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Ano IV - nº 7 - Brasília - R$ 10,00

Mila Petrillo Foto transformação Jorge Ferreira Toque de Midas Fala, Zé Bendita alma da poesia

Nemm Soares Arte que te quero arte


Espaço

aberto

ormato Ano III - Nº 6 - Brasília - R$ 10,00

Patativa do Assaré

100 anos de versos e sertão

ormato

A Formato quer falar com você

ANO III - Nº 6

Luiz Clementino

www.revistaformato.com.br

Flor(es) de concreto

Marcílio Farias

Poesia nas entranhas

Ilha do Cardoso

Viagem ao paraíso atlântico

José Humberto Fagundes

Patativa do Assaré 1

Cardoso 2

Gostei muito da Formato. Mais ainda em ver uma matéria com Patativa do Assaré. O site da revista também é de primeira linha. Parabéns!

Parabéns pela revista Formato, da melhor qualidade! E que viagem essa Ilha do Cardoso. Como se faz pra ir nessa quebrada? Ano passado, estive em Ubatuba e Ilha Bela, região próxima a esta, mas não chega nem aos pés do Cardoso!

Patativa 2

Ilha do Cardoso 1

Parabéns pela matéria sobre o grande poeta Patativa, valeu!

Gostaria de parabenizar os editores da Formato. Uma revista com excelente diagramação, matérias atuais, enfim, uma revista diversificada e completa. Destaque para a matéria sobre Patativa do Assaré, um ícone da cultura brasileira. Foi muito bom conhecer sua obra, além de “A triste partida”.

Na hora do surf, era um tal de roda montanha... Se de um lado é marolinha, do outro é mar bravo. Corajosos surfistas que acordam cedo! Atravessar a primeira montanha do norte exigia muita disposição. Bromélias espalhadas por toda parte. Orquídeas são tão corriqueiras que seu cheiro exala muito forte. Sabor abacaxi maduro. Borboletas por toda parte. Tantas de pousar na ponta do nariz. Na mata, existem troncos avermelhados da madeira de lei Pau-Brasil. Que força de restinga! E a beleza das palmeiras? Nem se fala. Conhecer uma floresta de verdade é sagrado. O Cardoso merece ser preservado como a maior joia do Brasil. Nossas verdadeiras riquezas são ilhas de Mata Atlântica preservada. O carinho dos nativos cativou e a saudade foi tanta que voltei pela segunda vez. Boa influência musical e boa companhia me fizeram agradecer cada segundo que estive lá.

Rodrigo Monteiro, economista

Luzinha Ting-ling

Orlando

Brito

Afonso Gadelha, músico

Patativa 3

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Não apresse o rio. Ele sabe seguir sozinho. No vai e vem macio, ele encontra o caminho... Maurício Castro, músico, poeta

Cardoso 3 Mata virgem, que beleza. Como é bela a natureza. Sol, sal, umidade no ambiente. Dias de interação, superação e diversão! Que assim seja e permaneça, a ilha hospitaleira. Lugar de magia nas lembranças dessa família aventureira. Obrigada pelos dias de renovação! Saudades... Alice Maria Duarte, Luan Duarte José Humberto Fagundes

Egidio Mascena, Natal (RN)


Felipe Massa

Sem Sonhos

Como proprietário de uma empresa de transporte executivo, tive a oportunidade de atender o piloto de Fórmula 1 Felipe Massa, em sua passagem por Brasília. Havia um exemplar da Formato no veículo. O Massa se interessou, leu a revista com atenção e comentou: “Muito bem feita, mas tinha que incluir automobilismo”.

Divulgação

Francisco Castro, empresário

Reconhecimento internacional

Nota da Redação Obrigado, Francisco, por nos trazer a sugestão e a foto. Por coincidência, nesta edição temos uma matéria sobre automobilismo e outra sobre o Fusca. Esperamos que, em breve, Felipe Massa tenha em sua companhia na Fórmula 1 o xará brasiliense Felipe Nasr.

Uma foto pela paz – uma foto pela tolerância. Na 13ª. edição do Prêmio Internacional “A photo for peace – a photo for tolerance”, a foto “Sem Sonhos”, do fotógrafo “brasiliense” Ivaldo Cavalcante, foi classificada em quinto lugar. O Prêmio é uma realização do Centro di Ricerca e Archiviazone della Fotografia-CRAF (Itália), com apoio do Centro de Informações das Nações Unidas para a Europa Ocidental. Duas outras fotografias do autor, “Anjos do Picadeiro” e “Menor Preso”, ficaram entre as 50 melhoras obras, selecionadas entre milhares enviadas por fotógrafos do mundo inteiro. “Sem Sonhos”, na definição do coordenador do CRAF, Walter Liva, “utiliza a imagem forte da infância sem efeitos emocionais”. Os trabalhos de Ivaldo farão parte de um catálogo que integrará a exposição itinerante “A photo for peace – A photo for tolerance”, em 2010.

Revista diferente Faltam revistas de qualidade em Brasília. Algumas não têm conteúdo interessante, outras, não são convidativas. A Formato possui essas duas características, além de fugir de assuntos convencionais e ser diversificada. Traz matérias sobre personalidades, cultura e lazer. Chama a atenção pelo visual e abordagem das matérias. O espaço que a revista dá aos fotógrafos da cidade é um ponto a ser destacado. Raíssa Manso, jornalista

Menor Preso

Anjos do Picadeiro

Boa escolha

Flores e Brasília

A Formato é uma revista feita com carinho, cuidada nos mínimos detalhes. Matérias muito bem escolhidas, impressão perfeita e tudo que uma revista precisa para ser reconhecida e premiada. Muito sucesso!

Não há como não registrar a técnica e sensibilidade do fotógrafo, que conseguiu uma bela harmonia entre a arquitetura arrojada de Brasília e a natureza bucólica da nossa cidade. Parabéns!

Fabrício Carone, empresário

Arlindo - morador da SQN 316


Editorial

Tempos de contar e fazer história

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m artista nasce por acaso? Olhar de fotógrafo é mesmo tão arguto quanto especial? E botequeiroempreendedor tem toque de Midas por que ama

a cultura, ou vice-versa? Piloto de corrida cresce mais veloz do que os outros, não pilotos? Necessariamente, quem envelhece adoece? O guardião da natureza faz sua opção por consciência ou vocação? Nem sempre as respostas estão disponíveis. Talvez, por isso mesmo, a inquietude domina essas indagações e transborda nas matérias que fazem parte desta edição da Formato. Conclusões, quem não as têm? Nemm Soares, Mila Petrillo, Jorge Ferreira, Felipe Nasr, Valéria Campos, Jeanito Gentilli que o digam. E dizem. O que pensam e sentem. Nossos leitores terão suas próprias conclusões. As novidades deste número ficam por conta do Caderno de Moda e da Gastronomia, enquanto as ousadias poéticas de José Carlos Vieira enriquecem ainda mais o Caderno Palavra. Em tempos de delação premiada, a crônica do incomparável Reynaldo Jardim descortina a surpresa da premiação que aguarda os traidores. Ética para quê? Por fim, o que os colecionadores apaixonados querem mesmo é andar de Fusca pelas amplas vias da capital. Um bom passeio para todos pelas páginas da Formato.

Cícero Venâncio

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José Humberto Fagundes

Diretor Presidente Cícero Venâncio cicerovenancio@gmail.com Diretor Comercial Geraldo Magela geraldomagela32@gmail.com Editor José Humberto Fagundes Reg. Prof. 484/DF zehumb@gmail.com Editora de Moda

Ana Tatiana Capeletti ana.tati.ana@hotmail.com Projeto gráfico Alissom Lazaro, Cícero Venâncio, Harison de Souza e Reynaldo Jardim Colaboradores Cláudia Mohn, Clausem Bonifácio, Eduardo Badfinger, Mauro Barbosa, Orlando Brito, Pedro Paulo Rezende, Reynaldo Jardim, Roberto Queiroz Fotografia Gilberto Soares, Luiz Clementino Revisão Edvaldo Almeida da Silva edvaldoalmsil@gmail.com Conselho Editorial Abel Eustáquio de Faria, Edvaldo Almeida da Silva, João Mendonça de Amorim, José Humberto Fagundes, Reynaldo Jardim Departamento Jurídico Mendonça & Amorim Associados Starprint Gráfica e Editora Ltda CNPJ 26 996 926/0001-72 CF/DF 07 333 372/001-15 SIG SUL Quadra 8, Lote 2.325 61 3344.0555 – 9333.3334


Sumário

Nemm Soares

Arte em desafio à imaginação

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Moda

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Tempos de elegância e inspiração

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Automobilismo

Brasiliense prodígio conquista a Europa

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Mila Petrillo Olhar privilegiado na busca da transformação

Jardim Botânico Referência nacional em preservação

Hobby

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Arquitetura

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Casa Cor homenageia Burle Marx

Eterna paixão pelo Fusca

Jorge Ferreira Mago dos negócios

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Gastronomia

82

O toque refinado de Shirley Soares

e da cultura

Palavra

88

Fala, Zé. O caçador do inusitado

Saúde

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Reposição hormonal. Segredo antienvelhecimento

Crônica

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Reynaldo Jardim. Delação e ética


Artes plásticas

Nemm Soares

NEMM SEMPRE Candangando e andando. Um tema importante na obra do artista é a cara da cidade. Criados para uma parede do Bar Brasília, os candangos ganharam cor e vida. Um desafio à geometria. Não importa. O trabalho de Nemm é sempre um desafio à imaginação Texto José Humberto Fagundes Fotos Giba

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m caminhão peregrino capotou entulhado. O dono comprava móveis antigos Minas Gerais afora e vendia em Brasília. Sobraram cadeiras aqui, braços, encostos e pernas ali. Lustres ilustres salvos nos braços do acaso. E lá estava Heberth Maurício Soares, o Neném do apelido da avó que virou Nem e alçou voo Nemm Soares no mundo das artes plásticas. Quando aqui no Brasil a reciclagem ainda engatinhava, o irrequieto mineiro de Belo Horizonte comprou a sucata que restou do capotamento. Das quase mil cadeiras, conseguiu montar umas duzentas. Os lustres, que não eram de cristal, mas de latão e outros materiais, foram reaproveitados. Produtos híbridos. Começava, em 1989, a reciclagem na ótica especial do atleticano torcedor que nem liga para futebol. Nesse mesmo ano, ao visitar uma galeria de arte em Fortaleza, sentiu-se fascinado por uma gravura do espanhol Juan

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Miró. Não conseguiu comprar. Custava uma fortuna. De volta a Brasília, decidiu adquirir umas telas, “daquelas que já vinham prontas”. As tintas foram o passo seguinte. Quando o vendedor perguntou: “acrílica ou óleo?”, Nemm se enrolou todo. E pensou: “f....”. Para se enrolar ainda mais na escolha dos pincéis. Mas a determinação e o talento são mesmo “pincéis” poderosos. Para superar obstáculos comuns ao início de qualquer carreira.


