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Expresão Cultural Periférica REVISTA

ANO 3 - N: 8 - FEVEREIRO 2017

PROJETO A-GRAVANDO

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CARNAVAL NO GRAJAÚ EXPEDIÇÃO

GRAJAÚ - MACHU PICCHU FRANCISCA: TRAVESSIA


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QUEM SOMOS

Expressão Cultural Periférica, conhecido como ECP, é um coletivo de comunicação e articulação sociocultural situado na região do Grajaú, Extremo Sul da cidade de São Paulo. Nosso objetivo é documentar e divulgar ações culturais e sociais que acontecem especialmente na região onde estamos localizados, e em outras periferias da cidade, como forma de registrar principalmente a cultura produzida nos territórios afastados do centro e ampliar o público que aprecia toda essa efervescência. Atuamos em quatro frentes: Em meio impresso com a Revista Expressão Cultural Periférica, Com audiovisual produzindo matérias para nosso Canal no Youtube e para o Programa Periferias, transmitido ao vivo pela Internet, através de nosso blog e redes sociais, como forma de dinamizar o acesso a informação e sempre atingirmos o maior número de pessoas possível e com nossa Gráfica ECP, onde fazemos parcerias com coletivos culturais e sociais para produzir material impresso com preços populares, como forma de auxiliar a produção artística das periferias em suas impressões.

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AÇÕES ECP

oltamos das férias! Ufa! Digamos que longas férias para nós do ECP, visto que a Gi e eu, Valéria, participamos da Expedição Grajaú-Machu Picchu. Vivemos experiências fantásticas, e todos os lugares que passamos durante toda essa viagem nos deixou uma forte impressão cultural e social. Alguém disse “Viajar é preciso” e eu, concordo plenamente. Estamos fechando mais uma edição da Revista ECP que está chegando ao seu 8ª número. Muita coisa acontecendo, o carnaval chegando, a agitação já tomando conta da população. O ECP voltou a todo vapor, correndo contra o tempo porque nosso projeto pelo pragrama VAI termina em março. Logo disponibilizaremos as datas para o 5º Programa Periferias e para o lançamento da 9ª Edição da Revista. Além dessas ações o ECP está envolvido em um novo projeto, a Agência de Comunicação e Turismo Horizonte, na qual queremos ampliar nossas ações e serviços e nos fortalecer para tornar o projeto sustentável e que não fiquemos sempre dependendo dos editais, visto que está tudo congelando por aí! Logo mais teremos uma nova revista em circulação no Grajaú! Estamos em fase de planejamento desse novo projeto e aos poucos vamos divulgando novas informações. Estamos nos adentrando nas ações de economia solidária e poderemos contribuir para divulgar mais essa ideologia para poder melhorar nosso Grajaú. É o Nós Por Nós! Vamos a luta porque ficar parado reclamando não dá galera! 2

EXPEDIENTE Coletivo Expressão Cultural Periférica Gi Barauna, Larissa Araújo, Larissa Costa, Michelle Marques e Valéria Ribeiro Coordenação Editorial Valéria Ribeiro Redação Aécio Magalhães, Adriano Mendes, Ayco Dany, Coletivos Jovens na Cena, Danila Costa, Gi Barauna, Jonathan Alves, Michelle Marques, Paolo Viera, Thiago Borges e Valéria Ribeiro Colaboradores Adriano Mendes, Aécio Magalhães, Carlinhos Costa, Eduardo Costa, Danila Costa, Edu Graja, Ivan Lima, Jaison Pongiluppi, Jonathan Alves, Keidson Oliveira, Thiago Borges e William Mangraff Parceiros Associação Amigos do Jardim Reimberg, Ateliê Daki, Casa Ecoativa, Cedeca Interlagos, Jovens Na Cena, Quebramundo, Periferia Hacker, Periferia em Movimento e Sergipana Artes Gráficas Foto de Capa: MATHEUS OLIVEIRA Foto de Contra-Capa: Expedição GrajaúMachu Picchu Projeto Gráfico e Diagramação Keidson Oliveira Impressão Gráfica ECP Tiragem: 500 Exemplares E-mail: ecperiferica@gmail.com Telefone: (11) 5939-5917 (Valéria Ribeiro) (11) 95854-6101 (Valéria Ribeiro) Espaço Cultural ECP/CJ: Rua Alba Valdez, 03 - Jardim Reimberg (Grajaú) - Cep 04845-200 - São Paulo-SP ECP Na Rede Blog: https://ecperiferica.blogspot.com.br/ Perfil ECP: facebook.com/coletivoecp Revista ECP: facebook.com/revistaecp Programa Periferias: facebook.com/ periferiasecp Canal no Youtube: Expressão Cultural Periférica Site da Expedição Grajaú- Machu Picchu: www.coletivoecp.com.br


