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Est homo suae quisque fortuna faber est. (*)

Fevereiro/2017 - Ano V - nº 08

Editores: Will Kiko Zampieri Leona Volpe Capa: Leona Volpe Contatos: Espinhodagua.blogspot.com Facebook.com/RevistaEspinhoDagua Youtube.com/user/RevistaEspinhoDagua

E-mail: revistaespinhodagua@gmail.com

Sabemos que o destino é um conjunto de intersecções, que envolve a vida de um ser humano, durante a sua trajetória efêmera no Globo Terrestre. Em algumas crenças, essa vida pode ser reencarnada várias vezes, mas cada uma será a mesma efemeridade da anterior. É dentro dessa efemeridade ou da luta constante contra o implacável tempo, que se fez surgir a COMPETITIVIDADE. Isso mesmo, Competitividade. Desde os primórdios da humanidade, o ser humano buscou na competitividade uma forma de subjugar os mais fracos, os menos espertos, os menos inteligentes e outros menos. Assim era nos primeiros grupos onde o mais forte recebia a melhor parte da caça, tinha mais mulheres para cobrir e gozava de todo o respeito. Porém havia sempre os desafiadores, aqueles que não mais suportavam o domínio e competiam nas caçadas ou nas lutas. E desde então somos movidos pela Competitividade em tudo o que vivemos ou fazemos. Seja na escola, no trabalho, no trânsito, em nosso grupo de amigos, Facebook, WhatsApp, Instagram ou qualquer outra rede social, na torcida por um time de futebol ou qualquer outro esporte, até mesmo na busca de um banco vazio no trem ou ônibus ou qualquer outro tipo de transporte, ou então a busca por um espaço na rua entupida de outros veículos, todos lentos e loucos para serem mais espertos que os demais. Que bom se fôssemos competitivos em ensinar os desprovidos de inteligência a encontrar a cura de doenças só para distribui-las gratuitamente aos que necessitam, ou então aceitarmos que nunca há dois vencedores, mas sempre haverá dois amigos, dois irmãos, duas alma gêmeas ou dois seres humanos que possuem a mesma cor de sangue e respiram do mesmo ar. Sempre devemos lembrar que a Natureza nunca foi Competitiva e mesmo assim é de extrema beleza, imperiosa e livre de qualquer orgulho ou soberba. Ela apenas flui. Kiko Zampieri

(*) O homem é o arquiteto de seu próprio destino.


Índice Cinema: When HE was a king ................................................................................... 04 Assim caminha a humanidade .................................................................... 06 O imaginário mundo do Dr. Parnassus ...................................................... 08

Música: Beatles making Brian Wilson madness ...................................................... 10 Batalha, e tiros, de mc’s ............................................................................. 16 As causas sociais dentro da indústria da música ...................................... 18

Comportamento Sociopsicológico ........................................................ 14 Entrevista: Cosplayer Jean Almeida ............................................................................. 24

Matéria de capa ........................................................................................... 27 Crônicas Cotidianas A competição pelo tempo ........................................................................... 22

Quadrinhos: Quem é mais fã? .......................................................................................... 12 DC vs Marvel ............................................................................................... 32

Literatura: MacBeth ....................................................................................................... 38 Escritores vs Escritores .............................................................................. 41 O velório ...................................................................................................... 44 Fim de jogo .................................................................................................. 46

Sigmund and Carl, quem explica? ......................................................... 40 Martelos e foices comprados com dólar americano ....................... 20 A guerra das correntes ............................................................................. 34 04


When HE Was King Sem dúvida que o esporte é a atividade humana em que a competitividade se mostra mais evidente representada. É justamente o que a disputa dos jogos olímpicos procuram auferir: o mais forte, o mais rápido, o mais eficiente. Entre as modalidades esportivas que mais chamam atenção de todos desde sempre é aquele que é apelidado de “nobre arte”. O boxe. Ou pugilismo como gostam de chamar os mais clássicos. Não por acaso talvez seja esse o esporte mais retratado nas telas de cinema. Incontáveis são os filmes que têm esse esporte como temática. Hoje vamos destacar um deles. E não se trata de uma ficção, mas de um documentário. Vencedor do Oscar de 1997, o bastante elogiado “Quando Éramos Reis” (When We Were Kings). O filme tem como premissa o registro daquela que pode ser considerada a maior luta de boxe de todos os tempos. Muhammed Ali versus George Foreman. Essa luta foi realizada em 1974. Organizada pelo controverso organizador de lutas Don King, que tratou de transformar a luta num verdadeiro evento midiático, a começar pelo lugar escolhido para a luta, o Zaire, na África (atual República Democrática do Congo), e por realizar um mega festival de música com duração de doze horas e contando com nomes como James Brown e B.B. King.

Filme: When We Were Kings Produção: David Sonenberg, Leon Gast, Taylor Hackford Gênero: Documentário Duração: 84 minutos. Direção: Leon Gast Ano: 1996 Elenco: B.B. King, Don King, George Foreman, George Plimpton, James Brown, Mobutu Sese Seko, Muhammed Ali, Norman Mailer, Spike Lee


E mesmo George Foreman sendo na época o atual campeão do mundo dos pesos pesados, a estrela do filme é obviamente Muhammed Ali, que na época era o desafiante, mais velho e até desacreditado por boa parte da crítica especializada. Mas ainda continuava muito falante e autoconfiante, como sempre. Mas Ali era o preferido do público, tratado como um verdadeiro herói pelo povo do Zaire. E, de igual forma, Foreman era o vilão, identificado como o estrangeiro colonizador, mesmo sendo tão afro americano quanto seu oponente. E mesmo George Foreman sendo na época o atual campeão do mundo dos pesos pesados, a estrela do filme é obviamente Muhammed Ali, que na época era o desafiante, mais velho e até desacreditado por boa parte da crítica especializada. Mas ainda continuava muito falante e autoconfiante, como sempre. Mas Ali era o preferido do público, tratado como um verdadeiro herói pelo povo do Zaire. E, de igual forma, Foreman era o vilão, identificado como o estrangeiro colonizador, mesmo sendo tão afro americano quanto seu oponente. As câmeras da equipe do diretor Leon Gast registraram mais de 250 horas de imagens que, por problemas de financiamento, só pode ser editado e finalizado duas décadas depois. A grandeza do filme não está apenas na forma única de mostrar a preparação dos dois lutadores para a luta, mas na forma genuína e ampla de mostrar, com muita música, todo o entorno desse evento, como a preparação do festival musical, e suas apresentações, mas, sobretudo no retrato cru e honesto da situação política e social de todos os envolvidos, desde a situação dos negros na América, como naquele país africano, dominado pelo ditador Mobutu Sese Seko. Todos esses ingredientes tornam esse filme, mais do que o registro de uma extraordinária luta, mas o registro de todo um período histórico. Will


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O filme é baseado no livro de Edna Ferber, é um épico pomposo sobre o Texas. Marcado por ser o último filme de James Dean, que não chegou a vê-lo estrear, tem como foco, a história da família Benedict, encabeçada por Rock Hudson e Elizabeth Taylor. Fazendeiros tradicionais que acompanham a transformação do estado após a descoberta do petróleo. As atuações aqui são um show à parte, o elenco está incrivelmente bem, o entrosamento entre Rock Hudson e Liz Taylor é perfeito, Dennis Hopper como um dos filhos do casal aparece aqui bem novinho, mas já demonstrando todo o seu talento como ator. E claro, a já citada participação magnífica de James Dean – destaque para a cena em que ele recebe uma proposta de conotações duvidosas de seu antigo patrão (Hudson), tentando negociar a parte da terra que lhe foi confiada. Os gestos simples, os olhares, a maneira de andar que Dean cria para o personagem são memoráveis e tornam Jett Rink real, palpável, provando que a atenção aos detalhes define um bom ator. A bela fotografia de William C. Mellor explora bem os desertos do Texas e as cores que compõem aquele universo tão particular – basta observar a cena em que Jett descobre um poço de petróleo – é como se um quadro estivesse sendo pintado bem na sua frente. A música do sempre preciso Dimitri Tiomkin (o mesmo compositor da inesquecível trilha de Matar ou Morrer) é igualmente bela e compõe o filme perfeitamente. Mas é graças ao excelente roteiro de Fred Guiol e Ivan Moffat (baseado em um romance de Edna Ferber) que tudo flui de maneira tão grandiosa, as gerações vão se passando e tudo é colocado de forma cuidadosa pelo roteiro, de maneira que você acaba se sentindo parte da família Benedict. Sinopse: A história se passa em 1923, quando Bick Benedict (Rock Hudson), um rancheiro texano, vai comprar um cavalo premiado e se apaixona por Leslie (Elizabeth Taylor), a filha do proprietário da fazenda. Eles se casam imediatamente e ela retorna com o marido para o Rancho Reata no Texas. Na fazenda Leslie passa a conviver também com Luz Benedict (Carroll Baker), irmã do seu amado, uma mulher rude e solteirona que não vê com simpatia a chegada da cunhada. Jett Rink (James Dean) é um peão alcoólatra que tem uma rivalidade com Bick e é responsável por cuidar das propriedades da família. Essa rivalidade faz explodir uma competitividade entre os dois tanto no amor de Leslie, como depois quando Jett descobre petróleo em suas terras, herdadas pelo testamento da irmã de Bick. Bick propõe comprar de volta a parte dela, mas Jett se recusa a vendê-la. Em uma das cenas mais emblemáticas do cinema após tomar um banho de petróleo Jett vai com seu carro velho e amassado até Reata para mostrar ao seu antigo patrão que agora ele também seria rico. Os anos passam e Jett é um magnata do petróleo, dono da Jettexas Company, mas apesar de milionário ainda continua alcoólatra e a rivalidade entre Bick e Jett ainda existe. Assim Caminha a Humanidade é um marco da Era de Ouro de Hollywood. Daqueles filmes eternos, grandiosos e impactantes que retratam uma época, uma região, um povo. E George Stevens é bastante feliz na condução de tudo isso, principalmente nas escolhas simbólicas que faz, como a cena final que representa bem os caminhos do Texas Kiko Zampieri


