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Revista

G

Vende mais por que é bom ou é bom porque vende mais? Pág. 14

Sinalização que traz mudançãs Pág. 6

A influência do esporte paralímpicos para os deficiêntes Pág. 28

abo

Qual o lugar dos índios no Brasil? O desastre ambiental genocida

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1/2013 1


C A melhor revista de todos os tempos dos útlimos semestres

arta da Editora

Gabo: a melhor revista de todos os tem-

pos dos últimos semestres. O nome, assim como o sobrenome, foi escolhido depois de debate bem humorado em sala de aula, quando decidimos que as reportagens produzidas na disciplina não poderiam ficar invisíveis. Ora, se fazer jornalismo é produzir para a sociedade, no nosso caso, produzimos para a comunidade acadêmica da qual fazemos parte. Os textos da disciplina de Jornalismo Especializados I devem então ganhar mundo. A internet, por sua vez, é o meio que viabiliza a construção de uma revista eletrônica. Estamos assim usufruindo de uma confluência entre contexto e possibilidades. As reportagens de Gabo são decorrência das discussões em sala de aula, a partir do diálogo entre textos acadêmicos, jornalísticos e audiovisuais. A ideia é entrelaçar diversos modos de conhecer e interpretar a atualidade, na tentativa de complexificar a prática jornalística. Montar a revista exigiu compromisso de todos no sentido de selecionar e revisar as matérias produzidas no semestre, além de ampliar as tarefas dos alunos: agora eles também deveriam criar uma identidade visual, diagramar, ilustrar, editar. Parabéns aos alunos de Jornalismo Especializado de todos os tempos do primeiro semestre de 2013!

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E

xpediente

Editora Chefe: Sofia Zanforlin Editoria de Apropriações: Stefany Sales Editoria Especial: Evely Leão Editoria de (a) Ágora: Amanda Vilas Boas Editoria de Sancti: Simone Sampaio Editoria de Cultive-se: Renata de Paula Editores de imagem: Flávia Sousa e Henrique Carmo Editora de arte: Alessandra Modzeleski Ilustração: Henrique Carmo Revisores: Carlos Augusto, Marcela Luiza e Nayane Gama Diagramadores: Junior Assis, Henrique Carmo e Lucimar Bento Repórteres: Alessandra Modzeleski, Júnior Assis, Stefany Sales, Amanda Vilas Boas, Simone Sampaio, Carlos Ribeiro, Evely Leão, Marcela, Lucimar Bento, Renata de Paula, Nayanne, Jusciane, Flávia Sousa e Henrique Carmo.

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E

ditorial

Quando lançamos a revista Gabo sabíamos exatamente onde queríamos chegar: poder falar de temas complexos com a nossa língua, desvendando dúvidas, quebrando esterótipos e apimentado o debate com o nosso olhar. A ideia surgiu como iniciativa dos alunos da disciplina de Jornalismo Especializado I, da Universidade Católica de Brasília, para expor as reportagens mais interessantes escritas durante o 1º semestre de 2013. O nome da revista foi pensado com intuito de valorizar o que os alunos produziram de melhor. Como o próprio nome já diz, queríamos nos gabar um pouquinho do nosso árduo, mas gratificante trabalho. A revista apresenta uma valiosa contribuição para os alunos que trabalharam durante todo o semestre, discutindo os assuntos que

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Jovens são

Escolas Modernas

A arte de fazer

O importante

foram debatidos em sala de aula e serão apresentados, com os diversos aspectos. Em sua edição exclusiva, a revista digital traz assuntos polêmicos de forma leve, clara e objetiva, acessível a qualquer tipo de leitor. Conseguimos unificar em uma edição especial a questão indígena, a inserção do jovem na política, na arte e na dança, a história das revoluções, a influência do esporte na socialização das crianças, a inserção da tecnologia nas escolas públicas, o uso de best sellers nas salas de aula e muito mais.

incetivados a compartilhar o que aprenderam com outros

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Gabo mostra as discussões em pauta com opinião, interpretação e muita informação, mostrando diferentes ângulos e pontos de vistas, dos quais você jamais imaginou estar. Aproveite, ela foi feita pra você!

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S

grafite

é se esforçar para a formação do caráter

Sinalização que traz mudanças Marcus Feliciano nas Redes sociais O jovem e a política Transformações na realidade Tupiniquim Best Sellers nas escolas Quadrilhas juninas PEC 215

umário

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CAPA: Belo Monte Esporte e educação Centros de saúde Incentivo paralímpico

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Grupo de Porto Alegre inova transporte público com ajuda de adesivos Alessandra Modzeleski

O projeto se chama “Que ônibus passa aqui?” e promete ajudar os desavisados que pouco sabem onde estão pisando, ou melhor, onde vão embarcar. O projeto nasceu da inciativa dos jovens de Porto Alegre Luciano Braga, Gabriel Gomes e Giovani Groff. O Shoot The Shit tem como lema transformar a cidade gaúcha na melhor do país. A falta de sinalização nas paradas de ônibus atrapalha quem usa o coletivo e, por ventura, quem precisa ir a lugares novos e na hora de voltar pra casa encontra dificuldades para descobrir se o ônibus que precisa passa ali. O grupo, cansado de pedir informações, resolveu criar um adesivo que instiga os usuários do transporte público com a pergunta “Que ônibus passa aqui?” e, em seguida, com uma pequena introdução, pedindo para que as pessoas colaborem escrevendo nas linhas. Em Porto Alegre, o projeto passou por diversas alterações até chegar ao formato definitivo, e foi rejeitado inicialmente pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) da cidade. Mas, no final, o trio criou um site onde qualquer pessoa pode baixar o adesivo e ter acesso a todas as orientações para mandar imprimir na gráfica. A página contêm três adesivos e custa em média R$ 1,00. Nos tópicos demonstrativos de como fazer, o grupo ainda pede que as pessoas registrem tudo e mandem as fotos para “divulgar e inspirar” outras pessoas a fazerem o mesmo. Além do “Que ônibus passa aqui?” o grupo criou diversos projetos, entre eles o “Tá com pressa?”, que sinaliza passarelas com adesivos que mostram os sentidos que as pessoas devem andar, pra não ficar aquele empurra-empurra e esbarra-esbarra e também o “Salve uma vida, apague seu cigarro”, iniciativa tomada no dia Nacional do Combate ao Fumo, também com o auxílio de adesivos de forma criativa. Nas redes sociais No Facebook o projeto tem aproximadamente 2.833 “curtidas”. As atualizações da página são repletas de fotos tiradas em diversos lugares no Brasil.

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No país, tornou-se febre: Caxias do Sul, Fortaleza, Pernambuco, Curitiba, João Pessoa, Brasília, Natal, entre outros. Todos procurando melhorar as condições do transporte público com pequenas ações conjuntas. O estudante Victor Araújo, que conheceu o projeto por meio de um amigo, participou da mobilização em Brasília na segunda semana de março. Imprimiu cinquenta adesivos que foram distribuídos na região de Taguatinga e Águas Claras. Gastou em média sessenta reais. “Acho uma ação muito importante. Já que o governo não nos disponibiliza essas tabelas, ou placas, com a sinalização dessas informações, nada mais justo do que o cidadão que se sente lesado por isso ajudar outros com essa iniciativa”, justifica o estudante. O morador de Águas Claras Luis Felipe de Oliveira contou que ao se deparar com o adesivo no ponto de ônibus da Avenida Castanheiras achou que era uma iniciativa do governo. “Acho essas iniciativas muito importantes. Quando pesquisei e vi que era algo totalmente independente fiquei feliz de saber que existem projetos como esses”.

Como

imprimir:

A iniciativa em Brasília foi graças ao estudante de economia Rafael Chervenski. Natural de Porto Alegre, o jovem estudou com um dos fundadores do projeto e ao se mudar para Brasília trouxe na bagagem a ideia. Em entrevista à Gabo, Rafael conta como foi executar o “Que ônibus passa aqui, Brasília”: Como foi o contato com o projeto na capital gaúcha? O projeto surgiu em fevereiro do ano passado. Lá foi bem interessante, mas não teve a magnitude que acabou tomando no resto do país e nem pretendia. Era como uma ação entre amigos do coletivo Shoot The Shit.

Pingue

Sinalização que traz mudanças

Apropriações Pongue

Apropriações

Quando você sentiu a necessidade de trazer o projeto para Brasília? Em setembro, quando me mudei, acabei me deparando com um sistema de transporte público péssimo, sem informações e nenhum cumprimento nem de trajetos nem de horários. Eu não gosto de carro, não tenho por escolha. Eu acho e acredito mesmo que o transporte público possa ser bom, isso traz uma série de reflexos. Pensei na hora que seria fundamental que Brasília também participasse da ação, aqui não existem informações a respeito. A participação das pessoas foi satisfatória? Criei o evento no Facebook, torcendo o dedo para que 10 pessoas animassem de participar, o que já seria legal. No fim, rapidinho um monte de gente começou a mandar mensagem e e-mail querendo adesivos, querendo participar. E foi muito importante também que uma amiga minha publicitária, a Akemi Akaoka, e um grupo de criativos aqui de Brasília, o Projeto 767, se envolveram, eles ajudaram a dar corpo à ação. Criei um site de doações, como se fosse uma “vaquinha” para arrecadar dinheiro e imprimir alguns adesivos na minha impressora, pra começar a ação. Quantas pessoas participaram? Esse é o mais legal, só tenho como saber das pessoas que eu conheci ao vivo, que pegaram adesivos comigo, enfim, que foram em torno de 20 pessoas. A ação é totalmente espontânea, quem quiser consegue imprimir em uma gráfica expressa por conta própria e realizar a ação. Chegamos a várias paradas que já tinham adesivos.

Baixe o adesivo no site do Shoot This Shit Imprima. Os adesivos saem em média R$ 1,00

Quais foram as regiões adesivadas? Eu, particularmente, andei pela Asa Sul, Esplanada, Taguatinga, Ceilândia e Águas Claras. Sei de gente que adesivou o Núcleo Bandeirante, Samambaia, Lago Sul e Lago Norte e Asa Norte. O estudante conta que pretende implantar encontros pontuais, para saber ao certo quantas pessoas estão se mobilizando pela causa. Declara que manda diversas fotos para o trio fundador do projeto das novas sinalizações na capital. O morador de Águas Claras Luis Felipe de Oliveira contou que ao se deparar com o adesivo no ponto de ônibus da Avenida Castanheiras achou que era uma iniciativa do governo. “Acho essas iniciativas muito importantes. Quando pesquisei e vi que era algo totalmente independente fiquei feliz de saber que existem projetos como esses”.

Cole nos pontos de ônibus e sinalize com as linhas.