Artes plรกsticas

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Nemm Soares


Criada especialmente para a Formato, esta obra revela o talento do artista ao vivo e em cores

Nemm começou a pintar suas telas no chão, debaixo de uma mesa de tampo de vidro, em sua casa. De 1989 a 1992, era o seu ateliê. “Foi difícil sair do chão e passar a pintar em pé”. A transição só ocorreu no ano seguinte, ao mesmo tempo em que suas obras eram lançadas por Denise Zuba, na Casa Cor/ Brasília. O que até então era um hobby, atividade profissional virou. Entre uma e outra pincelada no quadro que pintava especialmente para esta matéria da Formato, Nemm deixa antever seu espírito jocoso: “minha calça tá caindo,” ajeita, e ao mesmo tempo fala ao celular. Indagado se dava nome a suas obras, obrigou-se a fazê-lo a partir da mostra individual realizada no foyer da Sala Villa Lobos, em 2000, e repetida nos três anos seguintes. Nome ou a ausência dele têm o seu significado. Sobre o “quadro” da Formato, o título saiu de imediato. “Como você se chama, menina?” E a obra, pintura acrílica sobre textura acrílica, técnica inventada pelo autor, ganhou o nome de “Carol”, jornalista que participou da entrevista. Se o inusitado faz parte da caminhada artística do irreverente Nemm, o acaso também. “Estava pintando em casa, debaixo da mesa, quando o telefone tocou. Fui atender. Quando voltei, chutei sem querer a lata com tinta asfáltica. O betume explodiu na parede branca. Peguei um pano e comecei a lim-


Artes plásticas

Nemm Soares

par. Aí observei que passava o pano e surgia um efeito de oxidação no fundo. O betume se impregnava na textura”. Aberta estava outra perspectiva inovadora. O instinto comanda, responde. Processo visceral de criação do artista. Embates à toda prova. Com mais de 25 mil obras catalogadas, só os murais superam seis quilômetros de extensão. “Não consigo ficar dois dias sem pintar. Quase 90% do meu trabalho são encomendas. O cliente determina o tamanho e sugere o tema, mas não dá palpite”. É um grande desafio, uma responsabilidade enorme, pois quem contrata não sabe o que vai acontecer. “Dá medo”, confessa, com mineiridade espontânea. Mas os resultados superaram, até hoje, as expectativas de quem tem uma obra de Nemm Soares em sua casa. “É um prazer para mim”. Amante de jazz e blues, tem armazenados 12 mil títulos, incluindo bossa nova. “Não suporto música sertaneja, muito menos axé. Mas adoro música caipira de raiz, Xavantinho e Pena Branca...” No ateliê montado na Asa Norte, com certeza, respira-se arte, boa música. E interatividade à toda prova, como se pode constatar no site www.nemmsoares.com ou www. nemmsoares.blogspot (ver matéria ao lado). Apesar de alguns identificarem traços de Picasso em seu trabalho, Nemm não se considera influenciado por artista algum. Para ele, Juan Miró é o maior de todos. “E tinha um traço que qualquer neném faz”. No Brasil “brasiliense”, admira

Criatividade sem limites faz parte do universo de quem transforma sucata em arte

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Na internet, surpresas e bom humor Caroline Andrade

Candangos aqui, candangas alí numa explosão de cores e contrastes

o trabalho de Galeno, Tarcísio Viriato, Omar Franco e Darlan Rosa. Com obras em vários países e convites recebidos para expor no exterior, acha que ainda não é hora. Talvez, por “medo, insegurança”. O que poderia soar falso, pela dimensão do que já construiu, no entanto, redime a humildade. Hábitos simples, sempre de camiseta, calça jeans, mãos invariavelmente sujas de tinta, Nemm transmite ao mesmo tempo franqueza e determinação. No que fala e no que faz. Pai de três filhos, um casal de netos, exibe a tranquilidade do artista que vê, aos 53

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ousadia presente nas obras do artista, agora, pode ser acompanhada em um bem bolado, dinâmico e divertido site. Nemm Soares, um privilegiado que hoje vive da sua arte, para estreitar a distância entre público e artista, decidiu divulgar seu trabalho na internet. Foi com a ajuda de um jovem webdesigner, Fanôr Júnior, que a ideia saiu do papel. Quem acessa o site tem a sensação de estar dentro da galeria do artista, conta o designer Fanôr. A página é interativa. Lá o visitante pode ver as obras, conhecer o trabalho do Nemm, ouvir músicas escolhidas pelo artista e até abrir a geladeira, como se estivesse na própria galeria. O internauta irá se deparar também com animações inusitadas. O mouse ativa movimentos nos objetos. Bem, objeto é o que não falta na decoração do ateliê, em si, uma verdadeira obra de arte. A intenção do site vai além de divulgar o trabalho, conta Nemm Soares. “Eu gostaria que as pessoas se divertissem ao acessar meu site”, que tem atualização prevista a cada três meses. “É uma ferramenta bacana para brincar com a seriedade de ser um artista plástico. Lá eu posso de forma descontraída receber meu público”, define Nemm. Vale a pena conferir. O endereço eletrônico é www.nemmsoares.com


Artes plásticas

Nemm Soares

anos, seu trabalho prescindir de assinatura. Tem identidade própria. “Mas, não tenho xodó com obra. A última é sempre a melhor”. Nada melhor para a Formato. Afinal, “a obra Carol” foi a última encomenda, por enquanto. Para sentir de perto o artista e o processo de criação. Nemm jamais se faria de rogado. Sobre a madeira, a aplicação da massa. Depois, os riscos com o cabo do pincel. Sem esboço. Sem desenho preliminar. Tudo muito rápido, principalmente os traços, antes de secar a massa. Técnica e intuição. Vice-versa também. O passo seguinte, cruzamento de cores. “Não se pode colocar muita cor de um lado só”, ensina. Enquanto retoca um detalhe com o pincel e passa o dedo por cima. Rosto tribal, entre os vários elementos que compõem a obra. “Fiz muito rosto de frente. Agora, só de perfil, para mudar”.

Placas de computadores, utensílios de cozinha, globo de luz. O lixo vira luxo na arte de Nemm

Se a inquietude é um dom, a pressa é amiga da perfeição, ou quase. “Comecei hoje, termino hoje. Ou o mais rápido que puder”. Amanhã é outro desafio. “Artes plásticas no Brasil têm pouco valor, ao contrário da Europa, de países desenvolvidos. A maioria dos artistas aqui vende o almoço para comprar o jantar”. Como parte da minoria que tem o privilégio de viver de arte, Nemm sempre foi “pau-para-toda-obra”. Mas arte não permite desconto. Não existe liquidação. “Tem o seu preço”.

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Artes plásticas

Nemm Soares

De olho no futuro, Nemm ensina. E transmite sua técnica. Os alunos pintam o que querem. Cada um em seu universo. Caminho próprio. Os quadros são submetidos à votação. E tem prêmio em dinheiro para os escolhidos. Se depender dele, a perpetuação da espécie virá também da neta, de um ano e seis meses. “Faz um círculo direitinho, vai ser artista”. Afinal, arte é pura aventura. Importa é o encontrar. “O grande lance é alcançar a liberdade absoluta”, define o belorizontino para lá de brasiliense. Quando morrer, não quer ser enterrado nas lapinhas de Minas Gerais. Mas cremado em Brasília. “Minha garrafinha de cinzas exposta, a família e os amigos vão dizer: olha o Nemm aqui”. Assim seja, bendita arte. Supremo dom da vida.

Detalhes dos banheiros masculino do Bendito Suco (ao lado) e acima do ateliê do artista

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Fotos montagem: Julio Magalh達es e Fernando Silva


Ensaio

Mila Pretrillo

PET IKEBANA DE LUZ - Reynaldo Jardim

“Nesse caminhar, são incontáveis os momentos de

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ENSAIO

RILLO

ĂŞxtase que tive a grande sorte de viver ao conhecer


Cartas

e-mails

tantas pessoas incrĂ­veis e trabalhos maravilhosos.

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Conviver com estas crianças e jovens, com estes

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om a ousadia de um talento ímpar, Mila Petrillo nos convida a não só abrir os canais sensíveis da percepção, como também nos educa para o exercício da solidariedade, através do poder da imagem aliada ao sonho. Mila viajou por todas as regiões do país documentando estes brilhos que reluzem encantadores. Estes rostos nos trazem alumbramentos, entusiasmo e fé para confiar no que em nós é mais humano. Mila também nos auxilia a sonhar com o poder que há na coragem e na magia que Goethe nos recomendava mover com a força da vontade, ao pedir à Divina Providência o movimento favorável às nossas causas, para que Ela se movesse em favor de nossos desejos tomando assim providências divinas, servindo como instrumento do sagrado que há no um e no outro. É aí que nossa vontade vai além dos acasos e coincidências: e auxiliado por esta providência mais que divina, ousamos uma persistente e profana poética de recriar mundos... Bené Fonteles


CEanrst aa iso e-mails Mila Pretrillo

educadores criadores, com este universo que se

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encontra fora da nossa pobre visão de elite

O

movimento, a luz, a cor, a expressão, o espaço e a rima do conjunto são para Mila Petrillo oportunidades de documentos em relato para e com a história. Jamais perde a dimensão do indivíduo como mola propulsora de todo o processo. Não basta o pôster, nem a posteridade da foto profissionalmente perfeita. Mila conduz a intencional intervenção da criadora e a arte flagrada alimenta sua arte sem perda de referência no registro, mas também linguagem pessoal da sua magnífica sensibilidade. Arte sobre arte sem os artifícios do mero truque estético. Arte construtora de história. TT Catalão


CEanrst aa iso e-mails Mila Pretrillo

econ么mica, 茅 um privilegio do qual jamais poderei

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agradecer o suficiente.” Mila Petrillo

E

splendor e glória do povo que se entrega, se integra, às lentes e olhos, e fulgor, doçura, fúria dessa sempre menina que todos amamos pelo espírito liberto, fraterno, carinho e compaixão. Paixão comprometida: presente e destino das pessoas que povoam o universo em que circula, quer na cidade, quer nas periferias amorosamente suburbanas. Do livro-álbum Arte de Transformação, colhemos algumas luzes das miríades de arco-íris cuja beleza, grandeza e lúcida poesia tornam impossível segurar lágrimas e alegrias de gratidão, emoção, deslumbramento. Textos da própria Mila Petrillo, Bené Fonteles, TT Catalão, Severino Francisco, além das fotos, surrupiadas do livro-álbum, lastrearam a edição deste ensaio fotográfico em que a arte emerge do chão nativo nas imagens de pura luminosidade de Mila, que se torna plenamente iluminada quando flagra o instante em que a luz ordena: é agora. Mila jamais deixou passar o é agora. E o agora ganha eternidade. RJ


Hobby

Tradição

FUSCA

Uma paixão que resiste ao tempo O carro mais popular do mundo tem uma legião de fãs em Brasília. E muitas histórias para contar Texto Roberto Queiroz Colaboração Rodrigo Monteiro Fotos Giba

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ngenheiro, economista, profissional liberal, servidor público, aposentado. Não importa a formação ou a ocupação. Entre eles, uma paixão em comum. Aliás, uma paixão que dominou o Brasil por 30 anos. E permanece viva ainda País afora. Em Brasília, visibilidade candanga. Os amantes do Fusca se reúnem todas as quartas-feiras, no início da noite, no Terraço Shopping. Promoção do VW Boxer Clube. Tem encontro mensal, também. No Parque da Cidade. Organizado pelo Clube do Fusca e Antigos, sempre no primeiro sábado de cada mês. Invariavelmente, por serem quase parte da família, recebem até nomes. E não é para menos. Lançado em 1959, quando a maioria das estradas brasileiras ainda era de terra, vencia quase todos os tipos de terrenos. Vendeu mais de três milhões de unidades e sua popularização lhe deu a fama de carro simples. “Qualquer um conserta um Fusca”, é o que sempre se ouviu.