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O Dr. Parnassus (Christopher Plummer) tem o dom de inspirar a imaginação das pessoas. Dono de uma companhia de teatro itinerante, ele conta com a ajuda de seu assistente Percy (Verne Troyer) e do mágico Anton (Andrew Garfield) para oferecer ao público a chance de transcender a realidade e entrar em um universo sem limites, o qual pode ser alcançado ao atravessar um espelho mágico. Tony (Heath Ledger) foi encontrado pela trupe dependurado em uma ponte, à beira da morte. Após ser salvo, ele passa a integrar a equipe, como forma de escapar de seu passado. Em uma tentativa de modernizar o show, ele termina por conhecer o novo mundo oferecido por Parnassus e passa por diversas transformações no decorrer de sua viagem. Só que esta mágica tem um preço e ele está perto de ser cobrado ao Dr. Parnassus: sua preciosa filha Valentina (Lily Cole). Dentro do tema competição, sempre me vem o clássico Fausto, um mito alemão de um homem que queria a imortalidade e para tal, vende sua alma ao diabo. Quando a consegue se apaixona pela jovem Margarida e troca com o diabo sua imortalidade pela juventude.


O Imaginário Mundo do Dr. Parnassus

A trama fala de algo que ainda toca nossos corações: não temos tempo para viver nossas paixões. Os estudiosos lutam contra ele em prol de poder absorver mais e mais conhecimento, sem saber ao certo se isso lhes servirá para algo até serem simplesmente enfeitiçados pelo encanto mais velho do mundo: o amor. O tema que me atrai especificamente no filme é a competição entre Deus e o Diabo, que lembra a musica de Zé Ramalho “A Peleja do Diabo Com O Dono do Céu”. Ambos têm como disputa atrair o maior número de seguidores e o que ganhar controla a terra. É a luta interior do homem observada em um teatro itinerante, com a beleza de um filme classe B, muito bem feito e cheio de enigmas. O bem e o mal lutam por seu lugar ao sol e por suas migalhas de sentimentos, buscando o controle do coração do homem. O filme é uma jornada através da simbologia e das metáforas para os personagens e para quem o assiste. Uma obra de arte que não pode ser esquecida. Leona Volpe


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A década de sessenta foi definitivamente o período de maior expansão e dominação do rock em todo mundo. As décadas seguintes foram mais heterogêneas com a ascensão de outros gêneros musicais como a black music, o pop, a música eletrônica e o hip-hop. Mas na década de sessenta, sim, só dava ele, o rock. E todo dia era dia de rock bebê! Era um rock diferente, com uma molecada vestindo terninhos e usando bonés ao melhor estilo mod, ou uma garota praiana afim de um Surf In U.S.A. Bastou os Beatles fazerem sucesso, logo no início da década, para que uma enxurrada de bandas aparecessem nos mesmos moldes e buscando o sucesso alcançado pelos ingleses. A maioria fracassou, outras conseguiram seu single hit e não mais brilharam; e algumas outras conseguiram sobreviver e ter sucesso por bem mais tempo como The Animals, The Kinks e os Beach Boys. E é desta última que vamos falar aqui. Falar de Beach Boys resume-se obviamente em falar de Brian Wilson. Ele era cantor, o compositor e o produtor musical; o cérebro e o coração da banda. Nos anos entre 1962 a 1065 sua banda teve dezesseis músicas entre as mais tocadas nos Estados Unidos, entre elas a Surfing U.S.A., que citamos no início desse texto. Mas Brian teve dois problemas sérios em sua vida. O maior deles foi uma doença mental, que causou a deterioração da função executiva do cérebro, tornando-o um pessoas com sérias dificuldades de interação social, depressão, paranoia e alucinações. Tudo isso junto deu num transtorno esquizoafetivo.

O ator Paul Dano na pele de Brian Wilson jovem


O outro problema era a banda inglesa. Sim, os Besouros. Quando ele ouviu o álbum “Rubber Soul” dos Beatles, Brian pirou, literalmente, na ideia de fazer um disco que o superasse. E conseguiu. Fez um dos melhores discos de todos os tempos, o Pet Sounds. Porém, logo em seguida, os ingleses de Liverpool lançaram nada mais, nada menos do que o “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band”. Brian entregou-se de vez à sua obsessão musical e, para cada obra de arte que produzia, sua mente ia se perdendo cada vez mais. Hoje, com a ajuda de sua mulher Melinda Ledbetter e de um tratamento médico, Brian Wilson está bem e feliz. Sua vida e toda essa trajetória musical e pessoas foi retratada muito fiel e honestamente numa bela cinebiografia chamada “Love and Mercy” estrelada por dois talentosos atores, Paul Dano, que interpreta Brian na juventude, e John Cusack, que faz Wilson na idade adulta. Vale a pena, não apenas assistir ao filme, como também ouvir a discografia de uma das melhores bandas de rock de todos os tempos, e do seu gênio criativo. Will

John Cusack interpretou o líder dos Beach Boys na sua fase adulta e perturbada.


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Quem é mais fã? No universo da cultura nerd existe um termo muito conhecido entre os do meio: é o famoso Xiita. O Xiita se caracteriza por um fã que se identifica como dono da verdade absoluta dentro da história pela qual ele é apaixonado, muitas vezes desde a infância, de modo que até mesmo quando os autores responsáveis por ela, tentam mudá-la, ele considera esse ato como equivalente a um sacrilégio. Tampouco ele gosta que você discorde dele. Acredito em dois personagens dentro desse contexto. O fã que é Xiita eternamente, sendo essa sua característica base e o fã que tem momento Xiitas. De qualquer modo é onde a discussão começa e se inicia a famosa competição de quem é mais fã. Ou até mesmo, quem foi mais sensível ao que o autor realmente queria dizer, seja lá o que isso fosse. Toda pessoa apaixonada por algo terá, teve e tem momento de extremismo, não podemos fugir dessa realidade. Posso dizer que me envolvi pouquíssimas vezes em discussões de cunho nerd, porque geralmente acho a ideia ligeiramente absurda, de se irritar por uma criação fictícia e até mesmo defender isso como se fosse algo real, que pudesse afetar alguma coisa. Todavia, ano passado passei por uma experiência muito interessante desse tema. Ano passado a DC lançou o filme Esquadrão Suicida, que foge drasticamente do seu repertório. O filme dividiu opiniões, quem amou e quem odiou.


As opiniões variavam de diversas coisas no filme, mas a voz unanime era a "falta do tom abusivo" e "romantização" de um dos casais do filme, Harley Quinn - Arlequina e Coringa. Eu, fã de Batman desde os 8 anos, com coleções de quadrinhos mais velhos que andar pra frente, estranhei. Menos de dois anos antes, em coleções de Melhores Casais dos Quadrinhos, Harley e Joker sempre encabeçavam os Top 10, dominavam os Cosplays e têm até hoje duplas de Cosplays completamente dedicadas a retratar seus momentos juntos nas animações e quadrinhos. Inesperadamente, com essa nova onda de fãs trazida pelo filme, virou taboo gostar dos dois. Eu como boa fã de quadrinhos e tretas, fui fazer meu dever de casa e revi toda a animação, a HQ que a sequenciou e as demais aparições do casal nos veículos midiáticos relacionados (animações, filmes, séries, games e especiais). Cheguei a me envolver em discussões acaloradas sobre assunto, defendendo meu ponto de vista. Eu concordava, como um monte de outras pessoas que Paul Dini tinha simplesmente incluído nos quadrinhos um casal BDSM. Achei a ideia fenomenal, uma proposta de visibilidade dentro do Universo Nerd me era absolutamente encantadora. Eu conseguia reconhecer no roteiro até mesmo jargões e apelidos comuns do universo sadomaso, juntando com as declarações de Dini que alegavam claramente que estávamos falando de um casal sadomasoquista. Briguei com o mundo até que senti que uma ficha caiu: Os elementos do universo nerd não são im-

parciais. Leona Volpe


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Comportamento “O PRESENTE É O FUTURO DO PASSADO E O FUTURO UM SONHO QUE SE REALIZA

SOMENTE COM UM PRESENTE”. Kiko Zampieri Toda vez que surge uma nova Geração, vem com ela o saudosismo e o medo pelo futuro da humanidade daquelas que estão sendo substituídas. E como conta a história, todo futuro fica normal no presente. Baseando-se em vários estudos sociais, econômicos e psicológicos, podemos afirmar que cada geração teve um papel importante e refutável para o início da próxima, pela COMPETITIVIDADE. A primeira geração que teve uma classificação, foi denominada de Baby Boomer (Explosão de bebês), isso devido ao fenômeno ocorrido nos Estados Unidos da América no período do pós-guerra, em 1945, ocasião que os soldados sobreviventes da Segunda Grande Guerra Mundial (1939 a 1945) e conceberam filhos numa mesma época. Contrários e abalados pela guerra, essa geração dedicaram as artes e todas as formas de cultura, sem perceberem que estavam alimentando uma nova geração. A Geração X, nascida nos tempos de “paz e amor”. Essa geração surgiu entre o início dos anos 60 até o início dos anos 80, época em que os Baby Boomer, em sua maioria, ocupavam os cargos de diretoria ou gerência das empresas. Enquanto esses procuravam manter os ideais saudosistas, a nova geração, passada pela fase hippie, buscava a sua individualidade sem se afastar dos grupos, questionavam a imposição de uma geração ultrapassada e rompiam com seus paradigmas. Esse conflito fez essa geração ter uma busca maior por seus direitos, pela liberdade em todos os sentidos. Não queriam o passado e sim um futuro melhor para as novas gerações. Essa geração compartilhou com o crescimento tecnológico como o computador pessoal, a internet, o celular, o e-mail e etc., e o que parecia ser a realização de sonhos infantis, presenciaram que muitos deles, não passariam de apenas sonhos. Eles agora eram ultrapassados. Um simples saudosismo para a próxima geração que surgia. A Geração Y.