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Apropriações

Arte sem limites

Atores na vida real, jovens são incentivados a compartilharem o que aprenderam a outras pessoas em suas comunidades

Foto: Jussara Rodrigues

Apropriações

Escolas modernas Distrito Federal adota dispositivos tecnológicos como parte de material de ensino Stefany Sales

mundo abriu portas para tecnologia e não tem como negar. O Pessoas com seus celulares de última geração, tabletes, computadores e cadernetas eletrônicas. Casa, rua, trabalho são exemplos de

Júnior Assis

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música, a dança e o grafite encantam e despertam o interesse dos jovens em comunidades carentes do Distrito Federal. A mistura de culturas, crenças e realidades envolve o cotidiano de cada um deles. Na busca para alcançar algo melhor, essas pessoas se dedicam ao mundo da arte e da cultura. Com base em dados do Cadastro Único DF, cerca de cem mil jovens entre 15 e 29 anos estão em situação de extrema pobreza. Para alcançar esse grupo, os movimentos sociais utilizam a dança e a música. Somente depois de uma aproximação concreta começam a tratar do tema política, com todo cuidado. “A pessoa que chega até nós não quer saber de política. Então, no começo, a gente mostra a dança e depois a importância da política para a sua comunidade e para a cultura”, diz Alan Jhone Moreira, conhecido como B. boy Papel. Os movimentos de hip hop, grafite, DJ e break, chegam às comunidades e escolas do Distrito Federal para ajudar na formação cultural. São grupos formados por cidadãos que têm o desejo de mostrar aos moradores de suas localidades a importância dessa arte no aspecto social. As pessoas que fazem parte desse conjunto desenvolvem as atividades em escolas, casas, locais públicos e particulares. Por meio desse trabalho, eles mostram a importância de jovens estarem diretamente ligados ao movimento. Em Ceilândia, grupos como o Força Tarefa e Repensar realizam ações voluntárias junto às comunidades sem cobrar nada. “Nossa proposta é inserir os jovens no mercado cultural’’, afirma o B. boy Papel. A arte permitiu ao dançarino conhecer mais de cinco países, onde ele representou o Brasil em campeonatos de breaking. Para ele, as pessoas interessadas por alguma arte precisam de um apoio maior do governo e da cidade. O crescimento de movimentos sociais com envolvimento de jovens tem despertado o interesse de órgãos governamentais. Os grupos são capazes de movimentar inúmeras pessoas da comunidade onde vivem, em prol de reivindicações e atividades que fazem no intuito de divulgar a cultura e a cidadania. Em janeiro deste ano, o GDF criou o Conselho de Juventude do DF (Conjuve-DF). O objetivo é dar aos jovens a liberdade de escolher pessoas que os represente para discutir assuntos como democracia e políticas públicas voltadas para esse setor. “O conselho da juventude é um espaço de troca, e também de interlocução entre o governo com esse público”, relata o coordenador de Juventude da Secretaria de Governo, Carlos Odas. A inserção dos jovens na cultura e na política é um diferencial nos movimentos sociais. “Para o adolescente é muito importante que ele esteja participando dos projetos”, relata o B. boy Papel. A

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B.boy Papel junto com seus alunos no Centro Cultural de Ceilândia norte

participação desse grupo nas oficinas ministradas pelos profissionais que dedicam suas vidas a um trabalho voluntário é grande. Essas pessoas ensinam aos alunos a importância de estarem envolvidos em ações realizadas no bairro onde moram. As pessoas envolvidas na arte encontram no hip hop a oportunidade de mudar de vida. É o caso de Lucas da Silva, 19. Ele mora em uma comunidade carente no setor Sol Nascente, em Ceilândia, mas não desanima e vê no break a chance de crescer na vida. “A dança é uma forma que eu encontrei para fugir das drogas”, afirma o rapaz. Hip hop nas escolas Cada vez mais estudantes da rede pública no DF são alcançados pelas manifestações culturais. O grupo Força Tarefa desenvolve atividades de música e grafite em diversas escolas. “A ideia sempre foi formar jovens que aprendam a arte e passem para outras pessoas”, conta o diretor da organização, Rivas Cruz. Para o cantor de rap Cleidilson da Silva, o movimento de hip hop tem um valor imenso, os indivíduos alcançados pela dança passam a ter uma nova visão de sua comunidade. Eles começam a entender que os movimentos artísticos culturais fazem parte do seu cotidiano. “As escolas são as principais responsáveis pela disseminação dos movimentos na cidade”, enfatiza. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no DF o grupo de pessoas entre 10 e 29 anos soma quase 953 mil. Os movimentos que usam o hip hop para alcançar esse público chamam a atenção pelo interesse em formar futuros representantes da arte. “Se a pessoa está envolvida em cenas culturais aprende muito mais”, afirma o coordenador da Central dos Movimentos Populares, Marcelo Didonet. As pessoas que trabalham com o hip hop, grafite, DJ e o breaking nas cidades do Distrito Federal lutam pela propagação da cultura. Envolver esses indivíduos em atividades que vão beneficiar sua localidade é um dos objetivos dos grupos. “Nos espaços que são construídos mais coletivamente, você tem uma tolerância maior à diferença e à diversidade”, relata Carlos Odas.

espaços tomados por essas tecnologias. Mas, e a escola? Também não fica fora da lista. Hoje o Distrito Federal possui escolas que fazem uso de tecnologias até dentro da sala de aula. A Escola Classe 10 de Ceilândia é uma das beneficiadas. Com o Projeto Um Computador por Aluno – ProUCA, os alunos do primeiro ao quinto ano fazem o uso do aparelho em sala de aula. O projeto foi idealizado no ano de 2005 pelo presidente da época, mas os computadores chegaram à escola só em 2010. A escola foi uma das escolhidas por ter um dos melhores Índices de Desenvolvimento de Educação (Ideb) da época na região. Com uma parceira do Ministério da educação (MEC) e da Universidade de Brasília (UnB), fizeram a capacitação dos professores. A EC 10 conta com aproximadamente 470 laptops, sendo 30 computadores por sala. Os alunos fazem o uso do computador um ou dois dias na semana. Para a diretora Michele de Moraes é importante o uso dessas tecnologias nas escolas, mas também levanta a necessidade da manutenção:“As tecnologias precisam entrar.Tem que ter. Se não entra, como os alunos vão se portar lá fora? Só precisamos de suporte. É claro, hoje estamos em 2013 e o UCA nesses três anos teve certa defasagem do próprio aparelho igual o da nossa casa. E nessa defasagem os meninos tem o UCA como um lazer, ele é explorado, mas se tivesse uma reformulação do aparelho ele seria muito mais”. Não são apenas os aparelhos que precisam sempre de cuidados. Os professores também. Os educadores que saem da escola levam com eles o que foi aprendido durante o período da capacitação. Como não existe mais a parceria para ensinar os professores, os que chegam precisam aprender a usar o laptop com os que já estão ou correr atrás do Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE) ou da Secretaria de Educação. No DF, são seis escolas que fazem parte do ProUca. O Centro de Ensino Fundamental 01 do Planalto, Escola Classe 102 do Recanto das Emas, Escola Classe 01 do Guará, Escola Classe 10 de Ceilândia, Centro de Ensino Fundamental Pipiripau II de Planaltina e Escola Classe 10 de Sobradinho. E mesmo com toda técnica o lápis, a borracha e o papel não saem de cena: “Nunca vão ser substituídos. É impossível. Tem coisas que são de competências. Coisas do computador de facilitar, ganhar tempo, ganhar espaço, aperfeiçoar o serviço e tem outras coisas que não vão substituir as anotações”, acredita a diretora Michele Moraes. Buscando ajuda nas tecnologias Em 2012 o Centro de Ensino Médio 414 de Samambaia adotou uma nova forma de controlar a entrada e saída dos alunos na escola e a ideia foi da direção. Um chip no uniforme dos alunos com o intuito de avisar aos pais por meio de mensagem no celular que o aluno está entrando e saindo do colégio. Depois de testarem a carteirinha, cartão de turma, cartão de aluno,

freqüência nas salas e o resultado não ser positivo, a diretora do CEM 414, Remisia Aguiar, viu em uma reportagem na internet que uma escola em Vitória da Conquista- Bahia fazia o uso de chip no uniforme e resolveu entrar em contanto com a empresa que desenvolve o projeto na Bahia. Queriam testar para ver se realmente implantavam. Depois de uma reunião com os pais, uma turma de 35 alunos fez o teste do chip durante mais ou menos 35 dias. Montaram o receptor na entrada. Com o chip no uniforme, quando os alunos passam embaixo do receptor ele registra. A diretora declara que o debate sobre o assunto foi muito bom: ”Mexeu com todo mundo, do pai até a Secretária de Educação, professor, conselho de pais, direitos humanos. Todo mundo começou a se mover e saber que escola pública existe e que ela tem pequenos problemas. Nós que estamos aqui no dia a dia é que sabemos da nossa real dificuldade”. De acordo com a diretora, o projeto foi bem recebido pelos alunos e pais que estavam envolvidos:“Alguns pais procuraram a escola para matricular os filhos por conta do projeto, mas a Secretaria não aceitou a ideia”, completa Remisia Aguiar, sobre o aparelho que não foi implantado. Na mesma escola, agora sem chips, eles receberam uma lousa digital. O aparelho possui uma caneta que substitui o pincel e a caneta também tem a função do mouse do computador, não sendo necessário o deslocamento até o dispositivo e facilitando o uso do professor. O dispositivo ainda está em fase de teste. Felipe Viterbo do Núcleo de Tecnologia Educacional de Samambaia comenta sobre a inclusão desses aparelhos tecnológicos no planejamento dos professores para as aulas: “Alguns professores têm vontade de inserir as tecnologias nas salas de aula, mas eles não se sentem seguros porque acham que ao levar a tecnologia para sala o aluno vai dominar mais que ele. Outros arriscam e percebem que o uso vai exigir um trabalho a mais. Alguns preferem dar a aula que ele já tem pronta, do que planejar a inserção das tecnologias”. O objetivo do Núcleo de Tecnologia Educacional de Samambaia é promover o uso das tecnologias por parte dos professores das escolas públicas da cidade. De acordo com Felipe, não existe em Samambaia um modelo de escola onde todo mundo usa, mas há exemplos de professores espalhados que estão utilizando e são esses que dão motivação para ele continuar trabalhando.“Em qualquer eixo vamos entender que já é necessário o domínio da tecnologia. Seja no mercado de trabalho ou como cidadão. Esse aluno vai fazer uma transação bancária, vai se inscrever em um concurso, hoje é tudo eletrônico e ele vai precisar saber manusear. Uma substituição natural que o mercado já fez. Necessidade que o mundo lá fora trouxe para escola. Cabe à escola entender que a formação que ela esta dando é para isso”, assegura Felipe Viterbo. A diretora Remisia também defende o uso desses aparelhos, mas acredita que ao mesmo tempo existe uma perda: “O mundo caminha pra isso. As escolas estão atrasadas em relação à evolução da tecnologia. Quem pega habilidade de digitar não quer mais saber de caderno. E com isso tem as suas perdas, perda da caligrafia, perda em escrever as palavras corretamente. O fato de escrever se perde muito”, conclui.

