Revista Fadesp / 3 ed. - 2021

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REVISTA

FADESP

Publicação da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa

Ano 1 | n° 3 | Agosto / Setembro / Outubro 2021

Lilia Schwarcz

Fadesp

Reflexões sobre democracia, pandemia, vírus e o aprofundamento das desigualdades sociais.

COALIZÃO DE ESFORÇOS

SAÚDE MENTAL

Instituto Evandro Chagas e UFPA no combate ao Coronavírus

Estudantes têm acolhimento e apoio profissional

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Núcleo converge tecnologia e criatividade no ensino


ÍNDICE

EXPEDIENTE

Fadesp Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa

DIRETORIA Roberto Ferraz Barreto Diretor Executivo Alcebíades Negrão Macêdo Diretor Adjunto Marina Matta Fellipe Pereira Assessoria Jurídica

Lilia Schwarcz Foto: Renato Parada

Maria do Socorro Souza Executiva de Negócios

Editorial

PG 03

Raquel Lima Compras e Importação

COVID - 19

PG 04

Capa

PG 06

Moisés Martins Concursos e Seleções

Opinião

PG 11

João Carlos Oliveira Pena Consultoria e Desenvolvimento Institucional

Educação & Tecnologia PG 13 Saúde Mental

PG 14

Institucional

PG 16

Marcelo Moraes Financeiro e Contábil Marlene Perotes Gestão de Projetos Cláudia Coelho Recursos Humanos

Por dentro da FADESP PG 18

Davi Frazão Tecnologia da Informação Elilian Carvalho Secretaria Geral

Errata Na matéria “Produtivo e competitivo”, publicada em nossa edição passada (2 - maio/jun/ jul 21), consta a informação de que “(...) só em 2020, as quase 29 toneladas de bauxita (...)”. A quantidade correta é de 29 milhões de toneladas. Lamentamos o erro e pedimos desculpas.

EXPEDIENTE REVISTA

Lorena Filgueiras Imprensa e Comunicação

I ENFAP/CONFIES I Encontro Norte das Fundações de Apoio/CONFIES

CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Doriedson do Socorro Rodrigues - CUNTINS/UFPA Prof. Dr. Marcos Monteiro Diniz - ICEN/UFPA Profa. Dra. Maria Ataíde Malcher - NITAE2/UFPA

Fadesp

Editora-chefe Lorena Filgueiras (Ascom/FADESP) MTb/DRT-PA 1505 Reportagens Brena Marques - Ascom/FADESP Lorena Filgueiras - Ascom/FADESP Thamyris Assunção Projeto gráfico e diagramação André de Loreto Melo Revisão Fabrício Ferreira Analista de TI Raphael Pena Tiragem 1.500 exemplares

A Revista FADESP é uma publicação trimestral institucional da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa/Editora FADESP. Sua distribuição é gratuita. É proibida a reprodução parcial ou total sem prévia acordância da FADESP e sem citação da fonte. Os artigos publicados na Revista FADESP são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião editorial da Instituição. Nossas redes sociais www.portalfadesp.org.br | @fadesp_ufpa fadespufpa | @fadesp Sugestões, elogios, reclamações: revistafadesp@fadesp.org.br Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Rua Augusto Correa s/n • Cidade Universitária Professor José da Silveira Netto / UFPA Guamá - Belém/PA| Cep 66075-110 Telefone geral: (91) 4005.7440 / E-mail geral: centraldeatendimento@fadesp.org.br


EDITORAL

Verdade, acima de tudo. A conclusão da antropóloga/historiadora/professora/escritora Lilia Schwarcz de que a sociedade demorará muito mais tempo para se livrar das fake news que do vírus é uma previsão a qual todos nós, que zelamos pelo conhecimento científico, temos de nos manter atentos e fortes. E não só nós, que dedicamos nosso labor diário à produção e proteção da Ciência, temos de nos manter alertas: é nosso dever conclamar a sociedade ao exercício do pensamento mais crítico. De maneira muito generosa e igualmente gentil, Lilia Schwarcz tem sido muito presente entre nós, ao aceitar realizar um painel no I Encontro Norte das Fundações de Apoio (I ENFAP/CONFIES), um evento que foi todo organizado pela FADESP e pelo CONFIES, que ocorreu virtualmente, como o cenário exige. Em sua palestra, sobre o mundo no futuro pós-pandemia, em que dividiu espaço com o economista da Fiocruz Carlos Gadelha, Lilia enfatizou a importância de haver cada vez mais eventos da mesma natureza, abertos ao grande público, que tenham a missão de esclarecer, explicar, multiplicar. Por tamanho protagonismo, a Revista FADESP a traz na capa desta terceira edição e em uma entrevista esclarecedora e que esperamos que apreciem e divulguem. Acreditamos que o jornalismo científico mudou: nós somos o claro sinal de sua mudança e evolução, porque tiramos os assuntos dos nichos, simplificamos a linguagem para tornar todos os conteúdos que oferecemos ainda mais acessíveis. Eis uma de nossas missões. Nas páginas a seguir, mostramos alguns dos projetos apoiados pela FADESP e projetos das Instituições apoiadas pela Fundação – muitos dos quais têm reverberado e feito a diferença nesses tempos tão desafiadores, como os esforços do Instituto Evandro Chagas e do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará no reconhecimento do vírus, de suas cepas, permitindo que saibamos um pouco mais agora do que há 17 meses, quando a pandemia foi oficialmente decretada. Vocês conhecerão ainda o belíssimo trabalho do Nitae² e o necessário zelo e acompanhamento das saúdes mentais dos estudantes. Desejamos a todos uma boa leitura, convidando-os à reflexão sobre como temos conduzido nossas vidas e quais são nossas responsabilidades, quando o que dizemos/fazemos tem impacto sobre a vida do próximo. A verdade não é um conceito subjetivo e só ela, a Ciência e a solidariedade nos tornam sujeitos, partícipes, soberanos de nossas dignidades e vidas. Um abraço, Roberto Ferraz Barreto Diretor executivo da FADESP


COVID-19

Por Lorena Filgueiras Fotos: divulgação

Coalizão de esforços Instituto Evandro Chagas e Instituto de Ciências Biológicas da UFPA somam esforços, conhecimento, tecnologia e material humano no enfrentamento ao avanço da pandemia de Covid-19.

“A

inda estamos aprendendo diariamente sobre a COVID-19 e sobre o novo Coronavírus. Desconhecemos muitos aspectos da doença. O que sabemos de certo é que, diferentemente do que se pensava no início da pandemia, a doença não se restringe apenas aos pulmões e pode afetar todos os outros órgãos, principalmente em pessoas portadoras de doenças crônicas, em todas as faixas etárias, podendo deixar sequelas irreversíveis no doente”. A conclusão é da doutora em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas Cleonice Aguiar, médica, pesquisadora em Saúde Pública e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Clínica da seção de Virologia do Instituto Evandro Chagas. Embora os avanços sejam inegáveis e expressivos, muito ainda há para ser feito, segundo ela. “Ainda precisaremos acompanhar rigorosamente o surgimento de novas variantes que possam comprometer a proteção dos imunizantes existentes, causando novas ‘ondas’ da doença que podem cursar com maior transmissibilidade e gravidade”, diz a pesquisadora. O receio é justificado. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, a alta transmissibilidade da Delta é o fa-

tor principal do aumento de reinfecções no mundo. Registros dela foram observados em pelo menos 132 países. Há algumas semanas, casos de indivíduos infectados com a variante Delta foram notificados em pontos distintos do Brasil. Antes dela, a cepa Gama foi causadora da agonia pública no estado do Amazonas. O Instituto Evandro Chagas foi a primeira instituição a identificar a variante Delta no Brasil (e também no estado do Pará). Atuando na linha de frente de identificação do patógeno da doença, o IEC mobilizou toda sua estrutura no reforço da coalisão. “O principal responsável pela elaboração dos testes é o Laboratório de Vírus Respiratório, da Seção de Virologia, coordenado pela Dra. Mirleide Santos. Por ocasião da pandemia, laboratórios de outras seções da nossa instituição foram envolvidos para dar conta da demanda surgida, contando com uma ampla equipe multidisciplinar formada por biomédicos, biólogos, bioquímicos e técnicos em laboratório. Além do trabalho do laboratório, a equipe médica do IEC também se mobilizou para acompanhar e estudar os aspectos clínicos da COVID-19 em pacientes hospitalizados de todas as faixas etárias, estabelecendo parcerias com hospitais e universidades”, detalha Cleonice Aguiar.

