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Ano 11 N 0 56 R$ 4,50

A ALEGRIA DOS PEQUENOS GRANDES ARTISTAS SALTA E MENDOZA, DOIS DESTINOS GOURMET CALOR HUMANO E ACONCHEGO NAS CASAS DE SERRA

Queijo ORGANISMO VIVO E CHEIO DE SABOR


SEU VOO, SWISS MADE.


Cada uma de nossas montanhas é única. E nossos hóspedes também. – BUSINESS S IS W S A V O N ECEDENTES R P M E S O T R CONFO Serviço personalizado que vai ao encontro dos desejos de cada um. A SWISS Business apresenta um novo assento que se transforma em uma cama totalmente horizontal, com regulagem de ar em toda sua superfície, permitindo que você escolha a maciez ideal para ter uma maravilhosa noite de sono. Em todos os voos de longo curso a partir de meados de 2011. A SWISS voa diariamente de Porto Alegre para a Suíça, com ótimas conexões para outros 48 destinos em toda a Europa. Bem vindo ao mundo da SWISS.

SWISS.COM


NOTA

DO

EDITOR

Calor humano

Comida boa, casa quentinha, lugares bonitos, crianças felizes. Quem não gosta disso tudo? Quem não quer? Nesta Estilo Zaffari de inverno você vai encontrar doses generosas de cada uma dessas coisas. Elaboramos uma edição cheia daquele calor que aquece a alma... Vamos começar pela boa comida – que, afinal de contas, é um dos nossos assuntos prediletos. Para rimar com o friozinho que faz lá fora, escolhemos falar de queijos. Exploramos essa delícia em todas as suas texturas, cores, em seus mais variados sabores e aromas. Queijo e vinho, combinação clássica e infalível, perfeita para aquecer noites frias. Queijo derretido, queijo em lascas, queijo sozinho, queijo acompanhado, queijo forte, queijo suave... vale tudo. Mas vale também um alerta: quem anda com fixação na balança e nas calorias não deve sequer folhear as páginas dessa matéria, que finaliza com receitas da chef Marina Fusquine Fontes. As iguarias criadas pela Marina, que atualmente coordena a cozinha do hotel Saint Andrews, em Gramado, são praticamente irresistíveis. Uma casa quentinha faz a gente ver o inverno sob outra perspectiva. Calor, nesse caso, tem a ver com aconchego, conforto, tranquilidade, carinho. Irene Marcondes, nossa especialista em decoração e arquitetura, pesquisou e descobriu duas casas de serra capazes de fazer do inverno a estação mais acolhedora do ano. Cada uma no seu estilo, uma em Canela, outra em Gramado, uma bem-colorida, outra em tons mais sóbrios, uma bem-despojada, outra cheia de requinte, as duas são verdadeiros refúgios de famílias que priorizam a convivência e o bem-estar. Fotografadas por Letícia Remião, as nossas casas-personagem mostram o que é mais essencial na decoração: um lar tem que ter vida! Tem que ter a cara dos seus donos e acolher os gostos, hábitos, ideias de quem mora nele. Na Estilo Zaffari sempre tem lugares bonitos, certo? Os eleitos da vez ficam na Argentina: Salta e Mendoza, dois vales vitivinícolas, duas cidades encantadoras. Cris Berger passou uma temporada por lá, degustou vinhos especiais, conheceu gente interessante, comeu muito bem e clicou paisagens belíssimas. Mendoza já é uma velha conhecida dos brasileiros e faz por merecer a fama de destino perfeito para os amantes do vinho. Mas Salta, bem menos famosa aqui por essas bandas, quase rouba a cena... O ideal é fazer como a Cris, juntar as duas na mesma viagem. Tintas, pincéis, papel, sucata, cola, tesoura. Coisas simples capazes de deixar crianças muito, muito felizes. Paula Taitelbaum presenciou um momento de intensa alegria na Escolinha Caracol, em Porto Alegre, durante uma atividade das crianças com a artista Karin Paiva. Colocar os pequenos em contato com a arte e os artistas é muito mais do que diversão: é educar, proporcionar autoconhecimento, estimular a criatividade, a liberdade, a espontaneidade, a percepção, a expressão, o crescimento. É amor. Boa leitura, bom inverno e até a próxima! OS EDITORES


Correio MENSAGENS ENVIADAS PELO FACEBOOK (REFERENTES À ESTILO ZAFFARI 55) Milene Leal milene@contextomkt.com.br

EDITORA E DIRETORA DE REDAÇÃO REDAÇÃO Alexandra Aranovich, Cris Berger, Irene Marcondes, Milene Leal, Paula Taitelbaum, Vera Moreira REVISÃO Flávio Dotti Cesa DIREÇÃO E EDIÇÃO DE ARTE Luciane Trindade luciane@contextomkt.com.br ILUSTRAÇÕES Nik FOTOGRAFIA Letícia Remião, Cris Berger, Fernando Bueno, Dan Berger COLUNISTAS Carla Pernambuco, Fernando Lokschin, Luís Augusto Fischer, Martha Medeiros, Malu Coelho, Roberta Gerhardt, Tetê Pacheco

EDITORA RESPONSÁVEL Milene Leal (7036/30/42 RS)

Izabella Boaz izabella@contextomkt.com.br

DIRETORA DE ATENDIMENTO A revista Estilo Zaffari é uma publicação trimestral da Contexto Marketing Editorial Ltda., sob licença da Companhia Zaffari Comércio e Indústria. Distribuição exclusiva nas lojas da rede Zaffari e Bourbon. Estilo Zaffari não publica matéria editorial paga e não é responsável por opiniões ou conceitos emitidos em entrevistas, artigos e colunas assinadas. É vedada a reprodução total ou parcial do conteúdo desta revista sem prévia autorização e sem citação da fonte.

TIRAGEM 25.000 exemplares IMPRESSÃO Gráfica Pallotti

ENDEREÇO DA REDAÇÃO Rua Cel. Bordini, 487/40 andar – Porto Alegre/RS – Brasil – 90440 000 (51) 3395.2515 (51) 3395.2404 (51) 3395.1781 estilozaffari@contextomkt.com.br

Simplesmente o máximo essa revista! Uma revista completa para ler, ver... e tudo mais!!!!! Bjão FABRICIO SAIBRO, PSICÓLOGO A matéria ficou linda, fotos e textos! Recebi a revista em casa, muito obrigada e um beijão! CLAUDIA TAJES, ESCRITORA Revista Deliciosa! Degustei todas as páginas! Parabéns! MARILENE BITENCOURT, DA HABITART MOBILIÁRIO ASSINADO Só tenho uma palavra para resumir a edição nº 55 da Estilo Zaffari DELICIOSA!!! Parabéns, Milene, e a todos os envolvidos. Bjks SIMIANE GIL, JORNALISTA Meu marido já garantiu a minha!!! Estou ansiosa pela próxima... Podia ser mensal neh!!! Revista nota mil!!!!!!!! Beijos... FRANCIELE FONSECA, DE PORTO ALEGRE Já garanti a minha no Zaffari Higienópolis, tá maravilhosa!! LENICE ZARTH, NUTRICIONISTA


COM CARINHO Oi, Milene! A máxima “antes tarde do que nunca” não entra em desuso! Cá estou eu, alguns dias depois, comentando a nota que saiu na Estilo! Não poderia deixar de te agradecer pelas tuas palavras generosas e queridas a respeito do nosso trabalho! Obrigada mesmo! Já tivemos retorno de clientes que ligaram dizendo que viram a nota na revista. Adoramos! E a Nina na seção de cartas ficou uma fofa mesmo! Vamos guardar a revista com carinho para que ela veja mais adiante. Mas ontem ela já apontava com o dedinho a foto dela e dava uns gritinhos! O que será que passa pela cabeça, né? Um beijão, LIS FONSECA, ESPECIALISTA EM SUGARCRAFT

DECLARAÇÃO DE AMOR Sou fã com todo meu amor da revista Estilo Zaffari. Gostaria de compartilhar com muita alegria que a partir de uma edição do ano de 2006, de encantadora capa, imagens e relatos, fui inspirada a conhecer o Continente Branco. Eu guardei e guardo aquela edição e pensava que um dia iria viver aquela aventura. Passados alguns anos, em fevereiro de 2011 realizei um momento mágico na minha vida, chegando no dia do meu aniversário à Península da Antártida. Muito obrigada revista Estilo Zaffari, por ser a fonte inspiradora de tantos e tantos leitores! Que venha a próxima edição! Delícia!!! RAQUEL KUNST, DE FLORIANÓPOLIS

SIMPLESMENTE PERFEITA Oi, tudo bem? Acabei de receber, com muita satisfação, a revista Estilo Zaffari. A matéria ficou simplesmente perfeita. Parabéns a todas voces! Muito obrigada por terem nos incluído. Beijo, SONY MONTEIRO, DA CHOCÓLATRAS

COMER COM OS OLHOS Milene, tudo bem? Lindíssima a nova edição da Estilo. De comer com os olhos. Parabéns à equipe, beijos. MARTHA MEDEIROS, ESCRITORA

HÉLIO, O CÃO DA JORNALISTA FERNANDA DOERING, LITERALMENTE COMENDO A CAPA DA ESTILO ZAFFARI 55

IRRESISTÍVEL PRA CACHORRO! Mila, Bella, olás! Tudo bem? Essa eu não podia deixar passar... Comprei minha Estilo hoje. Estava louca para ler. Como sempre! Mas alguém chegou antes!!! Tive que tirar fotos para mostrar para vocês! Olha a cara do pobrezinho depois do estrago feito... rsrsrsrs. Beijos. FERNANDA DOERING, JORNALISTA


QUEIJO, ORGANISMO CALOR HUMANO E VIVO E CHEIO ACONCHEGO NAS DE SABOR CASAS DE SERRA O rico, diversificado e delicioso universo dos queijos. Impossível resistir!

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Duas famílias mostram seus refúgios na serra e os truques para aquecer o corpo e a alma no inverno

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A ALEGRIA DOS PEQUENOS GRANDES ARTISTAS Arte na infância: diversão, cultura e a chance de crescer mais feliz

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SALTA E MENDOZA, DOIS DESTINOS GOURMET Lindas paisagens, alta gastronomia e vinhos especiais no sul da Argentina

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Cartas 6 Cesta Básica 10 Cotidiano 18 Humanas Criaturas 38 Estilo: Chá 50 O Sabor e o Saber 58 Gusto 74 Bom Conselho 76 Moda 98 Making Of 100 Lugar: Miami 88 Coluna Equilíbrio 104 Mulheres que Amamos 106 Palavra 110


Cesta básica PARIS AINDA MELHOR Paris, toujours Paris. Êta frase gastinha, mas verdadeira. Paris é bom sempre, muitas vezes, todos os dias. Mas mesmo Paris pode ficar ainda melhor se você estiver hospedado no lugar certo. Por “lugar certo”, entendase: bem localizado, perto de um dos mais lindos parques da cidade, com estação de metrô praticamente na porta, a uma distância confortável do Sena (para ir a pé, claro), vizinho dos mais tradicionais cafés de Paris e dos bares mais charmosos, cercado de lojinhas interessantes e das grifes hiperdesejadas. E mais: o lugar certo tem que ter quartos amplos, camas deliciosas, banheiro confortável e equipado, tudo novinho e lindo, iluminação aconchegante, decoração em estilo contemporâneo, uma sala de leitura que convida ao relax, café da manhã inesquecível (completíssimo e cheio de opções), um spa Payot e serviço impecável. Essa é uma descrição superficial do Le Six, hotel que tornou maravilhosos os meus poucos dias em Paris no mês de maio passado. Grudadinho no Jardin de Luxembourg e instalado em uma ruazinha bem parisiense, entre o Boulevard Saint Michel, o Boulevard Raspail e o Boulevard de Montparnasse, o Le Six foi uma agradabilíssima descoberta. Ele se enquadra na categoria “hotel boutique design”, não é grande, tem apenas 37apartamentos e 4 suítes. E isso é ótimo, pois torna o atendimento ainda mais personalizado e faz aquele velho clichê se tornar realidade: você se sente em casa. Pra completar, tivemos o privilégio de ser recebidos no Le Six pela Angela Pepe, brasileira que atua na área de comunicação e marketing do hotel. A Angela é paulistana, mora há alguns anos em Paris e tem dicas preciosas pra dar..

HELOISA CROCCO + OGRO

IRENE MARCONDES, JORNALISTA

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Estilo Zaffari

Rue Stanislas, 75006, Paris/França, Tel. : +33 (0)1 42 22 00 75 – Fax: +33 (0)1 42 22 00 95

MILENE LEAL, JORNALISTA

FOTO: CRIS BERGER

A consagrada pesquisa Topomorfose, que estuda os veios da madeira, caracteriza o design de Heloisa Crocco. Os grafismos abstraídos de uma profunda análise aparecem estampados em louças, lençóis, telas e agora (uau!), pranchas de surfe. A parceria inédita une Crocco Studio Design + Ogro em um projeto que explora o essencial do traço primitivo presente na natureza. Trocando em miúdos: as pranchas executadas pelo renomado shaper Henrique “Ogro” Perrone exibem os desenhos de superfície topomórficos de Heloisa. O lançamento do projeto aconteceu no dia 4 de junho no Crocco Studio, em Porto Alegre, e contou com a exibição de uma película com uma seleção de ondas incríveis – tudo editado pelo vídeomaker Thomaz Crocco Sellins. Del Barbiere preparou o açaí, o milho, o caldo de cana e outras comidinhas de surfista.


FOTO: CRIS BERGER

LE BISTROT GOURMET NESTA SEÇÃO VOCÊ ENCONTRA DICAS E SUGESTÕES PARA CURTIR O DIA A DIA E SE DIVERTIR DE VERDADE: MÚSICA, MODA, CINEMA, LUGARES, OBJETOS ESPECIAIS, COMIDINHAS, PASSEIOS, COMPRAS. BOM PROVEITO!

Tudo começou no bairro Moinhos de Vento, na arborizada rua Fernando Gomes. Ali nasceram o Le Bistrot e depois o Constantino. O Le Bistrot Gourmet, mais novo integrante da família de restaurantes criados por Fernando Marins e Keterly Becker, fica pertinho da Praça Japão, numa encantadora casa de esquina, em um terreno cheio de árvores. Tem um jardim perfeito para dias de sol, duas lareiras (sempre acesas quando o frio aperta), paredes de pedras e vidro promovendo um cenário intimista e acolhedor. No dia a dia o Le Bistrot serve almoços à la carte. Acabam de entrar no cardápio os sorrentinos recheados de cebolas caramelizadas, com molho de nata. Uma delícia de raspar o prato! No quesito “mil e um utilidades” o lugar é campeão: você pode alugar o espaço para eventos, como coquetéis, festinhas e jantares entre amigos. E é quase impossível visitar o restaurante e não dar uma espiada no espaço Gourmet. Ele oferece produtos de confeitaria e padaria, uma pequena rotisserie, vinhos e objetos para a casa. Um culto à boa mesa, com ótimas ideias de presentinhos. Almoços de segunda a sexta, das 12h às 14h30, sábados das 12h às 16h. Lanches das 9h às 19h. Alameda Alipio César César,, n° 22, fone 51 3346.9257

CRIS BERGER, FOTÓGRAFA E JORNALISTA


FOTO: CRIS BERGER

Cesta básica

PEÇAS ÚNICAS

CHÁ DA TARDE NO FOYER DO THEATRO SÃO PEDRO

Obras de arte em forma de objetos de decoração. Adriana Braga, ou Adriana Dalle Ore Braga, é uma dedicada, minuciosa e talentosíssima designer de mobiliário, que pode transformar espelhos, cabideiros e aparadores em peças divinas e únicas. A madeira é a principal matéria-prima de Adriana. Arquiteta de formação e apaixonada por design, ela fez estágio na EQEMBO (École Québéquoise du Meuble e du Bois Ouvréo), em Quebec, no Canadá. Também produz mobiliário personalizado para projetos de colegas. No site www.adrianadalleore.com.br você encontra uma pequena amostra do trabalho dessa grande artista.

FOTO: LETÍCIA REMIÃO

LETÍCIA REMIÃO, FOTÓGRAFA

Quarta-feira é dia de jogo de futebol na TV, dia de namorar no sofá, dia de pegar um cineminha... E agora também é dia de chá no Foyer do Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Nas quartas-feiras, sob o comando da chef Andrea Ernest Schein, o Du'Attos Restaurante e Café abre suas portas – e as belíssimas janelas – para o chá da tarde, oferecendo um farto buffet de quitutes deliciosos. São tortas salgadas, sanduichinhos, folhados, canapés, tortas doces, crepes, macarrons, muffins, sonhos, docinhos... tudo preparado sob a orientação da chef, que incluiu na mesa do Foyer alguns clássicos da confeitaria, preparados com inegável talento: torta Pavlova, quindins de nozes, torta Brownie, madeleines, tuilles, crepes com recheio de creme patissier e calda de frutas vermelhas. Para acompanhar, chás diversos (inclusive um preparado na casa, saborosíssimo), sucos, refrigerantes. Meu conselho é bem simples: esqueça a dieta, a culpa, as calorias, as gordurinhas em volta da cintura. Tudo isso me pareceu assunto de gente doida quando vislumbrei a mesa do chá do Foyer, linda, colorida, cheirosa, apetitosa. E confesso, na hora de ir embora, só me bateu um arrependimento: não ter experimentado a torta de chocolate. Fica para a próxima quarta. Foyer doT heatro São P edro – Restaurante Du'A ttos: doTh Pedro Du'Attos: chá da tarde todas as quartas-feiras, das 15h às 19h. orto Alegre/RS, Praça Marechal Deodoro, Centro, P Porto fone 51 3227.5100.