Hobby

Tradição

ram a América do Sul. Passaram por Caracas e chegaram até Ushuaia, na Patagônia, em condições extremas de temperatura. A equipe brasileira Gaúcha Car venceu na categoria até 1.300 cilindradas. O primeiro lugar ficou com a dupla Christiano Nygaard e Neri Reolon. O segundo, com Mário Figueiredo e Jorge Fleck. Os dois Fuscas foram os únicos carros a completar a prova em sua categoria. É uma aventura que tem registro, narrada no livro “Rally Volta da América”, de Paulo Torino e Renato Pastro. A curiosidade fica por conta da participação do atual presidente da Federação Internacional de Automobilismo, Jean Todd, que pilotou uma Mercedes Benz.

Carro popular, veículo militar

Original, conversível, encurtado, hood ride (enferrujado só na aparência) ou hot (transformado, motor “envenenado”), são várias as versões que circulam em Brasília. Tudo depende do gosto do dono. Como carro de competição, estreou nas pistas, no fim dos anos

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1960. Os pilotos eram nada menos do que o futuro bicampeão mundial de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, e seu irmão Wilson. A maior façanha, porém, ocorreria no Rally Volta da América, em 1978. Com partida e chegada em Buenos Aires, os veículos percorre-

Quem diria, hein? O carro mais popular da história do automobilismo mundial foi idealizado por Adolf Hitler. O ditador nazista determinou ao engenheiro Ferdinand Porsche a criação dos primeiros protótipos. O veículo para cinco passageiros – dois adultos e três crianças – teria de atingir 100 km por hora. Consumo máximo de sete litros de combustível para cada 100 km. E ser refrigerado a ar. Para que o radiador e o circuito de refrigeração não se congelassem no rigoroso inverno alemão.


Durante a II Guerra Mundial, o Fusca teve sua versão militar. Abrigava três soldados e uma metralhadora. Virou também veículo anfíbio. A fábrica da Volkswagen, na Alemanha, foi alvo de severos ataques das forças aliadas. Terminado o conflito, os ingleses assu-

miram o controle da indústria. Mas não demonstraram interesse algum na produção do Fusca, que consideravam feio e barulhento. Oferecida quase de graça a Henri Ford, a proposta foi recusada. Ford afirmou que a fábrica não valia um níquel sequer.

De volta ao controle alemão, em 1948, uma parceria com a Chrysler viabilizou a colocação do Fusca no mercado norte-americano. Começou, assim, a sua popularização mundo afora, com a produção de cerca de 22 milhões de unidades. Em 1959, por iniciativa do presidente Juscelino Kubitschek, surgiu o primeiro Fusca brasileiro. A produção foi interrompida em 1986. Retomada em 1993, a pedido do então presidente Itamar Franco, durou pouco. Três anos apenas. O último Fusca fabricado no mundo saiu da fábrica mexicana de Puebla, em 1998. As boas lembranças e a paixão pelo “carrinho” permanecem, no entanto, vivas até hoje.

Versões dos fuscas “brasilienses” fotografadas especialmente para a Formato diante do Museu da República, na Esplanada dos Ministérios.


CHaor bt b a sy

Tradição e-mails

Um caso de amor. “A paixão vem de criança. Meu brinquedo preferido era um Fusquinha verde, de plástico. Minha madrinha tinha um Fusca vermelho. Andei muito nele, na infância. Em 2008, decidi me dar um presente de aniversário. Descobri em Vinhedos/SP, um modelo 1968. Pé na estrada, até Brasília. Viagem tranquila de dois dias. Hoje, fase final de reforma. Restaurado nos padrões originais. O “Duneguinho” está como zero. Minha filha de sete anos o adora. Faz parte da família”. Rodrigo Monteiro, 40 anos, economista “Desde criança, lembro que meu pai sempre teve um Fusca. Adorava ficar em pé sobre o banco, balançar de um lado para o outro naquele grande volante branco. E apertar aquela buzina estridente. Nas viagens, também adorava o “chiqueirinho”, atrás do banco traseiro, reservado para pequenas bagagens. Quentinho e aconchegante para uma criança. Sem nenhuma segurança, é claro. Hoje, pai de família, sou o feliz proprietário de um belo sedan 1.300, ano 1968. Apelidado de Matilde, é parte da família. O futuro herdeiro, meu filho de 12 anos. Como eu, antigamente, acostumado a conviver com os Fusquinhas de nossas vidas”. Marcelo Bressan, 41 anos, publicitário “Sou apaixonado por carros antigos. Por Fusca, talvez desde que estava na barriga da minha mãe, se é que isso é possível. Em 2000, decidi comprar um carro antigo. Foram meses de pesquisa. Até que um dia, nas minhas costumeiras caminhadas, avistei um Fusquinha branco, ano 68, com placa de venda. Confesso que não se encaixava bem nos meus planos de ‘carro antigo’. Mas, por alguma razão, me chamou a atenção. O dono era um jovem de 19 anos. O Fusca estava judiado. Pára-lamas amassados, assoalho precário, pintura queimada pelo tempo. A história era a de que o carro sempre pertenceu à família. Herança do avô. Comprado em fevereiro de 1968, passou primeiro pelo pai. No fim de 2000, foi dado a ele como presente de aniversário de 18 anos. Não era bem o carro que queria. Por isso, decidiu vendê-lo. Passei a ser, então, o primeiro dono que não fazia parte daquela família. Estou com ele até hoje. Espero estar ainda por muitos anos, com muito orgulho”. Delmo José dos Santos, 53 anos, aposentado

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Diferentes visões “Em 1961, um Fusca de cor cerâmica passou a fazer parte de minha família. Eu tinha quase 10 anos. Quando estava com lotação máxima, minha irmã e eu ocupávamos o “chiqueirinho”. Os anos se passaram. Papai sempre trocava de carro. Gordini, Simca, Aero Willys. Quando comecei a trabalhar, tirei carteira, juntei um dinheirinho e comprei meu primeiro carro. Advinhem? Um lindo Fusca azul, 1970, chamado de ‘Blue Jet’. Fiquei quase oito anos com ele. Vendi para comprar um carro maior. Mas nunca me esqueci do meu Fusca. Meus olhos brilhavam sempre que via um rodando por aí. Em 2004, decidi. Comprei um Fusca 1600, 1985, em perfeito estado. Investi nele o valor de um carro popular zero km. Transformado em conversível, chassi reforçado, pintura azul, capota e estofamento em bege, ficou maravilhoso. Pára o trânsito por onde passo. É chamado carinhosamente de “Limonada”, por quem o conhece. Porque era verde quando o comprei. Afinal, nome é nome”. Nelson Ormezzano “Barata”, 56 anos, comerciante

“Cresci com meu pai dando ‘cavalos de pau’ em um Fusca. Eu, no banco de trás, sem entender muita coisa. Irresponsabilidade calculada. O fato de ter crescido em meio a veículos com motores de competição, influenciou meu hobby de hoje: melhorar sempre o desempenho. Com meu Fusca não poderia ser diferente. Seis meses de preparação. Motor 1.9 refrigerado a ar, 120 cavalos. Parece pouco. Mas é quase três vezes a potência do veículo original, 1968. Aliado ao pouco peso e à tração traseira, leva o Fusca de 0 a 100 km na casa dos 7,5 a 8 segundos. Comprei e preparei um carro que conheço há 11 anos, depois de perturbar muito o ex-dono. Para mim, andar nesse carro não tem preço. Sinto-me em uma época da qual não participei. Mas é impagável pedir passagem a carros considerados ‘fortes’ na subida. Risadas garantidas. Sem contar o grande carisma, original do Fusca. Sucesso em qualquer lugar”. Carlos Ramirez, 23 anos, empresário


Hobby

Tradição

Literatura, música e cinema A paixão pelo Fusca invade o imaginário popular. E transborda tanto a literatura, quanto a música e o cinema. O livro “Eu amo Fusca”, de Alexander Gromow, reúne uma coletânea de histórias e “causos” sobre esse ícone da indústria automobilística. O escritor Orígenes Lessa imortalizou o “besouro” no clássico infantojuvenil “Memórias de um Fusca”. Fábio de Souza e Portuga Tavares trouxeram novidades com o “Almanaque do Fusca – Histórias e Curiosidades”, enquanto Robert Davies produziu o “Volkswagen Fusca, História Completa”.

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No cenário musical, Almir Rogério reina inconteste. Quem nunca ouviu o megassucesso brega “Fuscão Preto”? Depois, Nando Reis, Ultraje a Rigor, Wilson Sideral, Racionais Mc’s. Os exemplos se sucedem. Em letra e música, o Fusca virou atração nacional. No cinema, consagração internacional definitiva. O gênio do entretenimento infanto-juvenil, Walt Disney, produziu “Herbie, se meu Fusca falasse”. A série se completou com “Herbie, meu Fusca turbinado”. Quem não se lembra do primeiro Fusca em sua vida? A paródia, afinal, é perfeita. Como peça feminina, gruda na pele de qualquer um. Sonhos intermináveis de meninos...

No cinema, o sucesso do Fusca foi tanto que Walt Disney produziu uma série de filmes, completada com “Herbie, meu Fusca turbinado”


História

Personalidade

Salve, Jorge! BRASILIENSE DE ALMA “Se eu olhar pra trás rio pra dentro”*

E

terá mesmo Jorge razão de rir. Afinal, em busca do amor, Denise, desembarcou em Brasília para daqui não mais sair. E lá se vão 25 anos. Trouxe em suas veias não só o verso De corpo e alma. “Sou de onde vêm as tragédias loucas dos sertões”. Com ele, vieram boas lembranças das traquinagens de menino em Cruzília, nos perdidos confins do Sul de Minas Gerais. Alguém conhece? Já ouviu falar? Terra do seu Jaime Furtado Ferreira, que indicava o caminho. Mesmo sem saber, claro, o que o futuro ao filho reservava. Na época, a ditadura corria solta. Não importava. Fundou o MDB local. E o Ipiranga Esporte Clube, em oposição ao Sete de Setembro, time de futebol da elite. A popularidade do pai comerciante até hoje impressiona. Deixou mais de 400 afilhados cruzilienses, em uma cidade 36

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de oito mil habitantes apenas. Leitor assíduo, o estímulo e o exemplo vinham de casa. Érico Veríssimo foi a primeira devoração precoce do garoto de 12 anos, então. Abertura de um horizonte literário e poético. O tempo reconhece o que persiste. Na juventude, bastou Jorge injetar Drummond no coração, sangrar Rosa em busca das veredas universais de Minas. Ciclo de transformação do adolescente em militante estudantil, político de esquerda, fundador do PT em Juiz de Fora. Futuro sociólogo. A onipresença do seu Jaime é puro direito da cidadania. “Não tenho como ser canalha”. Negar a raça, jamais.

