como para o ensino da Língua Portuguesa no estrangeiro e para a difusão e promoção de publicações, tanto nos países lusófonos como nos restantes. Mentira! Com um Instituto Camões letárgico, que deixa o ensino do Português no estrangeiro nas mãos de quem quer que o queira fazer, nomeadamente os particulares e a Rede Brasileira de Ensino no Exterior (RBEx), gerida pela Divisão de Promoção da Língua Portuguesa (DPLP) do Ministério das Relações Exteriores, do Brasil, é de estranhar esta súbita preocupação. Quanto às publicações, é óbvio o interesse do Brasil neste Acordo, dado que até hoje não conseguiu dominar o mercado editorial em Portugal e nos PALOP. E quanto à O.N.U., vamos ver se é com este argumento que conseguem fazer com que o Português passe a ser mais uma das línguas oficiais deste organismo internacional. • Ampliar o mercado para bens culturais redigidos em Português, favorecendo as manifestações culturais dos vários países lusófonos, permitindo maiores economias de escala. Grande negócio! Aqui até os mais acérrimos defensores do Acordo reconhecem que os interesses das (grandes) editoras brasileiras falam mais alto.


E assim ficam desmontados os argumentos que tentam sustentar este Acordo. E como se tal não bastasse, existem outros, opostos, que são de difícil contestação. Por um lado, a inutilidade e insuficiência deste Acordo, que pouco ou nada unifica, que permite variações ao gosto pessoal, regional ou nacional, que é tímido e basicamente ineficaz. Por outro, o custo material deste Acordo é enorme, dado o custo da adaptação de toda o obra literária já existente, a súbita desactualização de todo o material editado versando a própria Língua Portuguesa (gramáticas, dicionários, manuais escolares, etc., o que não deixa de ser um óptimo negócio para as editoras), bem como esforço exigido às populações para a reaprendizagem ortográfica, algumas das quais já mal dominam a ortografia e a gramática tradicionais… Mas mais grave, é o abrasileiramento da escrita da Língua Portuguesa, opinião corroborada por inúmeros autores e linguistas. De entre estes, Miguel Sousa Tavares, escritor e comentador político, critica o presente Acordo, denunciando-o como um “ameaça por parte dos políticos e dos membros das Academias” no intuito de pôr os portugueses “a escrever como os brasileiros, assim lhes facilitando a sua penetração e influência nos países de expressão portuguesa”, concordando com Vasco Graça Moura quando este diz tratar-se de um “’diktat’ neocolonial, em que o mais forte (o Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal)”, questionando se “alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha”. De notar que no inglês não existe normalização ortográfica (basta abrir a lista de dicionários de inglês do corrector ortográfico do conhecido software Word da Microsoft e verificar que existem 18 versões distintas, consoante os diferentes países onde a língua é falada) e isso nunca obstou a que seja a língua de comunicação internacional por excelência. Aliás, não é só no inglês que esta situação se verifica: desde o alemão que apresenta 5 versões até ao espanhol com as suas diferentes 21 variedades, passando pelas 15 do francês e as 16 do árabe, várias são as línguas que ostentam distintas versões ortográficas do seu próprio vocabulário.

E pretender que a suposta normalização ortográfica imposta por este Acordo é a panaceia para todos os males, que o Português vai ressurgir, qual Fénix renascida, no panorama linguístico mundial, para assumir uma posição de relevo, que é sua por direito próprio por ser a 5ª língua europeia mais falada em todo o Mundo, ou, mais humildemente, pensar que por estar “Acordado” e “normalizado” o Português, seja ele de Portugal ou do Brasil, vai ser entendido de igual forma e inteligivelmente por toda a gente, é de um idealismo que roça o patético e esbarra na perfeita idiotia. Portugal tem, de uma vez por todas, de assumir que n��o quis e não pôde evitar o afastamento linguístico e ortográfico do português que é falado no Brasil. Tem de assumir que não tem o poder “colonial” de impor ao Brasil o “nosso” Português, e dar-lhe carta de alforria, vendo-o transformar-se num dialecto nacional por direito próprio, ou se isso ferir o orgulho de alguém do outro lado do Atlântico, pela minha parte podem chamar-lhe brasileiro e considerá-lo língua autónoma. Pela minha parte, é-me perfeitamente indiferente. Não é por isso que vou gostar menos dos meus amigos brasileiros ou do próprio Brasil, enquanto país irmão. Mas da mesma forma que não acho que exista legitimidade para impor uma versão mais “portuguesa” ao Português do Brasil (e mesmo que isso acontecesse, a sua eficácia seria nula, com absoluta certeza), nunca aceitarei o inverso, seja por que motivo for. Chamam-me nacionalista, retrógrado, casmurro ou o que quiserem. Mas PORTUGUÊS fala-se em PORTUGAL. E não vão ser umas almas que se acham iluminadas que vão assassinar um património de 9 séculos, um património que é meu e de todos os portugueses. Não têm esse direito. Não com a língua que me orgulho de falar. Não com o Português. Não com o meu Português!

Ricardo Pereira Leite (Escreve e escreverá Português. De Portugal.) Empresário

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DONATIVOS Numa altura em que os pedidos de auxílio e colaboração aumentam de todos os lados a CASA tenta responder a todos mas as contrapartidas diretas que recebe são, na maioria das vezes, pouco consistentes. Se todos os amigos e associados da CASA contribuírem, por mais simbólico que seja o valor, conseguiremos prosseguir o nosso trabalho. Mais do que nunca precisamos de todos os amigos que, desde sempre, fizeram da CASA a sua casa!

