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E S P E C I A L TOCANTINS, SANTA CATARINA E SERGIPE NA LISTA DE GOVERNADORES COM PROCESSOS DE CASSAÇÃO. CONHEÇA OS CRIMES ELEITORAIS MAIS COMUNS Revista de informação ANO I — Nº 2 BSB EDITORA

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Brasília

Quase 50 Brasília chega aos 49 anos se preparando para a festa do seu cinquentenário e enfrentando problemas estruturais nunca antes pensados pelos seus fundadores BRASILIENSES DECLARAM SEU AMOR PELA CIDADE  ENSAIO FOTOGRÁFICO DE IVALDO CAVALCANTE

R$

9,00

e d i t o r a

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A catedral de Brasília na Esplanada dos Ministérios


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A revista de inform


mação de Brasília.

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diretor de redação

editor executivo

editor associado

Marcos Linhares

Luís-Sérgio Santos

Luís Eduardo Girão

Editores de Arte

Everton Sousa de Paula Pessoa e Jon Romano Remy Portilho

diretor comercial

Redação Gabriel Alves, Vitor Ferns, Rafael Oliveira Itallo Cardoso, Luís Sérgio Santos Jr serviços editoriais e Fotografia Agência Brasil, Agência Estado, Reuters, Omni Editora colaboradores Aline Almeida, Carlos Henrique Araújo, Adriana Almeida, Vinicius Borba Revisão Priscila Peres apoio administrativo Sidney Girão Redação e publicidade BSB Editora Endereço SHIN CA 05 Bloco I Loja 112 Ed. Saint Regis — Lago Norte  CEP 71.503-505, Brasília, Distrito Federal FONE (61) 3468.5697  sucursal fortaleza Omni Editora — Rua Joaquim Sá, 746 fones (85) 3247.6101 e 9673.7375  CEP 60.130-050, Aldeota, Fortaleza, Ceará  e-mail: df@fortalnet. com.br  web-page www.revistafale.com.br/brasilia Arte

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BSB e d i t o r a

DIRETORES Luís Eduardo Girão Luís-Sérgio Santos Marcos Linhares

 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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ISSN 1519-9533 © 2009 BSB Editora

Maio de 2009  Ano I  No 2

CartadoEditor

P O LÍ T I CA

14 Corrupção eleitoral

Tribunal Superior Eleitoral mira cassações de governadores eleitos acusados de abuso de poder econômico no processo eleitoral

22

Saída para a crise

Paul Singer defende estímulo à economia solidária e as atividades comerciais locais junto às comunidades mais pobres

CA PA

30 Capital dos Brasileiros Brasília, a utopia tornada realidade pelo arrojo do político mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, chega aos 49 e se prepara para a grande comemoração dos seus 50 anos em 2010. Brasilienses e brasileiros comentam aspectos da cidade. Um ensaio de Ivaldo Cavalcante mostra um olhar especial sobre Brasília

Economia & N eg ó cios

40Talento e arrojo

Jovens talentosos abrem empresas, crescem e contribuem cada vez mais no comércio de Brasília

S EÇÕ E S

06 Talking Heads 08 Arena Política 10 Brasília Off 12 Online

46 10 Perguntas 60 Moda 62 Persona 65 Artigo

Responsabilidade dobrada

M

aio, mês das mães e da assinatura da libertação dos

escravos. E chegamos ao nosso segundo número. E que prazer e responsabilidade: ouvir quem tem a falar sobre nossa amada cidade que já se prepara para comemorar os 50 anos. Nesse número, falou quem tinha a dizer sobre a capital de todos os brasileiros: teve pioneiro, poeta, historiador, amigo de JK, gente que analisou a cidade por prismas diferentes, mas sempre construtivos e respeitosos. Nessa edição de Fale!Brasília, nem se rasgou seda tampouco defeitos, mas viu-se a cidade por alto, de lado, no centro e no entorno. E não podemos deixar de agradecer ao grande Ivaldo Cavalcante pela bela foto da capa e as do ensaio publicado nessa edição. Ou ao presidente do Instituto Histórico e Geográfico, Cel. Afonso Heliodoro, que abriu seu arquivo histórico pessoal, com suas lembranças de seu amigo JK. Altaneiro e dinâmico, aos 93 anos, uma figura que devemos ouvir mais na cidade e dar o devido respeito à entidade por ele presidida. Nossa revista é assim, ouve e você Fala. Há espaço ao contraditório, como na matéria sobre a temporada de cassações aos governadores, onde ouvimos vários lados, incluindo os advogados dos candidatos eleitos que respondem aos processos. Também abordamos os jovens empreendedores que apostam na cidade e ajudam a renovar a economia

local. Abrimos espaço ao pequeno Igor Macedo (8), que, a partir de junho, será nosso repórter mirim. Isso e muito mais, na revista que promete e cumpre a tarefa de ter na reportagem sua arma e escudo. Aguardamos suas críticas, sugestões de pautas e comentários. Os três mais bem escritos (e-mail: linhares@revistafale.com.br) ganharão, de acordo com julgamento da redação, um exemplar do livro História de Brasília, do pioneiro Ernesto Silva. Imperdível! Em junho, mais novidades: teremos o início de uma série de reportagens especiais sobre a educação brasileira, uma análise do turismo, da produção audiovisual, literária e religiosa do DF, e não para por ai. Às nossas mães, a poesia de Drummond, Para Sempre: “Por que Deus permite/ que as mães vão-se embora?/ Mãe não tem limite/ é tempo sem hora/ luz que não apaga/ quando sopra o vento/ e chuva desaba/ veludo escondido/ na pele enrugada,/ água pura, ar puro,/ puro pensamento./ Morrer acontece/ com o que é breve e passa/ sem deixar vestígio./ Mãe, na sua graça,/ é eternidade./Por que Deus se lembra/ — mistério profundo —/ de tirá-la um dia?/ Fosse eu Rei do Mundo,/ baixava uma lei:/Mãe não morre nunca,/mãe ficará sempre/ junto de seu filho/ e ele, velho embora,/ será pequenino/ feito grão de milho.” Boa leitura e até junho! n Marcos Linhares Diretor de redação

CAPA foto de ivaldo cavalcante

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Maio de 2009 | Fale! Brasília | 


TalkingHeads

Ad commodum Ad commodum suum quisquis suum callidusquisquis est.

Foto Laycer Tomaz

callidus est.

LEGISLAR É ASSIM

O processo legislativo hoje é aprimorar a legislação. Às vezes, é mais útil simplificar a lei do que votar novas leis. Mas, aqui no Brasil, para cada evento que tem impacto social, o primeiro pensamento da sociedade e da imprensa é fazer nova lei. Cândido Vaccarezza, atual

líder do PT na Câmara dos Deputados e que foi o responsável por acabar com 13 mil atos legais quando foi deputado estadual em São Paulo.

O tribunal tem que estar preocupado com o caixa dois, não com o caixa um.

presidente do DEM acha que criar barreiras para as doações de empresas pode aumentar o caixa dois (doações irregulares, não declaradas à Justiça Eleitoral) Rodrigo Maia,

ainda as passagens

Não acho um crime um deputado dar uma passagem para um dirigente sindical ir à Brasília. Lula, presidente

revelando que forneceu passagens aéreas para sindicalistas durante seu mandato de deputado federal.

Os sindicatos devem ter renda para pagar passagens para seus dirigentes. (PSDB-SP), retruca as declarações de Lula sobre o uso das passagens aéreas que tem direito.

Eles confundiram o partido com os interesses particulares deles.

ministro da Defesa, sobre a reação do PMDB às demissões de apadrinhados de políticos na Infraero.

Foto Silvio Tanaka

Foto esdon santos

Às vezes o deputado acha que tem que fazer alguma coisa para que não digam que ele não faz nada, e aí fica criando projetos. José Mentor , deputado (PT-

Vaccarezza.

Procuro alguém com uma mente independente e com uma trajetória de excelência e integridade. Barack Obama, presidente

dos EUA, sobre o primeiro juiz que ele irá indicar para a Suprema Corte americana.  | Fale! Brasília | Maio de 2009

Juliana Paes no “Café com Glória”, um bate-papo com Glória Perez sobre a novela das 21h, Caminho das Índias.

A fama me pegou de surpresa, mas nunca fui deslumbrada. A vida é que muda, não a gente. A única coisa que mudou de verdade foi que eu consegui pagar minhas dívidas. JULIANA PAES,

atriz.

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Ricardo Berzoini,

presidente do PT, manifestando-se contra as novas regras do TSE para evitar caixa dois.

Arnaldo Madeira,

Nelson Jobim,

SP) concordando com cândido

A melhor maneira de se acabar com a doação oculta é impedir a doação a partidos em época de campanha. Exigir a abertura de conta específica não agrega transparência.

Estou me lixando para a opinião pública. Vocês batem, mas a gente se reelege. Sérgio Moraes,

deputado federal (PTBRS), após arquivar processo contra o excorregedor da Câmara Edmar Moreira (sem partido-MG) dono de um castelo de R$ 25 milhões em Minas Gerais.

No passado, o presidente [Lula] foi a pessoa mais perseguida neste país, foi preso e virou presidente. Comigo aconteceu a perseguição interna, investigações, desejo de obter uma prisão contra uma pessoa inocente. Que país é este onde quem cumpre seu dever é preso? Protógenes Queiroz,

delegado da Polícia Federal na festa do dia 1º de Maio da Força Sindical, em São Paulo


ArenaPolítica Malha fina para Executivo, Legislativo e Judiciário?

Presidente Lula durante encontro com o presidente da China, Hu Jintao

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou Projeto de Lei (PLS 99/09), que está na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, prevendo que as declarações de imposto de renda de chefes do Executivo e ministros de Estado, membros do Legislativo e do Judiciário, em todas as esferas — federal, estadual e municipal —, poderão ser automaticamente incluídas na “malha fina” fiscal da Receita Federal. Além deles, o PLS também inclui pessoas que ocupam cargos de confiança, ordenadores de despesas em todos os órgãos da administração pública, magistrados, membros do Ministério Público e dos Tribunais de Contas. Será que aprovam?

Foto Ricardo Stuckert_PR

LULA visita novamente a china

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitará a China

(Pequim) de 18 a 20 de maio. Nessa segunda visita aos chineses, Lula tentará não só melhorar o comércio entre os dois países — podendo aí facilitar o trâmite das exportações pela alfândega e pelas duras regras de quarentena

chinesas —, como também tratará sobre o lançamento de satélites sobre a África. A China é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, importando principalmente soja e minério de ferro. Só no primeiro trimestre de 2009, o comércio entre os dois países alcançou US$ 7,011 bilhões, melhorando em 12,5% os números do mesmo período do ano passado. As exportações para os chineses aumentaram em 63% com queda nas importações.

Pouco investimento federal

Estão previstos R$ 48,8 bilhões de investimento no orçamento federal deste ano. De janeiro a março, somente R$ 3,674 bilhões foram investidos, ou seja, apenas 7,5%. E se formos analisar somente as despesas de 2009, o número despenca para R$ 359 milhões (0,7% do total). Se não mudar esse ritmo, o país pode piorar todos seus indicadores econômicos, e a taxa de desemprego vai disparar.

Mobilização em favor das cotas De acordo com informações da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, um Grupo de ativistas favoráveis ao PLC 180/2008 se reuniu em duas audiências com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Além das cotas para negros e índios, os parlamentares também sustentaram a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O projeto tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado há cinco meses e cria cotas raciais e sociais em universidades públicas e escolas técnicas federais. Sarney  | Fale! Brasília | Maio de 2009

afirmou que o Brasil tem graves problemas de inserção social e que as cotas apontam o caminho para começar a solucioná-los. Já Temer comprometeu-se a conversar com lideranças da Casa vizinha para sensibilizá-los a aprovar o projeto. A expectativa é que a CCJ vote o projeto até o final de maio. O ministro da Educação, Fernando Haddad, declarou não entender porque alguns parlamentares, entre eles o presidente da CCJ, Demóstenes Torres (DEM-GO), que aprovaram as cotas no Prouni, criticam a reserva de vagas para negros e

índios nas instituições públicas. Participaram das audiências a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o Ceabra (Coletivo de Empresários Afro-Brasileiros), o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), o CNAB (Congresso Nacional Afro-Brasileiro), o Conen (Coletivo Nacional de Entidades Negras), a Comunidade de Terreiros de Matriz Africana de Goiás, a Coper Negros (Negros e Negras pela Habitação de Goiás), a Educafro, o MNU (Movimento Negro Unificado), o MSU (Movimento dos Sem Universidade) e a Nação Hip-Hop. www.revistafale.com.br

Peru adota sistema de TV digital utilizado pelo Brasil

O Ministro dos Transportes e Comunicações da República do Peru, Enrique Cornejo, anunciou que adotará o mesmo sistema de TV Digital usado no Brasil, o International System for Digital Broadcasting (ISDB-TB). Segundo o Ministério da Relações Exteriores, “desde 2006, o Brasil promove, na América do Sul, em conjunto com o Japão, a divulgação do referido sistema, com inovações brasileiras”. Se o rítmo de implantação for o mesmo do Brasil, o Peru só terá TV em alta definição na Copa de 2014.


os VOOs PÓSTUMOs DE EX-SENADORES MÃO LIMPA. O parlamentar Jeferson Péres foi atuante na luta pela moralização do congresso. Fotos Fabio Rodrigues Pozzebom_ABr

Conta bancária para doações eleitorais

Tudo indica que o Tribunal

Superior Eleitoral (TSE) irá exigir, já nas eleições de 2010, que os partidos políticos abram uma conta bancária somente para receber e repassar doações eleitorais. O processo administrativo sobre essa medida já começou a ser julgado e o projeto está no gabinete do ministro Fernando Gonçalves. Esse é mais um capítulo a ser acompanhado de perto da novela sobre o financiamento de campanhas eleitorais.

Deus, magistrados e parlamentares Se você acha que já tinha ouvido tudo sobre o escândalo com passagens aéreas de parlamentares, vai ficar ainda mais horrorizado agora. Segundo dados do site Congresso em Foco, pelo menos 11 ex-parlamentares — seus familiares, amigos e ‘colaboradores’ — usaram as cotas de passagens depois do término do mandato. A relação de exsenadores inclui o governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), José Jorge, a presidente do Psol, Heloísa Helena (AL), o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (PMDB-DF), João Alberto de Souza (Pmdb-Ma), atual vice-governador do Maranhão, Rodolpho Tourinho (Dem-Ba), Roberto Saturnino (Pt-Rj) e Jorge Bornhausen (Dem-Sc), o deputado Alberto Silva (Pmdb-Pi) fecha a lista. Para

Querem acabar com 1.760 leis inúteis

É

digna de nota e de todos os elogios a iniciativa dos 21 deputados que compõem o Grupo de Trabalho de Consolidação das Leis Federais que pretende, até 2010, extinguir decretos, leis e normas incompatíveis, ultrapassadas e repetidas, num total de 1.760. Vamos torcer para que consigam. Ninguém mais aguenta ter que lidar com leis ultrapassadas como a recentemente extinta Lei de Imprensa, criada em 1967 pela Ditadura Militar, e que desrespeitava a Constituição Federal de 1988. Precisamos de menos quantidade e de mais qualidade no legislativo brasileiro em todas as esferas.

espanto maior, foram usadas passgens de cotas de dois senadores que morreram no exercício do mandato: Ramez Tebet (PMDB-MS), que presidiu o Senado entre 2001 e 2003, foi usada sete vezes após sua morte. As beneficiadas Mari Regina Vieira e Marly Souza eram funcionárias do gabinete do senador. Estranho mesmo é a viagem de Mônica Souza, irmã de Marly, que fez o trecho Assunção (Paraguai)–Curitiba. A viúva de Jefferson Péres (PDTAM), fez uma viagem após a morte do marido. Em dezembro de 2008, Marlídice solicitou ao Senado a conversão em dinheiro da cota de passagens aéreas não utilizadas. O pedido foi feito ao então presidente da Casa, Garibaldi Alves (PMDB-RN), que atendeu prontamente. Marlídice recebeu R$ 118.651,20, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

A S F R A S E S

[É falsa a visão de que o financiamento público exclusivo de campanha traria um custo maior para o governo.] Tarso Genro, (PT-RS) ministro da Justiça,

defendendo o financiamento público das campanhas eleitorais.

[Há muito deputado com medo da eleição e que deseja se esconder no meio de uma lista.] Arnaldo Madeira, (PSDB-SP) deputado federal, contrário às propostas da reforma política.

[Não sei quem acredita que tem consenso.]

Beto Albuquerque, (PSB-RS) vice-líder do

governo, desmentindo Tarso Genrro www.revistafale.com.br

Cerca de 20 membros da Bancada Parlamentar Evangélica reuniram-se com a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para abrir espaço para o debate de projetos de interesse da magistratura em tramitação no Congresso Nacional e de preocupações comuns ao Judiciário e ao Legislativo. De acordo com informações da AMB, também foram abordadas questões importantes para a melhoria do arcabouço legislativo brasileiro do ponto de vista de quem elabora e de quem aplica as leis. O encontro é mais uma etapa do trabalho que a AMB vem desenvolvendo no Congresso para mostrar o que o Judiciário pensa em relação a alguns temas. A bancada evangélica no Parlamento conta hoje com 54 deputados e quatro senadores de várias legendas.

REFORMA POLÍTICA. CONGRESSO ESTÁ LONGE DE CONSENSO A Câmara dos Deputados voltou a discutir a reforma política. O foco da reforma é o mesmo de dois anos atrás, quando o projeto foi derrotado em plenário: a votação em lista partidária – fechada ou aberta – nas eleições proporcionais e o financiamento público de campanhas. A falta de acordo que impediu a aprovação persiste. A proposta não tem data para ir a voto, embora o ministro da Justiça Tarso Genro (PT-RS) afirme que ela ocorrerá ainda esse ano. Os parlamentares ainda discutem a possibilidade de as mudanças serem aplicadas já nas eleições de 2010.

Maio de 2009 | Fale! Brasília | 


Foto: DIVULGAÇÃO

BrasíliaOff Lula recebe plano de carreira dos profissionais de segurança

Foto: Roosewelt Pinheiro_ABr

Paixão de Cristo movimentou a economia e o turismo local

A 36ª edição da Via Sacra em Planaltina-DF, a mais tradicional encenação da Paixão de Cristo do CentroOeste, uma das maiores encenações teatrais a céu aberto da America Latina, levou mais 100 mil pessoas para o Morro da Capelinha, local onde é realizada a encenação. Turistas de todos os estados e até de outros países vêm todos os anos para a cidade conferir a encenação, que é famosa por todos os anos trazer uma surpresa diferente na ressurreição, momento do clímax da apresentação. Cerca de 1.100 atores e 300 técnicos participaram da encenação, que é um show de realismo. Parte do público sobe o Morro da Capelinha junto com a apresentação, que começa no pé do morro e sobe evoluindo por estações. Planaltina-DF é a cidade berço do Distrito Federal, que no dia 19 de agosto completará 150 anos.

Brasilienses brilham no esporte internacional

O saltador brasiliense César Castro não pára de dar alegrias a Brasília e ao Brasil. Castro ganhou a medalha de prata no trampolim de 3m, em etapa do Circuito Mundial de saltos ornamentais, em Montreal, no Canadá. César Castro e o colega Hugo Parisi estão classificados para disputar em Roma, em julho, o 13º. Mundial dos esportes aquáticos. 10 | Fale! Brasília | Maio de 2009

O presidente Lula recebeu das

mãos do governador, José Roberto Arruda (DEM), e do representante dos bombeiros na Câmara, o deputado distrital, Aylton Gomes (PMN), a proposta do governo para o novo plano de carreira dos profissionais de segurança do Distrito Federal. Entre as propostas estão a criação de

uma gratificação no valor R$ 1 mil por risco de morte, promoções por tempo de serviço, aproveitamento de profissionais da reserva e escolaridade de nível superior para todos os postos. Caso o plano seja aprovado em tempo, 6.595 militares impedidos de crescimento na carreira serão promovidos ainda neste ano.

Construtoras comemoram

Nova loja Comper em Águas Claras

As construtoras do DF comemoram as medidas recentes do Governo Federal que envolvem, outras medidas, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para diversos materiais de construção. O IPI que incide sobre cimento, por exemplo, diminui de 4% para zero; tintas e vernizes, de 5% para zero; massa de vidraceiro, de 10% para 2%, entre outros.Ao todo, 30 itens foram contemplados com o benefício. De acordo com o gerente comercial da MB Engenharia – Empresa Brascan, Rubens Oseki, com a redução do IPI, o setor de construção civil espera que os preços caiam de 5% a 8,5%. www.revistafale.com.br

O grupo Pereira, proprietário da Rede de Supermercados Comper, irá inaugurar sua oitava loja no DF. A nova unidade, fica localizada em Águas Claras, no Shopping Quê, e ocupará 2,6 mil metros quadrados. Foram investidos R$ 5,5 milhões na nova unidade e contratados 150 funcionários. “Estamos investindo em Águas Claras por ser uma cidade com grande potencial, além de ser considerada o segundo maior canteiro de obras da América Latina”, afirma o gerente regional do Comper, Albanês Thiago. A Rede tem mais de 30 anos, e a onze está instalado no DF, possui 34 lojas distribuídas em seis unidades da Federação (SC, MT, MS, GO, SP e DF).