EDITORIAL Respiro da cultura

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uando se trata de periferia a cultura é um dos poucos respiros que se tem. A arte produzida por diversos artistas anônimos fazem pulsar vidas esquecidas nos recônditos barrentos das bordas da pauliceia desvairada, é um oásis em meio às moradias desordenadas, trânsito caótico e vida dura dos que aqui sobrevivem, vivem, existem e resistem. A árdua resistência que de tempos em tempos sofre duros golpes. No Grajaú dezenas de coletivos culturais resistem bravamente as batalhas diárias em prol de continuar a trazer pra quebrada aquilo que lhes é negado. Será que a arte “daki” vai sucumbir diante do descaso, da falta de investimento e da estética do cinza? Jamais! Como é possível pensar em uma cidade linda quando a população sofre com a cidade miséria? A linda cidade que quer desapropriar dezenas de famílias no Grajaú, oferecendo o vazio como alternativa, o mesmo vazio que encontramos nas paredes pintadas pelo poder público. Aqui na quebrada a cidade linda é colorida, pois é a única forma de se expressar, nas galerias das ruas, pois os equipamentos públicos são escassos e não comporta os mais de meio milhão de vozes do Extremo Sul. A cultura aqui é ideologia, é luta, é resistência e nos faz respirar, suspirar e transpirar. Que nossos Zumbis, nossas Dandaras e nossas Franciscas continuem a travessia destemida dessa gente simples, mas que sempre busca um novo amanhã...

ÌNDICE

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CARNAVAL NO GRAJAÚ

MULHERES NEGRAS NA ARTE

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HIP HOP É MINHA CIDADE

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FRANCISCA: TRAVESSIA

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TESOUROS ESCONDIDOS

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PROJETO A-GRAVANDO

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UM PALCO PARA UM ARTISTA NEGRO

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ARTISTA FABIANO NUNES

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SEM PALAVRAS PAOLO VIEIRA

EXPEDIÇÃO GRAJAÚ - MACHU PICCHU

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NOVO ANO, AMEAÇAS ANTIGAS

OPINIÃO DO LEITOR

CI DA DE CINZA I

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nteragir na cidade é uma forma de pertencer, de apontar falhas para uma sociedade acomodada, de deselitizar e descentralizar a arte, marcando este grande corpo pelo qual somos excluídos todos os dias. Os espaços públicos se tornam privados e cada vez mais somos apagados, excluídos, expulsos e os muros se tornam cegos, surdos e mudos sobre a pele da cidade. Esse processo de “embelezamento elitista” gera exclusão, quem decide o que é belo ou o que é arte? O que pode ou não pode? Enfim, não encontro solução no “grafitódromo” e muito menos na criminalização da arte urbana, mas também não vejo problemas em reciclar alguns espaços, afinal a pintura tem um histórico em relação ao passo a passo das camadas de tinta e a cidade tem uma forma muito orgânica, onde nada é fixo ou permanente, mas tudo se transforma a partir da apropriação dela!

Artista visual Ayco Dany 3


Fotos: Adriano Mendes

ALEGRIA EM COMUNIDADE, O CARNAVAL É UMA FESTA DE TODAS E TODOS Por Jonathan Alves e Adriano Mendes

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Carnaval no Grajaú tem a marca expressiva da escola de samba Estrela do Terceiro Milênio, que no domingo, 26, desfilará no Sambódromo às 10h00 entre as escolas de acesso com a possibilidade de passar para o grupo especial. O enredo deste ano, “Para um bom entendedor um pingo é letra e o símbolo mais que uma palavra”, destaca o valor da simbologia na linguagem trabalhando com ditados e símbolos do imaginário popular. “Foi um ano de muita dedicação e trabalho para que nosso carnaval 2017 supere as expectativas. Nossa meta é o grupo especial e, com a comunidade, vamos chegar lá”, afirmou Gilberto Rodrigues, presidente da Terceiro Milênio. Durante o penúltimo ensaio aberto tivemos a oportunidade conversar com integrantes de alas sobre a importância de ter uma escola de samba na região do Grajaú e qual o papel do carnaval na comunidade. O encontro com Felipe, coordenador de uma das alas, trouxe o aspecto da alegria do carnaval, tão importante em tempos de histórias tristes e ausência de perspectivas para a vida. O compromisso com a organização do carnaval para integrantes de uma escola é muito sério e envolve várias

