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Ano IV - nº 8 - Brasília/DF - R$ 10,00

Ferreira Gullar

A morte é boa

Família Okubo Brasília dos pioneiros Barbarito Torres Cubanos na Paraíba


Espaço

aberto

Ano IV - nº 7 - Brasília - R$ 10,00

redacaoformato@gmail.com www.revistaformato.com.br

Fascinante A revista Formato impressiona desde o primeiro momento. A começar pela capa que recebe toda uma preocupação com a beleza e a arte, e que acaba dizendo sobre o seu conteúdo, mesmo antes de termos acesso a ele. Fascinante! As primeiras folheadas nos dão prazer diante da qualidade das fotografias, dos textos, da textura do papel. Um trabalho importante, que se preocupa em aproximar a sociedade brasiliense, a arte e cultura da cidade, tão desconhecida por nós que moramos em Brasília. Trabalho que para mim é pioneiro, pois novidade. As matérias são escritas de maneira bem envolvente, por exemplo, a do Jardim Botânico, que me fez sentir vontade de nele estar na mesma hora em que lia o texto. Me sinto feliz em conhecer artistas tão talentosos e que realizam trabalhos tão belos com Nemm Soares e Mila Petrillo. Tão próximos, afinal, da minha cidade, e até então desconhecidos para mim. Enfim, parabenizo toda a equipe da revista e agradeço a oportunidade oferecida a mim, de ter acesso a um trabalho tão bonito. Rúbia Sado, Brasília

Aprovação Que linda revista. Parabéns! Espero ser convidada um dia para escrever uma matéria.

Magali Cabral, São Paulo

No ensaio fotográfico de Mila Petrillo, publicado em nossa edição anterior, ficou faltando o poema em sua homenagem, que agora reproduzimos: Mila Carinho ao transportá-la como se quebradiça: florindo seu cristal em águas de melissa. (Mas que cristal é esse, diamantino e aço, que não trinca, não fende, nem se faz estilhaço?) Antes em resistência se arma desarmada, e nas flores do corpo se faz multiplicada em uma luz de lua (que o sopro não apaga) intangível flutua: sem afagos, afaga. E na penumbra nua – em que seu brilho brilha – a mãe se transfigura em filha de sua filha. Se tanta da ternura cadencia e esplende, nenhuma sombra embaça, nenhum abraço prende. Reynaldo Jardim, Brasilia

Nemm sempre... Impressionantes não só o trabalho como a trajetória do artista plástico Nemm Soares. É uma prova definitiva de que o talento, aliado à dedicação, realmente, produzem obras extraordinárias. Parabéns à Formato pela iniciativa que nos permite conhecer de perto quem produz arte em nossa cidade. Luciano Padrão, Brasília

Gib a

Arte que te quero arte

Salve, Jorge! Independentemente de suas convicções ideológicas, que não são as minhas, é preciso reconhecer o trabalho e o empreendedorismo do empresário mineiro Jorge Ferreira. A sua marca é evidente na capital do país. Aeldo Luna, Brasília

Divulgação

Nemm Soares

Samvara Bodewig

Mila Petrillo Foto transformação Jorge Ferreira Toque de Midas Fala, Zé Bendita alma da poesia

A Formato quer falar com você


Abel Faria

Ferreira Gullar Depois de uma longa conversa em que a equipe da Formato teve a oportunidade de participar da intimidade do poeta, em seu apartamento em Copacabana, o pedido para registrar esse momento exclusivo foi prontamente atendido. Cícero Venâncio, Ferreira Gullar, José Humberto Fagundes, Ricardo Monte Rosa e Rui Faquini (esq.p/dir.) A mais bonita A Formato é a revista mais bonita de Brasília. A textura usada na capa, então, surpreende pelo bom gosto. Heitor Andrade, Brasília

A magia da música em Paraty... Uma caminhada pela Mata Atlântica espanta pela sutileza e exuberância das pedras que viram árvores, onde se hospedam bromélias e baunilhas. Águas fluem por todos os lados e a montanha esbarra nas nuvens. Essa definição bem particular do músico e compositor Dalla, mineiro de Patos de Minas, reflete o espírito de quem adotou Paraty como sua nova morada. Aliás, os encantos do mais harmonioso e perfeito conjunto

arquitetônico colonial do país lhe renderam o título de Município Patrimônio Nacional. Agora, chegou a vez do tombamento pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. O músico Dalla, que tem em sua carreira algumas apresentações em Brasília, prepara-se para voltar à capital, com um trabalho certamente, desta vez, inspirado em Paraty. Veja Dalla em myspace.com/viajarnoazul

Prêmio Esta revista merece o Prêmio Salim de Qualidade Gráfica. Edson Crisóstomo, Brasília

Palavra

José Carlos Vieira

FALA, ZÉ

A DOR DE UMA SEPARAÇÃO

U

ma das maiores qualidades de José Carlos Vieira é a curiosidade. Poderíamos defini-lo como um caçador do inusitado, capaz de ser atraído por músicas da minoria Miao, cantadas por uma soprano chinesa. Ao se definir, afirma ser forjado pelo rock pesado de Deep Purple. Quem o conhece de verdade sabe que, por trás dessa máscara pop, existe um espírito lírico e épico, ledor de Souzândrade, escritor maranhense do século 19 (de obra atualíssima), e seguidor de Bashô, o mestre dos hai kais. Em suma, um corpo maximalista abriga uma alma minimalista, num daqueles conflitos ligeiramente esquizofrênicos que formam os bons autores. Muitos Zés e um só José. Dono de uma coluna humorística, “Fala, Zé”, a mais lida de o Correio Braziliense, José Carlos Vieira é cronista requintado, com toques rodrigueanos, e poeta detalhista e preciso, daqueles sem medo de usar o lápis como bisturi, cortando as gorduras sem dó nem piedade, em busca da perfeição. Além disso, é ótima companhia de bar, com grandes histórias e um senso de humor refinado, privilégio de um pequeno grupo de amigos de infância de Taguatinga. Acho que já falei demais. Melhor deixá-los com a prosa e a poesia do Zé. Pedro Paulo Rezende

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José Cavalcante

O máximo de conteúdo no mínimo de verbo

Viver livre. Aos 43 anos, Zé Roberto, em comum acordo com Madalena, resolveu sair de casa para ter um lugar só seu. Alugou uma quitinete no Sudoeste, pegou os livros de Bukowsky, García Márquez, seus rabiscos poéticos, os CDs do Bob Marley e do Eric Clapton… Colocou tudo em três caixas de papelão, junto com as malas de roupas, e se mandou. Não esqueceu de levar o lap-top e seu peixe beta, o Fidel. Madalena nada falou, ficou imóvel, não moveu os olhos para a porta. Continuava estática diante do noticiário da televisão. Talvez uma lágrima, um aperto no coração. Talvez um grito, "não vá!". Mas nada saiu de sua boca, e de seus olhos verdes, que refletiam o azul da TV. Zé Roberto tem um emprego até razoável. É gerente numa loja de informática. Ao sair, não olhou para trás, mas prometeu, com a voz embargada, pagar as contas de Madalena, por enquanto… No primeiro dia, na casa nova, deixou tudo espalhado. Pediu uma pizza, fumou um cigarro e foi ouvir I Shot the Sheriff, do bom e "velho" Marley. Não ligou para Madalena. Sentia-se livre, leve, solto no mundo. Há muito planejara mudar de vida, sem estresse, sem chantagens emocionais. Conseguiu. Agora as portas estavam abertas para tocar os projetos que sempre sonhou: terminar o livro de histórias em quadrinhos, iniciado há quatro anos, e ir à Patagônia – um sonho antigo, sempre adiado. Porque Madalena detesta frio. Na primeira semana longe das asas de Madá, tudo correu bem. Até se

matriculou numa academia, para tentar tirar aquela barriguinha de chope, e de preguiça, que começava a despontar. Escrevia todas as noites. Sempre o mesmo ritual: acendia o incenso – que Madalena destestava – e pedia pizza de quatro queijos, sua preferida. Demorou ligar para Madá. Queria evitar qualquer sinal de recaída, de saudade. Diante do espelho, se desafiava: "Você é um homem, ou um saco de batatas?" Na segunda semana, teve uma triste surpresa ao chegar em casa. Fidel, o peixe beta, havia morrido. Também pudera! Não trocara a água do aquário, que agora parecia uma gelatina gosmenta. E nem dera comida para o pobre bichinho – isso era tarefa de Madá, quando estavam juntos. Foi à geladeira, pegou uma cerveja, deitou-se no sofá, e ficou contemplando aquele defuntinho boiando na turva gelatina. Fez um minuto de silêncio, em homenagem ao bicho de estimação. Mas seguiu em frente. Afinal, agora é um homem livre, pronto para tocar seus projetos... Na terceira semana, não conseguia entrar em casa, por causa das dezenas de caixas de pizza espalhadas no chão da sala. O cheiro do incenso se misturava com o odor dos pedaços de calabreza, mozarela em decomposição das caixas de pizza. Cascos de refrigerantes e vinho tinto decoravam o sofá, como almofadas. Perdeu o lap-top no meio da bagunça. O fantasma de Madalena soprou ao seu ouvido: "Volta pra casa, volta pra casa…" Não pensou duas vezes. Pegou o telefone e gritou: "MANHÊÊ!… Me ajuda!!!!" Madalena chamou um táxi, e foi buscar o filho…

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Boa surpresa Ficou evidente que o lado cronista e poético do Zé Carlos, publicado na Formato, é muito mais aguçado do que aparece em sua coluna no Correio Braziliense. Lívia de Castro, Brasília

... e no Rio de Janeiro Quem diria que a sobrinha de Joãosinho Trinta viria, enfim, a descobrir a sua verdadeira vocação. Depois de três anos morando na Itália, com apresentações na Inglaterra e Espanha, a bailarina e modelo desponta como cantora e compositora.