Ratos ‘passeiam’ na esplanada dos ministérios

Telespectadores da Rede Globo observaram durante participação da repórter Delis Ortiz, ao vivo, direto de Brasília para o programa Fantástico do dia (03/05), ratos que passeavam próximo ao Ministério da Saúde. Segundo o ministério o problema é devido ao acumulo de lixo deixado por ambulantes que vendem comida no local. A falta de restaurantes na esplanada dos ministérios é um problema recorrente. Mas, para que ainda não conhece vai ai uma dica: no prédio do Ministério das Comunicações, funciona um restaurante que serve um saboroso cardápio por apenas R$ 7,95 o quilo. Talvez esse seja um único lugar de Brasília onde se pode comer bem por menos de R$ 5,00. De tão procurado, chega a se formar fila na frente do ministério. O restaurante já ganhou o apelido de “Bistrô do Helinho”, em homenagem ao ministro das comunicações, Hélio Costa.

Estelionato preocupa empresários e trabalhadores do SIA

Desde janeiro, mais de 80 golpes foram cometidos na região. Campanha da 8ª. Delegacia de Polícia Civil do SAI, com cartilhas, panfletos e banners, orientará trabalhadores e visitantes quanto aos tipos de golpes mais comuns – falsificação de documentos civis e públicos, cheques sem fundos, falsas ofertas de emprego, bilhetes premiados e, mais recentemente, apropriação de dados bancários por meio da Internet -, e dará dicas sobre como agir em situações de risco e perigo. Foto Fabio Rodrigues Pozzebom_ABr

UnB aceitará Enem já em de 2011

A Universidade de Brasília não participará da primeira edição do vestibular unificado em outubro deste ano. O novo Enem só será adotado como processo de seleção dos alunos que começam a graduação em 2011. A decisão foi tomada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. O PAS e as cotas para negros serão mantidos. Existe o consenso de que esses projetos são conquistas da universidade e, portanto, devem continuar.

Melhora a balança comercial do DF As exportações das indústrias do DF começam a retomar os patamares do ano passado. Os números preliminares divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) indicam que as vendas externas no mês passado ficaram em cerca de US$ 10,6 milhões, crescimento de 22,07% em comparação ao registrado em abril de 2008 (US$ 8,683 milhões) e incremento de 1,79% sobre o resultado de março deste ano (US$ 10,413 milhões). Para o presidente da Federação das Indústrias do DF (Fibra), Antônio Rocha, o desempenho em abril deste ano indica uma retomada das exportações brasilienses. Segundo Rocha, a análise comparativa com o mesmo mês de 2008 permite concluir que as vendas para exterior estão sendo retomadas após período de retração. Nos quatro primeiros meses de 2009, as exportações somaram US$ 33,338 milhões, um resultado 20,84% menor se comparado com igual período do ano passado (US$ 42,113 milhões). Em abril deste ano as importações do DF

Reestruturação do Senado. O projeto

O presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), aguarda ancioso estudo da Fundação Getulio Vargas – FGV sobre projeto de reestruturação administrativa destinada a diminuir custos, cortar cargos e melhorar a eficiência do Legislativo. E o da Câmara, quando sai? www.revistafale.com.br

ficaram em cerca de US$ 87 milhões, avanço de 4,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado. A balança comercial brasileira teve um desempenho mais acentuado em abril em função do aumento das compras da China. China e Arábia Saudita são importantes parceiros comerciais do DF. No ano passado, por exemplo, as indústrias brasilienses exportaram US$ 5,875 milhões para a Arábia Saudita e US$ 1,278 milhões para a China. No ranking, a Arábia fechou 2008 na 5ª posição e a China em 13º lugar. No entanto, há um desequilíbrio comercial com a China que, no ano passado, vendeu US$ US$ 44,541 milhões para o DF. Arábia Saudita e Turquia não registraram qualquer comércio para a capital brasileira. No primeiro trimestre de 2009, as importações da China somaram US$ 6,430 milhões, ou seja, 14,43% do volume do ano passado. Entre janeiro e março deste ano ainda não houve registro de importações da Arábia Saudita e da Turquia para o DF. Em tempo: Frango é o principal produto da pauta de exportações das indústrias do DF.

Cópia: Brasília em Minas Brasíla é mesmo o sonho de Aécio Neves, governador de Minas Gerais e um dos précandidatos do PSDB a presidência da república. Por R$ 890 milhões está sendo construído a nova sede administrativa, projetada por Oscar Niemeyer. As obras seguem em rítmo

acelerado e devem ficar prontas antes do fim de seu mandato. Alguns contrários a construção, reclamam da distância do novo centro, cerca de 1 hora do centro de Belo Horizonte, e também alegam o desprezo com o importante Palácio da Liberdade, construção histórica, atual sede do governo do Estado. Maio de 2009 | Fale! Brasília | 11


OnLine

Pirataria de software cresce no mundo

Orkut inseguro

P

reocupado com a imagem institucional

do Orkut, o Google divulgou uma relação de cuidados de segurança para tentar reduzir o número de usuários vítimas de golpes, uma tendência crescente. Os crimes mais comuns são roubo de senhas, de perfis, de comunidades e infecção por códigos maliciosos. Os problemas de segurança fazem muitos usuários desistirem de usar o serviço. Cuidados 1. Criar uma senha difícil e não fornecê-la a sites não autenticados pelo Google.2. Alerta total com links externos — não copie e cole códigos na barra de navegação. O método é uma forma clássica de mandar o usuário para um endereço que baixa códigos maliciosos ocultamente no PC do usuário. 3. Manter na máquina um antivírus atualizado e nunca baixar arquivos via Orkut, especialmente aqueles com extensões suspeitíssimas como .exe e .vb. 4. Aumentar o grau de alerta entre amigos. Amigos numa mesma rede tendem a ter um grau de confiança alto entre si.

O Q UE É N O V O

ONDE ESTÁ O GOOGLE. Internautas especulam sobre onde estariam localizados o Data Centers do Google, a empresa não confirma as informações.

Google caiu! E agora?

E

ssa frase é cada vez mais dita pelos usuário de internet e assíduos clientes de algum produto da gigante Google. É que somente nos quatro primeiros meses desse ano, o número de falhas em serviços como o buscado, Gmail, Orkut e Google Docs, já igualaram os do ano de 2008, doze no total. Embora algumas falhas não tenhão sido admitidas pelo provedor, que classificou o problema como isolado, e atribui a culpa a terceiros, companhias elétricas e de telefonia, por exemplo, ainda assim a dúvida começa a pairar sobre a cabeça daqueles que elegeram a ‘nuvem’ como local para armazenar sua vida ‘virtual’. Embora assuste, as falhas no Google servem para mostrar que na área de tecnologia, todos estão sujeitos a erros, inclusive a maior empresa de internet no planeta. Mesmo com os bugs, ainda sobram motivos para confiar no Google: a empresa mantêm seus data ceters em locais secretos, e espalhados pelo mundo; até hoje não se tem notícias de informações roubadas de servidores da Google; a cada ano a empresa amplia seu investimentos em segurança e armazenamento; é muito rigoroza a política de conduta dos funcionários e por fim; a privacidade dos dados é uma das maiores preocupação da empresa. A maior crítica dos usuários se dá por conta da falta de um call center, para atender os usuários. No Google todo o atendimento ao consumidor se dá através de foruns, além da ajuda reunidas em links como ‘perguntas frequentes’ e ‘solução de problemas’.

Inglês em rede social

O Livemocha está sendo chamado de ‘orkut’ para aprender inglês. Ele é o mais popular método na internet, grátis.Tem mais de 2 milhões de pessoas conectadas aprendendo e tirando dúvidas. Acesse www.livemocha. 12 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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Estimativas da Business Software Alliance - BSA dão conta de que a pirataria de programas instalados em empresas e residências em 2007 cresceu em todo o mundo de 38%, para 41% em 2008. No Brasil, a pesquisa indica redução de 1 ponto percentual, chegando aos 58%. No acumulado dos últimos três anos, entre 2005 e 2008, o país registrou queda de 6 pontos no índice. O Brasil ocupa a nona colacação “na lista dos países cuja pirataria de software provoca maior dano financeiro”, informa a BSA no levantamento. China, Rússia também reduziram o índice de pirataria. Os EUA O estudo identificou cinco países com índices de pirataria de 90% ou mais: Geórgia, Bangladesh, Armênia, Zimbábue, Sri Lanka, Azerbaijão e Moldova.

iPod e iPhone obrigatórios em faculdade de jornalismo O curso de Jornalismo da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, exigirá que seus alunos tenham um iPhone ou iPod Touch como material indispensável para a partir do próximo semestre efeturarem download de material do curso. Comunicado da universidade informa que os equipamentos são requisitos mínimos, e que “A melhor solução para os estudantes que não tenham iPod Touch ou iPhone é ir à TigerTech, loja de informática da universidade, e comprar um.”

com. Além de lições convencionais, a rede social cria um ambiente real de conversação com a possibilidade de submeter textos à correção de usuários nativos. A falta de profissionais que falam inglês levam empresas a treinarem pessoas sem formação técnica, mas com fluência na língua.


Política

A TEMPORADA DE CAÇA CONTINUA

Com evidências de terem cometido abuso de poder econômico no processo eleitoral, governadores eleitos continuam na mira de cassações do Tribunal Superior Eleitoral. O governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), e o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), são a bola da vez rumo à guilhotina. Já foram cassados Cássio Cunha Lima, da Paraíba, e Jackson Lago, do Maranhão Por Rafael Oliveira, Vitor Ferns e Marcos Linhares 14 | Fale! Brasília | Maio de 2009

U

ma pesquisa do Movimento de Combate, a

Corrupção Eleitoral (MCCE) revela que, de 2000 a 2004, quando a Lei 9.840 entrou em vigor, a Justiça Eleitoral promoveu a cassação de 623 mandatos no Brasil. A Lei promulgada em 1999 passou a penalizar a captação ilícita de votos e o uso eleitoral da máquina administrativa. Nesse período, os governadores cassados foram: Flamarion Portela (ex-PT-RR), por crime eleitoral na campanha de 2002, e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Cunha Lima teve uma uma sobrevida no cargo por uma liminar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas acabou sendo definitivamente cassado na noite de 17 de fevereiro. O senador José Maranhão (PMDB), segundo colocado nas eleições de 2006, desafeto político de Cunha Lima, assumiu a vaga. Outro defenestrado foi o governador do Maranhão Jackson Lago (PDT), cassado no início da madrugada da quarta-feira, 4 de março. Em seu lugar, assumiu a senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), segunda colocada na

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HORA DA VERDADE. Ministros do Tribunal Superior Eleitoral na sessão do dia 23 abril de 2009 e, acima, o diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo Fotos: Elza Fiúza_ ABr (abramo) e NELSON JUNIOR (TSE)

eleição. Ainda segundo o MCCE, foram cassados seis senadores (incluídos os suplentes), oito deputados federais, 13 deputados entre estaduais e distritais, 508 prefeitos (inclui seus vices) e 84 vereadores. Dois nomes esperam julgamento no TSE: Marcelo Miranda e Luiz Henrique da Silveira. O governador Marcelo Miranda (PMDB-TO) teve sua diplomação impugnada nas eleições de 2002, pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), em uma Ação de Impugnação a Mandato Eletivo (AIME). O MPE alega que Miranda visivelmente abusou do poder econômico e político e reincidiu em tais práticas nas eleições de 2006, segundo Parecer da Procuradoria Geral Eleitoral (PGE). Já o governador Luis Henrique Silveira (PMDB-SC), responde por ter supostamente usado e bancado com dinheiro público,

os meios de comunicação em propaganda ilegal na mídia do seu estado, Santa Catarina, além de abuso de poder

econômico. Mais dois outros governadores que também podem ser afastados do mandato esperam decisão da Justiça. Marcelo Déda (PT-SE), governador de Sergipe, e Ivo Cassol, que atualmente sem partido, governador de Roraima. Em comum, a acusação recorrente: abuso do poder econômico. O diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, vê nessa sucessão de eventos uma evolução do TSE. “A agilização na Justiça Eleitoral é bem nítida nos últimos tempos. É um progresso em relação à situação anterior, em que isso não acontecia nunca”, lembra Abramo. Com esse aspecto, concorda Juliano Costa Couto, advogado eleitoral e conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Distrito Federal. “Eu entendo que há o afastar da impunidade, que antes existia e que o Ministério Público e o TSE estão aplicando com mais rigor a Legislação Eleitoral.” O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, vê os processos de cassação de forma preocupante. “Eu acho que as disputas eleitorais são resultados de intereswww.revistafale.com.br

ses de grupos econômicos que favorecem candidatos em detrimento de outros”, declara Azedo. Para o cientista político Waldir Pucci, “as denúncias que recaem sobre estes governadores não trazem em si novidade alguma. Em toda a história republicana do Brasil, os governadores são acusados da mesma coisa, principalmente da compra de votos”, destaca. Já para o jornalista político Júlio César Fróes, o fato de ministros e desembargadores dos tribunais federais e regionais serem nomeados pelo presidente da República e pelos governadores dos Estados, respectivamente, é preocupante. “Essa perspectiva de nomeações pelo Executivos para o Judiciário é no mínimo estranha.” Mas observa que “esses processos colocados ao extremo no Judiciário tem características de pré-campanha.” Assim, pare ele, o TSE presta um serviço para as campanhas de 2010”, avalia.

O caso de Marcelo Miranda, no Tocantins: compra de votos

Marcelo Miranda (PMDB), governador de Tocantins, responde ao processo de Recurso Contra Expedição de Diploma (RCED), n° 698, ou seja, a cassação do mandato. O processo tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e tem como recorrente o ex-governador Siqueira Campos e como relator o ministro Félix Fischer. O governador e seu Maio de 2009 | Fale! Brasília | 15


P O LÍ T I CA vice, Paulo Sidnei Antunes (PPS), são acusados de abuso de poder econômico, compra de votos e conduta vedada a agente público, durante a campanha eleitoral. O parecer do Vice-Procurador Geral Eleitoral, Francisco Xavier, recomendou ao TSE a cassação de Miranda e Antunes e pede nova eleição no Estado. Segundo Xavier, Miranda não pode participar da nova eleição. Álvaro Valim, assessor do vice-governador Paulo Sidnei Antunes, diz que este aparece no processo como réu solidário, pelo fato de a chapa ter sido citada.

Sumiço e caminhão.

O trâmite do processo tem alguns fatos insólitos. Em outubro de 2008, próximo ao segundo julgamento, o volume n° 39 do RCED sumiu do gabinete do ministro relator. Foi pedida a restauração dos autos. O RCED n° 698 é o segundo recurso impetrado no TRE-TO. O relator do primeiro processo, ministro José Delgado (hoje aposentado), registrou a tentativa do governador de tumultuar o curso do processo. Segundo o advogado do governador Marcelo Miranda, Admar Gonzaga, “foi o autor da ação (Siqueira Campos) que tumultuou o processo. Eles pediram tantas informações que o governo parou por um mês e juntou um volume enorme que teve de ser transportado por caminhão”, dispara. De acordo com Admar, “o processo não tem conteúdo de mérito e o candidato derrotado só quer fazer espuma, aparecer na mídia dizendo ‘eu vou assumir’ e os desempregados ficam na expectativa”, defende. O processo alcançou 500 volumes e 55 mil páginas, que estão estacionados na Procuradoria Geral da República. Tudo indica que esse deve ser não só o maior processo de defesa mas como também o processo com o maior número de páginas da história do Judiciário brasileiro.

Mapa da cassação

Maranhão, Paraíba, Tocantins e Santa Catarina são estados com governadores que já saíram ou podem sair pela força de lei MARANHÃO

RORAIMA PROCESSADO Ivo Cassol  QUEM PODE ENTRAR NÃO DEFINIDO

PARAÍBA Sai CÁSSIO CUNHA LIMA Entra JOSÉ MARANHÃO 

SERGIPE TOCANTINS

16 | Fale! Brasília | Maio de 2009

PROCESSADO MARCELO DEDA  Entra NÃO DEFINIDO

PROCESSADO Marcelo Miranda  QUEM PODE ENTRAR novas eleições

35 mil cargos comissionados por decretos, de forma ilegal, segundo o SANTA CATARINA PROCESSADO Luiz Henrique da Silveira  parecer assinado QUEM PODE ENTRAR NÃO DEFINIDO por Francisco Xavier. Foram 22.765 cargos denominados gos violou o inciso V do art. 79 e o “cargos comissionaart. 41-A, da Lei n° 9.504/97. Entre dos” e 1.971 cargos deas nomeações, estão 22 ex-prefeitos, nominados DAS, sendo que 11.057 sete primeira-damas, seis ex-deputanomeações para os cargos comissiodos, nove ex-candidatos ao cargo de nados foram feitas no período de 30 prefeito, segundo a acusação de Side janeiro de 2005 a 30 de setembro queira Campos. O RCED aponta que de 2006, sendo 2.299 nomeações “Marcelo Miranda abusou dos gastos para os cargos em comissão e DAS com propaganda institucional, pois realizadas no período de 16 de jusomente no período pré-eleitoral, de nho de 2006 a 16 de agosto de 2006. 20 de janeiro de 2006 a 4 de abril de Segundo Xavier, a criação dos car2006, o Estado de Tocantins gastou R$ 42.433.814,34 milhões e utilizou emissora pública em dia anterior às eleições”, explica.

Nomeações.

Numerologia.

O número 35 assombra a vida de governadores. O ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB –PB) perdeu o mandato, segundo a decisão do tribunal, por distribuir 35 mil cheques de R$ 150 a R$ 200 reais durante período eleitoral. O governador Marcelo Miranda criou

Sai JACKSON LAGO Entra ROSEANA SARNEY 

santa catarina. O governador Luiz Henrique da Silveira está com o mandato em risco Foto Wilson Dias _ ABr www.revistafale.com.br

Com a criação dos 35 mil cargos comissionados, o Procurador-Geral da República, Antonio Fernando de Souza, ingressou com uma ação direta de inconstitucionalidade (ADIN), no Supremo Tribunal Federal (STF). O governador Marcelo Miranda foi rápido e encaminhou, no mesmo dia em que soube da ação, um projeto à Assembleia Legislativa, em rito de urgência, revogando a norma questionada. A Assembleia votou e aprovou a Lei 1.950/08, publicada no dia seguinte, exonerando os comissionados. Em agosto de 2008, o STF afastou a iniciativa do governador e considerou uma tentativa de impedir a atuação da Corte. “Essa ação de Miranda foi uma verdadeira manobra de burlar


COM O CARGO EM RISCO. O governador do Tocantins, Marcelo Miranda, abraça o ministro da Justiça, Tarso Genro, na assinatura de convênio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci). Abaixo, o ministro Félix Fischer na plenária do dia 28 de abril de 2009 Fotos U.Dettmar _ TSE e Valter Campanato _ ABr

o STF”, disse Xavier. O STF julgou a inconstitucionalidade dos cargos e determinou imediata exoneração. A surpresa veio em 15 de agosto: três meses antes da eleição municipal, Miranda nomeou novamente todos os comissionados exonerados com base na Lei aprovada uma semana antes na Assembleia Legislativa.

Professores. No período de 24 de ju-

lho a 24 de outubro de 2006, foram feitas 639 nomeações de professores para cargos em comissão, que foram ocupados para substituição, regência em sala de aula e exercício por período determinado ou hora/aula préfixada. Tais nomeações descaracterizam o conceito de cargo em comissão e em contrariedade do art. 37, inc. V, da Constituição Federal e art. 9°, da Constituição Estadual do Tocantins, de acordo com o parecer. “Governo mais perto de você”, um programa criado no dia 19 de maio de 2005, não tem qualquer amparo legal ou previsão orçamentária, de

acordo com Xavier. De acordo com o parecer, na vigência do programa foram realizados mais de dois milhões de atendimentos e 24 transferências da sede do Governo para os municípios, sem autorização da Assembleia Legislativa. O programa concedeu, g r at u it a me nt e , cortes de cabelo, óculos, leite, cobertores, brinquedos, escovas dentárias, fotografias para documentos, realização de casamentos comunitários, corridas de kart e de rua, jogos de futebol e mais. O programa foi suspenso pela Representação n° 4930 — Classe A, pela Desembargadora Jacqueline Adorno, do TRE-TO. Posteriormente à decisão do Tribunal, o www.revistafale.com.br

governador Marcelo Miranda parece ter surpreendido a todos de novo: o governo continuou com o programa, distribuindo óculos e mutirões de cirurgia, só que dessa vez com um novo nome: Balcão da Cidadania. Novamente, o programa teve sua execução suspensa por medida liminar nos autos da Representação n° 5.657 – Classe A, pela mesma Desembargadora, que seu despacho não escondeu a surpresa com o ato do governante.

Cheques-moradia.