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Dra. Cleonice Aguiar

Tamanho esforço foi fundamental para outras unidades do país, uma vez que o Evandro Chagas realizou testes de biologia molecular em amostras oriundas do Pará e de outros nove estados da federação até o dia 18/03/20 - mesmo período em que detectou o primeiro caso do novo Coronavírus no Pará. Sua atuação também foi fundamental na formação teórico-prática dos Laboratórios Centrais – LACENs das regiões Norte e Nordeste, que passaram, então, a realizar os testes em seus estados. Atualmente, o IEC realiza os testes moleculares, dando apoio ao LACEN/PA, quando acionado – bem como a outros estados do Brasil. Muitas das ações só foram possíveis pelo apoio das instituições


de fomento, especialmente aquelas voltadas à pesquisa na região Norte, como a FADESP, que é a Fundação apoiadora do Instituto Evandro Chagas. “Essas parcerias nos permitem obter recursos junto a instituições internacionais, sob intermediação das instituições/agências locais de fomento, facilitando assim o alcance de tecnologias mais avançadas para a Amazônia e sua população. Recentemente, o IEC recebeu subsídios oriundos da Fundação Bill & Melinda Gates e Instituto D’or de Pesquisa e Ensino (RJ), intermediados pela FADESP, com objetivo de expansão do Núcleo de Pesquisa Clínica, para receber estudos com novas candidatas à vacina contra COVID-19, entre outras pesquisas. É muito importante avançarmos com estudos envolvendo avaliação de novos fármacos e vacinas, não somente no eixo Sul-Sudeste, mas também na Amazônia, especialmente ao considerarmos a miscigenação do povo brasileiro – uma das maiores populações da América Latina –, com grande impacto em saúde pública. Desde a década de 90 o IEC vem participando de estudos de fases II e III com vacinas contra diarreias virais (rotavírus, norovírus), hepatite B e pneumonia, possuindo equipe multidisciplinar capacitada de acordo com normas internacionais de pesquisa clínica. Continuamente, buscamos parcerias e novos estudos para trazer avanços em saúde pública para a nossa população”, finaliza Cleonice Aguiar. Reforço de peso Para atender às demandas da sociedade, em especial da comunidade da UFPA, o Laboratório de Genética Humana e Médica, o Laboratório de Imunodermatologia, o Laboratório de Análises Clínicas e o Laboratório Didático de Biotecnologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal do Pará, orga-

nizaram-se em uma rede de laboratórios, dedicados a desenvolver o projeto “Identificação de RNA viral do SARS-CoV-2 por RT-qPCR em profissionais da UFPA em atividades presenciais de risco para a COVID-19”. O projeto fez parte do programa de vigilância para COVID-19, da UFPA, cujo objetivo é atender indivíduos suscetíveis à infecção pertencentes à comunidade da UFPA (servidores docentes e técnicos administrativos; contratados das empresas de limpeza e segurança; bolsistas e estagiários e familiares dos indivíduos contaminados). “O programa é liderado por professores doutores coordenadores do Laboratório de Genética Humana e Médica, do Laboratório de Imunodermatologia, do Laboratório de Análises Clínicas e do Laboratório Didático de Biotecnologia e reúne outros pesquisadores doutores, técnicos administrativos, mestrandos, doutorandos e estudantes de iniciação científica do ICB, do Núcleo de Medicina Tropical (NMT) e do Núcleo de Pesquisas em Oncologia (NPO) da Universidade Federal do Pará (UFPA)”, explica o diretor do ICB, Prof. Dr. José Ricardo dos Santos Vieira. Além de garantir o acompanhamento de perto à comunidade acadêmica da UFPA, Vieira conta ainda que o ICB presta apoio técnico e científico ao serviço público de vigilância sanitária do estado do Pará, em especial ao Laboratório Central do Estado (LACEN), bem como ao setor de vigilância epidemiológica da SESMA. Uma coalisão absolutamente necessária, considerando o cenário de tragédia no mundo todo e o esforço hercúleo, de toda a comunidade científica de todo o globo, em criar vacinas, em uma verdadeira corrida contra o tempo (e contra o vírus). “A Ciência sairá fortalecida, como sempre” É o que afirma o diretor do Ins-

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tituto de Ciências Biológicas da UFPA. “A Ciência brasileira sempre teve um quê de desafio, principalmente nos últimos anos, com a estrutura de apoio financeiro que vem colapsando para as instituições federais de ensino superior”. Ele enfatiza, entretanto, a força-tarefa empreendida pela Universidade Federal do Pará. “Neste momento crítico de pandemia, a UFPA não mediu esforços para manter uma agenda positiva de apoio às necessidades estruturais dos laboratórios envolvidos neste programa, além de garantir recursos do Ministério da Educação destinados, exclusivamente, para o apoio às ações de cuidado e prevenção da COVID-19 na UFPA e em toda a sociedade paraense”, diz. “A Ciência precisa ser financiada e protegida pelas instituições e pela sociedade. O saber científico se pronuncia sempre em favor das melhorias das condições de vida do cidadão e garantir a manutenção das ações dos cientistas dentro das universidades brasileiras é não somente um ato de soberania, mas de consciência de que somente uma sociedade pautada em fundamentos científicos e éticos poderá se erguer diante de flagelos naturais como esta pandemia de COVID-19”, finaliza.

Prof. Dr. José Ricardo dos Santos Vieira


CAPA

Por Lorena Filgueiras Fotos: Renato Parada

Democracia, vírus e fake news. A escritora/historiadora/professora e antropóloga Lilia Shwarcz se define como “bastante pessimista no varejo e muito otimista no atacado”. A entrevistada especial desta terceira edição da Revista FADESP é, sobretudo, uma observadora atenta do mundo – mas não se limita ao papel de espectadora somente. Ao longo de todo o período pandêmico, Lilia dedicou-se (e tem se dedicado) ao papel da escuta e da pesquisa, que lhe renderam bons debates e um livro, “A Bailarina da morte”, escrito em parceria com a historiadora Heloisa Starling. Na obra, considerada uma das mais importantes deste contexto, as autoras esmiúçam a Gripe Espanhola, de 1918, pelos vieses políticos e científico-sanitários, e o resultado não poderia ser mais surpreendente: embora um século nos separe da doença que dizimou aproximadamente 30 milhões de pessoas em todo o mundo, as similaridades são desconcertantes, provando que se não aprendemos com a História, viveremos períodos cíclicos de tragédias. A antropóloga concedeu-nos a entrevista por vídeo e, ao longo de quase uma hora de conversa, refletiu sobre as perdas insubstituíveis, democracia, sobre os prejuízos incalculáveis das fake news e a necessidade de investir e acreditar na Ciência. O resultado, como não poderia deixar de ser, é uma leitura robusta e imprescindível. Revista FADESP: Muito se falou, quando do começo da pandemia, que nós, a humanidade, sairíamos melhor deste momento, e você iniciou sua fala dentro do I ENFAP [leia mais sobre o I Encontro Norte das Fundações de Apoio, que teve a Lilia Schwarcz como convidada, na página 16] refletindo sobre isso e sobre o que foi denominado de “novo normal”. Estamos vivendo a pandemia há um ano e sete meses [a entrevista ocorreu no final de julho] e gostaria de saber qual seu sentimento sobre esse bem coletivo? Lilia Schwarcz: Olha, eu digo que sou uma pessoa bastante pessimista no varejo e muito otimista no atacado. Acredito que a gente pode aprender com as experiências, pode aceitar os desafios, né, e querer fazer um pouco melhor que gerações passadas. No caso, nós não fizemos. Escrevi um livro, junto com a professora Heloisa Starling, da UFMG, “A bailarina da morte”, sobre gripe espanhola de

1918, e as nossas conclusões são opostas, ou seja, de que a sociedade brasileira foi muito mais solidária em 18 do que tem sido agora, em 20/21. Quando a pandemia começou, surgiu essa expressão “novo normal”... A humanidade adora classificar os fenômenos sociais, então, surgiu essa nova classificação. O “novo normal” seria essa situação de isolamento, a oportunidade que nós temos de rever a divisão social do trabalho dentro da família, já que estão todos dentro do mesmo local; do tempo e da temporalidade. Mas essa situação não durou mais de dois meses! Lembro que logo no começo, eu já dizia que essa expressão, “novo normal”, era uma expressão de classe, no fundo, porque quem tem a oportunidade de estar aqui, num escritório sozinha, com meu computador, com a minha rede wi-fi... é uma realidade de exceção no Brasil! Sabemos que 35% da população brasileira moram em apenas um cômodo!