Suas canções têm o aval de grandes músicos, como o guitarrista e violonista argentino Victor Biglione e o compositor e arranjador Wagner Tiso. Élida Trinta está de malas prontas para se apresentar em Brasília. Confira o trabalho em myspace.com/elidatrinta


Editorial

Da poesia à fotografia, peripécias brasileiras

U

m presente para nós e, sem dúvida, para vocês leitores da Formato. Foi um privilégio, com certeza, a oportunidade de entrevistar Ferreira Gullar, na

intimidade de seu apartamento no Rio de Janeiro. Poeta brasileiro maior, e observador mais do que atento da natureza e comportamento humanos, Gullar fascina não só pela dimensão de sua obra poética, uma das mais significativas do século passado e deste também, mas pelo despojamento e convicção em abordar temas transcendentais como Deus e morte. Assuntos mundanos, como carnaval, futebol, medo de voar também fizeram parte de nossa longa conversa, que nos reservou algumas surpresas. Uma delas é a de que foi ele o idealizador das comemorações do primeiro aniversário de Brasília, em 1961, e responsável pelo surgimento do carnaval na cidade. Outra é a de que aqui Gullar descobriu o marxismo. Nesta edição, contamos um pouco da história da capital, em fotografias inéditas de Arlindo Okubo, que se completa com o ensaio de seu filho Kazuo Okubo, renomado fotógrafo brasiliense. Trazemos ainda mais uma matéria exclusiva, desta vez, com o músico cubano Barbarito Torres, integrante do mundialmente consagrado grupo Buena Vista Social Club. A genialidade de Péricles e seu Amigo da Onça, um passeio pela Bolívia de “Che” Guevara, moda, saúde, gastronomia, a poesia de Nicholas Behr e Brasília cinquentona, por Rui Faquini, complementam esta edição. Aproveitem.

Cícero Venâncio

José Humberto Fagundes

Diretor Presidente Cícero Venâncio cicerovenancio@gmail.com Editor José Humberto Fagundes Reg. Prof. 484/DF zehumb@gmail.com Editora de Moda Ana Tatiana Capeletti ana.tati.ana@hotmail.com Projeto gráfico Alissom Lázaro, Cícero Venâncio, Reynaldo Jardim Fotografia Gilberto Soares, Rui Faquini Revisão Edvaldo Almeida da Silva edvaldoalmsil@gmail.com Departamento Comercial Cícero Venâncio (61) 9333-3334 Geraldo Magela (61) 9991-1300 Colaboradores Cláudia Mohn, Clausem Bonifácio, Cabeh, Cristiano Torres, Eduardo Bonfim, Haruo Hitami, Henrique Máximo, Mauro Barbosa, Pedro Paulo Rezende, Reynaldo Jardim, Roberto Queiroz, Sérgio Alberto, William de Paula Conselho Editorial Abel Eustáquio de Faria, Cícero Venâncio, Edvaldo Almeida da Silva, João Mendonça de Amorim, Jorge Ferreira, José Humberto Fagundes, Reynaldo Jardim Departamento Jurídico Mendonça & Amorim Associados Starprint Gráfica e Editora Ltda. CNPJ 26 996 926/0001-72 CF/DF 07 333 372/001-15 SIG SUL Quadra 8, Lote 2.325 (61) 3344.0555-9333.3334


Sumário

Ferreira Gullar

6

O inventor do primeiro aniversário de Brasília

Moda

44

No inverno do cerrado, o calor da elegância

Arquitetura

52

Interiores com cara de bebê

Saúde

Família Okubo Olhar pioneiro, olhar atual

58

Alimentação funcional. O que é mesmo isso?

18

64

Gastronomia

Peso-pesado. Sabores e cores do “chef” Rodrigo

Amigo da Onça

28

Um personagem contra a hipocrisia social

Cristina

32

Música

O sul de Minas que precisa ser visto

Che Guevara

70

Barbarito Torres. O cubano que o Buena Vista consagrou

38

Palavra

76

Nicholas Behr, o mimeógrafo de Brasília

“La ruta del Che”. Na Bolívia, o mito ainda governa a sobrevivência

Artigo

80

Rui Faquini, olhos da cidade cinquentona


Capa

Ferreira Gullar

O Big Bang

Gullar “Tinha de haver alguma coisa antes, não se explode o que não existe. Deus é uma invenção, uma questão de necessidade do próprio homem.” Texto José Humberto Fagundes Fotos Rui Faquini

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Capa

Ferreira Gullar

A

morte é boa. Depende do ponto de vista. Você está condenado a morrer. Se ficar grilado, acaba morrendo agora... Sou sorridente mesmo, sempre gozando de mim e da vida. Melhor do que ser mal-humorado, que não leva a nada. A definição revela um pouco a maneira original e peculiar de Ferreira Gullar entender e explicar a vida. Poeta brasileiro maior, seus 80 anos em 2010 aguardam setembro dia 10. Com a convicção de que a poesia, a arte não revelam a realidade. “O poeta escreve para inventar alguma coisa. Quem vive em mundo não inventado é macaco, jacaré”. Gullar recebeu a equipe da Formato no Rio de Janeiro, em seu apartamento no segundo andar de um prédio na pacata rua Duvivier, em Copacabana. Na sala, muitos livros, escultura de Antônio Potero, quadros de Volpi, Siron Franco, Iberê Camargo, Rubem Valentim, Oscar Niemeyer refletem a sensação de que ali

se respira mesmo arte. Em sua cadeira de balanço, ao lado da janela sombreada por uma árvore, Gullar fala de muita coisa um pouco, em mais de duas horas e meia de conversa. Capitalismo, socialismo, Deus, natureza, carnaval, futebol, pintura, literatura, poesia... – Deus não existe. É uma invenção do homem. Mas a religião é fundamental pela necessidade das pessoas de algo que explique as coisas. Deus é uma necessidade. É a resposta

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para questões sem resposta, o contrário do acaso. Quem acredita, sente-se protegido pela providência divina. Portanto, não vai morrer de bala perdida. Ou de atropelamento ali na esquina, quando sai de casa. De qualquer forma, é melhor ser filho de Deus do que filho da puta. Enquanto passa a mão pelos cabelos, a referência à frase de Nelson Rodrigues – “se tirasse Deus do homem, ele cairia de quatro” – provoca reação contundente.

“Nelson Rodrigues é um babaca. Tem coisas dele que têm certo sentido, mas é muito simplificador.”


– Nelson Rodrigues é um babaca. Tem coisas dele que têm certo sentido, mas é muito simplificador. Fazer poema é uma aventura, jogo de acaso e necessidade, afirma o poeta. Não foi o acaso, no entanto, que trouxe Ferreira Gullar a Brasília. Com a eleição e posse de Jânio Quadros na Presidência da República, em 1961, assumiu a Secretaria de Imprensa o jornalista Carlos Castelo Branco, amigo e companheiro

A festa do primeiro aniversário de inauguração de Brasília, que completa agora 50 anos, foi concebida e organizada, então, pelo poeta maranhense. As festividades incluíam uma exposição com o acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo e apresentações do Teatro de Arena, grupo fundamental para a dramaturgia brasileira nas décadas de 1950 e 1960. A atração principal, porém, seria o desfile da Escola de

“Fui responsável pelo início do carnaval de Brasília e de suas escolas de samba.”

de Gullar no Diário Carioca. Na chefia de Gabinete de Jânio, estava José Aparecido de Oliveira, que também seria governador do Distrito Federal na década de 1980 e responsável pelo tombamento de Brasília como Patrimônio Histórico da Humanidade. Paulo Tarso Santos foi indicado prefeito da capital e, por sugestão de Castelo Branco e Zé Aparecido, convocou Gullar para dirigir a Fundação Cultural do DF.

Samba da Mangueira, na rodoviária do Plano Piloto. – Quando souberam da novidade, funcionários do Congresso chegavam ao meu gabinete e diziam: quero desfilar. Isso criou grande empolgação. Foi um passo decisivo. Fui responsável pelo início do carnaval de Brasília e de suas escolas de samba. Gullar percebia que os candangos que construíam Brasília – goianos, nordestinos, mineiros – não tinham “nada

a ver”, no entanto, com aquela arquitetura supermoderna. Era a contradição entre o arcaico e o supermoderno. “A cidade ia excluir aquelas pessoas”. Como de fato aconteceu. Depois da renúncia de Jânio, em agosto de 1961, ele ainda permaneceu na cidade até por volta de outubro, quando retornou ao Rio de Janeiro. Mas, ainda em Brasília, um livro de Marx emprestado permitiu o primeiro contato com o marxismo. “Não concordava


Capa

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Ferreira Gullar


“O socialismo não é solução para a sociedade. O socialismo acabou. Foi extinto pelo próprio processo, derrotado pelo capitalismo inventivo, empreendedor.”

com outros filósofos que havia lido, mas passei a concordar com Marx”. Sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro não ocorreu, porém, naquela época. Concretizou-se “no dia do golpe”, quando era presidente do famoso Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, que teve a sede incendiada pelos militares em 1º. de abril de 1964. – Não podia lutar sozinho contra aquele regime. Mas não tenho muita cabeça para Partido. Tenho mania de pensar por mim e isso sempre gera conflitos. Gullar questionava o próprio projeto de sociedade que o marxismo propunha. – A ditadura do proletariado é equivocada. O socialismo nasceu da indignação das pessoas, de pensadores, com a exploração capitalista do século 19. A selvageria chegava ao absurdo de retirar crianças de creches e obrigálas a trabalhar. A organização

da classe operária e suas conquistas, como a jornada de trabalho, no entanto, mudaram o mundo. O c apitalismo nasc eu de um processo histórico, considera o poeta. – Não foi inventado por um teórico. Corresponde à necessidade das pessoas. Mas não é só o trabalho que cria riqueza. O empreendedor é fundamental. Bill Gates é um exemplo que não aconteceria no socialismo. Seria tolhido por meia dúzia de burocratas. Gestos largos e generosos acompanham Gullar no raciocínio que flui com facilidade. – O socialismo não é solução para a sociedade. O socialismo acabou. Não foi destruído por uma guerra. Ninguém invadiu a União Soviética. Foi extinto pelo próprio processo, derrotado pelo capitalismo inventivo, empreendedor. Descontraído, ele se diverte com o exemplo do “cara”


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Ferreira Gullar

que comprava o biscoito na padaria. – O sujeito chegava em casa, fazia uma calda de chocolate e cobria o biscoito. A família adorava. Hoje, tem mais de 300 lojas espalhadas pelo país. Gullar constata, porém, que a voracidade, a falta de princípios e de ética do capitalismo requerem o controle e a vigilância do Estado. “Só se pensa no lucro. Se preciso, chupa até a carótida da mãe”. – Trabalhei em uma grande rede de televisão. Lá havia um gerente que imaginava que, para crescer na empresa, tinha que fazer os piores con12

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tratos possíveis, para o contratado, é claro. Veja só o que aconteceu com um roteirista que deveria trabalhar por seis meses. Logo no primeiro mês, a emissora desistiu do projeto. Mas havia uma cláusula no contrato que previa indenização. Aí o gerente dizia: “Ah, então você quer indenização. Posso pagar, mas você nunca mais trabalha aqui”. Isso é típico do capitalismo. – A vida é mais rica do que qualquer planejamento. Só tenho compromisso com a verdade, com a necessidade das coisas, define. A dimensão do universo, no entanto,

“A vida é mais rica do que qualquer planejamento. Só tenho compromisso com a verdade, com a necessidade das coisas.” é uma questão que gera perplexidade em Gullar. O sol, diz ele, é uma estrela de quinta grandeza. Mas, “no universo há bilhões de vias lácteas, bilhões de sóis. Quem vai entender isso?” A perplexidade persiste em relação ao Big Bang. “Para explodir tinha que haver alguma coisa antes. Não se explode o que não existe.


