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PARECE QUE FOI AMANHÃ

As ideias que levaram ao futuro o empresário, patriarca e cidadão

José Macêdo


JosĂŠ MacĂŞdo fala a trabalhadores do Moinho Fortaleza


José Macêdo na mesa de reuniões do seu escritório, na sede da empresa em Fortaleza


PARECE QUE FOI AMANHÃ

As ideias que levaram ao futuro o empresário, patriarca e cidadão

José Macêdo


© Copyright J.Macêdo S/A Comércio Administração e Participações. R e f e r ê n c i as o r i g i n a i s Agostinho Gósson, “Sou de centro, mas puxo um pouco pra esquerda.” Entrevista publicada no jornal O Povo, 30 de abril 1988. Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro, “Histórias de José Macêdo.” Entrevista publicada no jornal O Povo, 20 de outubro de 2004. Érico Firmo, “José Macêdo: o Inventor do Ceará.” Entrevista publicada na revista Arre Égua, nº 6, edição de abril de 2004. Clariane Rebouças, Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Eduardo Freire, Francisco Roberto, José Rocha, Júlio César, Liliana Couto, Márcio Régis, Oceli Lopes e Sílvia Carla. “Nem só de farinha vive J.Macêdo.” Entrevista concedida a estudantes de jornalismo, realizada em 10 de dezembro de 1992 na sala de redação do Curso de Comunicação Social da UFC, sob a orientação do professor Ronaldo Salgado, publicada na revista laboratório Entrevista, edição de 1993. Albany Perez e Alex dos Santos Villela (Rio de Janeiro, RJ), Edney Lima, Flávio Ferreira da Silva, Francisca Maria Ribeiro Costa, Jardel Germano, Paulo Parodi, Regiane Pires e Ronaldo Celestino (Fortaleza, CE), Emy Komatsu (Salvador, BA), Geraldo Damázio (Barueri, SP), Laura Kerges e Mauro Degraf (São Paulo, SP), Lúcio Ferreira (Maceió, AL), Oscar Amaral Jr (Manaus, AM) e Rubens Mesquita de Oliveira (Olaria, RJ). “Pergunte ao Fundador.” Série de entrevistas feita por funcionários do Grupo J.Macêdo, realizada e publicada na revista Diálogo, nº 3 ao 11, no período de novembro de 2005 a abril de 2007. Flávio Paiva, “Fonte dos Valores.” Entrevista publicada na revista Diálogo nº 18, edição de maio/agosto de 2008. Ima g e n s Afonso Caetano (62 e 63), Chico Gadelha (138b), Fábio Lima (4 e 5), Falcão Jr. (68 e 69), Fernando Cela (42 e 43, 44 e 45), Flávio Paiva (115, 138ª, 142 e 143, contracapa), Francisco Chaves (84 e 85), Geovanne Jinkings (117), José Wagner (82 e 83), Patrícia Araújo (Capa, 35, 132 e 133, 134 e 135), Spacca (55). Bancos de dados: Arquivo Nirez (50 e 51), Centro de Memória Dinâmica Monteiro Lobato, CMDML (2 e 3, 16, 20 e 21, 23, 26 e 27, 40 e 41, 53, 58 e 59, 60 e 61, 63, 66 e 67, 72 e 73, 74 e 75, 76 e 77, 80 e 81, 94 e 95, 102ª, 103, 108 e 109, 111, 112 e 113, 122 e 123, 124 e 125, 139, 141), Companhia da Memória (17), Omni Editora (102b). Revisão de textos Francisco Gomes Segundo Ed i ç ã o Omni Editora Associados Ltda. Rua Joaquim Sá, 746 CEP 60.130-050 Fortaleza, Ceará, Brasil Fone/Fax: (85) 3247.6101 E-mail: df@fortalnet.com.br www.omnieditora.com.br Impr e ss ã o Halley Gráfica S/A Or g a n i z a ç ã o Flávio Paiva e João de Paula Monteiro

P227 Parece que foi amanhã : as ideias que levaram ao futuro empresário, patriarca e cidadão José Macêdo / [organização, Flávio Paiva e João de Paula Monteiro]. Fortaleza : OMNI, 2009. 144 p. : il. , fots. color. Inclui fotografias. ISBN 978-85-88661-34-9 1. Macêdo, José Dias de – biografia. 2. Entrevista jornalística. 3. Grupo J. Macêdo. 4. Biografia. 5. Cultura empresarial. I. Paiva, Flávio, org. II. Monteiro, João de Paula.

CDU: 92Macêdo, J.

Este livro foi composto em duas variações DIN, uma fonte funcional e extremamente limpa, incialmente usada em ferrovias prussianas por volta dos anos 1900. Nos anos 1920, o alfabeto das ferrovias passou a integrar o sistema de padronização alemão conhecido como DIN (abreviatura de Deutsches Institut für Normung, ou Instituto Alemão de Padronização). DIN é descrita como um tipo de estilo atemporal e de fácil legibilidade.


Índice Introdução Uma biografia do pensamento,

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Apresentação José Macêdo na visão dos entrevistadores,

Capítulo 1. Infância e juventude,

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Capítulo 2. Visão de negócio e de empresa,

97 Capítulo 4. O patriarca pleno, 107 Capítulo 5. Político acidental, 119 Capítulo 6. Jeito de ser e de viver, 131 Capítulo 3. Valores e crenças,

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“Eu susto provi em nossas indú possam prejud ambiente.”


dĂŞncias strias que icar o meio


“costumo dizer que procurei em toda a minha vida cercar-me de profissionais melhores do que eu.�

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Introdução

Uma biografia do pensamento

N

o manuseio dos materiais relativos à preparação das comemorações dos 70 anos do Grupo J.Macêdo, observou-se uma característica de seu fundador, que é a capacidade de condensar pen-

samentos marcantes sobre a vida, os negócios, a família, valores e crenças, em frases e em histórias. Ao longo dos anos, os ditos de José Dias de Macêdo têm balizado as atividades das empresas do Grupo nos diferentes momentos de sua evolução. É famosa a resposta dada ao cartunista Mino, quando este perguntou-lhe, décadas atrás, a que ele atribuía o seu sucesso empresarial: “Sempre que alguém me pergunta qual a fórmula que usei para comandar a evolução permanente de J. Macêdo, do Ceará para todo o Brasil, costumo dizer que, além da obstinação pelo trabalho, procurei em toda a minha vida de atividade empresarial cercar-me de profissionais melhores do que eu.”

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No texto de apresentação do Código de Ética e de Conduta da J.Macêdo S/A, lançado em 2008, a fala do fundador organiza alguns preceitos essenciais para orientar as relações internas e externas da empresa, em sentenças curtas e claras, como na seguinte formulação:

“A maior riqueza da nossa organização é que ela, mesmo sendo um empreendimento privado, nunca agiu apenas como uma realizadora de negócios. Embora cultivando todas as características indispensáveis a uma empresa competitiva, a J. Macêdo sempre se considerou uma instituição a serviço do desenvolvimento.” 14


Igual manifestação desse gosto de fazer reflexões sobre o que constrói, José Macêdo declara em depoimento publicado no livro História Empresarial Vivida – Depoimentos dos Empresários Brasileiros Bem Sucedidos – Vol. IV. Cléber Aquino (Org.), Editora Gazeta Mercantil, São Paulo, 1988, que:

“O empresário tem que estar atento à função social da empresa, não só como contribuinte fiscal e pelas oportunidades de emprego que oferece, mas especialmente pela responsabilidade em termos de desenvolvimento econômico e de elevação do nível de bem-estar social.” 15


O cartunista Mino, para quem José Macêdo disse uma de suas frases mais marcantes

Conceituando sobre a atividade empresarial, ele sempre procurou compartilhar seu aprendizado com os funcionários, como neste pensamento difundido internamente pelo Boletim Informativo, da J.Macêdo CAP, em agosto de 1979:

“É necessário correr riscos suportáveis, procurando compatibilizÁ-los com nossa capacidade de suportar fracassos. 16


O escritor Monteiro Lobato, que dá nome ao Centro de Memória de J.Macêdo

Mas devemos distinguir o ousado do temerário.” O mesmo órgão de informação interna, edição de setembro/outubro de 1979, repercute a fala de José Macêdo, por ocasião do recebimento da Medalha do Mérito Industrial, da Federação das Indústrias do Ceará, Fiec, em 11/10/1979, na qual destaca-se um comentário sobre sua visão a respeito do delicado momento político que vivia o Brasil no final do regime militar:

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“Em que pese seus riscos, o processo de abertura política apresenta expectativas promissoras. Seja pela emergência de novas lideranças, seja pela devolução do poder de crítica aos meios de comunicação, seja pela possibilidade de alívio das tensões sociais, seja pelo restabelecimento do estado de direito.” Em vários momentos da sua vida, José Macêdo expressou, em frases variadas, sentimentos motivados pela sua índole de pessoa simples, condescendente, comedida nos gastos e apaixonada pela natureza. Uma dessas expressões

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foi registrada pela jornalista Wânia Cysne, na Revista Fame, que circulou na edição de 22 de março de 1980, encartada no jornal O Povo, em uma entrevista tipo pingue-pongue:

“Eu me entedio com o papo dos gabolas. Eu protesto contra o hábito dos brasileiros de todos os níveis querendo viver como se o País fosse uma grande sociedade de consumo. Eu reivindico mais justiça social. Eu susto providências em nossas indústrias que possam prejudicar o meio ambiente.” Das suas frases que não foram publicadas, mas que circulam pelos corredores das empresas do Grupo J.Macêdo, uma traduz com grande propriedade o seu cuidado com a clareza da comunicação:

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Almoรงo com funcionรกrios na Oficina Willys

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“Mais importante do que eu digo é o que você entende.” E isso não é apenas uma forma de dizer, pois é muito frequente José Macêdo terminar uma conversa solicitando:

“Me diga agora o que você entendeu do que eu lhe disse.” A constatação do seu estilo de procurar explicar sua prática por meio das palavras, hábito manifestado muitas vezes em reuniões que ele convocava apenas para compartilhar pontos de vista com funcionários, suscitou a curiosidade de reunir o que pudesse haver registrado sobre suas ideias. Seu jeito de transmitir conhecimentos, próprio dos contadores de histórias, está preservado em inúmeros documentos da família e da empresa. Entretanto, optou-se neste momento por uma compilação de respostas dadas em entrevistas, publicadas em jornais e revistas, nas duas últimas décadas. O exame dessas entrevistas revela um José Macêdo sempre atencioso em responder a indagações de interlocutores dos mais diversos ambientes e sobre os mais variados temas. Este livro é apenas um recorte temporal, focado em meios impressos e circunscrito às respostas dadas em di-

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O livro Saga Empresarial historia os primeiros 50 anos do Grupo J.Macêdo

ferentes momentos. A bem da compreensão e do propósito de mostrar um pensamento integrado, tomou-se a liberdade de selecionar trechos, de aproximar, espacialmente, ideias afins e de editar algumas expressões para ajustá-las aos variados contextos, sempre com o cuidado de preservar a essência das formulações. Ainda com a intenção de situar melhor o leitor, foram feitas algumas atualizações de dados e complementações de informações, usando-se o recurso convencionado de colocá-las entre colchetes. No processo de organização do texto, percebeu-se que as frases e as histórias de José Macêdo requeriam um espaço especial de contemplação que possibilitasse ao leitor sentir a dimensão humana das suas revelações. Considerando isso, optou-se neste livro por um formato gráfico que possibilitasse a visualização dos conteúdos com leveza. Para a apresentação, recorreu-se, com a devida licença de estilo, a trechos das aberturas das entrevistas pesquisadas, como forma de expor o tipo de sentimento que o entrevistado despertou nos entrevistadores. A identificação dos entrevistadores e a época em que foi feita cada entrevista estão realçadas por meio de legenda de cores, com as seguintes distinções:

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Agostinho Gósson, 1988, Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro, 2004, Érico Firmo, 2004, Flávio Paiva, 2008, Estudantes do Curso de Comunicação da UFC, 1993 e Funcionários do Grupo J.Macêdo, de 2005 a 2007. É importante esclarecer que esta publicação não pretende historiar a trajetória da empresa, que está devidamente narrada no livro “J.Macêdo – uma Saga Empresarial Brasileira”, do jornalista Glauco Carneiro (Edicom, 1989, São Paulo), cobrindo os primeiros 50 anos da J.Macêdo. A memória do Grupo J.Macêdo está sendo sistematizada e será disponibilizada ao público por meio do Centro de Memória Dinâmica Monteiro Lobato, CMDML, que homenageia o grande escritor brasileiro e empreendedor da brasilidade, e que servirá de espaço para expor a vida e obra do Fundador José Macêdo, a evolução do modo J.Macêdo de empresariar e a atuação das empresas nos seus respectivos mercados. Este livro é, portanto, um tributo às ideias de alguém que chegou ao futuro. Alguém que nos seus 90 anos conquistou o que se propusera alcançar como empresário, patriarca e cidadão. José Macêdo, com seu espírito pioneiro e a partir do Nordeste, tornou-se um dos ícones de uma geração empresarial que pensou e se atreveu a construir as bases industriais de um País que, nos primeiros anos do século XXI começa a ocupar lugar de destaque em um mundo que vai se reconfigurando em relações de multipolaridade. Flávio Paiva e João de Paula Monteiro Organizadores

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Há 20 anos o trabalho, este valor de José Macêdo, é tema de anúncio no dia 1º de maio


“Meu verdadeiro hobby é o trabalho.”

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Apresentação

José Macêdo na visão dos entrevistadores

Por Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro (2004)

C

Comerciante de quase tudo que apareceu pelo caminho, o cearense de Camocim garante que apenas três negócios lhe renderam realmente lucros: Jeep, farinha de trigo e cerveja.

Muito mais jovem do que sua idade possa aparentar, a

memória e a disposição não negam. Revelou que se pesa todos os dias. “Para ver se estou sempre no mesmo peso. Mania minha.” Mantém, há anos, a caminhada matinal e alimentação regrada. Não dispensa os chás, como de quebra-pedra, mastruz ou camomila, e a sesta depois do almoço. José Macêdo realmente é forte, tanto quanto o conglomerado de empresas, que começou a montar muito moço, quando tinha 20 anos. Já trabalhava ao lado do pai comerciante, seu Manoel, desde os 12. Mas, partir de uma pequena

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sociedade com um cunhado e chegar a um megapatrimônio de dimensões nacional e internacional é realização para poucos. Sua história de vida impressiona. Ele ganhou dinheiro - ou perdeu algum, muito pouco, mas chegou a perder (acreditem!) - com representação comercial, venda de Jeep americano, carne, cerveja, pneus, transformadores elétricos, avestruzes, tecidos, castanha de caju, tintas... e trigo. Só para citar algumas de suas apostas. Todos o tratam por “senador”, apesar de José Macêdo afirmar sempre que detesta política. Já foi um parlamentar (três mandatos de deputado federal e um de senador suplente que acabou efetivado no cargo) e não gostou. Mas a deferência foi mantida. Até os filhos o chamam assim, algumas vezes, no dia-a-dia. José Macêdo, que votou em José Serra [eleição para presidente em 2002], é mais um grande empresário brasileiro que considera o governo Lula “uma surpresa boa.” “Eu acho que ele está fazendo milagre aí.”

Por Érico Firmo (2004) Transcorridas sete décadas, o império de José Macêdo consolida-se não apenas como potência nacional, na produção de alimentos, mas também como um dos pilares do desenvolvimento do Ceará na segunda metade do século XX. Não seria de todo sem propósito afirmar que José Macêdo está para o Ceará da segunda metade do século XX,

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da mesma forma que Barão de Mauá está para o Brasil do segundo reinado. Visionários, criadores por natureza, acreditaram na indústria em meio à mentalidade de um estado e um país agrário, atrasado, sem perspectivas de chegar a lugar algum. Romperam barreiras. Construíram as próprias condições para trilhar seus caminhos. Acertaram, erraram. Ganharam e perderam dinheiro. Com Mauá, começava a nascer aquilo que, um século depois faria do Brasil uma nação industrial. Com José Macêdo nasceu um Ceará cujo espaço, no cenário brasileiro, ia além da miséria e da seca. Também não seria um equívoco dizer que José Macêdo é uma espécie de Quixote nordestino. Longe de qualquer loucura, Macêdo, assim como o mais carismático personagem da literatura universal, é um homem que sempre enxergou a utopia como o possível, o que está por ser realizado. E, também em seu caminho, os moinhos, que não são de vento. Estes sim, gigantes do desenvolvimento econômico. J.Macêdo é detentora da marca de farinha de trigo mais famosa do Brasil: a Dona Benta. O grupo marcou presença em segmentos [diversos] cuja única lógica perceptível, para compreender suas inter-relações, é a vontade criadora que o move, personificada em José Macêdo. Da trajetória do vitorioso empresário e do político que vivenciou os momentos mais turbulentos da História da República no Brasil, emerge o vigor de um homem cuja capacidade realizadora transcendeu os limites dos próprios — inúmeros — negócios e serviu de impulso para o desenvolvimento de todo um Estado que ainda hoje luta para ser grande.

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Por Agostinho Gósson (1988) É de centro-esquerda o presidente [do Grupo J.Macêdo]. Ele trabalha das 8h30min às 20h, todos os dias, com três horas para o almoço, ampliando essa jornada de trabalho, eventualmente, ao sábados e domingos. “Meu verdadeiro hobby é o trabalho”, diz ele. Faz meia hora de ginástica diariamente e gosta de caminhar sempre que possível. “De 4 a 5 quilômetros”, revela. Ele nunca fumou e confidencia que somente uma vez embebedou-se. “Foi de propósito. Eu nunca tinha ficado bêbado e quis ver como era. Fiquei, mas não foi fácil”, descontrai-se José Dias de Macêdo, um dos empresários pioneiros em muitos setores de atividades no Ceará. Eleito deputado federal pela 1º vez em 1958, na legenda do PSB, substituindo, de última hora, um irmão que falecera, José Dias de Macêdo foi deputado pela Arena e PDS e foi suplente dos senadores Virgílio Távora e José Lins de Albuquerque. Confessa-se um homem de pouca inclinação política, defende a Revolução de 64 e, embora homem de convicção irremovível, faz elogios a Tasso Jereissati, contra quem trabalhou na campanha eleitoral. “Meu candidato era o coronel Adauto Bezerra. Mas hoje vejo que foi bom ele ter sido derrotado e o Tasso ter sido eleito”, revela José Macêdo, lembrando que, na época da campanha enfrentou, com esportividade e espírito democrático, a posição política dos filhos, a maioria deles pró-Tasso. Além de administrar suas empresas, fazer ginástica e andar, José Macêdo gosta de ler jornais e, quando tem tempo, alguns livros.

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Por Clariane Rebouças, Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Eduardo Freire, Francisco Roberto, José Rocha, Júlio César, Liliana Couto, Márcio Régis, Oceli Lopes e Sílvia Carla (1993) Com apenas 9 anos, José Dias de Macêdo deixava de jogar pelada com meninos de sua idade para ajudar o pai no comércio, em Camocim. Sempre gostou de trabalhar. Para ele, trabalho é saúde. Desde cedo gostou de inovar no que se referia a trabalho. Quando tornou-se sócio do cunhado Carlindo Cruz, numa firma de representações, José Macêdo já era sinônimo de inovação. Trabalhador incansável, andava “alinhado”, de terno branco e sapato preto, como ditava a moda da época. Em suas andanças pela cidade, percorria mercearias “vendendo seu peixe” e procurando “peixes diferentes para vender.” Tanta dedicação e trabalho foram recompensados. Casado com Maria Proença, José Macêdo se diz doutor com pós-graduação em criação. É pai de 8 filhos, tem 26 netos e 9 bisnetos [28 netos e 25 bisnetos, em setembro de 2009]. O segredo para um relacionamento duradouro, segundo ele, é dar importância à mulher. Não poupa elogios à sua: “Minha mulher é uma mulher valente, mulher calma, tranquila, mas muito forte.” Tranquilidade é o que sente por ter uma mulher tão competente quanto companheira. No Ceará, foi responsável pelo primeiro frigorífico industrial, pelo primeiro moinho de trigo, pela primeira cervejaria e pela primeira financeira. No Nordeste, o grupo construiu a

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primeira fabrica de transformadores elétricos e a primeira de pneus. Em 1959, ano de sua entrada na política como deputado federal, foi fundada, em homenagem a Antônio [irmão que falecera], a fundação Doutor Antônio Dias Macêdo, [que atendia] aos funcionários do grupo, dando-lhes assistência médica, odontológica, [alimentar] e até jurídica. A conversa com o empresário aconteceu em clima de descontração. Falou, falou e falou sobre os negócios.

