Revista FADESP / 6 ed. - 2022

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REVISTA Publicação da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa

Ano 2 | n° 6 | Maio / Junho / Julho 2022

Helena Nader

Academia Brasileira de Ciências elege sua primeira presidenta

CINECLUBE TF Capacitação a estudantes e jovens

A SERVIÇO DAS COMUNIDADES Mapas digitais facilitam acesso à informação

DIVERSIDADE ÉTNICA Pluralidade que enriquece a Educação


EXPEDIENTE

ÍNDICE

DIRETORIA Roberto Ferraz Barreto Diretor Executivo Alcebíades Negrão Macêdo Diretor Adjunto Fellipe Pereira Assessoria Jurídica

Helena Nader Foto: Renato Parada

Editorial

PG 03

Socorro Souza Executiva de Negócios

Tecnologia

PG 04

Raquel Lima Compras e Importação

Cultura & Cidadania

PG 06

Leila Figueiredo Lamarão Concursos e Seleções

Ações afirmativas

PG 08

Saúde

PG 10

João Carlos Oliveira Pena Consultoria e Desenvolvimento Institucional

Entrevista/Capa

PG 12

Marcelo Moraes Financeiro e Contábil

Opinião

PG 16

Natália Raiol Gestão de Projetos

Exposição

PG 18

Cláudia Coelho Recursos Humanos

Institucional

PG 20

Por dentro da FADESP

PG 22

Davi Frazão Tecnologia da Informação Elilian Carvalho Nancy Fernandes Secretaria Geral Lorena Filgueiras Comunicação

Errata

Excepcionalmente, nesta edição, não teremos as terceiras partes da História da FADESP e Relatos da Interiorização, que serão publicadas na edição #7 (junho/ julho/agosto).

EXPEDIENTE REVISTA

Editora-chefe Lorena Filgueiras (Ascom/FADESP) MTb/DRT-PA 1505 Reportagens Brena Marques - Ascom/FADESP MTb/DRT-PA 3371 Lorena Filgueiras - Ascom/FADESP Thamyris Jucá Andreza Batalha Projeto gráfico e diagramação André de Loreto Melo Revisão Fabrício Ferreira Analista de TI Raphael Pena Tiragem 2.000 exemplares

CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Doriedson do Socorro Rodrigues - CUNTINS/UFPA Prof. Dr. Marcos Monteiro Diniz - ICEN/UFPA Profa. Dra. Maria Ataíde Malcher - NITAE2/UFPA Prof. Dr. Roberto Ferraz Barreto - FADESP/UFPA Lorena Filgueiras - ASCOM/FADESP

A Revista FADESP é uma publicação trimestral institucional da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa/Editora FADESP. Sua distribuição é gratuita. É proibida a reprodução parcial ou total sem prévia acordância da FADESP e sem citação da fonte. Os artigos publicados na Revista FADESP são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião editorial da Instituição. Nossas redes sociais www.portalfadesp.org.br | @fadesp_ufpa fadespufpa | @fadesp Sugestões, elogios, reclamações: revistafadesp@fadesp.org.br Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Rua Augusto Correa s/n • Cidade Universitária Professor José da Silveira Netto / UFPA Guamá - Belém/PA | Cep 66075-110 Telefone geral: (91) 4005.7440 / E-mail geral: centraldeatendimento@fadesp.org.br


EDITORIAL

Ciência ao alcance de todos Foto: Dudu Maroja

Quando começamos a pensar na criação da Revista FADESP, em meados do segundo semestre de 2020. Em um paradoxo, quase que desconcertante, enquanto vivíamos um período bem duro da pandemia, a Ciência passou a ser um tema recorrente nas conversas das pessoas de fora da Academia: uso de máscaras, qual tipo seria mais eficiente, a corrida por uma vacina. Compreendi que, contrariando o cenário, talvez fosse o momento perfeito para concretizar um desejo, há muito acalentado: uma publicação da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa, que pudesse circular dentro e fora do ambiente acadêmico, com uma linguagem acessível, permitindo alcançar uma crescente quantidade de leitores. A missão, portanto, de nossa revista, é ser um portfólio das ações e projetos da FADESP, sem jamais perder de vista o compromisso com a sociedade e, por conseguinte, fazendo-a compreender, da maneira mais direta, o que fazemos e, principalmente, os motivos de fazê-lo. Resgato essa lembrança, porque fiquei muito tocado com uma declaração da professora Helena Nader, Academia Brasileira de Ciências – ABC, recém-empossada presidenta da Instituição (a primeira mulher, em 106 anos de existência). Em entrevista concedida a nós, ela afirma que será uma gestão coletiva, com alguns objetivos, dentre os quais, simplificar a linguagem científica; produzindo documentos de ampla compreensão. Tal visão é igualmente compartilhada pela jornalista, escritora, diretora paraense Cristina Serra, que muito nos honra com um artigo sobre o mico-leão-dourado e a vacina da febre amarela. Nesta edição também contamos com o Cineclube TF, um projeto que revolucionou a educação e cena social/cultural da Terra Firme; mapas digitais e a qualificação de indígenas e quilombolas - uma ação afirmativa que tem como objetivo diminuir a enorme dívida histórica que temos para com uma significativa (e majoritária) parcela da população. Desejo uma excelente leitura a todos. Sigamos! Roberto Ferraz Barreto Diretor executivo da FADESP

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TECNOLOGIA

Por Thamyris Jucá Fotos: Dudu Maroja

Mapas Digitais: informação a serviço das comunidades Você sabia que o bairro do Icuí Guajará possui 165 igrejas, 289 minimercados (ou mercearias), 52 oficinas mecânicas, 42 padarias e 82 vendas de “chopp” e gelo? Ou que o bairro da Cabanagem não possui nenhuma praça pública? Essas e outras informações estão disponíveis para todos os cidadãos da região metropolitana de Belém, por meio de um aplicativo criado pelo projeto Mapas Digitais. O conhecimento detalhado dos territórios assume um papel fundamental nas tomadas de decisão da gestão pública, devendo ser uma ferramenta básica nas mãos dos governos para compreender a diversidade, a complexidade e as necessidades das populações, além de permitir o investimento adequado na potencialidade das cidades e das comunidades de modo geral. E a tecnologia pode ser uma grande aliada nesse processo. Pensando nisso e estando em uma região onde as informações cartográficas estão desatualizadas, surge o projeto Mapas Digitais. Desenvolvido em regime de cooperação técnica e científica entre a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica (SECTET) e a Fundação Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) da Universidade Federal do Pará, por meio da Faculdade de Tecnologia em Geoprocessamento do Campus Universitário de Ananindeua, o projeto tem por objetivo realizar a cartografia das questões sociais, econômicas e ambientais mais

sensíveis, através de mapas digitais temáticos, dos seguintes territórios da Região Metropolitana de Belém (RMB): bairro do Icuí, em Ananindeua; bairros Cabanagem, Benguí, Guamá, Jurunas e Terra Firme, em Belém, além dos bairros Nova União e São Francisco, no município de Marituba. Trata-se de uma iniciativa que, inicialmente, cartografou nesses territórios os serviços coletivos públicos e privados, como as redes de ensino, rede de atendimento em saúde, associações de bairro e centros comunitários, praças e quadras esportivas; instituições religiosas; indústrias; sistemas de transportes; diversidade do comércio e dos serviços, inclusive os da chamada economia popular e as condições dos logradouros (as vias urbanas; se estavam pavimentadas ou não, se possuíam necessidades de reparos, se estavam obstruídas por vegetação, lixo e entulho, quais seriam os trechos sob risco de alagamento ou inundação e os pontos de descarte irregular de lixo). Todas essas informações foram reunidas e colocadas à disposição da população por meio

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de um aplicativo chamado “TerPaz Maps”, lançado em outubro de 2021 e que está disponível para download no sistema Android. Após a etapa de coleta de informações, o projeto foi apresentado para as comunidades das áreas selecionadas e foi iniciado o mapeamento digital, em si, por meio de levantamentos prévios em plataformas de mapas on line e sensoriamento remoto, seguido de trabalhos de campo. “A cartografia, na sua modalidade digital, é ferramenta sine qua non para auxiliar no planejamento e nas tomadas de decisões. O mapa é um recurso estratégico para o planejador e para o gestor, pois a gestão estatal não pode prescindir de informações espacializadas. Nestes termos, a ausência de informações geoespaciais causa sérios problemas de ordenamento do território, de controle ambiental e das questões sociais mais sensíveis. A informação geoespacial é fonte de conhecimento fundamental no atual contexto e possibilita ao gestor atuar com rapidez na tomada de decisões sobre o espaço”, explica


