Extraordinária

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EXTRA TODA A ARTE DE SER UMA DRAG QUEEN

Dezembro de 2019


Repórteres

Henrique Otávio Hugo Gonze Isabela Teixeira Laura Pereira Mateus Guilherme Raphael Castilho

Fotografias

Henrique Otávio Mateus Guilherme Isabela Teixeira

Revisão

Raphael Castilho

Diagramação

Mateus Guilherme


Editorial 5

Uma histรณria extraordinรกria 6 ร gatha Fiory 8 Stayce Carter 16 Das periferias ao extraordinรกrio 23



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E DI TO RI AL

rdinária é um adjetivo feminino usado para definir algo banal. Muitas pessoas, conservadoras e reacionárias, usariam este recurso pejorativo para definir a arte das drag queens. Discordamos desta parcela retrógrada da população e enxergamos as drags como sinônimo de ativismo e resistência. Por isso, nossa revista clama pela adição do prefixo extra o primeiro termo, obtendo o adjetivo Extraordinária. O novo vocábulo define aquela não se adapta aos hábitos gerais e é merecedora de admiração, muito mais apropriado para definir o grupo. Os padrões de gênero estabelecidos na sociedade contemporânea são extremamente limitantes e ainda se incomodam com os mais variados preceitos de liberdade, sejam eles sexuais, comportamentais ou artísticos. Tentando desconstruir estes paradigmas, é que surge a Extraordinária, contribuindo para popularizar aos seus leitores informações sobre as drags queens. Esta classe encabeça uma das mais complexas modalidades da arte, que subverte valores e sincretiza - em uma única faceta - música, dança, atuação e comicidade.

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UMA HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA

Laura Pereira

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homem se veste de mulher há muito tempo, desde o teatro grego, 500 anos antes de Cristo. Na época, os homens podiam atuar em papéis femininos, enquanto as mulheres eram proibidas de assistir aos espetáculos. Com o passar do tempo e a valorização da feminilidade, se tornou comum interpretar mulheres em cena para objetivos cômicos e satíricos. Foi criada uma nova categoria, na qual as maquiagens exageradas e as vestimentas parodiando o estilo da alta sociedade se destacaram, conquistando o público e a crítica.

Nos anos 60, a cultura pop abriu espaço para as drags que, ainda associadas a homossexualidade, se apresentavam em bares gays periféricos e em clubes, alcançando certa visibilidade. Trinta anos depois, Hollywood lançou Priscilla, a rainha do deserto e a arte voltou a tona atingindo um vasto público. Nessa mesma época, surgiu o modelo americano RuPaul, que alinhava estilo, glamour e personalidade em uma única figura. Ele se tornou um exemplo a ser seguido pelas artistas, popularizando o conceito em todo o mundo. No Brasil, o cenário drag acompanhou as tendências internacionais. Mesmo questionados na televisão, a arte enfrentou a ditadura e conseguiu se manter viva no imaginário dos brasileiros. Nos anos 90, São Paulo passou a ser considerado “centro” da cena drag brasileira, com festas e boates especializada para a performance dos artistas.

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ÁGATHA FIORY

Raphael Castilho

ma fratura exposta para entender o significado da maioria, uma pneumonia para descobrir a solidão. O nome Ágatha deixou marcas para sempre, no poema da portuguesa Inês Dias. No Brasil, em São João del-Rei, sudeste do estado de Minas Gerais, Ágatha Fiory sabia que sua hora iria chegar logo na primeira vez que mostrou sua cara para o mundo. Era 2016, em um evento escolar da Fundação Bradesco. Nesta oportunidade, Thadeu Augusto - o criador por trás da criatura - sofreu as represálias e as críticas da avó conservadora. Só quando ingressou na faculdade, no curso de Teatro da Universidade Federal de São João del-Rei, e abandonou a casa da família em direção a uma república estudantil, é que os primeiros raios de liberdade começaram a iluminar um futuro que, naquele momento, parecia ser grandioso. A performance inicial foi no Festival da Diversidade, no Bar Divertido São Jorge. Com dificuldades em se montar na nova casa, intimado pela heteronormatividade dos demais moradores, as amizades foram extremamente importantes naquele princípio. “Eu peguei a maquiagem emprestada de um amigo meu e eu tava ridículo. Eu era péssima! Eu não sabia me maquiar, ainda não sei, né?”. Mesmo com as auto-críticas e com o nervosismo da estreia, Ágatha conquistou o segundo lugar do concurso promovido naquela noite. A primeira grande inspiração foi o dono do salão de beleza em que a mãe trabalhava como cabeleireira. Com ele, Thadeu conheceu a arte aos 6 anos de idade. “Minha mãe super apoia a minha arte, mas nunca me viu pessoalmente montada, só por foto. Não temos muito contato, a gente teve alguns probleminhas.”

