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Quasar Imagem

CARTA AO LEITOR

www.revistagrauca.com.br contato@revistagrauca.com.br

Conselho Editorial Bárbara Souza, Tom Correia, Vanice Mata e Vera Regina Jornalista Responsável Bárbara Souza DRT-BA 1700

D

a concepção ao primeiro número da GRAUÇÁ foram quase nove meses e vidas inteiras pulsando em busca de uma realização. Assim, procuramos mostrar numa publicação gratuita a variação temática e a riqueza de nuances de um lugar particularíssimo

como a Península de Itapagipe, região

que desperta carinho e boas lembranças em quem já passou por aqui. No caso dos itapagipanos, basta prosear com um deles (um de nós!) para perceber a ligação umbilical que une homem, a terra e, naturalmente, o mar.

Escolhemos o nome “Grauçá” pela forte simbologia que o destaca. Um simpático, arisco e veloz crustáceo “albino” [foto acima], que ainda habita nossas praias, representa o que é diferente, ilustrando a agilidade que a notícia e a comunicação exigem e a resistência às dificuldades em meio ao seu habitat litorâneo. E não foi coincidência escolher o 29 de março como data de lançamento: os 461 anos de Salvador serão o marco inicial da trajetória da GRAUÇÁ.

Nesta primeira edição trazemos o perfil da Itapagipe de hoje, apresentando seus contrapontos com imagens feitas pelo fotógrafo Frederico Neto. Temos também uma entrevista exclusiva com a escritora

Cecy Ramos, autora do livro “Península de Itapagipe em Quadrinhos”.

Nossos colunistas de estreia, Danielle Schunk e Orlando Valle, questionam, respectivamente, a conduta de empresários em relação aos seus clientes e a delicada desapropriação prevista para a Boa Viagem. Apresentamos ainda uma crônica hilária de João Niquim sobre uma situação muito comum nos ônibus que circulam pela Massaranduba. Em “Filhos da Terra”, conheça Vado, o inventor do Trio Mal-assombrado que promove a alegria de crianças e adultos, da Lavagem do Bonfim ao Réveillon. Mas há muito mais, basta folhear página por página e ver a Península de outros ângulos.

CONCEPÇÃO E PROJETO GRÁFICO Direção Executiva|Vera Regina de Freitas vera@quasarcomunica.com.br REDAÇÃO Coordenação Editorial | Tom Correia tom@quasarcomunica.com.br Revisão | Bárbara Souza e Laís Santos COMERCIAL Direção Executiva | Vanice Mata vanice@quasarcomunica.com.br Secretária | Aline Matos aline@quasarcomunica.com.br CONSULTORIA Andréia Reis PRODUÇÃO Ctp e Impressão | ROCHA IMPRESSÕES Fotografia | Nilton Souza (edição 1) Frederico Neto e Quasar Imagem TIRAGEM | 3.000 exemplares AGRADECIMENTOS

Esperamos, sinceramente, que vocês apreciem um trabalho feito com extremo cuidado, já que sem leitores especiais uma revista histórica como a GRAUÇÁ não pode existir. Já estamos na rua preparando a segunda edição e por isso aguardamos sua participação com sugestões, críticas e comentários.

EXPEDIENTE

Vida longa à Grauçá e à Península. Que seja só o começo.

Desejamos uma agradável leitura. Os editores.

Aos colaboradores desta Edição Agnes Mariano, Danielle Schunk, Orlando Valle, João Niquim e Nilton Souza Ao Apoio Sônia Araripe - Revista Plurale Colégio Arte - Educação Infantil e Fundamental Nilton Souza Fotografia Agradecimentos especiais à Márcia Matos Realização

contato@quasarcomunica.com.br Escritório Administrativo Av Tancredo Neves nº 274 sala 311 - B Caminho das Árvores – Salvador/BA CEP 41820-020 A Revista Grauçá nem sempre compartilha da mesma opinião dos colunistas publicados nas suas edições. A revista não se responsabiliza pela qualidade dos produtos e serviços veiculados nas suas páginas.


REVISTA GRAUÇÁ | ANO I NÚMERO 1

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CARTA AO LEITOR

!

P

5

Foto da Capa | Nilton Souza www.niltonsouza.com.br

APAGAIO

Cecy Ramos fala sobre Educação e Literatura infantil

8

GRAUÇÁ DE OLHO

Há algo errado no seu bairro?

9 G 10 C 13 R 17 F 18 C 20 S 21

MEMÓRIA

Fim de linha da Ribeira

ESTÃO Foco na qualidade: o diferencial indispensável

APA

Itapagipe, beleza ímpar em busca de revitalização

ECANTOS

PASSATEMPO

Praia da Penha

ILHOS DA TERRA

Conheça o inventor do Mal-assombrado

IDADANIA

Salvador, Capital Mundial, não pode atropelar Itapagipe

ERVIÇOS

Horários das linhas de ônibus Criança desaparecida

04

GRAUÇÁ Nº 1

Guia Itapagipe

compras serviços

TURISMO

Ponta de Humaitá

CRÔNICA

"Tem Alguém pro Largo aê?" João Niquim

22 23 25 26


Entrevista com Cecy Ramos Fotos: Frederico Neto

P

!

APAGAIO

A guardiã abre o

GRAUÇÁ Nº 1 GRAUÇÁ Nº 1

05 5


Q

uando se trata de falar sobre a Península de Itapagipe, não importa se a antiga ou a contemporânea, a empolgação de Cecy Ramos Costa Bahia é estampada na face jovial de uma simpática senhora de 77 anos. Escritora, professora aposentada e bibliotecária, Dona Cecy chegou à Ribeira ainda no colo dos pais para não mais sair, cultivando ao longo da vida uma relação de amor incondicional com a região. Atuante junto à Secretaria de Educação, ela foi uma das responsáveis pela criação da primeira instituição pública de ensino daqui: a Escola Simões Filho, no bairro da Mangueira. Além disso, articulou a construção da única biblioteca local, a Edgard Santos.

