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Edição 2 | ano 4

Painel de Geopolítica, Meio Ambiente, Cultura e Matemática Cotidiana

ISSN 2179-1538

gl c cal

ta s s i e v re dad a i su al A atu de

R$ 14,90

Marco Civil da Internet O que significa a aprovação deste projeto

50 anos de golpe militar Como o Brasil trabalha suas memórias sobre a ditadura

100 anos de Dorival Caymmi A importância do músico baiano na construção da identidade brasileira

Sociedade do consumo e exclusão social O que a polêmica em torno dos rolezinhos revela sobre nossa sociedade Alexandre Linares Ana Maria Coyos Cadavid Ângela Arraya Célio Turino Danilo Di Giorgi Eduardo Suplicy Eduardo Munari Francisco G. Nóbrega Gabriel Piotto Hélio Grassi Filho Iara Souza Vicente Isabel Cristina Goncalves Isabella Bueno Lahis Cristiane Monteiro de Oliveira Larissa Rodrigues Vacari de Arruda Marina P. Nóbrega Nelson Bacic Patrícia Galleto Paulinha Ranzani Ubiracy de Souza Braga Vijay Prashad Winnie Queiroz Brandão


Seu autêntico plano de estudos.

516s. pág

31

s fascículo

(11)

4513-8660

(11) 9 9423-1131

guiaenem.org.br

www.

Materiais didáticos


edit rial Fernando de Souza Coelho, Professor

Mateus Prado, Educador

Pedro Ivo Batista, Socioambientalista

Nós vamos invadir sua praia “Daqui do morro dá pra ver tão legal o que acontece aí no seu litoral. Mais do que um bom bronzeado, nós queremos estar do seu lado. Agora, nós vamos invadir sua praia”. De 1985 para cá já são quase 30 anos desde que esta música foi lançada pelo grupo Ultraje a Rigor. Se fosse feita hoje, provavelmente no lugar do rock o ritmo seria o funk, mas a mensagem seria a mesma, e mais atual do que nunca: “Agora, se você vai se incomodar, então é melhor se mudar. Não adianta nem nos desprezar, se a gente acostumar, a gente vai ficar”. Praias, shoppings, parques e até universidades públicas são alguns dos muitos locais que as elites econômicas e culturais acreditam ser de seu direito e uso exclusivo, e se sentem desconfortáveis, ameaçadas e até lesadas quando se veem obrigadas a dividir “seus” espaços com representantes da chamada classe média-baixa. A quantidade do ruído e polêmica que a prática dos rolezinhos têm levantado é um termômetro desses instáveis encontros, reflexos de um Brasil excludente, racista, superficial e raso de valores. Refletindo sobre esses indicadores, o historiador e escritor Célio Turino e a ativista Iara Vicente de Souza assinam os artigos que inspiram a capa desta edição. O primeiro tece algumas considerações sobre a falta de políticas públicas de lazer e cultura, que leva jovens da periferia a enxergar a frequência em centros de consumo como uma forma de exercer sua liberdade e se afirmar. O segundo aponta para o preconceito histórico e arraigado que impede a classe média branca de conviver com a diversidade, quando a mesma vem de grupos que ela enxerga como “inferiores”. Essas mesmas elites que desejam negar até o acesso a determinados ambientes a quem não faz parte de seu exclusivo grupo são as mesmas que, sob todo um discurso de meritocracia, condenam

os programas sociais, especialmente os de transferência de renda, que nada mais são do que tentativas de diminuir os abismos entre ricos e pobres no país. Por isso, também trazemos nesta edição alguns artigos sobre o tema, um deles com assinatura do senador Eduardo Suplicy, para compreender sem pré-julgamentos a Renda Básica Cidadã e outros programas sociais. Partindo para diversas áreas do conhecimento, esta edição também se debruça sobre outras questões de extrema importância, como o Marco Civil da Internet, (que, inclusive, com os sucessivos adiamentos na votação do projeto atrasou o fechamento desta revista em alguns dias, para conseguirmos oferecer ao leitor uma análise bem atual do texto aprovado), as possibilidades de uso de energia solar no país e a importância da a agrobiologia na produção de alimentos sem agredir o meio-ambiente. Também temos motivo para comemorar: essa é a terceira edição consecutiva em que conseguimos igualar a quantidade de textos de matemática à das demais áreas. Para isso, agradecemos todos os estudantes, professores e pesquisadores que enviaram artigos sobre esse tema, e reforçamos o convite para que continuem enviando seus textos, na edição que vem queremos mais! E para concluir esse breve balanço, também escolhemos dar uma atenção especial à memória neste número – Dominguinhos, Mandela e Caymmi (cujo centenário é comemorado neste mês de abril) e o barulhento “aniversário” de 50 anos do golpe militar – pessoas e acontecimentos do passado que moldaram partes significativas do nosso mundo ainda hoje. Boa leitura!