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responsabilidades, desde ensaios técnicos ao transporte dos carros alegóricos, mas é um compromisso com a alegria que a escola vai transmitir na data. Dona Vera, 51 anos, moradora do Distrito de Pedreira e ex-integrante da Vai Vai, conheceu a Estrela do Terceiro Milênio há um ano e desde então tem se dedicado às atividades da escola. Para ela, a festa durante o carnaval tem a capacidade de fazer com que as pessoas larguem os celulares e se divirtam, conheçam outras pessoas e vejam o lado bom da vida. É possível ir pra rua com toda a família, como ela mesma faz, passista de ala, vai para os ensaios acompanhada de filhos, sobrinhas e netos. O carnaval “dá muito trabalho e às vezes gera tensões, mas vira sua família e sua casa”, comentou dona Vera nos explicando o sentido de comunidade que a festa tem. Conversamos também com Mônica Ramos, moradora do Jd. Reimberg, Grajaú, que desfilará na ala Nossa Senhora Aparecida. Para ela, é bom ter uma escola na região, pois “para visitar outras escolas precisamos nos deslocar até regiões do centro, tem coisas no bairro que precisamos aproveitar”. Muitas são as atrações promovidas por grupos da região, como o bloco “Ô Grajaú, vem tomar no copo!”, do grupo Humbalada e as rodas de samba antes dos ensaios da Estrela do Terceiro Milênio. O feriado é uma oportunidade de optar pela comunidade e socializar sem depender do mundo digital. Sobre a Estrela do Terceiro Milênio: Comp.: Ricardo Neto, Maradona, Turko, Rafa do Cavaco e Leandro Flecha que desenvolveram o samba enredo. Intérprete Oficial: Vaguinho Diretor de Bateria: Mestre Diego Rainha da Bateria: Elaine de Abreu Primeiro Casal Mestre Sala e Porta Bandeira Alex Malbec e Edilaine Campos Dir. de Carnaval: Silvio Azevedo Carnavalesco: Eduardo Felix Dir. de Harm.: Wilson Costa, Everton G. e Sr. Mercadoria Calçadão Cultural Grajaú End: Rua:Prof. Oscar Barreto Filho, s/n Parq. América - São Paulo - Cep: 04822 - 300 Email: estreladoterceiromilenio@gmail.com


Bloco Grajaú Vem Tomar no Copo 2017

Fotos: Bloco Grajaú Vem Tomar no Copo

4º ano do Bloco mais delicinha do planeta terra! No Grajaú!

É na Avenida Belmira Marin que a gente desce nosso pelô! Dessa vez o tema é “CONVOQUE SUA BUNDA, O CLIMA TÁ TENSO”. Não tá fácil pra ninguém. Então convocamos vossas bundas pra descer até o chão!

Data: 25/02 Horário: 15h Endereço: Galpão Cultural Humbalada (Av. Grande São Paulo, 282)

BORA CAUSÁ PORQUE NÃO TEMOS MAIS NADA A PERDER! DIGNIDADE JÁ NOS ROUBARAM FAZ TEMPO. ENTÃO, TÁ ESPERANDO OQ? COMO FUNCIONA? Saímos do Galpão Cultural Humbalada e vamos rumo a Belmira Marin passando pelas ruas. E DÁ PRA BEBER? Nosso bar estará aberto. Mas você pode também trazer seu “cúler” com suas brejas geladinhas para acompanhar o bloco. QUEM PODE VIR? Toda e qualquer pessoa que não tenha preconceito. Aqui não aceitamos qualquer tipo de machismo, racismo, gordofobia, homo-lesbo-transfobia. O babado é certo aqui beu abor! CORES DO BLOCO: Rosa, azul e dourado

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MULHERES NEGRAS NA ARTE

Histórias de luta compartilhadas para acolher e resistir

Por Jonathan Alves

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Fotos: Acervo pessoal

o final de Janeiro cerca de vinte minas pretas e periféricas se encontraram no Centro Cultural Grajaú, antiga Casa de Cultura Palhaço Carequinha, para partilhar suas histórias de luta e conversarem sobre como se deram os seus primeiros contatos com a arte. O encontro foi organizado por Mayana Vieira e Nayra Lays para apresentar às colegas o projeto “Mulheres Negras na Literatura” e iniciar um movimento de representatividade da mulher negra na arte que será projetado para grupos de alunos em escolas públicas e privadas. Mayana Vieira, 20, escreve poesia desde pequena. Quando conheceu os saraus que acontecem pelo Grajaú se viu nas histórias contadas em versos por mulheres negras ao microfone, hora ou outra narrando a dor do preconceito, de amores marcados por relacionamentos abusivos e da solidão que persiste na caminhada de mulheres que são preteridas por sua cor. Aconteceu ali uma mudança que marcou a formação da identidade de Mayana e a transforma até hoje. Nayra Lays, 19, teve contato com a poesia na escola, quando poetas da quebrada apareceram por lá para apresentar um movimento crescente de produção cultural na região e mandar os seus poemas. A partir daí começou a frequentar saraus e escrever seus versos. Identificando neles algum desconforto, percebeu que a produção artística para uma mulher negra não começa por puro prazer, mas por uma inquietação motivada pelas opressões que a sociedade pratica no recorte de raça.