Não foi à toa que o escritor Aramis Ribeiro Costa assinou, em homenagem à autora, uma dedicatória definitiva: “Para Cecy, a guardiã de Itapagipe”. Além de livros infantis como “O Susto da Franga Cocó” e “Confusão no São João”, ambos publicados em 1991 e “A História de um Grão de Feijão” (2003), a escritora lançou, em dezembro de 2009, “Península de Itapagipe em Quadrinhos”, projeto concebido em parceria com o desenhista Aroldo Cedraz, criador do personagem Xaxado. No livro, o personagem chega do interior da Bahia para conhecer os aspectos históricos e culturais da Península, guiado pela própria Cecy e por Cedraz. O projeto, aprovado pelo Edital de Apoio a Autores Baianos promovido pela Secretaria de Cultura do Estado e pela Fundação Pedro Calmon, será adotado este ano por escolas da rede privada.

Numa manhã de sol forte, no meio da semana, Cecy abriu sua casa para gentilmente receber a GRAUÇÁ e falar sobre atividade literária, militância social e, claro, para recordar as coisas itapagipanas que não existem mais, como a animação da Festa da Ribeira e a antiga balaustrada do Porto dos Tainheiros.

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GRAUÇÁ Nº 1

REVISTA GRAUÇÁ - Com que idade a senhora chegou a Itapagipe? CECY RAMOS - Eu tinha cerca de um mês e meio. Nasci no bairro da Saúde e meus pais veraneavam aqui, na casa de meu avô, que ficava na rua Cândido Alves, próximo da Igreja do Rosário. Para ficar mais perto de meu avô, primeiro meu pai resolveu alugar uma casa na Lélis Piedade, mas logo depois resolveu fixar residência na mesma rua e foi aqui que passei toda minha infância e parte da adolescência.

“Depois que destruíram a balaustrada dos Tainheiros, despiram a Enseada” RG - Com o crescimento desordenado da cidade e a popularização das novas tecnologias, as brincadeiras das crianças de hoje mudaram radicalmente. Como foi a sua infância aqui na região? CR - Ave maria...minha infância foi fantástica. Eu brincava de roda, pulava macaquinho (amarelinha), de picula, enquanto minha família ficava sentada no passeio. Brincávamos na rua e nos quintais e eu adorava, minha casa tinha um pé de goiaba que eu chamava de 'meu araçazeiro'. Eu costumava estudar e cantar em cima do meu pé de araçá e, no quintal, aos domingos, a gente costumava fazer um “cozinhado”,meu irmão armava

um palco para gente fazer dramatizações e os vizinhos levavam suas cadeiras para assistir os meninos e as meninas se apresentarem. Mas o banho de mar no Bogari era a nossa diversão predileta. Era linda, a areia alvíssima, aquele mar lindíssimo...

RG - Das coisas que existiam em Itapagipe e desapareceram do que a senhora sente mais falta? CR - Uma das coisas que me deixa muito triste é quando eu passo na Enseada dos Tainheiros e vejo aquele banco, lembro que tiraram toda aquela beleza de balaustrada que existia, de onde assistíamos as regatas, muita gente namorava ali e era uma referência romântica. Agora a gente vai e percebe que está faltando alguma coisa, com aquele “murinho” no lugar da balaustrada... para mim despiram a Enseada. A outra coisa era a Festa da Ribeira. O povo ia para a Ribeira quando terminava a Festa do Bonfim, batendo em latas, fazendo uma barulheira que nem deixava a gente dormir direito, mas que era muito animada. A segunda-feira da Ribeira era uma festa que tinha muito samba de roda, os rapazes mexiam com as moças e era uma festividade que tinha a participação de famílias que vinham de longe... também sinto falta do charme que havia nas regatas e do cais que existia na avenida Beira-Mar, que desapareceu por causa das dragas que retiravam areia para aterrar a Mangueira, isso entre o final dos anos 70 e início dos 80. Mas mesmo sem a balaustrada, o Porto dos Tainheiros continua lindo. De manhã, no


RG - A senhora se declara apaixonada pela Literatura Infantil. Como nasceu a ideia de escrever “Península de Itapagipe em Quadrinhos”?

tarde ou de noite aquela beleza do subúrbio iluminado... a Penha e a Ponta do Humaitá são outros locais que ainda admiro muito, principalmente na hora do pôr-do-sol. RG - Qual foi a sua participação nos projetos de instalação da Escola Simões Filho e da Biblioteca Edgard Santos? CR - Isso tudo começou em 1957 quando Irmã Querubina, professora da Escola Santa Bernadete [onde hoje funciona o Colégio Costa e Silva] me revelou sua intenção de construir uma escola nos Alagados. Começamos a nos reunir com a associação de moradores, que nos cedeu um espaço tomado pela maré. Mais tarde, meu amigo Luiz Rogério de Souza, então secretário municipal de Educação, visitou o local e prometeu construir a Escola Simões Filho, que terminou inaugurada em 1961. Por volta de 1977, outra pessoa amiga, a professora Maria Stella Santos Pita Leite passou a ser secretária municipal de Educação. Ela me mostrou um projeto que previa a construção de bibliotecas em diversos bairros de Salvador, mas Itapagipe não seria contemplada. Sugeri então que fosse construída uma unidade no lugar onde ficava o desativado Mercado do Peixe e ela me nomeou sua assessora, cargo que só aceitei sob a condição de incluir a Península. Fui a primeira diretora da biblioteca Edgard Santos, a primeira a ser inaugurada [em 1978] no projeto da professora Maria Stella.