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Depois da confiança ganha nos eventos seguintes, nos bares e nas festas de São João, e até em um aniversário de criança, Thadeu começou a se montar com mais frequência. Assistiu aulas montado e, em certo ponto, chegou a confundir a própria personalidade com a de Ágatha. Ao recapitular essas histórias, hoje, Thadeu enxerga que esse momento foi prejudicial em sua vida. Ele chegou a abandonar o emprego, pensando que ganharia a vida com a arte drag.

impediram Thadeu de transformar o prazer, a resistência política e o talento de Ágatha Fiory em um negócio que gere lucros financeiros. Os padrões de gênero estabelecidos na sociedade contemporânea são extremamente limitantes. Parte da população se incomoda com qualquer manifestação que quebre paradigmas e ainda confundem drag queens com orientação sexual. “A gente sempre vê drag queen na televisão (...), mas sempre uma figura muito estereotipada, de certa forma uma chacota.”

A população conservadora O sentimento é de revolda cidade histórica e a elite de drags que monopolizam ta contra o contexto político os principais eventos foram, brasileiro, marcado pela ine ainda são, empecilhos que tolerância e pelo preconcei-

to. “Já fui assediado, já fui abordado diversas vezes na rua.”. Thadeu ref lete sobre a hipersexualização da figura da drag e das diversas vezes em que Ágatha foi interpelada, de maneira incômoda, durante os eventos que participou. Para RuPaul, nascemos nus e o resto é drag. Cada escolha, das roupa, dos sapatos, dos acessórios e da maquiagem, são fundamentais na construção da personagem. “Eu tenho uma necessidade de me montar.”, ref lete Thadeu que - embora já tenha pensado em dar um tempo - pretende continuar se montando nos próximos anos.


Ágatha. Aquela que foi agredida pela avó conservadora.

Aquela que foi sufocada pelos preconceitos de um república tradicional.

Aquela que se perdeu na dualidade insólita entre obra e criador.

Aquela que passou por crises e que teve de fazer escolhas. Aquela que reconhece a motivação política do movimento.

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Aquela que, acima de tudo, teve coragem para mostrar para o mundo a sua verdadeira essência.

Todas estão reunidas em uma só. Jamais simples, extremamente complexa.

Extraordinária.

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está acontecendo no país, o ‘‘ queVer estáo queacontecendo com os meus amigos, ao redor, me dá vontade de continuar. De gritar na cara do povo. ’’

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STAYCE CARTER Raphael Castilho

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ara a escritora Clarice Lispector, liberdade é pouco. O que ela almeja e deseja é algo muito maior, que ainda carece de nomes e de definições nos dicionários. Algo raro para a maioria das pessoas, este sentimento existe para o são-joanense Jonathan Esteves, e vem acompanhado da montagem de sua drag, Stayce Carter. A história de Stayce pode ser contada de muitos ângulos diferentes. Todos culminam em um único ponto, na dualidade entre a dor e a alegria de ser quem se é. Desde a euforia de dançar ao som de cada música até o inconformismo de estar presa

em um contexto que agride e ataca as liberdades sexuais. A lógica não se impõem sobre ela: a vontade de continuar cresce a cada empecilho. Basta encontrar o apoio nos amigos e dentro de si mesma.