Por Flávio Paiva (2008) Com a condução dos negócios passada aos filhos Roberto, Amarílio e Georgina, o “jota” da J.Macêdo, que ainda dá expediente todos os dias no escritório sede da empresa, em Fortaleza, coloca-se como o criador de uma organização que, como ele acredita, reinventa-se ciclicamente, adequando-se às características do tempo. Na Fazenda Canhotinho, no sertão do Ceará, onde construiu um lugar em que pudesse descansar inventando, ele gosta de falar da vida e da empresa, reforçando intuições e sabedorias que o preservam um nonagenário jovem e sereno, no usufruto pleno do dever cumprido.

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“A minha vocaç empreendedor menino. Uma pa atribuo à minh a outra, enten sido fruto do jei meu pai me edu


ão de vem desde rte eu a natureza e do que tenha jeito como o cou.�


“A casa onde eu nasci, hoje é uma escola, que se chama Georgina Leitão Macêdo, nome de minha mãe.”


Capítulo 1

Infância e juventude

E

u nasci em Camocim, uma cidade do litoral. O pessoal chama Zona Norte, mas o mais certo seria dizer Litoral Oeste. Sou filho de uma família de 11 irmãos, dez homens e uma mulher. Meu pai é filho

único, ficou órfão de pai com nove anos e de mãe com onze. Era um homem muito sadio, muito saudável. Foi um homem que se fez por si próprio, no Amazonas. Ele era parte de uma corrente migratória de todo o Nordeste. Na época, aquela região tinha ainda índio. Índio mesmo, que usava ainda arco e flecha. E tinha ainda muito bicho por lá. Principalmente a onça. No trabalho da borracha, ele levantava às duas da manhã, fazia almoço, almoçava e saía. Como ele se alfabetizou eu nem sei, porque quando ele foi para o Acre, ele foi com uma irmã mais velha, mas com 16 anos ele deu o grito de independência ou morte. Era de São Raimundo Nonato, no Piauí. Naquela época,

qualquer seca levava milhares de cearenses e piauienses, mais cearenses, a todos os seringais daquela região mais

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Igreja matriz do Bom Jesus dos Navegantes, em Camocim, pintura de Raimundo Cela, que José Macêdo preserva ao lado da mesa de trabalho do seu escritório.


Igreja matriz do Bom Jesus dos Navegantes, em Camocim, foto de Fernando Cela, sobrinho do pintor Raimundo Cela.


A buc贸lica Camocim da primeira metade do s茅culo xx


produtiva da borracha, que era a fronteira do Amazonas com o Acre. 90% eram cearenses. Meu pai era um homem muito trabalhador, muito forte, muito corajoso. Ele fez sua economia e depois teve seu próprio seringal. Os cearenses iam para lá e muitos morriam com a sezão [malária]. Ele casou e foi para lá. O primeiro filho morreu e quando o segundo filho ficou doentinho ele mandou minha mãe de volta para Camocim. Eu andava de tamanco, que é uma peça de madeira, com um courinho por cima... Meu pai era comerciante e era tido como um homem rico em Camocim. Mas era considerado rico por quê? Porque a mesa era farta, o café da manhã tinha leite, tinha pão, tinha ovos, frutas, tinha tudo... O almoço e o jantar eram fartos. Na sexta-feira da paixão a gente dava esmolas a dezenas de pessoas. Mas a casa onde eu nasci era de tijolos, não tinha forro. Até 1927, não tinha luz elétrica na cidade, era candeeiro. Não tinha água encanada, era puxada de balde para tomar banho de cuia. E meu pai era um homem de certo padrão. Hoje, no interior, nas fazendas, está tudo bem arrumadinho, bonitinho, o pessoal tem televisão, uns tem geladeira... Então a coisa mudou de uma maneira fantástica. A casa onde eu nasci, hoje é uma escola. Eu comprei duas casas vizinhas, o fundo do quintal de mais duas outras e fiz uma escola muito interessante. Fica na esquina da rua Bom Jesus com a rua da Independência. A escola se chama Georgina Leitão Macêdo, nome de minha mãe. O aluguel da escola é em bolsas, então parte dos alunos paga e parte não paga. Tudo por minha conta. Eu tenho impressão que tem uns 400 alunos. Nós tínhamos um tio que era cônsul do Brasil na Argentina e minha mãe estava com muitos filhos. Ele pediu que ela

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“minha vida como garoto foi muito interessante em Fortaleza, porque era movimentada.” mandasse o mais velho para estudar com ele, lá. Então, o mais velho foi criado na Argentina, que era o Francisco, que depois foi morar no Rio de Janeiro. De maneira que quando nasci, ele já não morava mais com a família. Eu só vim conhecê-lo muitos anos depois. O segundo foi Antônio Macêdo, que foi o único que estudou, que fez o ginásio no interior. Porque Camocim não tinha o ginásio, ele foi estudar em Sobral. Veio para Fortaleza como contador, trabalhou, estudou e formouse em direito. E eu o considero como meu segundo pai, o pai cultural, o pai na parte religiosa. Agora o terceiro, Hilário, estudou também, trabalhou como contador e veio para Fortaleza. O quarto, Isaac, que era tido como muito inteligente, foi o único filho que veio para Fortaleza estudar no Colégio Menezes Pimentel, que é o Colégio São Luiz, na rua do Imperador, com a Liberato Barroso, onde depois eu cursei também o primeiro ano. Esse Isaac nunca trabalhou quando menino. O Gerardo ficou até os 14 anos de idade em Camocim. Veio para cá quando meu pai vendeu tudo que tinha e comprou um hotelzinho onde hoje é o edifício Palácio do Progresso. Eu morei ali de outubro de 1931 até casar [28 de março de 1942].

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Eu morava no Centro da Cidade [Fortaleza], na rua Conde D´Eu. O Liceu ficava próximo, o mercado ficava próximo, a igreja do Rosário ficava próxima. Na Praça do Ferreira tinha uma orquestra que tocava quase todo domingo. Então, minha vida como garoto foi muito interessante em Fortaleza, porque era movimentada. Mas era uma vida mais voltada para o trabalho e para o estudo porque eu ajudava no hotel do meu pai. Minha diversão era um cinema no Majestic. Todo domingo tinha uma soirée lá, às quatro horas da tarde. Eu fui com uma parenta nossa a uma festa da padroeira da cidade de Santa Cruz do Acaraú, hoje se chama Bela Cruz. Todo ano havia a quermesse. Eu fui pra lá com duas malas cheias de quinquilharias, espelhinho, pente. Eu sempre fui uma pessoa tímida. Tive um namorico com uma mocinha, meninota, que era hóspede do hotel. Mas meu pai disse, olha, com essa aí não convém porque não vai dar em nada. Tive um flerte com uma colega de Liceu, mas meu pai também

“olha padrinho, passar um ano aqui como vend caixeiro, balco 48


chegava e dizia: “meu filho, antes de você namorar com uma moça qualquer, você examina a família dela.” Namorada firme mesmo foi só a dona Maria. Dando um balanço no meu comportamento, nunca fui um bom estudante. Eu fiz o primeiro ano ginasial no colégio São Luiz e depois fui para o Liceu do Ceará. Então eu queria definir a minha vocação e tinha um raciocínio assim: “advogado é ladrão, ele é contra ou a favor às vezes da mesma pessoa, depende de quem pague.” Eu achava isso desonesto. E pensava em agronomia e tal, essa coisa de agricultura. Então, eu tinha um tio, J. Torquato, tio não, ele era muito mais do que um tio, era meu padrinho de crisma, era muito meu amigo. Ele era farmacêutico em Camocim, veio para Fortaleza e cresceu muito com um negócio de loja de ferragens. Eu o procurei e disse: “olha padrinho, eu queria passar um ano trabalhando aqui como vendedor, como caixeiro, balconista.” Era na Major Facundo, perto da rua Senador Alencar.

, eu queria trabalhando edor, como nista.” 49


Fortaleza na década de 1930, quando José Macêdo passou a morar na cidade e iniciou sua vida empresarial

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Ele disse: “pode vir.” E assim eu fiquei durante todo o ano de 1935, quando cursei o quarto ano ginasial, estudando à noite. A primeira aula eu assistia bem; a segunda, cochilando; e na terceira dormia. Mas eu já tinha a minha experiência de garoto no Camocim, de maneira que não fiz feio não. Eu já tinha estado em Fortaleza uma vez, vindo de navio. Era um navio que fazia Belém-Camocim-Fortaleza. Então, eu me pergunto: por que é que meu pai trouxe a mim e não um outro filho? Acho que ele já percebia meu interesse pela coisa. Com a experiência com o Torquato, eu decidi que tinha que ser do comércio. E fiquei. Antes de me associar com meu cunhado, o Torquato me arranjou um emprego de viajante, de vendedor de manteiga. Eu tinha 19 anos. E nessa época eu viajei para Recife. A minha chegada em Recife, em 1939, foi um impacto maior do que eu chegar em Nova York, nove anos depois, em 1948, de avião. Quando eu saí daqui com 19 anos, eu era um caipira. Eu fui a Recife, depois a Maceió, fui também à cidade de Penedo, no Rio São Francisco. De lá, fui para Sergipe, depois para Bahia. Na Bahia, peguei um navio que viajava doze horas, das seis da noite às seis da manhã, até Ilhéus, com todo mundo enjoado, menos eu. Mas aí a empresa entrou em dificuldade e eu voltei para Fortaleza. A minha vocação de empreendedor vem desde menino. Uma parte eu atribuo à minha natureza e a outra, entendo que tenha sido fruto do jeito como o meu pai me educou. Eu tinha muita vontade de possuir uma bicicleta, mas as nossas posses não davam para satisfazer esse meu desejo. Daí eu ficava olhando aqueles meninos que tinham uma e, ao invés de ficar com inveja, quando eu ia ou voltava da escola, saia pelas