- Paulo Melo, coordenador do projeto -

vido à natureza do projeto, a equipe é essencialmente multidisciplinar. A participação se dá por afinidade com a temática do projeto e por seleções, envolvendo provas, inclusive. A qualificação envolve o savoir-faire da cartografia digital, dos bancos de dados geográficos, da programação e etc”, comenta o coordenador. Para que se mantenham ativos e acompanhem a demanda sempre crescente de necessidades e de atualização da gestão pública, projetos de inovação e tecnologia precisam de suporte permanente. A FADESP é uma das parceiras estratégicas do

Foto: Freepik

Paulo Melo, professor e coordenador do projeto. Apesar de a pandemia da Covid-19 ter modificado a forma de atuação nos últimos dois anos, o projeto seguiu com adaptações. “Os trabalhos desenvolvidos na modalidade remota concentraram-se no levantamento documental-cartográfico (IBGE, Open Street Map e Google Earth-Pro), na montagem da base cartográfica dos territórios, na pesquisa bibliográfica, no desenvolvimento do APP Terpaz Maps e preparação de oficinas sobre cartografia e sistemas de posicionamento por satélite (GPS/ GLONASS)”, explica o professor Paulo. A equipe responsável, composta por oito pessoas de diversas especialidades - dentre elas, bibliotecários, geógrafos, geotecnólogos, cientistas da computação, engenheiros e uma secretária executiva -, conseguiu dar andamento à pesquisa e, ao longo do tempo de execução, conseguiu como resultado mapear 7 bairros, percorrer 1.165 ruas, cadastrar 11.130 estabelecimentos, além de ofertar 20 bolsas de iniciação científica para jovens estudantes. “De-

A informação geoespacial é fonte de conhecimento fundamental no atual contexto e possibilita ao gestor atuar com rapidez na tomada de decisões sobre o espaço.”

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Mapas Digitais. “Como fundação de amparo à pesquisa, [a FADESP] tem papel fundamental, pois realiza a gestão administrativa e financeira do projeto. Nós, pesquisadores, não temos essa expertise, além de que isso nos tomaria muito tempo. Então o fato da UFPA possuir uma fundação do porte da FADESP é algo a ser comemorado por toda a comunidade científica do Estado”, afirma Paulo Melo. Além do apoio da FADESP, o projeto Mapas Digitais também atua lado a lado com quem mais importa: a comunidade. “O mapeamento contou com a participação direta da comunidade através de lideranças comunitárias e jovens estudantes que participam como bolsistas/ estagiários do projeto. Foram selecionados vinte estagiários oriundos dos bairros objetos do projeto e estes receberam treinamento e participaram como bolsistas de iniciação científica. Assim, este projeto foi desenvolvido de maneira participativa e colaborativa”, menciona o coordenador. O projeto Mapas Digitais tem previsão de duração até o mês de Janeiro de 2023.


CULTURA & CIDADANIA

Por Thamyris Jucá Foto: Dudu Maroja

Cineclube TF: arte e protagonismo juvenil

Professora Lilia Melo e Kleidiane Sousa.

O pintor e escultor espanhol Joan Miró, um dos grandes expoentes das artes do século XX, certa vez disse que “mais importante do que a obra de arte propriamente dita é o que ela vai gerar. A arte pode morrer; um quadro desaparecer. O que conta é a semente.” Foi pensando justamente nas sementes que a Arte pode fazer florescer nas mentes e corações dos jovens negros da periferia de Belém que em abril de 2018 nascia o projeto CineClube TF. Com o objetivo de promover a capacitação de estudantes e jovens do bairro da Terra Firme por meio de oficinas temáticas em diferentes expressões artísticas e culturais (artes visuais, canto, teatro, poesia preta, dança e audiovisual) a iniciativa, que surgiu a partir da ideia da professora de Língua Portuguesa da rede pública estadual Lilia Melo, teve início como uma simples campanha nas redes sociais com o intuito de levar jovens da periferia para uma sessão de cinema. O filme em questão era o grande sucesso de bilheteria (e representatividade) “Pantera Negra” e o que deveria apenas uma tarde de diversão ganhou grande repercussão, obtendo forte apoio da sociedade, realizando o desejo de 400 jovens em 2 sessões. O movimento foi tão marcante, que virou um documentário criado pelos próprios estudantes e, posteriormente, premiado, transmutando-se em missão e oportunidade de uma vida melhor para toda a comunidade. O projeto CineClube TF, que tem 4 anos de existência e integra uma iniciativa maior chamada “Juventude preta periférica: do extermínio ao protagonismo”, contabiliza atualmente pouco mais de 40 jovens participantes, com idades entre 10 e 25 anos. Levando conhecimentos técnicos e fazendo parce-

rias com grupos artísticos e culturais do bairro, a coordenadora Lilia Melo (eleita em 2018 “a melhor professora do Brasil”, ao receber o reconhecimento do XI Prêmio Professores do Brasil promovido pelo Ministério da Educação), ousou ir além e com sensibilidade, olhar crítico e socialmente responsável, enxergou nos jovens da Terra Firme muitos talentos escondidos capazes de levar a voz e a potência do protagonismo negro, jovem e periférico a todos os espaços. “Uma das grandes motivações desse projeto é justamente transformar as experiências de meninos e meninas de periferia em produtos audiovisuais que possam, não somente ser reconhecidos, mas valorizados, trazendo suas identidades afro, indígenas, ribeirinhas para o centro de histórias que antes eram contadas por pessoas que não vivem a realidade que eles vivem. Ou seja, a principal motivação dos jovens dentro do projeto é protagonizar a sua própria história”, explica a professora. Kleidiane Sousa, 26, é um desses talentos. A jovem moradora da Terra Firme, que já participava de outros projetos dirigidos pela professora Lilia Melo, quando testemunhou o surgimento do CineClube TF, não hesitou em abraçar a nova oportunidade. Ela, que viu a porta aberta para a concretização de uma

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carreira promissora na área artística e cultural, hoje é produtora cultural e educadora popular atuante no projeto. Mesmo fazendo parte de uma iniciativa que auxilia outros jovens a se aproximar do mercado cultural, Kleidiane enxerga empecilhos na jornada até a formação profissional nesse setor. “Sou formada em outras áreas, mas pretendo seguir no projeto. Não vou abrir mão disso porque é, inclusive, a forma como eu me expresso, por meio da cultura popular. Nos meus planos, pretendo buscar mais qualificação profissional como produtora e, mesmo que não fosse assim, vejo que o impedimento maior ainda é esse: as oportunidades de qualificação profissional que a periferia não tem. Se tivéssemos mais oportunidades, iríamos muito além do que já fazemos,” comenta a jovem. Atuante, hoje, com 7 grupos de trabalho distribuídos entre as diferentes expressões artísticas, o CineClube TF apresenta, como frutos da produção dos seus integrantes, saraus que passeiam pela diversidade da arte e chamam a atenção para a vivência da juventude da periferia. E o melhor: de maneira acessível para que toda a comunidade (dentro e fora da própria Terra Firme) compreenda seu papel social. Uma forma de despertar a criatividade, empoderar, fo-