Desisto de querer entender isso. Não é para se entender”. A comparação com situações terrenas acaba inevitável. “Quantos bilhões de anos vive uma estrela? Nem quero saber. Interessa saber quantos anos vive minha mulher, meu filho, meu gatinho. Agora, para o universo, estou cagando”. Na verdade, o outro é o que dá sentido à vida, assegura. “Vai preservar a sua memória por algum tempo, até por necessidade dele também”. Ser generoso, solidário é o que interessa. “Não adianta acreditar em Deus e foder todo mundo”. A abordagem de temas mais amenos, mas não menos polêmicos, como o futebol, muda o rumo da prosa. O pai tinha sido “center four” da seleção maranhense. O garoto Gullar trazia nas veias o esporte. Em São Luís, aos dez anos de idade, torcia pelo

Vasco da Gama, mas jogava no juvenil do Sampaio Correa, ao lado de ninguém menos do que Canhoteiro. Na década de 1950, o companheiro de então construiria uma das mais consagradas carreiras do país como ponta esquerda do São Paulo Futebol Clube. Há muito tempo, no entanto, Gullar não vai a estádio. “Não sou louco, hoje estou sujeito a ser massacrado”, lamenta. “Na TV é melhor. Vejo detalhes que no campo não se vê”. Outra paixão nacional tampouco faz mais parte do cotidiano de Gullar. Frequentador assíduo do carnaval carioca ao longo dos anos, admite que desistiu. – Depois do sambódromo, só piorou. Não é mais escola de samba. É escola de marcha, com tempo determinado, às pressas. Antes, os sambas eram excelentes. Agora, são

“Depois do sambódromo, só piorou. Antes, os sambas eram excelentes. Agora, são muito ruins, não prestam. São os traficantes que determinam quem ganha.”

Canhoteiro, parceiro de futebol


Capa

Ferreira Gullar

“Volpi era um mestre da pintura, muito elaborado. As cores que usava, raramente, se encontram em outro pintor.” (Ao lado, um quadro de Gullar) muito ruins, não prestam. São os traficantes que determinam quem ganha. E eu não concilio com bandido. Tô fora. Eu nem vejo mais na TV. Mas não sou repressor. Vai quem quer. Mundanos futebol, carnaval. Mas, e a pintura? “Cuidado com o quadro. Melhor tirar daí” (do chão), observa, atento à movimentação de Rui Faquini em busca do melhor ângulo para as fotos. Dizer que sua obra tem algo de Volpi, desperta nele aquela espécie de ira santa. – A maioria das pessoas não conhece de fato o assunto. Veem pela aparência. Até minha irmã, que não entende nada disso, acha que parece o Volpi. Mas, não há semelhança. Ele fazia fachada, eu 14

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faço natureza morta. Volpi era um mestre da pintura, muito elaborado. As cores que usava, raramente, se encontram em outro pintor. Ele próprio fazia a tela e a tinta têmpera. No caso de Gullar, os quadros fazem parte do pretexto que o poeta busca para pintar. “Me distraio. Não estou preocupado com o que o quadro representa”. Já a poesia nasce do acaso, do espanto. Essa conhecida definição tem uma explicação simples por parte do próprio autor, que se ajeita na cadeira de balanço e dispara: – O poema não nasce quando você quer. Não é determinado pela vontade. Alguma coisa acontece que

cria as condições. Nasce em função de algum fator que deflagra o processo de criação. E a criação vem de algo que você não controla. Cada poeta tem seu modo próprio, a sua própria poética. Mas obedece à linguagem, que tem uma série de normas. O poema tem que ter coerência e rigor na construção, senão vira bobagem. A poesia não revela a realidade, a poesia inventa a realidade. No processo criativo, existem poetas que planejam o livro. “João Cabral (de Mello Neto) fazia isso. Escolhia um tema e surgia a ideia de explorar aquilo. Não sou assim. Meus livros não têm tema. Cada poema surge do momento, do espanto. O poema me põe diante do enigma da vida, do mundo. Não sei como ele vai ser. Tenho uma vaga ideia do que vai nascer dali. Estou em busca de uma resposta e o poema é a busca dessa resposta”. A literatura, a poesia são um modo de inventar a vida, reafirma Gullar. “Este mundo está cercado de invenções fantásticas, a começar pelas cidades, automóveis, computadores, aviões. Quem vive em mundo não inventado pelo homem são os bichos na floresta. A poesia não pode competir com o que existe na sociedade multimídia de hoje. Não é todo mundo que necessita da poesia. Mas, há momentos na vida em que é muito importante


“Noite estrelada”, de Van Gogh, “poderia não ter sido feita, mas foi e passou a pertencer à vida da gente.” para o cara, por seu estado de espírito, por sua necessidade naquela hora”. Embora admita que não consiga transformar em poesia o cheiro da tangerina, ou o que seja realmente uma árvore, Gullar considera que o poema, por exemplo, “depois de escrito pertence à vida da gente. Passa a construir o nosso universo”. É o caso também de uma obra como “Noite estrelada”, de Van Gogh. “Poderia não ter sido feita, mas foi e passou a pertencer à vida da gente”. Aí entra a casualidade, como parte do processo. “Amanhã, pode ser que faça um poema. Mas posso também passar um ano sem escrever nenhum”. Mas, deste mundo inventado, Gullar tem hoje uma certeza. Depois de muitas e muitas milhas voadas, anos

de exílio no Chile, na Argentina, na ex-União Soviética, não viaja mais de avião. A decisão, ou o pânico, por melhor dizer, tomou conta literalmente quando estava para aterrissar em Congonhas, São Paulo. Aeroporto fechado pelo mau tempo e o avião obrigado a sobrevoar a cidade. Raios para todo lado tornavam a situação cada vez mais dramática. “Dessa escapei”, afirma enquanto se remexe com certa aflição. “Não quero mais saber de avião”. Quem, no entanto, está imune às surpresas do destino? Em 2007, quatro anos depois desse episódio, convencido a muito custo pela companheira Cláudia Ahimsa, também poetisa singular,

embarca para a Espanha. Homenagens à vista. Conferências e leitura de seus poemas em Madrid e Santiago de Compostela. Mas e a desconfiança já visceral de avião? Confiança talvez só mesmo na “paz”, sobrenome da Cláudia em sânscrito. Antes, no Rio de Janeiro, o começo da agonia no Galeão. Filas, atraso de uma hora no voo. A opção, o restaurante. Lotado, sem lugar para sentar. Finalmente, chamada para o embarque. Que nada! Mais de uma hora e meia no chão, sem levantar voo. Enfim, decolagem. Céu de brigadeiro. Ao atravessar o Atlântico, porém, ilusão pelos ares. Na mesma rota da tragédia de 2009 com o voo da Air


Capa

Ferreira Gullar

France, turbulência violenta. “E muita gente dormia. Eu não. Só não saltei pela janela porque estava fechada”. Se as complicações aéreas terminaram com o pouso, outras terrestres estavam ainda por acontecer. “Foram 40 minutos do avião ao desembarque e mais de outra hora e meia para recolher a bagagem”. Nas duas semanas que Gullar e Ahimsa permaneceram na Espanha, o poeta só pensava na volta. “Ah, se eu pudesse voltar a pé”. Avião, agora, definitivamente nunca mais! Hoje, sobre hábitos de leitura, prevalece o “releio mais do que leio”. Aí, despedida em curso, em volta da mesa da sala, foto oficial, recrudesce o entusiasmo de quem estava lendo a história do romantismo brasileiro, livro de Ubiratan Machado. “Ele conta como eram Gonçalves Dias, José de Alencar. E garante que Machado de Assis, longe de ser aquele sisudo do Cosme Velho, estava declamando e comendo mulher”. A imprensa da época traduzia e publicava no Brasil contos do francês Alexandre Dumas, “sem pagar direito autoral”, lembra o jocoso Gullar. Com a interrupção na produção dos contos originais, outros foram criados para o público brasileiro. Como se de Dumas fossem. Um deles, o depois famoso “A mão do finado”, acabou publicado em Portugal. Daí, chegou à França, traduzido 16

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Machado de Assis, “longe de ser aquele sisudo do Cosme Velho, estava declamando e comendo mulher.”

e também publicado. Apesar de o próprio Dumas renegá-lo, terminou incorporado na obra dele. Mas “foi escrito aqui,” se diverte Gullar, fascinado com o conteúdo do livro. Afinal, a arte existe porque a vida não resiste, propõe o

poeta. E arte que não é amada, morre. “Eu não quero ter razão. Quero ser feliz”. Mais do que feliz estamos nós por José Ribamar Ferreira, o Gullar, repartir a oportunidade única dessa conversa com os leitores da Formato.


Fotografia

Família Okubo

Retratos de

um pioneiro Como a mudança de profissão resultou em um dos mais significativos arquivos fotográficos da construção de Brasília Texto José Humberto Fagundes Fotos Arlindo e Kazuo Okubo

Q

Arlindo e o filho Kazuo

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uando o alfaiate Arlindo Okubo desembarcou no Núcleo Bandeirante com a mulher Ayano, no início de 1959, jamais imaginou que logo iria mudar de profissão. À primeira oportunidade de emprego, Okubo não hesitou. Um descendente de japonês, como ele, fez o convite para trabalhar em uma “loja de fotografia”, perto de onde morava. Com determinação oriental, aprendeu o novo ofício. Em 1961, percebeu que havia espaço para abrir seu próprio negócio, o Cine Foto Okubo, em Taguatinga.