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untas, decidiram levar suas histórias e as de suas manas para escolas em forma de palestras, rodas de conversa e saraus, não só por uma questão cultural, mas para pautar o racismo nesses espaços. “Quando a escola trabalha Literatura e Arte sempre são homens em cena, quando não, mulheres brancas”, afirma Mayana. A evidência da produção de mulheres negras comumente passa despercebida no discurso dos professores ao apresentarem suas aulas. Isso prejudica a possibilidade das alunas e dos alunos negros se identificarem como potências e acreditarem que também eles podem criar arte. O encontro entre as minas pretas artistas foi um modo de começar o movimento e o que ficou marcado nesse dia foi a acolhida e a escuta entre iguais. As histórias partilhadas convergiram para um ponto em comum, no primeiro contato com a produção artística três elementos sempre surgem como uma forma de se redescobrir e resistir: a família, a escola e os amigos. São os primeiros locais que trazem alguma reflexão sobre raça, seja pela identificação ou pela opressão neles sofrida, e a partir daí levam as pessoas a quererem ser ouvidas e reconhecidas. O projeto “Mulheres Negras na Literatura” foi encaminhado para o Programa Jovem Monitor Cultural 2017, a fim de obter fomento. Entretanto, com ou sem o apoio do programa as atividades acontecerão, tornando o espaço da escola um lugar de diálogo e acolhida no qual as alunas e os alunos negros se vejam como potência e sejam ouvidos.

facebook/mayana.marques 6


É MINHA CIDADE

Inovações encontradas no cenário artístico do Grajaú

Fotos: Acervo pessoal

HIP HOP

Por Gi Barauna.

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rtistas do Grajaú mostram que criatividade é o que não falta. Hip Hop é minha cidade é o projeto idealizado por RJay -Rapper, Compositor e Intérprete e Adilson D’boy Angel - Ator, Bboy e Artista de rua que busca mostrar algo diferente no cenário musical. Segundo RJay “eles buscam sair da mesmice, quebrando paradigmas, atravessando fronteiras, unindo o lúdico, o educativo, o criativo e a originalidade no mesmo palco do hip hop”. RJay e Adilson montaram o projeto há 2 anos e vêm inovando o formato do rap tradicional. No projeto, além dos quatro elementos do hip hop, eles utilizam fantoches para dialogar com o público juvenil e com a família como um todo. “A inserção de fantoches dentro da linguagem do hip hop é para que a molecada se identifique. Cada boneco tem um contexto, cada um tem uma história, usamos um boneco ne-

gro que é o do rap, que se espelha no RJay e no que está rolando na periferia”, explica D’ boy Angel. Todos os fantoches são manuseados no palco e junto à plateia, e não estão ali somente para alegrar o público, e sim mostrar a todos que para um espetáculo, peça teatral ou show acontecer depende de muita gente. Os fantoches representam aqueles que estão nos bastidores, os produtores, assistentes, câmeras, redatores e todos os que fazem o espetáculo acontecer. D´Boy Angel manuseia os fantoches no palco e junto à platéia, eles cantam, produzem e fazem parte integralmente do projeto. Têm até mesmo identidade e profissão dentro do grupo. Não são somente fantoches, são artistas que buscam reconhecimento por sua arte, trabalhando junto

a seus idealizadores, provocando estranhamento e curiosidade, são guerreiros que com pouca idade já sabem o que querem, e procuram mostrar aos que os assistem que a arte é o caminho. Os fantoches são confeccionados manualmente por Angel e no momento são só dois ‘integrantes’, o Todinho e o Brian, que representam dois estilos musicais, o rap e o rock, mostrando a quem assiste que não deve haver distinção de estilos e gostos musicais e que podemos trabalhar juntos, crescer e se respeitar. Os pockets shows estão acontecendo na cidade de Diadema, onde Adilson mora. No show ele mostra um pouco do que é o projeto aos representantes dos locais de apresentação para posteriormente ser levado na íntegra. Assim, ele vem ganhando espaço e reconhecimento com seu trabalho. RJay segue com a divulgação de seu trabalho solo como rapper e compositor e já está finalizando o novo CD intitulado no Grajaúex me localizo. Receberam recentemente na Câmara Municipal de São Paulo o prêmio por Incentivo a Cultura Hip Hop, intitulado Prêmio Sabotage. Contatos: facebook.com/rodrigo.amaro.7739 facebook.com/dboyangelo Canal do Youtube: RJAY oficial.