“Sou totalmente contra a desapropriação na Boa Viagem. O que estão querendo fazer na Península é uma coisa desumana” RG - De que modo a senhora participa das associações que d e fe n d e m a s c a u s a s s o c i a i s de Itapagipe? CR - Atualmente sou apenas uma sócia, mas desde minha filiação em 1993, já desempenhei várias funções na Amai [Associação dos Moradores e Amigos de Itapagipe], já fui secretária, diretora e vice-presidente. Também sou membro da Cammpi [Comissão de Ar ticulação e Mobilização dos Moradores da Península de Itapagipe], praticamente desde sua criação, em 1999. Conquistamos coisas importantes para nossa região, como as reformas do Largo da Madragoa e do Papagaio, mas ainda falta muita coisa, as necessidades de Itapagipe são muitas. As pessoas não conservam nossas praças e aqui também não existe policiamento... um exemplo disso é o Largo do Papagaio, que já está se degradando novamente. Já a questão da desapropriação na região da Boa Viagem é algo desumano, sou totalmente contrária a este projeto. O que deveria ser feito é a reforma dos imóveis e não retirar os antigos moradores sem consultá-los antes de uma intervenção.

CR - Eu sempre gostei de incentivar as crianças contando histórias. Hoje em dia vejo as crianças mais realistas, principalmente por causa da influência da TV e da Internet. Sinto que elas precisam de mais fantasia. Este meu livro mais recente nasceu em 2005, quando recebi de Aroldo Cedraz o livro “Pelourinho em Quadrinhos” durante a reinauguração da Biblioteca Edgard Santos. Eu disse a ele: “o próximo tem de ser sobre Itapagipe” e ele respondeu, “só depende da senhora”. Para que o projeto fosse adiante e terminasse lançado no final de 2009, contamos com o importante apoio da Cammpi. O livro tem uma linguagem bem simples e agradável para todas as faixas etárias, mostrando as riquezas da nossa Península ao Xaxado, principal personagem criado por Cedraz.

RG - Na sua opinião, por que tantas pessoas ainda se sentem atraídas pela Península? CR - Primeiro, pelas belezas naturais daqui. Segundo, porque a Península ainda dá a impressão de uma cidade do interior, ainda parcialmente calma. Suas moradias predominantes são casas, não existem prédios muito altos por aqui. É um aspecto interiorano que ainda resiste, com aquela coisa das famílias sentarem na frente de suas casas para conversar. Não é mais como antigamente por causa da violência que cresceu por aqui, mas ainda hoje é possível ver algumas famílias que ainda 'se sentam na porta'. GRAUÇÁ Nº 1

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GRAUÇÁ DE OLHO Há algo errado no seu bairro, na sua rua? Mande seu recado. Ele pode ser publicado nesta seção. Contato: redacao@revistagrauca.com.br

Buzu sujo e atrasado

Trânsito pé-de-isopor

O serviço prestado pela Empresa Capital é

A Transalvador bem que poderia sincronizar os

sofrível: ônibus sujos, horários desrespeitados e

semáforos ao longo do Caminho de Areia, o que

nada confiáveis. Não são poucos os casos de

deixaria o tráfego mais ágil. Os horários de pico,

usuários que ficam horas inteiras esperando os

por volta das 18h e os finais de semana, na

coletivos que fazem, principalmente, a linha

volta da praia, são os momentos que mais

Massaranduba-Lapa. Ligar para o Salvador

exigem paciência dos condutores. O problema

Atende, 156, é outro sofrimento. Nada se

nem é tanto a quantidade de veículos que

resolve. Quem conheceu o serviço da antiga Sul-

passam pela avenida, mas uma simples questão

américa deve sentir saudades daqueles tempos.

de deixar o trânsito fluir.

Cadê os módulos? Os índices de violência continuam nas alturas na

Largado à toa O Largo dos Mares se transformou

região do Uruguai. Quase toda semana são

definitivamente em casa para moradores de rua.

noticiados homicídios, que segundo as

Dia e noite, meninos e adultos maltrapilhos

autoridades, são relacionados às drogas. A

perambulam pela praça abandonada, pedindo

situação poderia estar ainda pior se não fossem

dinheiro nas sinaleiras. À noite, eles fazem fila

as iniciativas por parte de ONG's, associação de

para receber a sopa distribuída por pessoas

moradores e instituições religiosas que atuam

solidárias. Para os visitantes da Península, o

no bairro. Com o fechamento do módulo policial,

cartão de visitas não é dos mais agradáveis. O

desde setembro do ano passado, a população

mesmo poder público que reformou o antigo

se sente ainda mais insegura.

Largo de Roma faz vistas grossas para os Mares. Até quando, não se sabe.

08

GRAUÇÁ Nº 1


MEMÓRIA

Foto: Fundação Gregório de Mattos

Texto: Agnes Mariano

Fim de linha da Ribeira por volta de 1860: casario colonial e tranquilidade atraíam famílias ricas que veraneavam no bairro.

Banhadas por um mar tranquilo, as praias da

áreas depois aterradas pela população, como os

península sempre foram usadas como lugar para

atuais Jardim Cruzeiro e Uruguai. Nesse tempo,

desembarque de mercadorias. Várias oficinas de

quando a península ainda era pouco habitada, áreas

conserto de barcos foram sendo instaladas. Vem daí

como Bogari, Caminho de Areia e Ilha dos Ratos

também o hábito de fazer dessa área da cidade uma

serviam como esconderijo para escravos fugidos,

espécie de cemitério de embarcações e mastros,

explica Carlos Alberto de Carvalho em seu livro

como na avenida hoje chamada Porto dos Mastros. Os

“Tradições e milagres do Bonfim”, de 1915.

pescadores sempre estiveram por ali, especialmente em busca dos cardumes de tainhas, por isso o nome Enseada dos Tainheiros. Mas nem era preciso ir longe, bastava esperar a maré baixar e iniciar a coleta de mariscos nas praias ou nos mangues que dominavam

Se você possui alguma foto antiga da Península e quiser vêla publicada na seção Memória, entre em contato: redacao@revistagrauca.com.br

GRAUÇÁ Nº 1

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GESTÃO

Danielle Schunk

Eram duas da tarde de um verão clássico e escaldante. Com a esperança de encher os braços de sacolas e ainda sobrar um troco para um sorvete na Ribeira, dei início, ao que somente mais tarde eu iria entender, à aventura que deu origem a tudo.