Sociopsicológico Denominada pelos estudiosos como a geração da liberdade e da inovação, eram os nascidos entre o fim dos anos 70 ao início dos anos 90, foi a geração que foi desenvolvida pelo avanço da tecnologia e prosperidade econômica e mantidas por seus pais que queriam dar uma vida melhor aos seus filhos. O que a geração passada não percebeu era que a sua geração viu a tecnologia se desenvolver e que agora era a tecnologia que via uma nova geração surgir. Uma geração altamente conectada, buscando informações fáceis e imediatas, abandonando as escritas de cartas e optando pelos novos e-mails, compartilhando sua vida nas recentes redes sociais virtuais, buscando sempre as novas tecnologias e desenvolvendo um novo hábito, as multitarefas, podendo ao mesmo tempo trabalhar, conversar com as redes sociais, ouvir música e conversar com os colegas de trabalho, tudo no mesmo instante. O saudosismo de se manterem no emprego por quase uma eternidade, ficou para trás, essa geração compete para conseguirem o querem, buscam os melhores salários e dificilmente ficam num mesmo lugar por muito tempo. O futuro para essa geração é apenas um lugar para se alcançar. De geração a geração, não importando em que época, uma única forma se intersecciona entre eles; A Competitividade, isso devido ao fato que essa competitividade faz parte do ser humano. “A competitividade é a soberba do animal racional, diferente dos outros animais que competem pela sobrevivência, muitos competem pela essência do Poder.” Kiko Zampieri


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O grito de protesto da juventude na metade dos anos setenta até meados dos anos oitenta era sem dúvida o punk rock. Mas já na metade dos anos oitenta, a voz esganiçada, gritada e desafinada dos garotos brancos suburbanos, vestidos em roupas de couro, com cortes moicanos e rostos distorcidos pelos efeitos das drogas foi sendo substituída pelo novo veículo de protesto, o RAP. Rithym And Poetry. Os porta-vozes eram jovens negros, pobres, que usavam batidas de música como fundo para as suas rimas que retravam o cotidiano violento e marginal de suas vidas nos subúrbios norte-americanos. Jovens marginais que retratavam sua vida de traficante de drogas, cafetões e assaltantes de bancos. Tais canções com esse conteúdo deu origem a um estilo próprio de rap, chamado de “gangster rap”. Um rótulo bem autoexplicativo.


Cada MC que tinha o microfone na mão parecia até mesmo orgulhar-se da vida fora da lei que levava, e uma estranha competição pareceu ser alimentada, algo do tipo: quem é mais mal, mais malandro, mais marginal e mais cruel. Talvez essa disputa de quem era o mais “bad boy” tenha dado origem à rixa entre grupos da costa oeste e da costa leste. Os músicos usavam as músicas para trocarem farpas, ofensas e ataques e contra-ataques de ambos os lados. Não dá pra saber direito se a causa de tudo foram ciúmes, inveja ou apenas diversão. Esse tipo de música deu origem a um estilo, chamado diss, onde um artista cita e ataca outro, gerando uma resposta, uma réplica. Há casos em que rappers chegaram a fazer cinco ou seis músicas atacando e respondendo a outro rapper. O caso foi que a situação foi cada vez se tornando maior e mais pesada. Ameaças eram feitas e respondidas, não apenas nas músicas, mas também começaram a brigas entre artistas dos dois lados, fisicamente, com trocas de tiros em boates, shows e até em estúdios de gravação. Os dois maiores nomes do rap de um lado e de outro não deixaram de alimentar essa rixa. Tupac Shakur, da costa Oeste e Notorious B.I.G. da costa Leste. O resultado dessa tensão foi cada vez mais andarem armados e com propensões de vingar ataques de um lado e de outro. O saldo dessa briga, que até hoje ainda não está resolvida, foi a morte, tanto de Tupac, em 1996, quanto de Notorious no ano seguinte. Ambos os lados foram acusados das mortes dos maiores expoentes do rap americano. Esse é um exemplo bem acabado de quando a competitividade extrapola os limites do bom senso e do razoável e acaba se tornando uma mera disputa, nesse caso sangrenta, entre lados que não tão opostos assim. Will


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Ano passado, durante um dos maiores eventos do esporte, o SuperBowl, a cantora Beyonce deixou o mundo espantado com uma atitude que durante muito tempo no Brasil foi de certa forma comum, chegando a fazer parte da história do país: usar a música como maneira de manifestação. Por alguns meses a música Formation foi motivo de discussão em diversos grupos de debate e inclusive em diversos jornais de repercussão internacional. A polêmica se deve ao fato de que a cantora usava sua fama e imagem pública para lutar pela causa social na qual ela é mais ativa: o racismo e o feminismo. Ativista há alguns anos, Beyonce nunca havia usado sua arte para se expressar tão nitidamente. Apesar de suas letras sempre terem um tom de empoderamento feminino, seu novo álbum era explicitamente voltado para o tema, assim como as suas campanhas a partir do lançamento do mesmo. Enquanto no Brasil o tema já era comum entre rappers e até mesmo nas músicas de Zé Ramalho que afrontavam a ditadura, nos EUA o tema era relativamente novo nas proporções que ganhou,

inclusive denunciando alguns assassinatos que poderiam ter sido desencadeados por racismo e homofobia. A música se tornou um instrumento de denúncia e de empoderamento. Esse ano a escolha, ainda que polêmica como sempre, de Lady Gaga que também é ativista política e feminista, não causou tanto desconforto entre a população mais conservadora. Teria a música se tornado mais uma vez um instrumento de resposta às agressões sofridas no dia a dia?


É fato que a musica criou uma onda de autoconfiança entre a população afrodescendente e uma necessidade de lutar pelos próprios direitos e pela própria identidade de maneira mais clara e visível, talvez até mais humana. Nesse palco a indústria de entretenimento e o ativismo competem pelo público. Alguns se afastam por não se sentirem especialmente ligados ao seu tema e outros se atraem, justamente por sentirem o dedo na ferida e resolverem se posicionar, estimulados pelo exemplo que vem de cima, cantando uma liberdade pouco conhecida. A atitude foi inspiradora e agora aguardamos ansiosamente quantas surpresas o mundo da música ainda está para nos revelar. Leona Volpe

Zé Ramalho, grande cantor e compositor brasileiro, também deixou sua marca com músicas de protesto, como a famosa Vida de Gado, cujo título é uma alusão ao livro Admirável Mundo Novo, obra de ficção científica que retrata um mundo automatizado e dividido social e geneticamente.


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MARTELOS E FOICES COMPRADOS COM DÓLAR AMERICANO A história já é mais ou menos do conhecimento da maioria. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo dividiu-se em dois blocos; de um lado o comunismo, representado pela U.R.S.S., e de outro o capitalismo, tendo como representante os E.U.A. Em 1989, com a queda do muro de Berlim, que separava a Alemanha entre oriental e ocidental, foi declarada a “vitória” do capitalismo, ficando o comunismo e socialismo relegados a alguns poucos, embora grandes, países. Mas por que o capitalismo venceu? Muitas são as críticas e ataques feitos a esse sistema pelos que defendem uma outra forma de organização social, política e financeira. Obviamente muitos são os defeitos que podemos apontar, muitos são os pontos negativos identificáveis nesse sistema. Porém, é possível identificar característica que explicam a razão desse ser o modo de vida escolhido pela maioria das pessoas do acidente.


O capitalismo incita e fomenta nos indivíduos aquilo de mais primitivo, e natural, a competitividade, o individualismo, o egoísmo, a vaidade, o medo, a inveja e a exaltação das diferenças e desproporcionalidades e a importância única de ter ao invés de ser entre as pessoas. Por mais que neguemos, o impulso consumista, a necessidade de autoafirmação e o desejo materialista fizeram com que o capitalismo cooptasse corações, mentes e bolsos. É um sistema avalanche, quanto mais se tem, mais se quer e o que se tem nunca é suficiente, e se for, pode ser dobrado, triplicado, etc. O comunismo, assim como o socialismo, é um sistema imposto e controlado pelo estado; não possui a essência da espontaneidade de consciência de cada um dos indivíduos de aceitar não ter, não desejar e aceitar o fato de que o estado é o senhor administrador de tudo é o mais adequado. Há uma sensação, ainda que ilusória, de liberdade e autonomia que o capitalismo consegue, literalmente, vender para os indivíduos. Para a maioria das pessoas, é muito difícil ver a diferença entre liberdade, sensação de liberdade e ilusão de liberdade. Por isso o capitalismo venceu, porque a sensação e a ilusão de liberdade de pensamento e de ação é suficiente para a maioria das pessoas. Pois como já disse Oscar Wilde: Dinheiro não traz felicidade, mas proporciona uma sensação parecida; e é preciso um especialista muito arguto para notar a diferença. Will