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DESIGNI PRODUÇÃO MODA

ESPAÇO & ROUPA ’ ABSOLUTRIBUT CABELOS & MAQUILHAGEM ’ LUÍS CERQUEIRA MODELOS ’ ELSA SILVA MARIA DE MELO FALCÃO RICARDO PEREIRA FOTOGRAFIA ’ DIOGO VIEIRA DA SILVA RETOUCHING ’ NEUZA MOREIRA

Esta Produção de Moda foi, propositadamente construída, à volta da imagética do bailado clássico. Tal não aconteceu por acaso, mas seguindo uma Filosofia e uma intenção, orientadoras, baseadas na Estética. Foi seguida a tentativa de personificar, com musicalidade, com originalidade, com ritmo e com beleza, através da Dança Clássica, a imagem subliminar do sonho europeu, consubstanciada num Bailado Europeu para a Felicidade e para a Paz. Acima de tudo porque a ideia de uma Europa de e para 500 milhões de cidadãos, ditos europeus, independentemente de todas as idiossincrasias próprias, apenas vence se solidamente sedimentada num ideário de Paz e de Felicidade, tendo por base o maior denominador comum ou seja, a Universalidade do Direito à Felicidade.

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MODA I PRODUÇÃO

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ECOS DO MUNDO

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< FRANCIS KINDER

OLHOS BRASILEIROS EM TERRAS EUROPEIAS <<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<

A

í vocês chegam à coluna Ecos do Mundo – Brasil e pensam: o que o Francis vai escrever, quando o tema é Europa? Não se preocupem, minhas aulas de geografia foram suficientemente boas para eu saber que o meu país não pertence ao velho continente. Por outro lado, não vou focar nas aulas de história e falar das relações que tínhamos com a Europa nos tempos de mercantilismo, capitalismo industrial, etc. Não é para isso que a ID' existe. Temos que falar de hoje. Da atualidade. E os laços entre Brasil e Europa estão mais fortes do que nunca, reflexos da globalização, da conectividade e, principalmente, dos pontos de proximidade entre as culturas europeias e a brasileira. Importante citar “culturas europeias” no plural, pois não acredito que haja continente mais surpreendentemente múltiplo e, ao mesmo tempo, unido. Morei em Portugal por um ano e meio e tive agradáveis surpresas, especialmente em minhas viagens por onze países europeus. A Europa é multifacetada, multicolorida, múltipla. Ela não é uma, mas muitas, feita de povos com culturas e costumes e manias completamente distintas, mas ainda assim: uma. Nas aulas de Economia Internacional Contemporânea que tive no Brasil, a Europa é uma só: um bloco, uma unidade. Não há afirmação mais desconexa da realidade que esta, pois quando aí estive notei que não há nada próximo de uma unidade. Ainda que o Euro conecte 27 países, estes têm características bastante díspares, mas que se completam. A Europa surpreende porque é um grupo que trabalha junto, apesar das dificuldades, apesar (ou por causa) da história. E em cada canto que você vá, você verá belezas. Não é a toa que um dos destinos turísticos favoritos dos brasileiros é a Europa. Seja em pacotes percorrendo as suas maiores e mais conhecidas cidades, seja em mochilões pelos países mais distantes do leste, o brasileiro adora a Europa. E não é por menos: a Europa possui belezas naturais inestimáveis, nível de desenvolvimento social sem igual, segurança, tudo aliado a uma infraestrutura fantástica.

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Outra coisa: europeu sabe se divertir. Seja relaxando sem pressa em uma praia no Chipre, agitando nas festas infindáveis da Croácia, de Ibiza ou de Berlim, passeando nos parques de Madrid, assistindo uma partida de futebol na Inglaterra, tomando um fino nas esplanadas do Porto ou visitando museus em Paris ou Munique, a Europa é recheada de lazer. Falando em museus, nada se compara aos museus europeus. Para quem gosta, é uma riqueza inestimável. Os recursos financeiros e a ainda que tortuosa história exploradora permitiram que aí se concentre o suprassumo da arte mundial, sem contar boa parte do que há de melhor conservado em aspectos históricos. Não falando em defeitos, como o “Negócios” gosta de publicar, mas apenas em características únicas, a Europa é riquíssima em diversidade. Há povos extremamente compenetrados em produzir, produzir, produzir, trabalhar, trabalhar, trabalhar, sem sequer saber o porquê (ouvi isto da boca de um alemão em férias na Cataluña, ao filosofar sobre a própria existência). Há povos que conseguem se reinventar e celebrar mesmo sem saber o dia de amanhã (como o delicioso grupo de gregos que me recebeu de braços abertos em Creta, durante um período de estudos em uma universidade de lá). Há negros, brancos, pardos, amarelos. Há gays, lésbi-


cas, transexuais, héteros. Há ricos e pobres, imigrantes e nativos, médicos, dentistas, estudantes, cantores, atores, engenheiros, economistas. Há todo tipo de gente, todos vivendo juntos. Porém, ainda há muito o que melhorar. A história de guerras, sofrimento, dor e desgraça não foi suficiente para que todos tenham sempre claras na memória as consequências da falta de respeito. Há pobreza. Ignorância. Xenofobia. Há discriminação. O maior dos problemas dos europeus: a discriminação. Todos tão diferentes, mas tão iguais que não sabem quem são, e infelizmente precisam se auto-afirmar através da destruição do outro. Aprendam com os brasileiros (ou não), mas aprendam a viver juntos. Somos todos diferentes, mas somos todos cidadãos do mundo. Aqui, somos todos brasileiros, com tamanha desigualdade quanto aí. Aí, vocês são todos europeus – respeitem-se. Deixando a dor da falta de respeito pela diferença de lado, não há nada mais belo que a mistura que se dá nas grandes cidades europeias. Quem já andou de metro em Paris sabe do que estou a falar: loiras esguias em roupas monocromáticas, negras robustas com tecidos hiper-estampados, árabes com seus véus esvoaçantes e coloridos: todas ocupando o mesmo vagão. A expressão máxima do respeito às individualidades. A riqueza de detalhes, aromas, costumes. Isto é a Europa. E não por acaso, isto é o Brasil. Como falei na 1ª edição da ID+, o Brasil possui esta mesma pluralidade de estilos, oriunda de colonizadores, imigrantes, nativos, descendentes de escravos. Brasil e Europa não são assim tão diferentes. Quando se considera apenas a União Europeia, então...

OK, no aspecto econômico ainda estamos muito atrás. Mas do jeito que as coisas estão, podemos chegar mais perto... Provocações à parte, o Brasil tem muito a aprender com a Europa, e a Europa tem muito a aprender com o Brasil. E a aproximação de ambos é positiva para os dois lados.