Três dias antes da convenção de 2006, Miranda repassou mais de R$ 7 milhões para o programa “Habitação para Todos”, distribuídos através do “chequeMaio de 2009 | Fale! Brasília | 17


P O LÍ T I CA moradia” para 14 mil pessoas, que gratuitamente, destinava dinheiro para reforma e construção de casas, segundo o parecer da Procuradoria Geral Eleitoral (PGE). Logo após a eleição, Marcelo Miranda reduziu o valor do “cheque moradia” para R$ 2 mil em outubro, depois aumentou para R$ 4 mil em novembro e para R$ 6 mil em dezembro.

compradas em restaurantes locais. Miranda foi eleito pela primeira vez em outubro de 2002. O Ministério Público Eleitoral propôs uma ação de impugnação de mandato eletivo (AIME), número 3.971/2004. O Tribunal Regional Eleitoral (TO) não encontrou tempo, nos quatros anos de mandato, para julgá-lo. Assim, houve perda de objeto, ou seja, a AIME perdeu validade.

Ciranda lotes e acessórios. No perío-

do vedado de eleição, Miranda doou 4.548 lotes, que inicialmente seriam vendidos a pessoas previamente cadastradas. Em fevereiro e março, o governador cancelou a venda dos lotes e encaminhou à Assembleia Legislativa o projeto de lei que acabou na aprovação da Lei 1.685, publicada em 15/05/06, que autorizou a doação. Os lotes doados variam entre 300m2 e 585m2. Além dos lotes, Miranda “distribuiu gratuitamente, milhares de casas, óculos, cestas básicas, entre outros, bem como realizou consultas médicas”, segundo parecer da PGE. O parecer traz mais fatos apontados pela acusação de Siqueira Campos: Miranda transferiu a sede do poder, de Palmas para o interior, 23 vezes, sem autorização Legislativa. Assinou convênios com prefeituras aliadas, dispensou taxas pra aquisição de Carteira Nacional de Habi-

aÇOES JUDICIAIS

Dossiê Miranda 17 de janeiro de 2008. A

coligação de Siqueira Campos interpôs o Recurso Ordinário (RO 1.517), onde afirma que Marcelo Miranda utilizou o site oficial do governo de Tocantins para fazer promoção pessoal de campanha eleitoral, “violando o princípio da impessoalidade da administração pública.”

3 de janeiro de 2008. O

presidente do diretório municipal do PT, em Lageado (TO), interpôs o RO 1.513, acusando Miranda por abuso de poder político e de autoridade, transferindo recursos para prefeituras durante período eleitoral,o que é proibido pela 18 | Fale! Brasília | Maio de 2009

Mais uma. Na mais recente ação, o governador de Tocantins teria supostamente distribuido materiais esportivos para candidatos aliados que disputaram as últimas eleições em 2006. O Ministério Público Federal, no Tocantins, abriu processo para investigar o caso e pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito para apurar o suposto crivigilância. O vice-procurador geral me. O processo 3.456/2009 eleitoral, Francisco Xavier Foto gabriel alves foi encaminhado pelo MPF litação (CNH), realização de shows, ao Ministério Público Eleitoral, desde consultas médicas, oficinas de artesa- o último dia 15. Segundo a denúncia, nato e distribuição de alimentos para os materiais teriam sido comprados população, através de “quentinhas”, por R$ 1,5 milhão. Lei Eleitoral.

31 de dezembro de 2007. Coligação

de Siqueira Campos interpôs o RO 1.514, acusando Miranda de abuso de poder político e de autoridade, onde (Miranda) foi elogiado em 12 edições subsequentes do jornal Correio de Tocantins.

16 de novembro de 2007.

O governador Marcelo Miranda se beneficiou de atos do prefeito de Pedro Afonso (TO) durante a inauguração de uma obra. Segundo a ação, o prefeito José Wellington Martins Belarmino distribuiu vales de cestas básicas e cheques-moradia durante inauguração de obra pública, onde o secretário de Esportes do Estado representou Miranda,

candidato à reeleição. O prefeito pediu votos para o governador. O ministro José Delgado, do TSE, negou seguimento ao recurso (Respe 28.324).

usado o slogan do Executivo estadual — “Humano, Moderno e Democrático” — como mote de campanha eleitoral, no RO 1.486.

13 de novembro de 2007.

Agravo de Instrumento (AG 88.69) foi pedido ao TSE que admitisse recurso para cassar o diploma do governador por suposta distribuição de bens durante inauguração de obra pública em período eleitoral.

A coligação de Siqueira Campos interpôs o RO 1.496. Miranda é acusado de contratar servidores públicos sem a realização de concurso público, o que configura abuso de poder e autoridade. No período vedado de eleições, descobriu-se a existência de 52 políticos (candidatos aos cargos de prefeito e vereador), nomeados pelo governador para ocuparem cargos em comissão.

10 de outubro de 2007. O

governador foi acusado pela oposição por ter supostamente

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22 de agosto de 2007. Em

2 de fevereiro de 2007.

Em RCED n° 698, Miranda é acusado pelo ex-governador Siqueira Campos de compra de votos e abuso de poder e autoridade. Segundo Siqueira Campos, o governador nomeou professores em período vedado pela lei eleitoral e distribuiu benefícios e brindes.


em ação. O ministro Carlos Ayres Brito (e) negou pedido do advogado do governador Luiz Henrique Foto de NELSON JUNIOR (TSE)

Luiz Henrique da Silveira, mandato por um fio Uso indevido de meios de comunicação social em Santa Catarina para fazer propaganda ilegal em jornais, rádios e TVs pagos pelos cofres públicos e abuso de poder econômico, que teriam desequilibrado a disputa eleitoral. Estas são as acusações contra o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique Silveira (PMDB). No dia 20 de março deste ano, os advogados de Luiz Henrique pediram que o processo fosse ao Supremo Tribunal Federal, pedido negado pelo presidente do TSE, Carlos Ayres Brito. O RCED n° 703 está no gabinete do ministro Félix Fischer, também relator do recurso contra Marcelo Miranda (TO). Luiz Henrique entregou o restante das alegações de defesa no dia 14 de abril e aguarda parecer de Fischer para ser julgado. A coligação “Salve Santa Catarina”, do candidato derrotado Esperidião Amim (PP), pediu a cassação de Silveira e a posse de Amim, segundo colocado nas eleições 2006. A coligação, formada pelos partidos PP, Prona, PMN e PV, contesta o fundamenta da defesa de que os fatos apresentados teriam sido analisados em

outros processos no TRE-SC e o Tribunal de Justiça do Estado. Embora Luiz Henrique estivesse afastado do cargo durante a eleição, obteve apoio de Eduardo Pinho Moreira, vice que assumiu o governo na época e apoiou a reeleição. O recurso contra Luiz Henrique começou a ser julgado no dia 9 de agosto de 2007. O então relator, José Delgado, votou favorável à cassação. O recurso foi suspenso por pedido de vista do ministro Ari Pargendler. No retorno do julgamento em 14 de fevereiro de 2008, Pargendler considerou que a propaganda denunciada pela coligação adversária “foi maciça”. O ministro Marcelo Ribeiro apresentou seu voto em 21 de fevereiro, pedindo citação do vice de Silveira, Leonel Pavan. Em agosto de 2008, a defesa de Silveira pediu o arquivamento do processo, alegando que o prazo para a citação do vice-governador Leonel Pavan estaria esgotado no TSE. Convencidos de que seria a única maneira de evitar o julgamento da ação no TSE, os advogados João Linhares e Eduardo Alckmin, de defesa, protocolaram o pedido de intervenção simultaneamente à apresentação da defesa de Pavan ao TSE. Na linha de raciocínio dos advowww.revistafale.com.br

gados, a citação de Pavan ocorreu um ano e meio após o prazo legal. A Coligação “Salve Santa Catarina”, de Esperidião Amim, autora da ação, deveria ter incluído o governador e o vice. Em defesa, o advogado do governador Luiz Henrique, João Linhares, alega que Luiz “construiu e reformou mais de mil escolas e o nosso estado é pequeno, tem 290 municípios. O governador asfaltou mais de dois mil quilômetros ligando os municípios. Além disso, ele fez o teatro Bolshoi, construiu hospitais”, defende. Segundo Linhares, as propagandas institucionais feitas pelo Governo de Santa Catarina foram veiculadas entre outubro de 2005 a abril de 2006, fora do período de eleição. O advogado explica que a Lei Eleitoral especifica que a campanha começa no dia cinco de junho. Luiz Henrique deixou o cargo de governador em abril de 2006 para disputar as eleições e não causar desequilíbrio entre os candidatos, de acordo com Linhares. A defesa de Luiz Henrique e Leonel Pava, vice, apresentou 200 páginas de prova. “Os ministros terão aí 200 páginas para se divertir”, comenta Linhares. “Não existiu ilegalidade nem irregularidade nas eleições”, assegura ele. n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 19


P O LÍ T I CA

TSE IMPLACÁVEL

Governadores por um fio Acompanhe como estão os processos dos outros Governadores em vias de perder o mandato A sombra da cassação, que anda escurecendo os dias de Marcelo Miranda (PMDB-TO) e Luiz Henrique (PMDB-SC), também assombra outros governadores no Brasil. O fato é que não se vê todos os dias, na política, tantos chefes de estado cotados para perder judicialmente o mandato, e ainda mais, a maioria deles governadores. Ao todo, sete já estiveram nessa lista: dois foram caçados, um ganhou liminar que suspendeu o processo, outro faleceu e quatro tentam enxergar uma réstia de luz no fim dos processos. As coincidências começam nas acusações e nas alegações de inocência, seguem nas defesas recíprocas, dentro do semelhante rol de acusações. Uso de propaganda institucional para promoção pessoal, compra de votos, abuso de poder, utilização indevida da máquina e verbas públicas em campanhas. Pelo menos um dos itens citados constam nos processos dos outros dois governadores que esperam decisão da justiça, Marcelo Déda (PT-SE) e Ivo Cassol, que, atualmente sem partido, governa o estado de Roraima resguardado por uma liminar do TSE, que impediu a decisão de cassação do TRE-RO. Acompanhe os casos:

Em cinco anos, Aracajú só não deu certo para Marcelo Déda Mesmo com a desistência do PTB em levar adiante a ação do pedido de cassação, Marcelo Déda não conseguiu escapar do TSE. O PTB havia pedido a extinção do processo, que foi negada pelo ministro do TSE, Félix Fisher, no dia 02 março. Na ocasião, o MPE avaliou que a continuação do processo não se tratava de um mero interesse privado, mas sim do princípio da democracia. O governador de Sergipe é acusado de propaganda eleitoral 20 | Fale! Brasília | Maio de 2009

MIRA DO TSE. Governador de Sergipe, Marcelo Deda: mandato em risco. Foto Roosewelt Pinheiro_ ABr ilegal nas campanhas eleitorais de 2006. Marcelo Déda teria utilizado uma campanha promocional com propagandas institucionais da prefeitura, para promoção eleitoral, onde usava maciçamente o slogan “em cinco anos Aracaju deu certo para todos”. Na avaliação da acusação, as peças publicitárias utilizadas no período eleitoral teriam nítido caráter eleitoreiro. Quem ajuizou o pedido de cassação foi o Partido dos Aposentados (PAN), que em 2007 foi incorporado ao PTB. Em dezembro do ano passado, Félix Fisher, determinou que o PTB regularizasse a representação de processo ao governador. Na oportunidade, o PTB disse não ter interesse em prosseguir com a ação, e pediu a extinção do processo sem apreciação do mérito, que foi negado. O atual governador, em 2006, renunciou a prefeitura de Aracaju (SE) para concorrer ao governo do estado. Eleito no primeiro turno com 52,48% dos votos, a preferência por Déda era notória no estado. Agora o cenário está um pouco diferente. Em pesquisa divulgada no dia 20 de abril, pelo Instituto Padrão, feita em 30 municípios, se as eleições fossem hoje haveria segundo turno. Marcelo Déda teria 47,1%,

contra 41,8% de João Alves Filho, a diferença ficou em 5,3%, quase um empate técnico se considerado as margens de erro da pesquisa.

Do inferno ao céu em 24h: Ivo, mesmo cassado, se mantém no cargo por liminar noturna Sem partido, o governador Ivo Cassol (RO) foi cassado na noite da terça-feira (4 de novembro de 2008) pelo Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO). A decisão durou pouco tempo. Na noite do dia seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu liminar que suspendeu cassação. A decisão mantém o governador no cargo até o julgamento definitivo pelo TRE-RO. O ministro Arnaldo Versiani justificou a liminar, como entendimento de jurisprudência no TSE, onde se entende que deve aguardar a publicação da decisão e do julgamento, antes de eventuais embargos. Acusados de associação em compra de votos e abuso de poder nas eleições de 2006, perderiam o cargo, além de Ivo Cassol e o vice João Aparecido Cahulla, o senador Expedito Júnior. Antes da liminar do TSE, o TER-RO declarou o governador e o senador cassados e inelegíveis, até 2009. Além de

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multar Cassol em 95 mil Unidades Fiscais de Referência (UFIRs), cerca R$ 95 mil e o Expedito Júnior em cerca 45 mil UFIRs. No dia da cassação a assessoria de imprensa de Cassol informou que ele estava “tranquilo”, porque iria recorrer ao TSE declarando inocência, o que deu certo, pois cerca de 24h depois foi concedida a liminar.

2x1 para Expedito Júnior

O senador de Roraima já foi cassado por outras duas ações pelo mesmo motivo, no TRE-RO. Na primeira vez, ele obteve liminar para se manter no cargo até a decisão final. Na segunda, a Mesa do Senado decidiu manter ele fora da cadeira para aguardar decisão final. Nesta última vez Expedito Júnior também conseguiu liminar para permanecer no cargo. No ano passado, a relatora do processo, a desembargadora Ivanira Borges, chegou a afirmar, que Ivo Cassol doou, através do comitê de campanha, ao comitê de Expedito Júnior o valor de R$ 200.500 mil justamente na véspera e no dia da ocorrência da captação ilícita de sufrágio, 28 e 29 de setembro de 2006. Para ela, o fato mais importante é que o governador usou a máquina administrativa pública para tentar ocultar a compra de votos.


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Política

PAUL SINGER ECONOMIA SOLIDÁRIA É SAÍDA PARA A CRISE O secretário nacional de Economia Solidária do Brasil, economista Paul Singer lembra que a crise econômica estimula iniciativas que provocam maior dinamismo para as atividades comerciais locais junto às comunidades mais pobres.

S

e a crise econômica bate mais forte para

os mais pobres, é também nas comunidades carentes que surgem iniciativas que provocam maior dinamismo para as atividades comerciais locais. Clube de trocas, cooperativas de trabalhadores e de consumidores e bancos comunitários são fenômenos da chamada economia solidária que vêm experimentando no Brasil um verdadeiro boom e têm dado condições de sobrevivência a comunidades das periferias das grandes cidades, do campo e de cidades menores. O economista Paul Singer está à frente da Secretaria de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho e Emprego. Ele avalia que, em momentos de dificuldades, há a tendência de que as pessoas busquem alternativas ao modo de produção excludente. “O que menos se troca em um clube de trocas é mercadoria. Troca-se afeição, trocam-se histórias”, cita o economista em entrevista à repórter Luciana Lima, da Agência Brasil, destacando o caráter inclusivo da economia solidária. “O desemprego é horrível porque ele tira as pessoas do meio social delas”, considerou. Singer evita previsões sobre o futuro, tentou se esquivar de responder se o pior da crise já passou, mas acabou revelando que vê no atual cenário econômico brasileiro sinais de recuperação. “As vendas no varejo estão crescendo, a indústria automobilística bateu recorde em março, mas não ouso dizer que o pior já passou”, disse. “Primeiro, porque eu não tenho bola de cristal, segundo, não estou falando como economista profissional. Mas acho que a chance é boa. Saberemos disso daqui a alguns meses.”

A economia solidária pode ser vista como alternativa para comunidades que sofrem com o colapso da economia de mercado? Paul Singer. Com certeza. A economia solidária surge no Brasil em um

momento de forte crise. Uma crise à qual eu chamaria de tragédia, que foi a abertura do mercado nos anos 1990. Essa abertura começou no governo de Fernando Collor e depois continuou no governo de Fernando Henrique Cardoso. Nessa época, cerca de 7 milhões de postos de trabalho foram eliminados, porque começamos a importar em uma quantidade maluca todo tipo de mercadoria. Importávamos desde ursinho de pelúcia até guarda-chuvas, da China, da Coréia do Sul e de outros lugares onde o custo era menor. Foi uma tragédia para os trabalhadores brasileiros. O desemprego subiu a patamares nunca vistos. Os salários baixaram e também houve mais pobreza. Nesse contexto é que surge a economia solidária. Ela surge como reação a isso, como estratégia de sobrevivência. As pessoas precisam sobreviver e surgiram experiências na época quase desconhecidas.

Que experiência lhe chamou mais a atenção nessa época? Paul Singer. Surgiram as empresas cooperadas, que iriam fechar, mas

os trabalhadores conseguiram se juntar e ficar com ela. De empregados passaram a ser donos. Isso é o sinal mais concreto de que a economia solidária é uma solução para a crise. Ela evita deixar pessoas sem meios e sem trabalho. Milhares deixaram de ser empregados e passaram a ter participações. Na economia solidária, não há emprego. O que existe é participação. Essa é também uma experiência internacional, mas acho que nós, brasileiros, estamos na frente.

22 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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foto elza fiúza _ abr

sinais de recuperação. O secretáio nacional de Economia Solidária do Brasil, Paul Singer vê sinais positivos de retomada do crescimento

Qual a importância da economia solidária no Ministério do Trabalho? Paul Singer.

Exatamente por causa dessas empresas cooperadas, que surgiu diretamente da iniciativa dos sinFoto Elza Fiúza _ ABr dicatos. Quando há uma falência, os trabalhadores são credores da empresa, seja porque ela não pagou os últimos salários, as contribuições para o INSS [Instituto Nacional de Seguridade Social]. No fundo, os trabalhadores têm um crédito e, com esse crédito, se candidatam a ficar com a empresa e mantê-la funcionando. Todas as empresas cooperadas no Brasil, e são muitas centenas hoje, se formaram a partir de iniciativas dos sindicatos. Por isso é que o movimento da economia solidária faz parte do movimento operário e camponês.

O senhor acha que os efeitos da crise no Bra-

sil já estão sendo superados ou essa crise é mais profunda do que se imagina? Paul Singer. Se as pessoas acreditarem

que estamos saindo da crise, elas vão agir como se estivéssemos mesmo já saindo. E aí sairemos mesmo. Esse é um ponto que as pessoas, em geral, entendem logo, mas não descobrem sozinhas. A previsão faz o futuro. Se as pessoas forem pessimistas, o futuro será ruim, porque elas vão se preparar para esse futuro ruim. Os mais conservadores estavam exigindo que o governo cortasse gastos. Mas se o governo fizesse isso com a previsão de que iria arrecadar menos, iria mesmo arrecadar menos. O governo está gastando por conta. A arrecadação subiu um pouco, mas o governo está gastando mais. Agora, claramente a economia está se recuperando. As vendas no varejo estão crescendo, a indústria automobilística bateu recorde em março, mas não ouso dizer que o pior já passou, primeiro porque eu não tenho bola de cristal, segundo, não estou falando como economista profissional. Mas acho que a chance é boa. Saberemos www.revistafale.com.br

disso daqui a alguns meses.

Em que pontos a economia solidária se distingue da economia capitalista? Paul Singer. A economia solidária tem

tudo ao contrário da economia capitalista. A economia capitalista se baseia essencialmente na propriedade privada, de meios de produção, ou seja, as fábricas, os escritórios, as clínicas, tudo tem dono. Esse dono é quem emprega trabalhadores em troca de um salário e que os trabalhadores façam o que ele manda. Na economia capitalista, a empresa está inteiramente a serviço dos interesses do dono, que é maximizar o lucro. Nem consumidores, nem trabalhadores têm poder. Quem tem poder é quem tem o capital. Na economia solidária não tem isso. Os donos dos empreendimentos são os trabalhadores ou os consumidores.

Mas como isso funciona? Paul Singer. Dois tipos de empreen-

dimentos podem ser formados na forma de cooperativas, mas não necessariamente. No entanto, o coo Maio de 2009 | Fale! Brasília | 23


P O LÍ T I CA perativismo foi a forma legal mais fácil de se organizar. As cooperativas podem ser de produção, que são também chamadas de cooperativas de trabalhadores. Nesse caso, não tem patrão. Os próprios cooperados administram o empreendimento de forma coletiva, dividem o capital entre eles, por igual, e nas decisões que precisam ser tomadas, cada um tem um voto. Esses são os princípios básicos de qualquer cooperativa e da economia solidária. Há cooperativas que fazem suas assembléias enquanto trabalham. Conheço uma em Porto Alegre, a Univens, que vem a ser a abreviação de “Unidas Venceremos”. Trata-se de uma cooperativa de costureiras, na qual trabalham 20 mulheres e um homem, que cuida da serigrafia das roupas. Ele não é costureiro e trabalha no outro andar. É chamado quando elas têm que tomar alguma decisão. Isso é só um exemplo do que acontece na prática. Isso é só um exemplo de economia solidária que produz mercadorias e serviços e quem vende.