N

a época, não pensava em outra coisa a não ser em renovar o guarda-roupa, eu tinha feito dieta e tinha conseguido. Cortei os doces, o feijão da Madá no Humaitá, o escondidinho do bar do Pêu, no Bonfim. Três números a menos de manequim, lá fui eu para a Calçada, no intuito de comprar dúzias de calça tamanho 44. Sei que pode parecer muito nesses tempos em que coxas brasileiras, seios fartos e um belo par de ancas são considerados motivos de contravenção no mundo fashion, mas eu estava orgulhosa mesmo assim. Antes de entrar na primeira loja. Uma vendedora batendo palmas, falando alto e com uma caneta perdida no meio da cabeça, pergunta:

“Vai querer o que freguesa?” “Nada não...”, respondo desesperadamente intimidada com as palmas ou o volume da voz, não lembro ao certo. “...estou só dando uma olhadinha...” Ela me deu uma olhada geral e disparou ainda mais alto: “Tem seu número não.” Saí da loja entre envergonhada e fula da vida, mas não me dei por abatida. Rumei para o bairro do Uruguai, entrei no shopping e anunciei sem dar tempo

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GRAUÇÁ Nº 1

de ser avaliada. “Quero uma calça jeans. Com cintura baixa”, bradei, decidida. Com um ar exausto de quem correu uma meia maratona, a vendedora perguntou:

o que é pior, sem compras! Uma amiga, que mora há anos na Cidade Baixa, quando ouviu minha narrativa sentenciou: “Por isso que quando quero fazer compras vou para o Iguatemi.”

“Qual número?” “Quarenta e quatro”, respondi, dessa vez, um pouco vacilante. “Perainda que vou ver no estoque”. Meia hora depois voltou com três saias azul-marinho e um macacão. “Mas eu pedi uma calça...”, eu disse, confusa. “Eu sei, mas tá difícil achar... vai experimentando esses aí, que eu vou ver de novo.” Antes que ela voltasse com uma cueca duas horas depois, saí correndo dali. Prestes a desistir, reuni o resto de otimismo e atravessei a rua para beber um suco, para quem sabe, refrescada, tentar novamente. “Boa tarde, um suco de laranja, por favor, sem açúcar”. “Laranja? Tem certeza? Tem um caldo de cana pronto, saiu agorinha mesmo.” “Não, um suco de laranja por favor.” Recebi um olhar de desdém. Esperei vinte minutos e o suco foi servido com pelo menos dois dedos de açúcar no fundo de um copo com marcas de batom na borda... Não comprei a calça, não tomei o suco, mas voltei para casa como uma cliente humilhada, furiosa e

Naquela noite fiquei pensando em tudo que eu deveria ter dito àquelas pessoas e não disse, em tudo que deveriam ter feito por mim e não fizeram. No porquê de me ver obrigada a ir tão longe comprar as mesmas coisas que encontro pela metade do preço aqui, em quantas pessoas daqui passam a comprar lá, em quantas de lá nem pensam em comprar aqui, e assim, vai se esvaindo a força econômica da nossa Península. Com esses pensamentos inundando meus miolos, dormi, e sonhei. Como se fossem fantasmas do natal passado, voltei ao mesmo lugar, dessa vez protegida pela incógnita que só um sonho traz. E d e s c o b r i qu e a qu e l a p r i m e i r a v e n d e d o r a p r e c i s av a desesperadamente da comissão de suas vendas, mas nunca tinha sido treinada na vida, e desconhecia o significado de um bom argumento, de algumas sugestões ou de um sorriso gentil. A segunda vendedora esforçavase para conseguir atender, mas o estoque estava tão desorganizado que ela só conseguiria ter achado o que pedi se a tal calça


estivesse fluorescente. E a garçonete do suco, essa, coitada, destratada c o n s t a n te m e n te p e l o g e r e n te , dobrando há semanas, estava sozinha para limpar, fazer e servir os pedidos de pelo menos cinquenta pessoas ao mesmo tempo. Acordei.

Aquela era a primeira manhã do resto da minha carreira. Eu sabia o que seria quando crescesse. Decidi compreender e colaborar no uso que fazem do ser humano nas lojas, restaurantes e conglomerados da vida. Decidi trabalhar com Recursos Humanos: Treinamento e Desenvolvimento, Recrutamento e Seleção, Apoio, Desempenho, Avaliação, melhoria contínua, lucro, felicidade. Gestão de pessoas. É disso que se trata. Hoje, atuando como consultora de Recursos Humanos, perdi a conta do número de desesperados que tornei empregados; do número de empregados que ajudei a transformar em colaboradores; do

número de colaboradores que aprenderam a fazer o seu melhor. E ainda do número de gerentes que ensinei a liderar e do número de empresários que ajudei a finalmente perceberem que seus negócios não dependem de clientes e empregados, mas de pessoas. Dos seus sonhos, de suas expectativas, de suas economias, de suas necessidades, do quão perto estão de se sentirem felizes.

Danielle Schunk é Administradora, Psicóloga, e Especialista em Gestão de Pessoas. O que mais gosta além de viajar lugares é viajar pessoas, por isso, tudo que aprende, ensina.

E mesmo que eu tenha perdido essa conta, nesses doze anos de carreira, em se tratando de números, a Península daqui não é diferente da Península de lá. Se o empresário, não importa o porte, pretende encontrar o seu diferencial competitivo para ver os seus números crescerem, deve investir em pessoas. Nas que estão de um lado e de outro do balcão.

GRAUÇÁ Nº 1

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Um novo olhar sobre a nossa Península www.revistagrauca.com.br

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GRAUÇÁ Nº 1


Texto: Tom Correia Fotos: Nilton Souza e Frederico Neto

CAPA

Poucas regiões de Salvador ainda possuem tantos atrativos como a Península, um lugar histórico que sonha com uma fase de renascimento Quasar Imagem

Itapagipe,

um estilo de vida...

GRAUÇÁ Nº 1

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Foto: Nilton Souza

“Pedra que avança para o mar” ou “rio de pedra que escorre para o mar”, a origem indígena do nome de Itapagipe remonta à época em que para se chegar à região, levava-se até um dia de caminhada.