“Meu pai, com seu relógio de bolso, suas chaves do paraíso é minha paisagem noturna de botinas, lágrimas e solidão”. A estrofe fecha o poema Paisagem Noturna, do livro Fazimento. Obra do Jorge 2009. Para botar pra fora versos e causos. “Desculpa” para celebrar meio século de vida.

*Verso de Fazimento, livro de Jorge Ferreira.

Texto José Humberto Fagundes Colaboração Cristiano Torres Fotos Arquivo pessoal/Di Souto


Jorge no bar restaurante Mercado Municipal


CHai rsttaósr i ae-mails Personalidade

Em Brasília, emprego primeiro de professor concursado da Fundação Educacional. Depois, da Universidade Católica, em Taguatinga. Apesar de coordenador da reintrodução da Sociologia no 2º Grau, o ex-diretor do Sindicato dos Professores acabou demitido. Na rede pública, tinha ideias que não eram lá assim bem aceitas. Sempre “arranjou problemas”. Peculiaridades da época, talvez. O destino de braços dados com a ironia. Virou empresário “por incompreensão da burguesia”. Acredita que não queriam têlo como “empregado”. Um primo era dono de piz­ zaria em Taguatinga. Surgiu a oportunidade de abrir uma outra, na Asa Norte. Convidado, Jorge virou sócio. Dois anos depois, em 1989, criou o Feitiço Mineiro (ver matéria). A indenização trabalhista da Fundação ajudou. Na co-

Em 1981, assembléia na Universidade Federal de Juiz de Fora

zinha, mão de obra importada, direto de Cruzília. Como ninguém faz comida igual à que a mãe faz, dona Terezinha respondeu ao apelo do filho e desembarcou na cidade. Com ela, veio dona Lidinha, cozinheira mineira também pra lá de experiente. As primeiras “chefs” do

A mãe, dona Terezinha Com a mulher Denise e Leo, o primeiro filho

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O tio Mirinho, o amigo Joaquim Elói e Jorge no estádio de futebol de Cruzília, que leva o nome do pai Jaime Furtado Ferreira. Em Mato Grosso, no rio Araguaia, com os filhos e amigos. No Rio de Janeiro, com Jaguar e a turma no Bar Bracarense

Feitiço estabeleceram o padrão. E a marca das duas ficou. Inesquecível não só na construção aqui do fogão de lenha da terra natal. Mas nos temperos, receitas caseiras, cuidado artesanal... Comida, música, literatura fazem parte desse variado cardápio do Feitiço, incorporado ao cotidiano brasiliense. No rastro da poesia, Jorge bebe na fonte do amigo Wilson Pereira, poeta e escritor patense. Basta ver o verso Menino de mim Eu brinco com o tempo como o menino brinca com o crescimento Se inspiração é eterna, também que o diga Paulo Leminski, curitibano poeta, escritor, tradutor, feiticeiro do além. A mais pura e simples reverência de Jorge, admirador fervoroso, está no verso:

Num bar de Natal O espaguete não serve meio só inteiro. E o amor, como será? No meu bar, é ao dente.


CHai rsttaósr i ae-mails Personalidade

Com o amigo Lula, em 2001, na Câmara Legislativa do DF, quando se tornou Cidadão Honorário

E os bares e restaurantes se multiplicaram. Marca registrada com raízes indeléveis no Planalto Central. Armazém do Ferreira, Café e Bar do Brasil, Bar Brasília, Bar da Brahma, Mercado Municipal. “Tenho a alma de Brasília dentro de mim”, confessa. É a mesma “alma” presente em seus empreendimentos, por onde transpiram arte, cultura e poesia. Jorge é figura de incontáveis amigos, artistas ou não. Jaguar e Ziraldo compõem esse universo tão infinito enquanto vida houver. “Vinícius dizia que ninguém faz ami-

zade na leiteria”. A referência torna-se bem-humorada reverência ao “imortal poetinha” da literatura e da música brasileira. Não confundir negócio com política faz parte da sabedoria cruziliense do mineiro que virou cidadão brasiliense, com direito a diploma e honraria. Por trás de tudo isso, o amor Denise. Cuidado esmerado com os filhos candangos Leo, Lucas, Luciana e a parte administrativa dos empreendimentos da família. Retaguarda, sinônimo de tranquilidade, onde

prospera a ebulição cultural. Nesse caso, a definição mais apropriada, talvez, seja a do próprio Jorge. “Minha vida é um fazimento”. Tradução literal para o “fazer com sentimento”. Outra definição, tão importante quanto, jamais poderia vir senão dos versos de Wilson Pereira para Jorge Ferreira. Caminhada Era madrugada e Deus dormia. Havia lua no céu... Ao longo da estrada o silêncio chovia. Pingava luz do meu chapéu.

No Pantanal e com a mulher Denise e o poeta Wilson Pereira

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Fotos Di So

uto

PARA QUEM ACREDITA EM SONHOS

C

om a realização de mais de sete mil shows, ao longo de duas décadas de existência, a arte ganhou referência em Brasília no Feitiço Mineiro. Literatura, poesia, música. Espaço garantido para apresentações de qualidade. Artistas da cidade e nomes consagrados. Foi lá que Baden Powell fez sua última apresentação. Para celebrar a data, o Clube da Esquina desembarcou na cidade. Afinal, como diz a canção Clube da Esquina II (Lô Borges, Márcio Borges, Milton Nascimento), “sonhos não envelhecem”. Muito menos quem acredita neles.

Wagner Tiso

Flávio Venturini

Beto Guedes Nivaldo Ornelas, Toninho Horta

Lô Borges Joana Doah, João Bosco

Telo Borges, Márcio Borges


Saúde

Prevenção ao envelhecimento

Quando a reposição

hormonal faz a diferença

A medicina antienvelhecimento surgiu no Brasil, há 15 anos Texto José Humberto Fagundes Fotos Mário...

“El

tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos”, cantava a grande dama da nova canção latino-americana Mercedes Soza, que há bem pouco deixou nosso plano material para encantar os anjos. A música “Años”, do cubano Pablo Milanes, dizia que o “tempo passa e a cada dia ficamos mais velhos”.

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Envelhecer não significa, porém, adoecer. A medicina antienvelhecimento surgiu nos Estados Unidos com o desenvolvimento de novas tecnologias em benefício da qualidade de vida nessa faixa etária. Há mais de 15 anos, chegou ao Brasil por intermédio das farmácias de manipulação. Reposição hormonal, alimentação adequada e atividade física são o tripé em que se apóia o conceito, voltado para a prevenção. Com o passar dos anos, o organismo sofre quedas hormonais. Envelhecimento em curso. Prevenir ainda é o melhor remédio. Na prática, melhor ainda. A médica ginecologista Valéria Campos Coelho que o diga. Tudo começou por acaso. De férias, em Salvador, a Dra. Valéria conheceu uma professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. À inevitável pergunta “e aí, tudo bem?”, respondeu com franqueza: “não, estou péssima, cansada, estressada, cansada de operar”. Apesar de praticar exercícios físicos regulares - corrida é a sua especialidade - sentia perda de massa muscular e

aumento de gordura. Alguma coisa estava errada. A professora sugeriu: “entra no site do Dr. Ítalo Rachid”. Ao chegar ao hotel, foi o

Alimentação adequada, atividade física e uso da dose certa de hormônios asseguram aumento de energia e sono mais reparador que ela fez. E por uma dessas incríveis coincidências, estava prestes a se iniciar um curso introdutório, ali mesmo em Salvador. Foi o começo de uma nova era profissional na vida da Dra. Valéria. “Reestruturei minha carreira ao me aproximar novamente da fisiologia e da bioquímica. Estava treinada para lidar com patologias”. Durante os quase 15 anos em que atuou como ginecologista, sempre lhe chamou a atenção o alto nível de sofrimento de suas pacientes. As queixas sexuais eram frequentes. “A parte sexual é o termômetro de como funciona o corpo”. A preocupação

em trabalhar ginecologia e sexualidade levou a Dra. Valéria a fazer pós-graduação em Sexologia, fiel a sua proposta profissional de cuidar das pessoas para que vivessem bem. A descoberta da medicina antienvelhecimento, no entanto, mudou a vida e a carreira da médica ginecologista. Depois de um curso de pósgraduação, em São Paulo, ela voltou sua atuação exclusivamente para essa área da medicina, em Brasília. “Comecei me tratando e constatei que o equilíbrio hormonal é fundamental”. A próxima “vítima feliz do tratamento” foi o próprio marido, o também médico Sérgio Sampaio. “Mal-humorado e estressado, todo mundo dizia que ele era muito bravo. Tinha uma fama péssima. Mas era procurado por ser referência em medicina fetal. Hoje, está ótimo. É quase um atleta”. Outro bom exemplo também vem da família. A mãe da Dra. Valéria realizou o tratamento e, aos 82 anos, foi para a Chapada dos Veadeiros, recentemente, fazer uma trilha de quatro quilômetros para conhecer uma cachoeira.


Saúde

Prevenção ao envelhecimento

Nível ótimo O segredo é que a reposição hormonal leva o corpo a melhorar suas funções. “Aumenta a energia e o sono é mais reparador. A reposição com o hormônio bioidêntico, de estrutura molecular igual ao produzido pelo próprio corpo, recoloca os hormônios em nível ótimo”. É um ganho inestimável para o corpo, antes de qualquer doença se instalar, assegura a Dra. Valéria. O tratamento tanto pode utilizar gel de ultra-absorção,

injeções subcutâneas ou cápsulas e desencadeia o sinergismo entre os hormônios. “Um levanta o outro e o corpo retoma a capacidade de adquirir músculos”. Para a montagem do programa, são realizados exames previstos na medicina convencional. Mas, ao contrário dessa, que busca o diagnóstico, o objetivo é avaliar como o corpo está funcionando e atuar preventivamente para evitar as doenças. Além disso, a pessoa não fica refém do tratamento para o resto da vida. À medida

que a reposição começa a fazer efeito, o corpo “vai embora sozinho e se encarrega da produção dos próprios hormônios”. A Dra. Valéria observa uma inversão de valores na sociedade contemporânea. “A prioridade é a manutenção do carro, que sai mais caro do que a manutenção do corpo. Carro se troca a cada dois anos. O corpo é impossível de se trocar. Infelizmente, os verbos que as pessoas mais conjugam hoje são ter, poder, mandar, exigir. Ao invés de sentir, gostar, viver...”