Como funciona a cooperativa de consumidores? Paul Singer. São pessoas que se juntam

para atividades de proveito total deles. Eles não vendem, até compram da sua própria cooperativa o que ela produz. É o caso das escolas cooperativas. Temos várias no Brasil que têm como sócios os pais dos alunos. Existe uma escola formada por funcionários do Banco do Brasil que estavam insatisfeitos com a escola de seus filhos. Eles criaram uma cooperativa que mantém a escola. Temos cooperativas de habitação, em que as pessoas se associam para ter casa própria, algumas vezes trabalhando e produzindo a casa em regime de mutirão, outras vezes, só colocando dinheiro, para que se possa construir prédios e apartamentos. Existem ainda na área de saúde, com pessoas que se juntam para fazer um plano de saúde. Quem manda é quem usufrui do serviço. Se você entra em um plano de saúde capitalista, vai pagar um valor por mês e o capitalista que administra seu dinheiro vai pegar uma parte para ele, que é o valor pago para ele administrar o plano. Claro que em uma cooperativa quem tem o trabalho de administrar são os próprios sócios.

E os clubes de trocas? 24 | Fale! Brasília | Maio de 2009

O desemprego é horrível porque tira as pessoas do meio social delas. O trabalho é o lugar onde estão os seus amigos. Hoje, As Sels (Systémes d’Echanges Local) [como são chamados os clubes de trocas ma França] são associações de pessoas que festejam a possibilidade de interagir. Paul Singer. Os clubes de troca são basi-

camente respostas a situações de crise, falta de trabalho e falta de renda. Os dois casos históricos ocorreram em tempos de crise. No Canadá, um clube de troca ocorreu em uma cidade próxima a Vancouver na década de 1980. Nessa cidade havia poucos empregadores. Toda a população trabalhava ou em uma base aérea ou na indústria madeireira, que fechou. A população ficou sem qualquer fonte de renda. Uma pessoa organizou o clube de trocas para os moradores e, como todo mundo fazia coisas que poderiam ser úteis, o clube funcionou. Eles inventaram uma moeda, e as pessoas conseguiram sair do impasse. Na grande crise pela qual a Argentina passou em 2001, os clubes foram essenciais porque faltava dinheiro. Foi uma crise terrível. As pessoas passavam fome, assaltavam supermercados, chegaram a derrubar um governo. Há um cálculo de 6 a 7 milhões de pessoas que foram ao clube de troca para conseguir comida levando o que tinham em casa ou o que se podia produzir. Foi uma verdadeira explosão. Foi muito ruim porque os clubes de troca na Argentina cresciam, tinham centenas de milhares de sócios. De repente, essas centenas de milhares de pessoas viraram milhões de pessoas. Daí, perdeu-se o controle e começou a falsificação das moedas sociais. Os preços também subiram porque havia muito mais comprador que produtos. A ideia do clube é que quem compra www.revistafale.com.br

também vende. São os chamados ‘prossumidores’, fusão de produtores e consumidores. Eles devem exercer os dois papéis.

Que efeito o clube de troca tem sobre a atividade econômica? Paul Singer. Os clubes de troca foram criados simultaneamente no Canadá e na Argentina. Esses são os primeiros. Mas há registros de cubes de troca ou coisa semelhante no passado, durante a crise dos anos 30. Depois, a ideia se perdeu. O clube cria um mercado onde não havia nada, inventa uma moeda onde não havia moeda. Com isso, surge uma oportunidade de trocas, trabalho e consumo. Ele, tipicamente, aparece em situações de crise, formado por trabalhadores autônomos, microempreendedores, cujos fregueses perderam o emprego. As pessoas acabam se conhecendo melhor. Há situações em que pessoas adoecem e ganham crédito dos outros que vão continuar fornecendo para ele, mesmo que não possa produzir naquele momento, por estar impossibilitado.

Qual o efeito social do clube de trocas? Paul Singer. O que menos se troca são

mercadorias. Trocam-se afeição, histórias. O desemprego é horrível porque tira as pessoas do meio social delas. O trabalho é o lugar onde estão os seus amigos. As Sels (Systémes d’Echanges Local) [como são chamados os clubes de trocas ma França] são associações de pessoas que festejam a possibilidade de interagir. Nesse caso, a moeda social tem um papel econômico também, mas pelo jeito, menos importante. Ela consegue reincluir no meio social gente que estava isolada. Isso é geral. Não é só na França.

Como funcionam o banco solidário e a moeda social? Paul Singer. Hoje, no Brasil, estamos de-

senvolvendo bancos para pessoas muito pobres. Essa é uma criação de uma comunidade de Fortaleza chamada Conjunto Palmares, o Banco Palmas. A moeda social que eles usam para criar crédito chama-se palmas. Uma palma vale um real. Em Vitória, há também um banco famoso, chama-se BEM, que funciona no Morro de São Benedito. Essa localidade virou um complexo de cooperativas de várias atividades. Se a pessoa fizer compras no comércio,


colocar gasolina no carro, ela ganha um desconto para usar a moeda local. Com isso, o dinheiro da comunidade é gasto ali, ao invés de ser gasto fora da comunidade. As atividades comerciais se movimentam. A moeda social é uma moeda, geralmente de papel porque o povo gosta disso. Poderia ser um cartão de crédito, mas o povo acha o cartão muito abstrato. Eles imprimem. Tenho uma coleção de moedas sociais que, ao longo dos anos, fui sendo presenteado. São notas com desenhos e com nomes simbólicos, ou do local, como Palmas, tem reais verdes, reais solidários ou somente solidários,. São nomes que exprimem a ideologia da associação. A moeda social também é usada em clubes de troca.

Por que o uso da moeda em uma relação onde se privilegia a troca? Paul Singer. As pessoas se reúnem e usam

Hoje, no Brasil, estamos desenvolvendo bancos para pessoas muito pobres. Essa é uma criação de uma comunidade de Fortaleza chamada Conjunto Palmares, o Banco Palmas. A moeda social que eles usam para criar crédito chama-se palmas. Uma palma vale um real.

a sua moeda para avaliar o serviço e os bens que eles podem produzir. Em geral, nos clubes de troca, há uma espécie de feira que é muito festiva. É uma festa popular no domingo de manhã no bairro. As pessoas se conhecem, isso é importante. Todos mundo leva coisas que todo mundo produziu. Mulheres levam pão, bolo e podem trocar por outro bem ou serviço. Se você tem um cômodo vazio, pode alugar. Mas a pessoa que aluga pode não ter nada para você. Então, ele vai pagar com a moeda local, e você poderá comprar alguma coisa que precisa. O banco comunitário tem um âmbito de ação mais amplo, e a moeda é usada para proteger e criar um mercado local. Surge uma proteção contra a competição externa que é, geralmente, de empreendimentos capitalistas, supermercados e grandes lojas, por exemplo.

librado, esse dinheiro nunca volta para a direção.

Mas como as pessoas têm acesso à moeda no clube de trocas? Paul Singer. Quando elas ingressam no

ocorrer para os integrantes do grupo, mas não dentro do clube de trocas. Há acumulação quando eles criam, por exemplo, o Palma Fashion, que é uma cooperativa de costureiras do Conjunto Palmares que fazem roupas, desfiles e conseguem vender sua produção. As costureiras criaram um mercado e estão produzindo. Aí sim, na cooperativa, cada costureira teve que entrar com um valor para que pudessem comprar tecido, linha, máquinas de costura. Nesse caso, há sim acumulação de capital, mas dentro do clube de trocas, não. O que acontece é que se cria um mercado

clube, ganham um valor. É um empréstimo, mas enquanto ela estiver no clube ninguém vai cobrar. As transações têm um registro para que os administradores possam saber que o clube de trocas está funcionando. Quando se aluga o quarto, comunicase à direção do clube a transação, por quanto foi alugado e para quem. O administrador registra isso. Esse registro serve para a direção do clube ter uma ideia de como esse dinheiro está circulando. Se estiver tudo bem equi-

Mas o que pode colocar em risco o equilíbrio de um clube de trocas? Paul Singer. Podem haver pessoas que

nunca compram, só vendem. Ficam acumulando dinheiro. Isso é ruim para o clube porque o dinheiro fica estocado. A pessoa não ganha nada com isso porque não rende juros e os outros membros do clube não têm para quem vender. Nesse caso, cabe até uma interferência. Tem que haver pressão, inclusive, algumas vezes, dando prazo para era essa pessoa gastar o dinheiro. Acumular dinheiro na economia solidária é contra o interesse geral.

A busca capitalista pelo acúmulo de capital então não pode funcionar na economia solidária? Paul Singer. O acúmulo de capital pode

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onde não havia.

Mas, hoje, quem coloca dinheiro nos bancos comunitários? Paul Singer. O Banco Popular do Bra-

sil tem hoje R$ 1 milhão no Banco Palmas, por exemplo. Começou com R$ 50 mil. Na medida em que eles foram vendo o funcionamento do banco, aumentaram os valores. Mas o Banco Popular do Brasil está colocando dinheiro em outros bancos comunitários, no Espírito Santo, na Bahia. Hoje, existem mais de 40 bancos comunitários já funcionando no Brasil inteiro. Esse aporte é feito em real. Na verdade, o Banco Palmas só emite palmas na medida em que tenha real. Eu sou contra isso. Pessoalmente, acho que isso é um erro porque o Banco Palmas poderia emitir duas vezes o valor em real que não teria problema, na medida em que essa moeda circula. No entanto, eles fazem questão e, me parece, que isso até faz parte de um acordo com o Banco Central.

E como é a relação desses bancos com o Banco Central? Paul Singer. Os bancos, na verdade, são

bancos fantasia. O pessoal do Banco Palmas, por exemplo, estava ativando o banco na sede da associação de moradores. Aí apareceu a recepcionista dizendo que havia dois homens do lado de fora dizendo que queriam ver o banco. Os administradores responderam: que banco? Ofereceram umas cadeiras para eles. Eles eram do Banco Central, que queriam saber que banco era aquele, mas nem sabiam que tinham criado um banco. Enfim, hoje há uma relação entre o BC e o Banco Palmas. Aqui da secretaria, somos meio intermediários dessa relação. O Banco Palmas tem o nome de banco porque o povo vê isso como um banco, mas não é algo formal. É claro que tem contabilidade, controle social. Os bancos comunitários são uma espécie de clube de troca mais amplo. Eles podem receber depósitos. Se o empréstimo é em real, eles cobram juros. Comparando com o Brasil, que tem taxas inacreditavelmente altas, eles cobram pouco, cerca de 2% ao mês ou até menos. Isso porque os reais que eles têm são do Banco Popular do Brasil, que cobra algum juro. Mas se o empréstimo é na moeda social, não há juros. n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 25


P O LÍ T I CA

VIVA SÃO JOÃO. Festança em Maracanaú, na Grande Fortaleza com verba de emenda parlamentar. foto ascom_mARACANAÚ

A BANCADA DO FORRÓ No Ceará, prefeituras abusam com recursos do Ministério do Turismo, que gastou em 2008 com festas o equivalente a 25% do valor do pacote de ajuda que será liberado para socorrer os municípios brasileiros. Foram R$ 225 milhões distribuídos. O Ceará recebeu R$ 29 milhões, e municípios chegaram a pagar R$ 200 mil de cachê para artista por um único show. A maior parte do dinheiro decorre de emendas parlamentares de deputados cearenses

C

om os cofres esvaziados pela crise financeira,

municípios que hoje estão com o pires na mão parecem não ter motivos para comemorar. Mas, em 2008, calendário eleitoral, sobraram razões e dinheiro. Com uma verba destinada à “promoção de eventos para divulgação do turismo interno”, o Ministério do Turismo transferiu no ano passado R$224,8 milhões para prefeituras de todo o Brasil, quase um quarto do pacote de R$1 bilhão que o Governo Federal irá liberar para socorrer os 5.565 municípios. 26 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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O dinheiro foi utilizado para a realização de diversos eventos: de festas juninas, carnaval fora de época, eventos esportivos, réveillon à comemoração do padroeiro da cidade.

Pra onde foi o dinheiro O Ceará, que representa 2% do Produto Interno Bruto do Brasil, recebeu R$29,227 milhões, sendo o segundo maior beneficiado. Perdeu


apenas para São Paulo — R$31.158 milhões. Os dados são do Portal da Transparência, do Governo Federal. O montante transferido cresceu 3,5 vezes em um ano. Saltou de R$ 64,545 milhões em 2007 para os R$ 224,8 milhões no ano passado. A maior parte desse dinheiro tem origem nas emendas parlamentares, justamente as que mais foram afetadas pelos cortes na pasta do Turismo anunciados pelo Governo Federal no final de março. Os dez municípios cearenses que mais receberam essa verba foram Fortaleza, Maracanaú, Solonópole, Iguatu, Tauá, Itapipoca, Pedra Branca, Beberibe, Juazeiro do Norte e Lavras da Mangabeira, nessa ordem. A disponibilidade financeira abriu uma onda de festejos com

gastos desregrados. O município de Pedra Branca, distante 261 quilômetros de Fortaleza, recebeu em 19 de junho passado R$ 850 mil para a promoção do São João. O evento custou no total R$ 892 mil porque teve a contrapartida da prefeitura. Foi a maior receita de transferência voluntária da União para a pequena cidade do sertão central cearense. O repasse obrigatório do Governo Federal para custear o programa Saúde da Família foi só um pouco maior — R$1,113 milhão. As principais atrações em Pedra Branca foram Bruno e Marrone e Zezé di Camargo e Luciano — um São João de fazer o velho Gonzagão dar voltas no túmulo. O cachê ficou entre R$160 mil e R$200 mil. Em fevereiro, a prefeitura já havia recebido

R$150 mil para a festa de São Sebastião, padroeiro de Pedra Branca. O filho do prefeito que ajudou na organização, Mateus Monteiro, disse que aquele foi o primeiro São João de grande porte. Segundo ele, os deputados federais que costumam “ajudar” o município são José Airton Cirilo (PT) e Marcelo Teixeira (PMDB). Eles apresentaram emendas para promoção de eventos que juntas totalizam R$3,8 milhões. Mas não especificaram o destino da verba. Nesses casos, o dinheiro costuma ser pulverizado com várias prefeituras em comum acordo entre o deputado e o prefeito. Compete às instâncias — como tribunais — averiguar se há alguma coisa errada, disse o deputado Marcelo Teixeira sobre um eventual exa-

Transferência de recursos em 2008

Somente 83 dos 184 municípios cearenses foram beneficiados com os R$ 29 milhões que o Ministério do Turismo repassou para a Promoção de Eventos para Divulgação do Turismo Interno. Em Fortaleza, além da prefeitura, entidade privadas também receberam recursos CIDADE

Fortaleza Maracanaú Solonópole Iguatu Tauá Itapipoca Pedra branca Beberibe Juazeiro do Norte Lavras da Mangabeira Pacajus Quixeramobim Novo Oriente Alto Santo Itarema Fortim Guaraciaba do Norte Independência Saboeiro Tejucuoca Orós Parambu Tamboril Acopiara Apuiares Itaicaba Pacatuba Porteiras

VALOR (R$)

CIDADE

2.079.000 1.950.000 1.590.000 1.500.000 1.400.000 1.050.000 1.000.000 950.000 900.000 800.000 800.000 750.000 600.000 500.000 500.000 470.000 450.000 400.000 400.000 400.000 350.000 350.000 340.000 300.000 300.000 300.000 300.000 300.000

Quiterianópolis Santa Quitéria São Gonçalo do Amarante Cascavel Acaraú Araripe Iraucuba Várzea Alegre Vicosa do Ceará Jaguaribe Itapagé Massapê Quixadá Redenção Ocara Ibiapina Barroquinha Hidrolândia Ipaporanga Jaguaribara Meruoca Mucambo Tianguá Carnaubal Russas Ipú Martinópole Icapuí

VALOR (R$)

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300.000 300.000 300.000 290.000 275.000 250.000 250.000 250.000 250.000 225.000 200.000 200.000 200.000 190.000 180.000 170.000 150.000 150.000 150.000 150.000 150.000 150.000 150.000 144.000 140.000 125.000 120.000 100.050

CIDADE

Altaneira Aquiraz Aracati Assaré Bela Cruz Cariré Caririaçu Cariús Cedro Croata Farias Brito Jati Limoeiro do Norte Mauriti Milha Miraima Morada Nova Pacujá Paramoti Pentecoste Pires Ferreira Potengi Senador Pompeu Tabuleiro do Norte Uruburetama Trairi Salitre

VALOR (R$)

100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 100.000 99.210 90.000

FONTE: www.portaltransparencia.gov.br

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P O LÍ T I CA gero nos gastos. Empresário do setor hoteleiro, o deputado foi o autor de uma emenda de R$2,8 milhões. Do que foi liberado pelo Ministério, dividiu o dinheiro entre prefeituras e entidades que o procuraram como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e a Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav). Uma comparação entre o volume de dinheiro aplicado em festas e o investimento do município em áreas sociais levanta o debate sobre a qualidade do gasto público. Iguatu, por exemplo, recebeu R$1,5 milhão desse verba do Ministério do Turismo no ano passado. Promoveu o festival de quadrilhas, o carnaval, um evento náutico, e o Iguatu Festeiro. No mesmo período, o Governo Federal transferiu apenas R$88 mil para a atenção especializada em saúde bucal. O destino dos recursos costuma coincidir com o colégio eleitoral do autor da emenda. O ex-ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB) destinou R$700 mil para Lavras da Mangabeira, terra onde nasceu e que tem sua irmã como prefeita. Com o dinheiro, foi promovido o IV São João do Povo. O deputado também destinou outra emenda de mesmo valor para Tauá, município do sertão dos Inhamuns, que faz parte da sua base eleitoral. O deputado José Arnon Bezerra (PTB), que apresentou uma única

AJUDINHA. José Airton Cirilo – PT, também conseguiu junto ao Minitério do Turismo, verbas para festas no interior cearense 28 | Fale! Brasília | Maio de 2009

foto JORGE CAMPOS_ AGência CAMARA

CLIENTELISMO. O deputado federal José Arnon Bezerra – PTB (e) diz que o dinheiro das emendas é direcionado para redutos eleitorais e Marcelo Teixeira (d) divide sua emendas entre o forró e o turismo emenda no valor de R$3,7 milhões, admitiu que o dinheiro é direcionado para os redutos eleitorais. O dinheiro vai para onde a gente é votado e onde tem perspectiva de votos, disse. Mesmo assim, não vê uso eleitoreiro do dinheiro público já que atende ao “pedido do prefeito que representa”. O consultor de economia da Organizaçao Não Governamental Contas Abertas, Gil Castelo Branco, acha que a inversão de prioridades na distribuição dos recursos do orçamento da União tem origem na dependência do executivo de sua base de apoio no Congresso. Parlamentares, segundo ele, pressionam a liberação de recursos para seus redutos eleitorais. Historicamente, se estabeleceu no Brasil uma relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo e isso está agradando a todos porque, cedendo às pressões do parlamentar, o executivo consegue em troca o apoio dele para aprovar temas de seu interesse.