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Por Valéria Ribeiro

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Fotos: Acervo pessoal

HISTÓRIAS E VIVÊNCIAS DA EXPEDIÇÃO GRAJAÚ-MACHU PICCHU

inte e cinco dias de estrada, mais de 9000 km percorridos e muitas histórias pra contar, são alguns dos legados que essa grande viagem, chamada de Expedição Grajaú-Machu Picchu deixou impressa na memória e na alma de Denise Araújo, Gi Barauna, Ricardo Negro, Susy Neves, Thiago Paixão e Valéria Ribeiro. A expedição teve como base o coletivo Expressão Cultural Periférica, o ECP, que produz essa revista!!!, rsss. Gi, Valéria e Ricardo fundaram o coletivo em 2012. Susy sempre foi colaboradora das atividades do ECP. Thiago se tornou parceiro no último ano e Denise, esposa de Ricardo, se juntou a trupe. Todos são envolvidos em trabalhos sócio-culturais e educacionais nas periferias de São Paulo. Essa não foi a primeira viagem do ECP, começou lá em 2013, quando a galera seguiu rumo a Paraíba de carro, 20 dias na estrada, 8000 Km, conhecendo esse Brasil, que é um país incrível. Viram que viajar tem algo de mágico, não era simplesmente conhecer um lugar novo, era sentir as pessoas, conhecer suas culturas, viver um pouquinho do cotidiano de cada lugar que passavam. No ano seguinte resolveram descer no mapa e Susy, Gi e Valéria foram conhecer a Argentina e o Uruguai, mais 21 dias de estrada, quase 8000 km. Essa trupe de viajantes só espera a oportunidade surgir, e quando decidem cair na estrada, logo aqueles que já viveram essa experiência, não conseguem dizer não. Assim surgiu a ideia de ir para Machu Picchu, pois queriam novos desafios. Estavam com uma Fiat Doblo 7 lugares, que já tinha cara de viagem, e em outubro de 2016 começaram a se organizar para o desafio que se iniciou no dia 27 de dezembro. Depois de muita expectativa, muito trabalho arrumando documentos pessoais e do carro, tomando vacinas, revisando a mecânica e detalhes do carro para enfrentar os mais de 9000 km de estrada, preparando o roteiro, muita pesquisa na internet, muita leitura de relatos de viagem, enfim chegou o grande dia.

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Sair do casulo, descobrir caminhos, conhecer pessoas e culturas, experiências inesquecíveis para os participantes da expedição

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Expedição, apesar de durar 25 dias, foi muito rápida, pois o percurso era longo, mas não havia muito o que fazer, pois tinham de voltar para trabalhar. Ricardo Negro conta um pouco da experiência: “Tudo aconteceu bem rápido, então o contato com as pessoas também foi assim, embora a viagem tenha totalizado 25 dias, o que parece muito, mas não é, isso devido a quantidade de culturas e informações diversas que absorvemos, enfim o tempo voou... Chegávamos nas cidades, nos instalávamos, conhecíamos o que era possível e em dois ou três dias no máximo estrada novamente, embora muito intenso, tudo isso ainda conhecemos de forma superficial”. Segundo os viajantes, a expedição é uma forma de conhecer outros lugares, e ter essa rápida vivência, mas para conhecer de verdade é preciso mais tempo em cada lugar. Cada dia era completamente diferente do outro, saiam sem saber onde iriam se hospedar ou até aonde iriam naquele dia, pois muitas coisas podem mudar durante o trajeto. Conheceram o Mato Grosso do Sul, Acre, Rondônia e Mato Grosso, no Brasil, além de conhecer a Bolívia e o Peru. Gi Barauna fala um pouco de sua impressão sobre a Bolívia: “A economia, a política me fez lembrar muito do Brasil, a desconfiança em seus líderes, não há diferença. Vi que a pobreza é muito semelhante, passamos por rodovias que não havia nada e as crianças ficavam na estrada esperando que alguém jogasse algum tipo de alimento. Áreas rurais bem isoladas, onde se via uma casa aqui e outra ali”. “O contato com as pessoas foi demais, eles tem certo respeito pelos Brasileiros (os bolivianos), acredito que gostem do nosso jeito mais aberto e brincalhão. Senti o povo Boliviano e Peruano mais reservado. Um exemplo básico: Não vi nenhum carro com som auto na rua, nenhuma bagunça exagerada em bares, basicamente não vi botecos e bebedeira, gostei muito disso, uma cidade mais tranquila. Senti muito forte a cultura local, desde vestimenta até o olhar de cada um, esse padrão americano não é tão forte por lá, embora já esteja presente... Andar pela rua é sentir nossos irmãos mesmo, povo sofrido com muitos problemas iguais aos nossos.” Fala Ricardo.