MILENE LEAL, JORNALISTA


O estrelado chef Floriano Spiess (Guia Quatro Rodas) ancorou o seu restaurante Le Monde, de Canela, no centenário casarão Villa Lina, em sociedade com o empresário Carlos Vellinho. Os clientes queriam seu Menu Degustação em dez serviços-surpresa em Porto Alegre e a casa, à beira do Guaíba, desde abril vem trabalhando com reservas esgotadas todas as noites. A experiência gastronômica é destacada pelos clientes como singular. Floriano cria receitas exclusivas, sempre atento aos produtos da estação. De onde vem a inspiração? “Das minhas andanças pelo mundo e de uma curiosidade quase doentia. Eu adoro pesquisar os ingredientes, descobrir a composição, a textura, as potencialidades, testar o alimento na faca, no frio e no fogo... Viajo nas combinações, quais ingredientes se harmonizam, quais se hostilizam, e me inspiro muito também nas diferentes combinações culinárias mundo afora”, diz Floriano. E tem mais: na nova casa o chef oferece ainda um cardápio à la carte de cozinha fusion. Só para dar um gostinho: Dueto de cordeiro em crosta de pistache e panko; Risoto de pato, aspargos verdes e foie gras; Salmão flakes com geleia de laranjinha kinkan. R ua Cel. Marcos, 579, P orto Alegre/RS, fone Porto 51 2111.3636, lemondevillalina.blogspot.com

VERA MOREIRA, JORNALISTA

FOTO: LETÍCIA REMIÃO

FOTO: DIVULGAÇÃO

FLORIANO SPIESS EM PORTO ALEGRE

AFAGO DE MAMA Maria Luiza Truda Boaz, a Mama, é do tempo em que a gente usava a expressão “doceira de mão cheia”. E o bacana é que ela se enquadra perfeitamente nesse título: há cerca de 25 anos ela faz doces divinos, daqueles que a gente fica lembrando e sempre quer comer outra vez. A especialidade da Maria Luiza são os Bem-Casados, tradicionais doces de origem portuguesa. Difícil falar deles sem ficar com água na boca... Macios, delicados, molhadinhos e com um super-recheio de ovos moles, os Bem-Casados da Mama são uma delícia. A receita que ela usa é antiga, cheia de firulas. Os ingredientes têm que ser de primeira. O acabamento não passa pelo crivo da doceira se não for perfeito. Receber de presente uma caixa desses doces é como receber um carinhoso afago de mãe. Ou melhor, de Mama. www w.. m a r i a l u i z a d o c e s . c o m . b r 51 3232.9927 e 51 9344.1372

MILENE LEAL, JORNALISTA


Cesta básica

FOTOS: DIVULGAÇÃO

MINHA MANSÃO EM SANTIAGO DO CHILE Me apaixonei por Santiago do Chile desde a primeira vez em que pisei na cidade. Santiago é uma cidade linda e com uma infinidade de lugares para conhecer e ver, onde se encontra de tudo e tudo é de altíssima qualidade. Na última vez em que estive por lá fiquei hospedada no The Aubrey, um refúgio urbano no bairro Bellavista, região cheia de charme, com restaurantes e lojas descoladas. O hotel está instalado numa mansão de 1928, com belos traços arquitetônicos que foram preservados na restauração. A ambientação é charmosa e de extremo bom gosto, uma combinação de luxo e modernidade, sem perder o aconchego. Os 15 apartamentos têm muita personalidade, cada um com decoração e instalações diferentes. Todos com sacadas ou pequenas áreas externas. O atendimento é super personalizado, gentil, o hóspede é chamado pelo nome. O The Aubrey tem como “vizinho” o Cerro San Cristóbal, um dos pontos mais impactantes da cidade. Agora posso dizer que tenho um endereço em Santiago: Calle Constitución 299. www.theaubrey.com – fone (+56 2) 940 28 00

IZABELLA BOAZ, VIAJANTE

COZINHA COM AMOR Elisa Prenna trabalhou anos com números, cifras, dados, documentos. Mas, para nossa sorte, a dona do bistrô Chicafundó abandonou a carreira na área de comércio exterior e resolveu abrir seu coração para um outro talento: o de cozinheira. Hoje ela faz a alegria dos porto-alegrenses com almoços e jantares no pequeno bistrô, que acomoda não mais do que 19 comensais. É impossível descrever todas as delícias que a gente come no Chicafundó, muito menos o clima gostoso do lugar. Então, vale recorrer à expressão que a própria Elisa usa para resumir o seu trabalho: cozinha com amor. É isso o que ela faz e que a gente adora. R ua Cel. Bordini, 232, fone 51 3028.6091, www .chicafundo.com.br www.chicafundo.com.br

MILENE LEAL, JORNALISTA 14

Estilo Zaffari


Surgidos no século 19 nas melhores regiões vitivinícolas do Chile, os vinhos Santa Carolina são harmonizados desde as suas raízes com a geografia, a composição do solo e o clima único de cada lugar. Desse casamento resultam variedades com grande concentração frutal, aroma e complexidade, que representam as mais finas expressões dos melhores terroirs chilenos. Para produzir a linha de vinhos Reserva, composta pelas variedades Cabernet Sauvignon do Vale de Colchagua, Merlot, Carmenère, Syrah, Chardonnay, Pinot Noir e Sauvignon Blanc do Vale de Leyda, a equipe de enologia tem a responsabilidade de fazer com que cada região vitivinícola se expresse em seu máximo esplendor. Para cada uma dessas cepas, é desenvolvido um vinhedo específico, em perfeita sintonia com o seu redor. O resultado? Segundo o enólogo Andrés Caballero, essa é uma linha de vinhos em que a qualidade e o caráter se fazem presentes. Melhor experimentar todos eles...

FOTO: CHICO BALDINI

LIA LUZ, JORNALISTA

FOTO: CARIN MANDELLI

HARMONIA E TRADIÇÃO SANTA CAROLINA

MACARRONS QUE DERRETEM NA BOCA A chef gaúcha Andrea Schein tem dois talentos lindos: o dom de ensinar e o de inventar cardápios criativos. Formada em Artes Plásticas, ela fez pós-graduação na Cátedra Ferran Adrià de Cultura Gastronómica y Ciencias de la Alimentación, na Espanha. Nada mal, hein? Dedicada, quis seguir aprendendo: fez estágio no D.O.M., de Alex Atala, e depois foi para a escola Lenôtre, em Paris, aprender como se fazem os famosos macarrons, tradicionais doces franceses. “Foi paixão a primeira mordida”, conta. Hoje Andrea faz em Porto Alegre os seus próprios macarrons. E que macarrons! Nem adianta eu contar que eles derretem na boca e são incrivelmente deliciosos. Neste caso, a prova prática é fundamental. Mas se valem depoimentos, Carlos Dória, sociólogo e crítico gastronômico, os elegeu como os melhores do Brasil. A última invenção da chef são os pratos feitos com lavanda, que poderão ser conferidos na Festa Nacional da Lavanda, em Morro Reuter, de 4 a 6 de novembro. Além de criar, Andrea está ensinando a população a preparar essas delícias. É, conhecimento compartilhado gera mais sabor! chefdea@hotmail.com, fone 51 8118.1652

CRIS BERGER, FOTÓGRAFA E JORNALISTA


Cesta básica

“COZINHE COM SEGURANÇA, CURTA A SUA COMIDA” É O SLOGAN DA REVISTA AMERICANA BON APPÉTIT. WWW.BONAPPETIT.COM

HÁ 27 ANOS A REVISTA DA “BOA VIDA”. DIVERTE, EDUCA E INSPIRA UMA NOVA GERAÇÃO DE LEITORES. WWW.MUNDOCUISINE.COM WWW.CUISINE.COM.AR

A REVISTA DE ENOGASTRONOMIA MAIS VENDIDA NO BRASIL. WWW.REVISTAMENU.COM.BR

REVISTA DE INFORMAÇÃO, CULTURA E ENTRETENIMENTO, VOLTADA PARA O MUNDO GASTRONÔMICO, COM ALMA BRASILEIRA. WWW.EDITORAISABELLA.COM.BR

A MAIS ANTIGA REVISTA ITALIANA DE GASTRONOMIA E CULTURA ALIMENTAR (DESDE DEZEMBRO DE 1929). WWW.LACUCINAITALIANA.IT

DELÍCIA DE PAPEL Comer com os olhos é o que a gente faz quando vê uma boa revista de culinária nas bancas. Pra quem é apaixonado por revistas a tentação é ainda mais forte. As capas estão cada vez mais apetitosas e com fotos bem produzidas. Vez por outra o blog NASCAPAS (http://nascapas.blogspot.com) publica as melhores e mais gostosas do mundo. Então vamos dividir essas delícias de capas com os leitores da ESTILO, revista que não deixa nada a desejar no quesito “água na boca”. Saboreiem.

CLAUDIO FRANCO, PUBLICITÁRIO E CRIADOR DO BLOG NASCAPAS. UM BLOG DE UM APAIXONADO POR CAPAS DE REVISTAS

GRANDE FAMÍLIA Durante vários anos fiz ginástica em casa, sozinha ou acompanhada de vídeos de artistas, modelos famosas e seus personal trainers. Funcionou, mas em determinado momento cansei. Só que me surgiu um problema: não gosto de ambiente de academia grande, onde a música geralmente é alta, há muitas pessoas circulando e aquele “desfile” dos que vão lá para ver e serem vistos... Comecei a pesquisar e encontrei a Ápice, uma academia pequena e sem cara de academia. Pode parecer piegas, mas a verdade é que a Ápice tem jeito de casa, um ambiente ótimo, professores cordiais. Parece que fazemos parte de uma grande família. O astral não tem nada a ver com badalação e muito menos é um ambiente competitivo. Ao contrário, os alunos se tornam amigos de treino, parceiros de horário. Já que exercício físico regular é uma necessidade para nossa saúde, já que temos de fazê-lo, melhor que seja em um lugar aprazível, onde se pode ficar à vontade e onde nos sentimos cercados de atenção e carinho, certo?

MONICA GUAZELLI, ADVOGADA


Cotidiano MAR THA MEDEIR OS

A DOÇURA PEDE PASSAGEM Uma amiga fez aniversário recentemente. No dia seguinte, mandou um e-mail para o seu grupo mais íntimo, composto de oito mulheres, e reclamou de que metade delas havia esquecido de cumprimentá-la. Não haviam dado nenhum telefonema, nem mesmo enviado um torpedo. Eu havia feito aniversário um dia antes dela e imaginei que, como todo o grupo havia se encontrado aqui em casa, os cumprimentos tivessem servido para ambas, mas ela se magoou de qualquer forma, não queria ter pego carona no meu dia, e sim ser cumprimentada no seu dia. Aparentemente, uma infantilidade, mas a entendo. O mundo anda tão veloz que as pessoas estão se deixando atropelar, sem tempo para se dedicar a gestos minúsculos de atenção ao outro. Só que isso que parece minúsculo ainda é o que de maior existe na vida. Gentileza, doçura, ternura, lirismo, romantismo, tudo o que é espontâneo deixou de ser visto como tal. Agora é considerado uma artimanha. Qualquer abertura que se dê, qualquer atitude de carinho é vista com desconfiança, como se a pessoa gentil estivesse querendo levar alguma espécie de vantagem através do seu bicodoce. Ninguém mais acredita que as delicadezas possam ser o que são: uma demonstração de respeito e afeto ao outro, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. E quando as pessoas acreditam nas boas atitudes, há uma tendência ao deboche. Como se essas qualidades estivessem fora de moda e seus usuários não passassem de uns sem noção que ficaram parados no tempo. Que tempo? O tempo em que 18

Estilo Zaffari

se chegava pela primeira vez na casa de alguém levando flores ou um pequeno presente, o tempo em que pais e filhos não se tratavam aos palavrões, o tempo em que se pensava mais no coletivo do que no individual, o tempo em que se retornava um telefonema, o tempo em que amigos se cumprimentavam não só pelos aniversários, mas pelas promoções, para desejar boa viagem ou simplesmente para alimentar a amizade, para não deixá-la definhar e morrer por falência múltipla dos órgãos. Agora ninguém tem tempo pra mais nada – só para rosnar, latir e passar por cima. Reverter isso não seria tão difícil, se as pessoas exercitassem uma prática básica: se colocar no lugar do outro. Por cinco minutos. Tudo bem: dois minutos, sei que você é ocupado. Parece parábola bíblica, ditado de almanaque, não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você, etc., etc., mas qual é a alternativa? “Sou como sou e que os outros se acostumem”. Eu fora: não me acostumo com esse narcisismo. Talvez alguém que você goste esteja de aniversário hoje. Ou esteja convalescendo de uma doença. Ou esteja com o coração dilacerado – ainda se fala em coração? O que eu quero dizer é que em menos de dois minutos você pode mandar um e-mail dizendo “parabéns” ou “melhoras” ou “precisa de ajuda?”. E está feita a boa ação do dia: você ajudou a salvar o mundo da mesquinhez reinante. MARTHA MEDEIROS É ESCRITORA


Sabor

Queijo ORGANISMO VIVO. E SABOROSO! P O R

V E R A

M O R E I R A

F OTO S

L E T Í C I A

R E M I Ã O


Sabor É difícil imaginar a complexidade do queijo quando comemos uma fatia de mussarela. Pois, no Brasil, a mussarela quase virou sinônimo de queijo na década de 70, tamanha a disseminação das pizzarias e lanchonetes. Seria uma gafe imperdoável em nossa recente história gastronômica... O queijo é resultado de uma arte milenar. Segundo registros, pode ter nascido com os primeiros rebanhos de ovelhas, lá por 8.000 a.C., ou bem mais recentemente, por volta de 3.000 a.C. O certo é que quando o Império Romano se firmou, a arte queijeira já era realidade. Também não há consenso sobre a sua origem foi na Europa, na Ásia Central ou no Oriente Médio. Meu voto vai para a Europa, mais especificamente a França, afinal esse povo é mestre em tudo que põe à mesa. E não há país com tamanho entusiasmo pelo queijo, com suas fazendas da Normandia ao Languedoc, suas feiras livres com enorme variedade e as inúmeras fromageries. Os queijeiros dos primeiros tempos foram artesãos autodidatas, lidando com um processo complicadíssimo, driblando dificuldades na base da tentativa e erro, intuição e persistência inabalável. Já nas últimas décadas essa arte ganhou a parceria da ciência para vencer as múltiplas etapas de elaboração de pelo menos duas centenas de tipos de queijos existentes no mercado, com grandes diferenças entre si. Inúmeros problemas podem surgir desde a produção do leite até a coagulação, salga e maturação, passando pela adição dos fungos, e cada etapa tem suas particularidades. A tecnologia aperfeiçoou o trabalho do artesão que elabora tantas variações desse delicado alimento, dos crus aos maturados, dos cremosos aos consistentes, dos suaves aos picantes. Uma verdade, no entanto, sempre reinará absoluta. Não há ciência capaz de compensar a má qualidade do leite, donde nasceu a máxima: “É impossível fazer um bom queijo de um mau leite, mas é possível fazer um mau queijo de um bom leite”. No Brasil, onde a qualidade microbiológica do leite nem sempre é satisfatória, só é permitido fabricar queijos com leite pasteurizado. A pasteurização é um processo de choque térmico no leite: eleva-se a temperatura para 70/ 80°C por 15/20 segundos a fim de eliminar micro-organismos prejudiciais à saúde, e de-


A CIÊNCIA, HOJE, É UMA ALIADA DESTA ARTE MILENAR. E O LEITE SEMPRE SERÁ FATOR DECISIVO NA QUALIDADE DO QUEIJO


Sabor pois se resfria. Isso é lei também nos Estados Unidos, e até mesmo na França já é comum a produção de queijos com leite pasteurizado. O resultado são peças uniformes, estáveis, delicadas e perfeitas o ano inteiro. Mas o ponto crucial do processo do leite não é a pasteurização em si, e sim a sua qualidade e a distribuição. No Brasil ainda não se solidificou a cultura do queijo, o que destinaria o melhor leite para os fabricantes desse laticínio. E o leite chega a ficar mais de 48 horas em trânsito depois da ordenha até, finalmente, entrar em produção. Quanto mais fresco e puro o leite, melhor o queijo. Daí a fabricação artesanal com leite de rebanho exclusivo se destacar, em especial na França e outros países da Europa, com vacas, ovelhas e cabras sadias e bem-cuidadas para a ordenha. A indústria queijeira brasileira é extremamente jovem, firmou-se a partir da década de 20 com os imigrantes dinamarqueses e holandeses, em Minas Gerais. Hoje, produzimos mais de 600 mil toneladas de queijo por ano, sendo Minas e Rio Grande do Sul os principais fabricantes em larga escala. Afortunadamente aqui também preservamos a produção artesanal, sendo o município gaúcho de Carlos Barbosa um dos lugares mais encantadores para se conhecerem as granjas que cultuam essa arte milenar. O queijo ainda fresco é um organismo vivo, em constante mutação. Quando passa ao processo de cura é que começa a adquirir sua personalidade, com a definição da aparência, da textura e do sabor. Curar o queijo exige dedicação diária, desde banhos em água e sal, cerveja e outros, adição dos fungos, disposição das peças em palha limpa ou velha, prateleiras de madeira ou plástico, até questões controversas como virar o queijo todos os dias ou não. A cura pode ser feita pelo fabricante ou pelo comerciante (o que é bem comum na França). A grande escritora de gastronomia Patrícia Wells considera como os melhores – e mais sérios – comerciantes franceses os que compram dos fazendeiros o queijo recém-fabricado. “Eles empreendem nos porões úmidos e frios de suas próprias lojas o difícil e sensível processo de cura. Fazem o queijo sair de seu estado jovem e cru para a maturidade plena, o que pode durar de dias a meses ou até mesmo anos.” 24

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EM CARLOS, BARBOSA (RS), FABRICAM-SE EXCELENTES QUEIJOS ARTESANAIS COM LEITE DAS PRÓPRIAS GRANJAS


Sabor Seleção perfeita para uma noite fria Noites frias, fogo na lareira, vinho tinto e uma linda tábua de queijos. De coadjuvantes, pães e frutas secas. Está aí uma receita de momentos felizes e de prazer. E por fim um longo e perfeito sono, pois os queijos não pesam em nosso estômago (são 99% digeríveis). São ainda ótima fonte de cálcio, fósforo e vitaminas A, D, E e K, ricos em proteínas e aminoácidos essenciais ao funcionamento do organismo, atesta Maria Lucia Gomensoro, autora do “Pequeno Dicionário da Gastronomia”. A tarefa espinhosa desse pequeno evento com a família e amigos é a escolha dos queijos entre tantas saborosas opções. Mas um pouquinho de informação desse rico e vasto universo sempre ajuda. Entre as dezenas de tipos de queijos que podemos encontrar por aqui e suas diversas categorias, o primeiro passo é atentar aos fatores primordiais, como a origem, o tipo de leite usado, métodos de produção, teor de gordura, textura e tempo de maturação. Para defini-los melhor, passamos a uma classificação: frescos, macios, semimacios, semiduros, duros, embolorados, filados e fundidos. O teor de umidade diferencia os queijos macios dos duros, sendo obviamente mais macios os mais úmidos (alguns até se desmancham). Os queijos duros resultam de moldes desenhados para escoar a água, o que acontece sob pressão intensa. Também demandam maior tempo de cura, às vezes durante meses ou anos. São ideais para ralar, como o parmesão e o pecorino romano. Na categoria dos frescos estão, por exemplo, o cottage, o chèvre de leite de cabra e a ricota, de sabor suave. A famosa mussarela entra na categoria massa filada, assim como o provolone. Elaborada a partir de uma coalhada fresca, a mussarela é esticada e massageada em água quente até formar uma bola – na Itália geralmente se consome logo depois de pronta. Na maioria dos outros países, é acondicionada em salmoura para ser transportada. Nos semimacios e firmes, temos os queijos de estilo suíço, como o emmental e o gruyère. As crateras lunares desses queijos se devem à ação de uma bactéria que também lhes empresta um aroma peculiar, assim como o sabor acentuado. Quando falamos de bolor, falamos de queijos curados moles, de

O UNIVERSO DESTE ALIMENTO NUTRITIVO E 26

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ALTAMENTE DIGERÍVEL É RICO E VARIADO


Sabor casca lavada e azuis. O brie e o camembert são curados moles, obtidos a partir do fungo Penicillium candida ou P. camemberti que cresce na parte externa, formando aquela crosta branca. Além de intensificar o sabor durante o seu amadurecimento, que varia de dias a semanas. Os queijos de casca lavada são semelhantes em textura, mas apenas atraem culturas (Bacterius linens) em suas cascas, que já foram mergulhadas em salmouras ou cerveja, vinho ou conhaque para ganhar sabor. Não são muito conhecidos entre nós e em geral são bastante azedos e de cheiro forte. Nos queijos azuis, o bolor cresce dentro do queijo por ação do Penicillium roqueforti ou Penicillium glaucum quando está ainda na forma de coalhada e com pressão fraca. Os bolores variam do verde pálido ao azul-escuro, e a textura pode ser macia ou firme. São vedetes dessa categoria o gorgonzola e o roquefort. Para a seleção da nossa noite fria com vinhos e queijos, o especialista Juarez Zanatta recomenda: “Devemos começar pelos queijos de sabor suave e terminar com os mais fortes. Com cinco tipos diferentes já teremos uma degustação bem interessante, e a quantidade deve ser de 100 a 150g por pessoa”. Assim, uma sequência simplificada pode ser estabelecida a partir de brie, camembert, emmental, fondue, gorgonzola, gouda, cottage, gruyère, parmesão ou provolone. Para harmonizar, um robusto carmenère latino e algum tinto sul-africano, safra 2008, sugere a sommelier Raquel Secco. Mas se quisermos uma degustação mais instigante, Zanatta recomenda incluir queijos exóticos: o português Serra da Estrela (macio, produzido com leite de ovelha), os franceses Saint Agur (macio, elaborado com mofo natural) e Tomme de Chèvre (macio e levemente picante), o brasileiro Saint Marcelin (da Serra das Antas, MG, macio e de sabor intenso), um emmental suíço, o italiano Talegio (macio e picante) ou o Prima Donna, um queijo duro de casca avermelhada, maturado por 48 semanas. Neste caso, a sommelier Raquel optaria por um robusto malbec latino, safra 2006/2007, e um cabernet sauvignon francês, safra 2004/2005. Dos coadjuvantes, Zanatta selecionaria pães neutros como baguete, francês e centeio e frutas secas como nozes e amêndoas, e tâmaras, figos e damascos. A vida é bela!