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São 8 pessoas ou mais dividindo esse ambiente. Revista FADESP: Como se fala em distanciamento social em circunstâncias assim? Lilia Schwarcz: Exato! Como se fala em distanciamento em locais onde água potável não é uma realidade? Como falamos de um “novo normal” para uma população que, a cada quatro brasileiros ou brasileiras, um não tem acesso [à água]? O que a pandemia fez não foi criar um “novo normal”, mas destacar, salientar características do país. À qual característica estou me referindo? À desigualdade. Ela ampliou – e muito – a nossa desigualdade! Basta ver as realidades das escolas públicas e privadas. Não digo que as crianças que estudam em escolas privadas não sofreram, mas tiveram aulas. Nas escolas públicas, sabemos que foi uma quimera. Veremos como vai retornar agora, com o ministro [da


(...) o que está acontecendo junto é que vivemos um sequestro, não somente de nossos símbolos pátrios, mas de conceitos republicanos, como liberdade de expressão. Há um limite para ela e as fake news são má-cidadania!” educação] prometendo aulas presenciais. Podemos dizer que a pandemia afetou, sobretudo, as classes pobres e negras. Não é um problema biológico, de vulnerabilidade; é um problema histórico, político e social. Revista FADESP: Trata-se da primeira pandemia que nós vivemos e preciso perguntar quando você se deu conta da gravidade do momento? Lilia Schwarcz: Dou aula na USP [Universidade de São Paulo] e em Princeton [em Nova Jersey, nos Estados Unidos], também. Estava eu na minha temporada de Princeton, quando surgiu a notícia da pandemia. Foi muito ligeiro por lá! Num domingo, estava eu jantando com amigos, em Nova Iorque, e ironizei uma senhora que estava cumprimentando alguém com o cotovelo. Dei risada. Fui para a Universidade na segunda-feira, junto com o diretor de relações internacionais – que é o departamento ao qual estou afiliada, e perguntei como ele estava vendo essa pandemia. Ele disse “forget about it”, “esqueça isso”. Já na terça-feira, em Princeton, a diretoria comunicou que as palestras de todas as pessoas estranhas à Universidade, convidados, estavam canceladas. Já achei estranho. Na quarta-feira, minha aula foi cancelada e voltei para Nova Iorque na quinta-feira. Como é Princeton que paga minhas passagens e ainda faltava uns dias [para re-

tornar ao Brasil], pensei que eles não iam mudar as datas. Liguei e a pessoa me contestou naquela hora: “você quer voltar hoje mesmo?”. Lorena, as ruas de Nova Iorque estavam apavorantes; não havia uma única pessoa. Num espaço de três dias, quatro, na verdade, eu vi a velocidade da pandemia! Cheguei ao Brasil, consegui achar uma máscara para viajar... e eu nem sabia usá-la direito, mas eu era uma das únicas que tinha máscara. Cheguei aqui e não quis visitar minha família. Fui acusada de voltar muito americanizada. “Eu sou vocês daqui a uma semana”, eu disse. E era verdade. Essa temporalidade da pandemia é muito veloz! A notícia dela demora a chegar, mas quando ela chega, é muito rápido! Acabei me dando conta da seriedade um tanto antes, não é? Desde então, estou em isolamento, porque

não saí mais, mas nunca imaginei que fosse demorar tanto para passar, devo confessar. Tanto que estava escrevendo esse livro com a Heloisa Starling e tínhamos a fantasia de que parte das pesquisas seria realizada [presencialmente] nos arquivos. Esse livro é um exemplo de como a Academia brasileira pode produzir obras de pesquisa de dentro de casa – usando a produção excelente dos Mestrados e Doutorados do Brasil inteiro.

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Revista FADESP: Gostaria de falar sobre seu livro “A bailarina da morte”, escrito juntamente com a professora Heloisa Starling e que, embora trate da Gripe Espanhola, revela inúmeras semelhanças com o momento que estamos vivendo, da pandemia de Covid-19. Quando não se aprende a lição, a história se repete. É importante que tenhamos em mente que o vírus continuará circulando... Você arriscaria dizer que aprendemos algo? Lilia Schwarcz: Em 18, não havia Ministério da Saúde, tampouco o SUS. As notícias vinham, esparsamente, pelo Rio de Janeiro, então capital do país, mas não havia um órgão que, teoricamente, teria que dar as diretrizes para o país. No entanto, Lorena, o que chama atenção é que em 1918, as medidas foram muito mais centralizadas, ou seja, os estados adotaram as medidas da Saúde, de uma maneira muito mais coerente, centralizada e unívoca, do que está acontecendo agora, no Brasil, quando teoricamente temos um Ministério da Saúde, teoricamente temos um ministro especialista na saúde >>>


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e temos o SUS, o grande SUS. O Brasil também, não em 18, mas logo depois de 18, construiu um plano nacional de vacinação, que é exemplar. Não havia vacina para a Gripe Espanhola, mas ela fez com que os políticos daquele contexto visionassem um futuro Ministério da Saúde, que surgiria em 30. Então, eu atribuo muito à capacidade dos médicos e dos cientistas de 18 a futura criação do Ministério da Saúde. O que está acontecendo agora em 20/21? Nós temos um Ministério da Saúde que, infelizmente, está ideologizado, ou seja, transformou a Ciência e a Medicina em uma questão de opinião. Eu sempre digo que não tenho uma opinião: prefiro ter uma informação. O que está acontecendo é que estamos vivendo uma ambiguidade muito grande: em um momento em que nunca precisamos tanto dos cientistas, temos no centro do governo, o chefe máximo do país, uma pessoa que desdenha da Ciência, que ainda não tomou vacina! É uma pessoa que advoga o tratamento precoce e que deixa a população muito confusa sobre que procedimento adotar. Estamos falando de um presidente que foi internado num hospital de elite de São

Paulo e que circulou sem máscara nos corredores – ele que não foi vacinado! Acredito que neste certame, nós desaprendemos. Por outro lado, qual a ambiguidade que quero destacar: estamos falando para uma revista que fala de Ciência e acho que a Ciência brasileira compareceu muito! Compareceu em 18 e está comparecendo agora! Eu não vi cientistas, não vi a ANVISA chancelando a atitude do governo – ao contrário! Vivemos um momento em que sabemos que a solução virá da Ciência, mas temos um presidente que desdenha dela! É um cenário muito ruim, não somente econômica e politicamente, mas muito ruim eticamente e como responsabilidade civil e social, que nós todos temos. Revista FADESP: A doutora Margareth Dalcolmo, em nossa última edição, disse algo muito impactante: que ela acredita na vitória da Ciência, mas não a um preço baixo, muito ao contrário. Apesar disso, na sua visão, que outros legados e resultados positivos ficarão dessa experiência? Lilia Schwarcz: Acho que alguns. Em primeiro lugar, esse contato diário com a morte. Tenho falado muito nisso,

Como se fala em distanciamento em locais onde água potável não é uma realidade? Como falamos de um ‘novo normal’ para uma população que, a cada quatro brasileiros ou brasileiras, um não tem acesso [à água]? O que a pandemia fez não foi criar um ‘novo normal’, mas destacar, salientar características do país.”