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s paisagens encontradas pelo caminho também foram marcantes. “Subir as cordilheiras foi um dos momentos mais especiais, pois os povos da América do Sul sempre falam desse imenso paredão que atravessa diversos países, mas o Brasil não tem esse privilégio. Sinto que as cordilheiras unem as nações por onde passa, e é uma veia que atravessa nosso continente. Me senti mais sul-americana ao fazer isso. Ver as paisagens, os povos indígenas, os montes nevados, que nunca havia visto, e saber que saímos dirigindo do Grajaú, uma das grandes periferias do Brasil, e que estávamos ali, vencendo nossas próprias barreiras, nossos medos, foi muito significativo. Ver a paisagem mudando, deixando o verde e se tornando árida, sentir a força da altitude e o que ela nos causa e ver a dificuldade de quem vive ali, a pobreza extrema. Ver como somos tão ricos e muitas vezes não valorizamos. Depois ao descer as cordilheiras de uma só vez, quando saímos de Cusco, subimos muito e depois descemos mais de três horas seguidas, foi impressionante. Ver o terreno árido aos poucos ganhar vida, o verde tomando conta, o rio que começou a nos seguir tímido e lá embaixo já era bem forte, e descemos até Puerto Maldonado, na Região da Amazônia peruana. Foi Incrível.” Relata Valéria Ribeiro. Thiago Paixão também ficou muito impressionado com as Cordilheiras. Visitamos o Lago Titicaca e a Isla Del Sol, Vale Sagrado, Machu-Picchu, Chapada dos Guimarães... Mas as paisagens mais incríveis que avistamos foram nas estradas, no alto das cordilheiras, passando pelos picos nevados no Peru e Bolívia.”

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Para Gi, o Lago Titicaca, fronteira da Bolívia com o Peru foi surpreendente: “Foi inusitado, atravessar o lindo, famoso e esplendido Lago Titicaca numa balsa que era uma enorme canoa flutuante, que era conduzida por um pequeno motor e remos.” Chegando ao Peru a trupe teve consciência do quão longe estavam do Grajaú, de suas casas. Subiram quase 5000 metros de altitude, sentiram os efeitos no corpo, dor de cabeça, náuseas, até mesmo o carro sofreu para subir, em alguns lugares subiu de segunda e primeira marcha, mas não parou, resistiu. Estavam vivenciando coisas inimagináveis, e ao conhecer a rica cultura Inca tiveram consciência do grande legado cultural dessa civilização. No Vale Sagrado, região de Cusco, antiga capital Inca, puderam conhecer o Parque Arqueológico de Pisac. “Entramos no Vale Sagrado, simplesmente lindo, calmo, lugar que transmite paz, luz, muita energia. Neste espaço sagrado e de tanto suor derramado me fez cair a ficha de que estávamos mesmo lá.”Conta Gi. Ricardo fala sobre a civilização perdida: “Machu Picchu é sagrado, você ver a foto é uma coisa, sentir a energia do lugar é outra completamente diferente, não dá pra descrever, sinto que existe algo muito especial naquelas montanhas, algo que não podemos ver, só sentir”. O ECP pretende compartilhar todas as experiências das mais variadas formas possíveis. Um site foi produzido para publicar o dia a dia da expedição, no entanto por conta de todos os outros projetos de todos do grupo isso ainda não foi possível ser feito. Pretendem fazer uma exposição fotográfica e um documentário. Ao todo conseguiram mais de 90 gigas de material entre filmagens e fotografias. Inclusive no projeto que o coletivo enviou para o Programa VAI 2017 inclui escrever um livro sobre a Expedição.

“A ideia é compartilhar com as pessoas, estimular de certa forma essa questão de viajar, conhecer nossa mãe terra, perder o medo de sair porque o que tem lá fora são pessoas como nós com realidades bem parecidas, é importante também para valorizarmos nosso país e cultura, porque brasileiro tem uma mania feia de falar mal do próprio país, essa viagem trouxe muito ensinamento pra mim nesse sentido.” Finaliza Ricardo. Logo mais publicaremos o diário da expedição no site: www.coletivoecp.com.br