mentar o protagonismo juvenil e quebrar o estigma do bairro, visto há décadas como um dos mais violentos da capital paraense. “Embora o CineClube TF seja um espaço de formação, de educação não-formal, todas as nossas produções são fruto de estudos, trabalho, pesquisa, de cursos. Então, os nossos saraus, nossos principais produtos, têm duas formatações: a primeira é sob a forma de uma intervenção urbana que é feita no meio da rua, um cinema com telão, que leva nossas narrativas por meio dos nossos produtos audiovisuais, contando, ainda, com as nossas intervenções poéticas com arte visual, intervenção com grafite etc. A gente ocupa, de fato, parte de uma “quebrada’’, no meio da rua, e faz essas intervenções. E nós temos também os saraus que promovem as rodas de convivência, que geralmente são realizadas em instituições de ensino, privadas ou públicas, que nos chamam para que possamos dialogar com os jovens a partir de uma demanda que a instituição tenha, com uma temática prévia. Essa temática é discutida entre os jovens que coordenam os grupos de trabalho e vai ser desenvolvida dentro das expressões artísticas. Por exemplo, se vamos falar sobre automutilação e do suicídio na adolescência, essa temática vai ser levada para a poesia preta, para o grafite, para o Teatro, para o canto, dentre outras. Então, a partir da reflexão do tema, serão gerados produtos dentro das especificidades de cada arte e estes serão apresentados nos saraus. O sarau é um produto maior que vai englobar essas produções a partir de uma temática maior”, explica a coordenadora. Para integrar o projeto, basta apenas um único requisito: a vontade de participar. “O CineClube TF não cria, não inventa dons artísticos. Ele só potencializa aquilo que o menino tem. O garoto e a menina que entram no CineClube TF vão experimentar diferentes manifestações de arte e vão se encontrar em alguma delas. Ou, quando entram, já sinalizam alguma das expressões artísticas. Eu acredito que o que os atrai é, primeiramente, essa diversidade de produção artística e a possibilidade de você se encontrar em uma delas e também os próprios grupos de trabalho, que são constituídos por jovens. É jovem falando de jovem, com o jovem, para o jovem e eles se entendem entre si. Para participar do projeto, basta querer e nos sinalizar. Não existe seleção. Nosso contato é por meio das redes sociais e, quem

quiser, basta nos contactar e começar a participar das reuniões, dos eventos, das atuações. É ação. A pessoa já vai chegar “fazendo”, enfatiza Lilia Melo. Para que se mantenham ativos e alcancem mais pessoas, projetos como o CineClube TF precisam de suporte permanente. Usufruindo do apoio da própria comunidade do bairro e de tantas outras entidades, a iniciativa também conta com a Fundação de Amparo e de Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) como uma de suas parceiras. O CineClube TF é fruto de uma emenda parlamentar e coube à FADESP a responsabilidade de gerenciar os setores administrativo e financeiro do projeto. “A importância de ter uma parceria como a da FADESP é justamente poder estreitar diálogos em espaços essenciais para uma real mudança da sociedade. Essa contribuição é importante porque é mútua, pois assim como nós precisamos desenvolver uma consciência política e científica dentro do projeto, a comunidade acadêmica também precisa estar perto das comunidades em que atuam as suas teorias. Então, acho que é uma parceria fundamental. É um diálogo inovador e que precisa ter um alcance maior”, reforça a professora. Para o futuro, a palavra de ordem do projeto é expandir seguindo com o apoio das entidades e da comunidade. O CineClube TF vai fazer parte, em breve, de um projeto de extensão da Faculdade de Economia da UFPA, onde os alunos serão responsáveis por apoiar a gestão administrativa e financeira do projeto, apostando na arte como forma de empreendedorismo e valorização da

Professor Valcir Bispo Santos

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cidadania. “O mercado cultural ainda é muito estreito em Belém. E isso provém da pouca valorização dos ritmos e manifestações das tradições culturais amazônicas perante a sociedade local, sobretudo em relação aos segmentos da classe média e burguesa de Belém. De certa forma, isso é um sintoma de longos processos de colonização cultural, onde as elites econômicas e até intelectuais locais reproduzem formas de consumo cultural de outros centros de poder da cultura ocidental, sobretudo que vem da Europa ocidental e dos Estados Unidos, e que são também adotados nas principais cidades brasileiras, como São Paulo e Rio. Dessa forma, o mercado de consumo de bens e serviços provenientes das diversas culturas amazônicas é muito estreito. Creio que o projeto CineClube TF pode ajudar a mudar um pouco esse cenário se conseguirmos arregimentar um corpo de instituições, coletivos e entidades que possam atuar de forma mais concertada na capacitação dos jovens da Terra Firme nas diversas formas de inserção em atividades culturais e criativas, que talvez ainda estejam pouco desenvolvidas no bairro. Através dos recursos da emenda parlamentar, pretende-se entrar em outra etapa do projeto, que é a capacitação desses jovens para a promoção e fomento de empreendimentos culturais e criativos, a fim de conseguir auferir renda e inserção no mercado de trabalho, sobretudo no campo da economia da cultura”, como explica o professor Valcir Bispo Santos, responsável pela coordenação de projetos de extensão na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA).


AÇÕES AFIRMATIVAS

Foto: Wikimedia

Por Andreza Batalha Foto: Acervo pessoal

Qualificação aos povos indígenas e quilombolas O Programa de Residência Clínica Jurídica para Indígenas e Quilombolas – Diversidade Étnica-racial no Ensino em Direitos Humanos, da Universidade Federal do Pará (UFPA) faz parte das ações afirmativas desenvolvidas pela Instituição e seu maior objetivo é apoiar a qualificação do advogado indígena ou quilombola, bem como sua inserção no mercado de trabalho a partir das atividades voltadas para questões acadêmicas - com intercâmbios e vivências de ideias - e profissionais, como consultorias e assessorias em casos com repercussão na sociedade local. As ações afirmativas em Educação são de natureza político-acadêmica e visam promover a equidade, apoiando grupos vulneráveis – e são, ao mesmo tempo, uma tentativa de reparar danos de natureza histórica, produzidos pelo colonialismo da invasão europeia, além do racismo que desumaniza estes grupos, por colocá-los em uma escala hierárquica desigual e em lugares inferiores. Até 2006, não havia estruturado na UFPA um programa destinado a tais políticas. O começo foi via Programa de Pós-Graduação em Direito (nível de mestrado), atendendo a um edital nacional da Ford Foundation, entidade sediada nos Estados Unidos, criada para financiar programas de promoção da democracia, redução do racismo e da pobreza. De acordo com a professora titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA (IFCH) e pesquisadora do CNPq, Jane Felipe Beltrão, a recepção atendeu às expectativas e dois alunos aten-

didos pelo programa permanecem na UFPA. “Um como professor visitante e outro, como pós-doc”.

O nosso objetivo é aumentar as habilidades e capacidades de pesquisa, advocacia e contencioso para responder às violações de direitos humanos e questões ambientais que afetam suas comunidades.”

- Jane Beltrão -

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Em 2009, foi aprovada no Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão a primeira resolução sobre o tema, cuja recomendação era garantir o acréscimo de vagas. “O início das discussões foi duro, mas os movimentos sociais reivindicaram, formularam documentos e encontraram aliados dentro e fora da UFPA”, destaca Beltrão. Em 2020, apoiados pela Ford Foundation e pela Climate and Land Use Alliance (CLUA) foram implementados o Processo Seletivo Especial (PSE) para realização de mestrado com vagas específicas para pessoas indígenas e quilombolas; e o 1º Programa de Residência Clínica Jurídica para Indígenas e Quilombolas, que trabalha com treinamento acadêmico, profissional e prático para graduados em Direito. “O nosso objetivo é aumentar as habilidades e capacidades de pesquisa, advocacia e contencioso para responder às violações de


Foto: Wikimedia

Com muita luta, responsabilidade e um olhar totalmente inclusivo, a UFPA tem proporcionado a estes grupos vulneráveis, excluídos e marginalizados, a oportunidade de ter uma formação igual a qualquer outro discente que esteja estudando na estrutura acadêmica da Instituição.” Foto: Raoní Beltrão

- Cacique Yssô Truká -

Profesora Jane Felipe Beltrão

d i re i t o s h u m a n o s e q u e s t õ e s ambientais que afetam suas comunidades. Temos em treinamento quatro pessoas quilombolas e sete indígenas”, complementa Jane Beltrão. Todos os mestrandos e residentes recebem bolsas dos patrocinadores viabilizadas a partir da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP). Entre eles, Yssô Truká, cacique do povo Truká, em Orocó, Pernambuco. Aos 61 anos de idade, ele frequenta a turma de mestrado e destaca a importância do programa para os povos indígenas e quilombolas.