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Ágora

Amanda Vilas Boas

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Repercussão de Feliciano nas Redes Sociais

o início do mês de março deste ano, o deputado Marco Feliciano tomou posse como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. O presidente e Pastor evangélico da igreja Assembléia de Deus, desde que assumiu o cargo é conhecido por suas declarações polêmicas sobre negros, católicos, homossexuais e mulheres. O Pastor já atacou também pessoas famosas como Raul Gil e Caetano Veloso.Atualmente, ele é alvo de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) por preconceito e racismo, além de uma ação em que é acusado de estelionato. Em sua minúscula trajetória política, ele já criou milhares de inimigos, entre eles pessoas famosas que têm usado os meios possíveis para protestarem e pedirem a saída do pastor do cargo. Como exemplo disso temos a cantora Daniela Mercury, o Dj Dandan que usou de seu show para milhares de pessoas para fazer uma declaração: “fora Feliciano”. A atriz Fernanda Montenegro também protestou, beijando na boca da colega de profissão Camila Amado, durante uma edição do Prêmio de produtores de teatro do Rio. Outro caso conhecido, ocorreu na entrega do prêmio Braskem de Teatro 2012, com o slogan, “Feliciano não me representa”, o dramaturgo João Sanches (Melhor Texto) e o diretor George Vladimir (Revelação) estavam entre os insatisfeitos com a escolha.“Não, Marco Feliciano não me representa”. Nas redes sociais vários atores da emissora rede globo protestam conta Marcos Feliciano, principalmente no “instagram” como, por exemplo, Bruno Gagliasso, Matheus Nachtergaele, Fernanda Paes-Leme, Alexandre Nero,Wagner Moura, Xuxa Meneghel,Yasmin Brunet, Antonia Morais e Fernanda Rodrigues. Além disso, Marília Gabriela se recusou a entrevistá-lo em seu programa. A indignação com essa situação não é apenas dos famosos, muitos brasileiros já organizaram vários protestos como passeatas em diversos lugares do país, na sessão da comissão e em redes sociais, que ganha novos adeptos a cada dia. Em uma pesquisa pela rede social “facebook”, pode-se encontrar facilmente várias comunidades relacionadas ao Feliciano. Uma destas comunidades repudia a nomeação do Pr. Marco Feliciano para presidente da Comissão de Direitos Humanos e possui 6.677 integrantes, na qual 5.184 falam sobre isso. Em outra comunidade encontramos a tanger “Não me representa” com 3.648 pessoas, onde 68 falando sobre isso. Os brasilienses não ficaram de fora e criaram a página na qual o título é:“Movimento Não me Representa - DF”, com o objetivo de resgatar os direitos humanos, a comunidade é construída de grupos de indivíduos que fazem manifestação toda quarta-feira na Câmara dos Deputados. Essa página tem 1.458 membros e 176 falando sobre o assunto. Mas a maior de todas as páginas que é contra o pastor “Feliciano não me representa” já possui 23.002 indivíduos. Encontramos em pesquisas no “facebook” uma comunidade, criada em defesa do pastor Marco Feliciano, com o título “Marcos Feliciano Me Representa SIM”. Mas a maioria dos sites que tratam de assuntos ligados ao pastor, recebem milhares de criticas dos leitores que se mostram ofendidos e insatisfeitos. Em uma busca rápida no “Google”, encontramos milhares de pessoas que postam fotos com placas dizendo “Feliciano não me representa”. No “youtube’’ existem vários vídeos criticando-o, o último na qual o título é “Homofobia - Não Faz Sentido” foi publicado no dia 26/04/2013, e já tem 1.385.844 visualizações.

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O pastor já fez várias ações que fizeram com que a maioria do povo se sentissem ofendidos, e o criticassem, querendo que ele abandonasse o mandato. E sua última ação que está deixando muitas pessoas revoltadas é o projeto “Cura gay”, um projeto que autoriza o tratamento psicológico ou a terapia para alterar a orientação sexual de homossexuais. Para sabermos, a opinião das pessoas que criaram essas comunidades, entramos em contato com o administrador Danilo Alves Fontes da página, “Não me representa” na qual tem 3.648 membros. Segue abaixo a entrevista.

- GABO: Qual objetivo da comunidade? Administrador da página: O objetivo da página é questionar os políticos que devem representar toda a população brasileira, sem exceções. Se você não se sente representado por um político, pode dar seu depoimento. - Há quanto tempo à comunidade existe? Há dois meses. Ela foi fundada em sete de março de 2013. - A mobilização é apenas por facebook? Sim. Através da comunidade colocamos todas as noticias “deste indivíduo”. E as pessoas podem mostrar sua opinião. - A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara se prepara para aprovar, na próxima semana, o Projeto de Decreto da Câmara conhecido como “PDC da Cura Gay”. O que você acha isso? Ser “gay” é uma doença? É ridículo existir um projeto que “acha/acredita” que vai curar alguém que gosta do mesmo sexo. Esse presidente do CDH e quem pensa desse jeito são ridículos e repugnantes. Ele não deveria ocupar o cargo que está não é condizente. Se continuar assim, daqui uns dias haverá a “cura negra”, “cura de quem pensa diferente” “cura do livre-arbí-

trio”. - Você acredita que Marcos Feliciano está conseguindo extinguir o Estado Laico do Brasil? Sim, ele está tentando fazer sua ideologia, mas muitos não estão de acordo. - O que você acha do movimento “não me representa”? Acho que com esse movimento mostramos que Marcos Feliciano não nos representa, e não representa nossa cidadania. Queremos se unir e agir para que ele saia do poder. - Você acha que o preconceito de Marcos Feliciano está apenas ligado a religião ou tem haver com a cultura do nosso país nas ultimas décadas? Está ligado á cultura da religião dele. Mas ele distorce algumas coisas e gera um pré-conceito. - Acredita que Feliciano ataca a nossa cidadania? Por quê? Sim. Primeiro ele atacou os gays, depois os negros, as mulheres, as religiões afro, posteriormente os católicos e também a cidadania de todos nós. Querem acabar com as minorias, num processo de “cura” que só vai gerar maior constrangimento, a maior ironia é que está sendo feito por quem deveria estar zelando pelos direitos humanos e minorias.

Ágora

Jovens conscientes do poder do voto O aumento na participação da juventude nas eleições de 2012 é um sinal de mudanças paradigmáticas no Brasil Simone Sampaio

A

s eleições de 2014 serão fundamentais para garantir mudanças necessárias ao Brasil nos próximos quatro anos. Dentro desse contexto de transformação social, os jovens possuem um papel importante, porém, o desinteresse pela política por parte de muitos eleitores mais novos faz com que a sociedade contemporânea estigmatize a juventude como um grupo social alienado. Os números, entretanto, mostram que a visão negativa da juventude com relação a política está ultrapassada, e que os jovens estão mais conscientes da importância do ato de votar. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2010, os eleitores com faixa etária entre 16 e 18 anos eram de aproximadamente dois milhões e meio. Em 2012 esse número chegou a quase três milhões. Para o estudante Rômulo Amâncio, de 18 anos, a política faz parte do meio social: “tudo gira em torno da política, e mesmo se dissermos que não gostamos, de alguma maneira acabamos sendo influenciados e nos interessando por ela”. Rômulo vai votar pela primeira vez em 2014. Para ele a participação durante as eleições representa poder contribuir para mudanças no país, com a escolha de ”candidatos confiáveis, que demonstrem compromisso com a comunidade e que se preocupem em resolver problemas na área da educação, saúde e da segurança”. O estudante Igor Rodrigues, de 19 anos, há três anos filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), explica que, o envolvimento dos jovens com a política é necessário “para que ocorram futuras transformações, afim de que não sejamos alienados, passivos e, principalmente, que possamos ser ativos na luta por uma sociedade mais justa e igualitária”. A presença dos jovens na política também

está relacionada a participação deles como candidatos. O número de pessoas mais novas que concorrem a vagas políticas é cada vez maior. Diferente do voto, que a idade mínima para exercer o direito é de 16 anos (idade em que o voto é facultativo), para se candidatar a um cargo político é necessário ter, no mínimo, 18 anos, nacionalidade brasileira, ser alfabetizado e estar em pleno exercício dos direitos políticos. O apoio da juventude aos candidatos mais novos é bem satisfatório. Para Igor é uma forma de despertar e incentivar o exercício da democracia à parcela jovem da população brasileira. “Só assim verão que podemos participar de maneira ativa, e com isso demonstrar que não estamos desinteressados, mas sim, preocupados com o assunto”. Na busca pela inserção do jovem na vida política do país foi criado o Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), que tem o objetivo de formular e propor diretrizes voltadas para políticas públicas da juventude, desenvolver estudos e pesquisas sobre a realidade socioeconômica dos jovens e promover o intercâmbio entre as organizações juvenis nacionais e internacionais. O outro lado da moeda Segundo o especialista em Filosofia Política da Pontífice Universidade Católica de Goiás, Giuliano Pires, a juventude atual encontra-se em um “sono profundo”. Para Giuliano, os jovens sem saber do poder que possuem,, preferem se esconder do que

lutar pelos seus interesses”.. Para os jovens que vão votar pela primeira vez, Giuliano explica que é necessário analisar alguns aspectos do candidato, como “transparência, coerência, história política e conhecimento na área em que se deseja atuar.A honestidade não é um pré-requisito para um político, mas sim, essencial”,. O assistente social e representante do movimento da juventude em Ceilândia, Natanael da Marcena, explica que os jovens

se informam muito sobre políticas públicas em redes sociais e pela televisão, mas em relação a participação em debates, decisões e militância partidária, eles estão longe do ideal. Para Natanael é difícil envolver os jovens na política, pois eles não conseguem enxergar a importância que possuem no processo de alteração social das comunidades. Além disso, o assistente social acredita que os maus exemplos dos parlamentares da atualidade também são motivos para desmotivar a participação da juventude na vida política do país.

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Foto: Valter Campanato/ABr

Crônica

A arte de se fazer grafite

Cultive-se

Elas estão espalhadas pelos muros da cidade. Conheça a arte mais predominante nas pereiferias do Brasil e de quase todo o mundo Lucimar Faria

Revoluções que transformam a realidade Tupiniquim desde a ditatura militar Marcela Luiza

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m1984, o primeiro presidente escolhido por eleições diretas é eleito após 20 anos de ditadura no Brasil; 1992, Fernando Collor, então chefe do Executivo recebe impeachment, 2003, um metalúrgico assume o poder do maior país da América latina, 2010, Dilma Rousseff faz história ao ser eleita presidente do Brasil; 2012, ano em que o primeiro negro assume a chefia do poder Judiciário ao ser empossado como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). O que todos os fatos têm em comum? Eles representam uma mudança sensível na realidade política e social brasileira, são frutos de revoluções. Usado para retratar uma grande transformação dentro da sociedade, o termo “revolução”, do latim revolutìo - ato de resolver marca a história do Brasil dentro de esferas diversas, como política, economia e religião. Nesta perspectiva, a Gabo fez uma viagem no tempo para analisar as transformações ocorridas dentro do território Tupiniquim entre a ditadura militar de 1964 e a democracia vigente em 2013. O Golpe militar de 1964 é o primeiro marco revolucionário do período analisado. A ditadura é marcada pelo crescimento da indústria, surgimento das favelas no país, é um período de protesto contra a opressão registrada na época. Com a censura dos meios de comunicação, outra marca da ditadura, opositores do militarismo criam movimentos de protesto, como o Tropicalismo (1967-1968). Em um documentário, o tropicalista Gilberto Gil vai descrever o movimento como uma “forte reação da sociedade em termos de resistência pela liberdade de expressão e circulação de ideias.” Em 1983, surge o movimento das Diretas Já, que impulsiona as eleições diretas no país e declara assim, o fim do tiranismo e o retorno da democracia no Brasil. Em 1988, com a criação da nova Constituição Federal, o Brasil passa a ser uma República Federativa de regime democrático. Democracia, porém, como descrito pelo sociólogo Durkheim é o “sufrágio universal que distribui igualmente entre todos o capital coletivo”, nesse sentido percebe-se que o Brasil não é plenamente democrático. A categoria das trabalhadoras domésticas, por exemplo, evidencia a falha no sistema; após 25 anos de vigência da CF, somente na última quarta-feira (13/3), que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que garante a

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categoria os mesmos direitos assegurados aos demais trabalhadores. Mas ao retroceder novamente na história até chegar em 1992, a Gabo se depara com o movimento estudantil dos “Caras-pintadas”. O objetivo do grupo era obter o impeachment do então presidente da República, Fernando Collor de Melo. Eles conseguiram. Revolucionaram a trajetória do país, por meio do protesto, da manifestação. Em 1994, ainda no governo de Itamar Franco, surge o Plano Real, que transformou a economia brasileira, que vivia um período de instabilidade. Outras mudanças ocorreram no cenário brasileiro com a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao poder, em 2003, e de sua sucessora, a atual presidente do país, Dilma Rousseff - primeira mulher a assumir a chefia do pode Executivo no Brasil. A eleição do ministro do STF, Joaquim Barbosa, como primeiro presidente negro a chefiar o poder Executivo, também quebrou paradigmas da sociedade brasileira em 2012, que passou quase quatro séculos sob um regime escravocrata. Revolução também é... Para tentar entender as diversas maneiras de provocar uma revolução, a Gabo vai além de uma análise política. Existem outros tipos de transformações; o próprio movimento do Tropicalismo tinha como objetivo inicial renovar a música brasileira. O desenvolvimento tecnológico durante os 49 anos, entre o início da ditadura e o ano de 2013, também modificou a forma dos grupos sociais se organizarem dentro do Brasil. Com a tecnologia surge a internet, que alterou a forma das pessoas se comunicarem com o mundo e entre si.A própria comunicação foi alterada. Com a revolução tecnológica, novos meios de informação aparecem e surgem novas maneiras de lhe dá com a comunicação. A sociedade atual vive um momento de convergência digital, em que os meios de comunicação interagem uns com os outros. O fato, porém, é que com as revoluções, o Brasil deixou de ser colônia de Portugal, aboliu a escravidão, equiparou os direitos das mulheres aos dos homens. A ditadura também foi um espécie de revolução, mas que transformou o mundo negativamente, isso significa, que sejam boas ou ruins, as revoluções modificam a maneira de um indivíduo ou de um grupo se relacionar entre si e com a sociedade.

