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Dom Carlos I, um rei conhecido por sua inteligência, interesse pelas artes, ciências e por sua grande capacidade diplomática. As sequências onde Lima Trindade desenvolve o processo de sedução do grande rei ao jovem plebeu são sutis e, sendo narradas do ponto de vista de António, plenas de inocência. Compartilhamos com António as dúvidas sobre os reais sentimentos do monarca, se ele foi apenas mais um seduzido de uma longa lista ou se Carlos I de fato lhe tinha afeto, um afeto que socialmente não poderia ser demonstrado ou revelado, jamais fica claro. Essa incerteza enriquece a narrativa, que do contrário poderia sucumbir ao sentimentalismo barato. Mas, longe disso, Lima teve a habilidade de mostrar que ao mesmo tempo em que Carlos I era um homem pleno de desejos era também um rei, um rei enfrentando um momento de crise de Estado, sobrando-lhe pouquíssimo tempo para sua vida pessoal. Essa dubiedade o enriquece enquanto personagem, tornando a angustia de António mais real. Tornando pungente seu impossível desejo de aparecer em um retrato tirado pelo rei. Em determinado momento da narrativa, António desabafa que “Nunca ninguém fez meu retrato. El-Rei tinha uma máquina fotográfica. No ano passado, fotografou os filhos. Bem que poderia me fotografar um dia” (p. 23). Mas essa foto se revelaria impossível. António estava condenado a ficar nas sombras. Ficou? Aparentemente não. Carlos I foi assassinado por simpatizantes da República no dia 1º de fevereiro de 1908. Seu amante, inconsolado, escreveu que “morreu aquele de quem só tive o exemplo da coragem e do amor”. Mas como sabemos que escreveu? De acordo com a narrativa, o António contemporâneo encontrou sua história em um blog obscuro chamado apelativamente de “Segredos de Alcova”. Como os autores do blog tiveram acesso a tais informações? Simplesmente inventaram? Parece pouco provável. O texto em primeira pessoa do António do passado, embora tenha uma ou outra expressão arcaica, é escrito em português brasileiro e moderno, dando a entender que se trata da atualização de um documento de época. Considerando todas essas informações, é possível que o amante do rei assassinado, sendo um jovem letrado e culto, apreciador de literatura, tenha decidido exorcizar suas angústias escrevendo sua história secreta em um diário, como era comum se fazer no século XIX e início do XX, antes da cultura da exposição extrema que vivemos hoje. Esse diário, depois de sua morte, pode ter sido incorporado ao acervo de algum arquivo, em função do fato de pertencer a alguém próximo da Corte. Tempos depois, eventualmente, foi encontrado por um historiador acadêmico que incluiu a descoberta em alguma nota de rodapé de seu trabalho científico, na condição de curiosidade acerca das práticas eróticas dos monarcas portugueses. É possível ainda que o detalhe tenha chamado atenção de neófitos, certamente brasileiros, que adaptaram as informações originais e as divulgaram para o grande público no blog de fofocas históricas. Surge aqui a terceira camada narrativa. A primeira é a do António contemporâneo que lê num blog, que é a segunda camada narrativa, a história do outro António, sendo que o texto do blog foi inspirado em um diário antigo.

Um manuscrito, naturalmente, diria Umberto Eco. Parece crível, mas, reforço, sou eu refletindo a partir das propostas de Lima Trindade. Apenas isso. Na verdade, é preferível que o mistério continue. Explicar demais pode tirar o encanto da estória, sem H. Afinal, Henry James foi mestre em instigar nossa imaginação com mistérios que encantam mais pela sugestão do que pelo explícito. Lima Trindade soube fazer sua parte. Seu O retrato é um livro sobre múltiplos corpos e múltiplos pontos de vista, que podem ser históricos ou ficcionais (como o autor faz questão de deixar claro ao final do volume). Dois corpos do Rei, dois corpos de dois Antónios diferentes, mas curiosamente próximos, ou aproximados, na vida e na morte.

O livro O retrato ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém Lima Trindade P55 Edições. 48 páginas

ADEMIR LUIZ

é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), doutor em História e pós-doutor em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Correio eletrônico: ademir.hist@bol.com.br

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Sainte-Beuve #05