Vamos nos misturar? ’ Lic. Economia e Pós-Graduado em Relações Internacionais

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27 (Nações)

Estados membros

27 (Estados-federativos)

População

193,5 milhões

494,1 milhões

Área (em milhões km2)

8,515

4,325

Fusos-horários

33

Cidade mais populosa

São Paulo (11,3 mi)L

PIB

US$ 2,5 triU

S$ 14,9 tri

PIB per capita

US$ 12,5 milU

S$ 28,2 mil

Cresc. PIB (2011)

2,7%

ondres (7,6 mi)

-4,5%

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ECOS DO MUNDO

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013124317

FILIPE MOREIRA DA SILVA

SENTIMENTO EUROPEU, NACIONALIMO E 25-S

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N

os tempos que vivemos, diriam alguns que conturbados, os conceitos e as premissas da União Europeia estremecem e claudicam mais a cada dia que passa. Por um lado, temos os países do centro do continente que vivem a crise de uma forma peculiar, pouco significante, e se nutrem de mão de obra dos países periféricos. Por outro lado temos países em profunda recessão económica, nos quais os jovens se vêm obrigados a emigrar para poderem ter uma vida digna. Os salários e as regalias sociais são alvo de fortes reduções e começam a haver indícios graves de mal-estar social e inclusivé alguns ares de revolta. Certo é que os governos desses países foram eleitos democráticamente, mas por outro lado, incumpriram e atropelaram sem qualquer escrúpulo o que anunciavam nos seus projectos de governação durante as campanhas eleitorais, deixando assim de representar legitimamente os votos que receberam para o desempenho dos cargos. Isto é verdade tanto em Portugal como em Espanha (os dois exemplos que acompanho mais de perto). No caso de Espanha, a situação é multifacetada. Sobejamente conhecida é a situação de crise e o facto de o esforço de superação da mesma ser colocado maioritariamente nos ombros de uma parte da cidadania que paga, com mais ou menos protesto, as dívidas contraídas pela banca, sacrificando postos de trabalho, benefícios sociais que levaram décadas a conquistar e fazendo de tudo para que os cada vez mais escassos rendimentos dêm de si o mais possível, ( também conhecido como “tentar tirar a àgua de um barco que se afunda com um dedal...”) esforços condenados ao fracasso caso a situação não sofra uma preste alteração na política económica do país. O sentido de União Europeia, nunca foi assimilado de todo em Espanha. Continua-se a exigir Passaporte a cidadãos Portugueses ( dou fé de tal facto) para realizar trâmites burocráticos quando na realidade, nem sequer um cartão de residencia deveria ser exigido. As minunciosas regras supostamente impostas pela UE que a ASAE tão fervorosamente aplica e faz aplicar em Portugal, em Espanha são completamente desconhecidas: aqui, os traba-

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lhadores que elaboram productos alimentares não usam rede no cabelo, nem luvas de látex, e quando se entra numa padaria para comprar pão, este é pegado com as mãos, enrolado num pedaço de papel com fita-cola para que o freguês pegue nele com 2 dedos sem tocar o pão que o empregado acaba de “acariciar”, e vai-se embora, todo contente, com o pão debaixo do braço, ao ar, não vá o pãozinho abafar antes de chegar a casa... Esse monstro amorfo que é a UE para os espanhóis, nunca serviu de grande coisa... perderam a Peseta que tanto adoravam (e a nostalgia faz com que continuem a traduzir tudo para pesetas, o que me desconcerta, transcurridos 11 anos da entrada em vigor da moeda unica), e ainda por cima agora vêm lá uns senhores da Alemanha e do BCE dizerem que não mandam mais subsídios a fundo perdido e que vamos cheios de sorte, se nos emprestarem dinheiro com umas taxas de juros questionáveis. Mais vale rezar para que não tenhamos que pedir um resgate, porque aí vinham lá os da Troika, que em Portugal tanta tinta têm feito correr, averiguar as trafulhices das contas, e, como diria uma conhecida apresentadora de TV, “isso agora não interessa nada”! É portanto uma época, aproveitando a fragilidade do Governo e a dificuldade em comprir as obrigações assumidas em questões financeiras com a UE, em que surgem de novo vozes de independentismo, em concreto da Catalunha. … e digo eu: Estes é que são espertos! Afinal, aproveitavam para saltar fora de várias “canoas furadas” ao mesmo tempo: a UE, o Euro, Espanha, a Monarquia... quem sabe se não seriam a próxima Suíça, mas com sol e praia, em vez de montanhas e neve? Eu penso que os catalães, saíam a ganhar com o negócio! Mas ia ser uma chatisse arranjar outro nome para o monarca titular da Coroa Espanhola, que ao mesmo tempo é Conde de Barcelona... ora se a Catalunha fosse uma República, o Conde ficava sem condado... e ia ser uma tragédia! Mas neste afável Reino, as coisas têm aquecido bastante nos últimos tempos... e não me refiro ao clima. Tal como previa na crónica da ID nº4 de Julho deste ano, o clima de crispação social estava em banho-maria à espera de


uma mecha que se acendesse... só errei no tempo. Eu pensava, que o despelotar da situação acontecese durante o verão, para fazer combinação com a “primavera árabe” de 2011... mas os espanhóis lá iam ficar sem "vacaciones" para protestar? É muito mais práctico e eficaz fazê-las no Outono. Com o que ninguém contava, era com a resposta por parte dos agentes da “ordem” (haha). Ao contrário de em Portugal, onde foi público que os polícias que controlavam as manifestações até se solidarizavam em parte com a causa e por isso tudo correu sem sobressaltos de maior... em Espanha, as coisas continuam ao rubro. Em todas as manifestações que têm havido, com maior relevância a do dia 25 de Setembro (curioso número... coincidência?) e a de sábado 29. Na primeira, a resposta da polícia foi de tal maneira desmesurada, que certamente haverá quem tenha estado em casa a ver as imagens e que se sentisse revoltado e enojado, com vontade de sair para a rua em número de tal maneira brutal, que não houvesse nenhuma acção policial possível. Para além das já convencionais “traulitadas” com os bastões, desta feita houve show de cor e de som. De cor, vermelho sobretudo, do sangue que escorria das cabeças de manifestantes, muitos deles, surpreendidos e indefesos, que sem nada terem feito, levaram por tabela; e de som, porque houve um fartote de disparos de “balas de borracha” (eu ainda gostava que me dissessem se isso por acaso dói muito, porque pelo nome, parece um jogo tipo paintball), em suma, UMA VERGONHA! O expoente máximo da coisa, foi o assalto à principal estação de comboios suburbanos de Madrid, em Atocha, por parte dos “Anti-Distúrbios” que se dedicaram a repartir paulada a torto e a direito indiscriminadamente entre manifestantes que ali se tinham refugiado e transeuntes que apenas regressavam a suas casas depois de mais um dia de trabalho... (tendo chegado mesmo a agredir violentamente um homem que sentado num banco da estação, protegia entre os seus braços um jovem numa cadeira de rodas e que nada tinham que ver com os protestos). Além de impedirem os profissionais dos meios de comunicação que acompanhavam os acontecimentos, de fazerem o seu trabalho, manietando-os, destruíndo material gráfico, agre-