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m meio ao crime urbano,a falta de emprego,infraestrutura,segurança pública e serviço de saúde; nasce uma nova forma de arte: O grafite.

Cores, linhas e formas chamativas nos espaços urbanos acinzentados são marcas registradas da prática do protesto social nos bairros periféricos. A manifestação artística do grafite começou na década de 1970, nos Estados Unidos, quando os jovens das cidades estigmatizadas decidiram deixar a sua assinatura pessoal nos espaços públicos, que são mais conhecidas como tag entre os grafiteiros. Mas existe algo, que talvez, poucos saibam: o grafite é uma forma de pichação, só que mais moderna e menos pejorativa. Grafite x pichação

Há diferença entre o grafite e a pichação. De uma maneira bem clara dá para dizer que a pichação é um ato que vai desde a provocação política até a competição entre grupos de gangues, na qual é utilizada para a marcação de território com símbolos característicos escritos em locais, muitas vezes, de difícil acesso. Ela é violenta e menos artística, considerada crime ambiental e vandalismo, conforme está na Constituição Brasileira, na lei número 9.605, de 12 de fevereiro de 1988, na qual a punição se dá por detenção e multa. Já o grafite, que apesar de ser uma forma de pichação é vista pela justiça como uma expressão artística, onde os muros das cidades se tornam as telas dos grafiteiros. Como o grafite, a pichação também é uma expressão e possui um marco na história das civilizações. É algo que ambas têm em comum. A pichação e o grafite foram utilizados, tempos atrás, mas precisamente na época da ditadura, como uma forma de revelar ao governo que exercia o poder soberano a insatisfação da sociedade oprimida. Só que apesar de ter os mesmos princípios, a pichação passa uma mensagem agressiva, enquanto o grafite busca por meio da arte provocar uma reflexão. Mas, embora o grafite tenha evoluído muito no decorrer destas duas décadas, revelando vários talentos, como os gêmeos de São Paulo, Gustavo e Ótavio Pandofolo. O grafite ainda é confundido com pichação contemporânea, vista como uma criminalidade e tratada com descriminação pelos indivíduos conservadores de seus ideais. Grafite é uma arte e seu autpr um artista

Como todo texto, os recursos da linguagem dos desenhos do grafite, das palavras escritas e da pintura, juntos constroem a cultura de uma comunidade ou cidade e transmitem o cotidiano e a identidade de seus enunciadores, revelando a vivência da realidade das ruas.

Ceilândia é a cidade satélite de Brasília, onde se encontra boa parte das classes desfavorecidas da região, segundo a pesquisa realizada em 2011 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É nessa cidade, que se agrupa o maior número de grafiteiros e onde é possível encontrar André Esteves, de 33 anos, mais conhecido como Bulasha., que têm várias obras espalhadas pelos espaços públicos do Distrito Federal, como, por exemplo, os muros da comercial norte de Taguatinga ou em muros das escolas públicas da Ceilândia. Ele conta, em poucas palavras, o que os artistas de rua procuram revelar no grafite: “O grafite é uma forma de escrita e pode expressar qualquer coisa. Sacou! Dependendo do estado de espírito do grafiteiro, ele pode expressar alegria ou revolta”. É graças à criação da tinta látex em spray que as expressões das linhas e formatos dos grafites podem ser gravadas mais rápidas, contribuindo para tornar a arte do grafite conhecida. Além de conseguir o apoio por parte das entidades nacionais, internacionais e pelo próprio governo, como pode se constatado pelo programa Picasso não Pichava, iniciativa da Secretária de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF), em parceria com o Banco de Brasília. Picasso não Pinchava é um projeto criado em 1999 e Bulasha conta que o objetivo do projeto é retirar os jovens envolvidos em atividades criminais e violentas, por meio de oficinas e palestras realizadas em diversas instituições do DF. “Quando o projeto era mais ativo, tempos atrás, eu costumava junto com a galera dar oficinas e palestras. A experiência era ótima, porque era um dos raros momentos, em que expressávamos no grafite o que queríamos transmitir para as crianças e os jovens ali presentes. Além de ser uma ótima oportunidade dada, para mostrar a diferença do grafite e da pichação e acabar com a intolerância de muitas pessoas.”, declara Bulasha, que hoje adota esse talento como profissão: “Com o tempo e o apoio de instituições, hoje as pessoas estão aceitando melhor a arte do grafite. Muitas pessoas me contratam para grafitar os muros das casas, as paredes e portas das lojas. Não só por saberem que os vândalos respeitam o grafite e posteriormente, não estarão pichando em cima, mas também por buscarem como decoração ou para chamar a atenção, como publicidade”, finaliza o grafiteiro. O apoio ao grafite se encontra cada vez mais presente no Brasil e consequentemente, em sua capital. Basta observar ao redor e você encontrará muitos projetos, concursos e cursos voltados especificamente ao grafite. Com a Lei número 12.408, secionada pela presidenta Dilma Rousseff em 2011, na qual estabelece o grafite como arte e seu autor um artista. É fato que as portas para os grafiteiros só começaram a se abrir.

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Vende mais porque é bom ou é bom porque vende mais? Em uma era de supervalorização da imagem, os best sellers podem servir como ponte para a leitura de textos mais complexos

Renata de Paula

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uantos livros você leu no último ano?. Você já parou para pensar quais foram os estímulos que recebeu para chegar aos títulos?. Se você leu algum livro no último ano, há chances de ter sido um best seller. O caminho para a descoberta desse tipo de literatura pode ter sido pelo simples fato de ter ouvido falar muito de um best seller nos últimos tempos, seja por amigos, familiares, em revistas, na internet ou na televisão. Ou ainda, porque você foi a uma livraria e deu de cara com uma vitrine repleta de títulos atrativos na lista dos mais vendidos e pensou: se está todo mundo comprando, não deve ser ruim, não é mesmo? O termo “best seller” surgiu nos Estados Unidos para rotular as obras de literatura mais vendidas e hoje ele é usado em todo o mercado editorial global. Não há como definir que um livro se transformará em um best seller, mas a maioria deles guardam algumas características em comum. São fontes de entretenimento, são de fácil assimilação, não incomoda ninguém, não propõe questões existenciais e normalmente tem uma estrutura narrativa tradicional, que atrai e segura o leitor, é o que define Lucilia Garcez, doutora em Linguística pela Universidade de Brasília. Ainda que os best sellers sejam fenômenos de venda, eles são vistos por algumas pessoas como subliteratura, literatura de massa ou de mercado. Para críticos da indústria cultural, como Theodor Adorno, eles se caracterizam como um produto voltado para o consumo do grande público, em que o leitor não encontra nenhum tipo de

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resistência que atrapalhe a compreensão e, consequentemente, a vendagem. Para satisfação de um público diversificado, o autor utiliza de normas socialmente aceitas que facilitem o consumo. Em outras palavras, ele escreve o que o leitor quer ler, por isso, é perceptível nesse tipo de texto, a constância de enredos envolvendo crime, amor, sexo e aventura, além da presença inconfundível de um herói. Essa é a forma do leitor projetarse na intriga e espelhar-se no protagonista. Nessa linha, a literatura de massa seria o oposto da obra de arte, que se realiza em função da organização interna do próprio objeto e não permite a classificação dentro de padrões pré-estabelecidos. Diferente desta, aquela se enquadra facilmente dentro de um gênero literário em detrimento da reprodução e distribuição mecânica, repete o fruir convencional nos esquemas conceituais do leitor e está preso ao final feliz para os bons de espírito e ruim para os perversos. Apesar da qualidade questionável dos best sellers, é inegável que eles consigam atrair leitores que até então nunca tiveram gosto pela literatura. É o caso da jornalista Ana Moura, de 21 anos, que tomou gosto pela leitura aos 13 anos, quando decidiu ler o primeiro livro do Harry Potter - “Harry Potter e a Pedra Filosofal” - , depois de assistir ao filme. Ana gostou tanto do livro, que passou a ler cada um da série, antes que a história chegasse aos cinemas. A partir daí, ela não parou mais: a leitura da obra fez com que se apaixonasse pela literatura e descobrisse muitos outros livros em que

pode se debruçar. Ana conta que a partir de Harry Potter trocou o tempo que passava com os brinquedos, o computador e a televisão por livros de histórias. “Na escola, passei a tirar notas melhores e a ler os livros indicados sem reclamar, eu pensava em cada livro como uma nova viagem que eu pudesse fazer, sem tirar os pés do chão”. Hoje, estudante de Letras pela UnB e de Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília (UCB), ela se considera apaixonada pelo mundo das palavras. A estudante reconhece a importância dos clássicos da literatura, mas acredita que os best sellers são ótimas portas de entrada para leitores iniciantes. Por atrair tanto interesse dos jovens, há quem apoie o uso de best sellers, inclusive, na sala de aula, como ponte para a leitura de textos mais complexos. Uma das teorias acerca da inclusão desse tipo de literatura em planos de leitura, seria a “teoria do degrau”, que coloca a literatura de massa como uma etapa na preparação do leitor para uma leitura qualitativa. A ideia é simples, é mais fácil inserir um livro da alta literatura a um jovem que já está habituado a ler livros, do que a alguém que não tenha o hábito de ler. A pedagoga Luciana Fernandes, 43 anos, ministra aulas para a Educação Infantil e defende inteiramente a iniciativa de incluir esse tipo de literatura na escola. Ela, porém, reintera que é papel do professor ajudar os estudantes a evoluírem na literatura, apresentando-lhes obras mais complexas com o passar do tempo. Ela afirma que o ideal seria o professor, ao trabalhar com um best seller, explicar o motivo do livro ser considerado tão prazeroso de ler e fale dos clássicos, apaixonadamente, como um desafio a descobertas maiores e interpretações múltiplas. A jornalista e blogueira Aline Dias, de 24 anos, é outra que também apoia totalmente esta causa. A maioria dos livros que Aline já leu (e são mais de 200) estão inclusos na lista de best sellers. Os livros servem para ela como uma válvula de escape do cotidiano atordoado, pois trazem novas visões e interpretações sobre a vida. “É o momento em que eu não quero pensar nos problemas e apenas me deixo envolver com uma história que me faz viajar e desligar do mundo real”. Para Aline, a falta de tempo não é uma desculpa para não ler, mesmo casada e trabalhando seis horas por dia, ela mantém uma média de leitura de um livro por mês e encontra sempre um tempinho no intervalo do almoço, no metrô ou no ônibus.A Leitora voraz também tem um blog chamado Livros Y Viagens, em que posta resenhas sobre o que lê e discute com outras leitoras sobre as obras, como um clube de leitura online. “Com o meu blog me sinto ainda mais motivada a ler e descobrir novos livros”, conclui a jornalista. O fato, porém, é que o país ainda está carente de leitores, quaisquer leitores. De acordo com uma pesquisa feita no ano passado, chamada Retratos da Leitura no Brasil, 70% da população não lê nada e 75% nunca entrou sequer em uma biblioteca. A média de livros lidos pelos brasileiros é quatro, sendo que três costumam ser livros didáticos. Isso significa que um brasileiro lê, em média, apenas um livro espontaneamente. Para Lucília Garcez, doutora em Linguística pela UnB, o problema está em várias áreas. Primeiro que existe uma competição muito grande pela imagem e uma total precariedade nos sistemas educacional e de distribuição de bens culturais simbólicos, o que afasta as pessoas da cultura literária.