Inauguração de Brasília

Catedral

O resultado da feliz iniciativa, que perdurou por décadas, passa por este registro histórico da cidade em construção, feito por Arlindo Okubo, que a Formato publica pela primeira vez, com exclusividade, em comemoração aos 50 anos de Brasília. Casamentos, festas de 15 anos, velórios. Na época, faziase um pouco de tudo. E o Cine Foto Okubo virou referência. Na

Palácio do Planalto

memória do filho Kazuo Okubo, o acaso foi determinante em sua futura profissão. “Meu pai tinha ido pescar e o vizinho pediu para fotografar um aniversário. Daí, passei a fazer todos os aniversários mais caseiros”. Para quem chegou a cursar seis semestres de Engenharia Mecânica e depois Administração de Empresas, assumir o legado do pai fotógrafo, que

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Arlindo registrou a construção de Brasília nessas fotos que são agora publicadas pela primeira vez

Arlindo e Ayano Okubo com o filho e amigos


Fotografia

Família Okubo

Esplanada dos Ministérios e Congresso Nacional

“A fotografia faz parte da vida das pessoas. Mas a fotografia autoral é construída com a história e o olhar particular de cada fotógrafo.” Kazuo Okubo

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se foi em 1983, era obrigação do filho mais velho. A rotina no Cine Foto durou bem mais do que uma década. “Aí, cansei. Migrei para a publicidade, pensando em outras coisas, na ideia da foto autoral”. Ainda com mercado incipiente, na época.

Hoje, Kazuo mantém em Brasília “A Casa da Luz Vermelha”. Um espaço inédito e exclusivo para exposições, palestras, cursos para profissionais em fotografia. Uma das maiores especialistas do Brasil em fotos de arte, Rosely

Nakagawa, curadora do acervo permanente da Casa, define: “As obras refletem o trabalho dos mais consagrados fotógrafos brasileiros. Têm garantia de durabilidade. O papel tem Ph neutro, tinta permanente e confiabilidade (são numeradas).”

Lago Sul e Ponte JK


Fo F to ot g o rg ar a f ifai a Família Família Okubo Okubo

Modelo: Edinete da Silva Pereira, estudante. Fotografia da coletânea De todas as formas

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Modelo: Joseane de Melo Scavelo, estudante. Fotografia da colet창nea De todas as formas


Fotografia

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FamĂ­lia Okubo


Roma, 2008

Paris, 2008

Fotografias da sĂŠrie Paisagem Formal Praga, 2008


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Memória

Amigo da Onça

Peripécias de

Péricles

O cartunista marcou definitivamente uma era no humor brasileiro. Seu personagem desnudava a hipocrisia social

Texto Cristiano Torres Ilustração Marcos A. Oliveira

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O autor manteve por quase 20 anos a sua página semanal na revista O Cruzeiro

J

eito de boa pinta, mas malandro e herói sem caráter – daqueles que perdem o amigo, mas não perdem a piada, gostam de tirar vantagem em tudo e são especialistas em criar situações constrangedoras. Um sujeito aparentemente inofensivo, um lobo em pele de cordeiro. No entanto, um lobo simpático. Foi exatamente essa marca da identidade brasileira que o cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão adotou quando, em 23 de outubro de 1943, publicou em O Cruzeiro a primeira estória de um dos personagens mais lembrados dos quadrinhos brasileiros: o Amigo da Onça. O personagem permaneceu por quase 20 anos nas páginas da revista (a última tira foi publicada em 1962). Curioso é que os diretores da revista já tinham o personagem fixo planejado e, inclusive, com nome definido,

adaptado a partir de anedota famosa (ver box). O Amigo da Onça traduzia um tipo humorístico que carregava a verve típica carioca e captava o estado de espírito da cidade para leitores de qualquer lugar do país: baixinho, cabelo penteado para trás à base de gumex, terno de linho branco, bigodinho e olhar de peixe morto. O personagem era um autêntico repórter, crítico dos costumes. Desnudava a hipocrisia social contida nos bons modos forçados, na falsa elegância, no jogo de aparências. Também nunca perdoava instituições como o casamento e o exército – como um anti-herói típico, à semelhança de Brás Cubas, Macunaíma e outros que permanecem até hoje.

A origem da história – O que você faria se estivesse agora na floresta e uma onça aparecesse na sua frente? – Ora, dava um tiro nela. – Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo? – Bom, então eu a matava com meu facão. – E se você estivesse sem o facão? – Apanhava um pedaço de pau. – E se não tivesse nenhum pedaço de pau? – Subiria na árvore mais próxima! – E se não tivesse nenhuma árvore? – Sairia correndo. – E se você estivesse paralisado pelo medo? Então, o outro, já irritado, retruca: – Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?


Memória

Amigo da Onça

Bem-vestido demais para se tornar um cafajeste rodrigueano, cínico demais para um Oscarito das chanchadas da Atlântida e moleque demais para ser a versão tupiniquim de um golpista internacional à la David Niven, o Amigo da Onça lembrava mesmo era Lamartine Babo, ao menos no perfil do sambista depois da meia-idade. O sucesso do Amigo da Onça entre os leitores não pode ser explicado apenas pelo efeito de catarse que ele provocava ao cometer as maldades que, secretamente, seu público desejava, mas nunca realizava. Havia algo ali, tal qual um sádico prazer em se deliciar com a desgraça dos outros, mesmo sem motivo. Era como o prazer da criança que no conto ri da nudez real e castiga, a moral pelo riso e pela pilhéria: humor simples, sem lógica, anárquico, carnavalizante e universal. Por diversas vezes, Péricles usou o Amigo para fazer jornalismo ou crítica de costumes. Em dois exemplos, incentivou o escritor Boris Pasternak, vítima do stalinismo, a ir buscar seu Prêmio Nobel e convidou o intérprete Nat King Cole a fazer uma turnê na Cidade do Cabo, em plena era do apartheid. Nascido em 14 de agosto de 1924, no Recife, Péricles foi influenciado pelos traços da fase áurea dos quadrin h o s, c o m o D i c k Tra c y, Agente Secreto X-9 e Flash Gordon. Na época, respira30

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va-se o ar desses dignos e honrados heróis, que coloriam o cenário dos primeiros desenhos e roteiros do jovem artista. O início profissional não indicava garantias para o ganha-pão diário e futuro, o que o estimulou a trabalhar com personagens cômicos. Com centenas de piadas na mala, e ainda adolescente, embarcou para o Rio de Janeiro no começo da década de 1940. Com uma

carta de recomendação para Leão Gondim de Oliveira, responsável pelos Diários Associados, a mais poderosa empresa de comunicação da época, conseguiu entrar em O Cruzeiro. Era o mais jovem da equipe na época. Seu primeiro personagem foi o Oliveira, o Trapalhão. Nove meses depois, surgiu sua criação consagrada. O sucesso do Amigo da Onça era tão grande quanto


a ansiedade pela próxima malandragem: avacalhar um pobre transeunte, enganar a sogra, armar para o chefe mal-humorado... Ao contrário de outros, tinha dificuldade de se desvincular do personagem e não era sequer reconhecido. Muitas vezes, ao entrar em festas, só era percebido quando se identificava (ou era revelado por um co nhecido) como o autor dos quadrinhos publicados em O Cruzeiro. Pode-se dizer, sem errar, que seu personagem foi para ele um autêntico “amigo da onça”. O sucesso, no entanto, não o protegeu de uma personalidade instável e Péricles acabou se convertendo num boêmio inveterado. Por causa da solidão, na noite de 31 de dezembro de 1961, escreveu dois bilhetes, fechou todas as portas do seu apartamento e ligou o gás. Com

ironia, e ao estilo do seu Amigo da Onça, pôs um aviso na porta, escrito à mão, onde dizia: “Não risquem fósforos”. Após a morte do companheiro, o cartunista Carlos Estevão continuou, por algum tempo, fazendo as páginas do Amigo da Onça. O personagem foi revivido mais duas vezes, mas sem a mesma repercussão.

S

Péricles, segundo Ziraldo

empre elegante, com seus ternos de linho branco, Péricles era uma figura conh ecida na zona portuária do Rio de Janeiro. Ganhava bem e o paga mento era semanal, sempre em dinheiro, guardado em um en velope. E nunca fugia da rotina . Depois de receber, partia para os bares daquela área e, invariav elmente, no dia seguinte, era en contrado “escornado” em uma me sa. Mas com dinheiro no bolso, pois dele não “roubavam”, confo rme recorda seu bom amigo Zir aldo. Informada da morte do filh o, a mãe de Péricles veio de Re cife para a missa de sétimo dia. Como a igreja católica não celeb ra missa para suicidas, Ziraldo co nversou com D. Helder Câmara, que concordou em celebrar a mi ssa na capela de um colégio no Morro da Viúva, em Botafogo. A mãe, já velhinha, nunca soub e que o filho havia se suicidado . Além de funcionários de O Cruzeiro e os inseparáveis am igos de copo e de cruz, Ziraldo até hoje não encontra explicaçã o para a presença do então de putado fed era l Ar ma nd o Fa lcã o (m inistro da Justiça do Governo Ernesto Geisel) e esposa . “Além de católico fer voroso, Falcão devia gostar muito do trabalho de Pé ric les”, ar ris ca Zir ald o. Antes, um fato pitoresco marcou o velório, realizado no Instituto de Medicina Legal, rel embra o artista mineiro. Os am igos da zo na po rtu ár ia ch eg av am, já bêbados, e diziam: “P éricles, seu filho da ..., você nos deixou”.


HH i si ts ót ró irai a Sul Sul dede Minas Minas

Segredos do

ar imperial No sul de Minas Gerais, no caminho da Estrada Real, primeira via de comunicação do Brasil colonial, Cristina surpreende pela exuberância da natureza, onde se produz o melhor café do Brasil

Texto José Humberto Fagundes Fotos Rui Faquini

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História

Sul de Minas

A imperatriz Tereza Cristina (ao lado) deu nome à cidade que sua filha, Princesa Isabel, antes de libertar os escravos, visitou. Orgulho para os habitantes, define o prefeito Luiz Dárcio

O

que tenho de Minas em mim é esse sonho de subir montanhas e garimpar estrelas, dizem os versos do poeta mineiro Wilson Pereira. Certamente, a Princesa Isabel não garimpou estrelas, mas subiu com certeza montanhas de Minas quando visitou Cristina, com o marido Conde d’Eu, em 1868. Foram conhecer a cidade que recebera o nome de sua mãe, a Imperatriz Tereza Cristina, esposa de Dom Pedro II. De arraial fundado em 1774, hoje continua perene e solene no 34

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sopé da Serra da Mantiqueira, esbanjando ar puro, poluição quase zero. Há séculos, cachoeiras de águas cristalinas teimam em despencar da serra. Nesse lugar, princípios, ética, olho-no-olho entre seus poucos mais de dez mil habitantes excluem, literalmente, a criminalidade. “Cristina não tem problema de segurança”, afirma o prefeito Luiz Dárcio, na modéstia mineira da receita simples. Ingrediente principal, a índole dos cristinenses. “Nada como berço”, define Dárcio. A herança, o passado merecem o caminho do futuro. Tecnologia para todo mundo. Quer dizer, Cristina oferece agora a seus habitantes in-

ternet de graça. Ou ao preço que cada um puder pagar, na avaliação da Secretaria de Assistência Social. É inclusão social via inclusão digital. Pela abrangência, projeto pioneiro entre os 853 municípios de Minas Gerais. Os recursos vêm do Ministério da Ciência e Tecnologia, contrapartida do município. Todas as escolas informatizadas também é privilégio dos estudantes locais, cujo processo estará concluído até 2012. Do futuro para o passado, um passo à frente. Preservação é tema sempre presente. Basta ver o casario do século XIX restaurado. Cristina é um convite, mais do que uma pausa, para o café.