A HARMONIZAÇÃO DE QUEIJOS E VINHOS PROMOVE UMA FESTA AO PALADAR 28

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FOTO: CRIS BERGER

CHEF MARINA FUSQUINE FONTES EM 2002, MARINA FUSQUINE FONTES DEU UM PASSO DEFINITIVO PARA SUA CARREIRA DE CHEF. AO SE MOSTRAR SEM RESERVAS NA ENTREVISTA PARA ESTÁGIO NA DISNEY, CONQUISTOU A EQUIPE DE SELEÇÃO PELA SINTONIA COM OS VALORES BÁSICOS DA GIGANTE DO ENTRETENIMENTO: COURAGE (CORAGEM), OPENNESS (SER ABERTO, DIZER O QUE PENSA), HONESTY (HONESTIDADE), INTEGRITY (INTEGRIDADE), RESPECT (RESPEITO), DIVERSITY (DIVERSIDADE) E BALANCE (EQUILÍBRIO). A GAROTA DE 25 ANOS CURSAVA O ÚLTIMO ANO DA FACULDADE DE GASTRONOMIA JOHNSON AND WALES UNIVERSITY, NA FLÓRIDA, ASSOCIADA DO LE CORDON BLEU E CONSIDERADA UMA DAS MELHORES ESCOLAS NOS EUA. LÁ SE VAI UMA DÉCADA E A CHEF SEGUE SEU DESTINO COM UM LEMA: "NÃO EXISTE PERFEIÇÃO, SOMENTE A BUSCA DA PERFEIÇÃO". É ASSIM QUE MARINA HOJE TESTA VOOS AO PALADAR NO RESTAURANTE DO SAINT ANDREWS, ENCANTANDO HÓSPEDES DO ÚNICO HOTEL EXCLUSIVE HOUSE DO PAÍS, EM GRAMADO.

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Sabor Fondue Vip de Queijo Serra da Estrela Servido com Pães, Corações de Alcachofra e Batatinhas FONDUE 200 G DE QUEIJO SERRA DA ESTRELA 300 G DE QUEIJO EMMENTAL RALADO 100 ML DE VINHO BRANCO GEWUSTRAMINER 5 G DE AMIDO DE MILHO DISSOLVIDO EM ÁGUA ACOMPANHAMENTOS 100 G DE BATATAS-COQUINHO COZIDAS E DOURADAS 100 G DE PÃO CORTADO EM CUBINHOS (PODE SER BAGUETE OU PÃO ITALIANO) 100 G DE CORAÇÃO DE ALCACHOFRA

SUGESTÃO

DE VINHO

50 G DE PONTAS DE ASPARGOS COZIDOS GRATIN DE CEBOLAS COM QUEIJO PARMESÃO 200 G DE MAIONESE 1 CEBOLA PICADA 120 G DE PARMESÃO

GRAHAM'S 1977 VINTAGE PORT ORIUNDO DE UMA DAS MELHORES SAFRAS PARA A REGIÃO, ESTE EXEMPLAR EXPRIME TODA A EXCELÊNCIA E FORÇA DO VINHO DO PORTO, COMBINANDO ESPETACULARMENTE COM O QUEIJO SERRA DA ESTRELA.

1 BAGUETE ITALIANA FATIADA EM RODELAS Modo de fazer o fondue: Em uma panela de fundo grosso e em fogo baixo derreta os queijos, adicione o vinho e deixe ferver mexendo sempre. Adicione a mistura de maisena aos poucos. A maisena é importante para dar a liga entre o queijo e o vinho. Sirva bem quente.

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Modo de fazer o gratin de cebolas: Bata no liquidificador a maionese, a cebola e 100 gramas do parmesão. Torre levemente as torradas de baguete. Retire do forno e coloque um colher do creme de cebola. Salpique um pouco de parmesão sobre cada torradinha e leve ao forno novamente até ficar bem douradinha. Rendimento: 6 porções.


Sabor


Pizza de Queijo Brie, Framboesas e Chocolate Branco MASSA BASE 350 ML DE CERVEJA 1 KG DE FARINHA DE TRIGO 3 OVOS 2 G DE FERMENTO BIOLÓGICO 5 G DE AÇÚCAR 400 ML DE ÁGUA

Modo de fazer a massa: Misture em uma tigela 800 gramas de farinha de trigo, o açúcar, o fermento, os ovos e a água, nessa ordem. Misture bem com a ajuda de uma colher grande. Deixe a massa descansar por 30 minutos. Em uma superfície limpa salpique farinha, despeje a massa e adicione o restante da farinha até a massa ficar fofa mas maleável. Divida a massa, faça cinco bolinhas e deixe crescer novamente por mais 20 minutos. Sempre salpicando farinha, abra cada bolinha de massa com um rolo até chegar a ½ cm de altura, corte do tamanho desejado e dobre as bordas. Preaqueça o forno pelo menos 1 hora antes e use uma pedra para pizza, se possível, para obter uma massa mais crocante. Asse antes os discos de pizza por aproximadamente 2 minutos, coloque a cobertura e volte para o forno para derreter o queijo e o chocolate.

COBERTURA 150 G DE QUEIJO BRIE 100 G DE LEITE CONDENSADO 100 G DE FRAMBOESAS FRESCAS OU CONGELADAS

SUGESTÃO

DE VINHO

150 G DE CHOCOLATE BRANCO

CLEEBRONNER MICHAELSEMBERG RIESLING EISWEIN 2007

Modo de fazer a cobertura: Espalhe o leite condensado na base (como se faz com molho de tomates) e salpique o queijo brie, o chocolate branco e as framboesas. Leve ao forno e deixe derreter. Sirva bem quente. Rendimento: 6 pizzas.

COMBINANDO A ACIDEZ DO RIESLING À SUAVIDADE E DOÇURA DO MÉTODO DE COLHEITA DESTE EISWEIN, EM QUE AS BAGAS SÃO APANHADAS QUANDO ESTÃO CONGELADAS, EXPELINDO A ÁGUA DE SEU INTERIOR E MANTENDO DESSA FORMA O NÉCTAR NA FRUTA, AUMENTANDO ASSIM O GRAU DE DOÇURA PARA A VINIFICAÇÃO.

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Sabor

Risoto de Cordeiro Assado em Baixa Temperatura, Cogumelos da Região e Queijo Fontina PARA O CORDEIRO 1 PALETA DE CORDEIRO 5 DENTES DE ALHO 3 GALHINHOS DE TOMILHO 200 ML DE DEMI GLACE PITADA DE SAL PARA O RISOTO APROXIMADAMENTE 1 LITRO DE CALDO DE LEGUMES 70 GRAMAS DE MANTEIGA

Modo de fazer o cordeiro: Insira os dentes de alho na paleta e coloque em uma forma funda com o demi glace, o tomilho e o sal. Embrulhe a forma com papel-alumínio e filme plástico. Leve ao forno combinado no vapor por 7 horas a 100 0C. O cordeiro se desmanchará. Desfie a carne e peneire o caldo. Reserve. Modo de fazer o risoto: Esquente o caldo de legumes e refogue a cebola com o alho-poró em outra panela, sem dourar com o azeite de oliva. Adicione o arroz arbório e mexa por um minuto até o arroz começar a estalar um pouco. Adicione o vinho branco. Deixe o vinho evaporar (aproximadamente 2 minutos), sempre mexendo, e comece a adicionar o caldo de legumes. Adicione o caldo e experimente o arroz até que ele fique al dente. Em outra panela, doure os cogumelos e adicione o cordeiro desfiado e o caldo do cordeiro previamente reservado, e deixe ferver. Adicione o cordeiro ao arroz arbório e misture bem. Finalize adicionando a manteiga e o queijo fontina ralado. Ajuste o sal e sirva imediatamente. Rendimento: 6 porções.

2 COLHERES (SOPA) DE AZEITE 1 CEBOLA PICADA BEM FINA 1 TALO DE ALHO-PORÓ CORTADO EM RODELAS

SUGESTÃO

DE VINHO

2 DENTES DE ALHO 400 G DE ARROZ ARBÓRIO 2 COPOS DE VINHO BRANCO SECO 115 GRAMAS DE QUEIJO FONTINA RALADO 300 GRAMAS DE COGUMELO SHITAKE LIMPO E FATIADO

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PULIGNY MONTRACHET 1ER CRU LA GARENNE 2008 – LOUIS JADOT ÓTIMO EXEMPLAR DA MAISON LOUIS JADOT, SEDIADA NA BORGONHA E PRODUTORA DE ÓTIMOS RÓTULOS. ESTE CHARDONNAY ESTÁ MUITO BEM-ELABORADO E, NA TEMPERATURA CERTA, EXALA NOTAS CÍTRICAS COM TOQUES DE MADEIRA, POSSUINDO GRANDE COMPLEXIDADE E POTÊNCIA.


Sabor


Cheesecake com Queijo Mascarpone, Bananas Flambadas, Compota de Tangerina e Vinho do Porto PARA A CHEESCAKE 500 G DE QUEIJO MASCARPONE 200 G DE AÇÚCAR 20 G DE FARINHA DE TRIGO 3 OVOS INTEIROS 300 G DE LEITE CONDENSADO PARA AS BANANAS FLAMBADAS 4 BANANAS BRANCAS 20 G DE MANTEIGA SEM SAL 30 ML DE LICOR CONTREAU PARA A COMPOTA DE TANGERINA

Modo de fazer a cheescake: Misture todos os ingredientes e reserve. Modo de fazer as bananas flambadas: Corte as bananas em rodelas. Aqueça uma frigideira, derreta a manteiga e adicione o açúcar. Salteie as rodelas de banana e flambe com o licor. Montagem: Coloque uma parte da massa em uma assadeira redonda untada. Distribua as bananas flambadas e cubra com o restante da massa. Leve para assar em forno preaquecido a 180 0C por aproximadamente 35 minutos. Congele a cheesecake de um dia para o outro. Corte os pedaços ainda congelados e reserve. Modo de fazer a compota de tangerina: Leve os ingredientes ao fogo por 8 minutos. Modo de fazer a redução: Leve ao fogo para reduzir. Montagem: Coloque a cheesecake no prato, a calda de Porto em volta e a compota de tangerina por cima. Rendimento: 6 porções.

GOMOS DE 6 TANGERINAS 150 G DE AÇÚCAR

SUGESTÃO

DE VINHO

PARA A REDUÇÃO DE VINHO DO PORTO 300 ML DE VINHO DO PORTO 180 G DE AÇÚCAR

TOKAJI ASZÚ 6 PUTTONYOS UM DOS TOPS DE LINHA DA REGIÃO DE TOKAJI, NA HUNGRIA, ESTE VINHO COMBINA UM BALANÇO PERFEITO ENTRE A ACIDEZ E A DOÇURA, REPRESENTANDO MUITO BEM O ESTILO E, CONSEQUENTEMENTE, A REGIÃO QUE O PRODUZ.

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Humanas criaturas TETÊ PACHECO

PAPO GAY

Neste momento de tantas questões sobre homofobias, em que parece tão delicado abordar qualquer questão que diga respeito a isso, quero dar um depoimento. Estávamos eu, meus filhos e dois amigos deles numa lanchonete em SP. A idade do maior era 10 anos e a do menor, 3. A lanchonete era dessas que as criancas amam, temáticas com hambúrgueres suculentos e milk-shakes de babar. Talvez pela localização, não sei, ela costuma ser muito frequentada pela turma GLS, especialmente à noite. Mas naquele dia, a turma resolveu partir para a matiné. E na mesa ao nosso lado, tivemos a oportunidade de presenciar uma cena superilustrativa. Duas meninas, de uns 20 anos, fizeram a maior questão de tornar explícita (muito explícita) a paixão uma pela outra. Foi uma cena constrangedora, porque havia muitas crianças na lanchonete e a performance delas era chocante. Seria igualmente chocante entre um casal hetero, ok? Eu, que sempre tomo as inciativas que ninguém quer tomar, depois de me incomodar de verdade com a insistência delas em provocar até as crianças, fui ao gerente. Muito chateado ele me disse achar o fim, mas que já estava se acostumando, pois aquelas cenas eram comuns lá. E ele não podia fazer nada (imagina ser acusado de homofóbico?). Eu falei que não tinha problema algum, mas então o estabelecimento deveria ser contraindicado para menores de 18 anos. Exatamente como os filmes proibidos para menores. Alguém em sã consciência vai levar os filhos pequenos para uma sessãozinha pornô em pleno sábado às 3 da tarde? Eu não. Ele riu e disse que a minha argumentação era boa, mas que um amigo dele, gerente de outro restaurante, foi reclamar da postura de um cliente e o restaurante foi processado. Bom, não

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me considero um Bolsonaro, não sou uma pessoa preconceituosa. A primeira coisa que fiz foi ligar para meus amigos gays, não são poucos, para contar esse episódio e perguntar o que achavam. Só para eu poder me situar. Por sorte ou coerência, meus amigos e eu concordamos neste ponto. Ninguém precisa gritar a sua opção sexual para que ela seja respeitada. E isso serve para todos os seres que pretendem conviver em sociedade. No final das contas, fica só uma questão que até agora eu não vi nenhum deputado pseudodemocrático defender. Boa educação. No trânsito, na fila do supermercado, nas salas de aula, nas mesas de restaurantes, no Facebook, no Twitter, enfim. Não é necessário viver de forma tão pública nossas intimidades. Ninguém precisa saber de tudo o tempo todo. Perto da rua onde moro, trabalham muitos travestis. Dão um duro danado (sem trocadilhos, please). De sol a sol estão ali, balançando suas intenções na frente de todo mundo que passa, criança, velho, cachorro, enfim. Uma atitude agressiva e superdesrespeitosa, patrocinada por pessoas como eu e meus vizinhos. Sim, porque não conheço nenhum travesti com alvará da prefeitura para o comércio na região. Estou pensando em organizar um movimento para que a prática deles seja finalmente legalizada e que eles passem a ter que pagar impostos, como os nossos exorbitantes iptus. Ou então que para frequentar nossas ruas de peitos (?) de fora sejam obrigados a pelo menos pagar por um banheiro químico para evitar usar nossas calçadas. E um latão de lixo, para que seringas, camisinhas usadas, bitucas de cigarro, garrafas de cachaça e outras pérolas não sejam descartadas na nossa pracinha. Educação é bom e eu gosto. Pronto, falei. TETÊ PACHECO É PUBLICITÁRIA


Vida

Pequenos GRANDES

artistas P O R

PAU L A

F OTO S

TA I T E L B AU M

L E T Í C I A

R E M I Ã O


Vida Hora de fazer arte Quem quer fazer arte bota o dedo aqui! É hora de pintar o sete, pintar o caneco, pintar a macaca, pintar o burro, pintar a manta, pintar o que mais pintar pela frente. Como dá pra ver, só a simples menção do verbo “pintar” já remete a diversão, algazarra, brincadeira, diabrura. Imagine então quando a gente mistura o “pintar” com o “ser criança”... É bagunça na certa. Peraí! Talvez não seja bem assim. Na verdade, as aulas de arte na infância não precisam ser um simples lambuzar de papéis. Pode ser que, misturando um pouco de diversão com um tanto de informação, surja alguma coisa diferente. Como quando a gente junta azul com amarelo e aparece o verde. Quem sabe se atividades na infância, além de livres e lúdicas, sejam também estimulantes dos sentidos intelectual e cultural? Pois é justamente isso o que você verá nas próximas páginas. Que crianças bem pequenininhas já estão entrando em contato com diferentes artistas, materiais e técnicas. E fazendo obras digna de galeria de arte. Pequenos Picassos “Aos 12 anos, eu sabia desenhar como Rafael. Levei a vida inteira para pintar como uma criança.” A frase, dita por ninguém menos do que Pablo Picasso, define bem como é a arte que surge pelas das mãos infantis: sem medo de errar, sem compromisso acadêmico, cheia de vitalidade e livre para voar pelas imaginações alheias. Quando criança e tinta se encontram, elas parecem ter sido feitas uma para a outra. Não há limites para misturar, melecar, colorir, pincelar... Porque criança é pura expressividade, é espontaneidade latente, é criação sem limites. E, cá entre nós, arte não é isso tudo também? Pois a escolinha infantil Caracol, em Porto Alegre, não só percebeu essa proximidade como resolveu juntar seus pequenos artistas – no caso, as crianças – com alguns dos grandes mestres da arte nacional. Tudo começou no ano 2000 com o “Projeto Pintores”. Muito mais do que brincar de fazer arte, a escola resolveu mergulhar fundo nas obras de artistas. A partir de então, os alunos entre 5 e 6 anos passaram a estudar os quadros e a vida dos pintores. Ou melhor: a cada semestre, um artista de renome era escolhido para que as crianças seguissem seus traços. Iberê Camargo, Cândido Portinari, Aldemir Martins, Alice Soares, Romero Britto, Gustavo Rosa, Oscar Araripe, Erico Santos, Eduardo Vieira da Cunha e Maria Tomaselli foram alguns dos escolhidos. Sem contar aqueles que “vivem” no Louvre, como elas descobriram. As crianças escutavam


NÃO HÁ LIMITES PARA MISTURAR, MELECAR, COLORIR, PINCELAR...