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03


sumário

por Ângela Arraya

Expediente: Editores: Fernando Coelho, Mateus Prado e Pedro Ivo Batista Conselho Editoral: Fernando Silva Oliveira, Renato Eliseu Costa e Wagner Iglesias Gestora Pedagógica: Ana Paula Dibbern Editora de Conteúdo: Ângela Arraya Revisão: Aracelli de Lima Diretor de Criação: José Geraldo S. Junior Projeto Gráfico: Lucas Paiva Diagramação: Lucas Paiva e Daniel Paiva Suporte Editorial: Victor Hugo Felix

Errata: Na edição 1, ano 4, no texto “Educação igual a nível nacional”, ficamos devendo as 20 Metas para a educação no decênio de 2011 a 2020. Elas podem ser conferidas no link: http://www.senado.gov.br/noticias/ agencia/quadros/qd_507.html

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O que é que o baiano tem

por Célio Turino

20

Sobre Rolezinhos

por Gabriel Piotto

28

Reminiscências do Golpe de 64


06

por Danilo Di Giorgi

Agricultura do futuro por Isabella Bueno

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08 A importância de interpretar tabelas e gráficos

Marco Civil da Internet

por Lahis Cristiane Monteiro de Oliveira

10 por Nelson Bacic

por meio do PIB, as desigualdades são enormes. A região Sudeste – a segunda menos extensa e a primeira mais populosa –, gera cerca de 55% de toda a riqueza do país, enquanto a região Norte – a mais extensa e também a menos populosa –, gera pouco mais de 5% do PIB. (Gráfico 3) Do ponto de vista das desigualdades sociais, tomando-se como base três indicadores – índice de analfabetismo, mortalidade infantil e renda per capita familiar abaixo do salário mínimo –, constata-se que, em todos eles, a região Nordeste é aquela que apresenta os piores resultados, sendo os melhores aqueles registrados nas regiões Sul e Sudeste. (Gráfico 4) As disparidades também se manifestam no interior das regiões. Por exemplo, na região Norte, o Pará e o Amazonas, que concentram cerca de 70% da população regional, geram praticamente a mesma proporção das riquezas nortistas. Na região Nordeste, a Bahia sozinha (Gráfico 1

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Brasil: extensão das grandes regiões (%) 6,8 10,9

Marcas das Marcas das desigualdades desigualdades no no mundo e Brasil e no mundo no Brasil Uma análise matemática de como ainda estamos distantes de uma melhor distribuição das riquezas nacionais

A

Escala que se baseia nos acontecimentos na geologia da Terra para dividir sua linha do tempo em éons, eras, períodos, épocas e idades.

questão das desigualdades tem sido um tema recorrente na história da humanidade, assim como as ideologias que pregam a maior equidade entre os seres humanos. De início, deve-se lembrar de que os espaços naturais do mundo são diferentes devido ao resultado da história geológica da Terra, da combinação e interação entre os agentes estruturais internos, e das condições externas, como a ação do clima sobre essas estruturas ancestrais. Deve-se considerar também que a presença humana foi inexistente durante a maior parte da história de nosso planeta, mas há de se levar em conta que o “fator” humano acrescentou mais um elemento externo a provocar importantes mudanças no substrato físico. É por isso que