dindo-os, e ameaçando-os com prendê-los por suposta obstrução ao labor policial e resistência à autoridade... Não é de minha autoria pessoal a comparação entre a Policia Nacional de hoje em dia e a de tempos da ditadura, sendo esta última, e segundo a Wikipédia, herdeira directa da primeira: <O Corpo de Polícia Armada e de Tráfico (em espanhol:Cuerpo de Policía Armada y de Tráfico), também conhecida como Polícia Armada, foi um corpo de polícia espanhol criado pela ditadura franquista a seguir à Guerra Civil Espanhola (1936-1939), mediante as leis de 3 de agosto de 1939 e de 8 de março de 1941. Tinha como missão a vigilância, total e permanente, assim como a repressão quando isso fosse necessário. Os seus membros eram conhecidos popularmente como "los grises" (os cinzentos), por causa da cor do uniforme. A instituição foi reorganizada durante a "Transição Espanhola" (para a democracia) e em 1978 foi substituída pelo Corpo Nacional de Polícia.> Os métodos continuam a ser os mesmos... uma antítese numa sociedade dita “Democrática”. Repressão pelo uso desmedido da violência, não trazerem número do crachá no uniforme (o que é ilegal, fazendo deles, super-cidadãos, por cima das leis às que se cingem os demais) e impedirem o labor dos meios de comunicação numa tentativa de controlar o alcance da notícia... esquece-se esta gente é que estamos em pleno Séc XXI, era da tecnologia, e que já não se cala um povo só à cacetada! Mas também, o que seria de esperar num país onde dependendo do meio de comunicação que se cite, as notícias parecem ser ou sobre assuntos diferentes, ou sobre dimensões desconhecidas à Humanidade? Os media estão fortemente politizados, sendo por isso muitas vezes necessário recorrer à imprensa internacional para se ter uma ideia imparcial do sucedido. Sinceramente espero que as coisas mudem, que os governantes se lembrem do objectivo das funções que desempenham, as coisas acalmem para não ser necessário ver outra vez tanto despropósito... Ou isso, ou se tiver que ser, algo o suficientemente forte que dê uma volta definitiva ao assunto... ’ Director Clínico

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ECOS DO MUNDO

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043121430

MARÍLIA LOPES

E A EUROPA ALI TÃO... LONGE!!

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A

Europa é, ainda, sinonimo de beleza, "glamour", de arte e cultura, por todo o mundo. Viajei muito, quase sempre pela Europa, mas foi preciso viver no Japão para ter um sentimento novo em relação a esta. Aqui descobri que sou europeia, mas principalmente que gosto de ser... gosto muito! O facto de ser portuguesa passou para 2º plano, aqui não sou portuguesa sou europeia, e que saudades tenho muitas vezes da Europa. Nunca tinha percebido o fascínio do resto do mundo pela Europa, mas quando caminho pelas ruas sinto falta da beleza da nossa arquitetura, sinto falta do "glamour" da organização urbanística, e agora percebo... O sonho europeu,um banco central único, o esforço pela paridade económica, a moeda única, a livre circulação de pessoas, não parece nada demais quando vivemos sempre pela Europa, mas é!! Circular de país em país sem necessidade de vistos ou de fazer câmbios é um conforto que só damos valor quando estamos fora, é de dar inveja ao resto do mundo! E os japoneses não são excepção, têm adoração pela Europa, principalmente por Paris. Para eles tudo que vem da Europa é bom, tudo o que um europeu faça é espetacular!! Gastam muito, muito dinheiro em tudo que seja relacionado com a Europa. Vi mais vezes a Torre Eiffel aqui do que em Paris! Alguns chamam a esta "imitação" de tudo o que é ocidental de globalização, pode ser.. mas é uma pena, o Japão tem uma cultura fantástica. Acredito que mais cedo ou mais tarde muitos japoneses trocarão o Sushi por um Big Mac. Hoje isso ainda não acontece, mas em muitas outras coisas sente-se essa troca, é exemplo a procura constante por uma aparência física ocidental. Existe de tudo para tornar os olhos maiores e mais arredondados, a cor de cabelo clara também é a preferida dos japoneses tanto para homem como para mulher,

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a moda e as marcas europeias estão a entrar em força por aqui. Fico muito triste ver um povo perder a sua identidade por não valorizar o que tem. E o mais incrível é que a maioria nunca foi à Europa e provavelmente nunca irá! Mas os japoneses não têm só fascínio pela Europa. A América tem também um grande peso por aqui, o que me deixa um bocado indignada, uma vez que a relação entre os Estados Unidos e o Japão sempre foi má. Percebe-se uma contrariedade nessa idolatria, porque os EUA sempre trataram o Japão de forma desigual, forçaram a abertura comercial do país, instalaram bases militares (como a de Okinawa). Além de terem lançado duas bombas atómicas em cidades japonesas, matando milhares de civis. Claro que há o outro lado da moeda, porque o Japão antes e durante a Segunda Guerra Mundial não era um país ingénuo. A minha estadia no Japão fez-me entender uma coisa, o ser humano gosta do que é diferente, na Europa vemos pessoas vestidas de "Lolitas", que ficam completamente desenquadradas com o resto da sociedade, no Japão vemos pessoas loiras de olhos grandes verdes e azuis. O fascínio não é pelos ideais das sociedades mas sim pela diferença, simplesmente pela diferença. Para finalizar, e voltando à bela e velhinha Europa, sinto-me muito vaidosa por ser europeia, e com um sentimento novo em relação às minhas raízes. A Europa passou a ser o meu País e Portugal a minha cidade.