Fazenda e Pico da Pedra Branca. Aqui come莽a a hist贸ria de Cristina


HH i si ts ót ró irai a Sul Sul dede Minas Minas

Fazenda Traituba e liteira do século XIX. Preservação da memória da Estrada Real, em Minas Gerais

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Passagem obrigatória para os viajantes da Estrada Real, primeira grande via de comunicação regular do Brasil, que ligava as minas gerais para escoar o ouro em Paraty, a fazenda Traituba, localizada próxima a Cristina, teve a construção de sua sede concluída por escravos em 1830. Dom Pedro I estava a caminho para a inauguração de seus 14 quartos, seis salas, grandes corredores e pé direito gigante quando teve de retornar ao Rio de Janeiro, no meio da viagem. Havia começado a Revolução de 1830, que culminou com a abdicação de D. Pedro I ao trono. Na época, a fazenda produzia de tudo. Menos sal e ferramentas, trazidas pelos tropeiros. Abrigava uma mão de obra de 1.200 pessoas, dedicadas à pecuária de leite e criação de cavalos. Com direito a cemitério próprio.


A rotina da fazenda certamente mudou. Mas as mesmas atividades ainda são mantidas pelos descendentes de quarta e quinta gerações do patriarca José Frausino Aguiar Junqueira, amigo de D. Pedro I. Uma liteira do século XIX, tombada pelo Patrimônio Histórico, faz parte das relíquias que Traituba guarda para os visitantes. Sob a proteção dos contrafortes da Serra da Mantiqueira. O ouro, na região, fazia a fortuna da época. A pecuária ampliava o horizonte. Hoje, o ouro que pouco havia em Cristina, virou cultivo, virou café. O melhor do Brasil. Com reconhecimento internacional. As condições climáticas, a topografia, geografia, tudo favorece. Na cidade, hospitalidade mineira, para quem busca não só uma pausa para tomar um excelente café.


VV i ai g ag e emm Bolívia Bolívia

mito ainda é garantia de sobrevivência Texto e fotos Sérgio Alberto Edição de texto Henrique Máximo/Redação

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Uma viagem pelo interior da Bolívia mostra que, apesar de morto há 42 anos, Che Guevara continua despertando controvérsias e paixões

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rnesto “Che” Guevara para muitos é um mito. O maior símbolo da esquerda latino-americana e da luta contra as desigualdades sociais. Para seus críticos, como o pensador peruano Alvaro Vargas Llosa, “Che incorporou o pior na tradição da violência política na América Latina”. Mas, para os bolivianos de Vallegrande, província de Santa Cruz de La Sierra, município pobre de 20 mil habitantes que vivem da agricultura, da pecuária e do turismo, Che é mais do que um guerrilheiro. Che é um santo. Morto em 9 de outubro de 1967, teve seu corpo exposto em uma lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, em Vallegrande. Alguns moradores locais ainda se lembram da chegada do helicóptero com os guerrilheiros mortos. O corpo de Che estava límpido. Os olhos ainda bem abertos pareciam seguir quem caminhava ao seu redor. As imagens desse dia foram registradas pelo fotógrafo bo-

liviano Freddy Alborta Trigo. E correram o mundo.  

Na Ruta del Che

Depois de passar uma noite em Vallegrande, segui para La Higuera, povoado do município de Pucará, no Sudeste da Bolívia. Foram seis desconfortáveis horas em um micro-ônibus chinês. Apesar da estrada em péssimas condições, valeu a pena. La Higuera, para muitos solo sagrado, tem cerca de 120 habitantes. A maioria, indígena da etnia guarani. Lá, tudo é muito peculiar. Gestos, gostos, sons, cheiros, imagens. Nos olhares, reflexos em preto e branco. O mundo colorido, globalizado, parece longínquo. As pessoas respiram o passado, conformadas com a realidade em que vivem. Mas sabem sorrir. La Higuera está marcada na história pelo episódio de 8 de outubro de 1967, com Che Guevara ferido e preso pelas Forças Armadas Bolivianas, comandadas pelo Capitão


Viagem

Bolívia

Herói ou guerrilheiro

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da em 2004. Todos os anos, uma multidão de seguidores se reúne em outubro para as comemorações de sua morte. Os caminhos do Che Cochabamba

rand

e

Santa Cruz Samaipata

Aiquilo

Rio G

Gar y Prado, numa ravina próxima à aldeia Quebrada Del Churo. No dia seguinte, foi executado pelo sargento Mário Terán. Há 42 anos, o pequeno povoado vivia a beira da miséria em meio à guerrilha. Hoje, sua pequena economia é mantida principalmente por viajantes como eu, interessados em conhecer onde morreu o guerrilheiro e nasceu o mito. Há quase quatro mil metros acima do nível do mar, La Higuera apresenta uma vista espetacular das cordilheiras dos Andes. Os principais pontos turísticos, no entanto, evocam a figura do guerrilheiro argentino. O monumento “El Che” e um memorial construído em uma antiga escola fazem parte da Ruta Del Che, inaugura-

  San Ernesto de La Higuera é uma denominação comum aos moradores quando se referem a Guevara. Afirmam que, em momentos de necessidade, rezam para o Che. E, no dia seguinte, aparecem turistas para suprilas. A 60 km dali, está Vallegrande, onde surgiu o mito dos “milagres” de Che. Muitas pessoas, porém, mostram-se indiferentes ao fato. A cidade parece estar sempre em câmera lenta. A vida simples dos camponeses não se altera com a movimentação de turistas. Sobre a guerrilha empreendida por Che, muitos acreditam que era desnecessária, por conta da reforma agrária que já existia.

Vallegrande La Higuera

Valle del Yeso

Sucre

Campamento Potosi

Lagunillas Muyupampa

Camiri


Praรงa em Santa Cruz de la Sierra


Viagem

Bolívia

O povo de Vallegrande é pobre e conservador. Apesar da gratidão pela imagem de Che, preocupa-se mais com o trabalho e a família do que com questões ideológicas, diferentemente da elite burguesa de Santa Cruz De La Sierra, que não gosta nem de ouvir falar no nome do revolucionário argentino. Herói, guerrilheiro, santo, terrorista, não importa a opinião. Para os bolivianos, o mito “Che” Guevara sempre permanecerá, indiferentemente a tudo isso.

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Garoto em Santa Cruz e sacolas de pano para levar um pouco de terra de La Higuera, onde fica o monumento ao Che


Moda

Inverno

A marca do tempo

no cerrado Editora de Moda Ana Tatiana Capeletti Produção Pedro Fistarol Fotos Felipe Barreira e Enoque

O

s ventos do sul começam a soprar no cerrado e fazem baixar a temperatura. Para aquecer nosso inverno, a moda presenteia os brasilienses com materiais leves para o dia e estruturados para a noite. São muitas as opções! Lançamos mão de alguns elementos para compor nossa leitura das tendências vistas e revistas nas passarelas pelas grifes que a diversidade brasileira e mundial colecionam: sedas, crepes, nylons, microfibras, jeans, malhas, couros, peles, acessórios, muitos acessórios com suas tachas, cristais e aplicações reluzentes. As nuances remetem à realeza com os tecidos nobres. O concreto está presente nos tons de cinza utilizados nas peças mais pesadas. A fauna e a flora peculiares do cerrado nos dá uma gama variada de verdes e marrons. A música que exala de Brasília, berço do rock nacional, está presente na dupla mais que democrática e eterna: preto e branco, com metais ora discretos, ora exuberantes e em abundância. As cores fortes e vibrantes metalizadas nos remetem aos anos 80, onde se previa que, nesse milênio, teríamos um futuro intergaláctico. Nesse contexto, exaltamos o que em nosso entendimento será o hit da estação. Desfrutem conosco dessa gama variada de criatividade que está à disposição nas vitrines de nossa Capital Federal.

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Ana Tatiana Capeletti

Pedro Fistarol

Felipe Barreira


Carol Zeni Vestido Ellus, Meia Pata Ana Paula para Maison Ana Paula, Puseiras, Bolsa e Braceletes Fabrizio Giannone. Amanda Boeno Vestido Forum, Sandรกlias Forum Tufi Duek, Pulseiras e Braceletes Fabrizio Giannone


M Mooddaa

momomo Inverno

Amanda Boeno: Vestido Ellus, Peep Toe Meia Pata Arezzo, Anéis Fabrizzio Giannone. Carol Zeni: Vestido Cris Barros para Ana Paula, Sandálias Ellus. Poliana Soares: Vestido Forum Tufi Duek, Sandálias Ana Paula para Ana Paula, Anel Fabrizio Giannone.

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Amanda Boeno Camiseta Forum Tufi Duek, Shorts Ellus, Scarpins Forum, Bolsa D’Metal. Caroline Zeni Camiseta Forum, Saia Folic, Bolsa e Scarpins Forum.