vários especialistas defendem um novo período na coluna geológica, o Antropoceno, ressaltando a importância das ações antrópicas na modificação das paisagens naturais, especialmente nos últimos dois séculos. O longo processo de ocupação humana e a valorização econômica dos diferentes espaços naturais da Terra por parte de diferentes sociedades, com suas condições históricas e sociais específicas, deram como um de seus resultados, na atualidade, a existência de quase 200 países que formam hoje a comunidade internacional. As desigualdades entre esse grande número de países são enormes, podendo ser destacadas as que se referem às suas dimensões territoriais, ao volume, a características de seus contingentes demográficos, e às formas pelas quais suas sociedades se apropriaram dos recursos naturais existentes para gerar riquezas. Contudo, nota-se que a distribuição das riquezas geradas não foi apropriada de forma equitativa entre os vários segmentos das sociedades que as produziram. As desigualdades, especialmente as de cunho econômico e social, têm contribuído para diferenciar os países um dos outros, e as disparidades entre os países se reproduzem de forma similar no interior de cada um deles. Se tomarmos o Brasil como exemplo, veremos que ele está posicionado entre os cinco mais extensos e mais populosos do mundo e entre os dez países com maior Produto Interno Bruto (PIB). Todavia, quase invariavelmente ele tem sido classificado entre os mais desiguais quanto à distribuição de renda. Segundo especialistas, um país só poderá atingir um estágio de pleno desenvolvimento se conseguir minimizar ao máximo suas desigualdades internas, tanto em seus aspectos regionais como nos sociais. As desigualdades regionais do Brasil, quando avaliadas pelos aspectos dimensional e demográfico, mostram que as regiões Norte e Centro-Oeste, que formam cerca de 2/3 do território, abrigam apenas 16% da população, enquanto as regiões Sudeste e Nordeste ocupam pouco mais de 29% do território, estando nelas presentes quase 70% dos habitantes do país. (Gráficos 1 e 2) Quando se analisa a geração das riquezas regionais

18,2

por Patrícia Galleto

14

Renda Básica Cidadã por Eduardo Suplicy

24

Nelson Pangea Professor de Geografia formado pela USP e um dos editores do Jornal Mundo – Geografia e Política Internacional. Autor de livros didáticos e paradidáticos nas áreas de Geografia e Geopolítica.

Os números, suas formas e curiosidades (Gráfico 3)

Brasil: geração do PIB por regiões em 2011 (%) 5,4

9,6

18,9 Norte Nordeste

Centro-Oeste Sudeste

13,4

Sul

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

16,2

7,5

Norte Nordeste

por Iara Souza Vicente 8,4

Sul

Sul

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2013.

Nelson Rolihlahla Mandela

(Gráfico 4)

Brasil: indicadores sociais por regiões (2012)

42

27,8 Centro-Oeste Sudeste

Centro-Oeste Sudeste

Fonte: IBGE, 2011w

14,3

Norte Nordeste

55,4

por Eduardo Munari

26

(Gráfico 2)

Brasil: distribuição da população em 2013 (%)

26

44

45,2

Xodó do Povo

gera quase 1/3 do PIB regional, e se juntarmos a ela os estados de Pernambuco e Ceará, a geração de riquezas chega quase a 2/3. No Sudeste, São Paulo gera cerca de 60% do PIB regional (32,6% do PIB nacional), quase o triplo do que é produzido pelo Rio de Janeiro, o segundo maior PIB do país. Como se pode observar, as desigualdades apontadas ainda são enormes, mas já foram bem maiores num passado recente. No que se refere às desigualdades sociais, especialmente nas últimas duas décadas, como resultado de uma combinação de fatores dentre os quais se destacam a consolidação democrática, a abertura econômica, a relativa estabilização da economia, e um processo de incorporação de importantes contingentes da população aos mercados de consumo – situação catapultada pelas políticas estatais de transferência de renda –, houve uma significativa redução dos índices de pobreza absoluta. Mas apesar dessas melhorias, não se pode garantir que o Brasil chegue em pouco tempo à almejada situação de país plenamente desenvolvido, pois existem ainda enormes desafios a serem vencidos ligados não só às questões há muito não resolvidas (como a reforma política e a da previdência social), como também às novas que constantemente se impõem (crises econômicas internacionais).