“As ações afirmativas desenvolvidas hoje pela UFPA tem oportunizado aos grupos étnicos acessarem cursos que, em tempos anteriores, eram apenas um sonho difícil de ser alcançado. Com muita luta, responsabilidade e um olhar totalmente inclusivo, a UFPA tem proporcionado a estes grupos vulneráveis, excluídos e marginalizados, a oportunidade de ter uma formação igual a qualquer outro discente que esteja estudando na estrutura acadêmica da Instituição. O meu curso vai servir como ferramenta para defender o interesse e o direito do meu povo de forma coletiva”, diz Yssô Truká. Para a professora Jane Beltrão, o programa de inclusão de mestrandos e residentes é talvez o maior programa de políticas afirmativas do Brasil, pois reúne 22 discentes em formação acadêmica dentro de uma Instituição como a UFPA, das mais representativas nas Amazônias. “Considerando a avaliação do Programa de Políticas Afirmativas, decidiu-se acrescer ao quadro docente do PPGD, em 2020, uma doutora indígena em regime de pós-doc financiada pela Ford Foundation e realizar seleção de um doutor indígena como visitante em 2021. A decisão foi extremamente acertada, pois os discentes etnicamente diferenciados pas9

saram a ser apoiados por um maior número de docentes e por parentes, como dizem os indígenas, fato que garante acolhida diferenciada aos discentes do Programa de Políticas Afirmativas”, destaca. Todas essas ações têm papel fundamental na inclusão, a vida acadêmica em sua totalidade só tem ganhos. As trocas dos saberes indígenas e quilombolas podem enriquecer as pesquisas e tornar as instituições de ensino cada vez mais plurais. “Sinto orgulho de estar e contribuir com a instituição UFPA formando lideranças indígenas, participando desse projeto de inclusão social desde as discussões iniciais”, finaliza Jane.

Cacique Yssô Truká


SAÚDE

Foto: ASCOM/IEC

Por Andreza Batalha Fotos: Dudu Maroja

Expansão de pesquisas O Instituto Evandro Chagas, por meio de subsídio da Fundação Bill & Melinda Gates, reformou e ampliou o Núcleo de Pesquisas Clínicas (NPC). Coube à Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa a gestão dos recursos, em uma parceria prolífica e renovada. Há 86 anos no coração da Amazônia, tendo a missão da prática da pesquisa científica, apoio à vigilância e ensino voltados para a produção, disseminação e divulgação de conhecimento e inovações tecnológicas que subsidiem as políticas de saúde, o Instituto Evandro Chagas teve um papel imprescindível na identificação das cepas do coronavírus – e, desde 2018, a FADESP é sua Fundação de apoio. A parceria, exitosa, frutificou em variados campos e, mais recentemente, para a reforma e instalação do Núcleo de Pesquisas Clínicas (NPC) do IEC. Com a remodelação e expansão do setor, o IEC torna-se apto a receber estudos com fármacos e vacinas de grande impacto em saúde pública. A Fundação Bill & Melinda Gates disponibilizou subsídios da ordem de US$130 mil ao Evandro Chagas. De empresário a filantropo, o ex-casal se mantém unido na busca por parceiros em todo o mundo para enfrentar a extrema pobreza e problemas de saúde nos países em desenvolvimento. Doutora em Pesquisa Clínica em Doenças

Infecciosas pela Fiocruz, a médica pesquisadora em Saúde Pública do Instituto Evandro Chagas, Cleonice Aguiar, é a responsável pelo NPC, ela conta que, com a pandemia causada pelo Coronavírus, muitos esforços globais foram envidados para avançar em pesquisas com medicamentos e vacinas contra a COVID-19. A Fundação Bill & Melinda Gates, por exemplo, possibilitou o aumento da estrutura física e capacitação de pessoal nos centros de pesquisa existentes na América Latina, além de ajudar na criação de novos centros. “Não havia locais e equipes suficientes para o esforço mundial necessário, era uma corrida contra o avanço da doença e o elevado número de mortes. O IEC já havia participado de pesquisas multicêntricas em décadas passadas, sendo escolhido para aprimorar a expertise anterior”, disse. Particularmente com este investimento, foi possível ampliar as instalações do campus IEC/Almirante Barroso, com aquisição de cinco novos consultórios, sala de vacina, sala de coleta, recepção, além de quatro estações de

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trabalho para a entrada remota de dados, dando origem ao NPC. Adicionalmente, uma equipe foi selecionada para receber treinamentos específicos para a pesquisa clínica, de acordo com as normas internacionais exigidas. O NPC realiza ensaios clínicos de fase II, III e IV com vacinas candidatas e também estudos epidemiológicos que antecedem os estudos com vacinas. Com a criação do NPC, hoje vinculado à Seção de Virologia, o IEC figura, mais uma vez, no cenário internacional de pesquisas clínicas de elevado impacto em saúde pública, especialmente no que se refere à imunização. O Diretor Executivo da FADESP, Roberto Ferraz Barreto, afirma a satisfação de contribuir com o IEC, além de renovar a responsabilidade da Fundação com o avanço da ciência. “Temos uma enorme felicidade em contribuir para o desenvolvimento da região amazônica, representando um enorme avanço e diferença para a saúde pública”, diz. “Ressaltamos que, para além da gestão dos recursos, a FADESP ainda contribuiu com suporte técnico


e jurídico na concepção deste projeto e celebração da parceria. Acreditamos que somente por meio da união dos esforços, estamos pavimentando um futuro mais promissor. Trabalhar junto com o Instituto Evandro Chagas, na ampliação e revitalização dessa enorme área, é muito recompensador. Temos orgulho de ser a Fundação de uma entidade protagonista e vanguardista, que demonstra sua força por meio destes investimentos tão essenciais à população”, finalizou Barreto. Para Cleonice Aguiar, a atuação da FADESP é fundamental no processo de negociação de contratos e gerenciamento das verbas destinadas às pesquisas clínicas. “De forma transparente e ativa, a parceria é imprescindível para o bom andamento das pesquisas sob diversos aspectos além da gestão”, destacou.

Foto: ASCOM/IEC

Voluntários Os interessados em contribuir com a saúde pública como voluntários em pesquisa clínica devem fazer contato por meio do site www.iec.gov.br/npc/ ou do telefone (91) 3214-2045, preencher o formulário de pré-cadastro e aguardar o contato da equipe do NPC para os próximos passos. O IEC conta com equipe médica e de enfermagem, entre outros profissionais de saúde de excelência para o acompanhamento de participantes, de acordo com as exigências éticas e regulatórias nacionais e internacionais. Atualmente, o NPC busca voluntários que tenham recebido duas doses de Coronavac/Butantan, mas que ainda não receberam o reforço. Também é necessário ter acima de 18 anos e estar disponível para acompanhamento pela equipe médica do estudo por seis meses.

Para acessar o site do IEC com mais informações, acesse o QR Code.

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ENTREVISTA/CAPA

Por Lorena Filgueiras Fotos: Renato Parada

Protagonismo atemporal Com 106 anos de existência, a Academia Brasileira de Ciências, considerada uma das mais longevas e tradicionais Instituições do país, recentemente empossou sua primeira presidenta. A mulher no mais alto cargo da ABC é a professora e biomédica Helena Nader, que tem colecionado inúmeros protagonismos ao longo de sua vida, a começar pelo fato de fazer parte da primeira geração de mulheres com Ensino Superior de sua família (ao lado da irmã, Heloísa); de ter pertencido a uma das primeiras turmas do curso de Biomedicina – área historicamente dominada por homens, e de ter presidido a SBPC, à qual dedicou uma década de sua vida. À Revista FADESP, a nova presidenta da ABC rememora sua trajetória, reflete sobre o atual momento e vislumbra um futuro de conquistas e lutas. Revista FADESP: Professora, parabéns pela eleição, professora! Helena Nader: Ah, muito obrigada! A eleição não é de uma pessoa: é de um coletivo. Revista FADESP: Comecemos pelo começo. Uma memória sua me deixou muito tocada. A senhora comentou, em entrevista não muito recente, que estudou, boa parte da sua vida, em ensino público, com sua irmã e que foram as primeiras mulheres universitárias da família. Compreendo que deve ter sido um marco na história familiar, pelo ineditismo, pelo incentivo, então preciso compreender o como a educação era vista por seus pais. Helena Nader: Eu sinto que meus pais não estejam aqui para presenciar esse momento, mas onde eles estiverem, sei que estão muito felizes. Eu sou de família de imigrantes. A família da mamãe é de origem italiana; eram todos de