porque tenho um verdadeiro receio da naturalização do luto e da morte. As pessoas agora falam frases assim: “vejam que maravilha, chegamos ao patamar de mil mortes ao dia!”. Essa é uma frase destituída, não de sentimento, mas é eivada por essa pulsão de vida que nós temos, mas que é de morte, também. Por que eu digo isso? Ailton Krenak sempre me diz e os Yanomâmi dizem também que “aqueles que não souberem viver a morte, o luto, também não saberão falar da vida”. Espero, sinceramente, que essa experiência com o luto faça de nós, brasileiros e brasileiras, pessoas mais empáticas; que tenhamos mais empatia para com a doença, o luto e a morte. Somos uma sociedade que não está equipada mentalmente, enquanto imaginário, inclusive, para lidar com a morte. Queremos sempre romper com a ideia da doença – nós a afastamos, deixamos longe de nós. Além do mais, como somos uma sociedade tropical, que tem praias e tudo mais, não aceitamos facilmente a ideia do envelhecimento do corpo, ou seja, é uma sociedade que

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é bonita e atlética, a partir, sobretudo, de um modelo branco, idealizado. Torço para que a gente possa falar, agora que as escolas estão voltando, mais de morte, de luto e que sejamos pessoas melhores, mais afetivas – no sentido de estar mais afetados pela dor do outro. Também acho que estamos num momento, em que nunca tivemos tantos ministros militares – nem durante a ditatura militar, tivemos tantos ministros, tantas pessoas na alçada íntima do governo, ligadas ao círculo mais próximo [do presidente] do Exército, Marinha e Aeronáutica. Fico pensando aqui que se este é um governo tão preocupado com a formação de exércitos, quando não há nenhuma guerra iminente, seria muito bom que saíssemos dessa pandemia, com um projeto da formação de um exército de higienistas, cientistas... que pudéssemos nos antecipar, porque a história mostra que pandemias e epidemias voltam, retornam! Não é possível que tudo aconteça na base do susto! Quando é que nos anteciparemos a ele? Quando administraremos as tragédias na Saúde de outra maneira? Que aprendamos. Tenho visto essas matérias inacreditáveis de milionários que querem pegar um foguete e fazer uma corrida espacial... é bem verdade que são todos homens e brancos. Costumo dizer que “é o novo brinquedo dos garotos”. Imagine se essa verba, que corresponde a uma viagem de 10 minutos, fosse empregada em pesquisa! Não só para controlar a Covid, mas para controlar futuras emergências na saúde, como a que estamos vivendo. Mas a gente continua com o último jogo, aquele que polui o planeta. Como eu disse, sou esperançosa e espero que passemos a dar mais importância para a Ciência, para a boa informação e que possamos criar um exército de cientistas prontos a defender nossas fronteiras virais. Revista FADESP: Gostaria de aproveitar o assunto, especialmente quando perdemos tantas pessoas conhecidas, queridas, amigos, parentes, em que contemplamos a finitude de frente. Tantas perdas fizeram você ressignificar algo em sua vida? Lilia Schwarcz: Faz parte do sistema republicano uma virtude chamada solidariedade. Convivi com a morte, ainda muito menina: meu pai morreu de um ataque cardíaco fulminante, quando

“Tive, ainda cedo, a convivência com a morte e aprendi a transformar a dor da perda numa boa lembrança”, diz Lilia, ao ser questionada se o momento atual a fez refletir sobre a finitude.

ele tinha 42 anos e eu tinha 18 – recém completados. Eu me orgulho de ter voltado para comemorar meu aniversário com ele. Estávamos nós dois conversando, quando ele olhou para mim e disse “olha, não estou me sentindo bem” e apagou. Tive, ainda cedo, a convivência com a morte e aprendi a transformar a dor da perda numa boa lembrança. A gente tem essa capacidade de transformação, de lembrar e lamentar a ausência dessas pessoas todas, mas de saber da sorte que tivemos de conviver com elas. Desde que a pandemia começou, eu já tinha um instagram muito ativo – até porque acredito que a Ciência tem que romper essas fronteiras e ocupar todos os espaços possíveis. Se não fizermos isso, serão e já estão sendo ocupadas por má informação – comecei a fazer uma série de lives, que ficaram muito populares. Você falou da doutora Margareth e eu conversei com ela; com Natalia Pasternak, com o Átila, Krenak, Djamila [Ribeiro]. Essas foram a minha forma de demonstrar solidariedade. São pessoas lindas, geniais, às quais tenho acesso e decidi conversar com elas, tendo ajuda de quem está assistindo, pedindo que enviem as perguntas. Faço o papel, que entendo ser o que todo brasileiro deveria fazer, que é o da escuta. Precisamos

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escutar mais. Precisamos também aprender a ser mais solidários, a doer com a dor do outro – que chamo de empatia cidadã. A pandemia nos ensinou, por meio desses aparelhos aqui [ela aponta para a tela do computador], que podemos nos reunir. Não é o ideal e também sinto uma falta danada dos meus alunos – especialmente da hora do intervalo, quando alunos mais tímidos e geniais puxam conversa, mas tentemos usar essa tecnologia a nosso favor. Revista FADESP: Tão velozes quanto o vírus, são as fake news e nos vimos inundados por elas. De qual desses males demoraremos mais a nos recuperar, já que ambos chegaram para ficar? Lilia Schwarcz: Penso que das fake news! O que temos visto ocorrer no Brasil é inacreditável! Nunca que, ao tomar vacina, perguntei qual era a “marca”, o laboratório. Isso também aconteceu em 1918 – transformaram em um partido político a questão da vacina. Houve uma ideologização dela e houve uma proliferação de especialistas. Não demonizo as redes – muito ao contrário, mas acho que elas são palco para tudo: para boa informação e, sobretudo, para péssimas informações. Nós vimos aparecer uma série >>>


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Detalhe do momento da entrevista, que foi realizada por vídeo chamada.

de charlatões, uma série de médicos e médicas, ligados ao presidente, que passaram a defender tratamento precoce. Vamos ter que combater muito fortemente as fake news e será um trabalho de todos. Cientistas estão acostumados a contrastar as mais diversas fontes. Eu, como historiadora e antropóloga, jamais direi algo sobre a gripe espanhola a partir de uma única fonte: tentarei cruzar informações. Por exemplo, no meio disso tudo, encontrei uma notícia espetacular de que uma santa [imagem] tinha chorado! Mas como assim? Vão dizer que é crendice. Depois de ler cinco fontes, uma delas explicava o que havia ocorrido: o restaurador da imagem tinha deixado sobrar um pouco de parafina... mas isso é fruto da pesquisa. Matemáticos, biólogos fazem isso. Não é privilégio das Ciências humanas. As notícias falsas vão durar mais – sempre digo que elas não são liberdade de expressão, porque o que está acontecendo junto é que vivemos um sequestro, não somente de nossos símbolos pátrios, mas de conceitos republicanos, como liberdade de expressão. Há um limite

para ela e as fake news são má-cidadania! Revista FADESP: Há uma frase sua, de que gosto muito, que diz que a democracia está em constante construção; que é uma joia que continua a ser lapidada. Diante de tantas outras ameaças, que vão além do vírus, nós estamos em risco? Lilia Schwarcz: A democracia é o melhor regime que temos no momento. Quando inventarem outro, me avisem, que é para eu estudar. Quando a democracia surgiu, lá na Grécia, já nasceu imperfeita, que precisa ser qualificada. Na Grécia antiga, poucos votavam: as mulheres, não. Estrangeiros residentes na Grécia não votavam. Escravizados e escravizadas também, não. Dizer que aquela era uma democracia perfeita, isso não era. Mas era participativa, o cidadão podia reclamar. O que aconteceu com a nossa democracia? Passamos a ter uma institucional, digamos assim. Há instituições que são mediadoras de nossa participação. Com isso, muita gente abriu mão de sua cidadania.