80 70 60 50 40 30 20 10 0

População com renda familiar per capita inferior a um salário mínimo (em %) Mortalidade infantil (por mil nascidos vivos) Pessoas Analfabetas com mais de 15 anos (em%)

75,2

69,8 Ubiracy de Souza Braga por 48,7

30 19,8 10

Norte

41,7

43,9 20,5 17,4

Nordeste

16

6,7 Centro Oeste

12

4,8

Sudeste

10,8

4,4

Sul

Fonte: PNUD 2012 IBGE

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Energia solar por Winnie Queiroz Brandão

Rolezinho somos nós

42 As veias abertas de uma nacão por Alexandre Linares


Escreva o mundo de hoje. Envie seu artigo e colabore para o debate da sociedade sobre os temas do momento.

Pensamentos globais, acões locais A Revista Glocal - Painel de Geopolítica, Meio Ambiente, Cultura e Matemática Cotidiana é uma publicação de atualidades do Instituto Henfil Educação e Sustentabilidade, que tem como objetivo divulgar informações qualificadas sobre arte, cultura, política nacional e internacional, meio-ambiente, geopolítica, economia, questões sociais, ciência e matemática. O formato colaborativo abre espaço em suas páginas para que estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, professores e especialistas em diversas áreas publiquem seus artigos em português, inglês ou espanhol.


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Painel de Geopolítica, Meio Ambiente, Cultura e Matemática Cotidiana


nonono nonono nonono nonono nonono

Por que interpretar gráficos e tabelas Tratamento da Informação como foco de reflexão

P

ercebemos no mundo de hoje uma grande utilização de recursos como gráficos e tabelas para organização de informações estatísticas, principalmente nos meios de comunicação como jornais e revistas, para dar suporte ao entendimento de dados obtidos em determinadas pesquisas. O tema Tratamento da Informação é uma das áreas de conhecimento matemático que mais tem sido valorizado nas propostas curriculares de diferentes países. Saber coletar, organizar, analisar e interpretar informações devem ser capacidades básicas de um aluno. Portanto, há a necessidade de se explorar esse tema no contexto escolar. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Matemática, o ensino dessa matéria deve levar o aluno a “recolher dados e informações, elaborar formas para organizá-los e expressá-los, interpretar dados apresentados sob forma de tabelas e gráficos e valorizar essa linguagem como forma de comunicação”. Vejamos os conteúdos referentes ao Tratamento da Informação exigidos no PCN:

8

• coleta, organização e descrição de dados; • leitura e interpretação de dados apresentados de maneira organizada (por meio de listas, tabelas, diagramas e gráficos) e construção dessas representações; • interpretação de dados apresentados por meio de tabelas e gráficos, para identificação de características previsíveis ou aleatórias de acontecimentos; • produção de textos escritos, a partir da interpretação de gráficos e tabelas, construção de gráficos e tabelas com base em informações contidas em textos jornalísticos, científicos ou outros. Percebemos então que é cada vez mais frequente a necessidade de se compreender e analisar todos os elementos significativos presentes em uma representação gráfica ou tabelada, evitando interpretações parciais e precipitadas. Dessa forma, o aluno pode tomar decisões e fazer previsões que terão influência não apenas na vida pessoal, como na de toda a sociedade. A organização dos dados possibilita um maior entendimento da informação e maior facilidade de análise, além de fornecer, com maior clareza, os dados obtidos


em determinadas pesquisas, visto que proporcionam uma visão de conjunto mais rápida que a observação direta dos dados numéricos. Vamos considerar a seguinte situação: na votação para representante e vice- representante da 1ª série do Ensino Médio, um aluno anota os votos com um X ao lado do nome do candidato, enquanto seus colegas votam. Ao terminar a votação, podemos observar o seguinte:

Lahis Cristiane Monteiro de Oliveira Formada no Curso de Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

xxxxxxxxxxxxx xxxxxxx xxxxxxxxxx xxxx xxxxxx

Brincadeiras de pesquisa Cantigas de roda Bolinhas de gude

Não precisamos contar os votos para saber quem foi eleito. Pelos “xis”, notamos que Adriano foi escolhido para representante e Luciana, para vice. O aluno da situação descrita conseguiu coletar e organizar os dados obtidos. Percebemos, dessa forma, que em um simples olhar, conseguimos analisar, interpretar e obter a informação que buscamos. A tabela seguinte mostra a opção de algumas crianças com relação a certas brincadeiras:

Corre cutia Esconde esconde Cinco Marias Escravos de Jó Batata quente

Brincadeiras de pesquisa

Cantigas de roda

29

35

Bolinhas de gude

20

30

Roda peão

18

25

Passa anel

21

20

Corre cutia

16

Esconde esconde

24

Cinco Marias

17

Escravos de Jó

14

Batata quente

12

Bolhas de sabão

09

Peteca

07

Bandeirinha arreou

15

Boca de forno

23

Macaquinho chinês

10

Morto e vivo

08

Podemos dispor algumas das informações dessa tabela em gráficos. (Gráficos 1 e 2) O Gráfico 1 é chamado gráfico de setores (ou gráfico “pizza”) e Gráfico 2, gráfico de barras. A partir deles podemos analisar e fazer algumas indagações, por exemplo: Quantas crianças preferem bolinhas de gude? Qual brincadeira a maioria das crianças preferiram? Observando atentamente o gráfico de barras, por exemplo, podemos responder a essas perguntas. Concluímos que 20 crianças preferem bolinhas de gude e que a maioria das crianças prefere cantigas de roda.

15 10 5

Aniversariantes do mês 30

Morto e vivo

Boca de forno

Macaquinho chinês

Peteca

Bolhas de sabão

Batata quente

Escravos de Jó

Cinco Marias

Esconde esconde

Corre cutia

Passa anel

Roda peão

0 Bolinhas de gude

Qualidade de optantes

Passa anel

Cantigas de roda

Nome das brincadeiras

Roda peão

Bandeirinha arreou

Adriano Letícia Luciana Magda Marina

Para melhor esclarecimento, vejamos outro exemplo: a tabela dos aniversariantes do mês e sua representação gráfica. Que informações você consegue extrair analisando esses dados?

Amanda

10/09

Andressa

12/09

Gabriel

18/09

Arthur

28/09

20 10 0

a l sa nd a es rie r b m d A Ga An

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Antibi贸ticos: mocinhos ou vil玫es?

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Há muito tempo os antibióticos vêm salvando vidas, mas quais são as consequências do seu uso para a saúde pública e o meio ambiente?

O

s antibióticos são substâncias químicas produzidas naturalmente por alguns microrganismos, com a intenção de diminuir o crescimento de outros microrganismos que dividem o mesmo nicho ecológico e competem pelos mesmos nutrientes, em uma relação antagonista. Desde a descoberta das propriedades bactericidas da penicilina, em 1928, e a partir da II Guerra Mundial, quando seu uso foi estendido para a população, muitas doenças antes intratáveis, como a tuberculose, passaram a ser curadas, trazendo melhor qualidade de vida. A partir de então, novas drogas antimicrobianas – de origem natural ou sintética – estão sendo desenvolvidas para que haja um maior controle das doenças infecciosas. Porém, devido à grande capacidade de adaptação dos microrganismos, apenas 10 anos após a II Guerra Mundial foram observados microrganismos resistentes à penicilina. A existência dessas variedades resistentes aos antibióticos utilizados normalmente é prejudicial à eficácia dos tratamentos convencionais, obrigando os médicos a usarem novas drogas cada vez mais fortes para obter sucesso no tratamento de doenças. A maior problemática da adaptação das drogas é que, assim que uma nova, mais forte e de maior espectro de ação, passa a ser usada, ela já começa a exercer a pressão seletiva na comunidade microbiana, dando início ao processo de seleção dos microrganismos resistentes. A partir de 2011, por meio da Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 20/2011 – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a controlar a venda de antibióticos, dificultando o uso indiscriminado e irresponsável, favorecendo para que haja um maior controle no desenvolvimento de novas populações de microrganismos resistentes. Porém, ainda não há controle no uso de antibióticos na medicina preventiva, tanto na aquicultura, usada

para evitar pragas nos cultivos, como na agropecuária, sendo muitas vezes acrescentados à ração para evitar doenças. Estudos mais recentes mostram que o uso indiscriminado de agentes antibióticos não causam danos somente na área médica, como também na área ambiental. Isso porque esses medicamentos são liberados no ambiente – de forma direta na aquicultura e indireta por meio de resíduos não metabolizados excretados pelos organismos – e passam a exercer uma pressão seletiva na microbiota ambiental. Essa pressão é tanta que vem alterando as comunidades microbianas e desregulando atividades simples, como a degradação da matéria orgânica. Estudos atuais mostram que, em determinadas regiões, está havendo uma alteração nas comunidades fitoplanctônicas, o que acarreta um prejuízo na produção de oxigênio e na fixação de gás carbônico, consequências que, a longo prazo e em grande escala, podem cooperar com o aquecimento global. Por tudo isso, o uso indiscriminado e irresponsável de agentes antimicrobianos pode trazer sérias consequências, tanto para a saúde pública como para o meio ambiente.