Florença. E meus avôs por parte de pai eram da Síria/Líbano, então nós viemos para cá e meu pais diziam sempre que “a herança que vamos deixar para vocês é a educação! Ninguém pode tirar a educação de vocês. Somente com ela, podem chegar aonde quiserem”. Minha irmã é uma advogada de sucesso, espetacular, formada pela USP. E eu, formada em um curso novo, à época. Sou da segunda turma do curso de Biomedicina, que ninguém nem sabia o que era. Na época, não era Universidade; tratava-se da Escola de Medicina Federal e, quando eles criaram esse curso, a ideia era formar pesquisadores para as áreas biomédicas, para não cortar o tempo, porque eles achavam que formar um médico, para depois ele voltar, ia levar mais tempo... e estavam precisando de pessoas para trabalhar nas chamadas “áreas fundamentais” da Medicina, nas áreas básicas. Então, foi isso! Meus pais me incentivavam! Eles tinham muito orgulho e eu tenho muito orgulho deles. Revista FADESP: A senhora concorda

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que a postura dos seus pais foi uma diferença enorme, considerando a época... Helena Nader: Com certeza! Eu tenho 74 anos, então, você imagina que não era comum isso! Eu tive duas pessoas realmente diferenciadas na minha vida, o que mostra que não é que você precise ter um diploma, para ter a noção. Eles tinham formação, eram os olhos da família! Eles prezavam... Meu avô por parte de mãe, não conheci, porque ele faleceu quando mamãe era muito criança, mas [o avô] por parte de pai, eu conheci: vovô Elias. Era de uma cultura fora do comum! Junto com meu pai e minha mãe, ele me ensinou o gosto pela leitura. A pessoa que me apresentou Saint-Exupéry foi meu avô. Revista FADESP: Que sensível, presidenta! Helena Nader: Ele falava algumas línguas e o francês, por exemplo, era uma delas. Uma pena é que eu já


Por isso que eu sou privilegiada! Por isso que eu acho que tenho que dar um retorno para o país e para a sociedade. Eu acredito, de fato, no Brasil.” (Sobre ter sido, juntamente com a irmã, as primeiras mulheres da família, com ensino superior)

viajei muito, mas não conheço a Síria e o Líbano. E, com essas guerras, eu fico muito triste de ver o que tá acontecendo nessa região, de ver o ser humano perdendo o racional. E tudo movido por um valor econômico! Então, é triste, mas o vovô, eu não esqueço. Teve também o irmão do meu pai, que morava em Curitiba... ah, desculpe falar muito, mas é que você me entusiasmou e nunca comentei isso! Revista FADESP: Imagine! É um prazer lhe ouvir. Fique à vontade! Helena Nader: Meu pai era vendedor da antiga Firestone, que foi progredindo e foi chamado para abrir a filial de uma loja em Curitiba, uma filial da Firestone Pneus. Mudamos pra lá e o irmão mais novo do meu pai foi junto. Tio Alexandre ou tio Lalá, como chamávamos, era quem ficava comigo e com Helô, quando meus pais precisavam sair. Nessas ocasiões, ele muitas vezes colocava a gente para dormir e nessa hora ele colocava a música clássica e contava a vida dos compositores. Então, nós fomos muitos estimuladas! Por isso que eu sou privilegiada! Por isso que eu acho que tenho que dar um retorno para o país e para a sociedade. Eu acredito, de fato [ela enfatiza], no Brasil.

que pertenceu à primeira geração de mulheres universitárias. Como foi esse seu caminho? Como a senhora lidou com esse machismo tão estruturado da sociedade? Helena Nader: Olha, isso eu também aprendi em casa e com os meus professores. Tive professores que marcaram a minha vida desde a escola. E todos e todas, porque tinha homens e mulheres, sempre diziam para gente abrir portas. Meus pais diziam a mesma coisa. Eles diziam “não aceite ‘não’ como resposta”, “acredite naquilo que você é capaz!” E foi isso. Então, a situação... Como é que eu posso dizer? Não era como uma afronta, entende? Mas você via no subconsciente. Na nossa classe tinha homens e mulheres biomédicos, em um ambiente de Universidade, que era essencialmente masculino. A Medicina, naquela época, era predominantemente masculina. Então, isso cria aquela sensação de que mulher é apenas para casar, certo, Lorena? Mas isso não foi só comigo. O que quero deixar claro é que a turma era impressionante. Olho para trás e vejo todos que se formaram e é incrível o sucesso profissional de todos, o que significa, na minha análise, que a qualidade daquele curso de graduação teve enorme impacto na vida desses estudantes e futuros profissionais. Muito era exigido de todos!

Revista FADESP: Partindo das suas memórias e de sua consciência do seu privilégio, a senhora enfrentou muito preconceito e machismo? A senhora me disse que foi da segunda turma de Biomedicina e de uma família, em

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Exigia, mesmo! Eram altas horas para responder perguntas, para poder fazer todos os tipos de experimentos. Era um curso muito “mão na massa”! Então, isso moldou nossa turma e outras que vieram depois. O Curso de Biomedicina foi aprovado, por unanimidade, na Congregação da Escola Paulista de Medicina, que só tinha homens e só tinha médicos, você percebe? É um marco! Mais uma sorte minha. Por isso, sempre brinco que nunca acerto nada quando aposto na Loteria. Revista FADESP: Faz todo o sentido! Helena Nader: Já ganhei muito! Anos depois, após a graduação, fiz o doutorado e fui para o exterior com bolsa de lá. Aliás, Lorena, todas as vezes em que eu saí para o exterior, fui paga por aqueles que me chamaram. Isso foi muito bom, porque todas as minhas voltas para o Brasil foram por livre e espontânea vontade, não porque eu tivesse alguma obrigação de retornar o recurso que foi investido em mim... e acho que isso foi muito importante, porque eu queria estar aqui! Provavelmente o pessoal pode dizer “ah, mas você estava indo tão bem fora”. Até tava! Mas lá, talvez, eu fosse só mais um: aqui eu pude ajudar. Não que eu seja a melhor, mas quero ajudar a construir! E lutar por valores que a gente acredita. >>>


ENTREVISTA/CAPA

Em país que é [majoritariamente] negro, 55% da população são de negros, e que segrega... Você imagina com o gênero. É uma luta! Temos que ensinar desde pequenos: não à diferença de gêneros, ensinar o respeito ao outro, acho que é isso que tá faltando. Respeitar as diferenças! isso o Brasil não está respeitando e é muito triste.

Revista FADESP: Pegando o gancho nessa sua resposta, presidenta, como tornar, em face dessa enorme dívida histórica que temos com mulheres, negros, indígenas, além de tantos outros grupos vulneráveis, trans, gays, como tornar a ciência no Brasil mais inclusiva? Helena Nader: É uma longa e árdua, no sentido de ser longa, missão. Não é simples, porque o ser humano é segregador e é assustador isso! Eu tenho muita orgulho, Lorena, porque eu fui pró-reitora de graduação e, depois, de pós-graduação, mas durante a pró-reitoria, nós fomos a primeira Federal [USP]... e a UNB criou no mesmo ano... a criar, antes das ações afirmativas do governo... eu não gosto dessa palavra cota, sabe? Para mim, parece reserva de mercado, porque não é reserva. Ação afirmativa é equiparação, pedir desculpas e trazer a inclusão! Então, nós tivemos um ano de debates, trazendo pessoas das mais variadas áreas para dentro da nossa Instituição. E resolvemos, por unanimidade do Conselho Universitário, por aclamação, o

programa que nós criamos, que foi na época: 10% das vagas novas, de todos os cursos das instituições, para um projeto de acolhimento e foi incrível! Não sei se você lembra, mas houve muitas discussões em todo o Brasil. Os alunos acolhidos foram muito bem recebidos pelos colegas. Não teve briga. Não ouvi comentários, do tipo “você tá tirando meu lugar”. Isso foi muito bom. Agora, o Brasil não está fazendo isso! Ultimamente, ele está caminhando, a largos passos, para o lado oposto: da não-inclusão. A gente vai ter que mudar isso. Como a gente vai mudar isso? Combatendo! Combatendo a discriminação, tornando [a Ciência] um espaço inclusivo. Eu estou preocupada com o que tá acontecendo; a separação vai voltar. A universidade passou a ser mais colorida, mais o retrato do Brasil. E com a pandemia, com a diminuição dos programas para permanência na universidade, está tendo evasão. Se você olhar o número de inscritos no ENEM este ano, caiu vertiginosamente... isso vai ter um impacto a longo prazo. Temos que reverter isso muito rapidamente!