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Bem, como esse texto é uma Crônica e não uma Dissertação ou TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), posso externar a minha opinião, mesmo sendo contraditória para alguns leitores e com um tema completamente Universal. A Competitividade. Posso afirmar, que desde os primórdios da humanidade, mesmo antes do fogo ou da roda, a competitividade já imperava entre os novos habitantes do planeta, novos pela simples diferença que eram racionais e andavam sobre os dois pés, diferente de seus ancestrais primatas. Claro que não possuo provas cientificas, apenas discernimentos literários, por isso posso imaginar o passado, discutir o presente e imaginar um futuro. Há uma frase, que sempre ouvi, que diz que o homem só se aperfeiçoa diante da necessidade, verdadeira se levarmos em consideração a luta pela sobrevivência de nossos ancestrais na Era do Gelo, aperfeiçoaram as vestimentas com as peles dos animais, procuraram refúgio em cavernas e descobriram o fogo. Depois vieram as novas armas, armadilhas, pensamentos e estratégias e finalmente a agricultura. Nos escritos estão citados as grandes viagens feitas pelos caçadores e a dificuldade de se transportar a caça até a aldeia, assim foi necessário a criação da roda. Que facilitou, primeiro o transporte de mais caças e depois as viagens para outras terras. Assim pelo decorrer do tempo, outras técnicas foram sendo criadas para facilitar a vida do ser humano, com isso o tempo foi ficando cada vez mais curto, parece haver uma controvérsia, se melhoramos as ferramentas, deveríamos ter mais tempo, seria se parássemos de pensar. Não é o caso desse nobre animal racional, soberbo, volúvel, insatisfeito e muitas vezes irresponsável. O tempo ganho é rapidamente utilizado para uma nova descoberta e poder ficar mais tempo criando novas ferramentas, novos caminhos, novos jogos e sem perceber cada vez mais solitário e acorrentado em suas próprias descobertas. Agora se não bastasse, tenta desesperadamente, descobrir maneiras de prolongar sua vida útil no planeta e tentar ganhar mais tempo para desenvolver novas ideias. Mas e o tempo desse planeta? Será que está preparado para esse prolongamento de humanos, sim porque em breve só terá humanos sobre a terra, talvez encarcerados em bolhas plásticas de sobrevida, pairando umas perto das outras, conectadas por cabos de rede e roteadores de grande velocidade, tentando desenvolver novas ideias que façam o tempo ser prolongado. Kiko Zampieri


CrĂ´nicas Cotidianas


Entrevista Dentro do tema da competitividade, que norteia os assuntos tratados no volume da Revista, existem inúmeras ramificações que poderiam ser analisadas e serem objetos de estudo do quanto a necessidade de estar a frente de algo, continua sendo o principal objetivo dos seres humanos. Curiosamente, existe sempre uma tendência a se pensar na competitividade como algo exclusivo do ambiente de trabalho, das corporações e até mesmo na busca pela apreciação de outras pessoas. Entretanto, a competitividade, inerente aos seres humanos, está enraizada inclusive nos momentos de diversão em que nos engajamos, nos nossos hobbies e nos pequenos prazeres que nos permitimos dentro da nossa rotina atribulada. Enquanto raciocinava sobre o assunto, pude relembrar inúmeros episódios dentro do universo Cosplay, brasileira e internacional, em que o fator competividade se espalhava para além das áreas mais comuns e invadia um ambiente que havia sido previamente idealizado para o prazer dos fãs. Para detalhar um pouco mais o assunto e até mesmo a características do universo Cosplay e de seus representantes, convidei Jean Almeida, cosplayer dedicado ao personagem Coringa ( The Joker) da aclamada DC Comics, conhecido principalmente por sua aparição na trilogia Cavaleiro das Trevas, na icônica série animada Batman e também nas aventuras sessentistas de Adam West.

RED: Fale um pouco sobre sua vida, sua profissão, o que você faz: J.A.: Bom, eu sou um nerd, sempre fui um nerd. Aquele cara que sentava na primeira fileira da sala de aula e era atormentado por vários tipos de Coringas. Gosto do universo nerd e inclusive trabalho com coisas nerds, sou programador. RED: Você conheceu o universo dos quadrinhos sozinho ou foi apresentado por alguém? J.A.: Eu comecei sozinho. Na verdade, comecei com livros, eu lia desde pequeno, por volta de 10 anos e a partir dos livros minha curiosidade foi aumentando, me tornando um leitor de

fato, até chegar nas HQs. Na época eu lia muito Marvel, talvez por não entender muito bem inicialmente a mensagem da DC. Com o tempo comecei a ler as especiais da DC e fui me tornando um leitor de HQs. RED: Você lembra qual foi seu livro favorito? J.A.: O Misterioso Caso de Styles - Agatha Christie. Eu comecei com Agatha Christie e por um tempo eu só lia Agatha Christie. RED: E como você chegou em Batman? J.A.: Cavaleiro das Trevas. Eu iniciei das especiais e a partir delas migrei para Batman (principalmente) e a ler mais assiduamente as HQs da DC. RED: E de onde come-


çou sua paixão pelo Coringa? J.A.: Primeiramente, começando pela ordem, por quê um vilão? Na verdade, eu sempre me interessei mais pelos vilões, independente da

uma boa parte das pessoas se veste como o personagem porque acha bonito e etc. No seu portfólio eu vi várias versões do Coringa, desde versões do Adam West até as do Paul Dini e

editora. Por que na minha concepção os vilões são muito mais próximos de nós, eles são seres humanos, são pessoas falhas. Os heróis possuem aquela pureza, aquele caráter (ideal inalcançável). Os vilões são falhos. O Coringa me atraiu por algumas características chave: ele é um palhaço que supostamente deveria trazer a alegria e faz exatamente o contrário e ele é muito elegante. Minha primeira experiência com o cosplay foi em um evento Geek e eu não sabia muito bem que personagem escolher, mas eu queria ir no estilo. Escolhi o Coringa e depois disso nunca mais mudei de personagem. RED: Na minha experiência com eventos Geek, no contexto cosplay, dá pra se notar que

provavelmente muitas pessoas não as conhecem. Como você, leitor de HQs, lida com esse pessoal novo que está chegando? J.A.: Eu realmente sou apaixonado pelo personagem e acho que isso é o essencial para se trabalhar com ele. Eu o conheço em várias mídias e fazer qualquer coisa apenas por modismo, não funciona. RED: Partindo para o assunto dessa edição, eu já tive contato com várias notícias de que existe uma competição até bastante acirrada entre os cosplayers, sobre quem faz o melhor personagem, quem se parece mais o personagem. Você se parece bastante com o Coringa, então provavelmente não sentiu tanto


isso, mas já chegou a presenciar algo do gênero? J.A.: Sim, muito. Inclusive, sem sexismo, eu presencio isso muito mais acirrado entre as mulheres. Chega a ser demais a briga pelo personagem, que também existe entre os homens, mas em menor quantidade. Eu vejo que no público masculino, não levam tão a sério como as mulheres, até pela quantidade maior do personagem favorito que pode vir a aparecer em um evento. (Algumas pessoas fazem modificações corporais complexas como retirar costelas, colocar próteses de silicone e até fazer tatuagens para se parecerem mais com seus personagens e se destacarem entre outros cosplayers e mesmo em concursos) RED: Você já chegou a fazer modificações em prol da similaridade com o personagem? J.A.: Eu já cheguei a raspar as sobrancelhas e a descolorir o cabelo para facilitar aplicar o verde. RED: E como você concilia a sua vida pessoal com o cosplay? Das pessoas que eu conheço, 90% não sabem que eu faço o cosplay, principalmente

porque elas não entendem. Sempre existe um constrangimento quando alguém que não é do meio descobre, é taxado como “as loucuras do cara”, ou me perguntam se eu sou muito bem pago para fazer isso. Não entendem a paixão que se tem pelo personagem e prazer de poder leva-lo até outras pessoas. Das pessoas do meu atual emprego, demorou um certo tempo para que descobrissem e um tempo para entenderem, mais tarde eles começaram a ter noção do que o cosplay está fazendo e que realmente é levado a sério. RED: Qual a diferença entre o Cosplay e Fantasia? J.A.: A fantasia é aquela roupa que o animador de festas aluga, o que o seu colega coloca no Halloween. O Cosplayer tenta chegar o mais próximo possível do personagem para que as pessoas quando visitem um evento, possam ter a experiência de sentirem como se o seu personagem favorito estivesse ali, na frente delas. RED: Você tem alguma última mensagem para quem está interessado no universo Cosplay? J.A.: Seja criativo e principalmente, divirta-se.


Duas ou mais crianças brincando num jardim, dois ou mais atletas numa quadra; dois homens de terno e gravata atrás de mesas de grandes corporações; dois homens interessados na mesma mulher; duas mulheres interessadas na mesma promoção profissional; enfim, o que nos move, ou nos paralisa, em todas as fases da vida é o instinto competitivo, essa vontade de superar o outro, além de nós mesmos. E é disso que vamos tratar aqui, dessa competitividade.


Citius, Altius, Fortius O lema dos jogos olímpicos é uma mostra alegórica daquilo que a sociedade coletiva em que vivemos procura, implícita ou explicitamente: Citius, Altius, Fortius (mais alto, mais forte, mais veloz). É claro que a olimpíada se trata de uma competição esportiva; mas não deixa de ser uma projeção metafórica da nossa realidade social, política e financeira. Nossa sociedade contemporânea está o tempo todo procurando, e recompensando, os mais altos, mais fortes e mais velozes, em todos os aspectos, sejam físicos ou profissionais. E auferimos esse status através da competição, muitas vezes acirrada, dura, desleal — não por acaso o capitalismo é apelidado de selvagem —, entre os indivíduos e suas habilidades. Mesmo sem percebermos, somos empurrados para a competição, para o confronto, e desse confronto, cada vez mais involuntário, deve sair um vencedor, alguém que esteja com a razão, com a certeza das coisas e ideias, e então faz-se aquilo que a frase de Machado de Assis, no seu romance Quincas Borba — cujo personagem contou uma história em que duas tribos lutam por um campo de batatas mas cujos frutos só abastecem uma das tribos que não divide as batatas com a outra porque, caso o fizesse, estariam sujeitas a desnutrição — diz: Ao vencedor as batatas! As batatas de hoje são os lucros, a posição hierárquica na grande organização, os cargos nas estatais, a vitória na eleição, o prêmio de melhor ator, o título de miss, o bônus no fim do ano, o título de funcionário do mês, a estrela na calçada da fama, etc.