Paulinha Ranzani Bacharel em Biologia Marinha pela Unesp e Mestre em Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela U–nifei/MG.

A penicilina é um antibiótico natural derivado do fungo Penicillium chrysogenum. Ela é um -lactâmico que possui como mecanismo de ação a inibição no desenvolvimento da síntese da parede celular bacteriana. Foi descoberta pelo médico Alexander Feming, em 1928, e seu uso foi liberado à população após a II Guerra Mundial.

Segundo a RDC nº 20/2011, a partir do ano de 2011 toda substância com propriedade antimicrobiana só pode ser vendida com receita médica em duas vias, e, quando possível, o farmacêutico deve dispensar a quantidade exata prescrita para o tratamento, dificultando o uso indiscriminado e a automedicação.

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Especial

Eduardo Suplicy fala sobre a importância de se instituir um programa como o Renda Básica de Cidadania, que tem sido aplicado em outras regiões do mundo para uma melhor qualidade de vida das populações mais necessitadas.

Renda Básica de Cidadania um passo a mais para as políticas sociais. Como esse programa pode auxiliar na construção de um Brasil menos desigual

E

ntre os dias 19 e 22 de setembro de 2013, um grupo composto por mais de 270 professores, cientistas sociais, filósofos, economistas e dirigentes de organizações sociais, cooperativas, quilombos e outras, enviou à presidente Dilma um documento solicitando um Grupo de Trabalho que tenha por propósito preparar a instituição, por etapas, da Renda Básica de Cidadania, conforme dispõe a Lei 10.835/2004, cuja sanção pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva se deu em 8 de janeiro de 2004, após sua aprovação por todos os partidos políticos no Congresso Nacional. De acordo com os participantes do II Colóquio Internacional NUPSI-USP e XI Colóquio do Curso de Especialização em Psicopatologia e Saúde Pública – “Invenções democráticas: construções da felicidade”, chegou-se à conclusão de que a cria-

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ção desse programa seria um grande salto adiante para atingir plenamente o objetivo de erradicar a pobreza extrema e para fortalecer a segurança econômica das mulheres no Brasil. Sugeriu-se que tal Grupo de Trabalho fosse coordenado pelo Professor Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária, profundo estudioso das formas solidárias e democráticas de economia que visam à construção de uma sociedade justa e civilizada, em estreita colaboração com os Ministros do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, e da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri. Na proposta, também se abria a possibilidade de fazerem parte desse grupo os estudiosos dos programas sociais de transferência de renda que têm contribuído para a erradicação progressiva da pobreza absoluta em nosso país, tanto no Governo, como no meio acadêmico.


A ideia do projeto Renda Básica é garantir o direito a todos os cidadãos de receberem uma renda suficiente para atender as suas necessidades vitais. Cabe lembrar que o IV Congresso Nacional do PT, iniciado em fevereiro de 2010, quando a atual Presidente se consagrou candidata à Presidência da República, aprovou por consenso de seus 1.350 delegados que seu governo caminharia na direção de instituir a Renda Básica de Cidadania. Experiências positivas com a Renda Básica aconteceram nos EUA em 1970, em Manitoba no Canadá, e recentemente no Brasil, em Quatinga Velho, na Namíbia (África) e na Índia, como exposto pelo professor Guy Standing. Merecem destaque os bons resultados derivados do dividendo pago ininterruptamente há trinta anos pelo Fundo Permanente do Alasca, nos EUA. Em São Paulo, a cidade de Santo Antônio do Pinhal aprovou, a Lei 1.090. Recentemente, a cidade de Apiaí aprovou lei semelhante, que busca implementar esse benefício. Com tudo isso, fica demonstrada a importância, para a felicidade individual e coletiva, de garantir uma renda mínima incondicional aos cidadãos.