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Viramos um tanto quanto esquizofrênicos, porque, no caso do voto, votamos um dia em um candidato e no dia seguinte, se não esquecemos em quem votamos, já metemos o pau nele. Acredito em vigilância cidadã. Voto não é delegar; é uma chancela, uma franquia da cidadania. Vou vigiar, cobrar. Temos instituições bem consolidadas, desde 1988, mas, mesmo assim, penso, sim, que estamos em risco. Nunca elas foram tão testadas. Os juízes do Supremo dizem ser testados cotidianamente. Acredito, sim, que a democracia no Brasil está em risco. Por quê? Porque temos um presidente golpista, que dá um golpe todo dia. Bolsonaro é ele próprio é o golpe, que apoia movimentos antidemocráticos. No momento em que estamos vivendo uma pandemia, um presidente que não usa máscara, que faz apologia ao tratamento precoce, sabendo que não há Cientistas sérios que apoiem isso, é um presidente que está atentando contra a nossa democracia. Um presidente democrático anota a emergência sanitária e atua nesse sentido. Não fazer isso, é praticar um genocídio. Sei que o termo foi criado para determinada situação, mas nenhum conceito é imune ao tempo e precisamos atualizar a definição de genocídio para pensar o que estamos passando. Existiram mortes no Brasil? Existiram. Existiriam tantos mortos? Não. Então, estamos falando de um chefe supremo antidemocrático, que não luta por nossos direitos: direito à segurança, educação, saúde. Para acompanhar Lilia Shwarcz no instagram: @liliaschwarcz Nota da editora: As fotos de Lilia Schwarcz foram feitas no mesmo dia em que ela concedeu a entrevista, respeitando o distanciamento, com segurança necessária. O fotógrafo Renato Parada utilizou máscara durante todo o tempo em que esteve na companhia da antropóloga.


OPINIÃO

Ciência e solidariedade: docência na pandemia. mensagens de ânimo e esperança, por mais temor que também nós estivéssemos sentindo, como integrantes do maior grupo de risco à época. Tudo isso era ampliado pelo modo como a pandemia era conduzida no país, pautado pelo negacionismo à ciência e à doença, em si. Estatísticas diárias aumentando sempre, tanto em número de casos, quanto de óbitos. Por e-mail, recebíamos os MC daqueles que, por alguma razão, haviam perdido o prazo do SIGAA e retornávamos feedbacks avaliativos. Não queríamos deixar ninguém para trás. Estávamos avançando, mas de modo assíncrono. Somente em final de maio, tivemos coragem para agendar o primeiro encontro síncrono. Criamos, com alguma dificuldade, uma sala virtual e enviamos o link ao grupo, por meio do aplicativo de mensagens do celular. Mas nessa “aula”, o conteúdo da disciplina foi “suspenso”. Propusemos que cada um falasse de si. Expressaram o medo que estavam sentindo, o sofrimento que estavam vivendo por adoecimentos e perdas próximas, a dificuldade de concentração nos estudos, mas, sobretudo, manifestaram gratidão por não termos interrompido a disciplina, porque se mantinham mentalmente ocupados, pois precisavam compreender o conteúdo do artigo semanal para elaborar o respectivo MC. Nesse encontro, resolvemos alterar >>>

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Foto: acervo pessoal

16 março de 2020. Iniciamos o 1º semestre com pós-graduandos do IEMCI/UFPA. Plano da disciplina apresentado e discutido, contrato didático estabelecido. Mapas conceituais (MC) seriam usados e tudo seria postado no SIGAA/UFPA, por professores e alunos. A pandemia de Covid-19, anunciada pela OMS, havia se tornado realidade brasileira. No dia seguinte, a UFPA decidiu suspender aulas presenciais. Deveríamos suspender também a disciplina recém-iniciada? Havíamos criado um grupo de whatsapp e lançamos a eles a pergunta. Juntos, decidimos continuar. Mas como continuar? Nós, professores septuagenários, não aposentados por teimosia e amor à profissão, sabíamos lidar com algumas mídias e estávamos aprendendo, também por teimosia, a trabalhar com o SIGAA. Anteriormente, havíamos participado de algumas sessões on-line de bancas, mas sempre com auxílio da equipe técnica do IEMCI. E agora? Seguimos com o SIGAA, e-mails e o grupo de whatsapp. No SIGAA, continuamos, como professores, a postar os artigos semanais para estudo e eles nos remetiam os MC individuais, por meio dos quais expressavam a compreensão que haviam tido do conteúdo estudado. Líamos, avaliávamos cada MC e dávamos o feedback a cada aluno por meio do SIGAA, a cada semana. Por whatsapp, tirávamos dúvidas, conversávamos sobre a saúde, precauções, protocolos de segurança sanitária, distanciamento social e a necessidade de todos se cuidarem e cuidarem dos seus. Recebíamos mensagens de medo da situação que estávamos vivendo e adoecimento físico e emocional de estudantes e familiares. Medo e insegurança acompanhavam nosso trabalho, afetados pelas notícias internas e externas ao grupo, que bombardeavam a todos. Enviávamos

Foto: acervo pessoal

Por Terezinha Valim Oliver Gonçalves1 e Tadeu Oliver Gonçalves2


OPINIÃO

Que prevaleça a ciência, cujo trabalho tem sido exemplar, assim como o dos profissionais da saúde! Que venham vacinas para todos! A solidariedade, dentro e fora da sala de aula é necessária e os brasileiros têm se unido contra a fome daqueles que, por alguma razão, estão desempregados e desassistidos. O ponto alto de nossa docência é o aluno e o que nos importa é sua saúde, seu equilíbrio mental/ emocional, sua inteireza”.

o tema do artigo final da disciplina, deixando-o em aberto, de modo a que falassem de si no contexto da pandemia, relacionando, se assim julgassem conveniente, com a pesquisa em andamento. Pelo whatsapp, por vezes no privado, ou telefone, tivemos manifestações de dor, de adoecimento, de desânimo, de dificuldades, de vontade de desistir, por estarem com dificuldades emocionais ou sequelas da covid. Nossa resposta era sempre de coragem e força para seguir adiante. Tivemos uma aluna que nos disse: “decidi ficar reprovada na disciplina, porque não estou conseguindo me concentrar para ler os artigos, estudar e elaborar os MC. Estou começando um acompanhamento psicológico, porque não estou bem”. Respondemos a ela, dizendo que não tínhamos prazo, que não se considerasse reprovada, que fizesse o acompanhamento psicológico

e voltasse quando estivesse bem. Ela voltou e concluiu a disciplina com sucesso. Tivemos mais dois encontros on-line, onde cada aluno apresentou o seu artigo. Quanta superação! Quanta aprendizagem! Os conteúdos da disciplina afloraram nos artigos, os MC se fizeram presentes, mas os sentimentos, os sofrimentos, as angústias e as superações lá estavam, especialmente a gratidão, em razão da empatia que havíamos tido com eles, sem renunciarmos à ciência que fazemos. Tivemos artigos muito interessantes elaborados, vários deles já publicados. Um deles (de uma aluna de graduação que participava da disciplina), sobre medos e superações, foi publicado em livro organizado por uma docente da UFPA. Outros foram publicados em periódicos. No segundo semestre, agora mais preparados para o trabalho on-line por

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cursos feitos no intervalo dos períodos de aulas, passamos a ter trabalho on-line semanal. Mas sofremos muito com a nova turma, pois uma doutoranda brilhante, que já havia se destacado no primeiro semestre, contraiu a Covid-19 e, depois de muita luta acompanhada por nós, diariamente, foi removida para São Paulo, ligada a uma ECMO, mas não resistiu. Jovem, 3 filhos, professora dedicada, pesquisadora intensa e estudiosa. Que brecha o coronavírus encontrou? Ela estava isolada. Raramente ia ao supermercado. Não era de grupo de risco. Este período pandêmico tem sido muito difícil para todos nós, pois passamos a conviver com casos e óbitos próximos, com nomes e endereços conhecidos. Que prevaleça a ciência, cujo trabalho tem sido exemplar, assim como o dos profissionais da saúde! Que venham vacinas para todos! A solidariedade, dentro e fora da sala de aula é necessária e os brasileiros têm se unido contra a fome daqueles que, por alguma razão, estão desempregados e desassistidos. O ponto alto de nossa docência é o aluno, e o que nos importa é sua saúde, seu equilíbrio mental/emocional, sua inteireza. Nas duas turmas, só a pandemia nos venceu, quando levou a Raquel. Os demais estudantes ficaram até o final, com sucesso, apesar de tudo. Obrigado, Senhor!

1 - Professora Titular do Instituto de Educação Matemática e Científica (IEMCI/ UFPA). Doutora em Educação, pela UNICAMP, 2000. 2 - Professor Titular do Instituto de Educação Matemática e Científica (IEMCI/ UFPA). Doutor em Educação Matemática pela UNICAMP, 2000.


EDUCAÇÃO & TECNOLOGIA

Por Lorena Filgueiras Fotos: ASCOM/FADESP

Tecnologia e comunicação

Miguel Martins Veloso, diretor do Nitae² e coordenador da Universidade Aberta do Brasil, na UFPA.