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ruas de Camocim com os braços abertos, como se tivesse segurando um guidão, fazendo de conta que estava desviando das pedras e me equilibrando em duas rodas, que eram os meus próprios pés. Isso é o que eu acho que já fazia parte de mim. Mas, por outro lado, acho que contribuiu também o fato de o meu pai não querer que os filhos vivessem pelas calçadas. Eu ficava sempre com ele na loja de tecidos, encostado atrás do balcão. Quando retornava da escola, a minha distração, em vez de jogar futebol com os vizinhos, era ir para a loja. A minha vocação, desde criança, foi mercantil. Um belo dia, já com meus dez anos de idade, me dei conta de que estava sendo vendedor. Lembro que eu não tinha forças para rasgar a mescla, como se fazia naquele tempo, mas eu cortava de tesoura e fazia questão de atender os fregueses. Quando nos mudamos para Fortaleza, ajudei o meu pai no Hotel Moreira. Tinha uns 14 anos e fazia trabalho de garçom, cortava pão, passava manteiga, preparava a sobremesa, trocava toalhas e até cedia o meu quarto para hóspedes, quando era necessário. Mesmo tremendo de vergonha eu ia para as estações suburbanas, tomava o trem, com um cartãozinho na mão, para agenciar hóspedes. Fazia isso também indo de barco até os navios. Certa vez consegui hospedar toda uma companhia de teatro, que tinha mais gente do que a capacidade do hotel, de hospedar. Modificamos uma coisa daqui, ajeitamos outra dali e o certo é que fizemos o milagre de caber todo mundo e, o que é mais importante, é que todos ficaram satisfeitos.

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“Ficava alegre ao ver que aquelas pessoas encontravam em mim uma maneira de chegar ao que queriam.�


Capítulo 2

Visão de negócio e de empresa

D

esde menino que gosto de vender. Gosto de estar perto das pessoas que estão interessadas em comprar alguma coisa. Sempre tive curiosidade em saber o que faz com que elas se interessem

por um determinado produto. Quando descobria o que elas estavam procurando, mesmo que eu não tivesse, buscava um jeito de conseguir para vender. Ficava alegre ao ver que aquelas pessoas encontravam em mim uma maneira de chegar ao que queriam. É claro que o objetivo maior de uma venda é obter um bom lucro, mas para quem, como eu, é vocacionado para vender, é importante a satisfação de quem vende e de quem compra. Eu comecei minha vida empresarial em setembro de 1939, precisamente. Quero citar essa data, como sendo meu inicio, porque foi quando eu recebi uma carta de meu cunhado Carlindo Cruz, me admitindo como sócio interessado na firma dele, com uma participação de capital

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Na Nova Iorque do fim da década de 1940, José Macêdo dá partida ao negócio Jeep, com o qual ganhou seu primeiro milhão de dólares


A atenção ao cliente, característica empresarial de J.Macêdo, já se manifestava nos primórdios das suas atividades, com a criação de uma escola para capacitar os compradores de Jeep


Para José Macêdo, o irmão Benedito (detalhe) foi o herói da compra e do traslado do moinho Stucky, da Itália, onde hoje funciona o hotel Hilton Veneza


Vender Jeep foi uma aventura. Viajei para os Estados Unidos sem falar inglês, sem dinheiro nem patrimônio para conseguir a representação da Willys Overland. Não dispúnhamos de capital para enfrentar aquilo. Não tínhamos experiência nenhuma. Se fosse exigido abrir carta de crédito, eu não tinha lastro para isso. Quando mais tarde um inspetor da fábrica [Willys] veio a Fortaleza, o máximo que eu tinha conseguido fazer era um galpão para a montagem dos veículos. Vinha tudo desmontado em caixotes de madeira. Mas consegui convencê-lo de que, embora modesta, a firma podia dar conta do desafio. Deu certo. O Jeep não era só de uso rural. Era cadillac, era tudo. Era usado para transportar algum produto, mas quando era reveillon, o proprietário ia de smoking para o Ideal Clube também no Jeep. Era um carro barato e servia para tudo. Montamos uma auto-escola para ensinar os nossos clientes a dirigir. Imagine que naquele tempo era como diz a música do Luiz Gonzaga: “automóvel lá nem se sabe se é homem ou se é mulher.” Era uma coisa parecida com o que hoje se chama de pós-venda. A inovação na nossa empresa vem desde o negócio do Jeep. A importação de Jeep foi o primeiro grande negócio da J.Macêdo, foi como ganhamos o primeiro milhão de dólares e tivemos fôlego para podermos entrar no negócio do trigo, que até então inexistia no Ceará. Naquela época, o moinho mais próximo do mercado cearense era o da Bunge, em Recife. No começo, eu admiti na empresa, praticamente, todos os meus irmãos como sócios. Os dois mais novos, Benedito e Fer-

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nando, como os principais sócios depois do fundador. Benedito foi um grande sócio que eu tive. Era um homem de uma cabeça muito boa e nos ajudou muitíssimo. Na parte do moinho de trigo, por exemplo, ele teve uma participação muito grande. Foi o herói da compra e do traslado para Fortaleza do moinho da Itália [Moinho Stucky, em Veneza]. A gente ia se completando. Em alguns assuntos eu entrava, noutros ele entrava. Meu cunhado Carlindo Cruz, aquele que foi meu primeiro sócio, acabou com o negócio dele lá em Recife e veio para o Ceará. Eu organizei uma empresa para ele aqui. Depois, eu tive meus quatro genros trabalhando. Tive cunhado. Enfim, quem era Macêdo, a gente colocava na empresa. Então, houve uma grande mudança. Acabou essa coisa de família. Ficaram, é lógico, o Benedito e o Fernando, que eram dois grandes acionistas. Recentemente, o Fernando vendeu a parte dele. Com a profissionalização iniciada na década de 1970, de Macêdo, só ficaram na administração da empresa meus filhos Amarilio, presidente dos moinhos, e Roberto, de outras empresas nossas. Eu sou presidente do Conselho. Mas quem dirige os moinhos é um diretor geral. Um cidadão contratado, especializado. Em 1989, quando a empresa fez 50 anos, essa reestruturação estava feita. A nossa empresa não é dirigida por uma pessoa. Nós fazemos um trabalho de equipe. No passado, nós éramos três cabeças: doutor César Montenegro, meu irmão Benedito e eu. São pessoas cristãs, mas não paternalistas. Sempre procuramos olhar o social como coisa prioritária. E tem também a questão salarial. Nós reconhecemos que realmente o salário mínimo não atende às necessidades de uma família.

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A ação pioneira de instalação do Moinho Fortaleza, no Mucuripe, criou as bases para o desenvolvimento de um dos mais importantes pólos de trigo do Brasil


Na Esplanada do Mucuripe, o edifĂ­cio sede da J.MacĂŞdo expressa o sentimento de brasilidade e brinda Fortaleza com uma obra de arte urbana do pintor Estrigas


Em 1984, decidimos que nenhum funcionário nosso ganharia salário mínimo. O nosso mínimo, via de regra, são dois salários. Os nossos diretores, que assumem responsabilidades de comando da empresa, são pessoas que ganham mais que qualquer mini-empresário. O nosso comportamento na empresa prova a nossa preocupação social. Em 1959, criamos a fundação Antônio Dias de Macêdo, e essa fundação passou a ter escolas, com cerca de duas mil crianças. Quando foi estabelecido o 13º salário [1962], nós já o vínhamos pagando há dois anos. No prédio do Moinho Fortaleza funciona a única Escola de Técnico de Moagem da América Latina, uma iniciativa nossa, assumida pelo Senai. Antes, um operário de limpeza, inteligente, que passava a ser assistente de moleiro, ia aprendendo e virava moleiro. Às vezes, um homem que mal sabia ler tornava-se um técnico de moagem. Com o Certrem, hoje é requerido preferencialmente, que eles sejam ou engenheiros mecânicos ou engenheiros eletricistas. Todos os anos sai uma turma com mais de vinte alunos de todo o Brasil, dos mais diversos moinhos. A nossa contribuição para o Estado quando o Tasso [Jereissati] assumiu era de 10% do total arrecadado e nós não somos 10% do Ceará. Somos 3%. Durante muito tempo eu ligava pro Lima Matos [então Secretário da Fazenda] pedindo para ele cobrar o imposto dos outros, reduzindo assim, a nossa participação relativa. O nosso êxito empresarial foi decorrência de um trabalho constante, de um equilíbrio de “tudo nosso”, gastando pouco desde o início, sempre poupando, enfim, mesmo de-

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“mesmo depois de capitalizados CONTINUAMOS LEVANDO uma vida de classe média com recursos.” pois de capitalizados continuamos levando uma vida de classe média com recursos. Nunca houve aquela preocupação de comprar um iate, por exemplo. Havia sempre um comportamento voltado para o trabalho. Até hoje, ainda com a idade que eu tenho, estou totalmente voltado para meus negócios, acompanhando o faturamento mensal das empresas. Enfim, o meu hobby é trabalhar. É a coisa que mais gosto. Durante um certo período eu era totalmente avesso ter qualquer atividade fora do Ceará. Em 1959, eu tinha sido eleito deputado federal e não admitia nem mesmo comprar um apartamento no Rio de Janeiro [então capital do Brasil] porque eu não queria fazer nenhum investimento que não fosse no Ceará. Era essa minha concepção de vida, meu cearensismo, naquela época. Finalmente um irmão meu comprou um apartamento e, um ano depois eu acabei ficando com ele. Já em 1967, decorridos portanto 8 anos, começamos a investir fora do Ceará. E porque fizemos isso? Porque já havíamos atingido tudo que podíamos fazer aqui. Como queríamos expandir nossas atividades, então compramos o moinho de Natal. Neste mesmo ano, houve uma oportunidade de alteração e vendemos o controle dos dois moinhos, o de Fortaleza e do

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José Macêdo descerra a placa que inaugura na sede da empresa o Espaço de Gestão Estratégica César Wagner Studart Montenegro, com a presença de Lúcia Montenegro, filha do homenageado