’ Lic. Educação Física

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FRASES COM’TEXTO

Sim, confesso. Sou e fui um dos maiores chibos da História!

Vai ser um enorme aumento de impostos. VITOR GASPAR, MINISTRO DAS FINANÇAS PORTUGUÊS

O Governo ultrapassou a linha da indignidade. FRANCISCO LOUÇÃ, COORDENADOR DO BLOCO DE ESQUERDA

Portugal tem estado a fazer progressos muito, muito significativos. MARIO DRAGHI, PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL EUROPEUA

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FRASES COM’TEXTO

IKER CASILLAS, GUARDA REDES ESPANHOL DO REAL MADRID


Este Governo está morto. ANA DRAGO, DEPUTADA À ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, PELO BLOCO DE ESQUERDA

Com a ajuda de Deus e de todos vocês, vou ser um melhor Presidente . HUGO CHÁVEZ, PRESIDENTE DA REPÚBLICA VENEZUELANA E RECANDIDATO

Agora é que o País está de tanga MÁRIO SOARES, EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUÊS

No oceano em que o navio português foi posto há ventos favoráveis a soprar PEDRO PASSOS COELHO, PRIMEIRO MINISTRO PORTUGUÊS

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FRASES COM’TEXTO

A redução da TSU é uma medida extremamente inteligente. Os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas

Temos uma comunicação social a quem tudo é permitido. RUI RIO, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO

Os gays são nojentos e a maioria tem SIDA. PARIS HILTON, HERDEIRA DO GRUPO HILTON

O Governo está a afundar o País. ARMÉNIO CARLOS, SECRETÁRIO GERAL DA CGTP

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FRASES COM’TEXTO

ANTÓNIO BORGES, CONSULTOR DO GOVERNO PORTUGUÊS PARA AS PRIVATIZAÇÕES


Carga fiscal tem de ser atenuada! PAULO PORTAS, MINISTRO DE ESTADO E DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS PORTUGUÊS

Vou aposentar-me dentro de dois meses. O comboio chegou à estação. Hoje, para dirigirmos uma empresa, precisamos de força física e anímica e resistência e eu já não as tenho. Deixo-me quebrar com mais facilidade. Tenho uma sensação de dever cumprido e saio sem qualquer frustração SOARES DOS SANTOS, PRESIDENTE DO GRUPO JERÓNIMO MARTINS

Os gays são pessoas que ainda não estão completamente desenvolvidas PAPA BENTO XVI

Se queremos ser presidentes, devemos dizer a verdade!” BARACK OBAMA, PRESIDENTE DOS EUA E RECANDIDATO

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DESCØNSTRUIR

Novos desafios para a Europa

Paulo Rangel - De p u t a d a d o P S D

1- O conceito “Europa” é um conceito geográfico e geopolítico que, como tal, é intemporal. Se com ele, de um modo mais restrito, queremos significar uma “civilização de inspiração greco-romana e judaico-cristã” creio que, no mundo globalizado e plural de hoje, faz mais sentido do que nunca. Na verdade, perante a diversidade global, os europeus podem reencontrar a sua matriz comum. 2- Creio que é a desconfiança recíproca entre as lideranças políticas dos Estados e nações europeias, desconfiança que é canalizada e até amplificada para os respectivos povos e populações.

3- Não, não faz. Com efeito um dos problemas da “moeda única” é a ausência de uma união política de inspiração ou base federal. 4- Acho que não está, designadamente o propósito de servir de estímulo e catalisador da convergência real entre as economias dos vários Estados membros da zona euro. 5- Sim, concebo perfeitamente. Embora talvez não lhe desse essa designação para não lhe dar o estatuto análogo aos chefes de Estado dos vários países. Do que a UE precisa é de um chefe de governo comum, com essa legitimidade eleitoral directa ou equivalente e não propriamente de um chefe de Estado representativo. 6- Dadas as incógnitas, a incerteza e a volatilidade do presente momento, não me sinto capaz desse exercício de prospectiva. Uma coisa são os meus desejos profundos de uma Europa federal, outra, bem diversa, são os meus prognósticos…

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1. O conceito “Europa”, ainda faz sentido? 2. Qual o maior problema/desafio com que a União Europeia se confronta? 3. Faz sentido falar em “moeda única”, sem “política única”?

An a G o m e s - De p u t a d a d o P E p e l o P S

1- O conceito "EUROPA" continua a fazer sentido, hoje mais do que nunca. Só dentro de uma União Europeia forte e coesa, qualquer dos seus Estados Membros encontrará saída para a resolução dos grandes desafios colocados pelo mundo globalizado e multipolar em que actualmente vivemos. A crise actual, que diz respeito a toda a Europa e não apenas aos países sob tutela da Troika, redundou num desastre do qual só poderemos sair com mais Europa; mas uma Europa com liderança política e visão futura, que proporcione uma governação económica robusta e consistente. O que só será possível num quadro federal mas realmente democrático. Sou por uma UE federal e democrática. 2- O maior problema/desafio que a União Europeia actualmente enfrenta é, porventura, o de voltar ao primado da política sobre a economia e contribuir para a regulação económica e financeira no seio da UE e a nível global, bem como o de alcançar uma maior coesão económica, fiscal e financeira. Só assim a UE poderá voltar a políticas que visem o pleno emprego e o modelo social europeu. A economia europeia não recuperará competitividade se a UE continuar sem ambição e estratégia para resolver conflitos com implicações para o seu aprovisionamento energético, alem de para a paz mundial. Se continuar com políticas de comércio internacional que fomentam o "dumping" social e fiscal e tornam os membros ricos da zona euro cada vez mais ricos, enquanto desindustrializam os mais pobres (veja-se a divergência estrutural entre as economias de Portugal e da Alemanha, por exemplo). Se for incapaz de ajudar a vizinha "primavera árabe" a não degenerar em violência e pressões migratórias, antes a ajudando a florir democrática mas também economicamente; se negligenciar o potencial explosivo de sociedades em crescimento acelerado, tanto como a corrupção e desigualdade, Luanda a Pequim. Se