História do pão e circo Apesar dos recursos terem origem federal, a proliferação das festas acabou despertando a atenção do www.revistafale.com.br

Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará (TCM), que decidiu fiscalizar a aplicação das contrapartidas municipais. Eventos sem forte apelo popular consumiram muito dinheiro. Em Solonópole, distante 275 quilômetros de Fortaleza, foram usados R$490 mil para a realização de dois festivais da juventude, em julho e dezembro. O valor não inclui a contrapartida do município. Com R$1,959 milhão recebido do Ministério do Turismo, a prefeitura de Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza, realizou dois eventos em 2008 e cobriu parte das despesas com o Natal do ano anterior. Só o São João consumiu R$1,550 milhão de recursos federais. Parte desse bolo foi recheado com emendas da deputada Gorete Pereira (PR), ligada ao prefeito Roberto Pessoa (PR). Com uma emenda específica para Maracanaú, ela garantiu R$500 mil. Mas além dessa, apresentou uma emenda genérica de R$1,2 milhão — só liberada em parte — que pode ter sido distribuída em mais de um local. Uma terceira emenda da deputada, no valor de R$500 mil, financiou a Vaquejada de Itapebussu, no município de Maranguape. A verba foi


foto luiz alves _ agência câmara

suficientes para investimento. O problema é que grande parte desse dinheiro — gasto em festas ou em dezenas de construções de quadras poliesportivas num mesmo local — atende primeiramente ao interesse do político. Gil acha que existe uma inversão de prioridades na distribuição dos recursos do orçamento da União. Para ele, a relação promíscua e de dependência entre o executivo e o legislativo e o projeto de reeleição do parlamentar estão na origem dessas distorções. É possível que o governo libere dinheiro para a realização de um evento no Ceará e negue recursos para a compra de um equipamento médico para o município vizinho, disse. É um instrumento de fidelização do prefeito e atende a lógica do forrobodó. A deputado Gorete Pereira parlamentar que quer se reeleajuda com suas emendas parlamentares a ger. É a história do pão e circo. fazer a festa na cidade de correligionário O deputado promove o circo repassada para uma entidade sem porque dá votos. Não importa se aquilo fins lucrativos — Instituto Práxis não é a prioridade para o município. n de Educação Cultura e Ação Social — com sede em Fortaleza, contratada para a realização. Com R$950 A assessoria do Ministério do mil para gastar, a cidade litorânea de Beberibe, onde o teto de uma escola Turismo informou que o dinheiro municipal desabou em 2007 matanpara promoção de eventos vem das do uma criança, investiu pouco meemendas parlamentares. O grande nos da metade desse valor para fazer número de emendas apresentadas no o carnaval fora de época em dezemano passado foi o responsável pelo bro passado, com a banda Chiclete aumento de mais de três vezes do com Banana. montante liberado em 2007. Uma comparação entre o volume de dinheiro aplicado em festas e o Segundo o ministério, o parlamentar investimento do município em áreencaminha a solicitação do dinheiro as sociais levanta o debate sobre a para um determinado município, mas qualidade do gasto público. Iguatu, a prefeitura precisa encaminhar um por exemplo, recebeu R$1,5 milhão projeto. O Ministério explicou que dessa verba do Ministério do Tumunicípios que receberam verbas rismo no ano passado. Promoveu o muito elevadas para a realização de festival de quadrilhas, o carnaval, um mesmo evento podem ter sido um evento náutico e o Iguatu Festeiro. No mesmo período, o Goverbeneficiados com emendas de mais de no Federal transferiu apenas R$88 um parlamentar. mil para a atenção especializada em O ministério informou também saúde bucal. que faz fiscalização por amostragem, Segundo Gil Castelo Branco, podendo ir ao local no dia do evento. consultor do Contas Abertas, cerca Se detectada irregularidade, a prefeitura de 80% dos municípios brasileiros é notificada a prestar esclarecimento e dependem das verbas de convênios e das emendas, as chamadas transpoderá, dependendo da gravidade, ser ferências voluntárias da União, obrigada a devolver os recursos. porque não têm recursos próprios

MINISTÉRIO EXPLICA

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festa na bahia ONG petista recebe recursos da Petrobras para bancar São João na Bahia

A imagem da Petrobrás ficou arranhada após acusação do Jornal Folha de S. Paulo. Segundo reportagem a Petrobrás teria patrocinado festa de São João no inteiror da Bahia. As verbas foram repassadas para a ONGs ligadas ao PT baiano. Duas organizações gerenciaram os R$ 2,96 milhões. A Associação de Apoio e Assessoria a Organizações Sociais do Nordeste – Aanor, lidada a Aldenira da Conceição Paiva, vice-presidente do PT baiano recebeu R$ 1,45 milhão. Já a Fundação Galeno D’Alvelírio recebeu R$ 1,5 milhão, a ONG é presidida por Maria das Graças Carneiro de Sena, ex-presidente do PT de Cruz das Almas, a 142 km de Salvador. Prefeitos de várias cidades acusaram o então diretor regional de Comunicação Institucional para o Nordeste e atual assessor especial da presidência da estatal, Rosemberg Pinto, de chantagar prefeitos para que contratem empresas ligadas a ele na montagem das festas. O presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli afirmou haver interesses políticos locais por trás das acusações e atribuiu as denúcias ao ministro da Integração RegionalGeddel Vieira Lima. Isso mancharia a candidatura de Gabrielli ao Senado, Haja pré-sal Na Bahia, Geddel, de frutas. do PMDB, é oposi- Sérgio Gabrielli, tor do governador presidente da Jaques Wagner, PT, Petrobras ataca de quem Gabrielli é o ministro da aliado. Mas o curio- Integração so é que, no plano Nacional, Geddel Vieira Lima nacional, todos se abrigam sob o guarda-chuca do Governo. n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 29


30 | Fale! BrasĂ­lia | Maio de 2009

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História de Capa

quase 50

Brasília, a utopia tornada realidade pelo arrojo de JK, chega aos 49 e se prepara para a grande comemoração dos seus 50 anos, em 2010

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Maio de 2009 | Fale! Brasília | 31


H I S T Ó R I A de capa

B

rasília, capital de todos os brasileiros, vive sendo

injustiçada. Falam de corrupção, de desmandos, mas não falam de outros assuntos que rodeiam essa cidade singular, planejada, patrimônio cultural da humanidade — título concedido pela Unesco. Cidade de contrastes, de espaços abertos, de integração, de ritmo próprio, de todos os falares e sotaques. Cidade de imigrantes e emigrantes. Cheia de embaixadas e de caldos de cana e por-do-sol decantado em músicas, como a famosa de Djavan e Caetano Veloso, Linha do Equador: “Céu de Brasília 32 | Fale! Brasília | Maio de 2009

, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim”. Brasília, por ser a capital federal e abrigar as mais importantes representações de imprensa, políticas, religiosas e diplomáticas, é a base ideal para um veículo de comunicação como o nosso. Entretanto, trabalhar a informação em Brasília requer considerar as especificidades de uma Capital Federal. Com efeito, pela sua característica de principal centro de decisões políticas do País, Brasília é a cidade para onde mais se estendem as vistas, as preocupações e os interesses da Nação. Mesmo nos grandes centros urbanos, nos que têm os

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maiores parques industriais, maior autonomia e dinamismo econômico, mesmo - ou especialmente – nestes sabe-se das profundas imbricações ( para não falar em dependência) que seus negócios, suas atividades, estabelecem com as decisões geradas, gestadas e geridas a partir da capital política do País. Brasília não é somente o lugar onde as coisas acontecem – é, principalmente o local onde se fazem acontecer as coisas. Para isso, presume-se, a informação adquire, em Brasília, outra qualidade: deixa de ter importância acessória, adjetiva, e torna-se elemento

fundamental, substantivo. Vale dizer: a informação, na Capital Federal, não somente auxilia um negócio; ela é o negócio. Desta forma, ausente a informação, desaparecem os próprios negócios: como num passe de mágica, empresas são extintas, instituições são liquidadas, órgãos públicos são fundidos. Decisões são tomadas a todo instante. Uma assinatura e o que existia há anos passa a ser só referência histórica. Por isso, nossa revista abriu o canal e foi ouvir pessoas que têm muito a dizer sobre essa cidade quase cinquentona e que ainda inspira e transpira criação e luz.

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H I S T Ă“ R I A de capa

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foto ivaldo cavalcante

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Brasília, nossa terra

Personalidades que vivem Brasília falam de diferentes aspectos da cidade prestes a completar 50 anos

Desenho de Oscar Niemeyer para a Praça dos Três Poderes, em Brasília

DUZENTOS ANOS DE HISTÓRIA DO TERRITÓRIO BRASILIENSE Por Deusdedith Junior

Coordenador de História do UniCeub, mestre e doutorando em História, autor do livro “Viagem pela Estrada Real dos Goyazes”

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rasília e o Distrito Federal nasceram juntas há quase

50 anos. É raro viver em um lugar em que a maioria das cidades tem mais ou menos a mesma idade e a mesma origem. Brasília nasceu de fora pra dentro. Vieram aqui construir e habitar a cidade e a região brasileiros dos mais longínquos rincões. Quem construiu Brasília foi gente que veio “de fora”, de outros cantos do Brasil. É corre-

to afirmar o que foi dito acima, mas isso não conta toda a história dessa região. Este lugar já era habitado antes? E se era, quem e onde morava por aqui? A ideia do “zero absoluto”, do “deserto” no Planalto Central parece suspeita quando insistimos em negar a herança goiana desse lugar. Fizemos do goiano o nosso par opositor da identidade brasiliense, e para reforçar este argumento contamos a história de Brasília, mas não a história de uma região. Em síntese, não temos uma história regional — somente uma história de Brasília —, pois ela revelaria outros 150 anos de história que não gostamos muito de lembrar. O poeta bem humorado Nicholas Behr já nos lembrava desse esquecimento: “… bem, o sr. já nos mostrou os blocos, as quadras, os gramados, os eixos, os monumentos… será que dava do sr. nos mostrar a cidade propriamente dita!?” E para além da cidade, podemos nos surpreender ao olhar para a longa história que nos www.revistafale.com.br

conta o mapa do Distrito Federal. A hidrografia do Distrito Federal teve todos os seus rios batizados antes da construção da grande cidade. E o que encontramos são nomes que se referem à vida rural: Sobradinho — nome de fazenda; São Bartolomeu — homenagem ao descobridor das minas do Goiás; Fazendinha; Valos — demarcadores de fazendas; Açude; Monjolo; Contagem — antigo posto fiscal; Descoberto — relativo à mineração; Gama — nome de uma antiga fazenda. E poderia ser grande a lista, pois grande é a quantidade de cursos d’águas que irrigam o nosso quadrilátero. Compõe-se aí uma história de ocupação intensa — quase todos os rios já eram conhecidos — que se completa com uma sutil malha viária a ligar as fazendas, umas às outras, e estas às vias principais que ligavam o Goiás à Bahia e a Minas Gerais. Poderíamos imaginar que essa história das fazendas desaparecerá por completo. Mas nos basta passear pelos circuitos do turismo ecolóMaio de 2009 | Fale! Brasília | 35


H I S T Ó R I A de capa gico e rural do Distrito Federal para encontrarmos casas do século XIX, vestígios de cemitérios antigos e outros restos desse passado que até nas áreas intangíveis do Parque Nacional de Brasília se escondem entre as mangueiras (plantas exóticas), prova concreta de que grandes fazendas existiram ali. Deveríamos recuar a nossa história ao século XIX para nos compreendermos melhor. Mais longe que isso, porém, encontramos os vestígios de mineração do período colonial nas curvas dos rios da região de Taguatinga — mais uma palavra daqueles tempos, em Tupi-Guraní —, Samambaia e Gama — aquela antiga fazenda. Mais distante ainda no tempo, os restos de cerâmica e outros objetos deixados por tribos indígenas que caçavam intensamente nesta região, e ainda as pontas de lança e outros instrumentos de pedra pré-históricos (de até 6 mil anos atrás) que se revelam aos atentos observadores da antiguidade desse lugar. Não foi uma completa surpresa encontrar entre os documentos goianos guardados no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal, um relato de viagem escrito por um tropeiro, José da Costa Diogo, em 1734, contendo uma relação dos lugares por onde passou, vindo de Minas Gerais em direção à área de mineração goiana e citando fazendas, rios e outras referências que ainda pertencem ao vocabulário do mapa do Distrito Federal. Na linguagem do século XVIII, o viajante descreve os lugares por onde passou: “Dos Bezerras a Lagoa

Fea; Dahy a Bandeyrinha; Dahy a João da Costa; Dahy ao Monteiro; Dahy ao Sobradinho; Dahy às Três barras; Dahy aos Macacos; Dahy ao Ribeirão da Área; Dahy ao Corumbá que não está povoado; Dahy ao Arrayal da Meyaponte”. Este é o antigo percurso daquela que mais tarde se tornou a Estrada Real de Goiás e que ainda podemos percorrer em um pequeno trecho que contorna no Parque Nacional de Brasília. Este é, até o momento, o mais antigo relato de uma passagem pela região do Distrito Federal. Uma história de duzentos anos que mesmo longe dos registros oficiais sobrevive aos pedaços, ao lado, por baixo e por cima do concreto armado da grande capital. Em geral, quando nos referimos à ocupação do território goiano, e isso se estende também ao Distrito Federal, falamos de um vazio demográfico que parece indicar uma ocupação incompleta ou rarefeita. Mais uma vez miramos com olhos de “estrangeiro”. Diferente do litoral, que concentrava um leque de pequenas cidades em torno de um grande centro, ou do Sudeste, principalmente Minas Gerais, que produziu um rosário de vilas que seguiam os veios de ouro, muito próximas umas das outras, o sertão goiano foi plenamente ocupado por uma rede de pequenas vilas distantes umas das outras, mas ligadas por um emaranhado de estradas costuradas às fazendas. Vale mais uma vez recorrer aos versos do poeta intrigado Nicholas Behr: “mapa na mão/ olho no mapa/ mão no olho/vamos tentar encontrar a cidade”. n foto Rodolfo Stuckert _ agência câmara

PARTICIPAÇÃO POPULAR. A festa de aniversário de Brasília reuniu 1,5 milhão de pessoas na Esplanada, segundo dados da Brasiliatur. foto macello casal jr_abr

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Sem o povo do DF, Brasília não existiria Wílon Wander Lopes

Mora no DF desde 1959, advogado e jornalista, é o presidente da Confraria dos Cidadãos Honorários de Brasília

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uase 50 anos depois, a

monumental Brasília ainda não descobriu a importância do povo do Distrito Federal. Esse mesmo povo que, construindo Brasília de dia, montava seus barracos à noite, aos poucos também construindo, sem qualquer ajuda oficial, sua cidade satélite. O pior é que muitos dos que vieram para cá forçados, para não perder seus empregos, nos primórdios de Brasília, obrigados também a abandonar suas praias e rodas de malandragem, disseminaram uma lamentável discriminação negativa contra Brasília e contra todo o povo do DF. Vamos à história: quem vive nas chamadas cidades-satélites veio para Brasília porque atendeu o chamado de JK para realizar o grande sonho da descoberta e ocupação do interior brasileiro. Se não houvesse a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, se não fosse a saga dos candangos pioneiros inventando Taguatinga, contra os governantes, não haveria Brasília. É preciso dizer que Brasília não foi construída pelos maus políticos que, vindos de todo o Brasil, transformaram a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios num escárnio nacional que, injustamente, atinge o operoso cidadão de Brasília e de suas satélites, muitas vezes injuriado por este Brasil afora, confundido com os “donos do poder”. Para muita gente que paga a conta, com seus impostos, para que Brasília funcione como capital de todos os brasileiros, aqui é a terra dos corruptos. Mas os corruptos vêm de fora, eleitos por eles... Carlos Drummond, em seu poema Confronto (olha só o nome! - veja a íntegra do poema no quadro ao lado) já tinha revelado um estranho abismo entre a capital e seu Entorno. www.revistafale.com.br

Confronto

Carlos Drummond de Andrade A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que têm a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, Que ressentimentos Prestes a soltar da goela coletiva e não se exprimem? Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea capital? Por que Brasília resplandece ante a pobreza exposta dos barracos de Ceilândia, filhos da majestade de Brasília? E pensam-se, remiram-se em silêncio as gêmeas criações do gênio brasileiro. Na festa de 49 anos de Brasília, a Esplanada dos Ministérios foi tomada pelo povo do DF. E foi só alegria, foi uma festa de verdade. O povo do DF veio e mostrou que a Praça é do povo, como dizia o poeta. Mas teve gente que reclamou da sujeira que o povo fez. Gente que acha que a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios têm que ficar limpas sempre. Talvez para não sujar os colarinhos brancos dos que, sempre por ali, têm ojeriza do interesse público, só pensando em engordar suas contas particulares. O povo que não passe da rodoviária... É assim que acontece, de fato, a injusta história humana de Brasília, que ainda não valoriza a sua redoma - o desconhecido, desvalorizado, discriminado Distrito Federal. A realidade humana da Capital da Esperança. A terra para onde foram jogados, como invasores, especialmente nos tempos de chumbo, os verdadeiros construtores de Brasília. Ainda bem que, quase 50 anos depois, está chegando à vida influente uma nova geração. Os filhos de Brasília e do Distrito Federal. E pouco a pouco, vai se acabando essa odiosa discriminação. É a gente jovem de todas as idades que faz o rock, o rap, o artesanato, as feiras, a arte, a cultura, enfim, formando um amálgama de sadia brasilidade, considerando todos os que aqui estão como cidadãos iguais. Quase 50 anos depois, Brasília começa a descobrir a presença de Maio de 2009 | Fale! Brasília | 37


H I S T Ó R I A de capa SÍMBOLOS. O edifício sede do Congresso Nacional e, na página oposta, a Catedral de Brasília, dois dos cartões postais da cidade fotos Rodolfo Stuckert e Edson Santos_ agência câmara

um valor maior: quem é o verdadeiro responsável pela sua criação, consolidação e identidade – o povo do Distrito Federal. Todos os que moramos aqui. Juntos, somos co-autores do que Brasília é - e do que será Brasília, e suas cidades-satélites não são só as ruas, os prédios, os viadutos, o cerrado. Os valores de Brasília não são só as maravilhosas obras de Niemeyer e Lúcio Costa. É a gente de Brasília e de suas satélites o valor maior, o grande monumento que está implantado no Planalto Central. E toda essa gente precisa se encontrar e se integrar de forma digna. Brasília tem essa missão. É a missão maior de todos nós que, vivendo aqui, transformamos o Brasil de direito, com um monte de terra desabitada, neste Brasil de fato, nascido a partir de Brasília, esta obra arquitetônica/humana que recebe elogios de todo o mundo. Na festa dos 49 anos de Brasília, mais de um milhão de pessoas tomaram a Esplanada para mostrar que não há mais lugar para a discriminação e que começam a se integrar os cidadãos de Brasília e o povo do DF. Mesmo que sobre, no final, o lixo da grande festa. n 38 | Fale! Brasília | Maio de 2009

BRASÍLIA, 49 ANOS. VAMOS COMEMORAR? Por Vera Ramos

Arquiteta e urbanista, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal

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1 de abril de 2009. Há ape-

nas 49 anos atrás, o Presidente Juscelino cumpria a mais ousada de suas metas e, em tempo recorde, entregava Brasília aos brasileiros. Finalmente, estava transferida a Capital da República para o interior do Brasil. Esta gigantesca e comovente obra foi o resultado da criatividade, da competência, da esperança e da solidariedade de milhares de brasileiros. Brasília é diferente e única. É inovadora com raízes brasileiras. É o urbanismo de Lucio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer. É luz, céu, horizonte, amplos espaços, áreas verdes, eixos, tesourinhas, superquadras, blocos, pilotis, palácios, curvas e retas. Introduziu um novo modo de morar e de viver numa nova concepção de cidade. www.revistafale.com.br

É necessário lembrar que a construção da nossa jovem e moderna cidade — capital não inovou somente pela excelente qualidade de seu urbanismo e arquitetura ou pelas novas técnicas construtivas, mas também pelos planos revolucionários nas áreas de educação, saúde e abastecimento. Brasília foi planejada e projetada como modelo para um país em desenvolvimento que, pela primeira vez, acreditava em si mesmo. Cumpriu sua missão de integrar nosso país continental e representa um salto qualitativo sob todos os aspectos. E as inovações não pararam por aí: foi o primeiro bem contemporâneo inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, pois até aquele momento somente bens culturais seculares ingressavam nessa lista. Outra inovação: está protegida por um tombamento de caráter urbanístico, diferente do tombamento arquitetônico, que é mais usual e conhecido. Como cidadãos, é imprescindível que tenhamos sempre em nossas mentes e em nossos corações todas essas conquistas, valores e sentimentos, para comemorarmos todos


Segurança nos QUASE 50 Saulo Santiago

Presidente do Conseg de Brasília, membro do IHGDF/Conbras.