Darcy Costa, Roberto Macêdo, Fernando Macêdo, José Macêdo, Amarilio Macêdo, Gerardo Macêdo, César Wagner Montenegro, Dolor Barreira, Temístocles Macêdo, Francisco Macêdo, Benedito Macêdo e Ferrucio Ginelli em reunião de diretores do grupo J.Macêdo na década de 1960


Alunos do Certrem, Centro de Treinamento em Moagem e Panificação, que recebe o nome de José Dias de Macêdo


Rio Grande do Norte. O objetivo foi nos capitalizarmos e compramos mais moinhos pelo Brasil afora. Então foi uma guinada decorrente de uma abertura de cabeça, decorrente de uma visão mais larga. Então passamos a comprar moinho e tornou-se indiferente, se a atividade era aqui ou era fora. Nós crescemos muito no Ceará e chegamos em uma posição incômoda para os cearenses. Tudo era Macêdo...Quer dizer, não convinha, não era interessante. Diversificar foi uma estratégia que adotamos num período em que investir em muitos negócios era um facilitador para o crescimento e sustentação empresarial. Apenas para se ter uma noção do quanto diversificamos, tivemos negócios nas áreas de revendas de veículos, fabricação de cerveja e até de pneus. Hoje, além de alimentos ainda temos negócios em tintas [Hidracor] e em transformadores [Cemec]. Cada negócio tem a sua dinâmica e é natural que as razões para entrar ou sair de cada um podem ser as mais variadas. Por exemplo: houve um tempo em que entramos na atividade de fiação e tecelagem, em Maranguape, fabricando sacos de algodão para farinha de trigo. Com o advento da fibra plástica, mais resistente e mais barata do que o algodão, a fabricação de saco de pano foi superada. Quero dizer com isso que muitas mudanças ocorreram por conta das transformações na economia do País. O aumento da competição forçou as empresas brasileiras a se especializarem. Não tínhamos como ir contra essa tendência. Assim, o foco em alimentos, que fizemos na última década é o resultado de uma opção por vantagem competitiva, decidimos aplicar nossas energias no que somos melhores.

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Houve uma fase em minha vida que eu estava efervescente, sempre com o desejo de realizar alguma coisa nova. Meti-me, inclusive, em negócios que não sei se deveria ter me metido. Mas sei que fazia parte da vontade de fazer, de empreender, como foi o caso do Frigorífico Industrial de Fortaleza, o Frifort. Criamos o moinho de Fortaleza para resolver o problema do abastecimento de trigo na região. Andava sempre em busca de uma nova atividade. Queria descobrir o que não tínhamos no Ceará para construir. Criamos a cervejaria Astra, com o nome de uma marca de cerveja de Hamburgo [Alemanha], para enfrentar a Brahma e a Antarctica, mas acabamos nos associando à Brahma. Quando o Ceará foi ficando pequeno, evoluímos para o restante do Brasil. A Pneus Tropical, que criamos na Bahia, foi uma primeira tentativa de fazer um negócio nacional. O certo é que em cada momento éramos movidos pela consciência da necessidade da diversificação e do desenvolvimento de novos negócios. Naquele tempo a diversificação era a forma que achávamos mais adequada para promover o crescimento dos negócios. A necessidade de focar em algumas poucas áreas veio bem depois. Se não tivéssemos sido audaciosos não teríamos saído do lugar. A lição é que vale a pena ousar. O empreendedor fanático gosta de estar fazendo sempre coisas, mais coisas e mais coisas. Entrei em muitos negócios malucos. Durante a nossa existência, nós desativamos, vendemos, fechamos mais de trinta empresas. A concorrência é inerente ao mundo dos negócios. Ela é natural e saudável. Essencial à eficiência e ao equilíbrio

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O Presidente da República, Ernesto Geisel, entre autoridades baianas, participa da inauguração de mais uma fábrica de J.Macêdo, que acrescenta o negócio de pneus aos de tintas, energia, cerveja e biscoitos, em momento de intensa diversificação


A ação pioneira da criação da Cemec vem evoluindo ao longo dos anos com os avanços tecnológicos, em um processo constante de inovação que impulsiona à produção de energia limpa das usinas eólicas


A valorização da arte levou J.Macêdo a disseminar obras exclusivas do pintor Aldemir Martins em latas de tinta, transformando pontos de venda em galerias de arte na década de 1990....


... A Hidracor, que sempre liderou o mercado nacional de tintas hidrossolúveis, já é a primeira em textura e a terceira em tintas líquidas no Norte e Nordeste


“Na J. Macêdo sem a estratégia de uma montanha


empre adotamos conquistar de cada vez.�


do sistema econômico. Exemplo disso, é que, quando existem monopólios e oligopólios, os primeiros prejudicados são os consumidores e a sociedade. O que significa menos produção, emprego, renda e impostos. Isso evidencia a necessidade de normas sociais para assegurar os benefícios da livre concorrência. Quando essas normas não funcionam a contento, se estabelece o jogo predatório. Temos, portanto, a responsabilidade de praticar uma ética concorrencial e sermos ativos na ajuda à sociedade para que ela nos distinga com suas escolhas na hora de fazer suas compras. Na J. Macêdo sempre adotamos a estratégia de conquistar uma montanha de cada vez. Às vezes, entre uma montanha e outra, passamos por terrenos pantanosos, difíceis de atravessar. O certo é que avançamos confiantes no reconhecimento dos nossos valores por parte da sociedade, na força das nossas marcas e produtos e no talento e determinação dos nossos colaboradores. No momento estamos diante de uma cordilheira, perseguindo o horizonte de empresa de marcas e de consumo, com produtos inovadores e de qualidade para atender as necessidades e os desejos dos consumidores em sabor, valor nutricional e praticidade. Sinto-me renovado com a recente mudança da J. Macêdo para uma empresa 100% Consumo, propiciada pela Aliança estratégica que fizemos com a Bunge. Agora, mais do que nunca, saber vender é fundamental para o sucesso da nossa empresa. Tenho dito que numa empresa todos são vendedores. E nada é mais importante para um vendedor do que honrar o que prometeu ao cliente. Fico feliz e empolgado quando verifico que vendemos todo mês mais de 30 milhões

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“numa empresa todos são vendedores. E nada é mais importante para um vendedor do que honrar o que prometeu ao cliente.” de pacotes de quilo de farinha de trigo e 26 milhões de pacotinhos de 500gr de macarrão, em toda parte desse imenso “continente” que é o Brasil. Nossa busca de ser uma empresa de consumo foi acelerada quando fizemos a Aliança com o grupo Bunge, e os derivados de trigo deles passaram para cá, e toda a linha de produto industrial nossa passou para lá. Resolvemos especializar o nosso foco. Hoje, J. Macêdo é uma empresa essencialmente de marcas e distribuição. Nós vamos abandonar a parte de venda para indústria e vamos crescer na parte de produtos para supermercado. Tínhamos a linha de produtos Dona Benta e Brandini, agora, passamos a contar com as linhas Petybon e Sol. Já éramos fornecedores de todas as grandes redes do Norte, Nordeste e Sudeste. Agora passamos a ter presença forte também no Sul. A propósito, estamos fazendo 40 anos de uma relação de confiança com a Bunge. Uma relação que começou em 1967, quando vendemos para eles 60% das ações dos moinhos de Fortaleza e de Natal. Com o dinheiro dessa venda, nos capita-

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“estamos na continuação da realização de um sonho, que persigo desde a minha juventude.” lizamos para comprar outras unidades de moagem ao longo da costa brasileira. Dez anos depois, em 1977, conseguimos comprar de volta as ações que tínhamos vendido do Moinho Fortaleza e eles ficaram donos do moinho de Natal. Mas, mesmo como concorrentes, mantivemos nas décadas seguintes um relacionamento de proximidade, cordialidade e respeito mútuo. Foi por conta dessa relação especial que tivemos condições de realizar a Aliança atual, de muita complexidade e de grande valor para os negócios das nossas duas empresas, concebida e comandada pelo meu filho Amarílio. Estou muito satisfeito com os resultados que temos conseguido nessa relação entre empresas independentes que se complementam e que já têm um considerável histórico de amizade. Na verdade, estamos na continuação da realização de um sonho, que persigo desde a minha juventude. Nossos funcionários também fazem parte desse sonho que se chama J.Macêdo. Que a nossa empresa continue crescendo e sendo reconhecida por produzir bens e serviços de qualidade, satisfazendo seus consumidores e clientes, gerando resultados econômicos e cumprindo sua função social e cultural para

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“Desde que criei a nossa empresa, sempre me preocupei em encontrar formas de torná-la sólida e duradoura.” o desenvolvimento do nosso País. Faz parte também desse sonho a minha confiança de que meus familiares continuem administrando nosso negócio, com a mesma competência e idealismo, após o meu desaparecimento. Condição para isso é que eles continuem tendo, o que sempre tive: a colaboração de profissionais íntegros, capazes e dedicados à perpetuação da nossa empresa. Desde que criei a nossa empresa, sempre me preocupei em encontrar formas de torná-la sólida e duradoura. Tudo o que fiz foi muito sondado, muito cuidadoso, procurando me inteirar dos mínimos detalhes. Por isso nunca deixei de investigar e de ir atrás de conhecer muito bem cada novo projeto que se pensava. Mas, pensando bem, o maior cuidado que eu tive toda vida foi o de buscar aliar-me com pessoas que me completassem no que eu queria fazer. E nestas pessoas, além da competência, o que prestei mais atenção foi o grau de envolvimento com a empresa e a honestidade. É com essas pessoas que compartilho a construção da J. Macêdo que nos orgulha.

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“vejo a questão algo tão impor a Visão de Futu do Modelo de Neg Estou muito satisfeito com o lançamento recente do Código de Ética e de Conduta da J.Macêdo S/A. Para a longevidade da empresa, vejo a questão da ética como algo tão importante quanto a Visão de Futuro e a definição do Modelo de Negócio. Esse Código, como sistematizador da nossa cultura empresarial, é o terceiro pilar imaterial da estrutura que está posta para garantir as condições de funcionamento de uma organização coesa, lucrativa e duradoura. As empresas são comunidades formadas por pessoas de origens e expectativas distintas e com maneiras diversificadas de comportamento. Para ter sucesso, essa diversidade precisa ser estimulada nas suas potencialidades de criar, colaborar, controlar e competir, numa busca permanente do crescimento com equilíbrio dinâmico. Uma empresa como a nossa, que está presente em todas as regiões brasileiras, precisa valorizar a diversidade das culturas que a compõem. Para isso, mais do que um propósito comum é

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da ética como tante quanto ro e a definição Negócio.” fundamental que as pessoas que fazem a organização tenham um padrão de princípios e de normas de ação, que as alinhem, com base no que de melhor identificamos em nosso jeito de fazer negócio.