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Fotos: Luciana Nascimento

IDENTIDADE OCULTA LEVA O TEATRO PARA AS RUAS DOS BAIRROS DO GRAJAÚ

Por Valéria Ribeiro

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Identidade Oculta surgiu em 2005, vindo de quatro grupos que faziam parte do projeto da prefeitura Teatro Vocacional, que acontecia no CEU Navegantes, no Cantinho do Céu. Hoje, 12 anos depois, muitos daqueles mais de trinta jovens sonhadores que iniciaram o grupo acabaram seguindo outros rumos. No entanto alguns deles persistiram e decidiram ter o teatro como profissão, como sonho, como missão. Janaína Soares e Paulo Henrique Sant’ Anna estão entre eles, na época em que iniciaram tinham 17 e 19 anos respectivamente. Hoje entre idas e vindas estão envolvidos em mais um espetáculo, que na realidade, segundo eles, é um experimento, pois ainda não está fechado. Francisca: Travessia surgiu longe, nas ruas de Recife, capital Pernambucana, ao som de um bolero antigo em cima de uma bicicleta. “Foi a cena mais linda que eu vi naquele lugar”, fala Janaína, referindo-se ao entregador de jornais na bicicleta ouvindo um bolero. Paulo e Janaína haviam feito uma viagem para o nordeste. Os dois observam a cena em silêncio e minutos depois Paulo diz: “Já sei como a gente vai voltar com o Identidade Oculta”. A história do Identidade é rica, cheia de chegadas, partidas e retornos. Foi assim com Paulo e Jana, como é conhecida Janaína. Ambos já saíram do grupo, seguiram carreiras e tiveram aprendizados em outras companhias. Mesmo com essas idas e vindas o grupo sempre foi forte, e possui uma caminhada incrível, atuando nos primeiros anos dentro do espaço do CEU Navegantes. Dentre os espetáculos encenados por eles estão “Casa de Bonecas”, “Inocentes do Brasil”, “Nelson em Nós 1 – O Beijo no Asfalto”, “As Mulheres de Nelson” e “O lobo que há em mim”. O espetáculo “Nelson em Nós 1 – O Beijo no Asfalto” foi apresentado na Virada Cultural para 2.000 pessoas na Ladeira da Memória, centro de São Paulo. O grupo também

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realizou outras ações culturais como: saraus, intervenções e cortejos cênicos. Em 2012, depois da experiência que teve no Teatro de Tábuas em Campinas, Jana foi convidada a voltar para o Identidade, e acabou aceitando. Nessa época o grupo era formado por Deise Sousa, que também foi uma das fundadoras, Gisele Ramos e Alex Leandro. Foi também o grande passo de emancipação do grupo, escreveram para o programa VAI e foram contemplados. Saíram do CEU e foram para a Associação Cantinho do Céu, espaço onde é a sede do grupo até hoje. Fizeram o “Lobo que há em Mim” nessa época. Lily, Liliane Rodrigues, já estava fazendo algumas participações e ajudando o grupo. O Paulo também não estava oficialmente, mas ajudava em algumas ações. No ano seguinte ganharam o segundo edital do Programa VAI e entraram no processo de instrumentalização, o cuidado com o grupo e com a auto formação. Depois desse projeto o grupo se desarticulou e em 2014 cada um acabou seguindo seu rumo, pois as necessidades individuais batiam a porta.


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grupo estava parado havia mais ou menos um ano, e em 2015 Janaína e Paulo estavam na dúvida quanto a retomar o Identidade. Foi nessa época que começou a surgir Francisca: Travessia. Fizeram uma viagem para Pernambuco e começaram a perceber uma coisa que diagnosticaram como “mulheres fortes e homens fracos”. Alguns incômodos foram surgindo, percepções. “Lá a questão das mulheres servirem é bem mais forte, servirem os meninos”, fala Jana. Esses incômodos juntaram-se aos anseios de Paulo pelas culturas populares, diferença entre mulheres e homens na sociedade e culminaram na cena do entregador de jornais com a bicicleta. Paulo voltou pra casa em epifania e foi escrever o prólogo de Francisca: Travessia. “Uma mulher que tem muitos nomes e pode ser muitas mulheres em uma única mulher”. Em quinze dias convidou uma galera para somar com eles: Alene Alves, Frank Oliveira e Liliane Rodrigues, o Identidade Oculta estava de volta. Tinham um prólogo, formaram um núcleo de estudo e foram pesquisar a partir disso. Passaram por Cordéis, Cora Coralina até se depararem como o Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Fizeram uma lei-

tura coletiva. Enviaram o projeto para o Programa VAI e foram aprovados e toda essa caminhada culminou na encenação que percorre os recônditos do Grajaú, em bairros que muitas vezes não tem nem Associação Comunitária, quem dirá equipamentos públicos. Embaixo de sol, embaixo de chuva deram vozes as mulheres silenciadas que existem dentro de cada mulher. “Quando fomos silenciadas? Isso começou a reverberar, em que momento a mulher foi silenciada”, questiona-se Janaína. Francisca: Travessia foi para a rua, como tinha de ser, atravessar o cotidiano das pessoas “para elas também nos atravessarem, e saber o que sobra dessa travessia”. Construíram uma carroça que se transforma em palco, andam em uma bicicleta ao som de Gracias a La Vida da cantora chilena Violeta Parra. É o mambembe, é uma trupe chegando para