Comunidade = Competitividade

Viver em comunidade significa viver em constante estado de competitividade. A harmonia e a abundância de recursos e oportunidades estão longe de fazer parte da composição da sociedade em que vivemos. Quanto mais megalópole, mais acirrada é a luta, batalha, conflito para se conseguir o famigerado, ou bendito, “lugar ao sol”. Enquanto seres gregários, que vivemos em grupos, bandos e coletivamente, e que, para isso, estabelecemos um conjunto de regras, leis e normas de conduta para a melhor “forma” de conviermos, lidamos quase diariamente com a dinâmica da competitividade, com a disputa, de várias formas. A vivência em sociedade faz com que constantemente estejamos de olhos uns nos outros. Nos miramos, nos espelhamos, nos inspiramos, nos invejamos, nos elogiamos, nos xingamos e nos humilhamos. Criamos empatias e antipatias, amizades e desafetos, parceiros e inimigos. E com todos estabelecemos um grau de competitividade, mesmo que seja até inconsciente. Competimos com nossos irmãos pela atenção dos pais, com nossos vizinhos por limites de espaço e de excessos, com amigos por vaidade e prazer e com desconhecidos pelas mais diversas razões possíveis. Somos educados a, não apenas competir, mas sobretudo, vencer. Esse é o grande objetivo da competitividade, da disputa, muitas vezes da contenda.


Ninguém quer ser rotulado de loser (fracassado, perdedor). Mesmo que o conceito de vitória seja distorcido e não se saiba ao certo o valor e a importância daquilo que se perdeu.

Dias de lutas, dias inglórios Não tratamos aqui de desqualificar ou desmerecer a importância e até o avanço que a competitividade trouxe para nossa vida cotidiana, “desde os primórdios até hoje em dia”. Todo o avanço tecnológico, industrial, econômico e político se deu, em grande parte, graças à competitividade entre cientistas, pensadores, empreendedores, atletas, administradores e ativistas. Sempre tentando, nem sempre conseguindo, mas tentando impulsionar o avanço da sociedade. Os conflitos ideológicos, religiosos, os debates, as discussões, as crises, os impulsos criativos deram origem a inúmeros pontos de avanço na sociedade ocidental. As civilizações se moldaram pelas disputas. As guerras levaram ao impressionante, e perigoso, avanço bélico, a tal ponto de criarmos armas de destruição em massa, como as bombas químicas e atômicas. Foi a Guerra Fria que propiciou a corrida espacial e a chegada do homem na lua, foi a disputa entre Apple e Microsoft que fez a tecnologia da informática chegar ao patamar que se encontra hoje; foi a guerra pelos espectadores que transformaram os estúdios de cinema em fábricas bilionárias de entretenimento cinematográfico. Enfim, a competitividade não é algo necessariamente bom ou ruim, é algo que sim que faz parte da nossa gene, educação e modo como lidamos com certas situações. Usada de maneira adequada e positiva, a competitividade pode nos levar a níveis mais elevados de conhecimento e progresso, por outro lado, o espírito exagerado de competitividade por levar muitos à completa ruina e desgraça. Corrida espacial = URSS x USA O lançamento do satélite soviético Sputnik I, em 04 de outubro de 1957, marcou o início da Corrida Espacial. No dia 03 de novembro daquele mesmo ano, os soviéticos deram outro passo: enviaram ao espaço a cadela Laika como tripulante da nave Sputnik II. Laika foi o primeiro ser vivo a viajar pelo espaço; Yuri Gagarin, também soviético, foi o primeiro homem a efetivamente viajar no espaço, transportado pela nave Vostok I, em um voo orbital no dia 12 de abril de 1961. Assim obrigou, que o Estados Unidos da América, buscassem novas tecnologias e acelerassem os trabalhos dos cientistas e técnicos da NASA e impedissem de ficarem fora dessa corrida. Enviando o seu satélite Explorer I em 31 de janeiro de 1958. Em 1969 eram os primeiros a pousarem uma cápsula tripulada na lua. Porém não foi o resultado da disputa que trouxe algum benefício para a humanidade, tanto que a lua se encontra abandonada e sem utilidade. E sim tudo o que foi desenvolvido para se vencer essa competição espacial. O forno de micro-ondas, o velcro, o Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês), as lentes de contato e o laser são objetos e instrumentos que já se tornaram corriqueiros, mas que não existiriam hoje se não fossem as tecnologias desenvolvidas a partir de pesquisas espaciais. As coisas seriam muito mais difíceis hoje se não existissem os equipamentos sem fios, as fraldas infantis descartáveis, as frigideiras de Teflon antiaderentes, os termômetros digitais ou o simples código de barras, que simplificou o comércio e que foi uma invenção da NASA (agência espacial americana) para identificar as milhares de peças de suas naves.


A lista das aplicações da era espacial à vida diária, quase interminável, inclui também os sensores infravermelhos que medem as ondas de calor dos planetas e das estrelas, que agora foram incorporados aos termômetros sem mercúrio. O equipamento com o qual Armstrong perfurou as pedras lunares que trouxe à Terra, abriu caminho para o desenvolvimento de aparelhos sem fio. Os monitores cardíacos para controlar a saúde dos astronautas são usados hoje nos hospitais, assim como as lentes de contato, desenvolvidas para proteger os navegantes do espaço da luz ultravioleta.

As armas e os barões assinalados Que a competitividade, a disputa e a vontade de superar o outro é algo instintivo e natural é indiscutível; mas, há também no meio que vivemos muitos fatores, e outros indivíduos, que estimulam, quase sempre exageradamente, essa disputa entre as pessoas. A competitividade gera dividendos quando bem explorada. Ela é usada cada vez mais como instrumento para a obtenção de resultados. Ela é, aliás, uma das técnicas usadas por administradores para estimular melhores resultados em suas equipes. Conta-se que Hitler fazia isso. Ele causava conflito entre seus comandados, como generais e oficiais líderes de batalhões e grupamentos. Hitler jogava uns contra os outros. Embora isso pareça um disparate, o efeito desejado era obtido. Cada general, ou coronel, fazia o máximo possível para provar para Hitler que era melhor que seu detrator, sem perceberem que estavam sendo toscamente alimentados para o conflito entre eles. Como isso, a competição, que seria natural, tornara-se ainda maior, o que agradava ao ditador. Há uma massa manipulada sem que esteja se apercebendo disso. E esse estímulo não é direcionado para produtivo ou necessário. Na imensa maioria das vezes, essa competição e essa disputa é alimentada para aumentar o consumo, alimentar mercados e inflamar estatísticas sobre aumentos de produção, materiais de insumos. O grande monstro do progresso usa a competitividade como alimento para desbragadamente saciar sua fome insaciável.


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Por mais incrível que possa parecer, uma das maiores competitividades que existem hoje, em pleno século vinte e um, ocorre entre estúdios e empresas de quadrinhos. E não se trata de coisa pequena; é algo que envolve um mercado de bilhões de dólares. A Marvel Comics disputa palmo a palmo o mercado com outra gigante do ramo, a DC Comics. São centenas de produtos licenciados, além daquele que hoje é o produto mais chamativo de todos, o cinema. Mas é claro que tudo começou, e ainda continua, nas páginas das revistas em quadrinhos. E não pensem os mais ingênuos e desavisados, que as duas empresas se estapeiam e se metem em rusgas num disputa por leitores e consumidores. Desde sempre ambas as companhias perceberam que o público pode, e de fato possui suas preferências por estes ou aqueles heróis, mas, de uma maneira geral, o público gosta de ver todos os heróis, de ambos os universos. Pensando nisso, e para saciar algumas curiosidades de desejos de fãs, como saber quem se sairia vencedor numa disputa, Super-Homem ou Capitão Marvel? E numa briga entre Wolverine e Lobo, quem venceria? Quem é mais veloz, Flash ou Mercurio? Foi para responder a essas perguntas, e capitalizar em cima disso, que as próprias empresas criaram uma série de quadrinhos chamada... alguém arrisca um palpite? O nome mais óbvio possível “DC vs Marvel”, uma bela jogada mercadológica para unir fãs dos dois universos. São dezenas de confrontos entre heróis, inclusive com as fichas com os dados físicos de cada herói, como altura, peso e poderes. Para quem é fã não deixa de ser algo imperdível de conferir. Saiu já faz um tempo, mas para os que tiverem disposição, não é difícil de encontrar nos melhores sebos da cidade. Vale a pena! Will.


Abaixo os demais números da série lançada em 1998.