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rasília, a Cidade da Espe-

os dias e, sobretudo, para refletirmos em mais um aniversário de Brasília. Qual o futuro que desejamos? É extremamente preocupante constatarmos que, com apenas 49 anos, a cidade que é patrimônio dos brasilienses, brasileiros e da humanidade, que tem possibilidades de se manter na vanguarda também no século XXI, já apresente os mesmos graves problemas que atingem tantas outras metrópoles. Não podemos permitir que o caos urbano e ambiental aqui se instale de forma irreversível. É preciso agir rápido, com visão, conhecimento, sensibilidade e, acima de tudo, com respeito por tudo que Brasília representa. Foi um desafio construir Brasília e é um desafio preservá-la. Temos a obrigação de manter essa cidade diferente e especial, para garantir às futuras gerações o direito de usufruir de sua beleza e da qualidade de vida que proporciona. Vamos comemorar sim, mas com consciência de que muita coisa deve ser feita e muitos recursos devem ser empregados para se reverter o quadro atual até o próximo aniver-

sário de Brasília.  Vejam como JK se preocupava com o Plano de Lúcio Costa muitos anos antes do tombamento. Ele achava que haveria uma tendência a destruir o Plano se não houvesse mecanismos de defesa para mantê-lo. JK, em 15 de junho de 1960 (menos de dois meses da inauguração da cidade), escreve este bilhete (encontrado no acervo de Lúcio Costa) dirigido ao Presidente do IPHAN, Rodrigo de Mello Franco de Almeida: “Rodrigo, A única defesa para Brasília está na preservação do seu Plano Piloto. Pensei que o tombamento do mesmo podia constituir elemento, seguro, superior à lei que está no Congresso sobre cuja aprovação tenho dúvidas. Peço-lhe a fineza de estudar essa possibilidade, ainda que forçando um pouco a interpretação do Patrimônio. Considero indispensável uma barreira às arremetidas demolidoras que já se anunciam vigorosas. Grato pela atenção, Abraço, JK” 15 de junho de 1960 n www.revistafale.com.br

rança, nasceu do sonho dos visionários e da vontade de um estadista. Ao desejo dos Inconfidentes Mineiros de mudança da capital do país para o interior do hinterland brasileiro, seguiram-se os anelos mudancistas do Marquês de Pombal, do Patriarca José Bonifácio, do historiador Varnhagen, do jornalista Hipólito da Costa e do profeta Dom Bosco. Somente na década de 50, a tenacidade do presidente Juscelino Kubitschek concretizou a mudança da capital da República, trazendo-a do litoral fluminense para o cerrado goiano. Do solo ainda agreste do quadrilátero proposto pela Missão Cruls em 1892, brotou, em 1960, uma cidade ímpar no mundo pela sua beleza arquitetônica e pelo plano original de concepção. Brasília contemporânea ainda é uma cidade aprazível com excelente qualidade de vida no Plano Piloto. No entanto, há em todo Distrito Federal alguns problemas de segurança pública como os das demais grandes cidades. Durante sete anos, a curva estatística da criminalidade declinou. De 2008 em diante, houve um surto de criminalidade devido a alguns fatores como o aumento da população de rua; o desemprego de pessoas trazidas pelo êxodo rural; o crescimento da violência entre jovens de 15 a 24 anos de idade e o incremento do uso e tráfico de drogas. Em compensação, temos a melhor polícia do Brasil. Há em execução diversos programas sociais de prevenção da violência por parte do Estado e da sociedade civil. Sabe-se, atualmente, que não se combate o crime somente com a repressão. Temos que atacar as causas da criminalidade, a começar pelo trabalho no âmbito da família, da escola, da igreja. Algumas leis excessivamente complacentes com a delinquência precisam ser reformuladas. Temos o privilégio de viver na cidade erigida pela energia dos pioneiros e pela pertinácia de JK. Mas temos também a corresponsabilidade de preservar uma urbe tombada pela Unesco. n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 39


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Avante, Brasília Affonso Heliodoro

Bacharel em Direito, Coronel da Reserva da Polícia Militar de Minas Gerais, jornalista e amigo do Presidente Juscelino Kubitschek, seu conterrâneo de Diamantina, e ex-aluno de sua mãe, a mestra Júlia Kubitschek. Com JK, foi Chefe do Gabinete Militar no Governo de Minas Gerais e Subchefe do Gabinete Civil na Presidência da República. Dirigiu o SVMEG (Serviço de Verificação das Metas Econômicas do Governo) e o SIE (Serviço de Interesses Estaduais). Participou ativamente das campanhas eleitorais de Juscelino para a Presidência da República e para o Senado Federal. Há alguns anos, preside o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

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rasília não foi feita ape-

nas para ser a capital administrativa do Brasil. Ela foi construída para propiciar a ocupação dessa imensa área que é o Centro-Oeste. Seis milhões e quinhentos mil km² de território com apenas cinco milhões de brasileiros a ocupá-los. Ou seja, mais ou menos ½ habitante por quilômetro quadrado, numa enorme área com 92% de terras agricultáveis e a segunda maior bacia hidrográfica do mundo. O Presidente Juscelino Kubitschek, durante seu mandato presidencial, interligou o Brasil por rodovias, ferrovias, hidrovias e aerovias. Era a sonhada integração nacional. Esses meios de transportes, realmente, realizaram a sonhada integração de nosso território. Estava o Brasil pronto para realizar, no segundo mandato de JK, sua real independência. Seu programa para 1965 era: “5 anos de agricultura para 50 de fartura”. Foi cassado, perseguido, exilado e morto. Seu projeto não foi realizado. A despeito, entretanto, de seu afastamento da vida pública do país, graças à existência de Brasília, somos hoje, cinquenta anos decorridos, um dos maiores produtores de grãos do mundo. Ao deixar o governo, Brasília já se ligava ao Acre. Fácil, portanto, atingir-se o Oceano Pacífico. E o grande mercado mundial estaria sendo abastecido pela produção agrícola do Brasil. Esse fato lembra o petróleo, que durante muitos anos não nos foi permitido produzir. Sempre negada sua existência no Brasil pelos “donos do mundo”. (Missão Walter Link). Hoje, depois de Getúlio e Juscelino, nosso petróleo cada vez mais ocupa lugar de destaque no mercado 40 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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mundial. E tem potencialidade para ser um dos maiores produtores do mundo. Assim seria, também, com a agricultura. O Brasil já havia entrado definitivamente na fase de produção industrial. Já competia nessa área. Mas os royalties vão embora. Com a agricultura é diferente. Sua riqueza fica aqui com seus produtores. Fica no Brasil. Seria o segundo 7 de setembro de nossa história. Mas vamos falar da Brasília cinquentenária. Vamos lembrar o comício de Jataí. A esse respeito já se falou muito. Toniquinho, autor da pergunta histórica sobre criar ou não Brasília, está aí vivo para lembrar o memorável dia. Vamos falar do Brasil de JK. No dia 2 de outubro de 1956, em companhia de personalidades da maior significação na vida nacional, Juscelino realiza sua primeira visita

ao local onde seria construída a Nova Capital do Brasil. Era o deserto, mas, em breve, um fabuloso e inacreditável número de máquinas e homens estariam realizando a obra que marcaria o maior feito de um presidente naquele século. Às 11h40 daquele dia, o avião presidencial tocou o chão duro do cerrado, percorrendo, em pista improvisada por Bernardo Sayão, aquele pedaço de Brasil ainda desconhecido da maioria do povo brasileiro. Estavam o Presidente, festivo e alegremente, sob um sol impiedoso, José Ludovico, Governador de Goiás, Bernardo Sayão, figura inigualável de amor ao Brasil e a esta região que ajudou a desenvolver, outras autoridades goianas e um grupo alegre de estudantes que vieram com JK, já acreditando que aquele homem estava, realmente, disposto a realizar o www.revistafale.com.br

CONSTRUTOR. Jucelino Kubitschek e seu plano de metas. À esquerda, JK com o amigo e então subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República Afonso Heliodoro. fotos FEPECS — brasília

velho sonho. Sonho há tanto acalentado pelos brasileiros, principalmente, pelo valoroso povo goiano. A ilustre comitiva trazia — no bojo daquele pequeno avião, um Douglas-DC-3 – a esperança de um futuro de progresso, desenvolvimento econômico e social para a região. Foram os primeiros passos para a irreversível conquista desses mais de seis milhões de quilômetros quadrados que representam dois terços do território nacional. Os goianos e mato grossenses, aqui, sozinhos, lutavam, buscando desenvolver esse abençoado pedaço de mundo Maio de 2009 | Fale! Brasília | 41


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que Deus lhes dera. Em 1960, um terço do Brasil, representado principalmente pelos estados litorâneos, contava com uma população de 70 milhões de habitantes, enquanto que os outros dois terços, representados pela região amazônica, incluindo, naturalmente, Goiás e Mato Grosso, contavam apenas com cerca de cinco milhões de habitantes, ou seja, mais ou menos, 42 | Fale! Brasília | Maio de 2009

meio habitante por quilômetro quadrado. Assim, em vez de falar sobre o dia da grande e fundamental decisão, prefiro falar dos benefícios que Brasília trouxe para o Planalto Central e, mais ainda, para o País. Bastaria dizer das grandes rodovias que aqui nasceram para integrar o Brasil. Criou-se uma espinha dorsal ligando o Norte ao Sul do país. E outras que uniam o Leste ao Oeste, transforwww.revistafale.com.br

mando esta região, antes quase desabitada e inóspita, no “centro das mais altas decisões nacionais”, pelo vigoroso impulso dado ao desenvolvimento econômico e social, transformandoa, também, em polo irradiador de civilização e riqueza. Portanto, nestes quase cinquenta anos decorridos daquela decisão histórica, vale mais falar-se de Brasília civilização, Brasília riqueza, Brasília progresso. Va-


O SONHO CHAMADO BRASíLIA. À Esquerda, pioneiro da construção. Acima, trabalhadores, principalmente nordestinos, que aceitaram o convite de JK e foram ajudar a construir Brasília. fotos FEPECS — brasília

mos falar dos benefícios advindos de sua construção, como a mudança da Capital, a presença do poder político e econômico instalados aqui, nas longínquas plagas do Oeste, agora mais próximas do Norte e do Nordeste. Por exemplo, para só citar um caso, dentre milhares: a cidade de Imperatriz, no Maranhão, com o início da construção da estrada Bernardo Sayão — a Belém-Brasília – como

passou a chamar-se, na gíria local, Cidade do Telhado Novo, em virtude de construções que se faziam ali, em torno de três novas casas por dia, numa cidade que estava se acabando, como tantas outras do interior do Brasil. O povoamento, nas margens daquela estrada, representa hoje, mais de dois milhões de pessoas. Sem se falar na Brasília/Acre, Brasília/Fortaleza, Brasília/Belo Horizonte, Brasília/Cuiabá, Brasília/São Paulo e tantas outras estradas de rodagem e de ferro hoje abandonadas e as hidrovias, conjunto de obras que visavam, a partir da nova capital, à integração nacional. Há um outro aspecto de significativa importância, ligado ao processo de ocupação do nosso interior, que é a aproximação territorial com nossos irmãos latinoamericanos, como o Paraguai, a Bolívia, o Peru, a Colômbia e a Venezuela. Países que constituem a continuação física de nosso território. Povos de origem latina como o nosso, cujas economias sofrem as mesmas penúrias das regras impostas pelos países chamados do Primeiro Mundo. Essa conquista do vazio territorial que tanto nos angustia ainda, sobremodo agora, com as manifestações afrontosas de estrangeiros sobre nossa soberania, fazia parte das preocupações do Presidente JK, quando propôs a criação da Operação Pan-Americana — OPA. Seu principal escopo era www.revistafale.com.br

promover o desenvolvimento regional e integrado dos países abaixo do Rio Grande. O objetivo era, também, evitar essa postura vexaminosa, que tanto nos humilha, ver nossos governos, cada um por si, de chapéu na mão, a implorar o tostão dos cofres recheados dos países, marcadamente dos EUA, que obstruem e emperram nosso desenvolvimento, que entravam e degradam nossa economia. A construção de Brasília e as estradas que daqui saem para o interior aproximaram-nos das fraldas dos Andes, colocando-nos próximos ao Pacífico, encurtando distâncias e propiciando novos mercados para exportação e importação de bens. Caso não tivessem matado a OPA, isso seria realidade. Estaríamos integrados por terra ao resto da América Latina. Falar desses quase cinquenta anos de Brasília não me emociona, mas fazme reviver as derrotas que temos sofrido pela incompetência ou pelo desamor ao Brasil, ao longo desses anos em que nossos governantes se submetem aos mandos dos novos colonizadores do mundo. Apesar de tudo, o Brasil vai rompendo suas barreiras, transpondo seus obstáculos. Mas, tenho fé, nossas elites hão de saber como tirar-nos da enrascada em que maus brasileiros teimam em nos meter. Há de chegar o dia em que, de Brasília, alguém há de gritar como Tiradentes: Chega, chega de submissão! n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 43


H I S T Ó R I A de capa em construção. Congresso Nacional sendo erguido no final dos anos 50. fotos FEPECS — brasília

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Entrevista

10 PERGUNTAS PARA

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Nicholas Behr iva Brasília! Afinal, Brasília agora

Eu fiz parte de uma geração que teve a felicidade de ser a primeira geração que uniu Brasília mesmo e que botou uma camiseta, bateu no peito e disse eu amo Brasília, nós amamos Brasília!

é viva, já não mais esqueleto, concreto, maquete. É cidade grande, seus arranha-céus, contradições e o caos urbano — maquete viva. Agora, aos 49 anos, mas, desde sua “adolescência”, a não tão nova capital conta com seus artistas, que ora lhe jogam pedras, ora lhe tecem poemas de amor. E se houve alguém que muito ilustrou a cidade foi o poeta Nicholas Behr, natural de Cuiabá, Mato Grosso. Ele chegou a Brasília em 1974 e assumiu posição de um dos principais expoentes da literatura marginal na cidade. Quebrou o grande mito da literatura brasiliense ser um Diário Oficial. “Pariu Brasília, uma nova realidade.” Nicholas ficou famoso no Plano Piloto, nos idos de 77, quando da publicação de seu primeiro livreto de poesia, o “Iogurte com Farinha”, impresso em mimeógrafo, no colégio Setor Leste. Adepto da literatura marginal, corrente de contracultura de resistência aos militares e à ordem vigente, vendeu, no corpo a corpo, “heróicos” oito mil livrinhos da primeira edição. Em 1978, após lançar “Grande Circular”, “Caroço de Goiaba e Chá com Porrada”, foi preso pelo DOPS, polícia de repressão da Ditadura Militar por “posse de material pornográfico”. Este era o motivo oficial, mas não foi citado no processo sua militância no movimento estudantil. Julgado, foi absolvido.

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Sua obra subverteu todo o esquema editorial das livrarias e dos controles sociais, como ele mesmo afirma “sem pedir prefácio a ninguém!”. Entre 1977 e 1980, imprimiu 19 diferentes livrinhos de poesia. Dono de uma crítica feroz e um amor ímpar por Brasília, foi um dos agitadores do Movimento Cabeças, que daria origem mais tarde à toda a cena do rock da capital, com Paralamas do Sucesso, Cássia Eller e o inesquecível Legião Urbana. Esse foi o movimento que potencializou a humanização dos blocos residenciais com a ocupação dos espaços pela arte. Sua obra mostrou a cidade em minúcias, levando nos títulos a cara da capital federal. Segundo a tese de mestrado de Gilda Maria Queiroz Furiati, para se embasar, o artista teve como referências o “Relatório do Plano Piloto de Brasília”, de Lúcio Costa, “A Cidade Modernista – Uma crítica de Brasília e sua utopia”, de James Holston e as crônicas de Clarice Lispector sobre Brasília, inseridas no livro “Para Não Esquecer.” Também serviram de inspiração Mário de Andrade, e sua “Paulicéia Desvairada”, resultando no “Brasiléia Desvairada”, e ainda grandes autores como Guimarães Rosa, além de mais de 100 outras obras. Hoje, é Sócio-Gerente da “Pau-Brasília, viveiro. eco.loja” e vive da produção de mudas, principalmente de espécies do Cerrado, e também da venda de seus livros. Casado com Alcina Ramalho desde l986, tem três filhos: Erik e os gêmeos Klaus e Max. Behr não parou na história. Sempre à frente de seu tempo, se posiciona, intervém e nos mostra uma nova capital da esperança, extasiante. O poeta carrega o legado de ter dado vida às curvas desenhadas por Niemeyer.


Nicholas Von Behr engoliu Brasília. — Por Vinicius Borba, especial para Fale! Brasília.

Fale! Brasília. Como o Sr. vê o estigma de que Brasília é uma cidade fria, burocrática, concreta? Nicholas Behr. Isto é uma ideia antiga,

coisa que já passou, Brasília deixou de ser maquete. Brasília hoje é uma maquete viva, maquete que se humanizou, e quem humanizou isso foi a arte e a natureza, as árvores os gramados, as pessoas e a cultura. Cada uma foi achando seu jeitinho de se encaixar nessa cidade, nessa proposta, nessa ideia maluca dos modernistas de fazer esta cidade planejada. Isto eu estou falando de nosso centro histórico, Asa Sul, Asa Norte e Esplanada dos Ministérios. Mas isso aí já morreu, esta ideia já foi... E é coisa do passado. Por exemplo, você viu a reação da população àquele obelisco, que o Niemeyer quer colocar ali na Esplanada? Quer dizer, pela primeira vez a cidade nega uma obra do Niemeyer, nega, nega mesmo. E diz não porque hoje a cidade tem gente que reage, opina. Isto é uma coisa muito sintomática, um momento histórico muito importante para uma cidade que está se assumindo e negando o pai, negando o criador. Fale! Brasília. É uma revolta da jovem Brasília? Nicholas Behr. É uma das muitas revol-

tas que vêm por aí. Acho que a grande revolta vai ser o dia que Brasília deixar de ser capital, acho que aí vai se chamar “Braxília”, e isso vai acontecer não sei quando, mas vai acontecer uma revolta contra esta Brasília que existe, esta Brasília burocrática, que se isola do resto, que criou uma casta de altos funcionários públicos. Eu chamo esta “aristocracia funcional”, que vive longe dos anseios da população, que vive o poder quase como um fim em si mesmo, e não para servir. Fale! Brasília. Nos anos 60 veio toda uma geração com o Presidente Bossa Nova, com muita auto-estima, ímpetos maravilhosos, uma insuflação de cultura forte naquela época. A Ditadura Militar (de 1964 à 1985) deu um banho de água fria nisso, e Brasília, à época uma adolescente, segundo Chico Simões, foi “estuprada”pelo golpe. Como o Sr. vê isso? Nicholas Behr. Efervescência é quando

Brasília deixou de ser maquete. Brasília hoje é uma maquete viva [...]às vezes acho que o Centro é Ceilândia, a periferia Asa Sul tudo que está sendo preparado aparece, mas não é parmamente. Mesmo quando eu não estou escrevendo, eu estou escrevendo. Mesmo quando não estou criando, eu estou criando, então não existe tempo perdido para a poesia, para arte, mas Brasília passa por momentos diferentes. Brasília hoje é uma metrópole, claramente. Passa um processo muito claro de metropolização, e isto mexe muito com a cidade. Eu fiz parte de uma geração que teve a felicidade de ser a primeira geração que uniu Brasília mesmo e que botou uma camiseta, bateu no peito e disse eu amo Brasília, nós amamos Brasília! Que contribuiu muito para a fixação da cidade, para a cidade realmente pegar, para a cidade realmente acontecer. Fale! Brasília. Quem são os medalhões desta geração? Nicholas Behr. Vamos começar pelo

mais conhecidos da geração do Rock, do Pop, do Punk, e aí tem várias pessoas que começaram a cantar a cidade, a cidade virou musa. Quer dizer, isto foi na passagem dos anos 80, a cidade virou objeto, as pessoas começavam a ter tesão por Brasília. Então na música, Renato Matos, na poesia, eu e outras pessoas. Tinha um grupo na época muito famoso chamado Asas e Eixos. Tinha filmes sobre Brasília, peças de teatro, então foi um momento muito rico, onde tudo conspirava à favor. Era disponível, tinha contra quem lutar, lutar contra a censura, a ditadura e a repressão, ainda era uma época de repressão. Era o final do Governo Geisel, início do Figueiredo. Não era a época “braba” do Médici, mas o Brasil voltava www.revistafale.com.br

a respirar, isso tudo resultou numa democratização da arte, quer dizer democratização da poesia, abertura, houve uma ruptura aí. Na poesia, começamos a editar livro no mimeógrafo. Na época eram os “zines”, agora vem os blogs. Fale! Brasília. Para qual objetivo? Nicholas Behr. O objetivo é sempre

um: Democratizar a arte, democratizar o acesso à cultura e as pessoas não acharem que para ser artista tem que ser iluminado, ou doente ou esquizofrênico. É esta coisa de facilitar a manifestação. Qualquer um pode se manifestar, sem os requerimento que antes se fazia para ser artista. Na época, tinha que ter vários requerimentos, obrigações, e nossa geração atomizou isto, mas tem ainda que atomizar muito, tem muita pedreira para quebrar. Fale! Brasília. Que pedreiras são essas? Que concreto é este que ainda tem que ser quebrado em Brasília? Nicholas Behr. O ranço acadêmico, falo

da minha parte que conheço bem, que é a poesia. O ranço acadêmico, aquela sisudez, aquela seriedade, aquela coisa de linguagem e poder. Como se poesia fosse uma coisa para iniciados — a pessoa tem que ler muito, saber tudo. Aquela sisudez e seriedade é que afastam as pessoas da poesia, da literatura, da arte. Sou a favor de uma coisa bem libertária. Comecei a escrever e não pedi autorização para ninguém, não pedi prefácio, não pedi nada! Acho que o artista, o poeta, se mistifica muito. É preciso quebrar esta pedreira da mistificação. Fale! Brasília. Literatura brasiliense é Diário Oficial? Nicholas Behr. “Pobre da literatu-

ra que precisa de um decreto para existir”, trecho de poema de Nicolas. Mas ainda está em construção. A literatura brasiliense não existe, como não existe uma literatura candanga, como não existe uma literatura alagoana, matogrossensse. Existe uma literatura universal com vozes brasileiras. Então acredito muito em picotar ainda mais a coisa, numa visão muito mais holística. A poesia é viva em Brasília, super viva, e mesmo que não esteja viva ela não está morta, ela está hibernando. Ela está preparando o bote, preparando a hora, por Maio de 2009 | Fale! Brasília | 47


H I S T Ó R I A de capa que o vulcão não está em erupção o tempo todo, ele está em erupção em alguns momentos, aqui e ali, e esta erupção acontece quando uma série de fatores conspiram a favor desta erupção. Mas a literatura de Brasília tem um ranço muito parnasiano, das academias, muito antigo, com o pé lá na Grécia, na Arcádia, nos pastores com suas flautas. Queremos uma poesia bem pé no chão, bem que fale da realidade, do dia a dia, com que as pessoas se identifiquem e seja para elas alguma coisa que fala delas ou para elas. Fale! Brasília. Onde está o maior entrade para a democratização das artes? Nicholas Behr. O problema maior é

um preconceito do pessoal do Plano, Lago Sul e Lago Norte com o resto do Distrito Federal. As pessoas não conhecem Taguatinga, não conhecem São Sebastião, não conhecem! Em Brasília, as pessoas moram em feudos, guetos e isto é muito ruim, estes guetos culturais, porque as vezes acho que o Centro é Ceilândia, a periferia Asa Sul. Tem que mudar um pouco o eixo. Fale! Brasília. O Sr. vê exemplos que estão levando esta prática? Nicholas Behr. Tem dois claros e visí-

veis, que é a Tribo das Artes em Taguatinga e os Radicais Livres S/A em São Sebastião, que têm feito um trabalho contínuo de apresentações. Isso devia ser muito mais incentivado porque aumenta a auto estima. Pessoas com mais auto estima são pessoas felizes, e pessoas mais felizes são pessoas menos violentas. O problema é o estranhamento que há e a arte é a forma de diminuir este estranhamento entre os humanos. A arte tem este papel de humanizar e de compartilhar e de fazer as pessoas se encontrarem. n

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VERSOS

Nicholas Von Behr  Do livro Iogurte com Farinha Amor às pampas você voltou pro seu rancho no rio grande enquanto eu fiquei aqui a ver ministérios... pra angela  Do livro Brasiléia Desvairada bem, o sr. já nos mostrou os blocos, as quadras, os gramados, os eixos, os monumentos... será que dava do sr. nos mostrar a cidade propriamente dita!?  Do livro Grande Circular senhores turistas, eu gostaria de frisar mais uma vez que nestes blocos de apartamentos moram inclusive pessoas normais  Do livro Grande Circular sexta-feira chegou mas ela não veio peguei o primeiro ônibus pra Brasília e encontrei morena na rodoviária comendo pastel, tomando caldo de cana e passeando nas escadas rolantes  Do Livro Parto do Dia alguma coisa acontece no meu coração que só quando cruzo a W3 L2 sul ou eixão Esboços do projeto arquiteônico de Brasília feitos pelo arquiteto Oscar Niemeyer

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Foto: © Russell A. MITTERMEIER / WWF-Canon * O minuto da ligação a partir de telefone fixo é de R$ 0,036 + impostos e a partir de celular é de R$ 0,44 + impostos

Nós precisamos de sua ajuda. Nossas grandes riquezas naturais, a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica são destruídas a cada dia. E para frear esta situação, precisamos do seu apoio. O WWF-Brasil é uma organização brasileira que, com a sua ajuda, desenvolve projetos de conservação da natureza e uso sustentável dos recursos naturais. Contribuindo para o WWF-Brasil, você colabora diretamente com ações para construir uma vida melhor para as gerações de hoje e do futuro.