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Revista FADESP: Presidenta, em nossa última edição, entrevistamos o professor Renato Janine Ribeiro, atual presidente da SBPC, uma entidade, que a senhora, inclusive, já presidiu. Ele se disse extremamente preocupado com esse desmonte, que tem sido tão nocivo à educação e à Ciência brasileira. Gostaria que a senhora pudesse elencar alguns tópicos do que contempla a sua gestão à frente da ABC. Helena Nader: A primeira coisa, que eu quero que você saiba, é o seguinte: será uma gestão colaborativa! Somos 13 diretores, incluindo a mim! Tem um equilíbrio de gênero; tem equilíbrio de áreas de conhecimento e equilíbrio de regiões do país, porque o Brasil é mega diverso. Temos 20 vice-presidências

Nosso país está vivendo várias crises: econômica, ambiental, social, de direitos humanos... Vamos trabalhar com parcerias. Afinal, não existe andorinha sozinha que faça o verão.”


regionais, que vão ter um papel realmente importante – e que foram criadas na época da gestão do professor Jacob Palis e aprimorado pelo ex-presidente Davidovich, do qual, eu, muito honradamente, fui vice. Então, o trabalho será de um grupo, de equipe. Além disso, queremos envolver muito os membros da Academia. Queremos unir SBPC e ABC para temas que a gente acha extremamente relevantes, produzindo documentos numa linguagem mais simples, para que sociedade brasileira veja o valor da Ciência de uma forma clara. O governo tentou destruir a Ciência, e a sociedade disse “não!”. Vacina é importante, a adesão à vacinação. É claro que houve quem não quisesse ouvir... e, ainda bem que esses são uma minoria. Isso nós vamos fazer bastante. A outra coisa, que vejo como muito importante e de reconstrução é reconstruir a educação. Como que a Academia Brasileira de Ciências pode ajudar, pode gerar informação, trazer dados, trabalhar com outras entidades, buscando o que tem no Brasil e o que tem lá fora, para a gente fazer a revolução da educação. E nesse nosso grupo de diretores, há várias pessoas experts em educação e membros da academia que vão ajudar nesse trabalho. Lorena, tem uma coisa que é muito triste: construir levar muito tempo, mas destruir é muito rápido! Revista FADESP: A senhora tem toda razão! Helena Nader: Estou muito preocupada, nesse sentido. As universidades públicas formaram muitos desses que estão aí e que foram diretamente responsáveis pelos desmontes. E essas pessoas sequer conseguem perceber que chegaram onde chegaram porque foram educados, porque tiveram acesso à Ciência. A educação e a Ciência são os pilares que movem tudo. Parece que a única coisa que entendem é sobre dinheiro e recursos. Se não querem fazer, porque é importante para cidadania, que pelo menos, reconheçam o que é importante

Provavelmente o pessoal pode dizer “ah, mas você estava indo tão bem fora”. Até tava! Mas lá, talvez, eu fosse só mais um: aqui eu pude ajudar. Não que eu seja a melhor, mas quero ajudar a construir! E lutar por valores que a gente acredita.”

para tirar o Brasil da crise econômica. Nosso país está vivendo várias crises: econômica, ambiental, social, de direitos humanos... Vamos trabalhar com parcerias. Afinal, não existe andorinha sozinha que faça o verão. Revista FADESP: Presidenta, a senhora já foi procurada por algum candidato, para elaboração de um planejamento, de um programa de reconstrução da Ciência, tecnologia e inovação do País? [a entrevista foi concedida em 4 de abril de 2022] Helena Nader: Não. Revista FADESP: Está aberta a diálogos? Helena Nader: Nós sempre estamos e ABC não tem cor política/partidária. A cor que temos é a da democracia e dela não abrimos mão! Nos manifestamos, quando fizeram apologia à comemoração do aniversário do golpe de 64... Não vamos nos calar! [ABC e outras instituições brasileiras assinaram uma carta aberta à população, condenando a exaltação ao golpe] Revista FADESP: A senhora teme alguma retaliação? [a posse ainda não havia ocorrido, quando a entrevista foi realizada] Helena Nader: Não, não. E acho que

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não teremos. Vejo esse olhar ufanista deles, com esse golpe que ceifou vidas, é de alguns. Conheço vários militares que não pactuam com esse sentimento, assim como nós. Eu lutei contra a ditadura, mas eu reconheço coisas que os militares fizeram, na época, de impacto para a nação, assim como reconheço que tiveram sua vergonha. Tiraram vidas, mataram, para, depois lamentarem o que tá acontecendo na Ucrânia e Rússia? Qual é a diferença? Aqui, foi uma dor interna. O que fizeram foi horrível, com a justificativa da defesa da soberania nacional! É brincadeira! Esses caras que estão entregando a soberania nacional! Olha o Brasil e o mundo! Tirar daquela tragédia [do golpe de 64] algo positivo é agredir a inteligência do povo. Eu me senti agredida! Por isso, não vou me calar! Não me calavam, quando era jovem e não vão me calar agora, depois de velha!

Para conhecer o trabalho da Academia Brasileira de Ciências, acesse o QR


O mico-leão-dourado e a vacina da febre amarela Por Cristina Serra*

Desde que passei a me dedicar à cobertura de meio ambiente, entendi que tinha um grande desafio como jornalista. Temas ambientais exigem a compreensão de muitas questões científicas, como, por exemplo, dados de monitoramento de um bioma ou de uma espécie, estudos comparativos, gráficos. Essa enorme massa de dados precisa ser entendida e “traduzida” da linguagem científica para o português para que assuntos de imensa relevância sejam de conhecimento de amplas parcelas da população. Essa preocupação me guiou ao realizar o documentário “O mico-leão-dourado e a vacina da febre amarela”, em parceria com a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), ong que coordena o trabalho de conservação do belo primata que se tornou um símbolo mundial da defesa da natureza. Como o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) alcançou esse status? O mico-leão-dourado é endêmico da Mata Atlântica de Baixada do estado do Rio de Janeiro. Ele nunca foi registrado na natureza em nenhum outro lugar do Brasil. Os primeiros registros de sua ocorrência, feitos pelos europeus que aqui chegaram com as caravelas, datam de 1519. Ao longo dos séculos, a devastação da Mata Atlântica levaria a uma dramática perda de habitat do primata, alvo também da caça e do tráfico de animais. Nos anos 1970, o primatologista Adelmar Coimbra Filho estimou uma população de apenas 200 micos-leões-dourados na natureza. A espécie estava à beira da extinção. O alerta de Coimbra Filho motivou um esforço internacional para salvar o primata. Cientistas do Zoo de Washington e do Smithsonian Institute, dos Estados Unidos, partiram para uma experiência ousada: o “treinamento”

de micos-leões-dourados de zoológicos para que aprendessem a viver em liberdade. Os grupos (ou famílias) de micos foram soltos em áreas abertas nos zoos para que aprendessem, sozinhos, a procurar comida, abrigo e a se defender de predadores. Depois de erros e acertos, os micos considerados aptos foram enviados ao Brasil para reintrodução em fragmentos florestais. Com o tempo, eles se reproduziram e ajudaram a recuperar a população da espécie. Muitos dos micos que hoje podem ser vistos pulando de galho em galho na mata são descendentes dos indivíduos que aqui chegaram nos anos 1980. Com essa e outras iniciativas – como o engajamento da população local e o replantio de porções da Mata Atlântica -, os micos chegaram a 3.700 indivíduos, conforme registrou o censo feito em 2014 pela AMLD. O risco de extinção parecia estar ficando distante quando um novo perigo começou a rondar. Em 2017, o vírus da febre amarela voltou a circular no interior do Rio de Janeiro, na área de ocorrência do mico-leão-dourado. As equipes de monitoramento notaram o desaparecimento de grupos inteiros. A AMLD realizou novo censo e constatou a redução da população para 2.500 animais, ou seja, uma perda de 32% em apenas dois anos. Era o limiar de uma tragédia ecológica que poderia jogar por terra 40 anos de esforço para salvar uma espécie da extinção. O estudo do impacto da febre amarela no mico-leão-dourado foi publicado na Nature Scientific Reports (10/09/2019, Dietz e outros). Diante da ameaça, a ciência e o compromisso com o meio ambiente deram-se as mãos uma vez mais em uma experiência pioneira que