4. Acha que a moeda única está a servir os propósitos da sua criação? 5. Concebe a eleição de um futuro “Presidente dos Estado Unidos da Europa”? 6. Como imagina a União Europeia daqui a 20 anos?

continuar a negligenciar a regulação financeira a nível global, deixando proliferar os paraísos fiscais que protegem a evasão fiscal e outra criminalidade e arrasam a intervenção estatal sobre as próprias economias nacionais. A resolução da actual crise económica, causada pelas políticas de direita neo-liberal, é um dos grandes desafios para uma Europa verdadeiramente democrática e com governação centrada nos interesses e aspirações de todos os cidadãos europeus. Os europeus precisam de acordar para a urgência de integração política nas relações externas da União. O Tratado de Lisboa trouxe inovações, em especial a criação de um serviço diplomático europeu, mas os 27 governos e as instituições da UE não conseguiram ainda por em pratica uma estratégia coerente, fundada nos princípios, nos interesses e nos objectivos da União no mundo e para o mundo. Pelo contrário, a crise económico-financeira vem exibindo a fraqueza da UE, quando a resposta à crise – e a própria segurança europeia - exigem mais Europa internamente e também nas suas relações com o resto do mundo. 3- Não faz sentido falar de moeda única sem uma política económica que insista no crescimento e que implique uma harmonização fiscal – condições necessárias de uma verdadeira "União Europeia" forte, que seja capaz de ultrapassar a actual "soberania" dos mercados e da especulação financeira, assegurando os princípios essenciais da solidariedade e da igualdade bem como os objectivos do pleno emprego e da sustentabilidade do modelo social europeu. 4- Não, como a crise demonstra, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) nunca foi realmente posto em prática na vertente "crescimento". Ao invés, as divergências macroeconómicas entre os Estados-Membros da UE aumentaram. O PEC está a pôr-nos a decrescer. No entanto, e apesar de todas as insuficiências, sem a UE e sem o Euro estaríamos hoje ainda mais à mercê da “soberania” dos mercados financeiros, que nos arrasam o emprego, nos arruínam os cofres públicos e nos amarram à ditadura das emissões de carbono e da destruição da natureza. Precisamos de salvar o Euro através de uma verdadeira governação económica na UE. Todavia, não haverá governação económica na zona euro, nem mercado comum, nem meios para financiar o crescimento e o emprego e para sairmos da crise sem harmonização fiscal e

combate à evasão fiscal na União Europeia. Lamentavelmente, o novo Pacto Orçamental (PEC II) é a demonstração de que o crescimento e o emprego continuam a ser clamorosamente ignorados pelos líderes europeus. 5- Sim, concebo na medida em que defendo um sistema político federal, a meu ver o mais susceptível de dotar a Europa dos instrumentos necessários para melhorar o seu funcionamento interno e reforçar a sua influência no exterior. Um "Presidente dos Estados Unidos da Europa" directamente eleito pelos Europeus, aos quais teria de prestar contas, reforçaria a unidade interna e aumentaria a visibilidade e credibilidade exteriores. O que só beneficiaria a governação e a democracia europeias. Espero que as próximas eleições europeias (em Junho de 2014) permitam já eleger um Presidente da Comissão Europeia de entre os nomes propostos pelos partidos políticos europeus. 6- Imagino uma Europa Federal que utilize o seu peso económico e político para fomentar crescimento, justiça social e a paz a nível global. Nenhum governo europeu, por mais empenho que ponha na diplomacia económica ou na ambição política, vai conseguir alcançar esses objectivos sozinho, se não contribuir para por a UE a actuar estrategicamente e a fazer valer o seu peso a nível global. Tanto mais que, fora de portas, estão povos também afligidos pela crise económico-financeira, estão mercados onde se ganham balúrdios a especular contra o euro e estão também oligarquias anti-democráticas interessadas em tirar partido de uma Europa em crise, não visando apenas lucros imediatos, mas tecer a sua própria teia de dominação global. Motivos mais do que suficientes para que repensemos as estruturas de governação da UE a longo prazo. Espero que, dentro de 20 anos, o processo da cooperação europeia já tenha atingido um grau de integração caracterizado por uma melhor, e mais clara, separação de poderes, numa Europa com indiscutível legitimidade representativa e democrática, dotada de um Parlamento Europeu com o poder de propor leis, um Senado em que todos os Estados-Membros estejam em pé de igualdade substituindo o actual Conselho Europeu, e uma Comissão Europeia com um Presidente directamente eleito pelos Europeus funcionando como um verdadeiro chefe de um governo europeu. Só neste caminho sairemos da actual crise.

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DESCØNSTRUIR

Novos desafios para a Europa

Rui Taveres - De p u t a d a d o B E

1-O conceito que faz mais sentido é o conceito “Democracia”. E numa época em que a maior parte dos problemas que temos para resolver são problemas transnacionais, a Democracia pode e deve, também, tornar-se transnacional. Efectivamente eu não sou grande adepto do princípio “mais Europa” em abstrato, até porque isso pode significar tudo e mais alguma coisa. Pode significar, por exemplo, uma Europa mais autoritária. E eu com isso não concordo. O conceito “mais Europa” pode ser instrumentalizado para as mais diversas vertentes. Como tal eu sou, isso sim, defensor de “mais Democracia”, “mais Coesão”, “mais Igualdade”. Estes objetivos sei o que significam em concreto e sei que podem e devem ser atingidos. “Mais Europa” pode levar-nos a questões bem mais complicadas e, acima de tudo, mais perigosas para a Democracia. Sou a favor, isso sim, de um relançamento democrático da União Europeia. 2-Há três coisas que precisamos de evitar a todo o custo na União Europeia: A primeira é que ela se transforme num cartel de Estados. A segunda é que a União Europeia se transforme num Super Estado centralizado e sem Democracia. E a terceira é que ela se transforme num conjunto de nacionalismos enclausurados. E o que eu acho assustador é que estas três questões, que é fundamental evitarmos, estão a acontecer em simultâneo. E esta realidade a que estamos a assistir hoje é o reflexo da falta de Democracia na Europa. 3-O que nós descobrimos com esta crise é que a Moeda Única tornou-se num instrumento consubstanciador de poder. É por isso que precisamos de Democracia Europeia para não cairmos precisamente naquele cenário a evitar de que falava há pouco: o da criação de um Super Estado autoritário, sem Democracia. 4- Não, de todo. É extraordinário como nos afastámos dos princípios que justificaram