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A Guerra das Correntes GEORGE WESTINGHOUSE X THOMAS EDISON Na Inglaterra de 1831, a propulsora da industrialização mundial, Michael Faraday demonstrara que era possível converter energia mecânica em energia elétrica, fato que tornava possível a geração de eletricidade. Era a primeira demonstração de um dínamo, que viria a ser o principal meio de fornecimento de corrente elétrica para o planeta em sua rápida mecanização. O processo de modernização tecnológica, tornado possível pela Revolução Industrial europeia, iniciara-se com os motores a vapor, muito mais eficientes do que as rodas de água e a tração animal, fazendo o modo de vida de milhões de pessoas se transformar numa velocidade espantosa – algo comparável ao impacto causado pela Internet no mundo atual. Aquele Novo Mundo que nascia, o do capitalismo emergente e das grandes metrópoles em desenvolvimento, seguia impulsionado vertiginosamente pelas máquinas. Porém, os primeiros motores criados desde a primeira metade do século XIX funcionavam por corrente contínua (CC). A perda de energia nos fios (do diâmetro de um braço adulto) e a dissipação do calor residual eram imensas, impossibilitando a transmissão de energia a longas distâncias e gerando quebras e curtos-circuitos constantes. Além disso, a construção e a manutenção destes motores eram caríssimas e, portanto, os cientistas buscavam opções mais promissoras. Quase meio século depois de Faraday, Thomas Alva Edison era o mago elétrico em voga, sendo o principal responsável pela iluminação das ruas, bondes, escritórios em Wall Street, fábricas e residências de Nova York, tudo movido por seus motores de corrente contínua. Cavalos saíam relinchando em disparada, atropelando pedestres porque seus cascos haviam sido eletrocutados pelas barras de ferro dos trilhos dos bondes. Os próprios bondes davam solavancos e derrubavam passageiros por causa da imensa carga elétrica que usavam. Trabalhadores eram lançados metros além dos postes que sustentavam os pesadíssimos cabos de distribuição enquanto tentavam consertar as caixas de junção vazando ou quebrada.

À esquerda um dínamo do início do éculo 19 e abaixo um gráfico que ilustra a Corrente Contínua.


Acima um gráfico demonstrando a corrente alternada e à direita um dos primeiros carros movidos à motor

Os geradores domiciliares eram barulhentos e enormes, necessitando de uma complexa estrutura física para funcionarem, causando incêndios constantes. Até os dínamos dos navios mercantes apresentavam falhas grosseiras que impossibilitavam a navegação, gerando atrasos e perdas financeiras e estratégicas terríveis. Assim, Edison vivia em apuros intermináveis, pressionado por empresários, políticos e moradores influentes dos bairros nobres. Em 1884, em meio a inúmeros problemas com seus clientes, apareceu em seu escritório em Nova York um imigrante do então império austro-húngaro, um rapaz magro e alto, de olhos brilhantes e tez balcânica. Ele se chamava Nikola Tesla – um prodígio humano fluente em seis idiomas que mudaria definitiva e radicalmente a história dos tempos modernos. Edison, perspicaz, logo farejou algo de inusitado no estranho visitante. Tesla realizava seu sonho juvenil de trabalhar pessoalmente para Edison, seu ídolo. A carta de apresentação de Tesla, escrita por Charles Batchelor, outro inventor e um amigo em comum dos dois eletricistas, fala por si mesma: “Senhor Edison, eu conheço dois grandes homens e você é um deles; o outro é esse jovem!”. Tesla mostrou ao Mago de Menlo Park sua ideia do motor de indução de corrente alternada (CA), concebida durante um por-do-sol num parque público de Budapeste três anos antes, num desses rompantes de genialidade a nos deixar perplexos: ele observara a auréola de energia ao redor do sol e – Eureca! – imaginara o Campo Magnético Giratório. Edison riu de Tesla, achando sua concepção totalmente fantasiosa, mas vendo no jovem sérvio um grande talento, contratou-o sem demora. Mergulhado em sérios problemas técnicos com seu maquinário, como já dito, estando pressionado por J. P. Morgan, seu famigerado cliente “Dono do Mundo,” Edison vivia um verdadeiro pesadelo. Tesla enxergou aí a grande oportunidade de sua vida e aproveitou-se do momento para mostrar suas capacidades. Procurou o chefe e prometeu melhorar o desempenho dos dínamos das fábricas de Edison em 25% em apenas dois meses. Edison arregalou os olhos e disse recompensá-lo em 50 mil dólares (uma fortuna à época) se cumprisse sua promessa. Tesla o fez dentro do prazo e ainda com mais do que o prometido, melhorando o desempenho das máquinas em até incríveis 70%! Quando foi procurar Edison para cobrar seu pagamento, Edison riu-se da credulidade do jovem sérvio e disse: “Tesla, o senhor não entende nosso humor americano!” Ou seja, não haveria prêmio nenhum.


Tesla cumprimentou-o humildemente, pegou seu chapéu coco e seu capote e foi-se embora. Durante um tempo trabalhou em serviços braçais, cavando valas pelas ruas da metrópole novaiorquina; depois associou-se a alguns empresários, abriu e fechou uma ou duas firmas com seu nome, desanimou-se, mas seu talento já chamara a atenção de muitos magnatas, dentre eles George Westinghouse (também inventor, cujas fábricas já usavam motores de corrente alternada, porém aquém das necessidades). Westinghouse pagou o jantar para o voraz Tesla em 1887, oferecendolhe um contrato de 1 milhão de dólares (contrato este que Tesla rasgaria tempos depois, salvando Westinghouse da falência) por todas as patentes de Tesla, caso ele otimizasse a corrente alternada. Assim vinham à luz um pequeno protótipo do motor de indução elétrica e uma dupla de inventores que revolucionariam o processo produtivo mundial. Em 1893 Westinghouse pôs em marcha o desmanche da ultrapassada tecnologia de Edison ao ganhar um contrato para a instalação da rede de fornecimento de energia elétrica para a Exposição Mundial de Chicago, um marco na história da humanidade. A Cidade das Luzes brilhou nos céus da noite americana por seis meses ininterruptos e encantou a todos os visitantes. No ano seguinte, mais uma vitória, e desta vez também a realização de outro sonho juvenil de Tesla: Westinghouse ganhou o contrato para a construção de uma central elétrica ligando as Cataratas do Niágara a Buffalo, então uma importante cidade industrial do aço, por um preço mais baixo e por uma distância impossível de ser alcançada pela já minguante corrente contínua. A corrente alternada se espalhava de forma irreversível pela América e pela Europa. Edison, desesperado, empregou táticas desastrosas para minar a credibilidade da corrente alternada de Tesla e Westinghouse, que tanto ameaçava o seu império CC, eletrocutando animais em praça pública (cães e gatos de rua e até um elefante!) e, por fim, um ser humano, o condenado à morte William Kemmler, que foi literalmente torrado vivo num espetáculo de horrores que a imprensa presente descreveu como “digna das câmaras mais obscuras da Inquisição do século XVI”. Embora ainda hoje se afirme que Edison foi um ladrão de invenções (dizia-se ter um dom nato para pegar ideias de outros inventores e apressá-las ao Escritório de Patentes como suas) e um empresário capaz de quaisquer baixezas para alcançar seus objetivos, temos que compreender o homem inserido na história de seu tempo: alguém firme em seus propósitos, empregador de milhares de trabalhadores e que apenas lutava com todas as forças disponíveis para manter seu monopólio elétrico contra piratas de patentes, especuladores e charlatães, num país de dimensão

George Westinghouse, Jr. empresário e engenheiro estadunidense que, entre muitas outras invenções, criou um freio a ar comprimido para locomotivas e foi um dos pioneiros da indústria da eletricidade. O seu nome é especialmente conhecido devido à marca de acessórios e equipamentos elétricos que ostenta o seu nome.


Nikola Tesla um inventor nos campos da engenharia mecânica e electrotécnica, de etnia sérvia nascido na aldeia de Smiljan, Vojna Krajina, no território da atual Croácia. Era súdito do Império Austríaco por nascimento e mais tarde tornou-se um cidadão estadunidense

continental em plena ascensão industrial, tecnológica e econômica. Graças ao rompimento Tesla-Edison, e à aliança Tesla-Westinghouse, eventualmente o sistema de Edison capitulou diante de outro muito mais robusto e rentável. Tesla subia a escadaria da fama e da riqueza enquanto Edison saía pela porta dos fundos, vencido, mas agora livre para se dedicar a outros campos do conhecimento, principalmente a indústria do entretenimento da qual tanto desfrutamos hoje em dia. Graças a Edison temos o contador de ações da bolsa (com o qual ficou rico e pôde criar sua própria empresa), a lâmpada elétrica incandescente (já em processo de desuso), as primeiras câmeras filmadoras do mundo (o Cinetógrafo) e os primeiros projetores de tela (o Vitascópio) que possibilitariam a indústria cinematográfica, o gramofone, a válvula dos aparelhos de rádio e o microfone moderno que possibilitariam a indústria fonográfica, sem contar inúmeros equipamentos usados na Primeira Grande Guerra. Graças a Tesla temos hoje controles remotos para quase todo utensílio doméstico, máquinas de raioX, microscópios, bobinas, supercondutores, televisores, a turbina moderna, as lâmpadas de néon e de luz fria, os leds, os radares, a robótica, o wireless, os motores de indução e os dínamos (que ainda hoje, quase inalterados, movem a indústria e a maioria dos veículos do planeta), outros inúmeros equipamentos usados na Segunda Grande Guerra e, claro, o rádio, que, aliás, nem Marconi nem Tesla foram os precursores: o primeiro a estabelecer transmissões via rádio foi um padre brasileiro (quem diria...), Roberto Landell de Moura que, em 1893, dois anos antes de Tesla e Marconi, realizou com sucesso a primeira transmissão radiofônica em Porto Alegre, embora com equipamentos bem distintos daqueles de seus criadores. Pivô desta Guerra das Correntes e o patrono visionário que permitiu a Tesla a plena realização de sua torrencial genialidade, disse Westinghouse à imprensa de sua época: “Se um dia alguém disser de mim que no meu trabalho eu em algo contribuí para o bem-estar e a felicidade do próximo, ficarei satisfeito”. * LUIZ ANTONIO ESPINDOLA em colaboração à Revista Espinho d’Água


38 Chega a ser engraçada a ideia de se citar um clássico de Shakespeare em pleno século 21, como uma fonte confiável e permanente de qualquer tema, todavia Macbeth nunca fica velho.