Moda

momomo Inverno

Luiza Almeida Vestido Alessa para Netas de Antônia(microfone) Sapato Maison Ana Paula Cinto Acervo Pessoal

Bianca Vestido Maison Ana Paula Bolero Maison Ana Paula Sapato Capodarte Relógio Bulova e brincos de ouro amarelo para SF Jóias

Thaynara Vestido Alessa para Netas de Antônia(guitarra) Bolsa Santa Ephigênia para Netas de Antônia Ankle Boot Capodarte

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Thaynara Vestido Damyller Sapato Capodarte Anel e brincos em ouro branco e diamantes para SF Jóias Estola Acervo Pessoal


Gustavo Camiseta Forum Moleton Forum Blazer Damyller Calça Damyler Pulseira MontBlanc Coturno Timberland

Aline Pólo Damyller Jaqueta Patrícia Vieira para Netas de Antônia Calça Sarouel Damyller Cinto D’metal Sapato Capodarte

Aline Blusa Damyller Brincos em ouro branco e diamantes para SF Jóias Saia Santa Ephigênia para Netas de Antônia Blazer Forum Sapato Maison Ana Paula

Gustavo Camiseta Forum Colete Camargo Alfaiataria Blazer Damyller Calça Forum Sapato Camargo Alfaiataria

Bianca Jaqueta Damyller Saia Bob Store para Maison Ana Paula Botas Capodarte


Moda

momomo Inverno

Aline Vestido Cavendish para Netas de Antônia Boina Damyller Sapato Capodarte

Thaynara Colete perfecto Maison Ana Paula Blusa Marisa Ribeiro para Maison Ana Paula Legging metalizada Damyller Cinto D’metal Sapato Forum

Gustavo Camiseta Damyller Camiseta Forum Jaqueta Camargo Alfaiataria Calça Forum Sapatênis Camargo Alfaiataria

Luísa Almeida Vestido Damyller Jaqueta perfecto Bob Store para Maison Ana Paula Botas Capodarte

Bianca Blusa Graça Otoni para Netas de Antônia Spencer Santa Ephigênia para Netas de Antônia Legging metalizada Damyller Sapato Capodarte

Agradecimentos

Arezzo | Capodarte | Camargo Alfaiataria | Checklist | Damyller | D’Metal | Ellus | Enoque Abikian Cabelo e Maquiagem | Fábio Fernando - Five Visagismo | Fabrizio Giannone | Felipe Barreira | Folic | Forum | Forum Tufi Duek | Glam Model’s | Grupo Magneto | Poliana Soares | Maison Ana Paula | Netas de Antônia |

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Arquitetura

Interiores

Cuidados com a

decoração infantil A decoração de quartos infantis merece atenção especial de pais e profissionais Texto Cláudia Mohn Fotos William de Paula e Haruo Hitami

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alegria com a chegada do bebê leva às vezes a certos exageros por parte da família quando o assunto é decoração. Excessos de cores e bichinhos de pelúcia dão um ar gracioso ao quarto, mas podem comprometer até mesmo a saúde do bebê. Eneida Alonso, proprietária da loja Arte em Casa Bebê, especializada em decoração de quartos infantis, afirma que além de materiais antialérgicos é importante utilizar na decoração tapetes de borracha, cortinas removíveis e laváveis, móveis sem quinas e piso revestido de vinil ou laminado plástico para evitar poeira. Eneida afirma que é preciso evitar peças muito pequenas ou pesadas, principalmente aquelas que serão penduradas na parede acima do berço. 52

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Cores claras e materiais fáceis de limpar são destaque no projeto de Eneida Alonso e Patrícia Alonso, da Arte em Casa Bebê Saber escolher a cor do quarto da criança é muito i m p o r t a n te p a ra a t ra n quilidade do bebê que vai habitar aquele espaço. Segundo a empresária, devese dar preferência a cores claras e suaves por serem mais aconchegantes. “Uma boa dica para as futuras mamães é combinar o kit berço, usado para proteger o bebê acolchoando a parte interna das grades, com a decoração do quarto. Muitas cores e estampas agitam

e confundem as crianças”, explica Eneida. Cuidados simples, como comprar um colchão que caiba exatamente dentro do berço, evitam que alguma parte do corpo do bebê entre em contato com a madeira. As grades de segurança também não podem passar despercebidas. O ideal é que tenham de 6 a 7,5 centímetros para evitar que a criança prenda a cabeça entre elas. Com o passar do tempo, os bebês vão ficando mais ativos. Com isso, a atenção


Pisos laminados. Ótima opção para quartos infantis. Projeto de Eneida Alonso e Patrícia Alonso, da Arte em Casa Bebê


Obrigado, Brasília!

por fazer parte de sua história

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Arquitetura

por parte dos pais e responsáveis deve ser redobrada. Instalar portões para evitar acessos a lugares como escadas e saídas; manter portas e gavetas fechadas; afastar móveis próximos às janelas; instalar grades ou redes de proteção e proteger tomadas elétricas são algumas medidas que não necessitam de grandes investimentos e são fáceis de ser providenciadas. Outra medida importante é permitir que o ambiente da criança seja arejado e, de preferência, receba o sol da manhã. Ventiladores e ar condicionado devem ser evitados e, em caso de calor extremo, pode-se optar por ventiladores de teto na função exaustor.

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Interiores

Poeira

O acúmulo de poeira também é outro problema que deve receber atenção e sp e c ia l d o s p a is. Pa ra garantir a saúde infantil e evitar doenças respiratórias, substitua os bichos de pelúcia por objetos e bonecos de pano que são fáceis de lavar e possuem o mesmo apelo visual. Segundo Márcio Cunha, proprietário da Paper House, a utilização de persianas é uma opção melhor do que a escolha por cortinas esvoaçantes nos quartos dos pequeninos. De acordo com o empresário, o material é de fácil limpeza e não oferece risco às crianças. Os papéis de parede também são uma

No projeto da designer Juliane Moi, os móveis foram planejados com cantos arredondados e laminação em madeira e laca. Uma bancada baixa permite fácil acesso à caixa de brinquedos


ótima pedida para os quartos infantis. Além de uma infinidade de padronagens, o material também é fácil de limpar e pode ser facilmente removido com o passar do tempo.

Planejamento

A integração de móveis planejados foi a proposta dos arquitetos Gislaine Garonce e Marcelo Martiniano para a execução do quarto que mostramos ao lado. “Pensamos em uma cama baixa associada a uma bancada de estudos para minimizar a possibilidade de acidentes domésticos que são muito comuns na fase infantil”, comenta a arquiteta. A decoração do quarto recebeu também cores claras e grandes nichos onde a criança consegue acessar facilmente seus brinquedos preferidos. “Optamos também pela não utilização de cortinas de tecido e de tapetes para evitar o risco de alergias”, ressalta Martiniano. Videogames, TVs e computadores já estão integrados à decoração dos quartos de crianças maiores. Porém, cadeiras, mesas e bancadas devem receber uma atenção especial na hora da decoração do ambiente. É muito importante que sejam projetados na altura ideal para evitar problemas futuros de dores lombares e posturais.

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A TV, o videogame e os brinquedos são facilmente acessados pela criança neste quarto proposto pelos arquitetos Gislaine Garonce e Marcelo Martiniano


Saúde

Alimentação saudável

Alimentos

Funcionais Comer bem é o melhor remédio não só para evitar como tratar doenças Texto Henrique Máximo Fotos Giba (Gilberto Soares)

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esde a mitologia grega, quando o “pai da medicina”, Hipócrates (460 a.C. – 377 a.C.), disse a famosa frase: “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”, ficou-se sabendo que o alimento pode ser considerado um remédio preventivo e curativo de doenças. Mas a busca por uma alimentação mais saudável vem ganhando papel de destaque no cotidiano do brasileiro há pouco tempo. Os alimentos funcionais, como são chamados aqueles que têm a capacidade de nutrir, afetar beneficamente uma ou mais funções no corpo, melhorar a saúde e o bemestar e ainda reduzir o risco de doenças, estão ganhando cada vez mais espaço nas prateleiras dos mercados. Alimentos que antes eram dificilmente encontrados, como leite de arroz, leite de soja e produtos 58

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à base de Quinoa, estão mais acessíveis. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o mercado de alimentos funcionais tem crescido em média 20% anualmente, comprovando a tese de que o cardápio do brasileiro está mudando. A Dra. Sandra Lohmann, que desde 1997 atua na área de nutrição ortomolecular, lembra que a partir do momento em que a medicina reconheceu os avanços da nutrição, passou a ser essencial que os médicos indiquem um nutricionista para que seus pacientes aprendam a se alimentar melhor e obter melhor aproveitamento dos nutrientes. Ela dá um exemplo pessoal de sua filha de nove anos, que se orgulha em ser filha de nutricionista e, por conta de uma alimentação saudável, não precisa tomar remédios nem frequentar hospitais.

Nutricionista pela Universidade Federal de Pelotas (RS) e pósgraduada em Clínica e Terapêutica Nutricional, a Dra. Sandra Lohmann afirma que a Nutrição ganha mais espaço pelo aumento de doenças ligadas à má alimentação


Saúde

Alimentação saudável

O consumo do abacate para quem está de dieta pode ser acompanhado de suco de limão ou laranja

A nutricionista alerta também sobre a importância de uma boa alimentação para retardar o envelhecimento, com a inclusão de alguns alimentos na rotina alimentar. Bons exemplos são o tomate (fortalece a memória), alho (aumenta a imunidade), frutas vermelhas (protegem contra células cancerígenas), castanhas (protegem contra doenças cardiovasculares), maçã (acalma o organismo) e

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linhaça (controla a oscilação hormonal). A Dra. acrescenta que os brotos de feijão, ervilha, soja e alfafa são fundamentais ao organismo da mulher durante as fases de climatério e menopausa, pois ajudam nas funções hormonais do corpo.

Cardápio ideal

A Dra. Sandra aceitou o desafio de ir ao Mercado Municipal, em Brasília, e montar

um cardápio ideal de alimentos funcionais para cada refeição do dia: café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Antes de iniciar com a montagem do cardápio, ela ressaltou a importância das cores dos alimentos: “É fundamental termos um prato colorido em todas as refeições, pois são nos pigmentos dos alimentos que se encontram os compostos bioativos.” Café da manhã. A nutricionista recomenda que se inicie o café da manhã com frutas. No caso, a escolhida foi o abacate, pois possui gordura vegetal, nutriente que ajuda a baixar o colesterol. Na “família” dos lacticínios, a nutricionista explica que os mais indicados são o iogurte natural e os queijos brancos. “O iogurte natural possui probióticos, micro-organismos que restauram a flora intestinal, obtendo um melhor aproveitamento de todos os


nutrientes do organismo e um melhor funcionamento do intestino.” Uma dica é consumir com granola. Quanto aos queijos brancos, ela recomenda o queijo minas frescal e a muçarela de búfala. Para encerrar o café da manhã, ela indica um pão integral que tenha mistura com outros grãos além do trigo, acompanhado de requeijão light ou queijo branco. Para beber, um suco verde. Almoço. Destacando mais uma vez a importância das cores dos alimentos, Dra. Sandra aconselha iniciar o almoço com uma salada bem colorida, dando preferência aos produtos orgânicos. Para compor uma salada rica em nutrientes não é preciso muito: tomate, cenoura, pimentão e vegetais verdes, como alface, brócolis, repolho e couve-flor, são suficientes, pois contêm substâncias que combatem o câncer e melhoram o funcionamento do intestino. No chamado “prato quente”, a nutricionista afirma que a melhor combinação ainda é o arroz e feijão. Mas ressalta que é preciso variar os tipos de feijões, pois cada um tem tipos diferentes de nutrientes. Quanto ao arroz, ela indica o consumo do integral e recomenda colocar verduras dentro para melhorar o sabor, obtendo um prato ainda mais rico em nutrientes. No caso de substituir o arroz, um alimento de valor nutritivo parecido seriam os macarrões escuros.