“Ponte” do Crush é passagem obrigatória para quem faz caminhadas na avenida Beira-Mar

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GRAUÇÁ Nº 1

E

ra habitada pelos índios Tupinambás, mas com a chegada dos portugueses as primeiras casas foram se transformando em residências de verão das famílias que moravam nas porções ricas da cidade. Aqui, Tomé de S o u z a ( 1 5 0 3 - 1 57 9 ) , p r i m e i r o governador-geral do Brasil, teria cogitado fundar a cidade; nestas terras, Garcia D'ávila (1528-1609), maior latifundiário da história colonial brasileira, possuía currais e olarias, pequenas fábricas de tijolos.

Certo é que a Península até hoje exerce poder de atração sobre os que chegam e sobre os que nela nasceram. É caminhar pela avenida Beira-Mar de manhã cedo ou no final de tarde e sentir a brisa marinha; é pular da “ponte” do Crush para que um encantamento infantil percorra o corpo; é passar pelo Porto dos Tainheiros para ter a sensação de que se é dono de tudo aquilo. Raros lugares da Soterópolis que incha demograficamente sem esboçar nenhum tipo de planejamento, ainda mantêm tamanha concentração de arte, culinária, história, cultura,

religião, aspectos humanos e intransferíveis como Itapagipe. Há o roteiro turístico, o mais conhecido e veiculado pela mídia: a Igreja do B o n f i m , a S o r ve te r i a d a R i b e i r a , o Humaitá, o Solar Amado Bahia; o Antigo Hidroporto, primeiro aeroporto da Bahia, as regatas seculares de remo e o imponente prédio do Asilo D. Pedro II. Mas existe muito mais. A Pedra Furada, o Campo do Lasca, o ateliê de Prentice, a Vila Militar; existe ainda a gastronomia local representada pela segunda-feira do Cozido na Ribeira e pelo pirão do Estaleiro.

Para Alcimar Costa Silva, autor do livro “Península de Itapagipe Histórias, tradições e cultura popular”, a região tem grande potencial turístico voltado para atividades como pesca, mergulho, e remo, mas há descaso do poder público. Segundo ele, testemunha do que considera os tempos áureos em Itapagipe, o lugar, além de inspirador, possui alma própria. “Aqui existe um modo de vida à parte, um ritmo próprio, destacado da cidade alta”, completa.

Não menos importantes, existem ainda os bairros e comunidades “invisíveis”, que sofrem preconceito devido aos índices de violência, como se a maioria dos seus


Península Itapagipana: 160 mil habitantes, 11 bairros e comunidades que têm o mar como grande referência

moradores não fossem batalhadores diários por uma vida digna: Alagados, Leblon, Baixa do Petróleo, Conder, Bate-estaca, Uruguai. São nessas áreas, raramente lembradas pelo Estado, em que grupos comunitários como a Comissão de Articulação e

“Banco dos Vadios”, fundado em 1940: dominó nos finais de tarde e conversa amena entre a velha guarda da Ribeira

Várias gerações são testemunhas das águas calmas e da paisagem sedutora da Península

Mobilização dos Moradores da Península de Itapagipe [CAMPPI], criada em 1999, atuam promovendo ações para revalorização local. Composta por 48 entidades, a Rede Camppi agrega hoje articuladores que contribuem para atenuar as tensões sociais que também atingem a periferia itapagipana. A Associação de Doceiras, Cozinheiras e Confeiteiras de Itapagipe (Adocci), afiliada à Rede, oferece cursos gratuitos de culinária e estimula a produção de diaristas, mesmo com dificuldade para e n c o n t r a r n ova s p a rc e r i a s e consumidores. “Infelizmente, as pessoas não acreditam que os nossos produtos possuem qualidade e preferem as coisas de 'fora'”, explica Lígia Andrade, presidente da Adocci.

O desemprego na região é outra variável que contribui para os problemas sociais que atingem Salvador. Houve uma época em que a força econômica da Península era representada pela grande concentração de fábricas. Entre os anos 1940 e 1980, indústrias como a Barretto de Araújo, Souza Cruz, Crush,

Antártica, Fratelli Vita, Chadler e Café Cravo eram algumas das mais importantes e que provocavam um dilema: se por um lado ofereciam empregos, por outro, poluíam todo o ambiente. A Chadler, por exemplo, funcionou no limite dos bairros de Roma e Uruguai de 1944 a meados dos anos 1990, quando uma ação popular desativou a indústria que processava cacau. Quem passava pelo Largo de Roma nos finais de tarde sentia um aroma de chocolate. Aparentemente o cheiro era bom, mas na verdade ocultava as doenças respiratórias que atingiam os moradores das redondezas devido à emissão de poluentes. Com a extinção das fábricas, a oferta de postos de trabalho caiu. Entretanto, atualmente, há indícios de uma retomada oriunda da instalação de faculdades na Calçada e no Comércio, além dos grandes mercados e pequenas empresas que formam considerável rede comercial.

Revitalização ou ameaça? Um dos assuntos que promete discussões e polêmicas em 2010 é a desapropriação de imóveis no trecho GRAUÇÁ Nº 1

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Obras na calçada da Beira-mar: iniciativa que se restringe apenas a pontos isolados. Outros locais da Península, como o Largo dos Dendezeiros, continuam necessitando de recuperação

que envolve desde a Feira de São Joaquim até o limite do Forte de Monte Serrat. Sem data para o início das obras, a revitalização prevista pela prefeitura inclui a demolição de casas de moradores antigos para construir uma nova orla, mas já existe uma mobilização contrária. O grande desafio é alcançar interação suficiente entre o governo municipal, a iniciativa privada e a comunidade para que o assunto seja conduzido com equilíbrio, em nome do bem-comum. Entre outros temas sérios, como o sistema de transporte público que provoca insatisfação nos usuários e atividades mais amenas, o itapagipano vai tocando a vida: vê as disputas de remo e toma um banho nas águas tranquilas do Bogari; bate sua laje no domingo pela manhã para logo depois saborear uma feijoada. O “puxadinho” é uma instituição local, solução viável para a fuga do aluguel ou do financiamento da casa própria.