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contou também com uma grande coincidência e sorte! Um dos conselheiros da AMLD, o veterinário e doutor em Biologia Parasitária Marcos Freire, da Fundação Oswaldo Cruz, é um dos maiores especialistas em vacina de febre amarela. Ele começou a desenvolver estudos para que a mesma vacina aplicada em humanos pudesse ser usada, com adaptações, nos micos-leões-dourados. Daria certo? Cientistas de várias instituições e da AMLD avaliaram riscos, pesaram prós e contras e concluíram que valia a pena tentar por se tratar de pequenas populações isoladas de uma espécie gravemente ameaçada. Por meio de um processo de diluição da vacina para humanos, Freire chegou a uma dose adequada para os micos. Os testes preliminares foram feitos em micos-leões-da-cara-dourada que vivem em cativeiro no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ-INEA). Eles são “primos” do mico-leão-dourado, com peso e tamanho similar. Os resultados foram animadores. Nenhum macaco sofreu qualquer efeito colateral e a vacina produziu anticorpos, mostrando-se,

Foto: Arquivo pessoal

OPINIÃO


de anticorpos. É um desafio logístico, que depende do padrão de oferta de alimentos na mata e da meteorologia, entre outros fatores. A tarefa é facilitada, porém, porque a AMLD monitora os grupos há quase quatro décadas e sabe, inclusive, o grau de parentesco entre as famílias. A vacinação dos micos-leões-dourados também teve a participação de pesquisadores da ong norte-americana Save the Golden Lion Tamarin e da Universidade Estadual Norte Fluminense. Até agora, foram vacinados 260 micos-leões-dourados silvestres e a vacina mostrou-se, novamente, segura e eficaz. A meta é vacinar 500 indivíduos da espécie para ter uma população minimamente protegida caso haja um novo

surto da doença que ponha o primata dourado em perigo. Foi esta história extraordinária que tive o privilégio de contar no documentário sobre o mico e a febre amarela. Uma experiência enriquecedora que demonstra a importância da comunicação para aproximar a ciência e a população. A sociedade só defende e luta por aquilo que conhece e valoriza. E precisamos, como nunca, defender a ciência e o meio ambiente no Brasil.

Para assistir o documentário, dirigido por Cristina Serra, acesse o QR. Foto: Luís Paulo Ferraz

Foi esta história extraordinária que tive o privilégio de contar no documentário sobre o mico e a febre amarela. Uma experiência enriquecedora que demonstra a importância da comunicação para aproximar a ciência e a população. A sociedade só defende e luta por aquilo que conhece e valoriza. E precisamos, como nunca, defender a ciência e o meio ambiente no Brasil.” portanto, segura e eficaz. Os testes receberam licença do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBIO), do ICMBio. O sucesso da vacinação em micos de cativeiro levou ao próximo passo: a vacinação dos animais de vida silvestre. Os micos têm que ser capturados duas vezes. A primeira, para receber a vacina, e a segunda, para verificar a produção

* Paraense, Cristina Serra começou sua carreira em Belém, no jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. Estudou na UFPA e na UFF, no Rio de Janeiro. No Rio, trabalhou no Jornal do Brasil, Revista Veja e Rede Globo. Pela TV, cobriu política, em Brasília, e foi correspondente em Nova York (EUA). Estreou na literatura em 2018, com o livro-reportagem “Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil”. Atualmente, é colunista da Folha de São Paulo e do ICL Notícias.

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EXPOSIÇÃO

Por Thamyris Jucá Foto: Dudu Maroja

História de prontidão Exposição “Sentinela do Norte: A Independência do Brasil no Grão-Pará”, realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio da Cátedra João Lúcio de Azevedo e Instituto Histórico e Geográfico do Pará, promete uma reflexão oportuna sobre pertencimento e protagonismo político-social da época. O escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, certa vez, disse: “A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi e, contra o que foi, anuncia o que será”. Conhecer e compreender a história de um país como o Brasil e, mais especificamente, o papel sociopolítico do Pará e da Amazônia ao longo dessa trajetória de pouco mais de 500 anos é, sem dúvida, como diz o autor uruguaio, uma forma de estar preparado para lidar com o futuro. E é com o objetivo de despertar o olhar do público para esse diálogo, entre o presente e o passado do Brasil e da Região Norte, que a exposição “Sentinela do Norte: A Independência do Brasil no Grão-Pará” está aberta a visitação de todos, até 2023. Trata-se de uma iniciativa da Cátedra João Lúcio de Azevedo, Camões, IP – UFPA (projeto apoiado pela Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa – FADESP) e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) em alusão à efeméride do bicentenário da Independência do Brasil, com ênfase na história do Pará. “A Universidade Federal do Pará, o Instituto Histórico e Geográfico do Pará e a Cáte-

dra João Lúcio de Azevedo se unem nesta exposição para recontar o ambiente de escrita de uma história que foi pautada nos grandes homens e grandes acontecimentos. É importante que o visitante perceba que a Amazônia não era apenas uma ‘Sentinela do Norte’, mas um território onde pulsavam sentimentos na luta pela liberdade”, explica a professora e curadora da exposição, Maria de Nazaré Sarges. Contando também com a curadoria do professor e historiador Aldrin Moura de Figueiredo, a mostra apresenta textos, imagens e objetos que recontam o processo de grande movimentação político-social que ocorreu na vasta região amazônica, desde 1822. A exposição coloca em vitrine parte do acervo museográfico, bibliográfico e arquivístico do próprio Instituto Histórico e Geográfico do Pará, relativo à Independência, além de sua rememoração em diferentes épocas. Telas, insígnias, documentos, mobiliários, livros, bem como objetos oriundos de coleções particulares, também estão disponíveis para visitação. Diante de tantas preciosidades históricas, a escolha dos elementos que compõem a

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exibição foi minuciosa e envolveu diferentes profissionais. “Partimos da seleção do acervo do IHGP, com muitos itens desconhecidos do público e também contamos com peças de colecionistas, que colocaram à disposição inúmeros objetos de época. Não pensamos em expor apenas medalhas, programas, livros, bustos, sem que tivesse um diálogo desse passado-presente, sempre procurando levar à reflexão e à percepção das mudanças”, comenta Sarges. A mostra se divide em quatro núcleos expositivos: “O Barão, a Independência e os Motins Políticos”, que contextualiza a vida e obra do político e historiador Domingos Antônio Raiol, autor do clássico “Motins Políticos”, obra fundamental sobre o período e escrita no século XIX; “A independência do Brasil no Grão-Pará”, que aborda as guerras napoleônicas e a invasão portuguesa em Caiena, a partir do Pará; a adesão do Pará às Cortes Constitucionais de Portugal e o processo de adesão à Independência do Brasil; “A História Ensinada”, que traz a independência a partir da narrativa trabalhada em grupos escolares no Pará; e, por fim, o núcleo “Efemérides da


Nação”, em que são mostradas as comemorações pela independência em distintos períodos, discutindo a construção de memórias e releituras deste evento para a história do Brasil no Pará. “Neste ambiente, o visitante ainda encontrará um Pedro I retratado, em tela, pelo pintor Manoel Pastana e uma linda amazona de Faro, tão contemporânea, captada pelas lentes de Elza Lima; ambos a tomar conta de suas pátrias”, acrescenta Maria de Nazaré Sarges. A exposição tem ainda como perspectiva incluir novos atores e sujeitos sociais nas leituras da Independência do Brasil no Estado, como mulheres, indígenas e crianças, para além de nomes e vultos conhecidos da história nacional. “É importante dizer que as comemorações cívicas servem para ser olhadas como reflexão sobre os tempos pretéritos e sobre um futuro que se aproxima. Não quisemos ressaltar apenas os enredos da emancipação brasileira, da adesão do Pará à Independência ou da abdicação de Pedro I, tampouco ao temido movimento cabano… mas, sobretudo, colocar em pauta questões que ainda desassos- Maria de Nazaré Sarges segam aos formadores da nação desta longínqua Amazônia brasileira. Ao pensar sobre todos esses acontecimentos, possivelmente não deixaremos de refletir qual é o nosso papel como cidadãos, neste cenário de 2022 em que vozes são caladas e amarradas a um tempo de ‘heróis’ e ‘glórias do passado’. As comemorações do bicentenário nunca foram tão propícias às reflexões de nosso tempo”, enfatiza a historiadora.