O Grupo de Trabalho certamente poderá contar com o número crescente de economistas, filósofos e cientistas sociais no mundo, tais como os que formam a Basic Income Earth Network - BIEN, que têm desenvolvido estudos sobre como a Renda Básica de Cidadania contribuirá para prover dignidade e real liberdade a todas as pessoas. Assinaram o manifesto estudiosos como Marilena Chaui, David Calderoni, Paul Singer, Guy Standing, eu, Eduardo Matarazzo Suplicy, dentre tantos que participaram do colóquio, fisicamente ou por acesso ao sítio eletrônico. São muitas as pessoas que estão acrescendo as suas assinaturas.

10 anos o programa Bolsa Família completou recentemente. Ele foi aprovado em outubro de 2003 pela Medida Provisória N. 132, e depois instituído em janeiro de 2004 pela Lei 10.836

Eduardo Matarazzo Suplicy Formado em Economia pela Universidade Estadual de Michigan e em Administração pela FGV, onde atualmente é professor. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, pelo qual hoje é Senador.

13.841.665 de famílias, correspondentes a aproximadamente ¼ dos 201 milhões de habitantes do Brasil são beneficiárias do Bolsa Família. Há 10 anos, esse total era de 3,5 milhões.

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O que é que o

Expressões culturais de um determinado local. No caso da literatura e das artes, é identificado especialmente pelo uso de vocábulos e expressões linguísticas, da escolha de temas e da descrição de cenas, personagens ou situações típicas de um certo lugar. O Brasil é um país rico em regionalismos diferentes, devido às suas proporções continentais e à diversidade existente na formação de seu povo. Na literatura, é possível encontrar elementos regionalistas já durante a fase romântica das letras brasileiras e com bastante força décadas depois, durante o Modernismo.

Escritor brasileiro extremamente popular dentro e fora do Brasil, sendo um dos mais traduzidos no exterior, e cujas obras foram mais adaptadas para a televisão. Sua obra é genericamente classificada como parte da segunda geração do Modernismo brasileiro (fase regionalista).

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baiano tem

Centenário do cantor e compositor Dorival Caymmi é uma boa ocasião para pensar na relevância de sua obra na construção da identidade brasileira

O

mar, a beleza das mulheres negras, a miríade de informações do mercado de peixe, as cores e os aromas da comida, a exuberância da religiosidade praticada nos terreiros de candomblé. Fragmentos da vida baiana, metonímia dos muitos universos que constituem a identidade brasileira, foram cantados pelo cantor e compositor Dorival Caymmi, com tanta sensibilidade e com uma profusão de imagens carregadas de tamanho significado, que fizeram dele um dos artistas mais representativos da cultura deste país. Sua obra era particularmente sensual, não no sentido carnal ou sexual da palavra, mas como um convite à sensibilização e vivência dos sentidos, iniciada na música, mas só completamente compreendida por quem aceita a proposta de perceber com a devida atenção a areia da praia, o vento, o caimento das rendas, o cheirinho de dendê fumegando. Suas canções são, acima de tudo, odes ao hedonismo, uma celebração dos pequenos prazeres da vida cotidiana, do contato com a natureza e da vivência espiritual. Além de ter formado gerações de músicos e criadores que beberiam diretamente em sua fon-

te, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Carlos Lyra, João Gilberto, Paulo Moura, Tom Zé e até seus próprios filhos, Nana, Dori e Danilo, ele foi responsável por cantar o Brasil e sua gente de uma forma bastante popular, resgatando ou criando na música um estilo de regionalismo que só encontraria paralelo na obra de Luiz Gonzaga (embora ambos tivessem estilos e temáticas bastante diferentes – enquanto Gonzaga cantava o homem nordestino, a caatinga e o catolicismo popular, Caymmi celebrava o pescador, a população praieira e o legado africano). Pode-se afirmar que ele conseguiu, com sua música, criar cenários de um Brasil ao mesmo tempo rural e urbano. Cenários, estes, que são reais para as populações que os vivem, e coerentes no imaginário coletivo dos que estão “de fora” – estrangeiros e habitantes de outras regiões do país. Neste ponto, sua obra se aproxima bastante dos romances, contos e crônicas do escritor Jorge Amado (amigo íntimo e parceiro na autoria de algumas letras, como a da música É doce morrer no mar) e das telas e gravuras do artista plástico e também amigo Carybé. Entre o final dos anos 1940 e início de 1950, Caymmi se aproximou bastante da pintura, trans-