Vida histórias, observavam, comentavam, identificavam as cores e as técnicas do pintor. Depois, com pincéis em punho e telas cravadas nos cavaletes, realizavam releituras das obras. O resultado passou a impressionar não apenas pela riqueza de detalhes – mostrou que quanto maior o envolvimento, mais firmes e elaborados os traços infantis se tornavam. E isso sem perder a espontaneidade e a criatividade de cada um. Na hora de concluir o projeto do artista, vieram exposições e vernissages abertas a convidados. Não é preciso dizer que, além das pinturas, os eventos mostravam muitas crianças felizes pra um lado e pais coloridos de orgulho pra outro. “Para voar, é preciso seguir as regras do voo”. A frase agora é de Oscar Araripe, artista plástico carioca que acompanhou, pela internet, o Projeto Pintores feito a partir de suas obras. Ele garante que ficou impressionado com a riqueza das releituras e com o jeito com que as crianças “seguiram as regras do voo”. Ter o retorno dos artistas, aliás, foi uma das coisas que estimularam a escolinha Caracol a fazer seu projeto ganhar tons ainda mais vivos. Em 2009, ao completar 20 anos, a Caracol deixou os alunos pintarem o sete pela escola, fazendo as versões de pinturas famosas pelas portas, bancos e paredes... “A escola inteira virou uma grande tela”, conta Valesca Leal, diretora da Caracol. Além disso, para comemorar suas duas décadas, a escola lançou o projeto “Descobrindo Arte”, que, a partir de então, passou a envolver também os alunos menores, a partir dos 3 anos. “O projeto ficou ainda mais lúdico, foi uma forma de eles conversarem com a gente”, contou Valesca. Vieram oficinas com artistas como Karin Paiva e uma nova sala de artes surgiu em um espaço que antes estava inutilizado. E foi justamente nesse espaço que eu entrei para companhar uma das oficinas de Karin. Na sala de artes A ideia da artista é estimular com os mais ricos materiais: argila, giz de cera, massinha de modelar e, claro, tinta. O contato sensorial é tudo. Explorar é preciso. Junto com a artista, as professoras atuam como mediadoras. Na sala de artes, descubro que é dia de eles pintarem suas máscaras, dando continuidade a

“A ESCOLA INTEIRA VIROU UMA GRANDE TELA”


Vida


um trabalho que começou com a leitura do poema “Tigre”, do livro de Luiz Coronel. É hora de pintar não o sete, mas o tigre. “Tia” Karin vai abrindo os potes de tinta e despertando as cores. Amarelo cabelinho de anjo, rosa coração de bebê, azul olho de pimpolho, vermelho bochecha fofa... são alguns dos tons que vejo surgirem. Junto com as outras tias, Kenia e Cris, as crianças vão se envolvendo com os materiais em volta da mesa. “Podem usar qualquer cor”, diz Karin, enquanto as outras vão perguntando sobre o tigre: “É um animal doméstico?”, “O tigre pode ter qualquer cor?”, “Que cor vai ter o tigre de vocês?”. As crianças gritam, cada uma mais alto do que a outra, como se quisessem que, por meio da voz, a sua cor ficasse ainda mais forte. “Todo mundo em pé”, pede Karin. Os pequerruchos, que até então ainda estavam sentados nos bancos em volta da mesa, levantam-se prontamente, ansiosos para colocar a mão na massa. Ou melhor, na tinta. Eles percebem que, além dos potes coloridos, surgem tecidos e lantejoulas. “Brilho!”, fala uma menininha. Cada uma das crianças recebe a sua “máscara”, um prato de papel com dois furos (preciso dizer que são os olhos?). “A gente vai começar”, fala um garotinho, já enfiando o seu pincel dentro do pote de tinta. “O meu vai ser colorido igual ao teu”, fala outra menininha para Karin, referindo-se a Leco, o mascote que ela doou aos alunos, uma lagartixa de madeira, colorida e toda enfeitada. As meninas disputam o rosa, querem uma tigresa. Os meninos preferem uma fera. Os cabelos logo se misturam às cores. Eles procuram, experimentam, sujam, lambuzam, colorem, divertem-se. A ideia é que, depois de prontas as máscaras, elas sejam o figurino principal de um musical que será preparado. Dentro da sala de arte, há um tanque pra facilitar a vida de todos. Mas ainda não é hora da limpeza. Por enquanto, quanto maior a meleca, melhor. Picasso não fazia assim, afinal? Fico me perguntando qual o resultado de tudo isso e chego a uma breve conclusão. Provavelmente essas crianças serão adultos que vão pintar e bordar. No bom sentido, é claro.

AZUL OLHO DE PIMPOLHO, VERMELHO BOCHECHA FOFA...


Vida

Karin, a professora que sobe pelas paredes Karin e Valesca se conheceram quando a primeira deu aula para o filho da segunda. E a química se fez. Valesca convidou Karin, que já trabalhava há mais de 20 anos com crianças, para ministrar algumas oficinas na Caracol. Mas quem é essa artista que – não é preciso ser um especialista para perceber – tem alma de criança? Karin Paiva tem as tintas correndo no sangue. Filha da artista plástica Vera Wildner, ela cresceu dentro do ateliê da mãe, tendo a certeza de que arte era a melhor brincadeira do mundo. Crescida, continuou com essa certeza, virou artista reconhecida, vieram as mostras e exposições. Seu estilo é totalmente lúdico: lagartixas coloridas subindo pelas paredes, mistura de diferentes animais, muita cor cítrica... As oficinas para crianças foram, portanto, uma escolha natural. Com os pequenos, ela retornava ao seu próprio mundo infantil, redescobrindo nelas a alegria mais pura. Para poder ministrar suas aulas, além de cursos com artistas famosos, Karin fez o curso da Escolinha de Belas Artes, dentro da faculdade de Artes do Rio Grande do Sul. No seu trabalho com os pequenos, a artista diz que estimula o que elas já têm: criatividade, espontaneidade, alegria, liberdade. Como eles não têm medo da pintura, vale tudo. E

se por acaso aparecer alguma criança bloqueada, ela garante que a comunicação vai acabar acontecendo por meio da arte. “E não tem esse negócio de não poder usar preto”, diz ela, rindo. Já são 24 anos trabalhando com estímulo da arte na infância. Entre as oficinas, a que mais a emocionou foi a chamada “Crie seu bicho”. Rabo de um, cabeça de outro... onde vive, tem asa? Olha! É o elevão, o girachorro, rinocaco que surgiram. Karin diz ainda que as crianças a influenciam totalmente. “Elas são um veneno bom para o meu trabalho”, diz novamente sorrindo. E nesse veneno antimonotonia, com certeza o maior efeito é a sensação de felicidade plena. Quando Karin levou o mascote que criou para a escolinha Caracol, inventou a maior história. Como a lagartixa tinha algumas penas coladas no corpo, Karin contou que ela vivia em uma tribo. O resultado foi que as crianças não paravam de dizer: “O bicho da tia Karin é o mais bonito, o mais colorido...”, o que despertou nelas a vontade de criar algo também diferente. “Nós somos um veículo para as crianças ficarem bem. Elas nunca querem que a aula de artes acabe, nunca querem que eu vá embora.” Desconfio que ela também não queira que tudo isso acabe.

NO SEU TRABALHO COM OS PEQUENOS, A ARTISTA ESTIMULA O QUE ELAS JÁ TEM


Estilo

DÊ UMA COLHER DE CHÁ PARA O

CHÁ P O R

M A G A L I

F OTO S

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Estilo Zaffari

C R I S

M O R A E S B E R G E R


Estilo


Antes de começar a ler esta matéria, olhe bem para as fotos, uma a uma. Admire cada detalhe. Lindas, hein? Em algumas, dá até para sentir o aroma do chá. Depois me diga: será que estamos dando a devida atenção a essa bebida tão charmosa? Concordo que cheiro de café invadindo a casa é uma delícia. Mas tem espaço para todos. No Oriente, o chá é tratado com honras de Chefe de Estado. Na Inglaterra, ele nunca perdeu a majestade. Nos Estados Unidos, conquistou os gringos com a versão iced tea. Na Argentina e Uruguai, até na beira da praia os vendedores ambulantes vendem Té. Mas por aqui, parece que o chá é sempre coadjuvante. Uma filosofia de vida O que falta para o chá é visibilidade. Estar na vitrine da Tealosophy, a casa de chá gourmet de Inés Berton, ajuda bastante. Essas fotos saborosas foram feitas lá. Se você estiver em Buenos Aires ou Barcelona, planeje uma visita e experimente algumas de suas 150 infusões. Eu contrataria Inés para mudar a imagem do chá no Brasil. Aliás, restaurantes estrelados já estão fazendo isso. Da próxima vez que você jantar no D.O.M., do chef Alex Atala, peça pra ver a carta de chás assinada por ela (o quê, Você achava que só existe carta de vinhos?!). Reconhecida como um dos 11 tea noses mundiais, essa argentina de olfato apuradíssimo se tornou uma autoridade criando blends que dão ao chá o merecido glamour. Dalai Lama foi presenteado com um blend só seu, e o Brasil também. Anote na sua listinha de compras: Royal Fruit, com notas de pétalas de girassol, manga, papaia, pêssego e hibisco em base de chá preto. Até chocolate com chá Inés inventa.

SERÁ QUE ESTAMOS DANDO ATENÇÃO A ESSA BEBIDA TÃO CHARMOSA?

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Estilo Em algum lugar do mundo, são cinco da tarde Estampada nas paredes da Tealosophy, essa frase ganha status de mantra. Escolha a hora e o local... it’s tea time somewhere! Um convite irrecusável, não importa o blend. A Rainha Elizabeth vai concordar comigo. Passou o tempo em que chá significava remédio da vovó. Minha avó também pensava assim. Para ela, chá era sinônimo de celebração. Por mais de 40 anos, Vó Maria fez parte de um grupo de amigas que se reuniam religiosamente toda quinta-feira para brindar à vida. Na mesa, muitas conversas, guloseimas maravilhosas e chá servido em belíssimas xícaras de coleção. Seu acervo está guardado na cristaleira da minha mãe e até hoje nos alimenta de lembranças. Melhor do que ser dia de chá na casa da Vó , era a gente ir pra lá na tarde seguinte e devorar as delícias que sobravam. Desde que ninguém quebrasse suas adoradas xícaras.

PARA MINHA VÓ, CHÁ ERA SINÔNIMO DE CELEBRAÇÃO

Chá de desaniversário Em “A Mad Tea Party”, Lewis Carroll faz sua famosa personagem Alice participar de um chá muito doido onde o Chapeleiro Maluco a ensina que é possível comemorar até mesmo os dias que não são seu aniversário. Na vida real, a comemoração também é liberada. Pode ser Chá de Fralda, Chá de Panela, Chá de Lingerie, Chá de Beleza. O chá serve de pretexto para chamar as amigas, ganhar presentes e fazer brincadeiras de gosto duvidoso. Inventaram até Chá de Bar para que os homens possam participar. Inclusive, uma noite dessas, em uma esquina movimentada de Porto Alegre, vi um homem barbado, maquiado e fantasiado pedindo dinheiro pra casar, enquanto seus amigos o fotografavam (os que conseguiam parar de rir). Sim, estão fazendo Chá de Despedida de Solteiro! Se bem que duvido que eles fiquem só no Earl Grey. O chá que assusta Obama “Tea Party” é o movimento ultraconservador que surgiu em 2009 nos Estados Unidos em oposição aos democratas. O nome resgatou um conhecido protesto do século 18 (“The Boston Tea Party”), em que colonos ingleses jogaram nas águas de Boston inúmeras caixas de chá da Companhia das Índias, criticando o governo britânico. Pra complicar a vida de Obama, a Festa do Chá voltou à tona. Um exemplo de como chá queima mais que o céu da boca. Chá-chá-chá O ritmo cubano poderia marcar a gostosa aceleração que a cafeína proporciona. No café ela é mais forte, mas no chá também ajuda. É chá-chá-chá em véspera de prova, pra

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estudar até mais tarde. Chá-chá-chá pra aguentar as horas extras. Chá-chá-chá pra não dormir depois do almoço e voltar inteiro ao trabalho. Chá purinho, chá com leite se você quiser bancar o inglês, chá com erva-mate se for um gaúcho inovador. Chá de saquinho, chá de infusão, chá de boldo, chá de macela recém-colhida, chá branco ou preto. Chá importado ou nacional. Tudo menos chá de cadeira e chá de sumiço, que essas expressões prejudicam a imagem da categoria. Da xícara à nécessaire E não é que um dos mais tradicionais chás orientais chegou ao Ocidente e virou pop? O chá verde em lata deve fazer alguns samurais se remoerem de raiva. Paciência. Só assim as novas gerações vão experimentar. É que nem água de coco em caixinha – não é a mesma coisa, mas é válido. A indústria da beleza também descobriu que o chá verde faz sucesso na versão creme. Isso porque ele é um excelente antioxidante, cem vezes mais potente que a vitamina C e 25 vezes mais eficiente que a vitamina E. Acompanhe os lançamentos e abasteça sua nécessaire com produtos que contenham extrato de chá verde. E até que provem o contrário, pode continuar fazendo aquele truque de usar saquinhos gelados de chá de camomila nos olhos para diminuir as olheiras. Rituais e lendas urbanas Preciso confessar que acho uma confusão esses rituais de infusão. Pra começar, chá e infusão têm propostas diferentes, não frequentam a mesma xícara. Pesquisei e fiquei sabendo que, para deixar a bebida mais forte, o certo é aumentar a quantidade de chá, e nunca o tempo de infusão. Também aprendi que a água não pode ser fervida. Adoro chá porque aquece a alma. E desrespeito muitas regras existentes. Provavelmente eu tomaria um chá mais gostoso se seguisse algumas delas. Como sou amadora, simpatizei com uma dica que diz o seguinte (preste atenção na complexidade do raciocínio): a temperatura da água está quente o suficiente quando você ainda consegue segurar a xícara nas suas mãos. Bem mais fácil!

CRIE SEU PRÓPRIO CERIMONIAL PRA CURTIR O CHÁ

Quente ou frio, mas com frescurinhas Se dê ao luxo de saborear o chá em grande estilo. Escolha uma jarra moderna ou um bule rococó. Crie seu próprio cerimonial com porta-saquinhos, colherinhas lindas, coadores sofisticados e, claro, muitos sabores de infusões. Lembre que garrafas térmicas não foram feitas só para abastecer o chimarrão. Existem opções incríveis. Sua mesa vai ficar convidativa com uma bela toalha e um porta-bolo com pedestal e tampa de vidro. Chá pede frescurinhas no inverno e verão. Se você me permite uma última sugestão, experimente tomar chá nem que seja depois de um vasto espeto corrido, só pra fazer a digestão. Estilo Zaffari

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O sabor e o saber FERNANDO LOKSCHIN

LARANJA, SEIO APOJADO Quando dizemos, geralmente como consolo, “a vida continua...”, fazemos uma assertiva cientificamente correta. A continuidade é o sentido da vida – o único. Viver é crescer e se multiplicar, perpetuar DNA. Não passamos de embalagens transitórias de genes imortais; temos pernas para que caminhem, genitália para que acasalem, boca para que comam. Embora o parentesco apareça só no ‘a’ inicial, ‘adulto’ significa ‘alimentado’. Crescer e se multiplicar dependem do comer. Somos o que comemos e o que nossos ancestrais comeram. O ser vivo, todas as suas células desde o ovo original, é alimento processado. Até mesmo memória, sentimentos e ideias são subprodutos da comida. Muito do corpo, construído e conservado pelo alimento, é por ele nomeado: vagina é ‘vagem’, úvula é ‘uva’, pineal é ‘pinha’, esperma é ‘semente’, ovário é ‘local dos ovos’, sinóvia é ‘clara do ovo’, malar (L. malum) é ‘maçã’. Há duas maçãs no rosto e um pomo de Adão no pescoço. Saliva vem de ‘sal’, pâncreas (G. kreo) é ‘todo carne’, placenta é ‘bolo’ e smegma, a secreção do pênis, é ‘sopa’. A semelhança fonética não é coincidência, fígado (L. ficatum) significa ‘alimentado com figos’ em latim, e amígdala é ‘amêndoa’ no grego. A recíproca é verdadeira, e a comida fala metáforas corporais. Há a cabeça e dentes do alho, o miolo do pão, as barbas do milho, a pele do pêssego, o pé de alface, a abóbora de pescoço e a laranja de umbigo. A laranja de umbigo, a variedade mais deliciosa, é brasileira. Surgiu no séc. XIX por mutação em uma única laranjeira de um convento de Salvador. Costume vitoriano importado, na época, o presente de Natal típico para as crianças era uma laranja. O laranjal do mosteiro, cujas frutas eram destinadas às crianças, acabou dando esse presente ao mundo. Os monges que discutiam se Adão e Eva tinham ou não umbigo acabaram testemunhando a criação de uma fruta com umbigo. O termo ‘umbigo’ é apropriado, uma vez que a protuberância característica é o esboço de outra fruta gêmea que cada laranja alberga dentro de si. 58

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Reproduzindo-se por mudas e enxertos, a nova laranja se espalhou pela Bahia e, em 1873, algumas mudas foram levadas para a Califórnia, de onde se disseminou, tornando-se a laranja de sobremesa mais consumida no mundo. Todas as laranjas de umbigo hoje existentes descendem daquele pé de laranjeira. A laranja de umbigo é a laranja na perfeição: com casca espessa e fácil de remover, de gomos fáceis de separar e sem sementes, possui o equilíbrio exato entre sumo e fibra, entre doçura e acidez. Ideal para o consumo fresco, essa variedade não se presta para suco: comprimida, forma logo um terpeno – a limonina – de sabor azedo. Os cítricos compõem uma família de árvores aromáticas perenes que produzem frutos ácidos. Originalmente os únicos frutos cítricos eram os avós da toranja e do pomelo. A laranja brotou do cruzamento entre o pomelo e a tangerina; todas as variedades contemporâneas resultam de séculos de seleção e cultivo. Essas plantas são nativas no sudeste da Ásia, de onde migraram para regiões subtropicais e climas temperados. Trocas comerciais (séc. VII A.C.) levaram a toranja desde o Himalaia até o Ocidente Médio. Laranja deriva do persa naranga a partir do sânscrito, naran gah, ‘laranja-árvore’. O francês orange surgiu por influência de ‘ouro’ (F. or) e sua relação com o amarelo. O ácido cítrico que dá o sabor à fruta tem o nome afim a cedro (G. kedros) pela fragrância das flores de laranjeira que lembram as do cedro. Os judeus na diáspora plantaram cítricos por toda a bacia do Mediterrâneo (séc. II A.C.). Os cruzados trouxeram as laranjas azedas de Jerusalém, e os portugueses, as laranjas doces desde a Índia. A chegada à Europa via Portugal fez com que, em vários idiomas, o país desse nome à laranja: búlgaro, turco e albanês, portokal, grego, portokali, árabe, al-burtuqal. Bem aclimatada na Sicília e Espanha, a laranja viajou para o novo mundo nas primeiras caravelas, aclimatando-se bem no México, sul dos Estados Unidos e Brasil.