Três publicações, em 1978, 1989 e 2008, registram a atenção do Grupo J.Macêdo com a ética

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O neg贸cio de alimentos de J.Mac锚do passou a concentrar-se em produtos de consumo...

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... com destacadas posições de liderança nacional nas categorias de farinha de trigo doméstica, misturas para bolos e macarrão.

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“Considero-me uma pessoa religiosa. Tenho fé, mas longe de mim qualquer fanatismo.”


Capítulo 3

Valores e crenças

E

Eu estava aí com os meus 17 anos, quando apareceu no Hotel Moreira um cidadão se dizendo Químico Industrial, que vendia essência para fabricação de genebra e outras bebidas. Ele tinha comprado

um carro velho para pagar com a venda das tais essências e, como não conseguiu, acabou preso. Fui até a delegacia e a maneira que encontrei de soltá-lo foi avalizando as promissórias da compra do carro. Só que ele se mandou com o carro e tudo. Então o proprietário procurou o meu pai para que ele pagasse a dívida. Meu pai não achou certo que ele tivesse aceito a minha assinatura dentro de uma delegacia, já que eu era menor de idade, e não pagou. Anos depois, quando eu já estava com a revenda de Jeep, no escritório da rua Floriano Peixoto, vi da minha mesa um senhor fazendo um pagamento no balcão. Percebi que era o homem das promissórias. Fui até ele e, sem me identificar, comentei sobre aquela história. Ele revelou que, curiosamente, ainda tinha os documentos guardados. Pedi que ele os trouxesse para que eu desse

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“Não gosto de p de pessoas que mostrando, que importantes do uma olhada. Ele trouxe, eu examinei, aí peguei um lápis e pus meu nome: José Dias de Macêdo. Ao ver a minha assinatura ele ficou tão espantado que confundiu o nome do meu pai com o do hotel: “Então o senhor é o filho do Moreira?.” E eu disse: “Não, não é Moreira não, é Macêdo.” Aí eu paguei a promissória e o homem quase morre de satisfação. E eu, eu me senti bem em resolver aquela coisa que tinha ficado pendente por tantos anos. Considero-me uma pessoa religiosa. Tenho fé, mas longe de mim qualquer fanatismo. Sou cristão, acredito que Cristo veio à terra. Fui Congregado Mariano na minha adolescência. Durante um certo tempo, nos períodos de Carnaval, fazia retiros em um convento de Jesuítas. Assisto missa aos domingos e faço minhas orações toda noite antes de dormir. Não costumo discutir sobre religião. Tenho a minha e respeito a dos outros.

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edantismos, ficam se querem ser mais que as outras.” Eu tenho pena de quem não tem religião. Eu acho que o homem tem que adorar alguma coisa, nem que seja bezerro de ouro. Tive que me casar moço. O padre me confessava e tal, eu comungava, às vezes até diariamente. O padre dizia: “Isto não pode, um sujeito com 22 anos, namorando, noivo. Você tem que casar.” O padre marcou uma reunião no Clube Mariano. Eles fizeram os cálculos de quanto eu ganhava e de quanto gastaria se casasse. Resolveram que dava para casar com o que eu ganhava. Sendo que eu não fui na conversa deles. Eu fiz um arrendamento do Hotel Moreira, que era do meu pai, onde hoje é o Palácio do Progresso [Fortaleza]. Lá eu tinha casa, comida e roupa lavada. Eu nunca gastei tudo o que ganhei. Se eu ganhava cinco, gastava três ou quatro, sempre poupei. Mesmo assim, antecipei o meu casamento pra poder ter uma vida cristã.

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Não gosto de pedantismos, de pessoas que ficam se mostrando, que querem ser mais importantes do que as outras. Eu costumo dizer, e tenho dito muito ultimamente, que nós somos uma família de classe média com recursos. Quem quiser bancar pose, pode bancar. Eu não tenho pose. Eu sou um exemplo neste particular. Certa vez, em um vôo de São Paulo a Fortaleza, eu sentei ao lado de um desses executivos cheios de si. Ele passou a viagem toda dizendo “eu sou isso, eu faço aquilo, eu mando em não-sei-quem.” E eu, escutando. Quando estávamos perto de desembarcar ele parou o falatório por um instante e perguntou: “Quando nos apresentamos o senhor falou que trabalhava na J.Macêdo, o que o senhor faz mesmo lá?.” Eu, que estava farto da conversa dele, respondi com indisfarçada ironia: “Eu sou o Jota.” No que ele, sem perder a pose, soltou um riso que não entendi o que quis dizer. Normalmente eu não viajava de férias. Mesmo em passeio eu sempre procurava encaixar um objetivo empresarial qualquer. Isso não é uma recomendação para ninguém, estou falando do meu jeito de ser. Se ao retornar eu reunia as pessoas para contar o que tinha me chamado à atenção era para estimular os outros a viajarem, pois como eu costumava dizer para os meus filhos, “cobra que não anda não engole sapo.” Compartilhar as nossas descobertas é enriquecedor. Não acredito em quem guarda informações só para si. Todos crescemos quando trocamos experiências. Principalmente no ambiente da empresa, onde a circulação das informações que precisam ser comuns é fundamental para a capacitação coletiva no trabalho e para a competitividade do negócio.

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“Compartilhar as nossas descobertas é enriquecedor. Não acredito em quem guarda informações só para si.” Sou um homem de centro-esquerda, puxando um pouco para a esquerda. Eu respeito meus filhos, em todos os sentidos. Eles têm liberdade, liberdade de raciocinar, têm liberdade de tudo, entendeu? O filho que quiser tratar de outra atividade, trata; trabalha quem quer trabalhar e no que quer trabalhar; os que tem maior liderança estão na administração geral, os que não tem, estão de acordo com sua vocação... Na campanha política eu cheguei em casa, na hora do almoço, e vi o Tasso, Tasso, Tasso em todo lugar. Ai eu disse: “De amanhã em diante não entra nenhum carro com o nome do Tasso. Boto tudo na rua.” Mas ai eu pensei melhor e... ei, negativo, negativo! Bota os Tasso aqui dentro e bota os Adauto lá fora... Cada pessoa é única e tem as suas próprias aspirações. O que estimula a uma pode não estimular a outra. Não existem fórmulas que modelem as individualidades. Nesse meiotempo o que podemos fazer é nos preparar para buscar, enxergar e segurar as oportunidades quando elas se apresentam. Acredito no sucesso que resulta da obstinação pelo

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Antônio Macêdo

Barão de Mauá

trabalho, da perseverança, da disciplina, do zelo, da correção e do comprometimento com aquilo que fazemos. A pessoa que mais me influenciou foi o meu irmão Antônio Macêdo. Ele foi para mim como um segundo pai. Me estimulou nos estudos, nos valores morais e espirituais e me animou a fazer ginástica, um hábito saudável que conservo até hoje. No meu desenvolvimento empresarial, o primeiro apoio que recebi foi do meu padrinho José Torquato, que me deu o trabalho de caixeiro na minha adolescência. Depois, tive a grande oportunidade que me foi dada pelo meu cunhado Carlindo Cruz. Ele me chamou para ser seu sócio no seu escritório de representação comercial. Foi daí que nasceu a J.Macêdo. Fui influenciado também pelo meu amigo Raul

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José Macêdo com Rachel de Queiroz

Barbosa que, quando governador do Ceará, colaborou para a montagem do nosso primeiro moinho de trigo. Foi por influência dele que acabei entrando para a política. No meio político fiz bons amigos e muito aprendi com o governador Virgílio Távora e com o Flávio Marcílio, que foi vice-governador do Ceará e presidente da Câmara Federal. Eles eram como irmãos para mim. A escritora Rachel de Queiroz, sempre me impressionou pela modéstia, uma das qualidades que mais admiro no ser humano. Ora, ela, com toda a expressão que tinha na intelectualidade brasileira, era completamente despojada de qualquer pose. Quando eu era jovem li um livro intitulado “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de um autor chamado Dale

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“Sempre procur em tudo o que fa com obstinação encanto para em Carnegie. Esse livro marcou muito minha maneira de me relacionar com as pessoas. Já de personalidades históricas, não me lembro de alguém que tenha me influenciado diretamente, mas de algumas figuras por quem tenho muita admiração. Posso dizer que Abraham Lincoln, pelo espírito público; Barão de Mauá, pela capacidade empreendedora e Assis Chateaubriand, pela ousadia, embora este tenha tido muitos comportamentos que deixaram a desejar. Sempre procurei ser correto em tudo o que faço, trabalhar com obstinação e ter um encanto para empreender. Nunca considerei a empresa apenas como um meio de ganhar dinheiro, mas como um instrumento de interesse da sociedade e de valorização de iniciativas geradoras de riquezas. Já vivi acima da média dos que vivem com lucidez. Posso dizer que procurei evitar repetir a velha máxima “Pai

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ei ser correto ço, trabalhar e ter um preender.” rico, filho nobre, neto pobre”, dizendo insistentemente para os meus filhos que não somos ricos, somos apenas classe média com recursos. Tem sido assim que venho cultivando a ideia de uma J.Macêdo duradoura. Nas festas juninas as pessoas pegam uma roupa e enchem de remendos. Fazem isso para representar o caipira, que andava todo remendado. Ele aproveitava uma roupa velha para remendar outras. Hoje não existe mais isso, compram logo uma nova. Eu acho que a greve, em certos casos, é um direito do trabalhador. Mas sou inteiramente contrário a ela em alguns setores. Acho que a polícia, a justiça os operários do serviço elétrico e telefônico, no setor de transportes coletivos, não podem fazer greve. A sociedade não pode pagar porque uma classe está em greve.