Núcleo de Inovação e Tecnologias Aplicadas a Ensino e Extensão da UFPA é importante sujeito no ensino a distância e conta com apoio da FADESP para seguir ofertando cursos, mesmo durante a pandemia.

T

endo sua gênese sido na Assessoria de Educação a Distância (AEDi), o Núcleo de Inovação e Tecnologias Aplicadas a Ensino e Extensão (NITAE²) atua como um importante sujeito no ensino e extensão a distância. Inicialmente dedicada ao ensino da Matemática, como um programa gestado e nascido dentro da própria UFPA, não tardou até que transpusesse os muros do campus e conquistasse admiradores nos municípios do interior paraense, que não dispunham de estrutura e professores. De voz e jeito tranquilos, o professor José Miguel Martins Veloso, diretor do Nitae² e coordenador da Universidade Aberta do Brasil na UFPA, rememora esse momento. “Acabamos abrindo vaga para as prefeituras e, com isso, a gente financiou o início desse curso. Depois entraram novos cursos de graduação”, conta. Até que há quatro anos, com a crise que se anunciava no ensino a distância, pairou uma nuvem de incertezas sobre a continuidade do programa. “Mas com uma complexa e completa estrutura montada (estúdio, pessoal, sistema implantado), trabalhamos para que ele fosse um curso de pós-graduação, voltado à criatividade, inovação e metodologia do ensino superior. Ele foi criado sem ter um local onde funcionar

e quando esse programa foi aprovado pela CAPES, a AEDi virou um núcleo e o Nitae² nascia”. Por uma exigência da CAPES, a gestão de recursos do Nitae² tem de ser executada pelo gestor da Universidade Aberta do Brasil – UAB, motivo pelo qual o professor José Miguel Veloso congrega as duas funções. O programa de ensino de cálculo, o projeto Newton, é gestado pelo Núcleo, bem como sua plataforma virtual. “Também temos uma editora que tem se dedicado à publicação de livros técnicos on-line”, acrescenta. “Criamos uma plataforma que chama ‘multimídia UFPA’, que é um repositório de material, totalmente digitalizado. Embora tenha sido instituído há quase sete anos, o repositório tem publicações anteriores a esse período”, diz. O repositório está disponível para consulta externa, Veloso lembra. O Nitae² e a pandemia Antes da pandemia, cabia também ao Núcleo dar o suporte às faculdades na implementação dos cursos na modalidade a distância. Quando os casos de Covid-19 começaram a ser registrados no Pará, em março de 2020, “O laboratório multimídia [do Nitae²] foi bem impactado, porque ele é um espaço reduzido e nele, trabalhavam, às

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vezes 10, 15 pessoas. A pandemia prejudicou bastante esse andamento, principalmente os novos projetos. Como nós também tivemos que restringir o número de pessoas que circulavam aqui dentro, diminuiu nossa atuação. Mesmo assim, suprimos os cursos de toda a Instituição, promovendo, entre outras coisas, o ensino remoto”, explica José Miguel. A pandemia, conforme ele também justifica, antecipou o modelo de aulas a distância, ancoradas no máximo de tecnologia. “O projeto Newton é um exemplo disso. Estamos fazendo experimentações nele, porque, como se trata de um projeto em que as aulas eram presenciais, num auditório bem grande, com 200 alunos e três salas conectadas, as aulas passaram a ser transmitidas pela internet. Elas também são gravadas e vão para o repositório, permitindo que sejam revistas, caso haja dúvidas”. Não somente as aulas tiveram de ser adaptadas, como as dissertações também passaram a ser realizadas on-line. Como é um Núcleo que tende a crescer, em função dos ajustes para novos formatos, o diretor já pensa em reforçar o time, “o que ocorrerá quando o momento for propício”, finaliza.


SAÚDE MENTAL

Por Thamyris Assunção

Foto: ASCOM Hospital de Clínicas Gaspar Vianna

Apoio e cuidado

P

andemia, responsabilidades domésticas, profissionais e afetivas com pesos cada vez maiores, planos adiados, incertezas sobre o futuro e tantos outros desafios diários nos fizeram olhar com mais atenção e cautela para a saúde psíquica. Prevenir os altos níveis de estresse, aprender a identificar fatores e situações estafantes (e saber como sair delas), além de trabalhar dificuldades nas relações interpessoais são, por exemplo, algumas das habilidades que ditam atualmente a boa convivência social e são cada vez mais demandadas para pessoas de todas as idades. É com o objetivo de levar autoconhecimento, acolhimento e atendimento especializado à comunidade estudantil que a Universidade Federal do Pará (UFPA) disponibiliza o Serviço de Assistência Médica e Psicossocial (SAPS). O projeto, que integra o Instituto de Ciências da Saúde (ICS) e é vinculado à Superintendência de Assistência Estudantil (SAEST), visa disponibilizar, de maneira gratuita, atendimentos clínicos nas áreas de Psicologia, Psiquiatria e Assistên-

Benedito Bezerra, psiquiatra e coordenador do projeto SAPS

cia Social aos estudantes que estejam em situação de adoecimento e/ou sofrimento emocional, com a finalidade de proporcionar uma melhor atenção à saúde mental dos discentes da graduação e da pós-graduação. “O intuito maior do SAPS é oferecer um espaço onde os discentes, pessoas fundamentais da Instituição, possam contar com o apoio e acompanhamento de profissionais capacitados que lhes proporcionem um cuidado na compreensão

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das dificuldades e angústias e na busca de possíveis soluções e/ou alternativas de novos caminhos, na tentativa de alcançar uma melhoria nas condições acadêmicas e, consequentemente, na melhoria da qualidade de suas vidas”, afirma o coordenador do projeto e pós-doutor em Psiquiatria, professor Dr. Benedito Bezerra. Financiado pela Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP), o SAPS, por meio de sua equipe multidisciplinar, oferece à comunidade estudantil ações terapêuticas preventivas e curativas como oficinas psicopedagógicas, terapias em grupo, familiares, de casais e sessões individuais, além de consultas psiquiátricas. Desde sua implementação, o projeto manteve uma média de 876,5 atendimentos por ano. Com a pandemia do novo coronavírus, a partir de 2020, o projeto precisou passar por adaptações para garantir o atendimento aos alunos e iniciou seus protocolos de assistência de maneira remota, via internet. Atualmente, estão em tratamento e acompanhamento 258 pacientes nas diferentes


especialidades ofertadas. “Houve a adoção de escala de nossos técnicos a fim de que não deixássemos nossos pacientes sem atendimento. Houve também a criação de um plantão para os alunos que estivessem necessitados de atendimento psicológico com maior urgência”, explica o professor Benedito. Iniciado há 21 anos, o Serviço de Assistência Médica e Psicossocial tem na FADESP uma grande parceira no acolhimento e na elaboração de iniciativas atentas às necessidades voltadas à melhoria da saúde mental do público discente da Universidade. “A atuação da FADESP no SAPS é fundamental para a sua existência, uma vez que financia o projeto para que os estudantes e seus familiares possam acessar de forma gratuita as ações voltadas à prevenção, manutenção e recuperação da saúde psicológica, principalmente daqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Também se destaca o trabalho da FADESP desde a assessoria de relações institucionais, passando pela elaboração de cronogramas, planos de trabalho de projetos de pesquisa, extensão e desenvolvimento institucional, científico, tecnológico e de inovação”, afirma o coordenador.

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tem um papel múltiplo de promover e assegurar o bem-estar dos estudantes neste período de pandemia. A primeira iniciativa, por meio da SAEST, que a UFPA tomou neste sentido foi a oferta de auxílios alimentação e de apoio à aquisição de equipamentos digitais para maior tranquilidade dos alunos durante a adoção do ensino remoto. Associado a isso, o Plantão Psicológico passou a ser ofertado de forma virtual, por meio de atendimento por vídeo chamada.”, explica Araújo. A estudante do 7º período do curso de História, campus Ananindeua, Valdina da Silva (52), foi uma das discentes que teve apoio da SAEST durante este momento delicado. Para seguir com os estudos de maneira regular e segura, a aluna recebeu, em maio deste ano, um tablet para continuar a assistir aulas na modalidade remota. “Para mim foi muito importante. Inclusive, vou assistir aula agora com ele. Em primeiro lugar, diminui o gasto com as cópias porque um curso da área de Humanas exige muitas leituras e nós recebemos bastantes textos para ler. Por isso, o tablet chegou na hora certa, pois estamos fazendo pesquisa para os projetos de ensino e pesquisar no celular fica impossível”, conta a estudante. Foto: acervo pessoal

Foto: ASCOM SAEST Ronaldo Araújo, titular da SAEST.