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Em entrevista à Garbo, Lucília esclarece vários pontos pertinentes a questão dos best sellers e dialoga sobre qualidade da produção cultural na contemporaneidade. Há cerca de um mês a revista Carta Capital publicou uma matéria com uma critica ao Brasil por não produzir mais grandes escritores, pintores, historiadores, músicos, enfim, artistas de qualidade. A reportagem, que recebeu o título de ”A imbecilização do Brasil” exaltou figuras como Guimarães Rosa, Giberto Freire, Portinari, Rubem Braga e rebaixou a produção cultural da atualidade, fazendo críticas severas. Você acredita que a contemporaneidade está carente de cultura? Não. Nós temos uma produção muito significativa, temos escritores como Milton Artur, que pode ser equiparado, em minha opinião, a um Machado de Assis, Cristovão Tezza, autores novos como Luiz Rufatto, Adriana Lisboa, Ana Miranda, Luiz Fernando Veríssimo. Nós temos uma safra muito boa de escritores, o que falta mesmo são leitores. A cultura não esta devidamente democratizada. Apenas 7% da população vai ao cinema, por exemplo. Isso é muito pouco. A quem você deve essa culpa? Eu acho que o sistema educacional e o sistema de distribuição

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de bens culturais e simbólicos são precários. Ir ao cinema hoje é uma aventura muito cara, porque o ingresso está caro, o estacionamento também, e isso tudo são fatores que afastam as pessoas da cultura. Acho que um pouco do que a Carta fala é culpa da televisão, quando ela coloca um programa como o Big Brother Brasil (BBB) no horário nobre e a população, passivamente, se entrega a esse entretenimento, que é absolutamente estúpido, vazio, sem sentido e que, ainda, não promove nenhum tipo de engrandecimento intelectual, espiritual e mental, mas, ao contrário, concorre para imbecilização do povo. Se a televisão se dispusesse a transformar e oferecer um produto melhor para a população que não tem alternativa, que não tem como sair de casa, ela contribuiria muito para elevação do nível cultural da população. Você acha que é mais chique falar mal? Acho que a realidade brasileira suporta muita crítica, porque somos realmente muito desorganizados, então eu acho que não é que seja mais chique falar mal, mas é mais fácil. Se você quer elementos pra falar mal, você encontra mais facilmente. A matéria da Carta Capital também critica o fato do progresso econômico não coincidir com avanços culturais. Você concorda? Por que isso acontece? Eu concordo. Há um cresci-

mento no Brasil muito grande de transferência de renda, há uma mobilidade muito grande entre as classes, as pessoas conseguem uma ascensão social com certa facilidade. Já o processo de evolução cultural é mais lento, mais complexo, exige mais investimento, então existe um descompasso aí. Você lê best-sellers? Às vezes eu leio, principalmente para saber por que as pessoas leem. Eu tenho uma teoria: eu acho que o best seller é entretenimento, é fácil de ler, não incomoda, não propõe questões existenciais e, normalmente, tem uma estrutura narrativa tradicional, que atrai e segura o leitor, uma linguagem pouco elaborada, simples, que o leitor mergulha com facilidade. Além disso, existe uma máquina de publicidade muito forte em cima de diversos livros, que também movem o desejo da leitura deles, enquanto outros livros, com nível cultural mais elevado, não contam com essa visibilidade. Qual foi o último best seller que você leu? Esses dias eu li um livro de um sujeito, Nicolas Sparks, que tem mais de 10 livros na lista dos mais vendidos. Acho que se chamava Noites de Tormenta. Pensei o que esse cara tem pra ter 10 livros há meses na lista dos mais vendidos. E é o que eu disse, é uma leitura fácil, agradável, uma narrativa tradicional que não exige nenhum tipo de raciocínio muito complexo. Ele tem uma linguagem

banal, que não exige nenhum tipo de reflexão e uma história que apela para as emoções mais elementares como a perda, o amor, a paixão; acho que por isso são muito lidos. Eu penso que a literatura é muito mais que isso, a real literatura, impõe questões, te incomoda, como o livro Metamorfose de Franz Kafka, que causa imobilização, incômodo, inquietação, não é um livro adocicado, só pra entreter.

o consumo do grande público, não são escritos para o leitor desfrutar de uma organização diferenciada da linguagem, são escritos com o propósito de não oferecer nenhum tipo de resistência ao leitor que possa atrapalhar sua compreensão e, consequentemente, sua vendagem.Você acha que estamos mais preguiçosos para ler?

centivo ou de conhecimento de um grande clássico?

Então, quais são os pontos positivos de um best seller? Eles existem?

Eu acho que há uma competição muito grande com a imagem, isso é inegável, há também uma premência de tempo, a leitura é um exercício que exige concentração, isolamento, disponibilidade de espaço na vida. Então há uma competição muito grande e muitas pessoas não descobriram, não tiveram a oportunidade de descobrir o prazer da leitura. Porque quando você encontra um livro que satisfaz um desejo interior e descobre que aquilo é uma coisa gostosa de fazer, você quer repetir muitas vezes, mesmo que abandone a televisão, que deixe de ir para o computador e de fazer outras coisas, você vai querer ler, porque descobriu que ler é gostoso. Mas muitas pessoas não descobriram isso, não passaram por essa experiência, não coincidiram delas terem na mão um livro que satisfaça um desejo interior. Então, acho que não é preguiça, é falta de oportunidade de descobrir a leitura como fonte de prazer inesgotável.

Segundo Romão (1996), a paraliteratura é apenas uma etapa na preparação do leitor para capacitá-lo posteriormente a uma leitura qualitativa. O texto trivial seria o prelúdio para a caminhada. Você concorda com o fato de trabalhar com best sellers em sala de aula?

Acho que o grande valor de um best seller é fazer a pessoa ler um livro inteiro, porque quando se consegue a concentração pra ler um livro inteiro, você quebra uma barreira. Algumas pessoas nunca pegaram um livro pra ler, porque acham que o livro é cumprido demais, que não vão conseguir chegar ao fim e se a pessoa ler o best seller ela chega ao fim e isso dá uma sensação de vitória – puxa, eu sou um leitor! – isso pode levar, se ela tiver sorte de encontrar as indicações e motivações adequadas, a ler obras de Clarice Lispector e Guimaraes Rosa, por exemplo. Nos best sellers, são desenvolvidas habilidades de leitura como a atenção voluntária, a associação, a memória e tudo que é necessário para leitura de um texto longo, o que pode servir para você ler outras coisas mais complexas, se você tiver sorte. Segundo Adorno, os bestsellers, voltados sempre para

Para pessoa chegar a ler um livro de classe, ela tem que conviver em um ambiente que haja valorização, a escola seria esse espaço de valorização do clássico, os amigos leitores, é todo um conjunto de elementos que leva os leitores a descobrirem o prazer da leitura dos clássicos, mas isso no mundo contemporâneo está cada vez mais raro.

Não, acho que há outras formar de introduzir o jovem a literatura com leituras mais fáceis, mas não de menor qualidade, como crônicas e romances mais leves. Os contos de Machado de Assis, por exemplo, são ótimos e não exigem tanta maturidade para leitura.

Mas você não acha que talvez seja uma falta de in-

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Cultive-se principais disputas, o Circuito do DF que é composto por cinco etapas pontuais e o Torneio Regional de Quadrilhas, que tem caráter eliminatório. Também existem apresentações em Paroquias, Igrejas, Escolas e Faculdades, bem como em Festas Juninas organizadas pelas administrações das cidades locais. O Diretor de eventos da Liga das Quadrilhas Juninas do Distrito Federal (LINQ-DF), representante brasiliense da Confederação Brasileira de Quadrilhas Juninas (COFEBRAQ), Márcio Nunes, diz que atualmente são 42 quadrilhas cadastradas e todas recebem apoio financeiro governamental, mas o valor não corresponde com os gastos das apresentações, desta forma, cada grupo, utiliza um meio de arrecadar recursos, geralmente por meio de Emendas Parlamentares, dirigidas por Deputados atuantes.

Quadrilhas juninas Nayane Gama

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quadrilha foi trazida da Europa para o Brasil, pelos portugueses, porém trás consigo elementos culturais de vários países. Com o tempo, características locais foram agregadas. Sua tradição envolve a religião Católica e presta homenagem a São João, São Pedro e Santo Antônio, ocorrendo geralmente no mês de junho, por isso praticada nas Festas Juninas, que antes eram conhecidas como Joaninas. Além da dança, as Festas Juninas são caracterizadas pelas comidas típicas, bandeirolas, fogueiras, brincadeiras, balões, entre outros elementos que enfeitam uma das tradições brasileiras mais ricas. Em Brasília a cultura junina é bem marcante. A cidade é povoada em sua maior parte por nordestinos,

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vindos desde a época de sua construção. Trouxeram com eles suas tradições, que foram mantidas e evoluíram com o passar do tempo. Hoje o ritmo quadrilheiro no DF é mais ritmado e acelerado, em comparação ao Nordeste, de acordo com Mônica Salgado, membro da Quadrilha Chamegos do Ó. “Os trajes e cores é o que mais me encanta”, diz Fernanda Machado, integrante da Quadrilha Triscou Queimou, última ganhadora do Torneio Regional de Brasília, promovido pelo SESI com o apoio da Rede Globo. As roupas coloridas e os adereços são características da quadrilha e, além do critério da nota, fazem parte da coreografia, como também da cultura de forma geral. As músicas são dançantes e en-

volvem estilos musicais nordestinos, como o forró, baião, xote e xaxado. Os instrumentos utilizados são sanfona, zabumba, triângulo, viola e rabeca. A Quadrilha Triscou Queimou trouxe um diferencial nesse quesito, pois é a única em que a banda acompanha ao vivo a apresentação. “Tivemos essa ideia ano passado e deu tão certo que decidimos manter este ano”, afirma Luciano Lima que o fundou o grupo em 1998 e hoje atua como Diretor e Marcador. Segundo ele, a animação é melhor, porém os gastos são bem altos. Atualmente o que mantém e move as quadrilhas, além do amor pela dança, são as competições, que classificam e premiam os participantes. Ocorrem nos meses de maio, junho, julho e agosto. Há duas

Mesmo recebendo esse apoio, as quadrilhas passam por algumas dificuldades financeiras, o que, às vezes, prejudica as apresentações. O fundador da Quadrilha Ribuliço, Áurelio Santos, relata que a falta de dinheiro limita as ideias e as criações de um projeto mais elaborado e bonito visualmente. “Este ano pretendíamos trocar todos os sapatos dos membros, porém a verba que temos não nos permite fazer isso”, acrescenta. As apresentações estão previstas para iniciarem na primeira semana de maio, porém as quadrilhas estão se preparando desde outubro de 2012. A preparação envolve escolha do tema, criação gráfica e coreográfica, produção de cenários e figurinos.

eral.Apenas em 2008 a Busca Fé filiou-se à LINQ-DF e tornou-se profissional. O objetivo de Bruno é levar por meio da dança, a alegria pregada por Jesus. Suas coreografias são baseadas em temas religiosos e no final de cada apresentação, ele e os demais membros do grupo fazem um apelo de conversão, ou seja, convidam os telespectadores a conhecer o Evangelho, explica ele. “Eu diria que existem preconceitos, sim. Mas isso é uma questão particular, de tradições, que devem ser respeitadas. Portanto, realizamos nossos trabalhos, pedindo a Deus sabedoria para lidar com os preconceitos, sejam eles de quem for. Já tivemos experiências de Pastores, Presbíteros que nos julgavam e após assistir uma de nossas apresentações chegarem até nós para pedir perdão por ter julgado ou coisa parecida”, acrescenta Everton Lagares, dançarino e comunicador do grupo.