Segredo são os produtos manipulados

Divulgação

O

tratamento via modulação hormonal depende do estado de cada pessoa. Varia conforme a idade, sexo, estilo de vida, alimentação e inclui até o componente genético individual. “É um tratamento essencialmente personalizado. A prescrição obedece a essas características”, define a farmacêutica Leandra Sá de Lima (foto). E tanto o gel de ultraabsorção quanto às cápsulas utilizadas são produtos, necessariamente, manipulados. A exceção fica por conta das injeções subcutâneas, industrializadas. Coordenadora do Centro de Pesquisas da empresa brasiliense Farmacotécnica, pioneira na produção do hormônio bioidêntico no Distrito Federal, a Dra. Leandra afirma que a preparação dos hormônios requer cuidados especiais. A tecnologia foi trazida dos Estados Unidos em 2003. E exige controle de qualidade extremamente rigoroso, a partir do recebimento dos insumos até se chegar ao produto final. Não há dúvida de que esse é um tratamento definitivamente personalizado, resume a Dra. Leandra.

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Fim de ano

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E

m plena temporada de festas, a Formato inaugura o seu Caderno de Moda. E mostra as tendências predominantes nesta estação que pede leveza, harmonia com o ambiente. Independentemente do local, seja no cerrado ou no litoral, no campo ou na cidade, o importante é vestir-se com habilidade sem prender-se ao desconforto, mas de olho nas tendências. Seja sempre natural.... Tecidos leves, fluidos, em look total ou em sobreposições. Neste editorial de moda, criado especialmente para a Formato por nossa editora Ana Tatiana Capeletti, com assessoria de produção de Pedro Fistarol, contamos com a maestria do olhar de Kazuo Okubo. Bem-vindos todos às comemorações da época mais esperada do ano! Que a moda possa servir sempre de inspiração.

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Esporte

Automobilismo

Prata da casa O título mais importante conquistado por um brasileiro no automobilismo internacional em 2009 é do brasiliense Felipe Nasr

D

esde pequeno, tinha gosto Felipe por corridas de carro. No sangue da família, veia da velocidade. Assistia pela TV à Fórmula 3, aos seis anos. Memória, menino. Entre os sete e oito, o pai, Samir, perguntou: “quer dar uma volta de kart?” O amigo do pai fabricava chassi de kart. Mero detalhe. “Eu sentei lá”, lembra. Um pedal acelera, o outro freia. Vai devagar. Instruções iniciais.

Texto José Humberto Fagundes Fotos Divulgação/Giba

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Esporte

Automobilismo

“Quando saí do box e dei a primeira volta, meu tio me parou.” E disse, logo de cara: “está muito rápido”. Piloto, experiente nas pistas, Stock Car, o tio Amir pedia o que o sobrinho nunca pôde atender. Felipe continua acelerando. Cada dia mais. Dos sete aos oito anos, fase de treinos. Sem moleza em casa. Para correr, era preciso estudar. Senão, nada feito. Competições à vista. Excitação juvenil. Aos oito anos, a primeira conquista. Campeão brasiliense de kart. Aberto estava o caminho para ganhar, depois, por sete vezes o campeonato local. E, por quatro vezes, a competição nacional. Antes, os esportes praticados eram futsal, tênis. Tudo a ver com rapidez. Velocidade da bola. Imagine da bolinha. Jogo rápido. Muito rápido. Do kart para a Fórmula 3, um salto a 230 km por hora. Caminho natural. “O que impressiona não é a velocidade, mas a adrenalina de como fazer a curva, no limite do carro, pista inteira”, afirma. Convidada para participar da etapa de Interlagos do Campeonato Mundial da BMW, a equipe Amir Nasr (pronuncia-se Nasser) apresentou seu piloto. Uma semana de treinos, apenas, no autódromo Nelson Piquet, em Brasília, em um carro que dirigia pela primeira vez. Felipe iria ao encontro de seu destino. Corrida decisiva, preliminar da Fórmula 1, São Paulo, 2008. Fez o terceiro tempo nos treinos. E subiu ao pódio. Terceiro lugar, logo na estreia. Na frente dele, só o futuro campeão e o vice daquele ano. Os dois em fim de temporada. Com muito mais experiência. O garoto de 16 anos chamou a aten-

ção de todo mundo. Assim que soube, em Interlagos, da passagem de Felipe pela “escolinha” da divisão esportiva da empresa, na Espanha, em 2007, o chefão da BMW, o alemão Mario Theissen, substituiu a direção da escola. Considerou um absurdo não terem percebido o novo talento, conta Amir Nasr. Também impressionado, o dono da equipe que conquistaria o campeonato, o italiano Antonio Ferrari, atendendo a pedido do piloto Augusto Farfus (brasileiro e piloto oficial da BMW) fez o convite para um teste no México, quando iria ser disputada a última prova do ano do Campeonato Mundial da Fórmula BMW. A equipe de Ferrari confirmou o favoritismo e levantou o troféu. A surpresa viria a seguir. Felipe entrou na pista e deu 18 voltas. Baixou em quatro décimos de segundo o tempo do pole position, que havia acabado de vencer o campeonato. “Quero você na Europa, em 2009”, disse Ferrari. Valendo-se da larga experiência do pai e do tio no meio automobilístico, “meus professores”, Felipe partiu para seu maior desafio. Teve de abandonar, por enquanto, os estudos no 2º. ano do ensino médio. Para disputar as 16 corridas da “Formula BMW Europe 2009”, no mesO pai Samir, Felipe, Mario Thiessen (BMW) e a mãe Eliane, em Monza, Itália

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Cartas

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mo circuito da Fórmula 1. Resultado melhor não se poderia antever. Ganhou cinco corridas, fez seis pole positions e chegou nove vezes em segundo lugar. Em 16 etapas, 14 pódios. Desempenho inigualável, até agora. Em sua estreia, o título mais importante conquistado em 2009 no automobilismo internacional por um brasileiro. “Nunca havia guiado em nenhuma dessas pistas. Ser campeão em cima do pessoal que já estava na segunda temporada, e conhecia os circuitos, foi uma surpresa até para mim”, define com humildade. E a temporada teve fatos marcantes. Em Silverstone, Inglaterra, havia feito a pole position. Mas, na inspeção dos carros, a ré do carro não engatava. Verificaram que o problema era de um cabo. Estranhamente, ele não só perdeu a pole, como teve de largar em último lugar. “Aí todas as atenções se voltaram para ver como Felipe se comportaria saindo atrás”, recorda o tio Amir. A televisão concentrou a cobertura no desempenho do brasiliense, que tinha 22 carros à sua frente. Ele, mais uma vez, surpreendeu. Fez a volta mais rápida e ultrapassou 15 concorrentes, em 25 minutos, tempo de duração de cada corrida, o que dá em média apenas 12 voltas. Terminou aplaudido em oitavo lugar. Em outra etapa, na Alemanha, nova surpresa. Tempo fechado e chuva, muita chuva. Felipe guiava pela primeira vez naquelas condições. Não se fez de rogado. Andou sempre um segundo mais rápido do que todos. Em nove voltas, nove segundos na frente. Para vencer mais uma vez, absoluto.

Outras áreas de interesse revelam o gosto de Felipe pelo cinema, por filmes de aventura e comédias. Acompanhado da paixão pela música. “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”. Influência paterna. Que também inclui Dire Straits. E, por conta própria, Capital Inicial e Jota Quest. “Nunca gostei de axé”. Lado familiar aguçado, Felipe preserva a tradição libanesa do avô. Amizades feitas para durar. Nelsinho Piquet faz parte desse universo. Nos últimos anos, participaram juntos das tradicionais 500 Milhas de Kart, no kartódromo da Granja Viana, em Cotia (SP), sempre a convite do filho do tricampeão mundial de Fórmula 1. Aliás, o próprio Nelson Piquet acompanhou, corrida por corrida, o desempenho de quem se consagraria na “Formula BMW Europe 2009”. Pessoa muito séria e, apesar de falar pouco, perguntava sobre tudo e “me dava os parabéns”, recorda o mais jovem campeão brasileiro ao se referir a Nelson Piquet. Com passe livre em qualquer evento da BMW no mundo, Felipe circula na Fórmula 1 com visibilidade em alta, atesta André Oliveira, responsável pela comunicação e marketing da equipe Amir Nasr. “Isso é muito imporEntre a mãe e o pai, lembrança da conquista no kart, em Florianópolis. Ao lado, na sala de troféus


Esporte

Automobilismo

tante, pois lá não fazem graça para ninguém. Está todo mundo de olho”. Discreto, desconversa quando o assunto é o namoro que mantém, há um ano e seis meses, com a irmã do amigo Nelsinho Piquet. Depois que “conheci a Júlia, nada mudou”. A amizade continua a mesma. E não há constrangimento quando surge a pergunta inevitável sobre o acidente de Nelsinho no Grande Prêmio de Cingapura de Fórmula 1, que beneficiou o companheiro da equipe Renault Fernando Alonso. Sincero, admite que “não faria”. Ao mesmo tempo, afirma que “não dá para saber o que estava passando entre a equipe e o piloto. Mas nunca

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devia acontecer de pedirem para bater o carro”. Em 2010, Felipe vai morar na Inglaterra. Não sabe ainda se disputará a Fórmula 3, o campeonato inglês ou o europeu. O idioma ele fala, com direito a diploma de curso conceituado em Brasília. “Mas vou aprimorar. Quero mais aulas”. Estudo superior, quando tiver tempo, seria Engenharia Mecânica ou Mecatrônica. Relação antiga. Desde pequeno, montava e desmontava carrinhos de brinquedo. Perspectiva alvissareira. O “manager” do piloto finlandês Kimi Raikkonen, o “homem de gelo” que venceu 18 provas de Fórmula 1 e foi campeão em 2007, fez uma

proposta muito boa. Steve Robertson tem como objetivo levar Felipe para a Fórmula 1. “Ainda não fechamos contrato, mas já estou treinando na equipe dele”. Descontraído e atento, o piloto não se ilude com o sucesso precoce. “Sou o mesmo. Não pode acontecer de você mudar e ser outra pessoa. Para mim, não sou nada ainda. Tem muita coisa para acontecer. Serei sempre o mesmo Felipe”. Que assim seja. E prevaleça a raiz libanesa do brasiliense. No próprio sobrenome, talvez o seu destino. Em árabe, Nasr significa “vitória”. O número 1 nas pistas internacionais em 2009


Meio ambiente

Cerrado

NA VANGUARDA DA PRESERVAÇÃO Referência nacional, o Jardim Botânico de Brasília é o grande aliado do Cerrado

Texto Jeanitto Gentilini* Fotos Washington Siqueira

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Pesquisas com orquídeas in vitro asseguram a manutenção de espécies ameaçadas de extinção. São produtos de exportação “made in DF” para jardins botânicos de todo o País.