Assistência integral aos estudantes é prioridade para a UFPA Mas não é somente em atenção à saúde mental que os alunos da UFPA recebem assistência. Na Universidade, a prioridade é proporcionar à comunidade estudantil as melhores condições sociais e econômicas para o bem-estar da comunidade e o desempenho acadêmico mais completo e satisfatório possível. E, para desempenhar essa assistência, existe a Superintendência de Assistência Estudantil da UFPA (SAEST). Ligada à reitoria da Universidade, é responsável por prestar auxílios, serviços e bolsas aos estudantes em situação de vulnerabilidade social. Os programas são ofertados por meio de editais e instruções normativas. Os editais são publicados, normalmente, uma vez ao ano e as instruções normativas regem os serviços que são de fluxo contínuo e podem ser solicitados durante todo o ano letivo. Os programas de assistência aos alunos são voltados para o apoio em saúde, transporte, moradia, material didático, inclusão digital e acessibilidade. Durante o período pandêmico, as ações da SAEST ganharam ainda maior relevância e tiveram papel fundamental no suporte aos estudantes, inclusive na prevenção e manutenção da saúde mental. “A importância da UFPA ofertar programas na área de saúde emocional é indispensável para o acolhimento integral dos alunos. Não basta fornecer o auxílio financeiro sem o amparo da saúde emocional. A SAEST oferta o Plantão Psicológico e o Acolhimento Psicoeducacional aos estudantes e, dependendo da situação, o estudante é encaminhado para outros serviços que compõem uma Rede de saúde mental da UFPA.”, afirma Ronaldo Araújo, titular da SAEST. Somente no Plantão Psicológico, foram promovidos, em 2021, cerca de 200 atendimentos durante o período de ensino remoto executado pela Universidade por conta da pandemia. Mas o trabalho da SAEST não parou por aí. “A UFPA

Valdina da Silva, discente de História, buscou auxílio do SAPS.


INSTITUCIONAL

Por Brena Marques Fotos: Divulgação

Carlos Gadelha

Emmanuel Tourinho

O

Roberto Ferraz Barreto

Marcele Regina Pereira

1º Encontro Norte das Fundações e Apoio (I ENFAP/ CONFIES), evento regional do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica – CONFIES, ocorreu nos dias 23 e 24 de junho de 2021, de forma totalmente on-line e gratuita, respeitando as limitações impostas pelo momento. Pautado em debates sobre a atuação das Fundações de Apoio do Brasil e no momento atual/futuro da Ciência e Tecnologia no Brasil, o I ENFAP foi coordenado pela Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa – FADESP e ancorado nas fundações do Norte. A abertura do painel, no dia 23, foi feita pelo presidente do CONFIES Fernando Peregrino, que externou a solidariedade de todas as Instituições envolvidas, ante a perda de mais de meio milhão de vidas na pandemia de Covid-19 no Brasil. Peregrino ressaltou a grandiosidade do encontro, “o maior do CONFIES, reunindo todos estados do Brasil, com mais de 890 participantes”. “Temos aqui 72 fundações de apoio representando todos os estados do país, incluindo Distrito Federal. É um fato inédito”, enfatizou. Celso Pansera, presidente do ICTBr e ex-ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, convidado a compor a mesa de abertura, agradeceu a lembrança para participação do evento e ressaltou a importância das temáticas abordadas, especialmente

Lilia Schwarcz

as voltadas à região amazônica. “Falar desta região, é muito mais do que falar de um espaço geográfico, de uma cultura, de uma economia, é falar de um dos biomas mais importantes do planeta”. Em seguida, o atual diretor Norte do CONFIES e diretor executivo da FADESP, Roberto Barreto Ferraz, agradeceu a participação de todas as fundações da região Norte, e suas respectivas instituições apoiadas. “Os temas que estão sendo pautados neste evento, estão ligados ao momento de pandemia que estamos vivenciando, seguidos de crise econômica, corte de recursos na ciência, tecnologia e educação. Observamos como esses temas são importantes para o debate”. Barreto agradeceu a adesão de tantas fundações e abriu a apresentação ao reitor da UFPA, Emmanuel Tourinho, último componente da mesa de abertura. “Parabenizo a FADESP e o CONFIES pela realização deste evento. Apesar deste cenário tão difícil, com tantos óbitos injustificados, conseguimos nos manter ativos, fazendo acontecer eventos que são importantes à comunidade, eventos de reflexão, elaboração, organização de luta pela ciência, inovação e educação superior”. Tourinho também elogiou a gestão do diretor executivo da FADESP, Roberto Ferraz Barreto, mencionando o quanto a fundação tem sido importante para o desenvolvimento da Universidade Federal do Pará. Ele explica que na década de 80 a uni-

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Fernando Peregrino

versidade possuía apenas 7 cursos de pós-graduação, com aproximadamente 15 mil alunos. “Atualmente, a UFPA está presente em mais de 70 municípios do Estado do Pará, possuindo mais de 50 mil alunos, entre graduação e pós-graduação. Somos a maior estrutura de ciência e inovação em toda Pan-Amazônia; estamos entre as 10 instituições brasileiras com o maior número de programa de pós-graduação, portanto, com maior protagonismo na ciência nacional, porque sabemos que quase a totalidade da ciência nacional é feita dentro das universidades. E todo esse crescimento da universidade só foi possível pelo esforço de muitas pessoas e iniciativas, entre elas a FADESP, que tem sido fundamental para este crescimento”, finalizou. Ciência na Amazônia A primeira mesa, ainda no dia 23 de junho, teve como tema “Os desafios de fazer Ciência na Amazônia”, e contou com a reitora da UNIR, Marcele Regina Pereira; o reitor da UFPA, Emmanuel Tourinho, além de exibição de documentário enviado pelo cientista da USP Carlos Nobre, inicialmente convidado para o evento, mas que por razões pessoais, não pôde estar junto com seus colegas. À exibição do vídeo documentário sobe sua tese, Amazônia 4.0, seguiu-se a apresentação de Tourinho, que reforçou que a Amazônia precisa ser compreendida para além da floresta; que esse espaço é ocupado pelos po-


vos da Amazônia, por sua vez, diversos, ricos em suas culturas e histórias. “Só haverá futuro para a Amazônia se esse futuro passar pelos amazônidas, pelos povos da Amazônia! Não haverá nenhum futuro, nem este pensado pela vertente que se preocupa com a preservação, pela conservação, se não for um futuro construído pelos povos e Instituições aqui sediados”, afirmou. Tourinho lamentou que após muito trabalho e esforço, instituições e pesquisadores vivam um sistema asfixiado e sem recursos. “Enquanto outras nações estão trabalhando em sentido contrário”, disse. Citou a Alemanha, que anunciou, em 2019, o investimento de 160 bilhões de euros (equivalente a 1 trilhão de reais) às universidades e pesquisas, no período de 2021-2030. Ainda mencionou investimentos na ciência e tecnologia na China e Estados Unidos. “No Brasil, em geral, é um enorme desafio fazer Ciência. Quando delimitamos ao Norte, os problemas são maiores ainda. A realidade da Amazônia mostra os piores indicadores sociais, como Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, Índice de Desenvolvimento Humano – IDH e saneamento básico. Finalizou explicando que há uma necessidade de uma agenda nacional de políticas públicas para a Amazônia e que comtemple as necessidades da região e dos povos. “Uma agenda para Amazônia não interessa apenas esta região, mas, sim, a todo o Brasil, inclusive, (...) com voz ativa para os povos da Amazônia e que contemple os interesses da região”. “As problemáticas implicam diretamente no desenvolvimento da Ciência e Tecnologia na Amazônia. Inúmeras instituições se dedicam para superar os problemas, mesmo com poucos investimentos”, acrescentou a reitora da UNIR, Marcele Regina, ao debate. “Há um enorme contraponto entre gasto e investimento. Despesas de educação são vistas como gastos – é a mesma lógica para C&T. Quando se trata da Amazônia, poucos entendem que é investimento! Que levem em consideração as particularidades, as peculiaridades. As quantidades de pesquisas precisam de fomento com planejamento”, afirmou. Desburocratização da ciência No segundo dia da programação, no