O NOSSO SANTO É JESUS E NOSSA DANÇA É A MESMA

Júlio Cesar, membro da Quadrilha Si bobiá a Gente Pimba, atual ganhadora do Circuito DF, conta que a preparação se intensifica no mês de Abril e que, atualmente, os ensaios ocorrem nos finais de semana, por conta dos trabalhos e estudos dos membros durante a semana. “É cansativo, mas quando vejo o resultado final, fico deslumbrado”, ressalta Júlio. A quadrilha, além da dança e da música, é responsável por resgatar os valores do povo brasileiro, do interior e do sertão, dos festejos e do folclore. Anima quem assiste, motiva quem participa, encanta quem conhece as raízes dessa arte viva. “Não podemos deixar a cultura junina se acabar”, destaca Fábio Cavalcante, dançarino há 15 anos. Em 2005, surgiu a quadrilha Busca Fé, a primeira quadrilha evangélica do Brasil. No início tinha como objetivo gerar um momento de brincadeira entre os membros da igreja, sob orientação do Pastor Bruno que, antes de se converter, foi dançarino e marcador de outras quadrilhas do Distrito Fed-

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Especial PEC 215: UMA PROPOSTA RECENTE QUE TRAZ UM DEBATE ANTIGO Proposta de Emenda à Constituição ameaça direitos indígenas e fortalece interesses ruralistas Carlos Ribeiro

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o Brasil, mais especificamente no Congresso Nacional, a política é marcada pela batalha de interesses por determinada causa, com briga representada, na maioria das vezes, por parlamentares e partidos com ideais e interesses opostos. A “rixa” da vez é entre ruralistas contra indígenas e indigenistas que brigam pela demarcação de terras, em uma rivalidade histórica. Enquanto os que defendem os direitos indígenas usam a Constituição Federal de 1988 como argumento a seu favor, a bancada ruralista – composta por parlamentares representantes do agronegócio – usa a força que tem no Congresso e o interesse da maioria por avanços na economia do país por meio da agricultura. A questão recente que trouxe de volta essa rivalidade foi a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215/2000. A proposta, sugerida pela bancada ruralista, garante ao Poder Legislativo a palavra final na demarcação de terras, tradicionalmente ocupadas pelos índios, e tira o poder da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Poder Executivo no exercício de tal competência. Apesar de ter surgido há 13 anos, somente em 2012 que a PEC voltou a ser discutida e, agora, em 2013, parece estar a ponto de ser aprovada no Congresso. Ainda de acordo com a proposta, a Fundação poderá continuar realizando levantamento das áreas a serem demarcadas, porém é o Congresso que fará o decreto de demarcação, após aprovação do próprio órgão. Além de causar revoltas nas tribos indígenas brasileiras, a PEC traz à tona a questão do suposto direito dos índios às terras que já ocupavam antes da vinda dos “homens brancos”. Direitos indígenas Para Hauni Tupinambá Monteiro Karipuna, 26 anos - índio oriundo dos povos Karipuna do Norte do país -, a atual luta dos índios é por uma educação diferenciada, de acordo com costumes indígenas, além da homologação e demarcação de terras. Hauni, que também é estudante do curso de Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília (UnB), confirma a rivalidade existente contra os ruralistas. “Não temos uma boa relação com eles. Os ruralistas só pensam

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no dinheiro, nós pensamos na nossa vida e no nosso futuro que é junto da natureza. A intenção deles é acabar com todas as terras indígenas do país. Eles usam o discurso de que a terra indígena não dá dinheiro, que é produtiva, que poderia ser plantada e ajudar no aumento do PIB do Brasil”, ressalta o estudante. Hauni também critica a Funai e afirma que para mudar o atual cenário é necessário uma secretaria específica que cuide dos direitos dos índios, como por exemplo, a secretaria das mulheres e dos afrodescendentes. “O governo fica usando a Funai como se fosse uma secretaria que defende nossos direitos. Mas, na verdade, a Funai não é isso, ela apenas faz parte do governo que só pensa em poder”, repreendeu o estudante indígena que ainda sugeriu que houvessem deputados, senadores e ministros indígenas, que “defenderiam melhor” seus direitos. Quanto ao processo de demarcação de terras, Hauni reclama da demora e da burocracia para a oficialização das terras indígenas e sugere a atuação de “empresas especializadas, além do auxílio tanto dos profissionais do governo para acompanhar o processo, quanto do próprio indígena que conhece sua terra”. Ele ainda disse não acreditar em qualquer tipo de aceitação das

demarcações por parte dos ruralistas. “Os ruralistas nunca estarão satisfeitos, pois eles sempre querem mais para produzir mais com menos custo. É assim que funciona o capitalismo, sempre querendo mais. O país, historicamente, sempre foi comandado pelos ruralistas, desde os tempos de colônia, com os coronéis, que saíram do campo e foram para o senado, câmara dos deputados, ministérios”. Nessa luta dos índios pelo que designam como sendo de direito de seus povos, eles não estão sozinhos. Além da Funai, quem também entra na briga política, lado a lado com os índios, é o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que, com o apoio da Igreja Católica - mais especificamente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual é vinculada atua como aliada dos povos indígenas. Segundo o secretário-executivo do Cimi, Cleber Buzatto, a batalha enfrentada pelos índios diz respeito à manutenção dos direitos dos povos quanto à questão fundiária e esbarra nos direitos dos ruralistas. “O sistema político brasileiro beneficia setores da sociedade detentores de poder econômico para bancar campanhas eleitorais caras. O agronegócio é beneficiado por políticas de Estado e isso os tem fortalecido economicamente e politicamente também”. Cleber ainda responsabiliza os ruralistas — que segundo ele são os principais e históricos inimigos dos povos indígenas no Brasil — por invasões de terras indígenas, ameaças, assassinatos de lideranças indígenas e, até mesmo, pelo desaparecimento de “povos inteiros”. Cleber, ao fazer uma análise história da batalha indígena, responsabilizou a PEC 215/2000 pela derrota dos povos. “A aprovação da admissibilidade dessa proposta de emenda é uma sinalização importante de que o governo tem interesse político com o tema”. Para ele o governo também se mostra “omisso na im-

plementação do artigo 231, bem como no processo de ataque ao que é praticado pelos ruralistas na atual conjuntura político-indigenista”, afirmou, referindo-se ao artigo da Constituição de 1988. “São reconhecidos aos índios a organização social, costumes, línguas, crenças, tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Segundo o secretário do Cimi, os maiores beneficiados com a PEC serão os setores econômicos anti-indígenas, especialmente ligados ao agronegócio, e as empresas de capital internacional que monopolizam e controlam todas as fazes do setor. “Essas empresas buscam ter o poder nas próprias mãos para decidir acerca da não titulação de terras quilombolas, da não criação de novas unidades de conservação ambiental e da não demarcação de terras indígenas no país”, ressalta Cleber, que afirma não acreditar em um consenso entre ambas as partes. “Não acredito na possibilidade de satisfazer os povos indígenas e os ruralistas concomitantemente na resolução da questão. Entendo que o Estado brasileiro tem a obrigação de fazer justiça, cumprindo o que determina a Constituição Brasileira. E isso somente vai ser feito com o reconhecimento e a demarcação das terras indígenas no Brasil”. Frente parlamentar Além da criação da PEC 215/2000, que dá ao Congresso a competência da aprovação das demarcações, a bancada ruralista também caminha para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o atual processo de demarcação de terras. Com a função de mostrar por meio de relatórios quais as terras pertencentes historicamente aos índios, a Funai sofre denúncias por parte dos ruralistas. Para os parlamentares que defendem os direitos do agronegócio, faltam critérios na demarcação feita pela Funai. “Nós estamos criando uma série de injustiças para aqueles que são proprietários de terras, independentemente do tamanho. O que nos preocupa é a falta de critérios e de uma condição de defesa dentro dos processos de homologação conduzidos pelos antropólogos [da Funai]”, ressalta o deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), integrante da Frente Parlamentar da Agricultura. Quanto a isso, o governo federal anunciou recentemente que prepara um novo modelo para a demarcação de terras indígenas, na qual outros órgãos do governo participarão do relatório, como a Embrapa e o Ministério da Agricultura. Segundo a Funai, o processo de demarcação foi acompanhado pelo Ministério da Justiça e os índios têm direito histórico às terras.

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Foto: Eduardo Sedil/ xinguvivo

Especial

Usina de Belo Monte O desastre ambiental genocida Evely Leão

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ovos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e todos os demais que vivem à beira do rio Xingu lutam há trinta anos contra a transformação do local em uma sequência de hidrelétricas. O motivo é porque sabem que não há como sobreviver sem ele. A sociedade brasileira e internacional tomou conhecimento do absurdo plano elaborado durante o governo militar de instalar seis grandes hidrelétricas no rio Xingu, e, na alvorada do regime democrático, conseguiu reagir e o projeto foi encerrado. A Eletronorte, empresa estatal de energia, responsável pela construção das usinas na Amazônia e no Pará voltou a apresentar um projeto para construir hidrelétricas no rio Xingu, alegando que, agora, seria apenas uma, denominada Belo Monte. (Fonte do BlogFDA). Balbina (AM) uma das construções anteriores é apontada como a problemática no que diz respeito à emissão de gases de efeito estufa, considerados causadores do aquecimento global, além da liberação de dióxido de carbono e metano que é superior à de uma usina térmica com o mesmo potencial energético e Tucuruí (PA), onde houve perda da biodiversidade, especialmente de espécies de peixes adaptados às corredeiras ou que migravam ao longo do rio, diminuindo a pesca de 1000 para 500 toneladas por ano - dois dos maiores desastres socioambientais do país. O caso da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte acontece há 30 anos. Movimentos, ONGs, Frentes de Defesa, ambientalistas, estudantes e comunidades indígenas lutam contra o desastre ambiental que ocorrerá com a finalização desse projeto. Segundo um estudo formado por 40 especialistas, ambientalistas, acadêmicos e movimentos sociais, a barragem desviaria em 80% o fluxo do rio Xingu e devastaria uma extensa área de floresta tropical brasileira, afetando a flora e fauna locais e introduzindo diversos impactos socioeconômicos com o deslocando de mais de 20 mil pessoas, ameaçando a sobrevivência de diversos povos indígenas.