DE LUZ O ácido cítrico dá o sabor ácido em todos os alimentos, se a alface tem pouca acidez é porque tem baixa concentração de ácido cítrico. Esta é a razão pela qual o limão parece complementar o peixe, da salada e a aguardente e a laranja parece enriquecer o pato, o feijão e a vodka. O maior produtor mundial de laranjas, um milhão de hectares plantados, o Brasil tem de laranjais a metade da superfície total de Israel. Setenta por cento de produção brota em antigos cafezais paulistas e destina-se à indústria de concentrado congelado do suco. A laranja é matéria-prima industrial. O óleo obtido pela prensagem da casca é aromatizante e flavorizante alimentar, um dos ingredientes da tão secreta fórmula da CocaCola. Solvente de gorduras, esse óleo é princípio ativo de cosméticos e detergentes. O albedo, a membrana branca que recobre a fruta, rica em pectina, é espessante de doces, geleias e alimentos processados. A pétala da flor de laranjeira é usada em perfumaria e o mel do seu pólen é dos mais valorizados. O tronco da laranjeira faz ótima lenha para grelhar carnes, e os longos espinhos de seus ramos, os melhores palitos e pinças para cutículas. No início do séc. XX, fruticultores caribenhos notaram que bananas guardadas junto a laranjas amadureciam antes, e os californianos perceberam que as laranjas mantidas próximas a uma lata com querosene ficavam mais amarelas. Os mistérios foram solucionados em 1940 quando se descobriu que o gás etileno, um hidrocarboneto, é produzido pela fruta para estimular o próprio amadurecimento. No trópico, a laranja não é laranja, é verde. É o frio que promove a mudança de cor. As laranjas industrializadas recebem etileno para que fiquem 'amarelinhas' e são recobertas por cera para que tenham mais brilho e menos desidratação. No tempo de Herodes as laranjas já eram cultivadas na Judeia; pomares de laranja e limões foram a primeira atividade econômica nos kibutz. A laranja de Jaffa, desenvolvimento conjunto de colonos judeus e árabes, é uma das va-

MOLHO DE LARANJA FRITE CEBOLA BEM PICADA. DESPEJE SUCO DE LARANJA. ADICIONE A NATA E AQUEÇA. TEMPERE COM SAL E PIMENTA. BORRIFE LASCAS DE CASCA DE LARANJA.

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O sabor e o saber F E R N A N D O L O K S C H I N

riedades mais saborosas da fruta, marca registrada sujeita inclusive a falsificação. Em 2009, o governo iraniano acusou o Mossad de terrorismo cultural: a venda de laranjas de Jaffa em seu território. Pontos de venda foram depredados até que se descobriu que as laranjas não eram sionistas, mas falsificações chinesas. Comida é política. Se os holandeses aumentaram o caroteno da cenoura para deixá-la cor de laranja em apoio a Guilherme de ‘Orange’, protestante em guerra com a Espanha católica (1568-74), os irlandeses católicos arrancaram as laranjeiras de seu solo em protesto ao protestantismo da Casa de ‘Orange’. Antes do introdução da laranja na Europa, não existia uma palavra para a cor de laranja, a cor era percebida como um matiz do amarelo. Reino da Casa de Orange, a cor holandesa é a da laranja, sua bandeira era antes laranja, branca e azul: o vermelho substituiu o laranja pela inexistência na época de um bom pigmento desse tom. Nova Iorque, antes Nova Amsterdam, manteve seu pavilhão nas cores laranja, branca e azul, as listas verticalizadas tal premonição do que ocorreria com a cidade. Nem toda laranja é amarela. O mais viajado dos amigos do autor por duas vezes devolveu o suco de laranja impecavelmente servido na Piaza de San Marco: o primeiro pensou estar misturado com morango, o segundo, com beterraba. O suco era da laranja sangue, que tem coloração vinhosa e produz um suco avermelhado com odor de frutas vermelhas. A ‘Laranja Mecânica’ (Clockwork Orange), título da novela de Burgess filmada por Kubrick, era uma gíria londrina com o sentido ‘estranho’, e foi escolhido pela contradição entre o orgânico e o mecânico. Celebrizado, o termo migrou para a seleção holandesa de futebol (de uniforme laranja) e a operação militar da Otan no Iraque. A laranja é do gosto dos escritores. D. H. Lawrence (1885-1930) enfrentava a depressão fazendo geleia de laranja – tanto o preparo do doce como a limpeza da cozinha lhe traziam conforto. A fruta era o prêmio educacional para o bom compartamento de R. L. Stevenson (1850-94) “and every day if I've been good / I get an orange after food”. ‘Laranja’ tem acepções entristecedoras. O Agente La-

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ranja, o desfolhante das plantações do Vietnam, surgiu do rótulo amarelo em contraste ao marrom do Napalm, o desfolhante de pessoas. O laranja, testa de ferro em uma fraude, surgiu do sentido de ‘pessoa sem importância’ que a fruta, pela abundância, assumiu. E a ideia de ‘mau maestro’ decorre das laranjas atiradas pela plateia ao vaiar um espetáculo... Linguagem, música e culinária são partes do mesmo elefante. Elis Regina teve o seu primeiro sucesso (1965) cantando o menino na feira: “Compra laranja, doutor, que ainda dou uma de quebra para o senhor”, e o refrão de Ataulfo Alves (1966) aproveitou o provérbio popular “Laranja madura / na beira da estrada / Tá bichada Zé / ou tem marimbondo no pé”. José Mauro de Vasconcellos, o predecessor de Paulo Coelho, publicou em 1968 o ‘Meu pé de laranja-lima’, o primeiro best seller internacional brasileiro. A poesia simbolista de Silveira Neto tem a sensual Canção das Laranjeiras (1901): “Laranjas maduras, seios pendentes / pela ramada, apojados de luz... Como se andasse o Cântico dos cânticos / abrindo-se em beijos no laranjal”. Um amor mais ingênuo, Emilinha Borba cantava em 1959: “Namoro e noivado, botões de laranjeira / felizes lado a lado, juntos a vida inteira”. Branca e perfumada, a flor da laranjeira é símbolo de inocência virginal e enfeita as grinaldas e buquês de noivas. No Vietnam a laranja é presente nupcial, e na China Imperial o pedido de casamento se fazia com uma laranja. Presente nupcial de Gaia para Zeus e Hera, os pomos de ouro das Hespérides, símbolo solar de fertilidade, seriam laranjas. Não falta até quem defenda a laranja como o verdadeiro fruto proibido do Éden – há toda uma iconografia do menino Jesus com uma laranja na mão, origem da tradição de presentear crianças no Natal com a fruta. Mas é na quadra infantil, a memória mais cristalizada, que a laranja tem o seu relicário: “Da laranja quero um gomo / Do limão quero um pedaço / Da morena mais bonita / Quero um beijo e um abraço”. FERNANDO LOKSCHIN É MÉDICO E GOURMET fernando@vanet.com.br


Benefícios Rico em vitaminas e minerais; Melhora da saúde digestiva;

Controla os níveis de colesterol; Baixo teor de calorias.

www.silvestrinfrutas.com.br

Foto: Jorge Rolla

Chegou o

Torta Infinita GIOCONDA (base lateral) - 115g de amêndoas torradas e trituradas - 8 colheres de sopa de açúcar - 30g de farinha de trigo - 4 ovos - 25g de manteiga - 2 claras - pão de ló

Modo de preparo: Na batedeira, misture as amêndoas trituradas, 7 colheres de açúcar, a farinha de trigo e acrescente os ovos aos poucos. Ao final, coloque a manteiga e bata mais um pouco. Reserve. Separadamente, misture na batedeira as claras com 1 colher de açúcar até crescer. Após, misture tudo em uma tigela com uma colher e largue por cima da cigarrete. Leve para assar em forno a 165º C por 5 minutos.

MOUSSE DE CHOCOLATE (recheio) - 250g de chocolate - 5 claras - 6 colheres de sopa de açúcar - 500g de creme de leite

Modo de preparo: Derreta o chocolate em banho Maria. Mistura as claras na batedeira colocando açúcar aos poucos até crescer. Em seguida, mexa com uma colher e coloque aos poucos o chocolate derretido. Na batedeira, bata o creme de leite até o ponto de chantilly e depois misture com o chocolate.

MOUSSE DE KIWI 200gr de polpa de kiwi 42gr de claras 18 gr de açúcar 68gr de açúcar para calda adicionado a 30gr de água para calda 168gr de creme de leite 15 gr Gelatina incolor sem sabor

Modo de preparo: Bater a polpa no liquidificador até formar uma pasta. Bater as claras em neve na batedeira. Colocar a mistura de açúcar e água na panela para fazer a clara para o merengue. Quanto estiver no ponto, acrescentar às claras. Dissolva a gelatina em água e misture a polpa. Acrescente ao merengue e bata o creme de leite em ponto de chantily. Agregar o creme de leite à polpa e ao merengue. Colocar a mousse em meia- esfera para dar o formato de bola e levar ao freezer por duas horas. Após retirar do freezer, unir as meia- esferas.

MOUSSE DE FRAMBOESA 200gr de polpa de framboesa 42gr de claras 18 gr de açúcar 68gr de açúcar para calda adicionado a 30gr de água para calda 168gr de creme de leite 15 gr de gelatina vermelha sem sabor 15 gr Gelatina incolor sem sabor

Modo de preparo: Bater a polpa no liquidificador até formar uma pasta. Bater as claras em neve na batedeira. Colocar a mistura de açúcar e água na panela para fazer a clara para o merengue. Quanto estiver no ponto, acrescentar às claras. Dissolva a gelatina em água e misture a polpa. Acrescente ao merengue e bata o creme de leite em ponto de chantily. Agregar o creme de leite à polpa e ao merengue. Colocar a mousse em meia- esfera para dar o formato de bola e levar ao freezer por duas horas. Após retirar do freezer, unir as meia- esferas.

MONTAGEM DA TORTA: A Gioconda será a estrutura lateral da torta. Por isso, meça a altura da forma (de preferência, com fundo removível) e corte-a. Forre o fundo com o pão de ló e acrescente o mousse. Leve ao freezer por 2 horas. Montar bolas com as mousses de kiwi e framboesa para decoração. Chef: Diego Andino

www.diegoandino.com.br


Viagem

Menu 62

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degustação

T E X T O E F O T O S P O R C R I S B E R G E R

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Viagem

CORES E FORMAS ÍMPARES NAS MONTANHAS


NA ROTA NACIONAL 68

Comer e beber! Vamos combinar? Duas das melhores coisas da vida! Não leve culpa na bagagem, apenas o desejo de conhecer a fundo Salta e Mendoza, duas importantes e belas cidades produtoras de vinhos na Argentina. A proposta? Brindar ao momento, descobrir novos rótulos e degustar Malbecs e Torrenteses. Deslumbrar-se com a natureza, conhecer a cultura e história de cada região e desfrutar de almoços e jantares longos, sem pressa, entre amigos e sabores. Salud! Salta la Linda Ahhh, Salta e suas belas montanhas com cores fortes e formatos irregulares! Desde os primeiros anos da escola os argentinos aprendem uma expressão muito bonitinha: “Salta la Linda”. No idioma aimará, Sagta (Salta) significa hermosa. E é isso mesmo! Num passeio pela praça principal, a Nove de Julio, e demais ruas da parte antiga você encontra um conjunto arquitetônico colonial, datado do século XVIII, perfeitamente conservado. Destaque para a Igreja e o Convento de São Francisco, construção no estilo neoclássico e declarada Monumento Histórico Nacional, sem dúvida a mais linda da pequena cidade. Outro programa imperdível é uma visita ao Museu de Arqueologia de Alta Montanha (MAAM). Fundamental solicitar a companhia de um guia do museu. Observar as múmias de Llullaillaco, os objetos encontrados com elas e entender o significado é básico para se deslumbrar

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À NOITE, SALTA FICA AINDA

com a história da civilização inca. Você se impressiona com o estado de conservação em que as três crianças foram encontradas e logo entende que isso se dá pela altitude e temperatura baixa do topo da montanha. O trabalho executado pelos arqueólogos é preciso e perfeito. Em um dia se visita a parte histórica da cidade, o museu de Alta Montanha e ainda dá para chegar a tempo de ver o entardecer de cima do Cerro San Bernardo. É possível ir de carro ou subir de bondinho (tipo Pão de Açúcar), o que acho mais divertido. Do topo se tem uma boa noção do Valle de Lerma e das altas montanhas que circundam a cidade. Espere o sol se pôr e não vá embora, a chegada da noite é o momento mais enigmático da visita. Apesar de a temperatura ser habitualmente quente e o clima seco, à noite esfria. Há diversas opções de acomodações pelas redondezas, eu fiquei no Del Vino Boutique Hotel, que agrega uma boa relação custo/benefício. O atendimento, feito pelos donos, é muito atencioso, os quartos são espaçosos e confortáveis e a localização é central. Cafayate, a terra do Torrontes Se você é do tipo explorador, vai gostar de alugar um carro e percorrer uma estrada cheia de curvas com paisagem de “revista”. Num percurso de quatro ou cinco horas (dependendo do número de paradas), você pega 66

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MAIS LINDA E ENIGMÁTICA


Viagem EM CAFAYATE, O CHARMOSO ALTO DE LA LUNA


O BRANCO TORRONTES É PRODUZIDO NA REGIÃO a Rota Nacional 68 e segue em direção a Quebrada de las Conchas, com destino final em Cafayate, a terra do vinho branco Torrontes. Todo o caminho é bonito, mas a segunda parte é de arrepiar os mais experientes viajantes deste belo planeta. Também pudera! De repente a paisagem começa a mudar de cor e o vermelho das montanhas desponta! Não são só as cores quentes da paisagem que explodem aos olhos, é o formato ímpar das montanhas! Há quem veja sapos, janelas, castelos, monges, talhados pela erosão do vento e da água nas rochas. Há 90 milhões de anos o mar estava ali, o que explica os sedimentos de animais marinhos e crustáceos. Um pouco antes de chegar à cidade de Cafayate está a vinícola Finca La Punilla. Pare para um almoço. Como a probabilidade de tempo bom é de 99%, peça para sentar ao ar livre, perto do forno de barro, de onde vêm as famosas empanadas salteñas. Foi justamente ali que eu provei o melhor vinho da viagem, um corte de Malbec, Cabernet e Tannat que ainda não chegou no mercado, nem nome tem, está envelhecendo em garrafa, e foi absolutamente surpreendente! A bodega é familiar e pequena. Pode-se fazer um tour possivelmente guiado pelo Mario, o dono e apaixonado por seus vinhos. Nesta altura do campeonato, o dia já deve estar

perto do fim, ao sair da vinícola e pegar a estrada estacione o carro, suba em uma colina e babe diante de um dos horizontes mais lindos que você certamente vai observar em sua vida! São montanhas em desnível, diferentes tons de vermelho e marrom, o rio correndo, nuvens entrando e saindo, levadas rapidamente pelo vento que sopra forte. Uma paisagem de marca própria e beleza surpreendente. A emoção está neste roteiro. O povoado de Cafayate é feito de casas simples, uma praça principal, as lojinhas de artesanatos, a igreja e... paramos por aqui. O que você mais vai gostar são as visitas às vinícolas, desfrutando do ritmo tranquilo da vida no interior e de um lugarzinho muito charmoso chamado Alto de la Luna: hotel que fica aos pés das montanhas, tem um visual incrível dos vinhedos, um restaurante que prepara um risoto de quinoa maravilhoso e uma ótima carta de vinhos. Tudo sob medida. Cheguei na hora mais linda do dia: o entardecer. O hotel tem também um SPA e logo ao chegar não tive dúvidas: fui agendar uma massagem, que, para meu deleite, foi nota dez. Faça do Alto de la Luna a sua base para visitar as vinícolas da região e dê um pulinho na Estancia de Cafayate Wine & Golf, condomínio de casas que tem um restaurante lindo, passeios a cavalo e cancha de polo, tudo aberto ao público.

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Viagem Mendoza, dona dos melhores Malbecs Próxima destino: Mendoza! O mais lindo da capital do Malbec é a proximidade com a Cordilheira dos Andes. O cenário é de cair o queixo, com aquele paredão gigantesco. Nevou? Aí que fica bonito mesmo! Mas não é apenas no inverno que Mendoza é apetitosa, em qualquer época do ano a cidade é uma boa pedida! Há trekking na Cordilheira para os mais animados, mais de mil vinícolas para visitar, restaurantes deliciosos e hospedagens aconchegantes! Pronto para desfrutar da vida em grande estilo? Organize sua agenda com almoços, jantares e degustações! Viva a gula! Para almoçar, eu sugiro três lugares: em Maipú, na Bodega López, que tem mais de cem anos, você encontra um restaurante moderno, bem decorado, pratos típicos locais, vinhos de guarda e direito a um tour pela vinícola. A Chaval Des Andes, em Tupungato, é perfeita para os dias ensolarados, quando se pode sentar nos degraus do deque que fica em frente à cancha de polo. Experimentamos divinas finger foods. A Chaval

NA TERRA DO MALBEC,

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PROXIMIDADE COM A CORDILHEIRA

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Viagem

UMA DELÍCIA DE ROTINA: ALMOÇOS, JANTARES,

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DEGUSTAÇÃO DE VINHOS, VISITAS ÀS BODEGAS atende grupos, então você terá que ser convidado para algum evento ou reunir a turma e reservar uma tarde por lá. Ideia aceita por Bono Vox, que pegou seu avião particular quando estava fazendo shows na Argentina e foi degustar alguns vinhos. Na Casa do Contratista, em Chacras de Coria, o clima é mais despojado. Ali há aulas de pintura e um pequeno restaurante especializado em pastas. A famosa Humita, feita com milho, é servida em panelinha de barro. Para jantar considere com louvor o 1884 Restaurant Francis Mallmann, o endereço gastronômico mais importante do chef argentino, mestre no cozimento com fogo alto. Possivelmente o melhor restaurante de Mendoza, junto à Bodega Escorihuela Gascón. Na badalada rua Sarmiento, reserve um lugar na adega do Azafran, que serve cozinha de autor e tábuas de queijos e frios. São mais de mil bodegas no vale, o que faz pensar que um retorno será inevitável. Para começar eu sugiro a

Salentein, no Vale de Uco, que, além de ter uma das caves mais exuberantes, produz grandes rótulos e tem uma galeria de arte incrível com esculturas ao ar livre. Menorzinha, com uma bela vista da Cordilheira, é a Renascer. A Trapiche, em Maipú, entra na categoria “surpreendente”, na sala de degustações o chão de vidro mostra as barricas, e os móveis modernos se harmonizam perfeitamente com o clima rústico do mundo dos vinhos. Para dormir você terá belas opções, desde o chique Hyatt no centro da cidade até o Cavas Wine Lodge, um Relais Chateaux supercharmoso em Luján de Cuyo, no meio dos parreirais. A Bodega Salentein tem sua pousada com quartos confortáveis, um jardim lindo e bom restaurante. E assim se passam os dias entre Salta e Mendoza, regados a bons Torrenteses e Malbecs, desfrutando da boa mesa, na companhia de um povo cordial, de “pousos” acolhedores, numa terra abençoada por vinhos nobres que inspiram a alma e fazem bem ao coração.