Macbeth e Banquo voltam a cavalo de uma vitória militar quando se deparam com três misteriosas bruxas no caminho. As estranhas criaturas fazem previsões sobre o futuro da dupla e Macbeth acredita nelas quando a primeira se realiza quase que imediatamente pelo fato do arquiduque de Cawdor ser preso por traição e o ducado ser dado a ele que passa assim a ser o novo arquiduque. Macbeth conta de uma outra previsão, a de que se tornará rei, à Lady Macbeth, e os dois passam a tramar a morte do Rei Duncan. Quando o Rei chega ao castelo de Cawdor para assistir a execução do arquiduque traidor, a esposa de Macbeth prepara uma poção que misturada ao vinho fará os guardas dormirem embriagados. À noite a poção fez efeito e o casal assassina o Rei, colocando a culpa nos servos dele. Macbeth se torna o Rei da Escócia mas é atormentado por outras previsões das bruxas sobre a sua derrota e na tentativa de evitá-las, provoca a loucura dele e da rainha e com isso comete uma série de assassinatos sanguinários.

Versão cinematográfica lançada em dezembro de 2015 (1h 53min) Direção: Justin Kurzel Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, David Thewlis mais Gênero Drama Nacionalidades Reino Unido, França, EUA


MACBETH

A estória de Macbeth nos dias atuais é um clássico empresarial. O homem jovem precisa se sobressair a qualquer custo em uma grande companhia, pressionado pela família (pais, irmãos, esposa) para se tornar um homem com muitas aquisições e provar o seu poder perante a sociedade. A história se repete conforme o clássico e nosso protagonista se envolve em inúmeros problemas que poderiam ser evitados se ele apenas pensasse nas consequências de seus atos. O final, como o clássico de Shakespeare não é inesperado. Não tão diferente no mundo empresarial competitivo, apesar de muitas vezes nosso pior inimigo ser nossa ambição, muitos casos terminam dramaticamente em suicídio. Chega a ser tema comum em diversos bancos na capital administrativa do Brasil. Nisso, o drama se matem ativo e fugaz, extremamente claro e moderno como deveria ser. Até onde nossas ambições poderiam nos levar? Eis a questão do dramaturgo inglês, que até hoje flutua sobre as nossas mentes como uma adaga fantasmagórica ou três bruxas que cruzam nosso caminho com promessas de prosperidade impossíveis, a um preço alto demais para ser pago. Leona Volpe

Macbeth é uma tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare, sobre um regicídio e suas consequências. É a tragédia shakespeariana mais curta, e acredita-se que tenha sido escrita entre 1603 e 1607. O primeiro relato de uma performance da peça é de abril de 1611, quando Simon Forman registrou tê-la visto no Globe Theatre, em Londres. A obra foi publicada pela primeira vez no Folio, de 1623, possivelmente a partir de uma transcrição de alguma performance específica. As principais fontes de Shakespeare para a tragédia são os relatos dos reis Duff e Duncan nas Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, de 1587, uma história das Ilhas Britânicas familiar a Shakespeare e seus contemporâneos, e pelos escritos do filósofo escocês Hector Boece. No mundo teatral anglófono, muitos acreditam que a peça é "amaldiçoada", e nem mesmo mencionam seu nome em voz alta, referindo-se a ela como "The Scottish play" ("A peça escocesa").


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Um, austríaco, judeu, mais velho, era considerado o pai da psicanalise, o outro, suíço, cristão, mais novo, fundador da psicologia analítica. Foram amigos, trabalharam juntos. E um chegou a dizer que o outro era seu “herdeiro” profissional. Mas, da amizade e proximidade, surgiu uma desavença, um desentendimento que os separou, os tornou inimigos. Enquanto Freud estava publicando seu revolucionário “Interpretação dos Sonhos” em 1900, Jung estava começando seu trabalho como jovem psiquiatra no Burgholzi, um hospital psiquiátrico em Zurique. De lá em diante, ele estudou os trabalhos de Freud e os aplicou ao tratamento de seus pacientes. Entretanto, os resultados o surpreenderam, pois a mente esquizofrénica recusava algumas das afirmações de Feud. O problema principal era a respeito do sentido literal e simbólico dos sintomas e fantasias. Logo tornou-se claro que a abordagem freudiana era concreta demais e não se adaptava a alguns dos aspectos da psique com os quais Jung estava lidando. Isso causou um quiproquó entre ambos. Não faltaram críticas e tentativas de desqualificação de um lado e de outro. Obviamente não se pode descartar o forte componente de vaidade e orgulho pessoal de ambos. Por mais que pudessem negar, havia uma competição entre dois dos grandes nomes da psicologia moderna. Não deixa de ser um clássico arquétipo do velho que quer se manter ainda no topo da cadeia e o novo que chega e desafia essa posição. Mas a história acabou provando que quem realmente saiu-se vencedor foi... a psicanálise. Will Freud elaborou a hipótese de que a causa da histeria era psicológica, e não orgânica. Essa hipótese serviu de base para outros conceitos desenvolvidos por Freud, como o do inconsciente.

Carl Gustav Jung psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos e o inconsciente coletivo.

Um Método Perigoso (em inglês: A Dangerous Method) é um filme de gênero drama e suspense lançado em 2012, é dirigido pelo diretor David Cronenberg e tem Keira Knightley, Michael Fassbender e Viggo Mortensen no elenco. O filme foi exibido em primeira mão no Festival de Veneza de 2011 e conquistou uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Mortensen.


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Estrelas do rock, astros do cinema, pintores, não se enganem com sua aparente loucura. Não há pessoas mais loucas, transgressoras, imperscrutáveis e briguentas do que eles... os escritores. Muitos deles, de origem nobre, bem trajados, alguns com a aparência de respeitáveis senhores e senhoras, podem até enganar os incautos. Contudo, uma rápida pesquisa sobre a sua biografia e logo você perceberá que a maioria dos escribas teve uma vida bem agitada, em todos os sentidos. Passando por aqueles que estiveram em fronts de guerra, aventuras amorosas, envolvimento com o crime e os que cometeram suicídio, boa parte deles ainda teve tempo e disposição para arrumar arengas com outros escritores. Vamos ilustrar esse texto com algumas dessas tretas entre escribas.

Evelyn Waugh sobre Marcel Proust: “Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

Virginia Woolf sobre James Joyce: Virginia declara após ler um dos romances mais conhecidos do irlandês: “Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas.”.


Oscar Wilde sobre Alexander Pope: “Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

William Faulkner e Ernest Hemingway: O autor de O Som e a Fúria declarou o seguinte: “Hemingway nunca foi conhecido por usar uma palavra que faça o leitor consultar um dicionário”

Em resposta, Ernest disse: “Pobre Faulkner, realmente acredita que grandes emoções vêm de grandes palavras?”.

Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad: “Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”.


Vladimir Nabokov sobre Sigmund Freud: “Eu acho que ele é grosseiro, eu acho que ele é medieval, e não quero um senhor idoso de Viena com um guarda-chuva impondo seus sonhos pra cima de mim. Eu não tenho os sonhos que ele discute nos livros. Eu não vejo guarda-chuvas em meus sonhos. Ou balões.”.

Vladimir Nabokov sobre Fiódor Dostoievski: A falta de bom gosto de Dostoievski, seus negócios monótonos com pessoas sofrendo de complexos pré-Freudianos, o jeito que se chafurda nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é difícil de admirar.

Truman Capote sobre Jack Kerouac: Truman declara, após ler Na Estrada – obra também conhecida como a “Bíblia Hippie” – o seguinte: “Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”.

Charles Baudelaire sobre Voltaire: “Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle.”