carece de forças na cidade. Para ele, existe pouca cooperação entre os artistas. Isso colabora com o processo de desvalorização do seu trabalho por parte dos contratantes, o que impede a chegada de retornos financeiros. O preconceito da sociedade Inspirado pelos encantos também é um empecilho. “O da cantora norte-america- povo de São João é muito cana Beyoncé e do anseio de beça dura pra essas coisas.”. imitá-la, Jonathan, de 24, A visão é mais otimista começou a se montar cedo, aos 16 anos. Hoje, sua drag, quando se sai do sudeste Stayce, é figura carimbada de Minas Gerais, ao dirigir o olhar para o contexto nanas festas promovidas pelos cional como um todo. A arte universitários da histórica das drag queens está sendo cidade de São João del-Rei. popularizada por nomes que Entretanto, Jonathan ain- Stayce valoriza e admira, da acha que o movimento como Pablo Vittar e Glória


Groove. Mas nem tudo vai bem. O contexto político é complicado e o preconceito ainda atinge níveis alarmantes. Chocar parte da sociedade não a incomoda. Pelo contrário, serve como um estímulo. Isso demonstra que ela é diferente dos outros, um brilho colorido numa sociedade em tons de cinza. As abordagens vão da sexualização exacerbada a truculência preconceituosa. “Já me trataram com muito desgosto.”. Nesses momentos, as amizades foram, e ainda são, peças fundamentais nas trajetórias de Jonathan e de Stayce. Foi com os amigos mais velhos que ele conheceu a arte drag pela primeira vez. Eles também são o incentivo para continuar nos momentos difíceis. “Ainda bem que a gente tem amigo. Para essas coisas. Para levantar a gente nessas horas.”. 18


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“Já pensei em ser trans até entender que para mim drag é uma arte.”, confessa Jonathan que chegou a se perder no que parecia ser uma linha tênue entre arte, gênero e sexualidade. Tudo está em movimento, nada é estático. Stayce reconhece que está aberta para as mudanças. Seu estilo não traz grandes inovações, mas é marcado pela versatilidade de se adequar a cada situação. Neste mundo, fugir dos padrões estabelecidos é, acima de tudo, um ato de coragem. Não falta coragem para Stayce Carter. O que lhe sobra é uma força extraordinária.

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DAS PERIFERIAS AO FUTURO EXTRAORDINÁRIO Hugo Gonze Isabela Teixeira

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oi nas periferias que as drags queens começaram a desenvolver sua arte e se apresentarem. A partir das décadas de 70 e 80, elas se tornaram ícones de resistência política, símbolo que se fortaleceu nos anos 2000, impulsionadas pelas frequentes participações nas paradas LGBTs ao redor de todo o mundo. Atualmente, o movimento tem passado por momentos difíceis no Brasil em meio a onda conservadora. Parte da mídia tem contribuído no processo de visibilidade daqueles que se montam, mas encontram empecilhos em meio a uma sociedade heteronormativa. Podemos destacar alguns exemplos que ajudam a diminuir, através de sua exposição, os preconceitos existentes. Com um alcance notável dentro e fora do Brasil, Pabllo Vittar é a drag queen

mais ouvida no Spotify, segundo o UOL. A artista já chegou a ter 2.8 milhões de ouvintes mensais no serviço de streaming. Esses número demonstram que a aceitação no país cresce, ainda que a passos de tartaruga… Outro exemplo interessante é o reality show RuPaul’s Drag Race, que já ganhou diversos prêmios ao desmistificar o mundo drag para o grande público. É nítido que parcela conservadora ainda discorda do movimento, o enxergando como uma afronta aos valores tradicionais. É aí que reside o grande poder do universo drag, ao balançar com a noção simplória de dualidade entre homem e mulher. O mundo é bem mais complexo e diverso que este “oito ou oitenta” e a visibilidade crescente é uma importante ferramenta para combater o preconceito ainda existente.

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