dia 24, foi aberta pelo debate sobre “Fundações e perspectivas na crise”. Além das crises econômica, sanitária, orçamentária e social, o painel teve como objetivo abordar a parte burocrática que trava o avanço da pesquisa científica nas universidades e institutos federais – responsáveis por mais de 95% das pesquisas brasileiras. A mesa foi composta por Marcelo Morales, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, José Barros Neto, presidente da Fundação ASFTEF, João Dias, diretor Executivo da Funpar e Jefferson Veiga, líder de equipe no Itaú Asset. Roberto Ferraz Barreto, diretor da FADESP, foi o moderador da mesa. Marco Legal na Ciência O tema da terceira mesa, 24, “Marco Legal – Desburocratização da relação Fundação e Apoiada”, trouxe como debate a implementação do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, possibilitando a redução da burocracia na realização das pesquisas científicas nas universidades e instituições. A mesa foi composta por Carlos Guerreiro, gerente da Uniselva, Clarisse Silva, diretora da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica da UFRRJ- FAPUR, Carlos Sanches, coordenador geral de planejamento acadêmico, pesquisa e inovação da Secretaria de Educação Superior/MEC, além de Leandro Brum, auditor do TCU. O presidente do CONFIES, Fernando Peregrino, foi o moderador do painel. Mundo no Pós-pandemia Para fechar o evento, considerado brilhante pelos inscritos, um painel sobre o futuro do mundo pós-pandemia. A antropóloga/historiadora e escritora Lilia Schwarcz e Carlos Gadelha, pesquisador e economista da Fiocruz, trataram sobre as similaridades do momento atual com o a Gripe Espanhola, de 1918, no país, além das medidas adotadas nos campos da saúde e economia. Em seu mais recente livro, “A Bailarina da Morte”, Lilia Schwarcz e a historiadora Heloisa Starling dissecam a praga que ceifou mais de trinta milhões de vida em todo o mundo, no começo do século XX. “Vamos começar com o passado e ver se de alguma maneira ele pode nos ajudar a iluminar o futuro”, afir-

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mou. Durante sua análise, a antropóloga relatou semelhanças entre os dois períodos: tanto em 2018, quanto em 2021, a desigualdade foi um fator para compreender a disseminação da doença, “pois a desigualdade gera mais desigualdade”. O que não ocorreu em 1918 (mas tem corrido em 2020) é o negacionismo por parte do Estado. Lilia ainda destacou que vivemos, além de crise na saúde, uma crise política e moral. Carlos Gadelha, da Fiocruz, enriqueceu o debate explicando como a economia se insere neste período e o quanto ela é uma ação social e de saúde pública. “A conjuntura atual nunca refletiu tanto as características estruturais da nossa sociedade”, disse. Ainda revela que 75% das doses das vacinas distribuídas estão concentradas em apenas 10 países. “Neste momento, a vacina reflete desigualdade. Há nações excluídas pela incapacidade tecnológica e científica de absorver a vacina. Quanto mais fortes forem a Ciência e Tecnologia, mais teremos condições de contribuir globalmente”, explica. O pesquisador também afirmou que boa parte das nações globais estão investindo nessas áreas, enquanto os sistemas científicos e tecnológicos brasileiros estão sem respirar, assim como o próprio Sistema Único de Saúde - SUS. Em relação às vacinas, o Brasil montou a maior estrutura, com participações do Instituto Butantã e da Fundação Oswaldo Cruz. Gadelha reforçou o papel das fundações, que têm como objetivo dialogar, de forma direta, com a sociedade. “Esse diálogo é central à nossa sobrevivência”, afirma. Ele finalizou o evento com uma menção provocativa: “se as fundações de apoio forem vistas apenas como muletas burocráticas para sobrevivência, eu acho que é um empobrecimento da própria missão social. Temos o desafio de colocar as fundações como agentes de transformação, que aproximam a ciência das demandas da sociedade”, diz. O I ENFAP/CONFIES teve o patrocínio do Itaú.

É possível rever todos os painéis no canal da FADESP no YouTube. Acesse o QR.


POR DENTRO DA FADESP

Doação de computadores à FUMBEL O diretor executivo da FADESP, Roberto Ferraz Barreto, recebeu o presidente da FUMBEL, Michel Pinho, no dia 2 de julho, para realizar a entrega de dois computadores que foram destinados à Coordenação de Diversidade Sexual e à Coordenação Antirracista de Belém. As duas secretarias têm como objetivo promover a igualdade, elaborando e acompanhando programas/projetos que visam o respeito a todas as pessoas. “É com muita alegria que a FUMBEL

intermediou a doação desses computadores da FADESP a duas coordenadorias relevantes do município de Belém, ajudando a garantir a luta pela cidadania e o acesso da população a serviços tão importantes”, declarou Michel Pinho, na ocasião. “A FADESP tem como missão principal promover o desenvolvimento da Roberto Ferraz e Michel Pinho Amazônia e, para além do apoio às pesquisas científicas, compreende- Esperamos que os computadores sejam mos que o respeito aos amazônidas de ajuda e estamos juntos nesse objetivo é uma questão de suma importância. maior”, finalizou Roberto Ferraz Barreto.

Ação dia dos pais

Concurso público da Câmara Municipal de Marabá A FADESP coordenou o concurso público da Câmara Municipal de Marabá, no último dia 11 de julho. O certame foi aplicado em 19 escolas da região com 11 mil inscritos, para preencher 27 vagas em níveis fundamental, médio e superior. A comissão do concurso acompanhou todo o processo, visitou as 8 escolas no turno da manhã e as 11 escolas pela tarde. Para efetuar a prova, a FADESP promoveu treinamentos e reforçou os protocolos de biossegurança, garantindo tranquilidade e segurança para os fiscais e candidatos. “Todos os coordenadores foram capacitados a respeito dos procedimentos de segurança adotados no dia do concurso, tais como distanciamento, uso de máscara, aferição da temperatura e higienização das mãos dos candidatos e fiscais, com álcool líquido 70%, na entrada da unidade de ensino, na área dos banheiros e em todas as salas, que também receberam frascos de álcool em gel”, detalhou Moisés Martins, gestor da área da Coordenação de Concursos e Seleções – CCS.

Pai para toda obra! Esse foi o mote da campanha interna de comunicação, em homenagem ao dia dos pais. Para celebrá-los, a FADESP promoveu a entrega de lembrancinhas personalizadas para os pais colaboradores do prédio sede: uma mochila personalizada.

Luciano Costa Junior

João Carlos Pena

FORMA PARÁ - PROSEL 2020 Realizado no dia 4 de julho, o Processo Seletivo do FORMA PARÁ teve 847 classificados. O certame ocorreu simultaneamente nos seguintes locais: Instituto Federal do Pará (IFPA), Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Universidade do Estado do Pará (UEPA), Universidade Rural da Amazônia (UFRA) e a Universidade do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). O Forma Pará é um projeto do Go-

verno do Estado que visa diminuir o déficit de acesso à formação superior, que funciona por meio de parcerias com IES públicas, governo do Estado do Pará, prefeituras e movimentos sociais, no intuito de aumentar a quantidade de cursos ofertados para jovens paraenses. Cabe à FADESP coordenar, elaborar e executar as etapas do certame do PROSEL. “Isso envolve a logística do espaço físico para aplica-

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ção da prova, a elaboração, processamento e divulgação dos resultados, assim como apoiar as instituições de ensino envolvidas no processo e parceiros, como prefeituras e SECTEC”, explica Moisés Martins, Coordenador da área de Concursos e Seleções – CCS.


Projetos de sucesso têm a mão da FADESP. Projetos • Consultorias • Serviços

Fadesp Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa

Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Rua Augusto Correa s/n. Campus Belém/UFPA – Guamá • Belém-PA Cep: 66075-110 Telefones: (91) 98839.0607 4005.7480 / 4005.7493



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