O padre Edilberto Sena, coordenador da Comissão Diocesana de Justiça e Paz e militante do Movimento Tapajós Vivo diz que “O Ministério de Minas e Energia quer impor o fato consumado, dando a licença para as empresas construtoras desmatarem 290 hectares de floresta para o chamado canteiro de obras”. Os movimentos sociais repudiam a insistência do governo federal em empurrar Belo Monte goela abaixo da população do Xingu. O que os indígenas querem é que respeitem a Constituição, que prevê, junto com a Convenção 169, “que todos os povos indígenas devem ser consultados antes da realização de estudos e da construção das hidrelétricas”. Segundo o padre há uma pressa arrogante do Governo Federal e do Ministro de Minas e Energia, “quem faz coisas apressado, ou está com fome ou está com medo”. Foi concedida uma licença pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que segundo representantes dos movimentos de frente de defesa, seria uma “licença ilegal” e que o instituto estaria tomando decisões precipitadas e favorecendo a pressa da instalação. Mas, seria Belo Monte um desastre ambiental irreversível e genocida? Para a estudante de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e estagiária do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Karla Almada, em entrevista realizada via e-mail, ela afirma que: “os impactos que irão ser consequência da implantação da usina vão muito além do ponto de vista da destruição da vegetação e mudança brusca no ambiente”. Segundo a estudante, a construção da usina não é um projeto que está pensando na população residente da área, os direitos humanos desses povos estão sendo seriamente afetados. Mesmo sozinha essa usina poderia provocar grandes impactos como: a alteração da vazão do rio que, segundo os especialistas, altera todo o ciclo ecológico da região; a construção de canais para desviar o curso natural do rio; o escoamento de mais de 100 km do rio, onde passaria menos de

Foto:Verena Glass/ xinguvivo

Foto:Verena Glass/ xinguvivo

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Especial 20% da quantidade normal de água, com probabilidade de se criar um verdadeiro colapso ecológico numa região de alta biodiversidade, e que é local de moradia para centenas de famílias de indígenas e ribeirinhos. A luta desses povos é incessante, eles só reivindicam seus direitos e o respeito à natureza e aos povos que lá residem. Recentemente, cerca de 200 indígenas foram afetados com a construção que já havia iniciado, e por esse motivo ocuparam o principal canteiro de obras da Usina. O que eles reivindicavam, era simplesmente, a regulamentação da consulta prévia e a suspensão imediata de todas as obras e estudos relacionados às barragens nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. Porém, a reação do Governo Federal foi enviar 100 homens da Força Nacional. A tropa de choque da Polícia Militar e da Polícia Civil já esperava pelos indígenas nos canteiros para cumprir o mandado judicial de reintegração de posse. Entre debates e contra propostas dos indígenas com o Governo Federal eis que surge um elemento surpresa. A desembargadora Selene Almeida, deu ordem de reintegração de posse do canteiro de obras do Belo Monte, o que permitiria a retirada forçada dos indígenas para evacuar o canteiro e deixaria a critério da força policial admitir ou não a entrada de jornalistas, advogados e observadores externos.Tal decisão se deu em grande parte, baseado em um relatório feito pela Polícia Federal de Altamira-PA, o que fez com que o Ministério Público Federal ficasse preocupado com a condução do processo, já que a chefe da Polícia Federal da cidade é casada com o advogado da Norte Energia, Fellipe Callegaro, autor do pedido de reintegração. Com isso, o Ministério Público Federal, enviou um pedido à desembargadora solicitando que revisse o pedido de reintegração de posse contra os indígenas que ocupavam pacificamente o local. Porém, a desembargadora Selene de Almeida, deu um prazo de 24 horas para que os 200 afetados pelos projetos hidrelétricos, se retirassem do local. Os quais acabaram saindo de maneira pacífica. Em todas as redes sociais foram publicadas as falas de um dos representantes, inclusive no site do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, “Como entramos de maneira pacífica, decidimos sair de maneira pacífica. Mostramos que não somos bandidos e respeitamos a decisão da Justiça. Esperamos que a nossa atitude mostre que isso é estar aberto ao diálogo”, explicou Valdenir Munduruku. A imprensa foi proibida de cobrir a ocupação. A desembargadora indeferiu pedidos de que fosse permitida a pre-

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sença de jornalistas e advogados na ocupação. Três repórteres foram impedidos de realizar a cobertura jornalística da ocupação do canteiro de obras da Usina. Dois deles foram retirados por cerca de 100 homens da Polícia Federal, Tropa de Choque, Rotam e Força Nacional, e o terceiro foi multado em mil reais, além de um ativista também ter sido expulso do canteiro. MOVIMENTOS DE LUTA O movimento Xingu Vivo Para Sempre é um coletivo de organizações e movimentos sociais e ambientalistas da região de Altamira e das áreas de influência do projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Conta com o apoio de organizações locais, estaduais, nacionais e internacionais e agrega entidades representativas de ribeirinhos, pescadores, trabalhadores e trabalhadoras rurais, indígenas, moradores de Altamira, atingidos por barragens. Para a moradora Maria Elena Araújo da Cidade de Altamira, onde está localizado o Rio Xingu, e membro do Movimento “Xingu Vivo Para Sempre”, o movimento é uma luta que resiste a Belo Monte. “Essa luta é a única carta na mão que temos para mostrar para o Governo que aqui existem pessoas que se importam com o meio ambiente e com o futuro”. Outro grupo que apoia essa causa é a Frente em Defesa da Amazônia (FDA) movimento popular formado pelo companheirismo de várias pessoas que lutam por um objetivo comum: a defesa do povo e da Amazônia, buscando um desenvolvimento justo para região. Tendo como principais objetivos combater e denunciar os crimes contra o povo e a floresta; defender a agricultura familiar como forma de desenvolvimento para a população local; capacitar lideranças dos movimentos populares; fortalecer as organizações de base; articular, mobilizar e organizar estratégias de resistência e enfrentamento. São povos como Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, pescadores e ribeirinhos que serão atingidos com a construção das barragens. São os povos da Amazônia que querem vê-la em pé. E esses povos estão unidos aos movimentos e a frentes de defesa para juntos terem forças para lutar. Desde o início, o projeto de Belo Monte encontrou forte oposição de ambientalistas brasileiros e internacionais e de algumas comunidades indígenas locais, e mesmo com tanta oposição, ainda mantém “de pé” o projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingú, nas proximidades da Cidade de Altamira, no estado do Pará.

O importante é se esforçar para a formação do caráter

Como as brincadeiras de rua podem ajudar na socialização da criança

Jusciane Matos

pique-esconde, pique-alto, pelo tempo Po ique-pega, que ainda tive pique para correr de um lado para outro da rua. E não para por aí. Queimada, pelada, três cortes e derivados. Soltar pipa! Quem nunca brincou com um desses jogos? Certamente já jogou peão e ficou esperando ele parar de girar, ou até mesmo experimentou disputar uma partida das famosas bolinhas de gude que de tão bonitas ninguém queria perdêlas.

Essas brincadeiras de rua fazem parte da realidade de muitos adultos. Atualmente, com o advento da tecnologia elas ficaram cada vez mais esquecidas, mas não enterradas. Volta e meia vê-se uma criança praticando uma dessas atividades. E além de ser enquadrada com uma prática de atividade física, sem acompanhamento, é claro, ela tem papel importante na socialização da criança, pois ela desenvolve laços de amizade, competitividade, companheirismo. No entanto, é importante frisar que por não haver regras claras em cada brincadeira alguns conceitos importantes para a formação do caráter humano não são estimulados, como os limites e a obediência às regras, por exemplo. Para isso os esportes oficiais são interessantes na fase do desenvolvimento infantil contribuindo diretamente para a sociabilidade da criança a partir das regras que podem, de acordo com a psicóloga escolar do Centro Educacional Católica de Brasília, Kennia Cristina, desenvolver as habilidades a partir das práticas esportivas que têm correlação direta com a vida em sociedade, aprendendo a lidar com regras, frustrações e perdas. Já as brincadeiras de rua fazem parte da cultura da sociedade e seus princípios variam de região para região. Para a psicóloga essas brincadeiras, além de variar elas também evoluem, como no caso das “brincadeiras de menina” geralmente em torno de bonecas. Com as conquistas femininas e inserção das mulheres no mercado de trabalho, hoje, as meninas brincam de médica, advogada, professora e assim por diante. E essas brincadeiras são uma preparação para a vida adulta. Na questão da sexualidade ainda existe muita resistência em não permitir que haja diferenciação entre as brincadeiras de meninos e de meninas. Kennia afirma que a maior dificuldade é fazer o pai entender que não existe algo diferente com o filho por ele querer brincar de boneca e fazer balé, ao invés de empurrar carrinho e jogar futebol. A prática de um esporte não deve ser imposta ou entendida como uma carreira e sim como atividade na qual as habilidades serão desenvolvidas, isso, principalmente na fase da terceira infância que vai dos seis aos 12 anos de idade quando a criança passa por descobertas, aceitação ou não de determinadas imposições e é o período de ampliação da sociabilidade. A socialização é a maior contribuição das brincadeiras e dos esportes, pois permite a interação e a percepção das diferenças que

existem entre as crianças, o que proporciona o desenvolvido e o respeito ao outro. Ciranda cirandinha vamos todos cirandar O projeto Ciranda da Universidade Católica de Brasília (UCB) oferece às crianças atividades esportivas lúdicas nas áreas pedagógicas que interagem com a informática e a educação física. Os participantes do projeto são crianças geralmente de baixa renda ou que estão em estado de vulnerabilidade social. A assistente social Osmair Francisca, gestora do Ciranda há um ano e quatro meses, diz que as crianças entram em contato com todas as modalidades esportivas e que o maior ganho deles é o aprendizado, pois, precisam trabalhar em grupo e desenvolver a coordenação motora. Existe um histórico de crianças que chegaram ao projeto após presenciarem cenas de violência ou que sofreram agressão física ou sexual. Para ajudar essas crianças, além da interação com o grupo, elas passam por atendimento psicológico da universidade, o que auxilia a minimizar o comportamento hostil provocado pelo transtorno que sofreram. Ferramenta de convívio O educador físico Fábio Costa trabalha há cinco anos na área, principalmente com a psicomotricidade, recreação e lazer. Ele explica que a prática do esporte não se esvazia no jogo e é inevitável que haja interação entre os participantes, o respeito e a criação de vínculos de amizade. A intenção é que durante a prática esportiva sejam formados cidadãos e não apenas desportistas; o desenvolvimento do caráter é primordial durante o processo. Os jogos cooperativos ajudam a criança a entender e respeitar o outro e a mudança de comportamento é uma consequência dessa interação. Fábio explica que as regras durante os jogos podem ser relacionadas à vida social e assim o caráter é formado ludicamente. Ele relaciona a pelada ao futebol dizendo que é importante brincar na rua, mas nesse ambiente os conceitos de regra e de limites não são colocados. Dentro de uma prática regida por regras “se você lesionar o adversário terá que sofrer as consequências, assim como na sociedade, se você ferir alguém irá pagar por esse ato”, conta e completa “a vida não é uma pelada descompromissada”. O próprio Fábio foi uma criança que brincou muito na rua, passando pela pelada sem grandes delimitações, até chegar à escolinha de futebol e perceber que esse contato contribuiu muito para sua formação. Cada modalidade tem sua característica e níveis de desenvolvimento social. Para ele, o importante é se esforçar para a formação do caráter.