São particularidades locais que despertam o saudosismo em pessoas como Ruth Navarro, 53, economista e professora universitária. Ela pertence à tradicional Família Machado, que

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GRAUÇÁ Nº 1

costumava passar temporadas nas praias itapagipanas no início dos anos 1960. Moradora do Jardim Armação, Ruth demonstra um misto de saudade e indignação quando o assunto é a confrontação do presente e do passado. “Sempre levo amigos para tomar sorvete na Ribeira, mas confesso que às vezes sinto um pouco de vergonha. O acesso às coisas belas dali é horrível, o governo precisa ter mais atenção com aquele lugar”, ressalta.

Ponto mágico esquecido Em 2009, eleita como um dos sete pontos mágicos de Salvador numa promoção organizada pelos órgãos oficiais de Turismo do Estado e do Município, a Península não colheu frutos diretos com a escolha. Ruas mal varridas, calçadas sem cuidado, lixo acumulado nas esquinas e até mesmo o tráfego que se complica na avenida Caminho de Areia, fazem parte do diaa-dia e mancham cenários de rara beleza em Salvador. Há muito a ser feito também em relação aos indicadores sociais, insegurança e aspectos paisagísticos e culturais.

Apesar das dificuldades, é possível sentir o vento sob as árvores do Largo da Madragoa e cruzar com grupos animados que se dirigem à praia para “bater o baba” nas manhãs de domingo.

O geólogo Alex Pereira afirma no ensaio “A Colina Sagrada era uma ilha” que, há cinco mil anos, parte da atual Itapagipe formava uma ilha, no trecho que vai da Ponta de Monte Serrat ao Bonfim. O aterramento natural através do tempo fez com que houvesse integração com o continente. Mas os tempos são outros. Ao invés de qualquer alusão ao isolamento, a Península hoje precisa se integrar a Salvador, mas sem perder a essência. Tem anseios para acompanhar as coisas do mundo, mas se recusa a perder a identidade. “Esse lugar ainda nos desperta poesia, mas que tenta aos trancos e barrancos resistir ao tempo. Sinto a Península gritando por socorro, como um filho abandonado pelos pais. O progresso é necessário, mas ele tem de vir acompanhado de investimento e sustentabilidade”, conclui Ruth.


RECANTOS

Praia da Penha A feirinha de peixes e mariscos na Praia da Penha recebe todos os dias pela manhã pescadores carregando o que conseguiram em suas aventuras pela Baía de Todos os Santos. Os frutos do mar são frescos e variados e quem deseja encontrá-los precisa acordar cedo: a clientela é fiel e em pouco tempo não restam mais arraias, siris, vermelhos e tainhas. A praia está a meio caminho de quem vem do Largo da Ribeira e passa pela avenida Beira-Mar em direção ao Bonfim. A pequena feira fica em frente à Igreja da Penha, construída em 1742 e que abrigava o Palácio de Verão do Arcebispo de Salvador.

GRAUÇÁ Nº 1

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FILHOS DA TERRA

A persistência empreendedora de um pernambucano que se considera um filho das ruas da Península Em 1994, um veículo montado a partir de peças compradas nos ferros-velhos da vida, surgido do nada, começou a circular pelos bairros de Itapagipe. Ninguém entendeu direito o que era aquela geringonça que tocava música e era empurrada por um homem apenas. A reação das pessoas foi previsível: aquilo só podia ser arte de algum maluco. O veículo não tinha freio. Não subia e nem descia ladeira, mas aos poucos foi sofrendo transformações.

O tal “maluco” era Edivaldo Ribeiro e Silva, 39, cuja obsessão pelos trios elétricos começou na adolescência durante uma segunda-feira Gorda da Ribeira. “Eu estava trabalhando numa casa quando vi aquele caminhão enorme chegar e escutei os músicos passando o som”, explica. Nascido em Olinda, Pernambuco, Vado chegou à Península aos 10 anos, trazido pelo pai, marceneiro que veio procurar emprego em Salvador. Se pudesse, o menino teria sido arquiteto, mas precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa e só conseguiu estudar até a 6ª série do fundamental. Aprendeu o ofício paterno, trabalhou em padaria, foi pintor de paredes e, claro, mecânico.

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Foto: Quasar Imagem

Um Mal-assombrado


Foto: Frederico Neto

Batismo do trio A primeira saída de Vado foi com o “carro do reggae” no qual vendia lanches e rolava o som jamaicano, em alta nos anos 1990. Depois veio o “trio da muvuca”, a música abastecida por uma bateria de automóvel. Mais tarde, foi a vez de entrar em ação o “trio da harmonia” com o som feito à base de um gerador e um motor de máquina de caldo de cana. Àquela altura, o povo que acompanhava o trajeto do veículo já o havia apelidado com um nome aparentemente pejorativo, mas que hoje é a marca da invenção de Vado. “Os coelhinhos [modo como são chamados os alcoólatras em Itapagipe] me viam empurrando o trio e chegavam para me ajudar. O povo via aquele carro cheio de figuras esquisitas e não deu outra. Passaram a falar, 'lá vem o malassombrado!'”, recorda, divertido. Mas o que começou como uma forma de sobrevivência e diversão para Vado, se transformou em negócio estabilizado quando ele passou a fazer sonorização, animação de eventos e anúncios publicitários. Após ser contratado para promover um sorteio realizado por um mercadinho no bairro do Uruguai, o mini-trio se tornou uma mídia de grande penetração nas comunidades. .