portando para as telas os mesmos temas que permearam sua música – mar, capoeira, jangadas, sereias, baianas. Também escrevia poesias (além das que viravam música), permitindo-se até alguns exercícios de poesia concreta, mas essas eram mais jogos de palavras rabiscados à caneta, que sua família felizmente preservou e hoje compõem o acervo digital Dorival Caymmi. Na ocasião da morte de Jorge Amado, Caymmi chegou a afirmar que escreveu diversas músicas inspirado por escritos do amigo (alguns dos exemplos mais populares são as canções Modinha para Gabriela, sobre a personagem principal do livro Gabriela Cravo e Canela, e a música-tema da novela Porto dos Milagres, inspirada nos romances Mar Morto e A descoberta da América pelos turcos). Por outro lado, em diversas histórias Jorge Amado transformava os amigos Dorival Caymmi, Carybé e outros membros da vida artística e intelectual baiana em personagens. Apesar da abrangência e relevância de sua obra em termos qualitativos, quantitativamente ele é considerado um autor de poucas canções – ao todo, compôs 101 músicas. Isso lhe rendeu entre os colegas, em vida, um jocoso estereótipo de típico baiano malemolente, indolente. Nada mais injusto, se observarmos essa discutível morosidade criativa como indício de um artista perfeccionista e cuidadoso com o acabamento e com os mínimos detalhes de suas criações, e também ao percebermos que, a despeito do conteúdo de suas letras estar muito ligado às tradições e costumes, musicalmente sua influência

foi inaugural e antecipatória em diversos aspectos harmônicos, inversão de acordes e outros elementos que culminaram, anos depois, com a modernização da canção brasileira por meio da bossa-nova, sem contar que a maior parte de suas composições são músicas de imenso sucesso, regravadas por diversos outros intérpretes, de Nelson Gonçalves, que imortalizou Marina, a Carmem Miranda cantando O que é que a baiana tem, passando até por inusitadas apropriações de trechos inteiros de suas músicas para os rituais do povo de santo (confira detalhes no box). Em abril de 2014, celebra-se cem anos do nascimento deste famoso devoto de Yemanjá, não por coincidência, uma divindade de qualidade essencialmente criativa. Saravá, Caymmi! Ângela Arraya Bacharel em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora do Observatório Social, núcleo de projetos e políticas públicas da ONG Henfil Educação e Sustentabilidade.

Estilo de poesia experimental que, além do sentido e ritmo, trabalha também com a composição visual da palavra e sua disposição espacial no papel, na tela ou qual seja o suporte utilizado, rompendo com a organização linear e gramática das frases. Na literatura brasileira, insere-se no Modernismo, tendo como maiores expoentes os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Entre autores com forte ligação com esse estilo, seja antecipando-o seja inspirando-se nele, podemos citar Paulo Leminski, Ferreira Gullar e até Arnaldo Antunes.

O próprio Caymmi disse certa vez: “nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto eu também de Yemanjá, certo eu também de que estamos todos nós em suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar da minha vida”. Sua ligação com o candomblé em vida lhe rendeu um cargo honorífico no Ilê Axé Opô Afonjá (um dos terreiros mais tradicionais do Brasil, tombado como Patrimônio Histórico Nacional e responsável pela articulação do Decreto Presidencial nº 1202, que pôs fim à proibição aos cultos afro-brasileiros). Muito mais que um mero conselheiro num templo frequentado por pessoas influentes, Caymmi, assim como Vinicius de Moraes, Baden Powell e muitos outros artistas, foi uma ponte entre o culto dos orixás e a cultura não religiosa, servindo como mediador entre o sagrado e o profano e aproximando da sociedade mais ampla alguns símbolos que ajudariam a conferir um pouco de legitimidade a manifestações religiosas bastante marginalizadas. Num movimento inverso, hoje é possível encontrar em alguns terreiros mais “modernos” a presença de músicas de Caymmi, como Suíte do Pescador, durante a realização da Linha das Águas (momento ritual em que se canta para invocar ou louvar seres conhecidos como marinheiros, sereias, caboclos das águas etc).

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