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Gusto

CARLA PERNAMB UCO

w w w. c a r l o t a . c o m . b r FOTO: FERNANDO BUENO

Pelotas, aqui vou eu! Nos últimos tempos viajo com frequência ao Rio Grande do Sul. Isso nem significa, pelo fato de ser gaúcha, uma "volta às raízes", já que me considero uma cidadã do mundo. Mas, impossível negar, é claro que o coração balança um pouco mais quando desembarco no aeroporto Salgado Filho. E desta vez, nem vamos comentar nada sobre Porto Alegre. Meu destino é Pelotas, a 270 quilômetros da capital. Pegue a cuia, o mate e... pé na estrada. Assim fui, bela e fagueira, na direção da terceira cidade mais populosa do sul do estado, a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira uruguaia. Quer coisa mais gaúcha? A bela Pelotas tem história(s) de sobra. Tudo começa no século 18, quando, próximo ao canal São Gonçalo, que une as lagoas Mirim e a dos Patos, os índios nativos da região atravessavam um arroio em "pelotas" de couro endurecido. As tais "pelotas" ("bolas", em espanhol) eram toscas adaptações de canoas e comportavam apenas uma pessoa (quando não afundavam durante o trajeto!). Décadas depois, no mesmo trecho das "pelotas", chegaram levas de fugitivos de Colônia do Sacramento, cidade portuguesa no Rio Prata que fora retomada pela Espanha depois do Tratado de Santo Ildefonso.

Em 1780, às margens do tal Arroio Pelotas, o português José Pinto Martins funda a primeira charqueada do extremo sul gaúcho. O charque, carne bovina seca e salgada, mudaria completamente o perfil econômico da região: despontam muitas fazendas, com centenas de colonos, feitores, escravos e gado. Do charque, vieram os curtumes. Dessa expansão toda, bastante riqueza. E Pelotas vira "capital" e referência do Rio Grande do Sul – quando Porto Alegre apenas engatinhava.

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Charqueados, cur tumes, pêssegos, arroz, leite, gado, bandeira com brasão. A grana que ergue (e destrói) coisas belas também deixou registros arquitetônicos da opulência dos pelotenses. Os mais abastados chegavam a enviar os filhos para estudar na Europa, gerando uma aristocracia rural rotulada de "fresca" pelos incultos (e incautos) invejosos locais. Estâncias, casarões, palacetes, avenidas largas, chafarizes da Escócia, teatros, carruagens, damas com joias, cavaleiros de car tola, igrejas ricas. Tudo isso completa 200 anos em 2012, bicentenário da fundação oficial de Pelotas.


ANDANÇAS POR PELOTAS

Hoje vale admirar, por exemplo, a Catedral São Francisco de Paula; os antigos engenhos de arroz; a imponente Biblioteca Pública; o chafariz "As Três Meninas", de 1873; a Igreja do Redentor, de 1892, anglicana e coberta por bela vegetação; o Grande Hotel, de 1928; o Mercado Municipal; o Museu da Baronesa; e a Caixa d'Água, de 1875, ainda em serviço. Isso sem contar as dezenas de monumentos e esculturas que se espalham pela cidade. Entretanto, fui também a Pelotas para louvar as suas delícias gastronômicas. Fora a questão dos doces, considerados os melho-

res do Brasil (e comercializados na imensa feira anual Fenadoce), cada esquina pelotense revela sabores distintos. A cozinha local tem forte influência portuguesa dos imigrantes açorianos e dos alemães pomeranos, ao lado de conexões com receitas de conventos, fazendas e cozinhas de iaiás. Pra começo de conversa, desço na cidade e já corro ao Delícias Por tuguesas. Brindo a minha chegada com um cálice de Porto, enquanto espero por bolinhos de bacalhau ou tortinhas de queijo. No mesmo local, os doces são de comer rezando: do espetacular Pudim Omolotoff às pa-

Para um lanche elaborado, indico o Café Aquário, fundado há 50 anos. Além das opções baristas, os sanduíches são o máximo. Prove o Recheada de Presunto (imenso, apenas R$ 3,30!) ou o Pão de Leite com Ovo. Nada melhor do que coisas simples e saborosas, que não complicam o paladar. A casa ainda oferece refeições completas, à la carte, acompanhadas de arroz, batatas fritas, tomate e alface. De lamber os beiços. Chega, finalmente o grand finale: o encontro com os doces de Pelotas. Prepare-se espiritualmente. Ou faça dieta vários dias antes. Ninguém deixa de sucumbir às tortas e doces da Confeitaria Salinas, instalada numa simpática casa centenária. Ali se ocultam segredos como a perigosíssima Torta Mista, que são várias em uma: torta de chantilly, suspiro, torta de brigadeiro e beijinho doce. Precisa falar mais? Só em Pelotas existe algo assim, tchê.

nelinhas de coco, das Fatias de Braga aos quindões: tudo é sublime. Para se conhecer um cardápio inteligente, vá direto ao Amor Amora, endereço especializado em comida "ar tesanal". Irresistíveis a sopa de tomate fresco com camarões, as casquinhas de siri, o rondelli de espinafre com molho de manteiga e alcaparras, os legumes aromatizados ao forno ou o filé de peixe crocante com molho de frutas vermelhas picantes. De sobremesa, que tal o merengue de amoras ou a torta chocólatra com geleia de amoras? No comments.

DELÍCIAS PORTUGUESAS

Rua General Osório, 759-A. Tel.: (53) 3222-3947

AMOR AMORA

Rua Dom Pedro II, 45. Tel.: (53) 9123-4575

CAFÉ AQUÁRIOS

Esquina das ruas Sete de Setembro e XV de Novembro. Abre todos os dias, das 7h às 23h.

CONFEITARIA SALINAS

Rua Gonçalves Chaves, 202. Tel. : (53) 3227-4186

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Bom conselho POR

MALU

COELHO

RITUAL DE INVERNO

O friozinho chega e com ele vem a vontade de reunir os familiares e amigos para aproveitar as delícias da mesa. E, é claro, lembramos de um costume que caiu no gosto de todos, muito divertido e saboroso: preparar uma noite de inverno à base de queijos e vinhos. Comece escolhendo com cuidado o que será oferecido, observando o tipo de queijo de acordo com o vinho proposto. Algumas regrinhas básicas: se o queijo for cremoso (brie, camembert), opte pelo vinho branco seco, de boa estrutura; se usar queijos neutros (prato ou mussarela), ofereça vinho branco, ligeiramente adocicado; já os queijos frescos (minas frescal, meia-cura, catupiry) combinam com um vinho tinto leve, ligeiramente ácido; queijo duro como o parmesão cai bem com vinho tinto robusto. Nessa escolha, porém, o mais importante é levar em conta as preferências dos seus convidados, para que a degustação seja a mais prazerosa possível. Comece pelos queijos de sabor mais suave, deixando os mais fortes para o final. Entre os mais procurados para essas ocasiões estão: brie, camembert, emmental, gorgonzola, gouda, gruyére, parmessão e provolone. Em uma reunião com poucos convidados, quatro opções de queijo são suficientes. Para um grupo de 20 a 30 pessoas, ofereça até seis tipos de queijos de famílias diferentes, como mofo branco, mofo azul, casca tratada, massa cozida, chèvre e duros. A quantidade estimada é de 150 a 250 gramas por pessoa. APROVEITE ESTAS OUTRAS DICAS PARA O SUCESSO DE SUA MESA DE QUEIJOS E VINHOS: Escolha os ingredientes começando pelo vinho ou vinhos que serão servidos. Retire os queijos da geladeira 30 minutos antes de servir, para que eles adquiram sua textura e sabor original. Os queijos devem ficar dispostos inteiros, em tábuas e sem a embalagem. Cuide para que os queijos não fiquem encostados um nos outros, interferindo no sabor. Use facas com lâmina lisa, nunca de serrilha, para facilitar o corte e não danificar o queijo. É interessante que cada tipo de queijo tenha uma faca própria. Sirva pães neutros (baguete, pão italiano, preto ou de centeio), não ofereça pães recheados ou com temperos fortes, pois interferem no sabor dos queijos. Prefira frutas frescas (pera, maçã e uvas) e secas (passas, damascos e cerejas). As cítricas devem ser evitadas, pois alteram a percepção dos sabores. Ofereça água fresca ou gelada, nunca refrigerantes. Quem gosta de cerveja pode resolver a questão com uma pilsen ou uma alen encorpada. Não esqueça que o mais importante do ritual desse encontro com queijos e vinhos é receber seus convidados com carinho, deixando-os à vontade para que participem da informalidade da reunião e desfrutem dos sabores e cores da mesa que você mesma preparou com tanta dedicação. Acima de tudo, divirta-se com as pessoas que você quer bem, aproveitando mais um inverno bem quentinho!

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Casa

Guardiãs

das nossas

histórias PAREDES, JANELAS, PORTAS E TELHADO. É APENAS DISSO QUE UMA CRIANÇA PRECISA PARA RABISCAR UMA CASA. MAS POUCO TEMPO DEPOIS ELA CRESCE E PERCEBE QUE DENTRO DA SUA MORADA HABITA UMA HISTÓRIA DE VIDA CONSTRUÍDA CONTINUAMENTE, SEM PRESSA, DIA APÓS DIA. NESSE MOMENTO, JANELAS E PORTAS TRANSFORMAM-SE EM IMENSAS ABERTURAS POR ONDE FLUEM O IR E O VIR NATURAL DA VIDA. AS CASAS TORNAM-SE AS GUARDIÃS DAS NOSSAS HISTÓRIAS. NA SERRA GAÚCHA, EM CANELA, HÁ UM SOBRADO ASSIM, INTIMISTA, REPLETO DE BOAS NARRATIVAS. OBJETOS, ARTE E CHEIRINHO DE TORTA DE MAÇÃ TORNAM PALPÁVEL AQUILO QUE PARECE INTOCÁVEL. BEM PERTINHO DALI, EM GRAMADO, UMA OUTRA RESIDÊNCIA ACABA DE SER CONSTRUÍDA E, APESAR DE JOVEM, JÁ COMEÇA A TECER A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA. ESSES DOIS LEGÍTIMOS REFÚGIOS NA SERRA TÊM UMA MISSÃO EM COMUM: PRESERVAR O QUE EXISTE DE MAIS VALIOSO PARA SEUS MORADORES E PARA AS GERAÇÕES QUE AINDA VIRÃO. POR FOTOS

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IRENE

MARCONDES

LETÍCIA

REMIÃO


Casa

RELÍQUIAS DÃO VIDA


Casa com alma de artista

Uma família de arquitetos e artistas plásticos deu vida a esta casa erguida há mais de 40 anos, em Canela. Tudo começou quando a matriarca Zaira de Assis Dalle Ore resolveu que era hora de construir um refúgio para reunir os familiares e amigos. Não importava a estação – inverno ou verão – , lá estavam eles reunidos no charmoso sobrado de dois andares, com pé de limoeiro no quintal. Até hoje, em cada recinto repousa uma infinidade de objetos carregados de memórias. São heranças de família. Verdadeiras relíquias daquilo que melhor resume suas histórias (muito bem) vividas. “Praticamente tudo que possuímos aqui veio de outras gerações”, revela Ana Braga, filha da matriarca Zaira e esposa do renomado arquiteto gaúcho Luiz Braga Florêncio. Artista plástica formada, ela mudou-se de Porto Alegre para Canela há 11 anos e transformou a moradia de férias em endereço permanente. Projetou um ateliê anexo à casa. Mas para não agredir a arquitetura original teve o cuidado de resgatar antigos tijolos acumulados em um antiquário de Farroupilha – exemplares idênticos aos usados na construção décadas atrás. Nesse novo espaço, repleto de tintas, pincéis, crayons e outros materiais cheios de cor, de cheiros e de personalidade, esparramam-se mesas apoiadas em seus cavaletes. Nas paredes, as aquarelas da artista, fixadas de modo despretensioso, preenchem o

AO REFÚGIO DA FAMÍLIA EM CANELA Estilo Zaffari

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AMBIENTES INTIMISTAS, LUZES SUAVES E UM AROMA DA TORTA DE MAÇÃ 82

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ateliê e capturam o olhar atento dos observadores. As referências que ajudam a construir tão talentosos trabalhos vêm de todos os lugares: viagens, experiências de vida e livros – muitos livros. Na sala de estar há uma estante coberta por eles. Ela guarda exemplares raros – não necessariamente valiosos, mas riquíssimos em histórias e conhecimento. No quarto, a cadeira antiga acomoda outros tantos volumes, e o baú, no corredor, encerra outros mais. “A decoração por aqui não é estática”, revela Ana. “Pelo contrário. Mudamos tudo de lugar quando nos apetece”, afirma. Ela sempre leva em conta os palpites da filha e arquiteta Adriana Dalle Ore, que não é filha única. Ao todo são quatro filhos e quatro netos, que preenchem a casa aos finais de semana. No quarto de visitas hospeda-se quem chegar primeiro. Bonequinhas na parede, feitas pela própria Ana Braga, deixam o ambiente intimista. A luz suave que invade a janela e faz desabrocharem as mudas de mimosa é um destes presentes que só desfruta quem tem o privilégio de passar por ali. O cheirinho de torta de maçã no ar faz parte dos aromas da casa. Assada no fogão a lenha, a delícia adoça as tardes frias do inverno de Canela. A família revela a receita e dá a dica – o único segredo é fazê-la com carinho.

RECEITA DA TORTA DE MAÇÃ TARTE DE GRAND MÈRE GARNITURE 1 KG DE MAÇÃ 80 G DE PASSAS 2 COLHERES (SOPA) DE RUM 80 G DE MANTEIGA 200 G DE AÇÚCAR 1 SACHÊ DE AÇÚCAR DE BAUNILHA 1 OVO PARA DOURAR PATÊ BRISÉE 200 G DE FARINHA 100 G DE MANTEIGA 1/2 COLHER (CAFÉ) DE SAL 60 A 80 G DE ÁGUA 1 COLHER (SOPA) DE AÇÚCAR

Modo de fazer o Garniture: Mergulhe as uvas passas no rum por pelo menos 15 minutos. Descasque as maçãs e corte em fatias. Derreta a manteiga numa frigideira. Assim que ela ficar com uma cor dourada, coloque as maçãs, o açúcar e o açúcar de baunilha. Cozinhe por alguns minutos e acrescente as passas maceradas no rum. Observe o cozimento em fogo médio. Mexa com frequência. As maçãs devem formar uma compota ligeiramente caramelizada. Deixe esfriar. Modo de fazer o Patê Brisée: Esfarele a manteiga com a ponta dos dedos faça um furo na farinha. Junte o sal e o açúcar e o suficiente de água para formar uma bola. Deixe repousar. Espiche a massa e reserve no mínimo 1/4 para cortar as tirinhas de 1/ 2 cm de largura que servirão para decorar o doce. Forre uma forma de torta de 24 cm de diâmetro previamente untada e enfarinhada. Guarneça a massa com a compota fria. Decore com as tirinhas de massa. Cozinhe no forno razoavelmente quente. Tempo de preparação: 1 hora. Tempo de cozimento: 30 min.

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Arquitetura com inspiração inglesa A fachada desta residência construída há pouco mais de dois anos em um condomínio de Gramado transborda elegância e formalidade – características bem britânicas das quais a arquiteta Angela Kuhn quis tirar partido. O terreno com mais de 2.400 m² de área, cravado no coração do vale da serra gaúcha, acomodou um projeto arquitetônico que privilegia uma planta funcional. Bem-distribuídos, os ambientes preenchem mais de 540 m² de área útil e exibem imensas aberturas voltadas para o verde. Aproveitar a vista exuberante era premissa básica e por isso a arquiteta traçou uma casa comprida e pouco profunda. Só de testada são 32 metros de comprimento. Um imenso deck construído no jardim acompanha toda essa extensão, proporcionando um espaço para contemplação da vista da serra. É nesse cenário que a família de jovens profissionais liberais de Porto Alegre pretende ver seus dois filhos crescerem. “O projeto dessa residência está baseado em três pilares: conforto, aconchego e convívio”, pontua Angela. No item conforto ela destaca a preocupação com o aquecimento da casa e com a boa vedação. Vidros duplos garantem a retenção do calor proporcionado pela calefação. Piso de madeira tauari também aquece não só o sentido do tato, mas o da visão. “A madeira é quente sob todos os aspectos”, diz. Conforto também significa fácil manutenção. Por isso, esquadrias de PVC emolduram as grandes aberturas da casa. Mas elas ficam ocultas

PROJETO VALORIZA O ACONCHEGO, 84

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O CONFORTO E O CONVÍVIO FAMILIAR Estilo Zaffari

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Casa

EM GRAMADO, UMA CASA ABERTA PARA

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A NATUREZA E A VISTA EXUBERANTE por belos arremates de madeira no padrão demolição. O aconchego aparece sob os mais variados aspectos, que vão desde os detalhes como a cor camurça das paredes até o toque macio dos tecidos de lã que fazem composê na sala de jantar. Por fim, o convívio. Aqui, a integração da planta é ponto fundamental. A sala de estar com lareira interage com o ambiente de leitura, que por sua vez fica ao lado da sala de jantar. Basta abrir as portas de correr e todas essas peças ficam automaticamente integradas à cozinha. Individualidade apenas para os hóspedes, que ganharam uma suíte com apoio de frigobar e pia em um espaço reservado. Intimista também é a adega, escavada no subsolo, onde as condições para a preservação dos vinhos são perfeitas. Nas paredes, um mosaico de tijolos encaixado criteriosamente não deixa o rejunte aparecer, tornando o espaço mais sofisticado. Luxo também no jardim, que conta com SPA, banheira de hidromassagem e aparelhos de ginástica. Mas o melhor está ao lado – um fogo de chão rodeado por bancos de madeira e futtons. É ali que brotam as melhores conversas e é dali que sairão as boas histórias que essa casa começa agora a tecer.