Hoje, o Trio Mal-assombrado faz anúncios de uma hora de duração para 49 empresários da Península. O custo para a veiculação é de R$ 25. “No

início, minha primeira esposa tinha até vergonha do que eu fazia”, confessa. Vado garante que não é alvo de reclamações devido ao volume de som alto e que jamais foi autuado pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Solo do Município (SUCOM), órgão responsável por coibir a poluição sonora em Salvador. Política e Ação Social A popularidade do Mal-assombrado aumentou na mesma proporção em que o veículo foi sendo aperfeiçoado. Hoje em dia, o mini-trio amarelo anima gratuitamente o Natal, o Réveillon, o Carnaval infantil e a Lavagem do Bonfim pelas ruas itapagipanas a 35 km por hora, mas se quisesse o motorista-locutor poderia chegar a 90. E isso sem ajuda do álcool dos “coelhinhos”, o combustível é a gasolina mesmo. Tanto sucesso de público lhe rendeu contratos para fazer a sonorização das campanhas de políticos com reduto na Península. E, de última hora, a projeção popular de Vado foi testada nas urnas pelas Eleições Municipais de 2008. Candidato pelo Partido da Mobilização Nacional (PMN), o criador do Malassombrado recebeu nada menos que 4.857 votos que lhe deram a suplência. “Nunca pensei em me tornar candidato, até que resolvi seguir o conselho de uma pessoa filiada a um partido”, explica.

Realização pessoal Vado ainda não sabe afirmar se vai tentar uma cadeira na Câmara dos Vereadores em 2012. O modo tranquilo como fala, dá a entender que ele se sente mais à vontade quando distribui brinquedos para as crianças no Natal ou quando faz o Carnaval para os alunos do Instituto Pestallozzi, localizado na Ribeira. Ou ainda quando anima a préLavagem do Bonfim na Rua da Glória. “Gosto de levar alegria para as pessoas e com isso me sinto totalmente realizado”, revela. Outra época em que o Mal-assombrado percorre as ruas de modo marcante é durante a Copa do Mundo. Desde 1998, antes de cada partida da Seleção Brasileira, Vado toca o Hino Nacional para despertar o sentimento de patriotismo nas pessoas. Após cada jogo, seja qual for o resultado, o mini-trio faz um arrastão tocando sucessos do axé e do pagode. “É uma coisa que me comove toda vez que faço”, conclui o inventor do trio de um homem só.

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CIDADANIA

Orlando Valle

Salvador, Capital Mundial, não pode atropelar Itapagipe O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), aprovado em dezembro de 2008, numa sessão na calada da noite mais do que vergonhosa, se revela agora uma versão tupiniquim do monstro do lago Ness, na Baía de Todos os Santos, ou Baía de Kirymuré. Para esta questão, que muito nos diz respeito, peço aos itapagipanos, alguns minutos de reflexão. Com 176 emendas acrescentadas em plenário, todas elas nebulosas e desconhecidas da população e até de parte da própria base aliada do prefeito, o monstro começa a emergir, pondo a cara e as garras de fora. Ele tem muita fome e adora principalmente as terras alheias. A apresentação do projeto Salvador Capital Mundial, em 28 de dezembro passado, foi o prato oficial servido que inclui a Península de Itapagipe. Na maquete da “Nova” Cidade Baixa, a intervenção faraônica, anti-social, anti-democrática e ilusionista, vem da força da grana que ergue e destrói coisas belas, com nome e sobrenome, que tem bancado estudos, projetos e maquetes para a prefeitura e que seduzem, de forma absoluta, o poder público e a iniciativa privada. Tal qual o monstro, que surge de repente, 20

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encobertos num véu de silêncio, os “donos” de Salvador dilaceram o corpo da cidade e a vida de milhares de cidadãos. Dentro dos gabinetes e escritórios empresariais, astutamente, bolam a melhor forma de apropriar-se do patrimônio alheio, sem pudor, facultados por decretos de utilidade pública e da Concessão Urbanística, farsantes desculpas a preparar a cidade para a Copa de 2014. E assim repassam para o município, o altíssimo ônus de dívidas que não param de crescer e que serão herdadas pelos eleitores e habitantes, principais interessados, sequer consultados preliminarmente, cabendo-lhes ter de engolir uma gestão que não dialoga com os diversos atores sociais. Olhem para o estado em que nossa cidade se encontra!

Itapagipe, a linda península, bela morada de Salvador, quer ser revitalizada e potencializada como grande polo cultural, mas primeiro Ipara os moradores, que também são da cidade. Os projetos apresentados, desde o vídeo do youtube, com autoria negada pela prefeitura, foi confirmada agora pelas maquetes e nos fazem imaginar que as decisões estão tomadas, pelo menos oficialmente. Como destruir os históricos bairros da Boa Viagem e Canta Galo poderá ser bom para a cidade? É este o planejamento para o futuro: destruir a memória, a história e a vida dos moradores? As decisões políticas da prefeitura revelam e provam que o governo municipal não se pretende nem moderno, nem democrático, nem transparente.

Orlando Valle, 47 anos, produtor cultural independente, pesquisador e presidente da AMEBV Associação de Moradores e Empresários da Boa Viagem e Adjacências, atualmente produzindo o documentário Cidade do Trabalho.


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S ERVIÇOS

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Horários das Linhas de Ônibus RIBEIRA-PITUBA 218 Empresa: MODELO

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Fonte: STP/SETIN www.stp.salvador.ba.gov.br - 24/03/10

CRIANÇA DESAPARECIDA ALESSANDRA SILVA DE ALMEIDA 9 ANOS BAIRRO DO URUGUAI A pequena Alessandra era criada por Maria Antônia Santos Soares desde os 2 anos de idade e os pais se chamam Edvan e Jussara. A menina morava com a mãe “de criação” na rua Régis Pacheco quando, na manhã do dia 22 de julho de 2007, aconteceu algo que deixou dona Maria transtornada: ao se levantar por volta das 7 da manhã, ela foi acordar Alessandra para o banho e prepará-la para ir a escola. Encontrou a cama vazia. Segundo os relatos de dona Maria, Alessandra desapareceu em casa, enquanto todos dormiam. Pistas sobre desaparecidos podem ser comunicadas à Polinter (71) 31166573 e ao Movimento Simone Pinho (71) 3345-6578. Ou ainda pelos sites www.ssp.ba.gov.br e www.movspinho.com.br