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CENTRO DE SAÚDE

CENTROS DE SAÚDE DO DF ESTÃO LONGE DO IDEAL Um terço da população do DF está insatisfeita com o atendimento nos centros de saúde. Entre as queixas estão a falta de médicos e a demora nos atendimentos Flávia Simone

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ogo na entrada do Centro de Saúde do Recanto das Emas uma placa avisa: horário de funcionamento, das 7h às 22h. Porém, não é o que afirmam os pacientes. Marinalva Tavares, dona de casa, conta que os médicos só atendem até às 17h, e que mesmo tendo consulta marcada a demora em ser atendida é grande. São várias as reclamações em relação aos 66 centros de saúde existentes no DF, porém eles também apresentam algumas vantagens. Entre elas, a proximidade que têm da casa do cidadão, pois no DF existe pelo menos um centro de saúde em cada cidade satélite. Nos centros é oferecido o atendimento básico, as consultas são agendadas e, se for necessário, o paciente pode marcar os retornos. Os casos mais graves são encaminhados para um pronto-socorro ou para um pronto-atendimento – UPAS, pois esses locais possuem maior estrutura e recursos adequados para atendimentos mais complexos. Os centros seriam para consultas de rotinas, como o pré-natal, por exemplo. Em casos de cirurgias ou outras especialidades médicas os pacientes são encaminhados para uma lista de espera, onde são chamados de acordo com a disponibilidade de vagas. Os centros de saúde amenizam também a superlotação dos hospitais. Mesmo com essas vantagens, em vários casos, o paciente prefere não ir aos centros. Acabam fazendo automedicação em casa ou se dirigem aos hospitais, o que acarreta na superlotação do pronto-socorro. Existiam poucos pacientes nos Centros visitados e quase não havia médicos. “É terrível, não gosto de vir, marcar consulta é muito difícil. Só venho em último caso”, diz Patrícia Hellen Ribeiro, recepcionista. O secretário adjunto de Saúde do DF, Elias Fernando Miziara, culpa os governos anteriores. “Os próprios governantes não incentivaram, não deram condições aos centros de saúde, e a população começou a recorrer aos hospitais. Quando você tem toda essa verdadeira multidão na emergência, praticamente impede que chegue lá quem realmente precisa”. Virginia Reis trabalha no Centro de Saúde do Recanto

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das Emas há três anos e afirma que o posto poderia ter um trabalho mais abrangente, dar mais informações para a população. Segundo ela, o governo sempre deixa a desejar na área da saúde. PROBLEMAS

Entre o período de 3 a 19 de novembro de 2010 foram coletados dados para uma pesquisa realizada pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O questionário foi aplicado a uma amostra de 2.773 pessoas residentes em domicílios particulares permanentes. Segundo a pesquisa, no Centro-Oeste um terço da população está insatisfeita com os serviços dos centros de saúde. Entre as principais reclamações está a demora em ser atendido e a falta de médicos. “O atendimento é muito demorado, existe má vontade para atender os pacientes, só venho para o Centro porque não posso pagar uma consulta no privado”, diz Célia Maria Pereira, auxiliar administrativa. Os freqüentadores dos postos indagam a demora até mesmo quando já estão com consultas marcadas. Os entrevistados relata que na maioria das consultas o médico chega duas horas depois do horário marcado. Outro problema citado é a falta de infraestrutura. Um exemplo disso são os banheiros, que em grande parte estão interditados ou em situação precária. Muitos dos equipamentos utilizados também se encontram em péssimo estado. As más condições são citadas também pelos servidores. Em 2008 o Tribunal de Contas do DF realizou uma Auditoria Operacional no Sistema de Saúde Pública do Distrito Federal. Dos servidores ouvidos, 95% classificaram as instalações físicas como regulares ou ruins e 72% apontaram notas iguais ou inferiores a 5 em relação à disponibilidade de equipamentos e materiais.“Atualmente temos problemas de infraestrutura (falta de insumos, equipamentos, problemas de manutenção e reformas das Unidades Básicas) de gestão,

processos de trabalho”, confirma Sabrina Goursand de Freitas da Gerência de Gestão em Atenção Primária à Saúde. Em relação ao número de médicos, foi constatado que estão acima do parâmetro mínimo determinado pelo Ministério da Saúde. A SES conta com 4.082 médicos, 29 % são destinados aos centros de saúde. O TCDF verificou que a Secretária de Saúde possui uma relação dos médicos por unidades.. O controle é feito pelas Diretorias Regionais de Saúde. Este fato justifica o desconhecimento da distribuição dos profissionais pela Secretária de Saúde. Outro problema apontado pela população é a dificuldade de atendimento em caso de emergência (sem marcar consulta). Alguns dos centros informaram que não realizam esse tipo de serviço, que a consulta deve ser previamente marcada. Porém a Gerência de Gestão em Atenção Primária à Saúde afirmou que os centros e postos de saúde devem ter uma flexibilidade na agenda para realizar atendimentos de casos de demanda espontânea e urgências, além dos atendimentos agendados. MELHORIAS A pesquisa do Ipea cita ainda as principais sugestões para melhoria do atendimento nos centros. Os resultados foram, nesta ordem: aumentar o número de médicos, diminuir a demora em ser atendido e melhorar a qualidade do atendi-

mento dos médicos. “A fiscalização na saúde tem que ser maior, as normas devem ser mais rígidas. A prioridade era ser para quem quer trabalhar, pois a má vontade para atender os pacientes é enorme”, opina Maria Soares, vendedora. De acordo com o TCDF, em decorrência da gestão deficiente dos recursos, o DF não possui recursos suficientes e adequados para garantir a população o acesso a consultas médicas com atendimento adequado. OS DESAFIOS DE UMA GESTANTE DURANTE O PRÉ-NATAL No oitavo mês de gestação, Jackeline Fonseca Ferreira está à espera de seu segundo filho. O primeiro tem 10 anos e se chama Fellipe. Ester Fonseca Ferreira está a caminho. Hoje ela mora no Setor “O”, porém pretende morar com os pais, que vivem no Recanto das Emas. A Técnica de Higiene Dental (THD) de 1.78 altura, cabelos lisos e pretos na altura do ombro, pretende trabalhar até o final da gestação, pois quer passar mais tempo com a filha. Em relação aos centros, Jaqueline reclama bastante. Durante o pré-natal passou por muitas situações constrangedoras. A mais recente foi à perda do cartão pelos funcionários do Centro de Saúde do P Sul. Ela relata que chegou ao centro às 6h30 e que até as 13h45 não tinha sido atendida.

Depois descobriu que sumiram sua ecografia e o seu cartão. Ficaram de dar um retorno, porém ela teve que ir novamente ao centro solucionar o problema. Acabou conseguindo um novo cartão e pediram a ela que nova ecografia fosse feita. Não foi o único problema que ela enfrentou durante o pré-natal. São citados também a falta de higiene e o mau atendimento dos funcionários: “A enfermeira não troca de luva. Ela atendeu umas cinco pacientes na minha frente, das quais tirou sangue ou vacinou. Quando ela veio me atender pedi para que ela trocasse de luva. Ela trocou, porém me tratou com ignorância”. As colegas de trabalho da gestante a descrevem com uma pessoa bem organizada, preocupada com a limpeza, e que sempre atende os pacientes com muito carinho. Ela, por sua vez, critica a falta de higiene encontrada nos centros: “É tudo muito sujo, tem lixo pelo chão, o banheiro nem tenho coragem de usar. Os funcionários são mal educados, parece que não querem trabalhar e descontam nos pacientes”. Para ela, faltam informações e qualidade no atendimento. Conta que as pacientes que utilizam os serviços do centro reclamam bastante, principalmente da demora em serem atendidas. “Infelizmente quem não tem condições de pagar um plano de saúde tem que se sujeitar à desorganização e à falta de respeito que é o serviço de saúde disponibilizado pelo governo”.

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O incentivo vem da TV

Foto: BBC, Chanel 4 London UK

A cobertura de competições paralímpicas pelas mídias brasileiras é precária, na última edição dos jogos em Londres a BBC mostrou como se faz Henrique Carmo

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do público nos estádios. Acabado as olimpíadas a cidade teve uma semana para se preparar para a versão paralímpica. Pouco tempo? Talvez, porém quando se reaproveita uma estrutura já pré-preparada isso não é uma grande dificuldade. O prefeito de Londres, Boris Johnson, afirmava que 30 dias antes das olimpíadas a cidade já estava preparada para receber os eventos, uma verdade comprovada para quem esteve em solo britânico. A cidade estava completamente acessível, tanto para turistas comuns ou com deficiência. Claro, nem tudo estava perfeito, a cidade é milenar e é lógico que há pontos que uma cadeira de rodas não transita. Para pequenos problemas haviam pequenas soluções, simples mas eficazes, como por exemplo, para o desnível do metrô com a plataforma, haviam rampas de metais encostadas pelas estações, simples pedaços de metais pintados de amarelo que faziam a ponte do vagão para a plataforma. Contudo as paralímpiadas ainda assim não teria o mesmo glamour que as olimpíadas, outro engano. A mesma BBC que proporcionou uma cobertura espetacular dos jogos olímpicos, deu um show na cobertura da versão paralímpica do evento. A corporação criou a campanha dos super-humanos, que ressaltava os atletas paralímpicos como seres extraordinários que venciam além das suas dificuldades motoras as suas metas e marcas no esporte. A publicidade também foi algo

Atletas paralímpicos retratados como super-humanos

Ilustração: Henrique Carmo

21 medalhas de ouro e o sétimo lugar no quadro de medalhas em 2012. Este é o resultado do Brasil nas paralímpiadas de Londres, diferente do resultado olímpico que foi o 22º lugar no quadro de medalhas. Porém os paratletas evitam comparações “São categorias diferentes” afirma o nadador Daniel Dias, que conquistou seis medalhas de ouro na última edição dos jogos. Daniel não tem os dois braços e uma das pernas, mesmo assim além de atleta é baterista na banda da sua igreja. Exemplos assim são comuns em competições paralímpicas. “Uma pena que não vemos isso com mais frequência na televisão” afirma Pablo Paz, cadeirante que nasceu com paralisia dos membros inferiores. Pablo tem 33 anos e tem uma vida ativa, trabalha, passeia, vai a shows, namora, mas nem sempre foi assim. Segundo ele, ver os atletas paralímpicos em ação é uma motivação a mais para ele, mas não foi o motivo que o fez ser mais ativo. Quando era mais jovem pensou em praticar o basquete em cadeira de rodas, a falta de incentivo e informações fez Pablo desistir da ideia. Em 2012, nos jogos Olímpicos de Londres a “British Broadcasting Corporation”, “Corporação Britânica de Radiodifusão”, mais conhecida como a BBC, preparou uma grande estrutura para a cobertura dos eventos e proporcionou uma campanha gigantesca para a participação ativa

espantoso para um brasileiro acostumado com tanta segregação. De um dia para o outro a propaganda da Visa em um dos shoppings de Stratford, cidade olímpica, trocou o garoto propaganda Usain Bolt, corredor jamaicano, pela nadadora inglesa Eleanor Simmonds, campeã paraolímpica inglesa. Estava montada a estrutura para a cobertura dos jogos paraolímpicos, que enfim deram resultados. Estádios lotados e comemorações nas ruas eram sinais de que toda publicidade e preparação em torno do evento havia dado certo. No Brasil entanto as noticias não chegarão com tanta repercussão. Em um caso interessante a diferença de cobertura pode ser notada claramente. Na disputa dos 200 metros livre o brasileiro Alan Fonteles, até então um desconhe-

cido brasileiro, bateu o recordista mundial e ídolo dos esportes paraolímpicos, o sul-africano Oscar Pistorius. Após a corrida Oscar deu declarações a BBC, que cobria a disputa em tempo real na TV, dizendo que era um absurdo o que estava acontecendo, pois Alan havia alterado suas próteses e por isso tinha ganhado. O brasileiro deu uma entrevista coletiva no dia seguinte afirmando que a alteração de sua prótese foi aprovada pela comissão de juízes e que estava dentro da regra. Comentaristas de esportes britânicos ressaltaram o brasileiro e chegaram a afirmar que Pistorius era um “mal perdedor”. Picuinhas a parte Alan Fonteles se tornou o homem mais rápido dos 200 metros livres. O mundo inteiro queria conhecer o garoto que bateu o campeão Pistorius, menos o Brasil.

O herói nacional não teve muita repercussão em seu país. Por aqui algumas notinhas cobertas pelo G1 deram a vitória do Brasileiro. Em 2016 a bola está com a gente, as olimpíadas e paralimpíadas acontecerão no Rio de Janeiro. Será que enfim nossos heróis paralímpicos serão reconhecidos pela nossa mídia, ou só abriremos os olhos para os atletas olímpicos? Questões colocadas fala esperar pela festa para ver a resposta. A estrutura armada para a Copa das Confederações e Copa do Mundo parece dar uma ideia da cobertura jornalística que virá. Nas olímpiadas e nas paralímpiadas esperamos o melhor, já que o incentivo vem da TV, nada melhor para instigar os deficientes a se movimentarem através do esporte.

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Revista gabo 1ª edição