A carne escolhida do dia foi o peixe salmão, por conta da grande concentração de Ômega 3, gordura essencial para o bom funcionamento do organismo, que combate células cancerígenas, alergias, sequelas de infartos, doenças degenerativas, depressão. Após uma hora de digestão, ela recomenda tomar um cálice de 150ml de vinho tinto seco, evitando vinhos com acréscimo de açúcar, pois reduzem o valor funcional da bebida. Lanche da tarde. Como o período entre o almoço e o jantar é longo, a nutricionista destaca a importância do lanche da tarde, podendo variar entre barras de cereais, castanhas, frutas frescas ou secas, sanduíches naturais ou mesmo os alimentos escolhidos no café da manhã, só que em menor proporção.

Tanto salmão, rico em Ômega 3, e vegetais verdes combatem células cancerígenas, doenças degenerativas, depressão. Melhoram a circulação do sangue e diminuem os riscos de ataques cardíacos


Saúde

Alimentação saudável

Jantar. Para finalizar o cardápio ideal, a nutricionista recomenda consumir uma quantidade moderada de alimentos no jantar, pois é algo essencial para manter o peso e ter uma boa digestão antes de dormir. Segundo ela, a combinação certa seria salada, legumes e vegetais acompanhados de um alimento rico em proteínas, no caso um peixe, omelete ou frango grelhado. Uma dica para o omelete se tornar menos calórico é consumir uma

gema para cada três claras de ovos, evitando acrescentar alimentos gordurosos, como bacon ou queijo amarelo. Para beber, indica suco de água de coco com couve-flor e limão.

Para uma boa digestão, recumendase um cálice de 150 ml de vinho tinto seco, uma hora após a refeição

Dicas da Nutricionista Ma stig açã o cor ret a . “Não adianta fazer boas escolhas se você não souber ma stig ar. Se a gen te tive r uma mastigação muito rápida, perdemos todo o valor nutricional.” Beber água. “O consumo de águ a tem que ser freq uen te. Ela é ess enc ial para nosso funcionamento orgânico. Seja uma garrafa ou um copo, tenha sempre a água per to de você.” Atividade física. “Para o organismo funcionar corretamente, tem que ter atividade físi ca, que aju da a evi tar doenças e ganho de peso. Se a pessoa estiver doente, também ajuda no controle e tratamento.” Tomar sol. “O sol é um imp or tan te fato r na vid a da pessoa. Ele aumenta a imunidade. Por isso, temos que aprender a tomar sol na hora cer ta. A vita min a D*, por exemplo, é ativada com o sol.” Vita min a D*. Essencial par a o des env olv ime nto normal dos ossos, dentes, coração, cérebro e pâncreas. Serviço Dra. Sandra Lohmann Ed. Medical Center, SHLS 716, bloco A, conj. N, sala 104 TEL.: (61) 3245-1768/ contato@clinicanutricional.com.br

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Gastronomia

Rodrigo Almeida

A arte de satisfazer

o paladar A apresentação dos pratos é cuidadosamente pensada para atender o paladar e encher os olhos ao mesmo tempo

Texto Henrique Máximo Fotos Giba (Gilberto Soares)

O

paladar é um dos cincos sentidos humanos que mais nos proporciona satisfação, principalmente quando comemos algo capaz de alegrar também a alma. A arte de fazer as pessoas comer bem e ter boas sensações, mesmo os paladares mais exigentes, é tarefa da qual se incumbe o “chef” de cozinha Rodrigo Almeida. Nascido em Brasília, Rodrigo viveu sua infância em uma chácara. O interesse pela gastronomia começou de brincadeira, ao ver sua mãe e sua avó cozinhando. A partir dos 11 anos, quando fez seu primeiro pernil de natal, passou a ajudar na preparação das ceias natalinas da família. Anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, conheceu um “chef” que sugeriu o curso de cozinheiro do Hotel SENAC Grogotó, em Barbacena (MG). Após a conclusão do curso, voltou para Brasília onde iniciou carreira profissional. Como ajudante de cozinha, Rodrigo trabalhou nos restaurantes Lake’s Baby Beef e Universal Dinner. Pouco depois, tornou-se “chef” de cozinha da Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados. Logo passou a

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atender também os funcionários do Anexo III da Câmara dos Deputados. E ganhou muita experiência ao comandar, com apenas 25 anos, uma equipe de 49 funcionários, que serviam em média três mil refeições por dia. Após uma pausa no trabalho para estudar gastronomia no Instituto de Culinária Italiana para Estrangeiros (ICIF), no norte da Itália, o jovem “chef” retorna a Brasília. Dessa vez, para comandar a confeitaria do restaurante Zuu, da “chef” Mara Alckmin. Atualmente, coordena o restaurante de culinária mediterrânea Fatto, do “chef” Dudu Camargo, proprietário de mais sete estabelecimentos em Brasília, nos quais Rodrigo também exerce a função de supervisor. Com a diversidade da culinária mediterrânea, mescla em seus pratos culinária clássica com gastronomia molecular atual. Rodrigo, sempre simpático e sorridente, quebra o mito da figura do “chef” de cozinha bravo e mandão, que povoa o imaginário popular. De forma bem descontraída, mostrou algumas de suas especialidades, sem guardar segredos. Siga as receitas e bom apetite.


“Trabalho com pães, doces, salgados, gelados e pratos quentes. Mas, pessoalmente, gosto mesmo é de comida com gosto de comida, dobradinha, buchada, rabada.”


Gastronomia

Rodrigo Almeida

FILÉ AO PESCADOR COM ESPAGUETE À PUTANESCA Serve 2 pessoas • Azeite a gosto • 5g alho • 8g cebola • 10 folhas de manjericão • Sal a gosto • Farinha panco (farinha de empanamento japonês) • Queijo do pescador Modo de preparo Ingredientes • 400g filé • 10g aliche • 10g alcaparras • 3 azeitonas • 200ml molho de tomate • 20g tomate seco • 200g espaguete

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• Leve ao fogo o alho, a cebola e o azeite. Refogue bem. Junte o aliche, o tomate seco, as azeitonas e as alcaparras e refogue bem. Reserve. Troque de panela, mas não dispense a panela suja, reserve-a. Junte a farinha na panela suja, leve ao fogo até que a farinha fique sequinha. Reserve.

Molho à Putanesca • Pegue o refogado, junte o molho de tomate e o manjericão e deixe cozinhar. Junte o macarrão. Grelhe o filé e sirva com o queijo do pescador, com o espaguete à Putanesca.


GELADOS DA ESTAÇÃO Sobremesa serve 2 ou mais pessoas Ingredientes sorbet de mexerica • 200g de açúcar orgânico • 50g de glucose • 250ml de água • 1 ½ xícara de chá – 360ml de mexerica Ingredientes sorbet de cajá manga • 200g de açúcar orgânico • 50g de glucose

• 250ml de água • 1 ½ xícara de chá – 360ml de cajámanga Ingredientes sorbet de seriguela • 200g de açúcar orgânico • 50g de glucose • 250ml de água • 1 ½ xícara de chá – 360ml de seriguela Modo de preparo • Levar a água ao fogo em uma panela, adicionar o açúcar e a glucose. Mexer até ferver e esperar engrossar por aproximadamente 5 minutos. Tirar do fogo e deixar esfriar. Colocar a calda fria no liquidificador, adicionan-

do o suco ou polpa da fruta e as claras em neve. Bater por um minuto. Despejar em um pote (deixando 1/3 de altura livre para não correr o risco de estourar a tampa quando congelar) e levar ao congelador até endurecer. Retirar e bater em uma batedeira por alguns minutos. • Retornar ao congelador. • Servir com acompanhamento de frutas em pedaços ou puro. • A mexerica pode ser substituída por qualquer fruta, melancia, laranja, melão, morango, kiwi, maracujá, abacaxi etc. As que possuem mais caldo são melhores. • Algumas frutas possuem maior teor de açúcar, nesse caso, diminuir o açúcar indicado na receita.


SAÚDE

HOSPITAL DE SANTA MARIA Para saber quanto foi investido nesta obra acesse o Portal ortal da Transparência

PORTAL DA TRANSPARÊNCIA DO GDF. É SEU DIREITO SABER ONDE ESTÁ SENDO INVESTIDO SEU IMPOSTO. Boas notícias pra quem gosta de saber direitinho pra onde está indo o seu dinheiro. O GDF está lançando o Portal da Transparência. Com ele você fica sabendo como seu imposto está sendo investido com informações diárias das ações do governo. Acesse o Portal da Transparência do GDF e acompanhe. www. transparencia.df.gov.br.


SM h oú w s i cBuena a Barbarito Vista Torres

O rei do

alaúde

Tocar no Brasil é um sonho para qualquer músico cubano. Até mesmo para os mais renomados, como Barbarito Torres, integrante do mundialmente consagrado grupo Buena Vista Social Club.

Texto José Humberto Fagundes Fotos Germana Bronzeado

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SM h oú w s i cBuena a Barbarito Vista Torres

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om várias apresentações nos Estados Unidos e Europa, o Buena Vista saiu do anonimato para a fama por intermédio do guitarrista norte-americano Ry Cooder. Foi ele quem coordenou a gravação do CD homônimo, vencedor do Grammy, mais importante prêmio musical dos EUA. O não menos famoso cineasta alemão Win Wenders fez o roteiro e dirigiu o documentário que registra não só gravações em Cuba, mas a turnê mundial do Buena Vista.