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alkeriana. Um nome que tem ritmo. Faz lembrar famílias de colonizadores ou recitais antigos. Orquídea ornamental, cuja haste floral alcança oito centímetros quase sempre precisos. Possui, como quaisquer exemplares da flora, engenharia própria. Palavras comuns aos arquitetos: drenagem, traços curvilíneos, esboço incomum. Seus pedúnculos agarram-se às árvores com mais vigor durante a flo-


ração, que acontece, com raridade, uns dez dias por ano. Planta nativa do Cerrado, está na lista de extinção. Buscando copiar as incontáveis tonalidades legíveis com uma lupa e muita pausa, ilustradores do Jardim Botânico de Brasília trabalham dias a fio para resgatar, registrar e multiplicar a espécie no papel. Do róseo quase pálido observado nas ranhuras da pétala,

insurge e mescla-se um tom entre creme e outro que podemos chamar de chá. Se fôssemos descrever, entre lápis próprios para aquarela, o fio da meada botânica deste caminho, começaríamos há muito, quando caboclos pioneiros iniciaram uma relação quase simbiótica com a terra, que guarda semelhante incrível à da orquídea com a árvore.

O Jardim Botânico está sempre de portas abertas para a conservação do bioma cerrado e da educação ambiental


Meio ambiente

Cerrado

Andando devagar pelo mato, velhas lavadeiras e os chamados mateiros ou raizeiros iam parando, conforme a lembrança das indicações de pais e avós, para apontar... essa é uma macelinha... aquele miolo da sucupira branca tem tal serventia, e assim por diante. E foi assim durante muito tempo. Relação vivida com respeito, que é muito apropriado – inclusive nos imensos tratados de brasilidade escritos por Guimarães Rosa –, essa amizade do caboclo com a planta. Enfim... a benzedeira, o trilheiro punham nas mãos uns galhos de uma erva que não fosse qualquer, reconhecendo pau santo, mama-cadela, barbatimão. Dentro de uma panelinha, com um bocado d’água, daí para a fervura. De outras vezes, da planta vinha o sumo, amassado, pisado, usado em rituais, banhos e plantios. E também para proteção, ao redor das casas de taipa, para arredar mau-olhado. Tudo história antiquíssima, que veio do índio, do calunga, de uma mistura de línguas, quase dialetos que deram nome às primeiras espécies descobertas. Mas esse tempo passou com a velocidade dos ventos no Planalto e mudanças paisagísticas que alça-

Canela de ema (à esq.), flores e ipê amarelo (pág. ao lado) são plantas típicas do Cerrado. No Jardim Botânico, o teatro ao ar livre faz parte da educação ambiental

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vam vôos criativos para edifi- que isso. Como um balé que car arquiteturas orgânicas, mostra suas evoluções em orquestradas por gênios de atos, estações seca e chutal gradiente que desenharam vosa revelavam cavidades e contra o céu monumentos coisas de enternecer. Os tratados passaram a como a Catedral, que ora tem aparência das mãos erguidas versar sobre o endemismo do povo cerradeiro, ora pa- de espécies e sobre a caparece mesmo com um pé de canela-de-ema. Foi desse jeito que, com o vento e as folhas, os pioneiros todos e muitos visitantes, ainda com saudades e encantados com seu bioma original, estranharam muito o Cerrado. Plantinha rasteira? Tronco torto onde mora um musgo, na sombra? Cattleya Para o bem de todos, arlabiata, tistas e pensadores abraorquídea çados a pranchetas, assim salva da como os primeiros cientistas extinção em dessas expedições, passaBrasília ram a bisbilhotar com mais cuidado alguns recantos. Pasmados ou passados com o encantamento final, após a lentidão das buscas, desdobraram-se em poesia e rela- cidade de sobrevivência das tórios, tentativa de desenhos plantas... até a decisão final e outra coisa que virou histó- de se criar o Jardim Botâniria e hoje está guardada em co de Brasília, para preservar gavetas do Arquivo Público. esse traço original de arquiteO Cerrado era lindo. Mais do tura única e de fato orgânica.

A história do Jardim teria naturalmente de começar com um príncipe, Dom Pedro Carlos de Orleáns e Bragança, seu primeiro diretor. Recém-chegado de regiões serranas, reproduziu entre pinheiros reflorestados da área escolhida, casas acolhedoras que ainda são a marca da ocupação nesta época, misto de arquitetura brasileira e européia. Um pouquinho do Império nestas paragens centrais. Ezechias Heringer, cientista botânico que empenhou tempo e obstinação no movimento de adentrar estas matas, trouxe para o primeiro herbário toda uma coleção de espécies guardadas em casa, numeradas, nomeadas. Descobertas do Cerrado apaixonante. Quase 25 anos depois, uma equipe de desbravadores trabalha em uns dez projetos que mantêm vivos os cinco mil hectares de mata nativa da Estação Ecológica. Juntos, buscam dar ao sentimento científico alma de raizeiros e paixão de ocupante do Cerrado. Observando plantas em ex-


Meio ambiente

tinção como a braúna, a arnica e a aroeira preta, desfilam um brilho no olhar, recitando o valor humano agregado à arte e à cultura, enquanto os educadores de seu grupo resgatam cantigas folclóricas. Em 2010, projetos agora licitados, para a construção de pista de Cooper, Jardim Japonês, Jardim de Contemplação, placas sinalizadoras e espaços acústicos, arquitetônicos e contemplativos farão deste o mais importante centro de referência ambiental sobre o Cerrado na América Latina. Conservando linguagens tradicionais que prestam tributo à história da ocupação e mantendo bem firmes as raízes da ciência, mesmo em seus traços ancestrais, estes ambientalistas caminham, por outro lado, na vanguarda das propostas. Fazem cinema de preservação, alcançam mais de 1.000 municípios brasileiros por meio de um projeto de rádio para crianças, reproduzem orquídeas in vitro, ilustram e multiplicam espécies ameaçadas da flora, recebem delegações internacionais para abraçar as árvores, reintroduzem espécies ameaçadas da fauna e agregam as formas lúdica e poética em suas apresentações. Na agenda, a equipe – que produz um Almanaque de Educação, uma Revista Científica e o sumário para uma edição fotográfica – tem compromisso em julho do 72

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Cerrado

próximo ano com o Encontro Internacional de Jardins Botânicos. A escolha do Jardim Botânico de Brasília como sede foi da Rede Brasileira de Jardins Botânicos, em uma reunião que definiu o coração humano como o melhor solo para semear as intenções de preservação das matas. Pensando assim, o anfitrião nos oferece um chá e abre um diálogo filosófico sobre questões antropológicas e pontuais sobre preservação, onde a interação do homem e dos ciclos forma um perfeito desenho geométrico e esboça virtudes ancestrais refletidas também na arquitetura. Uma história que talvez tenha começado nas antigas Grécia e Pérsia e continuado aqui. O convite agora é para que todos confiem no sonho, e por ele trabalhem, de transformar o Cerrado brasileiro e suas árvores sinuosas, que dançam como um balé onde os mestres são os musgos e os talos, em referência para o mundo. Bem-vindo a este ciclo!

*Jeanitto Gentilini, Diretor-Executivo do Jardim Botânico de Brasília, é arquiteto, paisagista e ilustrador botânico formado pelo Royal Bothanic Garden-Kew, de Londres.


Arquitetura

Interiores

Casa Cor BrasĂ­lia 74

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A

Mostra de decoração prestou homenagem a Burle Marx

maior mostra de decoração da América Latina abriu suas portas ao público no último trimestre do ano. Com 61 ambientes e uma diversidade de lançamentos, a 18ª edição brasiliense prestou homenagem a Roberto Burle Marx – um dos maiores artistas plásticos brasileiros, que ganhou renome internacional ao exercer a profissão de arquiteto e paisagista. Tendo como foco a sustentabilidade, os profissionais envolvidos na Casa Cor não economizaram esforços para ensinar que é possível construir e reformar com responsabilidade. Entre os destaques da mostra, o premiado Loft Sustentável, de autoria do arquiteto Henrique Bezerra, apresentou as mais modernas técnicas de construção com baixa energia incorporada. O intuito do profissional foi demonstrar que é possível utilizar a sustentabilidade de forma elegante e funcional. Para tanto, fez uso de uma série de recursos ecologicamente corretos para a criação de um importante espaço de consciência ambiental. “Para que fosse

causado o menor impacto possível ao solo, adaptei o projeto do Loft à topografia existente. Em seguida, optei pela utilização de uma estrutura modulada que racionalizasse a construção e evitasse o desperdício de recursos”, explica Bezerra. Outro ponto de destaque do projeto foi a priorização da máxima eficiência térmica para menor absorção de calor. Ao invés de tijolos e cimento na construção da fachada do Loft, foram utilizadas Pedras de Pirenópolis – recurso natural abundante na região Centro-Oeste. Essa iniciativa minimizou o uso de ar-condicionado e permitiu um charmoso toque retrô ao ambiente. O piso de ipê, retirado do antigo deck do clube, ganhou destaque no chão do ambiente. Os móveis existentes no espaço foram escolhidos por serem de madeira reciclada e/ou certificada. A pintura foi realizada com tinta ecológica à base de água, sem emissão de material volátil tóxico. Os eletrodomésticos existentes no local não emitem gás CFC e possuem selo de eficiência.


NOVA


A ARTE


Arquitetura

Interiores

Container contemporâneo Outro projeto premiado foi o Container Contemporâneo, assinado pelas arquitetas Alice Ribeiro e Raquel Lima. Com elementos de inspiração cosmopolita, o ambiente mexeu com a imaginação das pessoas. Projetado a partir da reutilização de containers marítimos, o espaço apresentou uma série de materiais ecologicamente corretos oriundos de diversos processos de reciclagem. Conectados por uma escada de ferro, os dois pavimentos que deram vida ao espaço foram divididos em sete ambientes. Condutores de energia, propositalmente expostos, buscaram inspiração na obra de Burle Marx. Esse recurso, ao lado de uma iluminação diferenciada, compôs inspiração industrial ao ambiente. Luminárias em estilo retrô dividiram espaço com modernos spots de Led’s. No primeiro pavimento, as profissionais ambientaram um lounge que abrigou uma composição de fotos que contaram um pouco da história do surgimento dos containeres marítimos e de sua importância no transporte do café brasileiro para outros países. Segundo a arquiteta Alice Ribeiro, um dos recursos ecologicamente corretos de maior destaque neste ambiente foram os revestimentos das paredes e do teto com

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placas de OSB, “uma mistura de madeira reaproveitada que utilizamos para esconder as partes metálicas do container”. O segundo pavimento foi ocupado pelo Café Amor em Grãos, que estreou sua participação na mostra de Brasília.  As mesas, o balcão e uma das janelas do local receberam Ecoresina 3Form - uma placa versátil e ecológica feita com 40% de poliéster reciclado, acrílico e vidro. No mirante, uma bela vista do Jardim Boulevard encantou quem passou por lá. O container incorpora materiais ecologicamente corretos


Lançamentos

Uma bancada de mármore com iluminação interna foi um dos lançamentos que mais intrigaram os visitantes da Casa Cor. Afinal, a espessura da rocha não permite naturalmente o efeito luminotécnico que estava sendo mostrado no Lavabo. De autoria dos arquitetos Gislaine Ramos Garonce e Marcelo Martiniano, o recurso foi bastante inovador. A partir de uma lâmina de 5mm de mármore com 1 centímetro de polímero (Sli-

mstone Lumem), foi possível aos profissionais utilizarem iluminação embutida que conferiu transparência e leveza ao revestimento. “O nosso maior desafio foi superar a limitação do espaço com o uso de novos materiais que valorizassem e ampliassem o local, sem sobrecarregá-lo”, comentou Gislaine Garonce. O Lavabo contou ainda com jogos de espelhos e utilização de pastilhas de madrepérola nas portas de correr de suas duas cabines. O

O lavabo inovador teve a iluminação como ponto forte papel de parede, que imitava linho, conferiu tom sóbrio ao ambiente. Outro ponto forte foi a iluminação a partir de embutidos e arandelas modernas, que seguiram a tendência da valorização de pontos de luz. Esses efeitos, em contraste com os tons do ambiente, atribuíram um clima diferenciado e contemporâneo ao espaço.