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A

H I S T Ó R I A de capa capital do Brasil foi ar-

quitetada por Niemeyer e Lúcio Costa, humanizada por Darci Ribeiro e registrada por Ivaldo Cavalcante. O fotógrafo chegou à Brasília com quatro anos de idade em cima de um caminhão pau de arara, com sua tia Luzanira e mais oito irmãos, e foi direto para Taguatinga, de onde nunca mais saiu com o sonho e a esperança de melhores condições. Nada foi fácil na vida de Ivaldo, que teve uma infância como a de qualquer outra criança nas ruas de “Taguá”, como gosta de chamar. Não faltaram brincadeiras como carrinho de rolimã, patinete, bola de gude e pipa. Antes de apaixonar-se por fotografia, ele foi engraxate, vendeu pirulitos, picolé, além das bagunças como roubar gasolina de carros, com seus amigos da época – Gim Argello, hoje senador, e o Marcola, dono da rede Gasolline de postos de combustível, para colocar nas mobiletes. “Veja só como é a vida”, filosofa. Antes da escrita com a luz, conheceu a serigrafia, nas telas imprimiu e vendeu centenas de camisetas com rostos de seus ídolos do rock and roll como Jimmi Hendrix, Led Zeppelin, Janis Joplin, Yes, Beatles e outros ícones da década de setenta. Na mesma época, morava no Mercado Sul, reduto de prostitutas, assaltantes, vagabundos, alcoólatras, poetas e outros seres que habitam o submundo nas entranhas da capital. Lá começou a fotografar o mundo em que vivia, já que morava ali e conhecia todos. “Tenho fotos lindas que nunca foram publicadas”, revela o fotógrafo. A fotografia chegou em sua vida através de um amigo que lhe presenteou com um kit de laboratório fotográfico do Instituto Universal Brasileiro. Em seguida, fez um curso de fotografia, largou o supletivo e tinha certeza que seria fotógrafo o resto da vida. “Fiquei encantado com a química e de como ela podia interferir em um papel fotográfico”, romantiza. Há mais de 25 anos no fotojornalismo, passou pelos jornais Correio Brazilliense, Jornal de Brasília, JBR e atualmente é fotógrafo da sucursal de Brasília do jornal mineiro Hoje em Dia. Fotografou momentos importantes da história do Brasil e de Brasília, presidentes, manifestações, Ditadura Militar, Diretas Já. Nos anos 80, registrou momentos importantes da 50 | Fale! Brasília | Maio de 2009

O OLHAR D www.revistafale.com.br


foto ivaldo cavalcante

DE IVALDO

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Com mais de 25 anos de fotojornalismo, Ivaldo Cavalcante romantiza e aponta a realidade a metros do Congresso Nacional Por Gabriel Alves

alves@revistafale.com.br Maio de 2009 | Fale! BrasĂ­lia | 51


H I S T Ă“ R I A de capa

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fotos ivaldo cavalcante

sob a lente de ivaldo. Museu da República, em Brasília, o giovernador do Distrito Federal José Roberto Arruda, anjos do picadeiro, menor preso, lago Paranoá e banho na periferia. fotos ivaldo cavalcante

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H I S T Ó R I A de capa cultura candanga, show de bandas que fizeram história na cidade e no Brasil, como Legião Urbana, Plebe Rube, Capital Inicial, Mel da Terra, tudo no saudoso teatro Rolla Pedra, onde começou os primeiros shows do movimento punk, culturas de todo o Brasil se encontrando e Ivaldo vendo tudo através de suas lentes. Desde de que começou a fotografar, dedica-se em registrar crianças de rua e atualmente tem o maior orgulho de contribuir na ONG de Jimmy Page – o eterno guitarrista da banda Led Zeppelin, um de seus ídolos, e sua esposa, Jimena Page–, a Action for Brazil‘s Childen Trust que tem a função de ajudar meninos de rua e que beneficia mais cinco estados brasileiros. “Para mim, é a realização de um sonho“, releva. Esse é um trabalho muito forte que vem fazendo desde que se apaixonou pelo fotojornalismo. “Era um dos milhares de jovens que sonhava com as guitarras de Jimmy Page, ficava perto da caixa de som para ouvir os tímpanos tremerem ao som de sua guitarra”, conta. “Quem não tinha na cabeça uma guitarra imaginária de Jimmy?”, pergunta. Hoje, em Taguatinga, tem um bar que se chama Faixa de Gaza, onde na decoração pôsteres e cartazes que relevam todas as suas paixões, além da fotografia, o cinema e a música ocupam um grande espaço no coração do artista. O lugar abre aos sábados e tem o público cativo, formado principalmente por amigos de muitos anos e como ele apaixonados por arte. “Aqui é meu canto”, conta o fotógrafo. Em 1994, recebeu o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha de Fotografia com melhor foto do ano. Apaixonado por “Taguá”, em 1999 lançou o livro “Taguatinga: Duas décadas de cultura”, com fotos memoráveis que contam toda a história da cultura da cidade através de sua visão. Em 2005 lançou o livro “Brasília 25 anos de fotojornalismo”, que é a junção de anos de trabalho e denúncia como a da prostituição infantil no DF, momentos políticos marcantes, ensaios em inferninhos de beira de estrada. Tem no curriculum nove prêmios da fundação Volpe Stessens, nove fotos no Museu Internacional de Fotografia, 15 exposições individuais e 25 exposições coletivas. n 54 | Fale! Brasília | Maio de 2009

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Suas fotos são uma junção dos conceitos políticos, geográficos, sociais e econômicos sempre denunciando à sociedade fatos reais, mas que se encaixam perfeitamente na sua concepção do belo e bonito e espelham toda a sua pureza interior. U. Dettmar,

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fotógrafo

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Economia&Negócios

Brasília.

mercado promissor! Jovens talentosos abrem empresas, crescem e contribuem cada vez mais para o comércio da cidade

fotos Gabriel Alves

Por Rafael Oliveira Especial para Fale! Brasília

O

mercado empresarial brasiliense cresce

cada vez mais, principalmente entre os jovens. A empresária Nadja La Parra, 30, abriu o Café La Parra há dois anos. “Em Brasília não tinha uma cafeteria mais elaborada. Eu fiz o curso de barista em São Paulo e me apaixonei pela arte”, explica La Parra. A primeira loja foi aberta no Alameda Shopping e o negócio está em expansão. “Vou abrir outro La Parra em Águas Claras, oferecendo outros serviços, como um fondue à noite”, disse. Os empresários Pedro Paulo Cardoso e Pablo Cardoso, 26 e 28 respectivamente, são proprietários da P4 Comunicação, empresa de comunicação visual instalada há quatro anos em Brasília. Com a expansão, a empresa passou a atuar em quatro segmentos: serviços para condomínios, empresas públicas e privadas e desenvolvimento de sites. A P4 é a única empresa brasiliense que oferece serviços visuais, como placas para condomínios. “A ideia é ampliar o serviço para o Brasil todo. Os condomínios ligarão para o nosso 0800 e pedirão os produtos”, disse Pablo Cardoso. O jornalista e proprietário do restaurante Dom Francisco, Edson Monteschio, atua na área de gastronomia há 16 anos. Chegou à Brasília e foi trabalhar com o fundador da rede de restaurante, aos 22 anos. Aprendeu como montar e gerenciar a casa, passando por todos os processos administrativos. “Após obter experiência em todas as áreas, me senti apto a ter meu primeiro restaurante”, disse Edson. Os três restaurantes de Edson atendem a uma média de 20 mil pessoas por mês e ele gera 100 funcionários diretos.

Qualidade do serviço. Segundo Pablo, a qualidade no serviço oferecido é o diferencial entre as outras empresas do segmento. Para La Parra, “o atendimento em Brasília é muito ruim, o funcionário é mal orientado, mal treinado. E é no atendimento onde faço a diferença para os meus clientes”, revela. Segundo dados das Juntas Comerciais do país, o Distrito Federal aparece em 11° lugar no ranking de empresas abertas. Ao total, foram 13.108 empresas no ano de 2008. No mesmo ano, fecharam as portas 4.070 empresas na cidade. E 22.246 empresas sofreram algum tipo de alteração. Os jovens que procuram o Sebrae-DF para orientação sofrem com falta de experiência em gestão, segundo Maria Auxiliadora de Souza, analista do Sebrae. “Eles têm bastante dificuldade na hora de abrir a empresa. Os fatores são diversos: dificuldade de acesso a crédito, falta de garantia e falta de experiência no mercado”, disse Auxiliadora. A presidente da Associação dos Jovens EmpreenSERVIÇO DIFERENCIADO. “A primeira loja foi aberta no Alameda Shopping e o negócio está em expansão”, Nadja La Parra, Café La Parra

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Ações do Núcleo do Talento Empreendedor O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequena Empresas do Distrito Federal (SEBRAE-DF), em parceria com a Associação dos Jovens Empresários e oito faculdades, o projeto Núcleo do Talento Empreendedor (NTE), composto por três fases: inspiração, criação e evolução. A fase de inspiração consiste em palestras de sensibilização nos jovens, a criação em um Plano de Negócio de Mercado

e a evolução, na prática empresarial, a conclusão do plano de negócios e análise deste plano por um comitê gestor do Sebrae. Segundo Maria Auxiliadora de Souza, analista do Sebrae-DF, a maioria dos jovens que a procuram são pouco orientados. O NTE trabalha atualmente em parceria com oito instituições de ensino: IESB, UniCeub, Faculdade da Terra, Universidade Católica, UNEB, Facitec

dedores (AJE), Tatiana Gonçalves Moura, aponta uma particularidade de Brasília. “O funcionalismo público aqui é muito forte. Muitos jovens não apostam na iniciativa de abrir um negócio e caem nos concursos públicos”, disse. A AJE existe há 10 anos e foi criada com a proposta de dar assistência ao jovem empreendedor. “Nos o ajudamos em várias etapas do empreendimento: na assistência jurídica, consultoria”, explica Tatiana. A Associação está presente em 26 estados. A VIP DF, empresa de distribuição, armazenagem, mixagem e impressão de etiquetas atua na cidade há 15 anos. Distribui mensalmente 300 mil exemplares de revistas. Ultrapassou as seis milhões de entregas por ano. A empresa atende o Distrito Federal e o Entorno. Sobrinho do dono, Fabiano Faria começou a trabalhar na empresa aos 18 anos. Passou pelos processos de entrega, etiquetagem e hoje ocupa o cargo de gerente. Aos 30 anos, após 12 anos de experiência, pretende expandir os negócios em meados de 2010. “Queremos fazer parceria com grandes gráficas para atuarmos no mercado nacional de distribuição”, adianta. Faria afirma que 90% dos seus 87 funcionários trabalham na empresa há mais de 10 anos. Contra a crise. Apesar de a crise mundial afetar o Brasil, os jovens empreendedores a desafiam e expandem seus negócios, segundo Tatiana Moura. “Eu tenho a Prospecting Marketing e Propaganda há seis anos e abri a Garimpo há nove meses, uma empresa de recursos humanos”, comenta Tatiana. “Quando se faz o que gosta com

e Faculdade Projeção. O quadro de jovens empreendedores do DF é misto, entre homens e mulheres. “Não podemos dizer hoje se há uma maioria de uma parte ou de outra, é bem diversificado. Nos cursos, os inscritos estão praticamente meio a meio”, disse Maria Auxiliadora. O projeto NTE ganhou o prêmio “Projeto Destaque” da Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje), em Goiânia. A entrega aconteceu durante o 14º Congresso

ARROJADA. Bem no meio da crise financeira internacional, Tatiane Moura abriu outro negócio prazer, não existe crise. As pessoas continuam comendo e bebendo café”, argumenta La Parra. Pablo Cardoso defende que “a crise não nos afetou, pelo contrário, a cada mês a empresa cresce mais”, comemora. Quanto à crise, a direção do restaurante Dom Francisco incentiva: “Se o movimento cai em um mês, nós investimos mais. Não podemos fraquejar por causa da crise. Em um ano, aumentei quatro vezes mais o movimento de clientes”. Para Edson, se o comércio adotar medidas preventivas por causa da crise e segurar certos investimentos, o próprio comércio cria a crise. Atendimento. Segundo reclamações de clientes brasilienses, o atendimento dos estabelecimentos comerciais é um ponto fraco dos empresários da ciwww.revistafale.com.br

Nacional de Jovens Lideranças Empresariais & ExpoAje, evento realizado pela Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje) e pela Asssociação dos Jovens Empresários de Goiás (Aje Goiás), no Centro de Convenções de Goiânia, entre os dias 26 e 28 de novembro. O foco estratégico do NTE é oferecer, de forma subdisiada, orientação empresarial em empreendedorismo e gestão empresarial (e-learning) para 20 mil jovens no DF, por ano.

dade. Tatiana Moura aponta a ausência do empresário no negócio. “A grande maioria dos empresários não estão na empresa quando o cliente precisa dele”, disse. E completa: “ser empresário é difícil, mas é prazeroso”. O diferencial da P4 Comunicação e do Café La Parra é o atendimento. “Sempre atendo meu cliente no prazo certo. O atendimento personalizado e de qualidade é o nosso referencial”, explica Pablo Cardoso da P4. “Meu atendimento é bem orientado e profissional. A diferença no atendimento é essencial, e Brasília peca muito nesse quesito”, disse La Parra. No ramo específico de restaurantes finos, o atendimento personalizado garante a fidelidade do consumidor. “Além dos cursos técnicos, o que é ótimo, o estabelecimento precisa oferecer estrutura para manter o funcionário. No Dom Francisco, quando o cliente chega, os garçons já o conhecem e atendem de forma especial”, explica Edson. O restaurante oferece para os funcionários cursos de português, inglês, cursos na Associação Brasileira de Someliers (ABS), cursos de higienização e manipulação. Grande parte dos funcionários tem em média 10 anos de trabalho na casa. “Na cidade, a lei de mercado prevalece: a cidade vai ter quantos restaurantes suportar. Mas todo dia tem gente abrindo e fechando comércio. O que devemos pensar é em ter condições e qualidade para não sermos mais um que vai fechar”, disse Edson. Fabiano Faria, da VIP Logística, afirma “qualidade não se discute. Hoje o empresário é obrigado a ter qualidade. O diferencial hoje é ter a qualidade e dar assistência para o cliente”. n Maio de 2009 | Fale! Brasília | 57


economia & neg ó cios

A

DESPEItO DO CENÁRIO DE

crise internacional, um dos setores que continuam fortalecidos no mercado interno é o de panificação. Em 2008, o faturamento do setor cresceu 12% em relação a 2007, saltando de R% 39,61 bilhões para R$ 44,36 bilhões. Mas o presidente da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria - ABIP, Alexandre Pereira, diz que a política monetária do governo cria uma situação de elevado risco para a economia, em especial em relação ao spread bancário e à taxa Selic que continua alta. Ele também critica a falta de crédito para as micro e pequenas empresas que já faz parte da realidade brasileira. Mesmo os chamados bancos de desenvolvimento, não financiam o pequeno empresário. Assim, eles correm para a agiotagem do cheque especial e das taxas do cartão de crédito. Se as padarias venderem menos pão, o setor — que emprega milhares de brasileiros — não tem como chegar ao governo para pedir socorro, como fazem grandes indústrias e, pasmem, bancos. Esse cenário é desenhado por Alexandre Pereira, para quem é preciso uma sensibilidade especial do governo para o setor que tem impacto direto na qualidade de vida do brasileiro. Qual o tamanho do setor de panificação no Brasil hoje? Alexandre Pereira. O setor de panificação está muito organizado hoje. Desde 2000, está mudando a gestão e melhorando a sua musculatura para enfrentar as intempéries da economia. Crescemos 12% só no ano passado. O número de padarias no País aumentou em torno de 20%, nos últimos anos. Hoje, somos 63 mil padarias no Brasil. Faturamos R$ 44 bilhões em 2008. Estamos com o consumo per capita aumentando. Alcançamos 33,5 kg/pessoa/ano, no ano passado. Consideramos esse consumo ainda baixo, se comparado com outros países. No início da década, era de 26 kg/pessoa/ ano. Trata-se de uma mudança de cul58 | Fale! Brasília | Maio de 2009

COM A MÃO NA MASSA O presidente da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria - ABIP, Alexandre Pereira da Silva, avalia que perspectivas para 2009 continuam boas e estáveis. Ele aconselha que as empresas priorizem seus investimentos, foquem seus objetivos, tenham bastante criatividade, diversifiquem produtos e sejam eficientes

tura alimentar que depende de marketing; o resultado é de longo prazo. Em 2008, tivemos crescimento no número de empregos, em torno de 30 mil novos postos de trabalho. Hoje, geramos 700 mil empregos diretos e cerca de 1,5 milhão de indiretos. Em 2009, não acreditamos que haverá demissões. Pode haver contratações. Nossos negócios vão se manter estáveis esse ano. Sem pânico, até porque trabalhamos num setor que é básico. Para afetar nosso setor, a crise tem de ser muito séria. Obviamente deverá haver diminuição no consumo de supérfluos. O consumidor vai segurar recursos. Como o setor está enfrentando a crise internacional? Alexandre Pereira. Vamos enfrentar os efeitos da crise, em nosso setor, com criatividade e trabalho. Se vendermos menos pão, não temos como chegar ao governo para pedir que compre a www.revistafale.com.br

produção. Quem grita muito são os grandes empresários, que a qualquer mudança nos negócios fazem alarde e barulho. A crise mundial interrompe o ciclo de crescimento da economia brasileira? Alexandre Pereira. Acho que vai corrigir o rumo da economia e do mercado. Estávamos num ‘boom’ de crescimento econômico, todo mundo comprando carros e imóveis. Estava-se criando uma bolha, na minha opinião. Acho que vai haver uma correção na economia real. O ‘boom’ na construção civil era irreal. A venda maluca de carros era um pouco fora da realidade. Da mesma forma que padarias estão com musculatura mais forte, o Brasil também está mais preparado. O governo deve fazer o saneamento de suas contas, o ajuste interno da máquina pública, que está muito inchada. Acho que 2009 é um bom momento para rever e corrigir rumos. Não é um ano eleitoral, dá tempo de fazer isso antes de 2010. Como a questão da dificuldade de acesso ou simplesmente a falta de crédito tem impactado o setor de panificação? Alexandre Pereira. Este é um problema real. Mas quem reclama muito é o grande empresário. Para a gente, não muda muito. Somos pequenos e sempre tivemos problema com a falta de crédito. Estamos acostumados e nos viramos. Essa situação cria situações muito interessantes. Por exemplo, a gente vai aos fundos de inovação tecnológica, pede R$ 100 mil e não consegue, mas as grandes empresas conseguem. A questão do fomento de crédito no Brasil ainda está muito no discurso. Continua longe da micro e pequena empresa. Há 30 anos, o sistema financeiro brasileiro cresce com lucros absurdos. As grandes empresas crescem e as pequenas sobrevivem. O Brasil vai mudar no dia em que o crédito realmente chegar ao empresário de pequeno porte. Os fundos europeus entram como sócios das empresas, ou seja, correm risco junto com elas.