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Lugar

Miami


em famĂ­lia P O R

F O T O S

A L E X A N D R A

A L E X A N D R A

A R A N O V I C H

E

A R A N O V I C H

D A N

B E R G E R


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No início deste ano, realizei o sonho de levar meus filhos pequenos a Orlando. Enquanto planejava a viagem (como podem imaginar, eu estava repleta de expectativas e empenhada em listar inúmeras atividades para a nossa maratona Disney), meu marido só me questionava quando teria tempo para o necessário descanso de final de ano. Para ele, e para muita gente, férias não são sinônimo de uma agenda lotada de programações, ainda mais com crianças a bordo. Foi assim que o Ritz-Carlton South Beach acabou entrando em nosso roteiro, abrindo com chave de ouro o circuito de 12 dias na Flórida. Eu, que nunca fui de investir em um hotel de luxo com crianças, tive que me render... Quero mais! Foram apenas três dias, mas poderiam muito bem ter sido cinco ou dez só para desfrutar um pouco mais da melhor localização de Miami Beach e da estrutura impecável do hotel. O carro alugado nem saiu da garagem, já o carrinho de bebê deu voltas pelo calçadão da Lincoln Road. Os dias ensolarados estiveram a nosso favor, confirmando que praia & sol são tudo nas férias em família, ainda mais cercados de um plus de luxo: mordomias mirins. Os VIKs (Very Important Kids) – como são chamados os pequenos hóspedes no Ritz – estão presentes até no menu de tratamentos do famoso SPA do hotel. Por favor, crian-

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ças, não se acostumem. A vida nem sempre é um RitzCarlton South Beach. Lincoln Rd, número 1: entre obras de arte e a imensidão azul caribenha De um lado, o deslumbrante mar caribenho; de outro, a fervilhante Lincoln Road, uma rua fechada para pedestres com dez quadras de lojas, restaurantes, galerias, cinemas, teatro e supermercado. Por lá, é difícil saber onde termina um café e começa outro. O Ritz-Carlton South Beach é o número 1 da Lincoln Road, e, pasmem, apenas um convidativo boardwalk separa a praia da área da piscina. Antes de virar o Ritz-Carlton (restaurado à perfeição em 2003), o prédio abrigava o imponente DiLido – um dos hotéis-resorts projetados na década de 50 pelo revolucionário arquiteto modernista Morris Lapidus, também responsável pelo Fontainebleau. O Ritz-Carlton se orgulha de preservar grande parte da arquitetura original de Morris Lapidus, como o impressionante painel luminoso em curvas do lobby, intitulado Wall of Lights. Respira-se arte: uma coleção de 10 milhões de dólares em pinturas, esculturas e fotografias decoram os ambientes, incluindo um Juan Miró legítimo. Em dezembro, o hotel participa ativamente da programação da Art Basel – a mais importante feira de arte dos Estados Unidos –, abrindo suas


DEPOIS DOS VIPS, É A VEZ DOS VIKS (VERY IMPORTANT KIDS): MORDOMIAS E MUITOS MIMOS Estilo Zaffari

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Lugar

APENAS UM CONVIDATIVO BOARDWALK SEPARA A PRAIA DA ÁREA DA PISCINA DO RITZ MIAMI 92

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portas para exposições e eventos badalados. Muitas dessas curiosidades sobre o Ritz-Carlton South Beach eu descobri com os meus filhos lendo trechos da revista ilustrada de atividades e pintura que é entregue para essa turminha privilegiada logo no check-in. Onde aqueço a mamadeira? As facilities de um andar exclusivo Na chegada fomos agraciados com uma surpresa: o Club Lounge, um andar exclusivo que conta com uma sala de estar envidraçada e um visual da praia de tirar o fôlego. O cartão magnético do nosso quarto abria as portas para o café da manhã, jornais, vinhos, drinks, lanches e um profissional sempre pronto para ajudar no que for preciso. Foi lá que conhecemos a brasileira Pricilla Mendonça, Concierge do Club Lounge. Pricilla fez reservas em restaurantes, esquentou a mamadeira do meu filho e me deu a grande dica: levar lanchinhos do Club Lounge em embalagens especiais à piscina (farofa de luxo!). Detalhe: soube que ninguém menos do que Angélica e Luciano Huck passaram o final de ano com os “herdeiros” no hotel, e aproveitaram um bocado da discrição e das facilities do Club Lounge. Conclusão: celebridade ou não, mordomias assim são uma mão na roda para qualquer família.

Da piscina para a praia, da praia para a piscina O amanhecer era um convite para colocar o pé na areia e curtir as espreguiçadeiras e a estrutura montada para entreter a garotada VIK na praia. Pacotes de recreação por hora ou turnos são oferecidos aos pais que querem uma tranquilidade a mais (funciona também com uma aulinha de inglês!). Confesso que o meu ponto alto e zen foi algo aparentemente fútil: relaxar numa VIP Bed – camas gigantes ao redor da piscina. Uma tarde por lá com a família, embalada ao som da seleção do DJ do hotel, fez mais efeito na minha alma do que qualquer massagem. O Menu Kids e a cozinha mediterrânea com vista para o mar do DiLido O cardápio infantil faz parte da atenção que as crianças recebem. O bom e velho bife, arroz e fritas não constam no Kid’s Menu, mas o pessoal dá um jeitinho de prepará-los para os seus filhotes. O molho de tomate – do macarrão kid’s – foi o único durante toda a viagem em que a pimenta forte não deu o ar de sua graça caliente. Entre as refeições feitas no Ritz-Carlton, a mais memorável foi a do DiLido Beach Club – único restaurante de Miami praticamente dentro da praia. A presença de amigos, é claro, deu um sabor ainda mais especial a essa confraternização

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Lugar

(Dan Berger, autor de grande parte das fotos deste relato, estava por lá com a família). A cozinha mediterrânea do DiLido é orquestrada pelo celebrado Chef Josh Becker e por seus ingredientes frescos e orgânicos de produtores locais. O aroma e o sabor dos falafels de entrada nos levaram às alturas. Suspiramos em coro por diversas vezes. O flatbread – espécie de pizza mediterrânea – de cordeiro com molho de iogurte e cebolas carameladas era de fechar os olhos, respirar fundo e propor um brinde ao glorioso encontro de amigos no melhor ponto à beira-mar de Miami. Os dias de paz em Miami deixaram saudades e nos encheram de fôlego para enfrentar a correria dos parques de Orlando. Aliás, Mickey, Minnie e a família deveriam passar uns tempos no Ritz-Carlton South Beach. O playground: as atrações da Lincoln Road No mundo encantado das compras e mais compras, há atrações sob medida para as crianças em Miami, como os parques do Miami Seaquarium e Jungle Island, as piscinas e tobogãs do Flamingo Park ou o o interativo Miami Children's Museum. Mas me arrisco a dizer que duas diversões garantidas estão coladinhas no Ritz-Carlton: a praia e a Lincoln Road, um mall de pedestres a céu aberto. A rua é uma passarela efervescente de turistas, crianças, feirinhas, galerias de arte, moda, cultura e tendências. O

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fim de tarde é o melhor momento para caminhar no calçadão ou sentar em uma das mesas charmosas da rua. O agito principal se concentra da Washington Avenue à Alton Road. Ao lado do Ritz-Carlton, um Walgreen 24 horas ou uma CVS suprem a carência por qualquer bugiganga ou guloseima. As marcas queridinhas dos brasileiros – como Gap, Apple, Victoria's Secret, entre outras – estão todas lá. Contudo, o melhor mesmo é focar a atenção nas lojas-conceito, nas galerias ou nas atrações gastronômicas que esta “Quinta Avenida de Miami” oferece. Ah, se bater a vontade de fazer a Lincoln Rd (ou talvez o calçadão de South Beach) de bicicleta, skate ou rollerblades, corra para a Fritz Skate, Bike and Surf.

SERVIÇO MIAMI SEAQUARIUM – 4400, RICKENBACKER CAUSEWAY, KEY BISCAYNE. MIAMI CHILDREN'S MUSEUM – 980, MACARTHUR CAUSEWAY. JUNGLE ISLAND – WATSON ISLAND, NO LADO NORTE DA MACARTHUR CAUSEWAY. FLAMINGO PARK – MICHIGAN AVENUE, 1245. RITZ-CARLTON SOUTH BEACH – ONE LINCOLN ROAD /MIAMI BEACH. FONE: 00 11 (786) 276-4000. DIÁRIAS A PARTIR DE US$ 329 DE MAIO A SETEMBRO.


DILIDO BEACH CLUB, O ÚNICO RESTAURANTE DE MIAMI PRATICAMENTE DENTRO DA PRAIA Estilo Zaffari

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Lugar

MAPA DA DIVERSÃO NA LINCOLN ROAD MAIS INFORMAÇÕES EM: WWW.LINCOLNROADMIAMIBEACH.INFO

LOJAS FRITZ SKATE, BIKE AND SURF Washington Ave, 1620 (com Lincoln Rd). Aluguel de bicicletas, roller e skate. CROCS STORE Lincoln Rd, 521. Grande variedade de bottons divertidos para as crianças enfeitarem seus Crocs. APPLE STORE Lincoln Road, 738. BCBG MAX AZRIA Lincoln Rd, 744. Loja feminina perfeita para comprar trajes de festa. POTTERY BARN Lincoln Rd, 1045. Famosa rede de decoração, móveis e objetos para casa. ALL SAINTS Lincoln Rd, 910. Grife inglesa com looks jovens e descolados. GAP KIDS Lincoln Road, 1001. WILLIAMS SONOMA Lincoln Rd, 1035. Loja de utensílios e acessórios para os apaixonados por gastronomia. ANTHROPOLOGIE Lincoln Rd, 1108. 1111 LINCOLN RD Lincoln Rd, 1111. Prédio moderno concebido pela famosa dupla sueca Herzog & de Meuron. Local de lojas como Y3, livraria Taschen, Mac Cosméticos, Osklen, Nespresso, Alchemist, entre outros. 96

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RESTAURANTES E CAFÉS PAUL BAKERY CAFE Lincoln Rd, 450. STARBUCKS Lincoln Rd, 605. TIRAMESU Lincoln Rd, 721. Restaurante com ambiente family-friendly e delicioso cardápio italiano. VAN DYKE CAFE Lincoln Rd, 846. Para shows de jazz e excelente cardápio americano. GHIRARDELLI CHOCOLATE Lincoln Rd, 801. Parada obrigatória para os chocólatras. PASHA'S RESTAURANT Lincoln Rd, 900. Comida saudável da culinária mediterrânea a preços convidativos.

NESPRESSO BOUTIQUE BAR Lincoln Rd, 1108. Um coffee bar design que vale a visita. SEGAFREDO ESPRESSO Lincoln Rd, 1040. Point para ver e ser visto, as poucas mesas vivem lotadas.

ARTE E LAZER

MERCADOS

ROMERO BRITTO ART GALLERY Lincoln Rd, 818. Galeria do artista brasileiro famoso no mundo inteiro.

WALGREEN Lincoln Rd, 100.

THE FILLMORE MIAMI BEACH 1700 Washington Avenue REGAL SOUTH BEACH Lincoln Road Mall, 1120. Várias salas de cinema.

CVS PHARMACY Lincoln Rd, 306. EPICURE GOURMET MARKET Alton Rd, 1656 (no final da Lincoln Rd). Um incrível empório gourmet. Estilo Zaffari

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Ser & Vestir ROBER TA GERHARDT

BARBA E BIGODE, ACESSÓRIOS DE ESTILO

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SE VOCÊ NÃO GOSTA DE REVELAR A IDADE, ESQUEÇA O VISUAL "RÚSTICO COOL", POIS NÃO HÁ NADA QUE ENVELHEÇA MAIS DO QUE UMA BARBA OU UM BIGODE POR FAZER.

dicas

O visual barbudo está realmente na moda e parece que vai durar por um bom tempo! Tudo começou quando ídolos teens passaram a fazer uso desse recurso com a justificativa de que a imagem de “cara de bom-moço” é chata e passa uma imagem de algo inventado. Não concordo com o argumento, mas o fato é que despertou a idéia também nos mais velhos, fazendo com que, hoje, a barba e o bigode sejam parte do visual do homem que está antenado com as tendência internacionais. Mas nem todo mundo entende assim. Já escutei casos de padrinhos de noivos em plena cerimônia serem questionado se iam entrar na igreja usando barba por fazer! Sem entrar em detalhes de deselegância de quem fez tal pergunta ao rapaz, cá entre nós: a única coisa que me vem à cabeça é "Pobre desinformação!" Ainda que o casamento seja uma cerimônia extremamente tradicional, onde os rituais são chave e inclusive devem ser preservados em nome da sua sobrevivência, a atualização também é fundamental! E não mata nenhum rito de passagem. Barba e bigode, cavanhaque, tudo com um jeito displicente proposital, já é um acessório de estilo para o homem contemporâneo. Então, se você é adepto, use e abuse. Se você ainda não experimentou, tente. É bacana brincar com a aparência, e o rosto pode ser um excelente meio do qual poucos homens se apercebem. Afinal, está comprovado: o visual um tanto rústico e dando a impressão de “sem frescura” faz sucesso no mundo todo.

SE VOCÊ PRETENDE ADOTAR O VISUAL "SEM FRESCURA MODERNO", OU SEJA, SE VOCÊ QUER UMA BARBA "POR FAZER" É FUNDAMENTAL CONSULTAR PRIMEIRO UM BOM PROFISSIONAL DE VISAGISMO OU MESMO O SEU BARBEIRO, CASO O ESPELHO O DEIXE COM DÚVIDAS. PARA FICAR CHARMOSO VOCÊ PRECISA ADOTAR UM VISUAL CONDIZENTE COM O SEU FORMATO DE ROSTO E PESCOÇO. ISSO GERALMENTE NÃO É LEVADO EM CONTA. MAS EXISTE UM ESTILO PERFEITO PARA CADA FORMATO DE ROSTO, É SÓ SABER O SEU!

PARA CRIAR AINDA MAIS ESTILO AO SEU VISUAL "RÚSTICO COOL", USE E ABUSE DE ROUPAS TRADICIONAIS, DE MUITA ALFAIATARIA EM TONS ESCUROS E CLÁSSICOS. O SEGREDO DO ESTILO É CRIAR UMA ESPÉCIE DE PARADOXO. NESTE INVERNO, ABUSE DOS CLÁSSICOS, COMO SOBRETUDOS E PALETÓS DE RECORTES E CORES SÓBRIAS, COM GRAVATAS E CACHECOL ESTILOSO. DESSA FORMA, QUALQUER UM ENTENDE RÁPIDO QUE A BARBA NÃO FOI ESQUECIDA, ELA É APENAS UM RECURSO PARA SAIR DO ÓBVIO E BRINCAR CONSIGO MESMO, AFINAL, É PARA ISSO QUE O ESTILO TAMBÉM EXISTE!


TER UM ESTILO PESSOAL É UMA CONQUISTA! Nunca a juventude foi tão valorizada como neste início de século. É uma tal de fuga da realidade que parece que as pessoas esqueceram do valor e do prazer que a experiência e o tempo podem de fato lhes trazer em todos os sentidos, inclusive no estilo pessoal. Antigamente, parecer mais velho era sinal de sucesso. As crianças desde pequenas se vestiam como adultos em miniatura, e ter bons modos, seguindo os padrões “dos adultos”, era o mesmo que ser bem-educado. Hoje, isso mudou. É cada vez mais comum ver adolescentes ditando modismos para os mais velhos, assim como é comum ver mães usando as roupas das filhas ou buscando, numa competição velada, parecer irmãs das filhas! Talvez por isso, hoje em dia, ter estilo pessoal é uma conquista de poucos. A massa da sociedade desperdiça o que mais torna uma pessoa com um estilo único e inconfundível: a sua história! A passagem do tempo revelada na imagem que projeta, com as marcas de memórias boas e ruins que, somadas, criam um jeito único, uma marca realmente intransferível. Ter estilo pessoal exige assumir-se com os pés no chão, com coragem, pois a passagem do tempo e as marcas que isso nos traz no corpo e na mente ajudam nas nossas escolhas. E ter estilo também é uma questão de escolha. Porque estilo pessoal não é só imagem, é também comportamento, é autoestima, é a tal da atitude! Seja livre! Seja você!

ANTECIPE TENDÊNCIAS DO VERÃO 2012 E INCLUA NO SEU GUARDA-ROUPA DE INVERNO PEÇAS DE COURO RECORTADO, PRINCIPALMENTE SAIAS DE COURO, E COMBINE COM PAETÊS NUM LOOK FESTIVO. FUJA DO PRETINHO BÁSICO E INVISTA EM ROUPAS DE CORTE CLÁSSICO EM TONS DE CAMELO, CARAMELO, BEGE. ELES SÃO BONS CURINGAS, POIS FAZEM EXCELENTES COMBINAÇÕES COM UMA GRANDE PALETA DE CORES, PRINCIPALMENTE COM OS TONS FORTES, SEM CAUSAR TANTO CONTRASTE COMO O PRETO. MAS LEMBRE DE ESCOLHER DENTRE ESSES TONS NEUTROS SÓ AQUELE QUE MELHOR COMBINA COM SEU TOM DE CABELO E PELE. OK? LOOK TOTAL JEANS, OU SEJA, CALÇA OU SAIA JEANS COM CAMISA OU BLUSA DO MESMO TECIDO, CONTINUA EM ALTA PARA 2012. PRINCIPALMENTE OS JEANS DE TONS CLARINHOS. SE VOCÊ ADORA A PROPOSTA, ABUSE DELA NESTE INVERNO EM DIAS NÃO TÃO FRIOS, OU INCLUA NO LOOK PEÇAS DE LÃ EM TONS DE AZUL-CLARO, PARA DAR A IMPRESSÃO DE LOOK TOTAL JEANS NUMA VERSÃO QUENTINHA.

ROBERTA GERHARDT É CONSULTORA DE MODA E ESTILO E COMPORTAMENTO robertagerhardt@terra.com.br

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Making of

Claude entrevista Martha Medeiros Ela não cozinha nadinha, nadinha. Não contou para ninguém da produção. Teve receio de não poder participar do programa. Afinal, Martha Medeiros é fã de Claude Troisgros! E quem não é? O segredo durou pouco, ela logo confessou (no ar) que seu dom não está na cozinha. O negócio dela é encantar com as palavras. Martha deixa as panelas e a alquimia dos sabores com outros mestres. O chef de cozinha e apresentador do programa “Que Marravilha”, do canal GNT, o francês (já bem brasileiro) Claude Troisgros, escolheu o sul do Brasil para gravar alguns episódios que diferem do modelo tradicional: visitar a casa de ilustres desconhecidos e ensiná-los a cozinhar. Desta vez, algumas figurinhas conhecidas dos pampas foram seus convidados. Entra elas, nossa querida cronista. Fui espiar a gravação na serra gaúcha, fazer um making of e trocar dois dedinhos de prosa com o grande chef e a ilustre escritora. Era uma tarde de inverno. O dia não podia estar mais bonito. Sol forte, céu azul de brigadeiro, verde intenso, a serra se mostrando majestosa, parecia saber que tínhamos importantes convidados.