Arquitetura

No SPA da Casa Cor Brasília, que levou a assinatura da arquiteta Maria do Carmo Araujorge, uma surpresa era reservada a quem passava pelo ambiente. Os produtos da Drops Of Joy, empresa nacional e ecologicamente correta, foram demonstrados durante a duração da mostra. Com uma linha completa de óleos essenciais, difusores de aroma, sabonetes, sais de banho, loções e perfumes, os aromas foram atores coadjuvantes do local. Para completar o clima de relaxamento e permitir agra80

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Interiores

Recamiers deram um toque elegante ao ambiente. Óleos e aromas, no detalhe

dáveis sensações, a arquiteta lançou mão de um ofurô oval, semi-circundado por deck de madeira e iluminado por chuva de estrelas de fibra ótica. Um efeito muito atual e de baixo custo de energia. Dois confortáveis recamiers revestidos com tecido levemente acobreado deram o tom do ambiente, repetido também no painel do home theater e nos acessórios do banheiro.


Gastronomia

Perfil

SHIRLEY SOARES A aristocrática elegância na alma da chef Texto Roberto Queiroz Fotos Giba

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Q

Cuidados especiais prenunciam o refinamento da comida a ser servida

uais os ingredientes básicos para se preparar o melhor prato? Energia boa à vontade, amor sem medida e a alma por inteiro. Simples, não? Se essa receita aplica-se, enfim, a tudo na vida, sua importância é decisiva também na culinária. E quem a formula sabe bem do que está falando. A gastronomia sempre esteve presente na vida da “chef” Shirley Soares. Desde pequena, aprendeu com o pai, português natural da cidade do Porto, “o ato sagrado de degustar, apreciar” o que comia. As primeiras incursões na cozinha começaram aos nove, dez anos. O desafio, aquelas receitas de várias páginas e pratos mais elaborados. Proibida de comer produtos de origem animal por problemas alérgicos, ainda na infância, sua dieta mudou. Proteína vegetal, muitas frutas e legumes. E ela atribui sua resistência, “nunca gripava”, por exemplo, à alimentação. Não à toa, terminou graduando-se na Inglaterra, em 2001, na escola vegetariana Cordon Vert. Na pré-adolescência, mudou-se de São Paulo, onde nasceu, para Brasília. Aqui obteve seu primeiro diploma, o de Publicitária, em 1984. Mas acabou no comércio de calçados femininos com o então marido. A dedicação à gastronomia, no entanto, permeava a sua trajetória. Sempre encontrava tempo para pesquisas e experimentos culinários. Que resultavam na organização de jantares temáticos, inicialmente na casa de amigos. Daí para abraçar de vez a nova profissão, um pulo. A substituição da manteiga pelo azeite extra virgem na sofisticada cozinha francesa tem explicação. “Queria pratos mais saudáveis e menos calóricos do que o convencional”. A essa e outras conclusões chegou depois de inúmeras viagens à Europa para conferir roteiros gastronômicos elaborados pelo Guia Michelin, a “bíblia” do setor. Aliás, “o profissional de verdade tem de viajar, falar outras línguas, conhecer culturas, para diferenciar o que é bom do que não é, o cozimento perfeito, o equilíbrio”. Sem arrogância, muito menos pretensão. É um mercado extremamente competitivo. Hoje, considera banalizado o conceito de “chef”. Se a experimentação é uma marca dessa geminiana com ascendente em Aquário, outra é o resgate dos temperos da avó. Bons tempos aqueles. Gastronomia, de qualquer forma, continua sendo “pura criação”. O exemplo da proteína de soja é simples, mas emblemático. O procedimento normal manda hidratar e depois temperar. “Vira uma esponja”. Aí a sensibili-


Gastronomia

Perfil

dade faz a diferença. Shoyo, gengibre, cebola ralada, alho, aceto balsâmico, azeite. E a marinada para realizar a hidratação se completa com um mix de temperos secos, orégano, manjericão, ervas frescas, cebolinha, salsa. Depois, basta “puxar” na frigideira antiaderente e dourar. Fica com aparência de carne moída. Molho de tomate, alho, manjericão e está pronta a receita. Seduzida pela culinária tailandesa e indiana, Shirley Soares revela embevecimento pela cultura védica, raiz do hinduísmo. “A comida é oferecida a Deus. Não se pede nada. Só agradecimento. Filosofia linda”. Apesar de batizada no catolicismo, não tem religião. Sua credulidade lhe permite afirmar, no entanto, que dela não precisa para

estar perto de Deus. “Sempre estive perto. Sou uma pessoa extremamente abençoada, feliz. A espiritualidade vem de dentro de cada um de nós”. No plano terreno, não por acaso, o nome herdado carregava o anseio paterno de ter uma filha artista. Versão brasileira da menina prodígio hollywoodiana Shirley Temple. Exposição a Chopin fazia parte da estratégia do pai. Também pudera. Artista ele próprio, tocava violão, cavaquinho e bandolim. Profissional, afirmava que a sua filha tinha “um ouvido muito bom”. Outro dom não menos artístico falou mais alto, porém. Só mudou o palco. Para deleite de todos que se encantam com o sabor. Shirley Soares, afinal, virou a menina prodígio da gastronomia.

As receitas são exclusivas e de dar água na boca. Confira duas delas preparadas especialmente para você

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“Sou uma pessoa extremamente abençoada, feliz. A espiritualidade vem de dentro de cada um de nós”.


Medallions de mandioca recheados de shiitaki e shimeji ao molho de tomate fresco com basilico Ingredientes • 1 xic (chá) de mandioca cozida com pouco sal e passada pelo espremedor de batatas • 2 cds de parmesão • 1 cds de manteiga • Fécula de batata suficiente para polvilhar

• • • • • •

1 cds de cebola picada 1 cdc de alho picado 1 cds de basilico picado 3 cds de azeite extra virgem ½ cdc de orégano ½ cdc de açúcar para corrigir a acidez, se necessário • Sal e pimenta moída na hora a gosto

Recheio

Preparo

• • • • • •

Combinanar a mandioca, a manteiga e o parmesão. Corrijir o sal. Dividir a massa em 3 porções iguais e reservar. Para o recheio, refogar o alho no azeite, juntar o tomilho, deixar murchar e acrescentar o shiitaki e o shimeji. Saltear rapidamente, acrescentar a pimenta e corrigir o sal. Abrir a massa, rechear com os cogumelos e fechar formando um

3 cds de shiitaki picado; 3 cds de shimeji picado; ¼ de cdc de alho picado 2 cds de azeite extra virgem 1 pitada de tomilho Sal e pimenta moída na hora a gosto

Molho •

300 gr de tomates bem maduros sem pele e sem sementes, picados

bolinho. Achatar e polvilhar com a fécula. Grelhar os medallions em frigideira antiaderente com 1 fio de azeite. Reservar em lugar aquecido. Fazer o molho refogando o alho e a cebola no azeite. Deixar murchar e acrescentar o orégano, em seguida os tomates. Deixar o molho encorpar, verificar o tempero, corrigir o sal e juntar o basilico, Dispor os medallions em um prato e distribuir o molho de forma harmoniosa. Decorar com folhas de basilico ou sálvia e laminas de parmesão. Rendimento • 1 porção cds - colher de sopa cdc - colher de chá


Gastronomia

Perfil

Bolo gelado com cobertura de marshmellow Ingredientes • • • • • •

8 ovos 6 cds de açúcar 4 cds de fécula de batata 2 cds de creme de arroz 1 cds de fermento químico Bater as claras em neve. Acrescentar as gemas e o açúcar aos poucos, batendo até ficar uma mistura fofa e clara. • Juntar a fécula de batata e o creme de arroz peneirados com o fermento, misturando delicadamente. • Assar em forno médio (160°C), até que, ao enfiar um palito no meio, ele saia seco. • Deixar esfriar e desenformar. Recheio • • • •

1 litro de leite 11/2 lata de leite condensado 4 cds de amido de milho 2 cds de creme de arroz

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• • • • • • •

3 gemas 1 cx de creme de leite 200 ml 2 cdc de baunilha ½ xic (chá) de leite de coco ½ xic (chá) de leite 1 cds de açúcar Bater no liquidificador os 6 primeiros ingredientes. Cozinhar mexendo até ponto de mingau firme. • Deixar esfriar e bater na batedeira acrescentando o creme de leite e a baunilha. • Dividir o bolo em 3 camadas. Umedecer com os leites adoçados com o açúcar e rechear. Cobertura • 3 claras • 2 xic (chá) de açúcar • 1 xic (chá) de água fervente

• 1 cdc de manteiga sem sal • 5 cds de leite Preparo • Colocar o açúcar para caramelizar até derreter por completo. Juntar a água fervente e deixar cozinhar sem mexer, até o ponto de bola dura. • Bater as claras em neve e acrescentar o caramelo batendo até esfriar. • Misturar os ingredientes da decoração, deixar ferver por 1 minuto e esfriar. • Cobrir o bolo com o marshmellow e fazer desenhos com a mistura de chocolate e o auxílio de um palito de madeira. Rendimento • 20 porções