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“Eu me considero um craque em casamento. O segredo é dar importância à mulher.” 106


Capítulo 4

O patriarca pleno

E

Eu sou um patriarca convicto. Fui pai com 23 anos e meio. Avô aos 42 anos e bisavô aos sessenta e quatro anos. Acompanho mais ou menos a vida dos meus netos todos e de alguns bisnetos. Eu me con-

sidero um craque em casamento, porque no resto, não me elogio, não. O segredo é dar importância à mulher. Eu gosto muito da minha. Eu sempre digo. Se fosse casar dez vezes, era ela e não tinha escolha. Quando inauguraram o Cine Diogo, com o filme Balalaika [musical de 1939, com Nelson Eddy e Ilona Massey], fui ao cinema e tudo indica que ela [Maria] foi na mesma sessão. Mas não a vi. Fiquei apaixonado pelo filme. Eu tinha vinte e um anos e já tinha começado o meu negócio. Eu estava na Praça do Ferreira conversando com um senhor quando passa uma mocinha de preto, alvinha. Eu comentei com esse senhor que tinha achado aquela menina interessante. Ele disse que era “a filha do seu Proença e que o pai dela morava lá no Jacarecanga.” Dias depois eu estava caminhando na Praça

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“Quando inaugu Diogo, com o filme ao cinema e tud [Maria] foi na me 108


Brincadeira feita pelos filhos de José e Maria Macêdo, em alusão às raízes do namoro dos dois, por ocasião dos 65 anos de aniversário da empresa e de 85 do seu Fundador.

raram o Cine me Balalaika, fui o indica que ela mesma sessão.” 109


do Liceu e iam três moças na frente e eu disse que estava interessado na que estava de preto. Eu disse isso e ela não deu nem resposta. Mas aí depois as meninas me encontraram e perguntaram se eu queria que elas me apresentassem a Maria. Eu disse que queria. Ela morava na Guilherme Rocha, pertinho da Praça do Liceu. Aí eu fui lá, peguei na mãozinha dela, adorei. Nunca mais deixei de vê-la todo dia desde então. Eu só fui ter alguma intimidade quando noivei. Durante o namoro, ninguém da família nunca falou comigo. Aí eu noivei e mudou tudo. Eu tinha planejado me casar em dezembro de 1942, mas depois de noivo me apressei mesmo. Nós namoramos um ano inteiro. Eu pedi a mão dela em noivado através de uma comunicação à família, onde o Torquato dava as minhas referências. Casei-me em março de 1942 e já nasceu menino em 43. Logo depois Maria ficou grávida do segundo filho. Em outubro de 1943 eu fiz uma viajem de negócios ao Maranhão. Foi a primeira vez em que me separei dela. Eu acho que ela tem uma influência extraordinária sobre mim. Sabe o que é uma pessoa tranquila, um marido tranquilo, certo de que sua retaguarda está protegida? Não tem problema de dinheiro. Na parte doméstica ela é uma pessoa equilibrada. É uma pessoa correta, forte, sabe mandar, sabe orientar. Cuidou dos filhos. Não joga carteado, não tem vícios, não anda com fofoca. É uma mulher extraordinária. Mesmo quando era deputado e senador nunca fiquei muito tempo longe da família. Vinha a Fortaleza toda semana. Uma das lições que aprendi na minha vida é que faz bem separar a empresa da família. É aquela história do “trate sua

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Casamento de JosĂŠ e Maria, em 1942.

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Família com amigos em Baturité, no final da década de 1950

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empresa como uma empresa e sua família como uma família.” Na relação com a minha família tenho boas lembranças das viagens que fizemos juntos. Uma vez fomos de Jeep para Camocim, passando por Granja, e depois subimos a serra da Ibiapaba por Viçosa até chegar à gruta de Ubajara. Na volta, passamos pela construção do açude Araras e me recordo demais da cena dos trabalhadores metendo cimento com pressão para penetrar nas brechas da rocha. Outra viagem com toda a família de grande valor para mim foi quando fui conhecer São Raimundo Nonato, a terra do meu pai. Fui dirigindo uma Rural Willys e o meu cunhado, um Jeep Willys, ambos veículos importados dos Estados Unidos por J.Macêdo. Seguimos pela estrada que passa por Iguatu e pelo Crato. Era o final do ano de 1958, um ano de seca, mas as chuvas do inverno já estavam chegando e pegamos muitos trechos “embrejados”, muitos atoleiros. A viagem continuou margeando o rio São Francisco até Juazeiro, na Bahia. Eu sei que tenho que morrer. Tenho consciência disso, como todo mundo deveria ter. Sei que estou no lucro há muito tempo. Fico surpreso por estar vivo e com saúde. Na família só tenho uma irmã, a Mariana, de 96 anos, que está com a idade mais avançada do que a minha. Mas veja que dos meus já foram sete: Francisco, Antônio, Hilário, Isaac, Gerardo, Napoleão e Benedito. Mais novos do que eu, tenho dois: Temístocles [falecido em 2008] e Fernando. Olho para a família que construí, e para a forma como os negócios estão encaminhados, e me sinto abençoadamente realizado. Recentemente, num fim-de-semana aqui na Canhotinho, antes de ir para a missa, comentei em uma roda de amigos que

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Roberto, José Macêdo Filho, Manoel, Mariana, Amarilio, José Macêdo, Dona Maria, Ângela, Margarida e Georgina em reunião da família sobre os negócios.

“Olho para a família que construí, e para a forma como os negócios estão encaminhados, e me sinto abençoadamente realizado.” iria me confessar para comungar e, assim, me preparar para me encontrar com a minha amiga. Aí o Amarilio me perguntou: “Mas quem é essa amiga?.” E eu respondi: “a minha amiga morte.” Comentei isso em um momento de felicidade. Então, eu acho, e acho mesmo, que morrer é uma coisa natural.

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A jovialidade de JosĂŠ MacĂŞdo, durante as homenagens que recebeu do seu clĂŁ, em Paracuru, no dia 8 de agosto de 2009, ao completar 90 anos


“Todo o Ceará que acompanha a minha vida sabe: eu nunca me interessei por ser político.” 118


Capítulo 5

Político acidental

M

eu irmão [Antônio Macêdo] era colega do Raul Barbosa na Faculdade de Direito. O Raul sabia que eu tinha adoração por esse meu irmão, que foi meu pai cultural e espiritual. Antônio era

mais velho do que eu doze anos. E o Raul me convenceu a lançar a candidatura do Antônio Macêdo a deputado federal. Ele dizia que aquele meu irmão era um sujeito preparado. Eu fiz a campanha dele sem que ele tivesse contato com um só eleitor. Todo o Ceará que acompanha a minha vida sabe: eu nunca me interessei por ser político. Eu fui compelido por acidente. Fui obrigado pelas circunstâncias e fui eleito. Procurei, pelo menos, no primeiro mandato trabalhar um pouco. Quando veio a Revolução, que o Brasil retornou sua confiança eu praticamente não frequentei mais o Congresso, vivi praticamente licenciado. Minha terceira eleição foi outra história. Disseram que não dariam legenda para empresários e quis pagar pra ver. No fim, acabaram me dando a legenda e eu

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assim continuei. Mas nunca fui um político dedicado aos meandros da atividade. Quando despertei para isso, já estava na hora de eu sair. Posso afirmar, por isso, que a política nunca me trouxe prejuízo nem benefício. Eu nunca usei a política em benefício de negócios, nem deixei a política prejudicar meus negócios. O Nordeste já teve um excelente presidente, que foi o presidente Castelo Branco, mas foi um tempo difícil, ele acabou não podendo fazer nada pelo Nordeste, nem pelo Ceará. E nesse sentido, acho que ele errou – ele poderia ter ficado mal falado pelo Brasil, que pensa que ele fez muito pelo Ceará, e acabou mal falado aqui também. Quer dizer, foi um estadista, homem de visão geral, que se preocupou em dar ao País uma Constituição bem elaborada, para aquelas circunstâncias – uma Constituição que, afinal, era bem melhor que essa que estão fazendo, cheia de bobagens. Já o presidente Sarney chegou à Presidência em consequência da morte de Tancredo Neves. É um homem que nunca foi aceito em virtude de suas origens da UDN e depois PDS. Tornou-se peemedebista dentro de um arranjo político. Nunca teve um apoio real. Agora, é um homem de grande experiência política: foi deputado, senador e governador, mas que não conseguiu governar. Se ele tivesse se liberado do PMDB, como foi compelido a fazer agora, ele teria feito alguma coisa. Quis compor, compor...e no fim, não teve nada. Mesmo assim, eu defendo cinco anos para José Sarney, e o regime presidencialista. Não sou contra o parlamentarismo, mas acho que o Brasil ainda não está preparado para ele e nem recomendaria eleições hoje, porque acho que não há tempo para isso.

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“Eu nunca usei a política em benefício de negócios, nem deixei a política prejudicar meus negócios.” Esperávamos um milagre, ingenuamente acreditando num milagre com a Nova República, e esse milagre não houve. Pelo contrário, a coisa piorou. A abertura implica em liberdade e a liberdade, às vezes, é mal usada, e ai vêm greves e outros sucessivos problemas. O plano cruzado foi uma maravilha. Se tivesse sido bem administrado poderia resultar na solução de alguns dos nossos problemas. Mas não, foi usado politicamente, visando ganhar as eleições. Penso que teria sido melhor o PMDB ter perdido em alguns Estados, vencendo em apenas 10 ou 11, mas com o plano cruzado bem administrado. Estaríamos hoje numa situação bem melhor. O Sarney ganhou as eleições mas perdeu o embalo do governo dele. Quem estava endividado pode sair do buraco, com a queda dos juros; mas quem, entusiasmado, investiu em novos projetos, entrou no buraco. Enfim, aquilo foi um sonho que durou poucos meses. O meu candidato seria Antônio Ermírio de Moraes, apesar de ser um pavio curto e de ter tido momentos lamentáveis na televisão, nas brigas com o Maluf e outros [disputas pelo governo de São Paulo], mas, no momento [1988], acho

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Adauto Bezerra, César Cals, Vicente Fialho, José Macêdo, Virgílio Távora, Dona Maria, Parsifal Barroso e Waldemar Alcântara no apartamento do casal na cidade do Rio de Janeiro, na década de 1960

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José Macêdo em um dos seus momentos de ação política nacional, em conversa com Armando Falcão, Marechal Lott e João Goulart