T E X TO

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E

F OTO S

Dentro do restaurante da Estalagem La Hacienda foi montado o cenário. Claude conduzindo Martha num delicioso bate-papo. Ela meio nervosa. Ficou à vontade só no finalzinho. Ele se dividindo entre executar a receita, ensinar o modo de preparo e saber mais da carreira da autora de nada menos do que 19 livros. Nos bastidores estava uma equipe de 27 pessoas, quatro câmeras, produtores, assistentes e o diretor. Ao ouvir “gravando”, o silêncio era absoluto, até o clic da câmera ficava suspenso. De repente, uma pausa para arrumar a luz; esta era a hora de fotografar. Claude preparou um Croque Mounsier. Perguntou se a Martha queria cortar a cebola. Ela sorriu, inventou uma desculpa e não correu o risco de fazer feio. Claude provocou: “Você gosta de homens que cozinham?”. Ela se saiu bem: “É 50% do caminho para a sedução”. E depois emendou com a tese de que hoje as mulheres estão fugindo da comida. “Eu só gosto de coisas calóricas, passaria a vinho, pão e queijo”. Nós também, Martha. Logo o assunto recaiu em viagens. Martha contou que esteve no Havaí e Japão, recentemente, e nos contou

P O R

C R I S

B E R G E R


Making of UM POUCO DE COZINHA, UM POUCO DE CONVERSA,

que está escrevendo um novo livro, desta vez sobre experiências antigas e atuais pelo mundo afora. Corta. O molho branco desandou. Claude vai repetir. Vamos para fora, no estúdio está quente, procuramos uma sombra. “Eu quero aprender a cozinhar”, revela Martha. Acho que todo mundo acaba tendo esse desejo, mais cedo ou mais tarde. Ainda bem que existe o Claude para nos ensinar. A cada bloco do programa uma pitada de aula e outra de conversas com a convidada. No final do dia perguntei para o Claude qual é a receita para equilibrar o papel de professor-cozinheiro e entrevistador. Ele confessou ser complicado! Na gravação anterior tinha esquecido de colocar o sal na comida! Claude é disciplinado. Ele estuda o entrevistado. Quando sai para correr, escuta no iPhone as perguntas que elabora para o programa. Foi assim na noite anterior à gravação. Lua cheia no céu, ele fazendo exercício pelas estradinhas de terra e ouvindo: Você imaginou que o livro Divã faria tanto sucesso, Martha? Como come-

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çou sua carreira? E o processo de criação? Claude vem da escola que aprecia a técnica, dos tempos em que ser chef não tinha tanto glamour. Sabe que para chegar onde está é necessária uma boa dose de genialidade e 20 anos “nas costas”. É modesto, gentil e esbanja simpatia. Fã do quiabo preparado pela chef gaúcha Roberta Sudbrack, quando chega no restaurante dela, no Rio, todos já sabem qual vai ser o pedido. Para ele, na cozinha não podem faltar: sal, pimenta-do-reino moída e dedo-de-moça, um bom azeite e vinagre. Quando perguntei como foi entrevistar Martha Medeiros, ele mostou o quanto é sensível e perspicaz: “Ela é tímida como todo escritor e muito intensa, realiza seu trabalho com tanto amor. Meus olhos se encheram de lágrimas ao escutá-la falar”. E o sul, Claude? Como são os gaúchos? Nesta resposta ele nos ganhou de vez: “Lembra minha terra natal, Auvergne, na França. O frio, a paisagem e altura, a beleza e o jeito mais fechado das pessoas. Lá, quando se vira amigo é para toda a vida”. Aqui também, Claude. E eu já quero ser sua amiga.


PITADAS DE HUMOR E TOQUES DE EMOÇÃO...


Equilíbrio CHERRINE

CARDOSO

SEJA VOCÊ A MUDANÇA QUE Toda vez que abrimos ou vemos as notícias do que acontece a nossa volta, algumas coisas nos chocam e nos assustam. São pessoas cada vez mais intolerantes, com menos respeito à vida, com menos paciência e amarguradas. Talvez eu não deva generalizar tanto, ok, concordo! Mas o fio tênue entre a sanidade e a loucura está cada vez mais fino. São pessoas como eu, como você, que sem muita explicação perdem a lucidez e em atos desesperados cometem atrocidades impensadas por dito homo sapiens. Me pergunto: será que os povos sub-bárbaros, que invadiram a Índia lá na Antiguidade, e que desvirtuaram toda uma conduta e um comportamento, são tão diferentes de parte da nossa sociedade atualmente? Quem mata, quem suja, quem rouba, quem destrói não pode se dizer polido e educado. Não importa muito se você vem de uma família nobre ou se vem de uma família humilde, o que importa é como você demonstra os valores e princípios que tem. Por volta do século III a.C., Patáñjali, um grande sábio hindu, observou no comportamento dos guerreiros árias atitudes que denegriam a ética moral e civil do homem, e instalou os preceitos éticos para preconizar uma reeducação comportamental. Passaram-se milênios e tivemos que resgatar aquele código e reaplicá-lo nos dias de hoje. Que triste pensar que é necessário dizer ao homem: não roube, não suje, não minta, não agrida. Parecem conceitos já óbvios.

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Ensinar isso às crianças para que entendam o que é certo e errado faz parte. Afinal, chegaram agora, vão aos poucos conhecer o mundo no qual estarão. Mas e nós? Nós que diariamente convivemos uns com os outros, que interagimos com a natureza, com uma sociedade? Ainda precisamos viver sob normas de conduta para lembrar que matar, roubar, agredir são atitudes bárbaras de guerreiros? Pior que sim! O meu maior desejo é que as pessoas percebam que há meios de evitar atitudes desesperadas. A mudança do mundo começa por você, por mim, por cada um, individualmente. Se olharmos para nosso próprio comportamento, na intenção de sermos melhores, teremos meios para fazer com que essa mudança se reflita e torne-se um espelho para os que convivem conosco. Aqueles códigos instalados por Patáñjali nos servem até hoje como referência. São prescrições e proscrições que podem ser úteis para a reeducação social. Conhecidos como ahimsá (não agressão), satya (não mentir), astêya (não roubar), brahmachárya (não dissipação de energia), aparigraha (não obsessividade), sauchan (limpeza), santôsha (conten-


DESEJA VER NO MUNDO*! tamento), tapas (autosuperação), swádhyaya (autoestudo), íshwara pranidhána (autoentrega). Só de observar a tradução de cada uma das palavras, você, leitor, pode dizer aquilo em que coloca facilmente em prática e aquilo que sabe que tem dificuldade. Os yamas (proscrições éticas) e os nyamas (prescrições éticas) existem para que você aplique na sua vida e no seu dia a dia esses conceitos de bom convívio em qualquer grupo no qual esteja. Quando você ouve alguém dizer que não deve ser agressivo, ou que você não deve roubar, você pensa em coisas táteis. Coisas que seu corpo físico pode fazer às vezes por reação a uma ação. Mas esses preceitos, cada um deles, têm a intenção de ser algo muito mais profundo. O sauchan, por exemplo, não representa apenas a limpeza externa do seu corpo. Representa a sua observância sobre como o alimenta, seja no sentido orgânico, emocional ou mental. Já o santôsha, que preconiza o contentamento, diz que devemos extrair esse estado de felicidade de qualquer coisa ou situação. Sermos felizes e contentes com tudo a nossa volta. Um estado que independe de qualquer fator ex-

terno, um estado que independe de qualquer relação afetiva ou bem material. Parece utópico se analisarmos nossa sociedade atual, que vive atrás de realização profissional ou um amor perfeito e deposita boa parte de sua alegria nessas coisas. Com os outros preceitos não é diferente. Cada um deles induz você a se auto-observar. A analisar como tem sido sua relação com o seu corpo e com aquilo que o norteia do lado de fora e do lado de dentro. Não somos seres tão complexos assim, e certamente ainda somos os mais próximos do que se considera hiperconscientes. Só precisamos querer fazer uso das ferramentas que existem para então atingir determinados estados que estão ao nosso alcance. Seja por meio de um Método ou uma prática de desenvolvimento pessoal, ou por outros quaisquer; no entanto, o que vai ditar a diferença é o seu desejo para tornar qualquer mudança efetiva. Tudo é uma questão de escolha, basta cada um fazer a sua. Como Gandhi* já disse: seja você a mudança que deseja ver do mundo! NASCIDA EM SÃO PAULO, CHERRINE CARDOSO É FORMADA EM JORNALISMO PELA UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. FEZ ESPECIALIZAÇÃO EM PUBLICIDADE E PROPAGANDA E EM MARKETING. HOJE É DIRETORA DE UMA DAS ESCOLAS DA REDE DEROSE EM PORTO ALEGRE. NA UNIDADE MONT'SERRAT ELA DIFUNDE, POR MEIO DE UMA PROPOSTA DE LIFE STYLE COACHING, UM JEITO DIFERENTE DE SE CUIDAR E DE VIVER. WWW.DEROSEPORTOALEGRE.COM.BR

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mulheres que amamos

O NOME MULHERES QUE AMAMOS NÓS ROUBAMOS DA REVISTA PLAYBOY. E TEMOS APRESENTADO NESTA SEÇÃO MULHERES IRRESISTÍVEIS, MARAVILHOSAS. SEMPRE BEM-VESTIDAS E MUITO BEM-FALADAS! AS ELEITAS DESTA EDIÇÃO SÃO A ESTILISTA ADRIANA BARRA, A EMPRESÁRIA FLAVIA DE MELLO E A CHEF-DOCEIRA CAROLINA BRANDÃO.

ADRIANA BARRA DA SAIA Eu consigo imaginar a Adriana ainda uma Adrianinha, grudada na barra da saia da mãe, no meio de festinhas movidas a calças largonas, batas estampadas, indianos dias, coloridos 70's. Posso inventá-la com olhos brilhantemente curiosos e observadores do mundo. Posso ir mais longe ainda, misturando a essa livre imaginação cenários inimagináveis. Uma eclética ponte aérea: Paris/ Londres/República de Copacabana. Pranchas de surf, cadernos de caligrafia, cabanas em sonhos de quintal. Não posso afirmar que as roupas que a Adriana faz são frutos dessas inspirações, do afeto mais remoto, do olhar para tudo quanto é detalhe, feminilidades e lindezas. Mas posso falar do que senti desde a primeira vez que vi um vestido feito por ela. Adriana Barra é uma estilista diferente. Longe dos palcos da moda, imersa num universo próprio, alimentado por pantones, estampas, azulejos, chocolates e esmaltes de unha. A roupa dela tem alma. Quem primeiro me apresentou a Adriana foi a Letícia Remião e a antenada Dani, da Maria Helena. Isso muito antes de tudo. Eu comprei um vestido que tenho até hoje. Desfilar com este vestido por São Paulo há dez anos era garantia de que alguém iria me parar para perguntar: “Onde você comproooooou?” Um sucesso. Adriana Barra é uma encantadora de tecidos. Uma costureira de afetos. Uma personalidade de vestir. O que mais dizer? Só me ocorre uma palavra para descrever o que ela faz: amor. TETÊ PACHECO, PUBLICITÁRIA

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mulheres que amamos FLAVIA DA FRANÇA Madáme de Mellô. É assim que os franceses chamam a Flavia. E como soa encantador esse jeito de falar dos franceses... Há 17 anos essa brasileira com nome de princesa – Flavia França de Araujo Santos – deixou o Brasil e foi viver no país que, acredito piamente, estava predestinado a ser a casa dela. A Flavia tem França até no nome e hoje é uma perfeita Madáme de Mellô. Mas não madame naquele sentido de dondoca, que fique bem claro! Junto com o marido José de Mello, ela criou e administra dois hotéis na Normandia. E lá, na maravilhosa Barneville-Carteret, um dos balneários preferidos dos parisienses, ela é uma madame ao receber seus hóspedes, coordenando em alto e bom francês uma equipe extremamente afinada. A incansável e energética Flavia parece ter 10 braços, 10 pernas e 20 cabeças, tamanha é a sua capacidade de ação. E de conquista. Ela é mesmo irresistivel. Que o diga José, a quem ela pediu em casamento nos idos anos 90, apenas alguns dias depois de se conhecerem. Foi com ele que Flavia descobriu Barneville-Carteret, a Pasárgada da família de Mello, mais linda e perfeita do que o próprio Manuel Bandeira poderia sonhar. José e Flavia construíram juntos o Hotel des Ormes, o Hotel des Isles e uma vida gostosa, cheia de trabalho, mas lotada de alegrias, amigos, conquistas. Mover céus e terra é com ela mesma. Sorridente, simpaticíssima, educada, informada, persuasiva, gentil e firme, ela abre todas as portas, desfaz maus humores, descobre as melhores oportunidades. Passei somente cinco dias na companhia dessa mulher fantástica, e conheci uma Normandia que só ela sabe mostrar. Pessoas, lugares, paisagens, situações, iguarias, vinhos... a Flavia nos conduziu pela crème de la crème de uma das regiões mais belas do mundo. Fui embora de lá aos prantos, literalmente. Por culpa da Flavia, fantasiei deixar Porto Alegre e viver em um charmoso cottage à beira-mar, na Normandia. Um dia, quem sabe? Como diz a chef Carla Pernambuco, a Flavia é um dínamo, uma força da natureza. Os franceses são mesmo uns sortudos.

MILENE LEAL, JORNALISTA


DOCE CAROLINA Quando você olha a Carolina pela primeira vez, vê uma menina. Quando olha a segunda, também. É que a menina não quer saber de deixar a Carolina. Deve ser porque ela ama fazer doces. E nada faz um adulto mais criança do que ter a sua frente uma vitrine de doces. Carolina é uma chef poderosa. Mas sin perder la doçura jamás. Veio ao mundo, no caso São Paulo, para rechear nossa imaginação de gulosas intenções. A Carla Pernambuco é que tem razão de, entre tantas possibilidades, ir colher na Carolina a parceira dos sonhos, brigadeiros, souflês e afins. Tive o privilégio de escrever os textos que abriam as receitas de doces de Carla e Carolina no livro As Doceiras, em 2007. E de lá pra cá fico só observando o sucesso que ela faz. Primeiro como braço direito da Carla no Carlota. E, mais recentemente, como sócia do Las Chicas. A parceria Carla e Carolina é como goiabada e queijo, morango e chantilly, ou o que mais a sua imaginação puder alcançar, no quesito guloseimas. Essas duas estão sempre aprontando. É a dupla energia do açúcar, atiçando a nossa felicidade gustativa. Não tô exagerando. Eu desconfio que a Carolina é o tipo de menina que não gosta de aparecer. Coisa que só quem chama a atenção naturalmente sente. A impressão que temos é de que a qualquer momento ela vai tirar um coelho de chocolate da cartola. Vai surpreender em alguma medida inesperada. Carolina Brandão é daquelas que guardam o melhor para o que ainda está por vir. Como quem sabe tudo de sobremesas.

TETÊ PACHECO, PUBLICITÁRIA

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Palavra

LUÍS AUGUSTO FISCHER

CAUSAR, REPERCUTIR, PAGAR

Não faz muito, a opinião pública brasileira foi tomada por um debate inusitado, que rodeava um tema que dificilmente aparece à luz do dia: o ensino de português na escola. Não vou repassar tudo que aconteceu (na minha opinião, o livro do MEC não tem problemas, pelo contrário, ele encaminha de modo bastante satisfatório a questão junto ao público a que se destina, alunos adultos que estão fora da escola há tempos e que agora retornam). Mas queria evocar um aspecto daquela conversa: no centro da polêmica estava o que os linguistas chamam de “variação”. Como o nome sugere, “variação” designa isso mesmo, a oscilação que uma língua conhece, tanto na pronúncia (tecnicamente falando, na fonologia) quanto no significado das palavras (a semântica), quanto ainda na organização da frase (a sintaxe). Isso para nem falar nas alterações que ocorrem ao longo do tempo. Quem estuda e ensina língua, especialmente língua materna, tem que prestar atenção a isso para saber que é legítimo o cara dizer “porta” como um carioca, aspirando o “r”, quanto dizer como um caipira, enrolando o mesmo “r”: as duas formas são variações, apenas isso; não há uma melhor que a outra. Bem, essa conversa aí serve para falar de variações semânticas, fenômeno muito legal de observar. Ainda esses dias uma vizinha me apresentou uma que gostei de conhecer. Relatando uma ida a uma festa, ela vestida com uma roupa marcante, contou: “Cheguei causando”. Ela causou, ponto. A leitora, que como eu sabe que o verbo “causar” em geral tem uma palavra que o complementa – causar escândalo, sensação, espécie, etc. –, deve ter ficado como eu, esperando pelo fim da frase, alguma informação que completasse o sentido do verbo. Mas não tem: “causar”, naquele contexto da vizinha, sem qualquer complemento, compõe um novo sentido. Fica implícito que causou comoção, foi notada, algo por aí. Me ocorreu, na hora mesmo (era um mate compartilhado no prédio, num fim de tarde ameno, a criançada brincando por ali, na volta), que esse fenômeno com o “causar” é o oposto do que tem acontecido com um outro verbo, por sinal apa-

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rentado dele: refiro-me ao verbo “repercutir”. Já viu? Especialmente no jornalismo de rádio, acontece de o repórter dizer que, de posse de certa informação nova, vai “repercutir” a notícia junto a alguma figura importante, significando que vai lá saber da tal figura o que ela achou da notícia. Até pouco tempo atrás, o verbo tinha uso diverso. Escrevia-se “A notícia repercutiu positivamente junto aos interessados”, por exemplo. A notícia era o sujeito, e os interessados o complemento do verbo. Pois agora, se alterou bem a coisa: o repórter (sujeito) vai repercutir a notícia (complemento). “Causar” perdeu o complemento, “repercutir” viu alterada a ordem. Uma variação, que pelo jeito vai ganhando terreno na língua de nosso tempo. Meu gosto de ficar pensando nas alterações me levou a outro verbo, largamente empregado hoje em dia, especialmente pela garotada, que é sempre inventiva no modo de lidar com a linguagem. A prezada leitora já ouvir a expressão “pagar peitinho”, ou “pagar cofrinho”? Não sei se vou explicar direito aqui, porque pode ter criança por perto e sabe como é. Mas a origem acho que eu sei: vem da expressão “pagar mico”, do jogo de cartas do mico preto, em que perde quem fica com a carta do mico, ganha quem conseguir formar os quartetos com as demais cartas. Lembra? “Pagar mico” significava “perder o jogo” e daí “pagar uma prenda”, isto é, fazer alguma coisa previamente combinada de modo a satisfazer o interesse ligeiramente sacana dos parceiros – cantar uma música ou dizer um poema, tomar uma rolha chamuscada na pele e por aí afora. Daí passamos a “pagar peitinho”, significando (tapa o ouvido da filhinha aí, madame) “perder” no sentido específico de “mostrar o peito”, isto é, bem, a senhora entendeu. Já “pagar cofrinho” eu nem vou tentar explicar, que a prezada leitora ia ficar enrubescida, como no tempo em que as coisas causavam, especificamente, escândalo. LUÍS AUGUSTO FISCHER, PROFESSOR DE LITERATURA E ESCRITOR


“SOU PRÁTICO. PASSO DE MANHÃ E NÃO ME PREOCUPO MAIS.” FECO HAMBURGER, HAMBURG FOTÓGRAFO

DOVE MEN+CARE POTENTE CONTRA O SUOR SUAVE COM A SUA PELE WWW.DOVEMENCARE.COM.BR

Revista Estilo 56  

Edição número 56 da Revista Estilo

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