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Simpático e falante, Barbarito recebeu a Formato em João Pessoa para um bate-papo descontraído e exclusivo, antes da apresentação de seu grupo na Paraíba, na virada do ano. Considerado “o rei do alaúde”, foi ele o responsável pela inserção do instrumento na música cubana contemporânea. Antes, o alaúde só era utilizado na música caipira (punto guajiro) executada na ilha caribenha. Barbarito começou a tocar aos 14 anos, em 1970, influenciado pelo pai e o

O público lotou as areias em frente ao palco em João Pessoa. Pediu, foi atendido, cantou junto...


padrinho, ambos alaudistas. Em 1977, como integrante do grupo Manguaré, fazia parte do movimento musical Nueva Trova, criado anos antes pelos já famosos compositores e cantores Silvio Rodriguez e Pablo Milanés, e que representou uma nova etapa na música cubana. As afinidades musicais entre Brasil e Cuba são praticamente inesgotáveis, na definição do instrumentista. O baixista Fabian Garcia, que faz parte do grupo de Barbarito e acompanhou por

muitos anos a diva cubana Omara Portuondo (que, além de exibições memoráveis ao lado de Nat King Cole e Edith Piaf, gravou um CD com Maria Bethânia), lembra de um programa de rádio, exclusivo sobre Bossa Nova, que fazia muito sucesso na ilha nos anos 1960. Para ele, os três países musicalmente mais importantes no mundo são Brasil, Estados Unidos e Cuba. “A riqueza harmônica e a sonoridade da música brasileira ajudam a aperfeiçoar a nossa própria música”.

... num belo coro e foi ao delírio com a música Guajira Guantanamera


SM h oú w s i cBuena a Barbarito Vista Torres

De malas prontas para uma turnê na Europa, Barbarito confessa, no entanto, que é um constante desafio se apresentar no Brasil. “Já tivemos a oportunidade de tocar em São Paulo e em Salvador. Mas, como os brasileiros são um povo extremamente musical, isso nos impõe uma dificuldade muito grande e temos sempre

Aos 80 anos, Tereza Catula esbanja vitalidade e carrega nas veias a exuberância dos ritmos cubanos

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de nos superar”. Humildade à parte, o instrumentista e seu grupo foram protagonistas de um verdadeiro show nas areias de João Pessoa. Com direito a vários pedidos de bis. E com a multidão cantando em coro “Guajira Guantanamera”. Foi emocionante participar. “Hasta la vista”, Barbarito.

Clube de negros

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uena Vista era um clube frequentado por negros na década de 1940, em Havana. Lá os músicos se reuniam para tocar enquanto o público, literalmente, dançava. Na década de 90, o nome correu mundo com o sucesso espetacular tanto do CD quanto do documentário, indicado para o Oscar em 2000, depois de receber o prêmio de melhor filme de não ficção do New York Critics Circle Awards, em 1999. Participaram do Buena Vista Social Club os músicos cubanos Ibrahim Ferrer, Juan de Marco, Rubén González, Compay Segundo, Manuel Licea, Orlando Lopez, Manuel Mirabel, Eliades Ochoa, Tito Valdez, Pio Ley va, Omara Portuondo e Barbarito Torres, além dos norte-americanos Ry Cooder e Joachim Cooder.


Palavra

Nicholas Behr

O mago de Braxília no mundão de hoje

N

icholas Von Behr tem nome de nobre... Nasceu em Mato Grosso, mas, ao lado de Cassiano Nunes, transformou-se em ponto de referência da poesia brasiliense. No início, em 1977, era um adolescente que imprimia seus livros em um velho mimeógrafo mecânico. Oferecia-os nos bares. Na época, a cidade vivia um momento único. O artista plástico Wagner Hermuche descreveu-o assim: – Vivíamos um momento único. Brasília era a capital do rock, a literatura passava por uma revolução e as artes plásticas geravam obras e discussões interessantíssimas. Parecia a Viena do início do século 20. Nick era parte desse movimento criativo desordenado e pujante, abrigado em saraus, concertos, shows e exposições. Não eram tempos fáceis. O regime militar vivia seus últimos estertores. O poeta teve de comparecer ao DOPS, em 1979, para explicar por que vendia livros na noite. Havia suspeita de que sua obra era subversiva. Terminou vendendo uma coleção completa para um dos agentes. Isso não evitou um processo por porte e divulgação de material pornográfico, do qual foi inocentado em 1980. Ao longo dos anos, seus interesses se ampliaram. Casou com Alcina e teve dois filhos. Virou publicitário e ecologista. Abriu um viveiro. Nunca deixou de escrever, mas viveu um período de reclusão literária, do qual saiu em 1993 com a obra Porque construí Braxília. Nela, expunha a dupla personalidade de Brasília. Uma terra onde a corrupção e a indignidade convivem com pessoas que ralam, sofrem, amam e atingem a velhice com dignidade e honra. Foi o primeiro a perceber que o sonho modernista da capital se tornara numa antiutopia retrógrada, demagógica e populista. Insurgiu-se, com versos cheios de desencanto e amargura. Em 2007, Nicholas deixou de ser alternativo. Até então, publicava seus próprios livros. De repente, surgiu o convite de José Eduardo Agualusa, escritor angolano que acabara de criar a editora Língua Geral. Vieram daí Laranja seleta e O bagaço da laranja. É isso! De alternativo a poeta reconhecido, Nicholas Von Behr é uma espécie de Quixote às avessas. Deixou suas dulcineias no passado e hoje enfrenta gigantes de verdade, armado de uma poesia amarga e sólida. Pedro Paulo Rezende

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com o passar do tempo o conceito de superquadra teve de ser atualizado: espaço residencial fechado por altos muros e guaritas, heliporto exclusivo, blocos de vários gabaritos, sem áreas verdes, com quitinetes e quiosques ocupando a área antes livre dos pilotis

... brasília foi construída para ser destruída aos poucos exatamente como estamos fazendo

... brasília é uma cidade autoritária? é sim! quer ver? pra subir pra falar com o ministro só de terno e gravata pra descer só nu

... foi preciso demolir brasília para que outra, mais moderna, fosse construída no lugar quem pensou que brasília seria eterna, dançou

...

como chegar: não se chega pois não se parte onde ficar: não se fica (cidade suspensa ) o que ver: não há nada para ver pois a cidade (bem imaterial) só existe na teoria como sair: a cidade não tem saída, é labirinto

... jk voltará glorioso, no seu jipe alado, coberto de asfalto, poeira e lama, vestindo o manto de plumas dos tupinambás na mão esquerda a flecha de oxóssi e na direita o tacape de cunhambebe, provocando assim a ira de iansã e a inveja do saci pererê

... o traçado já foi definido as máquinas estão a postos candangos aguardam ansiosos as obras da construção da capital nunca começam todos aguardam o nascimento-e-mortedo-deus-mito-futuro-fundador-da-cidadeque-nem-na-imaginação-existe

...


Palavra

Nicholas Behr

aquela é a estátua de teseu, maior herói cerrantense (sim, filho, maior que jk) libertou brasília da opressão do burocrotauro, um ser meio homem meio carimbo que vivia pelos labirintos dos ministérios, devorando lentamente qualquer fila que se formasse a sua frente

... uma forte tempestade trouxe à luz uma parte do que poderiam ter sido os ministérios, iniciando as escavações que permitiram identificar também estruturas habitacionais bastante complexas, com pessoas aparentemente vivendo dentro de grandes caixas de concreto

... tudo estava muito bem planejado brasília seria demolida logo após a inauguração porém, no último instante, num gesto de grandeza, jk mudou de ideia e logo depois se arrependeu

...

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deste império cerratense, desta solidão, deste palácio que em breve se transformará em ruínas, lanço meus cansados olhos mais uma vez sobre os escombros do meu país e antevejo uma alvorada que não chega nunca, com uma raiva danada e uma desconfiança enorme no eterno país do futuro

este poema é um elogio à brasília ou uma crítica à burocracia? na dúvida, carimbe aqui

... jk construiu brasília os candangos ficaram olhando

... jk chorou, deus chorou, os candangos todos choraram, (eu, mesmo não estando lá, chorei), quem viu a fotografia também chorou, quem não chorou se arrependeu tanto que chorou até os burocratas choraram nesse dia as águas do lago paranoá ficaram levemente salgadas

... estacionamentos de árvores genealógicas dinastias de engravatados dom carimbo de visconde cargos hereditários nobres funções

...

... usar lápis, régua, marreta ou dinamite? nenhum jk depois de jk 50 anos sem um novo deus

... e então jk ordenou ao sumosacerdote-arquiteto-mordo-templo que criasse uma cidade ao mesmo tempo monumental e simplezinha, pesada e leve, funcional e complexa, bela e aterradora mas que não fosse uma cidade-de-beira-deestrada

... já é brasília? não! apenas a sensação!


Artigo

Rui Faquini

Brasília, 50 anos C

om o estigma de país do futuro e da esperança, o Brasil, desde seus primeiros dias, sempre careceu de projetos genuinamente nacionais que dessem certo. A partir da epopeia de Brasília, pensada para simbolizar a alma de um Brasil novo, passou a ser o país do agora e da confiança. Quando substituímos a palavra esperança pela palavra confiança, temos a síntese da “ideia mater” que motivou os fundadores da cidade. Junto com os fundadores vieram todos os substratos da tez brasileira, entusiasmados pela mesma causa, que naquele momento se imaginava ser o soterramento dos passados. Tudo era agora! O futuro estava instalado. Não havia tempo a perder com o que ficou. As casas não tinham muros. Escolas, hospitais, espaços públicos etc, eram para todos. A Catedral era ecumênica e o próprio presidente aparecia para um aperto de mão. Isso era o novo! Daí nasceria o novo hom e m, o qual have ria de conduzir o Brasil pelo atalho que o colocará em lugar de destaque no concerto global. A cultura brasiliense, hoje

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emperrada pela sanha do “big business”, medra por gretas de autenticidade. Ainda imatura, mas saudável. Por mais que seja ofuscada pelos caça-níqueis, triunfará, pois é dela que emana a energia primordial do novo, desgarrada dos grotões e dos ranços que os fundadores ousaram deixar para trás. O novo homem, aquele que busca construir uma obra e não um currículo, que não se locupleta com acúmulos materiais em detrimento de outrem e do progresso geral, já está aí. Falta codificar a nova linguagem e cultivá-la para que a nova comunicação se dê. E a cultura brasiliense brilhe como foi sonhada!

Que o ensejo dos cinquenta anos nos anime a refletir sobre o que passou e nos lance na nova aventura, a de fazer valer a ideia mãe de ser farol em sendas desconhecidas. Viva a nova Brasília dos outros cinquenta anos.

Rui Faquini é fotógrafo e pioneiro de Brasília


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Mauro Cezar Lima


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