Decoração • 3 cds de chocolate em pó

cds - colher de sopa cdc - colher de chá


Palavra

José Carlos Vieira

FALA, ZÉ

U

ma das maiores qualidades de José Carlos Vieira é a curiosidade. Poderíamos defini-lo como um caçador do inusitado, capaz de ser atraído por músicas da minoria Miao, cantadas por uma soprano chinesa. Ao se definir, afirma ser forjado pelo rock pesado de Deep Purple. Quem o conhece de verdade sabe que, por trás dessa máscara pop, existe um espírito lírico e épico, ledor de Souzândrade, escritor maranhense do século 19 (de obra atualíssima), e seguidor de Bashô, o mestre dos hai kais. Em suma, um corpo maximalista abriga uma alma minimalista, num daqueles conflitos ligeiramente esquizofrênicos que formam os bons autores. Muitos Zés e um só José. Dono de uma coluna humorística, “Fala, Zé”, a mais lida de o Correio Braziliense, José Carlos Vieira é cronista requintado, com toques rodrigueanos, e poeta detalhista e preciso, daqueles sem medo de usar o lápis como bisturi, cortando as gorduras sem dó nem piedade, em busca da perfeição. Além disso, é ótima companhia de bar, com grandes histórias e um senso de humor refinado, privilégio de um pequeno grupo de amigos de infância de Taguatinga. Acho que já falei demais. Melhor deixá-los com a prosa e a poesia do Zé. Pedro Paulo Rezende

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José Cavalcante

O máximo de conteúdo no mínimo de verbo


A DOR DE UMA SEPARAÇÃO Viver livre. Aos 43 anos, Zé Roberto, em comum acordo com Madalena, resolveu sair de casa para ter um lugar só seu. Alugou uma quitinete no Sudoeste, pegou os livros de Bukowsky, García Márquez, seus rabiscos poéticos, os CDs do Bob Marley e do Eric Clapton… Colocou tudo em três caixas de papelão, junto com as malas de roupas, e se mandou. Não esqueceu de levar o lap-top e seu peixe beta, o Fidel. Madalena nada falou, ficou imóvel, não moveu os olhos para a porta. Continuava estática diante do noticiário da televisão. Talvez uma lágrima, um aperto no coração. Talvez um grito, "não vá!". Mas nada saiu de sua boca, e de seus olhos verdes, que refletiam o azul da TV. Zé Roberto tem um emprego até razoável. É gerente numa loja de informática. Ao sair, não olhou para trás, mas prometeu, com a voz embargada, pagar as contas de Madalena, por enquanto… No primeiro dia, na casa nova, deixou tudo espalhado. Pediu uma pizza, fumou um cigarro e foi ouvir I Shot the Sheriff, do bom e "velho" Marley. Não ligou para Madalena. Sentia-se livre, leve, solto no mundo. Há muito planejara mudar de vida, sem estresse, sem chantagens emocionais. Conseguiu. Agora as portas estavam abertas para tocar os projetos que sempre sonhou: terminar o livro de histórias em quadrinhos, iniciado há quatro anos, e ir à Patagônia – um sonho antigo, sempre adiado. Porque Madalena detesta frio. Na primeira semana longe das asas de Madá, tudo correu bem. Até se

matriculou numa academia, para tentar tirar aquela barriguinha de chope, e de preguiça, que começava a despontar. Escrevia todas as noites. Sempre o mesmo ritual: acendia o incenso – que Madalena destestava – e pedia pizza de quatro queijos, sua preferida. Demorou ligar para Madá. Queria evitar qualquer sinal de recaída, de saudade. Diante do espelho, se desafiava: "Você é um homem, ou um saco de batatas?" Na segunda semana, teve uma triste surpresa ao chegar em casa. Fidel, o peixe beta, havia morrido. Também pudera! Não trocara a água do aquário, que agora parecia uma gelatina gosmenta. E nem dera comida para o pobre bichinho – isso era tarefa de Madá, quando estavam juntos. Foi à geladeira, pegou uma cerveja, deitou-se no sofá, e ficou contemplando aquele defuntinho boiando na turva gelatina. Fez um minuto de silêncio, em homenagem ao bicho de estimação. Mas seguiu em frente. Afinal, agora é um homem livre, pronto para tocar seus projetos... Na terceira semana, não conseguia entrar em casa, por causa das dezenas de caixas de pizza espalhadas no chão da sala. O cheiro do incenso se misturava com o odor dos pedaços de calabreza, mozarela em decomposição das caixas de pizza. Cascos de refrigerantes e vinho tinto decoravam o sofá, como almofadas. Perdeu o lap-top no meio da bagunça. O fantasma de Madalena soprou ao seu ouvido: "Volta pra casa, volta pra casa…" Não pensou duas vezes. Pegou o telefone e gritou: "MANHÊÊ!… Me ajuda!!!!" Madalena chamou um táxi, e foi buscar o filho…


Palavra

José Carlos Vieira

Doente, quase imaginário Para o poeta Armando Freitas Filho Fala de CDA como se não fosse ele o dono do remédio que mata, que ama faz voar

há risco de chuva no azul dos olhos da bailarina o amor está quase perdido nuvens sem rumo, sem vento onda sem areia a molhar como seringa que injeta eternidade numa só palavra numa só dúvida: fim? Kerouac

Ex-love

Não presto para um poema. Escrevo tonto no muro disléxico o fim do meu mundo. E, bêbado, olho nuvens esparsas gotejarem pingos púrpuras. Cuspo no chão mais um imprestável poema. Sou um artista em cartaz de um cinema vazio...

Era uma vez um amor que era uma vez

Pia de periferia Para Paulo Kauim aqui a gente morre

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Suicídios diários E o real dilui-se em saudade gota a gota como se existisse outro teorema que explicasse a sua falta. E a música destrói-se nota por nota acorde por acorde. E um vácuo triste invade meu quarto. Tudo começa a flutuar. Menos minha saudade que se agarra ao coração com unhas e dentes latejando pulso a pulso tum-tum-tum. Na parede azul turqueza um relógio decifra o tempo que se esvai com hora marcada. Pequenos suicídios diários...

Fala da vida como se não fosse dele as mãos enrugadas que tocam o piano do "pra sempre" e elas registram palavra por palavra a poesia, o pneu furado a poeira fina sobre a tevê o sinal amarelo, a fruta quase madura na travessa

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de morte matada de poesia de vício ou pedrada

Sai dessa Te procuro quando me perco te procuro quando me acho te procuro quando não estou nem aí A alma e o e-mail Amor por e-mail é meio amor


Voa pássaros sobre pássaros nuvens não há

pousará tonta de vinho entre tuas pernas. Delilarás gritarás puxarás meus cabelos arranharás minhas costas e morderei tua nuca como nunca até meus anjos dizerem: sim, ela é tua eternamente tua

Francesa

José Vieira

Depois daquele beijo não sabia se minha língua era sua língua

Me levou pra sempre me deixou lá

Fumaça vermelha

Se pisco os olhos, você vai embora. Se quero ir, você demora. Se canto rouco, você ignora. Se digo talvez, você agora. Se abro a janela, você fecha a porta. Se bebo, você dorme. Se rezo, você peca. Se peço muito, você pouco. Se adormeço, você não sonha. Eu só quero tocar a música imprecisa da vida

Ex-amor Nossa flor tem duas pétalas mal-me-quer mal-me-quer Azul

Penso logo rimo tento logo minto pulo logo vo o viajo logo chego falo logo gago tento logo fujo erro logo acerto pulo logo caio Minguante Te buscarei debaixo do cobertor. Passearei por tua pele até o umbigo e minha língua

Jurubeba blues

Certidão Palavra e montanha também se gastam como velas acesas se consomem aos poucos se transformam em pó com o tempo depois aparecem em outra forma diferente: poeta, lixo, lodo, diamante a vida de quem vive para a palavra é tonta, embrulhada, cheia de madrugadas não tem certeza de nada


Palavra

José Carlos Vieira

tragédia, conto de fadas porque palavra é sinônimo de alma alma é sinônimo de asas asas de bêbados que tocam em nuvens sem sair do lugar asas do menino apaixonado pela professora de literatura que escreve no banheiro da escola o Soneto da Fidelidade "que não seja imortal, posto que é chama" e os amigos não entendem os motivos daquele coração. Palavra anda no bolso em guardanapos amassados em livros com letras de ouro em lábios finos. Não tem morada certa dorme em qualquer lugar acorda sempre para dois goles de vinho para uns palavra é ilusionismo, mordida na nuca, para outros é concreto, ônibus lotado, unha encravada mas de nada vale se ela não estiver perfumada de vida. Bailarina Não precisa dançar já dancei 1 o meu lugar é qualquer lugar perto de você 2 quero a eternidade de um segundo ao seu lado 3 sei que sou um poeta de segunda não importa hoje é domingo 4 cactos nascem no meu coração deserto coração 5 não tenho medo da gramática já namorei mulheres mais feias

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6 depois do suado amor o coração dela batia acelerado: josé, josé, josé 7 eu tenho eu você tem você o resto é poesia 8 a métrica só se dá bem porque é proparoxítona 9 querer querer não quero se é para querer eu quero 10 pode apagar a luz princesa eu leio com a língua 11 não jogo poemas fora nem os mais bêbados 12 eu presto eu sirvo eu calho eu colho eu apito eu aperto eu durmo eu acordo eu corro eu paro eu choro 13 meu amor rogai por mim um poeta fraco com rimas assim 14 o fim deixei pra depois pra depois


Crônica

Reynaldo Jardim

Delação premiada, a sordidez ética

É

muito simples. Você comete os crimes mais hediondos, suborna uma gangue de bandidos, torna-se amigo íntimo de gente honesta e, do dia para a noite, chega com a mala cheia de dinheiro. Pega boa parte e distribui o restante para comprometer toda equipe que está sendo sorrateiramente filmada. Som e imagem testemunham o fato. A dinheirama é um presente de empreiteiros interessados em faturar obras

governamentais. Mero agradecimento antecipado a garantir contratos superfaturados. A entrega pode ser um gesto de sórdida vingança. O dinheiro pode sair do próprio bolso. O importante é que a cena seja filmada e entregue pelo traidor às autoridades subordinadoras. O dinheiro também serve para remunerar quem trabalhou profissionalmente na campanha eleitoral. No sistema econômico em que tentamos viver, a coisa mais importante na vida é o dinheiro que norteia todas as ações. É a mola do amor e da felicidade. E, para conquistá-lo, vale tudo. Afinal, pensam eles, honestos e ladrões, gente boa e os de má fé, vamos todos acabar nosso tempo útil dentro de um caixão de madeira. Então, aproveitamos a vida, as mordomias, mansões e cofres abarrotados. A ética que se dane. Os éticos que mantenham a pobreza intacta. 2012 está aí mesmo e todos estamos ferrados. Só há uma premiação para os traidores. Por que perder a oportunidade? Essa gente nem imagina como o fogo do inferno adora fazer churrasquinho dos traidores.

Reynaldo Jardim é jornalista, poeta, multiartista

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Exposição

Clarice Lispector A Hora da Estrela

De 2 de dezembro de 2009 a 14 de março de 2010 De terça a domingo das 9h às 21h Entrada Franca

L

LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS

Cultura do Brasil Ônibus gratuito. Verifique horários e locais de saída no bb.com.br/cultura SCES, Trecho 2, Conjunto 22. Informações: (61) 3310-7087 – twitter.com/ccbb_df

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