Números do setor

A indústria da panificação está entre os seis maiores segmentos industriais do País. % do que é consumido de alimentos no Brasil correspondem aos produtos panificados. % das contratações feitas pelas padarias correspondem ao 1º emprego. O setor corresponde a % do PIB nacional

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35

2

O sistema financeiro no Brasil é fator de impedimento do desenvolvimento do País? Alexandre Pereira. É necessário que o governo tome medidas para sanar isso. Os bancos só pagam impostos sobre os lucros, enquanto uma padaria paga sobre faturamento. Por que não se regulamenta isso? A gasolina não é regulamentada? Os spreads bancários são absurdos. Não houve mudança nos últimos anos, os bancos estão ope-

rando com 700% de spread bancário. Vamos fazer uma conta: a pequena empresa se financia no cheque especial, com taxa de juros de 7% ao mês. Multiplicando por 12 meses, chegamos a 90%, que significa cerca de 600% de spread. Os bancos cobram taxa de tudo. O dinheiro que está indo para o sistema financeiro deveria ficar nas pequenas empresas. Até bancos públicos, como a Caixa e o Banco do Brasil, têm spreads e lucros exorbitantes. A Abip tem alguma estratégia ou novidade para 2009? Alexandre Pereira. Tivemos uma reunião com o Conselho Nacional do Trigo. Estamos desenhando um projeto de marketing para ser deflagrado em 2009. O primeiro semestre será o período de preparação desse projeto. No segundo semestre, vamos lançar campanha sobre a importância do consumo do pão e derivados do trigo para a saúde. O Programa de Apoio à Panificação (Propan), do qual o Sebrae é parceiro, continua sendo um animador permanente do setor. O Sebrae é www.revistafale.com.br

indústria. O presidente da Abip, Alexandre, Pereira com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf forte apoiador desse programa, que tem melhorado a gestão e os produtos de 4 mil padarias no País. Essas padarias certificadas pelo Propan disseminam o conhecimento adquirido para todo o setor, melhorando os negócios e resultados de um total de 16 mil padarias. Outra ação prevista para este ano será o Projeto Pão Brasileiro, também em parceria com o Sebrae. Vamos introduzir a fécula de mandioca na receita dos pães para ajudar o desenvolvimento do segmento produtor de mandioca. Será um pão regionalizado. Vamos lançar agora o programa de TV da ABIP, “O Empreendedor” que vai ao ar aos domingos às 9 horas na Record News. Esse programa conta com patrocínios do Sebrae e do Senai e terá três blocos: entrevistas, casos de sucesso e capacitação. Vamos atingir as padarias dos rincões. Levaremos informações novas para empresários distantes. — Com informações da agência Sebrae

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Moda Por Adriana Meira

especial para a Fale! Brasília

SUCESSO. Fernanda Ferrugem conquistou seu espaço no gosto do brasiliense

Estilo Ferrugem

Musical e alto astral, tudo é multi nesse novo estilo made in Brasília

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ogo na ponta da rua se vê a

fachada do charmoso e moderno sobrado roxo e laranja Espaço Ferrugem, no Guará I, onde brilha a it-girl da moda brasiliense Fernanda Ferrugem. Criativa e instintiva, ela arremata um conceito de moda e estilo bem interessante. Autodidata, mãe de gêmeos e amante da música, principalmente a eletrônica, mescla em seu recentemente inaugurado espaço um salão de cabeleireiros dirigido pela irmã Isabela, que também é DJ (que faz par com a irmã gêmea Rafaela e são conhecidas como Telma e Selma), o seu atelier-loja, um estúdio de design de produto e futuramente fotografia e tatuagem.

No sangue. Fernanda desde pequena 60 | Fale! Brasília | Maio de 2009

se viu às voltas do atelier da mãe modelista e costureira de roupas finas, foi gerente da Triton , conheceu a fábrica e se apaixonou! Virou estilista! O que ela vestia virava moda. Desde então, garimpa tecidos e pesquisa estampas em várias cidades do país e transforma em suas belas criações de acabamento impecável sob a supervisão da mãe Rosangela, que monitora toda a parte de modelagem.

Criativas.

Suas duas últimas coleções tratam de tribos, sejam elas urbanas ou universais. A penúltima, de verão, intitulada de Índia Acid, com inspiração nas tribos indígenas brasileiras principalmente a cultura kayapó, com quem teve profundo contato, transformando a pintura da pele em serigrafia de www.revistafale.com.br

t-shirts, as tramas de palha em maxibolsas, colares e adornos de penas coloridas. Sua coleção de inverno Lua Nova traz seu lado místico e introspectivo “com interferências das fases da lua” diz ela, misturando referências da cigana moderna e bruxas bem femininas com muito roxo, preto e apenas uma estampa com tons avermelhados que quebram a seriedade dos escuros. As formas são ora amplas com pontas diferentes, ora justas com alguma transparência e moedinhas prateadas de berloque. Muito sexy e misteriosa é a mulher do inverno de Ferrugem. Em média, a tiragem de fabricação é de 300 peças por mês que são vendidas em Brasília para seu público fiel e musical e em São Paulo na Alameda Lorena.

Estilo. O público-alvo Ferrugem é sem

sombra de dúvidas como ela: uma mulher independente, sensível, moderna, alternativa e com uma boa pitada da noite, que chama atenção, que gosta de sair, que busca sempre o novo com muita personalidade e atitude. n


Porto d’Aldeia Resort: lazer, excelentes acomodações e natureza exuberante. Tudo num só lugar. O Porto d’Aldeia Resort é um hotel com paisagem encantadora e excelente infra-estrutura para você curtir várias opções de lazer. O hotel dispõe de confortáveis suítes com padrão internacional, complexo para eventos e uma imensa área de lazer com restaurante, ampla piscina com toboágua, quadras, campo de futebol, salão de jogos, fitness center e a 5 minutos do Beach Park. Venha se deliciar neste paraíso de emoções!

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Persona Nem gospel, nem louvor, a sensação do momento é o axé católico Jaqueline Michele Trevisan. Jake O nome dela é

Fotos Felipe Danuzzo

foi sucesso nesse Carnaval com o hit “Pó pará com o pó”, em que versa contra as drogas num axé animado e fácil de decorar. Jake arrancou elogios até mesmo de Caetano Veloso e sua música já está sendo interpretada por vários nomes do axé.  A paulista com jeito de baiana ainda não tem data na agenda para visitar Brasília, mas aqui já tem fãs esperando por ela!

E para comemorar os 50 anos...

Foto César Moura

Foi com simplicidade e sutileza, como definiu o próprio autor, que a obra de Antônio Danilo Moraes Barbosa ficou em primeiro lugar na escolha da logomarca de comemoração dos 50 anos de Brasília. A obra, que homenageia os três grandes criadores da capital federal estará presente em todo material impresso e publicitário do GDF.

Orgulhoso. Danilo Moraes apresenta sua obra. foto César Moura

Rápidas

apresentação única na capital, no dia 13.

Para os amantes do Rock

De outro lado.

No fim do mês de maio, tem Nazareth. O grupo escocês volta ao Brasil no dia 29 pra divulgação do mais recente álbum: The Newz. Antes tem Heaven & Hell. A banda formada por ex-integrantes do Black Sabbath, que vem conquistando fãs de todas as idades com músicas mais rápidas e pesadas, realizará 62 | Fale! Brasília | Maio de 2009

No dia 16, tem Caetano Veloso com sua nova turnê Ordem e Progresso, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães. E no dia 31 tem Chitãozinho e Xororó no Marina Hall, com o projeto Grandes Clássicos Sertanejos. Também é a primeira vez que Minelli vem à Brasília. www.revistafale.com.br

Festival Brasil Sabor Brasília

Até o dia 31 de maio acontece em Brasília a sexta edição do Festival Brasil Sabor Brasília, uma oportunidade de conhecer novos restaurantes pagando preços mais acessíveis e saboreando receitas inéditas. Essa é a proposta da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-DF). Os restaurates esperam atrair novos fregueses e recuperar as perdas geradas pela lei seca e agravadas pela crise econômica. Ao todo, o festival envolverá 68 restaurantes em 91 endereços. Os participantes do festival concorrem a uma viajem com acompanhante para conhecer vinícolas no Chile e no Brasil entre outros prêmios. Acesse www.abraseldf. com.br e saiba mais.

Fumo obrigatório. Na China

E você acha que já viu de tudo… A província de Hubei, na região central da China, aprovou regulamentação que obriga os funcionários públicos a fumar. Aqueles que não consumirem a cota estipulada serão multados. O governo central chinês aplicou pesada taxação sobre o fumo, para preservar a saúde pública. Entretanto, o governo local de Hubei encontrou uma maneira de aumentar a arrecadação de impostos e quem sabe reduzir a superpopulação.


n O braziliense está convido a olhar para cima. Mas não é para o famoso céu da capital, mas o céu capturado pelo fotógrafo Silvio Zamboni. A mostra “Quem tem medo de olhar para cima”, está montada na Galeria Piccola do Conjunto Cultural da Caixa. A exposição apresenta 43 fotografias em grande formato, de céus azuis nas mais diversas situações e países, sempre emoldurados pela arquitetura das cidades.

Por Aline Almeida

almeida@revistafale.com.br

Jornalista, empreendedor e ainda criança

O veículo mais fashion do país está na Capital

Quem ainda não viu um micro-ônibus florido, decorado com chita e repleto de lindas bolsas pelas ruas da cidade? Agora em Brasília, a loja itinerante Maria Berenice faz sucesso por onde passa. A criação é de Adriana Bruno, atriz que encontrou na arte de desenhar e costurar bolsas, um negócio de sucesso. A empresária, que residiu na capital federal dos 10 aos 20 anos, contou à Fale! Brasília sobre a paixão que sente pela cidade e nos deu uma boa notícia: Maria Berenice veio para ficar!  O difícil é escolher qual bolsa levar pra casa. Na dúvida, fique com mais de uma! Foto SEFOT SECOM-CD

A musa do Congresso

A deputada federal do PC do B do

Rio Grande do Sul, Manuela D’ávila, de 27 anos, concorreu ao posto de política mais bonita do mundo e ficou na sétima posição, com 74.165 votos. A política vencedora foi a japonesa Yuri Fujikawa de 28 anos, que somou 146.359 votos. Quase 1 milhão de internautas participaram da eleição em todo o mundo. A lista com 65 representantes de 38 países, reuniu, desde Hillary Clinton (EUA), de 61 anos, a Julia Bonk (Alemanha), de 22 anos. Manuela é formada em jornalismo. A jovem deputada federal planeja disputar a prefeitura de Porto Alegre. A informação é do site espanhol 20 minutos. www.revistafale.com.br

O nome dele é Igor Macedo. Aos recém completos nove anos de idade, Igor está trabalhando na nona edição do Jornal do Brasileiro. É isso mesmo! O garoto escreve, edita e vende na quadra onde mora um jornal inteiramente criado por ele. A ideia surgiu no ano passado, quando ao ler um livro sobre alunos que criaram um jornal e resolveu fazer o mesmo. Porém, não contente em apenas criar o seu, negociou o preço de algumas cópias com a dona da papelaria e começou a vender nos salões, lanchonetes e lojas da 108 norte, em Brasília. Depois das primeiras edições, Igor tem se tornado conhecido. Já foi entrevistado por um jornal da cidade, pela revista do colégio onde estuda, por um programa de televisão e chegou até a palestrar num evento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde falou para crianças e adultos sobre seu projeto e como transformar ideias em realidade. O trabalho do escritor mirim só vem se aprimorando. O jornal recentemente ganhou inclusive um espaço para receitas culinárias, já que, segundo o redator, isso faz com que as mulheres comprem mais.  A cada número podese ler ainda sobre política, esportes, cultura, ecologia e entretenimento. E não para por aí. Igor contou à Fale! Brasília que seu próximo projeto é escrever um livro, mas ele não revela sobre o que será! Enquanto a obra não chega, um aviso aos interessados: além das cópias avulsas vendidas na 108 norte, o Jornal do Brasileiro também pode ser adquirido por meio de assinatura. Nosso diretor de redação, Marcos Linhares convidou e ele aceitou: Igor a partir da próxima edição terá uma página sua na Fale! Brasília e será nosso repórter-mirim. Maio de 2009 | Fale! Brasília | 63


Sociedade

boa Comunicação. Professor Francisco Souto Paulino (d), presidente da Agência com o diretor financeiro, Luís Eduardo Girão (e) des que trabalham com Comunicação, Cultura de Paz ou bem estar social. É uma via de mão-dupla: fornece e recebe informações, disseminando a utilização do espaço jornalístico com foco na Cultura de Paz. “Além disso, é produzido um informativo eletrônico, com periodicidade semanal, enviado aos profissionais de imprensa, por e-mail, com sugestões de pauta e boas notícias da semana. O objetivo é sugerir novas pautas, referentes a ações positivas que foram enviadas para a Agência ou que foi apurada através da equipe da ABN”, revela a diretora de comunicação, a jornalista Ângela Marinho.

Nadando contra a Correnteza A Agência Nacional da Boa Notícia mostra que é possível escrever pautas positivas

T

udo começou em 2006, em Fortaleza (CE), quando um grupo de

amigos começou a refletir junto sobre a necessidade de paz na sociedade e a vontade de dar e receber boas notícias. No ano seguinte, a Organização Não Governamental, Agência da Boa Notícia, foi oficialmente fundada por uma equipe multidisciplinar, formada por jornalistas, empresários, advogados e consultores de empresas. “Todos com um propósito comum: a ação positiva, promotora da paz nos meios de comunicação e nas instituições formadoras dos profissionais de imprensa”, afirma o presidente da agência, o jornalista e professor Souto Paulino. Nesse sentido, a Agência da Boa Notícia busca atuar em parceria com outras ONGs, instituições de ensino, empresas públicas e privadas, associações de classe e demais entidades cujo foco de interesse seja o desenvolvimento de uma cultura de paz e a formação de uma sociedade mais justa e pacífica. Visão de negócio. O diretor financeiro da ação a médio prazo. Como “negócio”, entidade, o empresário Luís Eduardo a ABN funciona como pólo difusor da Girão, afirma que “como todo empre- boa notícia pela paz, agência de notíendimento, a ABN também tem uma cias, assessoria de imprensa da causa visão de negócio, que se estabelece sob da Paz, fonte de pautas para a imprenperspectivas diferentes, já que os resul- sa e agente capacitador. tados esperados são bem mais valiosos Com a mão na massa. Fruto primeiro do do que o ‘lucro’ em dinheiro de uma trabalho, o site www.boanoticia.org.br é uma organização comercial comum, espe- fonte de informação para os profissiocialmente na nossa era pós-industrial”, nais de Comunicação na qual se enobserva. O lucro de uma ONG se mede contram sugestões de pautas, artigos, a partir dos bens imateriais, embora agenda de eventos, dicas de livros e seja mensurável, a partir de sua atu- filmes, além de links de ONGs e entida64 | Fale! Brasília | Maio de 2009

www.revistafale.com.br

Prêmio Gandhi de Comunicação. A Agência também criou o Prêmio Gandhi, para além da disseminação da Cultura de Paz, fortalecer a relação da Agência da Boa Notícia com os profissionais de Comunicação, destacar os trabalhos que mais contribuem para a Cultura de Paz e chamar atenção da sociedade para a importância do tema. A meta é que o Prêmio Gandhi seja uma referência na imprensa nacional.

Cursos e Seminários sobre a Cultura. Para o diretor Institucional e de Projetos, o empresário e consultor de empresas Carlos Eduardo Bandeira Araújo, “o eixo educativo propõe o aprofundamento do tema Cultura de Paz, através da promoção de cursos, seminários e palestras que permitam o intercâmbio de experiências entre profissionais de Comunicação com as demais instituições que trabalham diretamente com Paz e Comunicação: universidades, ONGs e entidades governamentais comprometidas com nossos objetivos”, disse.

Pesquisas sobre os espaços da mídia. O

secretário geral, o jornalista e professor universitário Moacir Maia, defende que “para trabalharmos na disseminação da paz pela comunicação, precisamos conhecer o que está sendo feito e onde precisamos atuar. Nesse sentido, uma pesquisa permanente sobre os espaços utilizados para divulgação de notícias de paz e de violência, nos diversos meios de comunicação, nos dará a real dimensão do quadro atualizado e quais os nossos focos principais, no direcionamento do fortalecimento de uma cultura de paz”, finaliza. n


Informação em Profundidade

Revista de informação Os leitores da revista Fale! são decisores, pessoas que não abrem mão de informação de qualidade. Política e Economia são os principais temas da revista de informação

Quem decide, lê. www.revistafale.com.br


ÚltimaPágina

Liberdade, Doutrinas e Educação

N

ão há educação sem liberdade de pensamento. O essencial no ato de educar é possibilitar ao estudante o acesso à tradição do pensamento, a ricas experiências de conteúdos e a informações relevantes. Explicitar métodos e procedimentos no ato de educar é fundamental para ajudar as pessoas a aprenderem por si mesmas, de forma autônoma, perseguindo as soluções de suas curiosidades. O estudante precisa estar capacitado a escolher as informações relevantes dentre as infinitas possibilidades. John Dewey (1859-1952), um grande filósofo e educador americano, afirmava que o ideal de uma educação centrada no aluno não é o acúmulo de informações e conhecimentos, mas o desenvolvimento das capacidades. Mas professores estão sendo vencidos por dogmas e clichês. Muitos tentam ensinar por meio de meias verdades, criando mistérios e apenas construindo obscuridades. Abdicam da descoberta, da curiosidade, da dúvida e do saber factual. Cultivam a mansidão do pensamento, o decorar e o repetir. Doutrinam! Professores e alunos deixam de descobrir, interagir e aprender. Ao contrário da doutrinação, educar é o exercício da motivação e da curiosidade para o aprimoramento paulatino do conhecimento, do domínio das técnicas e do desenvolvimento de habilidades. Exige como procedimento disciplina, foco, clareza e envolvimento. Educar, no âmbito da escola, é, sobretudo, facilitar e instrumentalizar o estudante para o entendimento necessário sobre as coisas, as pessoas e as relações. Uma grande parte de nossos professores apenas repete informações inúteis e trabalha com ideologias e clichês em sala de aula. A pedagogia que está funcionando é das caricaturas e advém diretamente do ensino su66 | Fale! Brasília | Maio de 2009

Por Carlos Henrique Araujo

perior. Os pedagogos e os licenciados brasileiros, recém formados, descrevem os interesses e os conflitos em torno de sua disciplina, mas não estão preparados para o cotidiano da escola. Trabalham “grandes” questões teóricas, mas sequer podem orientar o estudante a compreender e entender os mecanismos da matemática e da leitura. Um estudante típico que consiga finalizar o ensino médio no Brasil não aprendeu um ofício, não desenvolveu habilidades e competências exigidas pelo mercado de trabalho, dificilmente domina outra língua e apresenta inúmeras deficiências em leitura e pensamento lógico. Sobre ciências, decorou algumas poucas fórmulas para resolver problemas treinados. A imensa parte dos estudantes sequer entrou em um laboratório e ainda pensa a natureza de forma pré-darwinista. Uma rápida avaliação do ensino de humanidades na educação básica brasileira pode assustar as mentes mais atentas. Uma boa parte da mitologia social e política é matéria de doutrina de nossos alunos, em escolas públicas ou privadas. Percebe-se que o ensino de geografia, história, sociologia e filosofia estão dominados por ideologias e falsas hipóteses de explicação dos

fenômenos sociais. Os alunos saem a repetir frases feitas, panfletárias, que reduzem e subjugam os dados factuais aos moldes de ideias preconcebidas. Quando finalizam o ensino médio, acreditam, por exemplo, que os problemas nacionais são derivados das imensas injustiças sociais cometidas por uma elite má e perversa. Juram que os empresários e as grandes empresas são o mal encarnado. Repetem e versam teorias conspiratórias como explicações da realidade social. Por vezes, os males do mundo são frutos da ação do “grande Império norte-americano” outras do “catolicismo e suas normas ultrapassadas”. Em muitas salas de aula de “humanidades” não há nenhum fenômeno social, político ou econômico que não seja reduzido a uma simples “luta de classes”. Doutrinam fortemente os estudantes a pensarem por meio de “teorias” de claros interesses políticos. Para confirmar isso, uma simples leitura de livros didáticos de estudos sociais é suficiente. Doutrinar e educar são duas posturas radicalmente diferentes e incompatíveis. O mundo global exige muito mais do que a mera repetição e reprodução de antanho. Exige uma mente aberta e preparada para aprender de forma permanente, superando obstáculos e desenvolvendo perícias. No Brasil, sequer estamos ensinando os estudantes a lerem com competência. Maus leitores são presas fáceis da propagação de mitos e manipulações. Infelizmente, é isto o que está acontecendo no País. O remédio para combater a invasão das doutrinas em nossas salas de aulas é a leitura competente como um atributo de todos os que estão no sistema de ensino. É preciso desenvolver as capacidades e não cerceá-las! n Carlos Henrique Araújo é mestre em Sociologia, Consultor em Educação e ex-diretor do Inep-MEC. E-mail chfach@gmail.com

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Revista Fale! Brasília. Edição 02. Quase 50 Brasília chega aos 49 anos se preparando para a festa do seu cinquentenário e enfrentando proble...

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