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O velório (Kiko Zampieri) Saltei do vagão sobre a plataforma de cimento da velha estação. Vinte e cinco anos depois estava de volta à minha pequena cidade natal. Não era uma visita cordial e nem um retorno as minhas origens. Um velório era o que me trouxera até ali. Jonas Pimentel era o falecido. Não éramos íntimos, apenas conhecidos. Frequentamos o mesmo colégio, os mesmos bailinhos, até namoramos algumas mesmas garotas e competimos em vários eventos esportivos. Ele era mais popular que eu, mais alto, acho que até mais bonito, gostava de ser o destaque em tudo que o cercava. Continuei a caminhar pela plataforma até o portão de saída, o ar não era o mesmo daqueles tempos, as ruas já não eram mais de paralelepípedos, a velha praça estava mais arborizada, o velho cinema era agora um supermercado e no fim da pequena avenida, majestoso e mais bonito o ginásio de esportes. Lembreime das tardes em que saía correndo pelas vielas, da escola até o ginásio. Adorava esportes, fosse qual fosse, queria participar de todas as competições, não me importando com os resultados, diferente de Jonas Pimentel, esse queria vencer todas disputas, ganhar troféus e medalhas de Honra ao Mérito. O velório seria no ginásio de esportes, uma homenagem ao esportistas com mais medalhas e troféus daquela cidade. Entrei pela porta dupla, que estava aberta, e um cheiro enjoativo de crisântemos e cravos, misturado com o odor de velas queimando. Havia muitas pessoas presentes, muitas mesmo, a maioria era desconhecida e a outra minoria estava sem memória em relação a mim, pois não recebi nenhum cumprimento mais íntimo. Fui caminhando ao redor daquele jardim de pessoas que envolviam o esquife aberto, com coroas de flores na cabeceira, como se formasse um palco para o velho esportista receber a sua última medalha. Pelo caminho podia se ouvir alguns cochichos enquanto prosseguia minha peregrinação: - Foi a minha inspiração, dizia algum ex-atleta derrotado. – Estava tão cheio de vida, dizia uma senhora. – Dizem que a mulher acabou com a carreira esportiva dele, fofocou uma outra mulher. Fui me espreitando e tentando me aproximar do esquife rodeado pela família, passei pelo armário de troféus e medalhas, que com certeza fora limpo e arrumado para o evento fúnebre. Parei. Alguns eram de competições que eu também participara, grandes, médios e pequenos, prateados e dourados, porém algo me chamou a atenção, o último troféu tinha a data de vinte e cinco anos atrás, pelo jeito parara muito cedo de competir, coincidência ou não, exatamente quando eu partira para a cidade grande. O que teria acontecido? Continuei. O ar estava abafado e o forte odor de flores e velas pareciam aumentar com o tempo. Ainda não conseguira alcançar o esquife e poder elevar alguns pensamentos e dar os pêsames aos familiares. Alcancei, o que parecia ser uma fila indiana, cutuquei o ombro do homem a minha frente e perguntei se aquela era a fila para visitar o falecido. Confirmou e me fez arrepender de ter perguntado. Desabou a falar do falecido, suas glórias, seu caráter e até de seus pequenos pecados perdoados. Uma frase que li outro dia no site do Pensador, bombardeou minha mente: O ser humano é tão competitivo, que só desperdiça elogios com quem já morreu ...exatamente por não representarem concorrência. Essa frase me fez divagar por alguns dias, tanto que não consegui descobrir quem era a autora, Isaura Fernandez, mas mesmo assim fiquei seu fã. Uma verdadeira pérola de verdade naquela frase. Aquela mulher que fizera o comentário sobre a dominação da esposa sobre o falecido, parou atrás de mim e repetiu a mesma frase, fiquei com raiva e ao mesmo tempo interessado, deixei a curiosidade tomar conta e questionei. Ela foi falando sem muitas pausas sobre a paixão que o falecido tinha pela esposa e por amor e desinteresse dela pelo esporte ele abandonara a carreira e até deixara de participar de eventos internacionais. Continuou acelerada dizendo que as más línguas diziam que depois do casamento ele mudara muito e até uma


amante ele tivera, deixei escapar um sorriso fechado e me virei, estávamos nos aproximando do esquife. Lembrei de outra frase de Isaura Fernandez: Os homens lembram os cavalos puro sangue! Quando solteiros trotam, empinam, galopam e cavalgam maravilhosamente. Casados empacam, relincham, dão coices e não aceitam cabresto. O primeiro a encontrar fora seu filho mais velho, muito parecido com ele, estendi a mão e deixei escapar o velho bordão, depois foi a filha caçula e finalmente a linda esposa. — Luiz Mauro? Disse ela com surpresa nos olhos e na voz. Maria Paula. Era ela mesmo. Ainda linda e com a mesma postura requintada. Empinadinha, lembrei do apelido que pusemos naquela menina que desfilava pelos corredores e pátio do colégio. O coração pulsou mais rápido e fiquei estático e até esqueci do falecido. — Maria Paula! A garota mais cobiçada do colégio foi fisgada pelo campeão. Disse e me arrependi da colocação naquele momento inapropriado. Ela sorriu. Os olhos inchados e vermelhos mostravam que ela estava sofrendo, lembrei da conversa com a mulher na fila, traída e ainda apaixonada. Ela me abraçou e pude sentir o peito soluçar. Embarguei e resisti. — Sinto muito pela sua perda, ele era um bom homem. Disse e querendo dar um soco na minha própria cara pela idiotice, afinal eu o odiava pelas eternas gozações e sarros que ele proporcionara durante toda a minha infância e juventude. — Ele sabia que você viria em seu enterro e quando ficou doente e desenganado pelos médicos, pediu que te desse um recado: “Encerrei minha carreira pelo motivo de não ter mais valor sem o meu eterno segundo lugar. Obrigado por me incentivar.” Fiquei sem entender ou não queria entender, o cara que eu sempre quis vencer e odiava a cada vez que me vencia, me tinha como inspiração. Beijei o rosto de Maria Paula e fui até o esquife aberto. O rosto estava sereno, como sempre deve estar um morto, mas podia jurar que aquele sorriso fechado e calado era diretamente para mim, o Eterno Segundo Lugar, elevei uma prece e beijei a sua testa fria. Pela primeira vez agradeci por não ter chegado em primeiro lugar naquela competição.


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Fim de jogo (Will) A recomendação de praxe era para que não conversassem. Era também uma orientação dos advogados. Estavam sentados, um de frente para o outro. Enquanto um deles parecia mais esmorecido, com o olhar mais aflito, até receoso, o outro parecia menos preocupado, e, poder-se-ia dizer, até despreocupado, olhando para o outro com um olhar meio enigmático, um tanto indecifrável. Ao se encararem, pareciam querer dizer algo um para o outro. Eram velhos conhecidos. Desde os tempos de criança, quando já aprontavam das suas. Estavam sempre numa constante competição particular. Um ia e colocava uma bombinha no vaso sanitário da escola, que causava uma explosão dos diabos e um rombo no banheiro, deixando-o inutilizado por semana até seu conserto; o outro furava dois dos quatro pneus da diretora, causando a ira da velha senhora e a admiração dos outros alunos. Um tacava pedra nas vidraças das janelas dos vizinhos; o outro rasgava os jornais deixados nas portas das casas dos assinantes. Um colocava chiclete no cabelo das meninas; o outro chegava por trás e baixava as calças dos colegas no recreio, na frente de todos. Eles cresceram, e continuaram aprontando. Enquanto um dava o cano do trabalho, o outro usava o computador da empresa para ver filmes de sacanagem na internet. Um ia para balada e fugia pelo banheiro para não pagar a conta; o outro dizia não ter dinheiro e passava por baixo da catraca do ônibus. Sempre mantiveram o contato. Muitos foram os fins-de-semana que se encontravam para beber, jogarem conversa fora e contar, com regozijo e orgulho o que andavam aprontando, sempre em tom de “o que você fez foi bom, mas o que eu fiz foi melhor”. No fim, riam, achando-se os espertos, despediam-se, já deixando uma data futura marcada para o novo encontro, e sempre com um gostinho de desafio e superação, ainda que velada, entre eles. Ambos deram um passo adiante nessa disputa, atingindo outro nível, quando entraram para a política, quase ao mesmo tempo. Enquanto foi ser assessor parlamentar, o outro conseguiu o cargo de secretário executivo do partido. Um elegeu-se vereador e retinha 70% do salário dos seus assessores; o outro saiu candidato a deputado e beliscou boa quantia de caixa dois na campanha. Um foi secretário de planejamento e facilitou a liberação de licenças para amigos empresários; o outro, enquanto presidente da câmara, se beneficiou da votação de medidas e leis sobre liberação de verbas, abonos pecuniários e reembolsos indenizatórios. Tantas e tantas façanhas ao longo de décadas transformaram os dois em homens fortes de seus partidos, cruéis e temidas aves de rapina com influência e prestígios entre os colegas de legislatura. Agora, mais de cinquenta anos depois de passados em que se conheceram, ainda na idade das calças curtas, ambos estavam algemados dentro de uma viatura da polícia federal a caminho de Curitiba. Haviam passado de citados para indiciados e réus no esquema de recebimento de propina de uma grande empreiteira para financiamento de campanha em troca de favorecimentos futuros em licitações e leis de autorização para construções, reformas e restaurações de obras. Somados, os valores da rapinagem passavam da casa das centenas de milhões. O que parecia mais bizarro de toda a situação, era o fato de um deles, o que havia recebido uma quantia maior de suborno que o outro, deixava escapar um quase sorriso de superioridade em relação ao amigo corrupto. Quem o visse poderia jurar que ele pareceria, com o olhar, querer dizer para o outro: “roubei mais que você. Venci!”. E o outro baixava a cabeça, reconhecendo, finalmente a derrota. Will


Em busca das estrelinhas.

Algum tempo atrás, as crianças “brigavam” nas salas de aula em busca da velha “estrelinha azul” no caderno ou na folha de atividades. Era divertido ver a professorinha, sábia e sagaz, não deixar que todos recebessem a sua “estrelinha azul”, exceto aqueles rebeldes que

Prof. Maria Helena

não participavam das atividades, por preguiça ou por simples ato de rebeldia. A competitividade era em busca de conhecimentos, raciocínios lógicos, desenhos perfeitos e coloridos, tabuadas completas e alinhadas e a professora enchia os olhos de alegria de ver seu trabalho sendo aceito e bem feito. Essa era a sua “estrelinha azul”. O tempo passou, conceitos foram sendo alterados pelos caminhos, a informática alcançou os “pequenos consumidores” e as Redes Sociais foram substituindo as “estrelinhas azuis” por alcance de amizades, compartilhamentos e curtições. Até as professorinhas se alinharam a essa nova competitividade, ainda bem que não são a maioria, e se esqueceram do tato, do carinho e do incentivo à competitividade. Hoje podemos observar que nossas crianças, praticamente, já nascem “teclando”, ou pela natureza ou pelos exemplos ao seu redor, principalmente familiar. Hoje podemos afirmar que os excluídos, não são mais os tímidos ou gordinhos ou de outra classe social, mas sim aqueles que não possuem um grupo para seguir, vídeos no Youtube, mil amigos no Facebook, e as boas professorinhas, tentam eliminar esses novos preconceitos, induzi-las ao velho jargão “A união faz a força”, porém são muitas vezes surpreendidas com os sonhos dessas crianças: Quero um J5 ou Galaxy 7 ou qualquer outro equipamento que a mãe ou a irmã ou irmão ou o pai tem. Enfim, resta a professorinha guardar o carimbo da “estrelinha azul” e ligar o WhatsApp.


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