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PASSATEMPO

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Horizontais 4. Avenida que liga a Baixa do Bonfim à Boa Viagem 5. Grupo de percussão com latas que mobiliza os jovens na região do Jardim Cruzeiro 7. Yalorixá muito respeitada, moradora da Massaranduba e falecida em 2008 9. Esporte tradicional praticado na Enseada dos Tainheiros 10. Solar de destacada arquitetura, construído na Ribeira no século XIX 12. Primeiro aeroporto de Salvador, inaugurado em 1922, localizado na Ribeira 13. Marisco muito apreciado, mas em extinção nas águas da Península 14. Campo de futebol da Baixa do Petróleo 15. Responsável pela implantação, no final do século XIX, do Empório Industrial do Norte na Cidade Baixa, símbolo da primeira fase de industrialização da Bahia 16. Antiga denominação do Forte do Mont Serrat

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Verticais 1. Autora de “A Península de Itapagipe em Quadrinhos” 2. Famoso campo de futebol da avenida Domingos Rabelo 3. “Associação” localizada na avenida Beira-mar, formada por aposentados que passam as tardes jogando dominó 6. Comida típica do Nordeste servida na Ribeira toda segunda-feira 8. Sigla da Associação dos Moradores e Amigos de Itapagipe 11. Cinema que ficava próximo ao Largo da Madragoa, fechado em 1965 Solução no Guia Itapagipe Compras e Serviços


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O que você quer, perto de você! A Península possui uma grande rede comercial formada por micro-empresas e profissionais liberais que oferecem uma infinidade de produtos e serviços. A Grauçá acredita que pode contribuir para o aquecimento da economia local ao publicar anúncios e promoções. Tenha sempre nosso guia à mão para fazer uma consulta rápida. Aqui você encontra o que precisa, tudo bem pertinho de casa. Mesmo para quem não tem o privilégio de morar em Itapagipe.

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FOTO | NILTON SOUZA

TURISMO

Ponta de Humaitá Se a capital baiana tem vocação turística, Itapagipe contribui de maneira significativa para que a cidade ainda se destaque no setor, atraindo visitantes do Brasil e do mundo.

A Península guarda inúmeros locais que fascinam pela tranquilidade, facilidade de acesso e pelo contato com o estilo de vida dos seus moradores. Um dos locais mais frequentados pelos turistas é a Ponta de Humaitá, no Bairro da Boa Viagem, a cerca de 6 km do centro de Salvador. O conjunto inclui um Forte construído em 1742, um quartel do Exército, a Igreja do Monte Serrat, construída no século XVI, e um farol que é quase um personagem de vida própria ao aparecer nas milhares de fotografias registradas todos os dias. Do lugar se tem uma visão panorâmica quase completa da Baía de Todos os Santos, da ilha de Itaparica e dos prédios da Cidade Alta.

Dez em cada dez moradores da Península já viram o clássico pôr-do-sol do Humaitá, que recebe aplausos dos casais de namorados movidos pela inspiração do visual irresistível. Aos domingos, a partir das 16h, músicos fazem sessão de jazz ao ar livre, tornando ainda mais agradável a visita obrigatória para quem aprecia o passeio por um dos mais belos pontos turísticos de Salvador.

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CRÔNICA

João Niquim*

“Tem alguém

pro largo, Todo mundo que mora na Massaranduba e pega ônibus já ouviu isso na vida...

Rapaz... é mais ou menos assim: você tá de volta do trampo, o corpo todo dolorido e espera um tempão até conseguir pegar aquele velho buzu no centro da cidade ou na estação da Lapa.

O

motorista é um fanfarrão. A xxxxxxxxx velocidade varia de acordo xxxxxxxxxcom seus interesses. Se estiver atrasado (quase sempre está), ele desce aquela ladeirinha antes do túnel Américo Simas de um jeito que não dá pra segurar o friozinho na barriga; se estiver no horário, já era. O pé de isopor não afunda o acelerador de jeito nenhum. Se for o buzão do Forte São Pedro, dá até pra comprar uma latinha pela janela durante o engarrafamento em frente ao Elevador. A vida não é fácil, mas ninguém avisou isso quando você nasceu. “Tudo bem, pelo menos estou tentando progredir na vida”, você pensa, enquanto o décimo vendedor entra no coletivo pedindo desculpas por incomodar a viagem. Ele pudia tá robano, pudia tá matano, mas também está tentando progredir, cada um se vira como

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pode. A depender do trajeto, até dá pra ver alguma parte bonita da cidade. O Dique ou a vista da avenida Contorno ainda são um alívio para as dificuldades, que não são poucas. Finalmente quando você passa pelo antigo Largo de Roma (hoje é Praça Irmã Dulce), e entra pelo Caminho de Areia, você imagina algo como tomar banho, comer e descansar um pouco. Você até olha pro relógio e calcula que em mais ou menos uns dez minutos tudo estará resolvido. Pelo menos naquele dia. Mas aí, meu amigo, depois que aquele povo todo desce no ponto da Escola Tiradentes, depois que sinaleiras enfileiradas são vencidas e você para bem em frente à antiga sede da LBA (a placa azulejada ainda está lá), o cobrador sonolento desperta com toda disposição do mundo e dispara a

pergunta: “tem alguém pro largo, aê?“. Dois segundos de silêncio e apreensão. Quem mora da avenida Santos Titara em diante olha para trás rezando pra não ouvir o “tem!” que adia por dois ou três minutos a chegada ao destino f i n a l . Q u a n d o i s s o a c o n te c e , geralmente é apenas um passageiro que, logicamente, tem direito ao percurso. Mas não deve ser nada bom ouvir um muxoxo aqui, uma piadinha ali de quem mora na velha Massarandanga e quer chegar logo no cafofo. Quem desce no largo, desce assim meio sem jeito, com um sorriso meio amarelo. Mas tudo bem. Todo mundo precisa progredir na vida. Eu pudia tá robano, eu pudia tá matano. * João Niquim é um personagem que conhece como ninguém as coisas de Itapagipe.



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