É importante que o visitante perceba que a Amazônia não era apenas uma ‘Sentinela do Norte’, mas um território onde pulsavam sentimentos na luta pela liberdade”

Serviço: Exposição “Sentinela do Norte: A Independência do Brasil no Grão-Pará”, de terça a sexta-feira, das 9 às 16h. Onde: Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP), Rua D’Aveiro Cidade-irmã, nº 62 - Cidade Velha, Belém/PA. A entrada é franca.

Professora Maria de Nazaré Sarges e Professor Aldrin Moura de Figueiredo.

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INSTITUCIONAL

FADESP realiza concurso da SEFA O concurso público da Secretaria do Estado da Fazenda (SEFA/PA) - um dos mais aguardados do país, foi realizado nos dias 20 e 27 de março de 2022. A Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP), banca responsável pela organização e execução do certame em Altamira, Belém, Marabá, Santarém, Itaituba e Redenção, investiu em treinamento e reforçou os protocolos de sigilo e de biossegurança, garantindo tranquilidade de todos os envolvidos. No total, foram mais de 27 mil candidatos inscritos. Na primeira etapa, ocorrida no dia 20 de abril, mais de 10 mil candidatos concorreram ao cargo de Fiscal de Receitas Estaduais, para o qual foram destinadas 10 vagas imediatas ofertadas, além de outras 40 (cadastro reserva). No segundo dia, 27, o certame contou com mais de 17 mil candidatos inscritos para cargo de Auditor Fiscal de Receitas Estaduais, para o qual foram ofertadas 38 vagas imediatas e 112 para cadastro reserva. O resultado final consta no portal Fadesp.

Concurso público de Mocajuba A Prefeitura Municipal de Mocajuba retomou seu concurso, destinado ao provimento de cargos do quadro permanente de pessoal e formação de cadastro reserva, em diversas áreas da administração pública do município. A Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) é a banca realizadora deste certame, que contabilizou mais de 16 mil inscritos. Nos dias 22 e 29 de maio, foram realizadas as provas para o Fundamental Completo e Nível Superior/Fundamental Incompleto, respectivamente. São 19 vagas (Fundamental incompleto), 211 (Fundamental completo), 128 (Médio/Técnico) e 227 (Superior). Ministério Público, Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Mocajuba, além de representantes da Prefeitura Municipal de Mocajuba visitaram todas as escolas, para supervisionar a condução do certame. O resultado final oficial está definido para dia 30 de agosto de 2022.

Processo de Seleção da Polícia Militar/PA Mais de 1.700 candidatos se inscreveram para o Processo de Seleção da Polícia Militar “Coronel Fontoura”, em Marituba/PA, para concorrer às 110 vagas. Os candidatos foram submetidos a etapas distintas: prova objetiva, redação, avaliação psicológica, de saúde e física – que foram realizadas em Belém, Marabá e Santarém, respectivamente. A divulgação do resultado definitivo está prevista para dia 20 de junho de 2022.

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Para saber todas as informações, acesse: www.portalfadesp.org.br

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Compliance O evento de apresentação do INTEGRIDADE, programa de Compliance da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP), ocorreu no dia 14 de abril, no auditório do CEAMAZON, da Universidade Federal do Pará (UFPA). A reunião contou a presença de todos colaboradores da Fundação. O momento foi de informação e celebração pelo novo momento. Em seu discurso de abertura do evento, o diretor executivo Roberto Ferraz Barreto reforçou a importância de a Fadesp estar em conformidade com as exigências dos órgãos regulamentadores. “Instituiremos um programa pautado no controle, transparência, ética, análise de risco e no combate à corrupção. Desse modo, fortaleceremos cada vez mais a nossa governança corporativa”, afirmou. Para a execução do programa, foi estabelecido um cronograma, que deverá ser seguido, ao longo dos próximos meses, além das avaliações individuais e coletivas de cada setor. O planejamento será gerenciado por uma empresa especializada em auditoria e perícia empresarial.

Novo Conselho Diretor é empossado em 1ª reunião ordinária Em reunião ordinária, ocorrida no dia 24 de fevereiro, a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa definiu o novo Conselho Diretor da fundação. A escolha, por meio de votação, elegeu como presidente o professor José Miguel Veloso (NITAE/ UFPA) e Maria de Nazaré Soares (ACP), como vice-presidente. No dia 28 de abril, em reunião ordinária, a FADESP, apresentou ao Conselho Diretor sua prestação de contas/planilhas do balanço patrimonial do ano de 2021, cujos resultados foram positivos, com superávit e, por conseguinte, aprovados unanimemente. Em seguida, houve a apresentação da proposta de implantação do Programa de Compliance da Fundação, igualmente acatado e exaltado por sua importância para o aperfeiçoamento da gestão da FADESP.

Dia das Mães

Na sexta-feira que antecedeu o dia das mães, a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP), promoveu uma ação especial para elas: as mães FADESP ganharam squeezes personalizadas.

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POR DENTRO DA FADESP

Reunião do Conselho Diretor Na quinta-feira, 28 de abril, em reunião ordinária, a FADESP, apresentou ao Conselho Diretor as planilhas do balanço patrimonial do ano de 2021 da fundação, os gráficos mostraram os comparativos com o ano anterior (2020), tendo como resultado dados positivos, que foram aprovados com êxito por todos. Em seguida, os membros argumentaram e acataram a implantação do programa de Compliance da fundação, na qual, todos reforçaram a importância deste para o aperfeiçoamento de gestão da FADESP.

Ação Dia da Mulher No Dia internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, a FADESP realizou uma homenagem às colaboradoras da Instituição: suas mesas amanheceram com caixinhas de café da manhã – além de um cartão assinado pelo diretor executivo da FADESP, Prof. Dr. Roberto Ferraz Barreto, e pelo diretor adjunto, Prof. Dr. Alcebíades Negrão Macêdo, parabenizando as mulheres que compõem a Instituição.

FORMA PARÁ – 2022

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Mais de 15 mil candidatos se inscreveram para o processo seletivo especial do FORMA PARÁ 2022, realizado no dia 1º de maio. O certame ofertou 1.210 vagas nos cursos de nível superior, em 24 municípios paraenses, por meio das Universidade do Estado do Pará (UEPA), Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). O curso de Enfermagem, em Bragança, foi o mais procurado pelos candidatos, com 2.853 inscritos aptos, segundo informações da Coordenação de Concursos e Seleções da FADESP, banca responsável. Para conferir o cronograma do FORMA PARÁ 2022, acesse o portal: www.portalfadesp.org.br

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Projetos • Consultorias • Serviços

Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Rua Augusto Correa s/n. Campus Belém/UFPA – Guamá • Belém-PA Cep: 66075-110 Telefones: (91) 98839.0607 4005.7480 / 4005.7493

ASCOM/FADESP

Projetos de sucesso têm a mão da FADESP.


ASCOM/FADESP

Gestão orçamentária e financeira • Gestão de suprimentos (compras e contratações) • Operações logísticas, com viagens e eventos na região amazônica • Administração de folha de pagamentos e benefícios e gestão de pessoas • Acompanhamento de obras e serviços de engenharia • Divulgação científica e institucional • Controle contábil e prestação de contas • Concursos • Cursos • Eventos • Consultorias e Assessorias • Projetos Estratégicos e de Desenvolvimento Institucional

Rua Augusto Correa s/n. Campus Belém/UFPA – Guamá • Belém-PA Cep: 66075-110 Telefones: (91) 98839.0607 4005.7480 / 4005.7493