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a criação da moeda única. Neste momento ouve-se dizer que, para continuarem no euro, há países que terão de reduzir em um terço os salários dos trabalhadores. Se virmos as últimas contas do FMI, sugere-se lá que é necessário cortar ainda mais drasticamente nos salários dos trabalhadores. Neste momento está a instituir-se a ideia generalizada de que, para estarmos no euro, muita gente tem de ficar para trás. Ora isto não pode ser. Não foram esses os princípios que consubstanciaram a criação da moeda única. O euro não foi criado para que as populações fossem sacrificadas, nomeadamente em termos do seu bem estar ou da sua capacidade de acesso aos bens de consumo. O euro fez-se para beneficiar toda a gente. Não é verdade que, para que o euro se torne sustentável, isso tenha de significar o sacrifício das populações. Porém, essa é a realidade com que nos confrontamos em diversos países, nomeadamente em Portugal. Mas não foi para isso que foi criada a moeda única. A ideia de que a moeda única foi criada para benefício das populações parece ter sido um argumento eleitoral que foi esquecido e isso é uma fraude. A moeda única tem que servir, em concreto, o benefício das populações. 5-As minhas preferências direcionam-se no sentido da Democracia Parlamentar. Acho absolutamente essencial que o Executivo da União, que é a Comissão Europeia e não o Conselho Europeu, seja legitimado eleitoralmente. Há gente que defende que quem deve mandar na Europa deve ser o Conselho Europeu e que a Comissão Europeia deve ser um tipo de Secretariado. Eu não concordo, de modo algum, com essa corrente de opinião. Eu acho que o órgão executivo da União Europeia é a Comissão Europeia e que esta deve ser legitimada eleitoralmente. Ou seja, eu defendo que os 500 milhões de Europeus devem ser chamados a legitimar, pelo voto, a existência da Comissão Europeia. Efectivamente nós temos Tratados que consubstanciam o funcionamento da União Europeia, ainda que muitos deles sejam demasiado genéricos e vagos. Ainda não pusemos no terreno uma maior proximidade entre os cidadãos e as instituições europeias através do poder e legitimação do voto. Não defendo a existência de qualquer tipo de presidencialismo europeu. Por outro lado, não considero que a experiência americana possa ou deva ser transposta para a realidade europeia, nomeadamente com a eleição de um suposto “Presidente dos Estados Unidos da Europa”. Não é esse tipo de modelo que defendo. Nós temos, por exemplo, uma Chanceler Alemã que fala para o seu próprio eleitorado e falamos de uma população de cerca de 80 milhões de alemães. Nós temos o Presidente Francês que fala para o seu eleitorado e falamos de um universo eleitoral de cerca de 70 milhões de cidadãos franceses. É imperativo que se comece a falar e a pensar num eleitorado europeu, de aproximadamente 500 milhões de cidadãos. Teríamos, assim, um Executivo Europeu, que falaria para um eleitorado europeu. 6-Acho que nós devemos estar no fazer e não só no adivinhar Não vale a pena estarmos em casa a fazer previsões sobre uma coisa que depende de nos levantarmos para fazer. Em termos concretos a Europa será aquilo que os cidadãos europeus quiserem. Será aquilo para o qual os cidadãos europeus se levantarem e disserem que querem. É fundamental que os cidadãos percebam que se não têm Democracia Nacional, também não têm Democracia Europeia — e vice-versa. E é fundamental que estes dois vértices de democracia se reforcem um ao outro. Penso que estamos num momento em que é necessário que os cidadãos se levantem, que é preciso uma “Primavera Europeia”, tal como sucedeu com a “Primavera Árabe”. É necessário que passe a existir Democracia Europeia, muito para além da Democracia que os diversos Estados têm a nível local.


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FARPAS

barão de la palisse

“Oh Senhor Doutor…está tudo doido?” Foi com esta retumbante interrogação, quase agressiva, como se eu alguma culpa tivesse, que Maria, a minha fiel empregada, conselheira, ouvinte, cuidadora, protectora e, muitas vezes, inspiração para estas “Farpas”, quase atirou o chá e os biscoitos para cima da mesa do jardim, assim interrompendo o meu pacato voar pelo tempo. Parecia, assim, concentrar em mim a origem e a causa de todos os males do Mundo e, acima de tudo, os de Portugal. “Porque diz isso, Maria?”, retorqui, mais como gerador de período de latência para tentar compreender ao que a mulher se referia do que como uma verdadeira interrogação que pressuponha uma resposta. “O Senhor Doutor não tem lido as notícias?” “Tenho acompanhado”, anui cauteloso, deixando em aberto a oportunidade para ela desenvolver o raciocínio… “O Desemprego a aumentar em catadupa, as Famílias sem dinheiro, as Empresas a fechar e vem, agora, o Ministro das Finanças falar em novo aumento de impostos…” “O que se passa, Maria, é que Portugal tem, realmente, uma enorme dívida para pagar…e que tem que ser paga!” “A realidade, Senhor Doutor, é que as pessoas habituaram-se mal, muito rapidamente!” , atirou ela, acintosa. E continuou…”São os telemóveis de marca, as roupas de marca, tudo do bom e do melhor. Algum dia teríamos que pagar isto tudo. Antigamente ninguém sabia o que era um telemóvel, muito menos conheciam os mais modernos. Antigamente ninguém sabia o que era uma camisola de marca estrangeira. Agora ninguém quer roupa sem ser de marca. Olhe, ainda há dias foi um berreiro aqui na vizinhança. Imagine que o Luís, o miúdo aqui do lado, berrava que se ouvia na rua. Até pensei que se tinha aleijado ou que tinha morrido alguém. Vai-se a ver o festival era todo porque queria que a mãe lhe desse dinheiro para comprar umas sapatilhas. Mas não podiam