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que seria o nome ideal para a Presidência da República. O único, eu não vejo outro. Adauto e, especialmente, Virgílio e César, fizeram grandes governos. Trabalharam dentro da mentalidade do momento. Fizeram o que tinham que fazer mesmo. O Virgílio defendia o endividamento do Estado, porque tinha que fazer o desenvolvimento, e depois era o depois... Era essa a mentalidade da época, e se ele não tivesse endividado o Estado, ele não teria feito o que fez. Por isso, considero que a maior bobagem que se pode dizer é que os coronéis queriam manter a ignorância. Quem diabos, vai querer conservar alguém na ignorância? Conservar como? Qual a secretaria que tem mais verbas do governo? Não é a educação? Metade do funcionalismo está na educação. Por quê? Porque se pretendia combater o analfabetismo, dar ao povo, pelo menos a oportunidade do primário. Eu recebi uma turma na minha casa. Parece que o Virgílio e o Waldemar Alcântara estavam por trás disso. O José Pessoa [o empresário José Pessoa de Araújo] queria vender o jornal e, então, eu comprei a Gazeta de Notícias. Passei a ter, sem precisar, um jornal. Nunca tive condição de tomar conta. Entreguei ao Dorian Sampaio para gerenciar. Só tinha um mês que não dava prejuízo. Era o mês de julho, que era o mês de aniversário, porque tinha muita propaganda. Onze meses dando prejuízo, contra um que não dava. O próprio Zé Pessoa depois me entregou a rádio Uirapuru, que também estava falida. Foi outra confusão, nós ficamos com a rádio. Em ambos tive muito prejuízo. Os governadores todos merecem respeito. Acho que o

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“Os governadores todos merecem respeito. Acho que o maior político das últimas DÉCADAS foi Virgílio Távora.” maior político das últimas décadas foi Virgílio Távora. É político por índole, por formação e por vocação. É um exemplo do que deve ser um político. O Virgílio era de um temperamento muito especial. Meio antipático, meio cheio de “lundu.” Mas havia umas pessoas com quem ele mantinha uma cordialidade muito grande. Como homem do PDS, que sou, trabalhei contra a eleição do empresário e industrial Tasso Jereissati. Meu candidato era o coronel Adauto Bezerra. Mas hoje vejo que foi bom ter sido derrotado e o Tasso ter sido eleito. E pelo fato de ele não ser um político, ser um empresário, acho que ele está fazendo um governo lindo. Tudo que ele faz – ou quase tudo – eu bato palma. Considero o caminho dele correto e certo. Ele está procurando moralizar, acabou com todas aquelas injunções de empreguismo e apadrinhamento. Quer dizer, tudo aquilo que era da república velha do Brasil, república que ora vinha como nova, mas na verdade era velha mesmo. Ele está acabando com aqueles costumes de corrupção, de paternalismo, de apadrinhamento. Eu acho tudo isso certís-

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simo. A impressão que tenho é que se fosse eu, faria a mesma coisa, isto é, se eu fosse eleito, seria uma decepção para os políticos, pois teria a minha situação patrimonial assegurada e ia fazer isso que o Tasso está fazendo. Olha, eu acho que tudo de bom que dizem do governo Ciro é verdade. Não entendo como é que o Ceará consegue manter esse ritmo de crescimento. É uma coisa milagrosa. E a razão principal para isso é o governo que é equilibrado. O Governo está cobrando impostos e está sabendo aplicar. A atual política econômica do País [governo Lula] segue uma linha de pragmatismo que vem sendo desenvolvida

“É inegável a c da estabilidad não se tenha c ainda um nível crescimento co distribuição de 128


desde o governo anterior [governo Fernando Henrique]. Ela está de acordo com padrões internacionalmente disseminados nas últimas décadas. Estabilidade e crescimento são os pilares buscados por essa política. É inegável a conquista da estabilidade, embora não se tenha conseguido ainda um nível razoável de crescimento com emprego e distribuição de renda. Independente de quem venha a ser o próximo governante, entendo que ele precisa acelerar o crescimento com redução da pobreza, do desemprego e das desigualdades, condições para alcançarmos o desenvolvimento sustentável do nosso País.

onquista e, embora onseguido razoável de m emprego e renda.” 129


“Nasci em Camocim, gosto do mar, é lógico, mas minha atração pelo sertão é uma questão atávica.” 130


Capítulo 6

Jeito de ser e de viver

A

ssim que eu acordo, antes de levantar, começo a fazer ginástica. Faço um pouquinho, vou ao banheiro, faço a barba, e tal, e volto. Antes eu fazia 40 minutos de ginástica por dia. Agora, eu passei

para uma hora, pela manhã. Eu caminhava na praia. Agora eu faço ginástica e caminho à noite em casa. Cada volta são 275 metros, ou então, eu tenho uma esteira rolante no meu quarto. Ando dois quilômetros. Tomo café no escritório, despachando com alguém. Recebo muitos jornais: a Gazeta Mercantil, o Estadão. Assino a Veja. Leio diariamente a coluna do Lúcio Brasileiro no jornal O Povo, quando estou em Fortaleza. Não se ouve mais falar em rádio. Eu não ligo mais rádio. Televisão eu assisto muito. Não tenho excentricidades. Eu sou uma pessoa de comportamento mediano. Tenho uma fazenda em Quixeramobim. Eu adoro ir para lá, para andar, para andar a cavalo, nadar, para remar no barquinho dentro de açude, para me exercitar.

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JosĂŠ MacĂŞdo na Fazenda Canhotinho

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Fazenda Canhotinho, recanto do descanso criativo de JosĂŠ MacĂŞdo

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“Aconselho as pessoas que aspiram uma aposentadoria sedentária, a mudarem completamente esse raciocínio... Não sou vaidoso, mas acho uma falta de respeito um homem da minha idade andar fedorento a suor. Nasci em Camocim, gosto do mar, é lógico, mas minha atração pelo sertão é uma questão atávica. Meu pai nasceu numa fazenda e eu acho que vem daí o meu encanto pelas coisas da caatinga. Já Camocim ficou na minha lembrança como um lugar que o meu pai não se deu bem nos negócios, quando ele retornou com recursos da extração da borracha na Amazônia. Infelizmente o meu hábito de ler é um costume recente. Poderia ter vindo mais de longe, mas só nos últimos anos eu passei a ler quase que compulsivamente. Tenho permanentemente uma fila com dois ou três livros na espera. Do tempo da escola, me recordo de ter lido “Tarzan, o filho das selvas” [novela de Edgar Rice Burroughs]. Atualmente, estou lendo uma obra muito bem escrita sobre a vida de São Paulo. Pego nele toda hora que tenho uma folga. Essa história de ler está dentro da minha liberdade. Leio em casa e leio principalmente quando estou na Fazenda Canhotinho. Quando chego na fazenda, al-

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... Pois quem exercitar esse desejo está fadado a reduzir sua existência em alguns anos de vida.” moço, dou um cochilo, leio, ando pelos matos, vejo os bichos, o pasto, acompanho a ordenha, converso com os moradores... Aconselho as pessoas que aspiram uma aposentadoria sedentária, a mudarem completamente esse raciocínio. Pois quem exercitar esse desejo está fadado a reduzir sua existência. Quanto mais ativa e dinâmica for a vida de alguém, mais necessária se faz a preservação de um bom ritmo de vida. Pode ser fazendo caminhadas diárias, reduzindo ou mantendo o peso e procurando manter a mente sempre ocupada. Na maneira como organizei o meu sistema para viver, estou conseguindo fazer o que o tempo não me permitia antes, que é estar sempre lendo um livro. Diria também que um dos segredos da longevidade é procurar viver de acordo com a idade. Conheço muita gente que esconde a sua. Eu tenho orgulho de declarar a minha idade. A minha vida é resultante da educação que recebi. Meu pai era muito rigoroso. A nossa família era grande e ele queria que todos ajudassem uns aos outros. Se eu fosse começar tudo novamente, a partir daquela época, diria que procuraria

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Embora se declare um retardatário no hábito de ler, José Macêdo tornou-se um incentivador da leitura e do livro. Nesta foto, recebe em seu apartamento os casais de escritoras e escritores cearenses Ângela Gutierrez, José Augusto Bezerra, Murilo Martins, Regina Fiúza e Ednilo Soares, em 2007

Sete décadas depois, José Macêdo volta ao Liceu do Ceará, onde estudou, para falar aos estudantes sobre sua experiência de vida e sobre a importância da leitura na formação dos jovens

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“Infelizmente o meu hábito de ler é um costume recente. Poderia ter vindo mais de longe, mas só nos últimos anos eu passei a ler quase que compulsivamente.”

Com o empresário José Midlin, um dos inspiradores de José Macêdo do gosto pelos livros

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“A Rachel de Queiroz me dizia que a partir de uma certa idade cada ano vale por dois. Mas eu faço força para cada ano valer só um e meio.” ler mais. A única coisa que não fiz com afinco foi estudar. Com a compreensão que tenho hoje, eu leria mais, estudaria mais. Até que cheguei a acompanhar alguns acontecimentos históricos como a Guerra Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Mas somente depois de adulto é que descobri a importância da leitura. Falo da leitura, como interesse de arranjar tempo para ler. Mesmo assim, tendo que cuidar dos negócios, nunca li o quanto desejei. Nos últimos anos, mais liberado dos encargos da gestão cotidiana das empresas é que tenho lido com mais intensidade. Só não sou um cupim de livros porque leio devagar. Apesar disso, estou lendo bastante. Ler ajuda a gente a compreender melhor, a falar melhor e a colocar melhor as ideias. Então, se eu pudesse refazer a minha trajetória pessoal e profissional, diria que envidaria todos os esforços para conciliar os negócios com mais tempo dedicado à leitura. A Rachel de Queiroz me dizia que a partir de uma certa idade cada ano vale por dois. Mas eu faço força para cada ano valer só um e meio.

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José Macêdo, sentado na Praça dos Leões, em Fortaleza, ao lado da estátua doada por ele, como um tributo à escritora Rachel de Queiroz

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Sert達o de Quixeramobim, onde fica a Fazenda Canhotinho


PARECE QUE FOI AMANHÃ  

As ideias que levaram ao futuro o empresário, patriarca e cidadão José Macêdo.

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