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ser umas quaisquer. Tinham que ser da marca que ele queria. E a coitada da mulher está desempregada e sobrevivem da reforma por invalidez do marido. Ele foi mineiro e apanhou a doença das minas…” “Silicose”, completei… “Isso mesmo. Mas só com a reforma dele eles têm que apertar o cinto e o catraio não percebe isso. Porque queria e queria o raio das sapatilhas. Foi um berreiro, que a casa vinha abaixo!” “Esta nova geração vive e sobrevive das marcas…”, insinuei. “Oh Senhor Doutor…mas isso não pode ser. Se não há dinheiro, não há vícios, já dizia o meu santo paizinho, que Deus lá tem. Mas que raio têm de especial as sapatilhas? Não são para pôr nos pés? Não são para calcar o chão e as pedras?” “É por serem de marca conhecida, que a Monda vende e as revistas e as televisões publicitam à exaustão. É a valorização entre os pares, necessária aos Adolescentes.” “Não sei se são os pares ou não. Isso são coisas que o Senhor Doutor diz porque estudou e lá terá a sua razão. Mas eu apenas sei é que o mais certo é serem sapatilhas feitas aqui no Norte, a muito baixo custo, que depois vão para o Estrangeiro para pôr a etiqueta da marca e depois voltam para o nosso País, mas agora muito mais caras. E o povo não vê isso. Ainda por cima são iguais a todas as outras sapatilhas. São de borracha, têm atacadores e são para usar.” “É a tirania da Moda, Maria, que a Europa, ainda por cima, fez aproximar de nós…” “Oh Senhor Doutor, mas Portugal é um País pobre. Esta gente ainda não se apercebeu disto? Nós não temos ouro, não temos petróleo, não temos diamantes…nós só temos a terra, que ainda vai sendo nossa. Não podemos querer estar ao nível dos outros países ricos. Nem podemos ser pobres, com gosto de ricos…” “Houve uma total inversão dos valores estruturantes da sociedade portuguesa, Maria”, acrescentei, acompanhando e tentando sustentar o


discurso dela. “Mas afinal estamos em crise ou não Senhor Doutor?”, interrogou ela, não com vontade de obter resposta, mas apenas a título de interjeição, que lhe permitisse continuar o raciocínio. “Esquecemos a sopa, a fruta, os legumes, a comida caseira. Agora só querem aquelas porcarias dos hamburgers e das pizzas. E isso é tudo plástico. É tudo gorduras. Olhe que até aqui na aldeia o café que vende aquelas porcarias é o único que se está a aguentar! É gente pobre, com gostos de rico, Senhor Doutor”! “Pois”, assenti eu, suspeitando que o discurso ainda não tinha terminado. “E depois falam do desemprego. Olhe, Senhor Doutor, aqui na aldeia é uma desgraça na época das colheitas. Destes novos ninguém quer ir apanhar fruta. Acham-se todos muito finos. Mas depois vão para o Estrangeiro e lá já não se importam de passar a vida a limpar sanitas. Mas aí ninguém os conhece. Já não precisam de se armar em finos. Que têm o rei na barriga…” “Somos um povo muito complicado, Maria. E a Europa não ajudou. Nesse aspecto temo que tenha piorado.” “Não somos complicados, Senhor Doutor. Estamos complicados, isso sim. É como com as manifestações. Aquela grande, de Setembro, que juntou um milhão de pessoas, essa ainda compreendi. Agora as outras, todos os dias, em frente à Assembleia da Républica, aquilo é tudo uma farsa! Se o povo está aflito e não tem dinheiro pata comer, como tem dinheiro para ir todos os dias para as manifestações?” “Vendo bem a Maria tem razão…” “Aquilo não é povo Senhor Doutor. Aquilo é a Esquerda, meninos filhos de Papá, que a Esquerda os tem e muitos. Eles querem é armar confusão, Senhor Doutor. Esta gente não consegue chegar lá pelo voto por isso querem tentar lá chegar pela confusão. São tempos difíceis, muito difíceis mesmo, Senhor Doutor. Mas o povo não ganha nada com a confusão. Só perde.”

“É a imagem que passamos para o exterior, Maria, que se torna complicada. Há interesse em passar uma imagem de caos europeu, como se todos fossemos a Grécia.” “Mas aí, Senhor Doutor, o Governo tem a culpa toda. Não sabe falar ao povo. Não sabe apresentar as políticas de forma a que o povo, o verdadeiro povo, entenda….” “Há uma enorme falta de comunicação política, Maria. Há um enorme défice de passagem da mensagem.” “Foi como a história da bandeira portuguesa de pernas para o ar, lá em Lisboa, Senhor Doutor, no 5 de Outubro!” “ O que quer dizer com isso, Maria?”, interroguei, confuso. “A culpa passou como sendo do Cavaco. Foi ele que ficou mal na fotografia. Foi ele que foi crucificado na Praça Pública. Foi ele que foi gozado. Mas afinal a culpa foi da Câmara, que é socialista…” “Não está a dizer que foi de propósito, pois não, Maria?” “Não me admirava nada, Senhor Doutor. Esta gente perdeu a vergonha. Perdeu os limites. Mas olhe, Senhor Doutor, eu é que ainda não perdi a vergonha. Vergonha tenho eu que ter, que estou para aqui na conversa e o trabalho a amontoar!” “Não se preocupe, Maria, estas nossas conversas são ótimas…” “Isso é o Senhor Doutor a dizer, por simpatia. Mas tenho que ir trabalhar…” E assim se foi a mulher e eu fiquei absorto nos meus pensamentos. Era tão, mas tão importante, que o governo português conseguisse auscultar e ouvir o povo, mas o verdadeiro povo e não os agentes políticos travestidos de população anónima. É primordial, antes que seja tarde. Demasiado tarde!

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Revista ID' | Nº6 - Outubro 2012