contar uma história. A comunidade que só trabalha, não tem lazer e nem tempo para isso, o lazer acaba sendo um luxo para poucos que aqui sobrevivem. Ver a encenação acontecendo ali na porta de sua casa é um respiro para um povo tão sofrido. Dentro de todas essas histórias que se encontram, da população, dos atores, que também moram na mesma comunidade vem a reflexão. O que a gente faz realmente atravessa as pessoas? Algumas respostas surgem: “Fazer a travessia é ser atravessado”. E vem o questionamento “Sabe por que passarinho preso tem medo de avoar?” A resposta vem daquele que já viveu muito, atravessou e foi atravessado durante sua caminhada, um senhor, morador da comunidade que cedeu o chapéu para o personagem Diadorim diz: “Porque Passarinho preso nem num sabe que tem asas”

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Biblioteca pública em Guaianazes possui acervo específico sobre temática feminista.

Por Michelle Marques

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ão Paulo é uma cidade que sempre surpreende, pois concentra vários universos, linguagens e culturas. Suas contradições e antagonismos interagem em uma dança rítmica com suas belezas e poesias. Dentro deste cosmo, cosmopolita, a vida se move nas periferias e com efervescência dá corpo a ações e movimentos culturais. Com a internet e os meios digitais tão inseridos na rotina do dia a dia, frequentar uma biblioteca pode soar como algo do passado, mas localizada em Guaianazes, extremo leste da cidade, está a Biblioteca Pública Cora Coralina, um equipamento administrado pela prefeitura, mas que possui um diferencial: concentra em seu prédio um apêndice voltado especificamente para o tema do feminismo. Fundado em maio de 1966, o espaço foi concebido para atender especificamente o público infantil, porém atualmente recebe usuários de todas as idades. Mais recentemente, em julho de 2015, a 14

Foto: Michelle Marques

Tesouros escondidos nas bordas da Cidade

biblioteca passou a ser referência na temática feminista, contando com acervo específico voltado ao tema. É de vital importância que este tipo de literatura esteja presente em uma periferia, onde segundo as estatísticas, ainda é o local onde se concentra a maior parte de casos de violência contra a mulher e ter acesso a esse conteúdo para pesquisas, pode funcionar como amparo na criação de movimentos de mulheres periféricas. A biblioteca tem como patronesse uma importante figura feminina brasileira: Cora Coralina, e procura trazer em seu espaço, atividades que dialoguem com o universo feminino, como palestras, saraus entre outros. Em suas pare-

des há fotos de mulheres que contribuíram para a formação do bairro de Guaianazes, que atuam ou atuaram em sua construção. Como parte desta atividade e sob a curadoria da artista plástica Biba Rigo, mulheres locais foram convidadas a participar desta concepção trazendo suas vivências e expectativas, expressas em autorretratos, feito por elas mesmas e que ficam permanentemente expostos. Além de conter acervo específico, a intenção é que a biblioteca se consolide como ponto de referência no fomento a discussão sobre a questão de gênero na cidade de São Paulo e abra espaço para grupos relacionados ao universo feminino poderem contribuir na construção de políticas públicas que atendam de maneira mais efetiva as demandas das mulheres. São tesouros escondidos pela cidade que precisam ser descobertos, apropriados pela população e revertidos em melhorias para a sociedade em geral. Serviço: Rua Otelo Augusto Ribeiro, 113 - Guaianases - São Paulo, SP. Tel.: 11 2557-8004 Horário: 2ª a 6ª feira das 9h às 18h, sábado das 9h às 16h e domingo das 10h às 15h


A-GRAVANDO PROMOVE CURTA METRAGEM NA QUEBRADA Por Jovens na Cena

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coletivo Jovens Na Cena é formado por seis jovens (Danielle Vieira, Laís Diogo, Italo Augusto, Evelyn Arruda, Sabrina Geryn e Matheus Oliveira) que se uniram com o ideal de utilizar o audiovisual como ferramenta de difusão de informação para periferia e incentivar o protagonismo juvenil. Em 2016 o grupo foi contemplado pelo programa VAI no projeto A-gravando que se baseia na produção de um documentário que problematiza a relação entre moradia e Meio Ambiente no extremo sul da cidade. A ideia do projeto veio a partir das vivências dos integrantes que, como jovens periféricos, percebem a necessidade de discutir sobre o processo de ocupação do bairro e sobre os recentes despejos que assolam a população. Além disso, como moradores de área de manancial e de proteção ambiental relacionam com espaço, como esse processo de ocupação interfere no meio ambiente e de que forma podemos amenizar os

impactos. Danielle Vieira diz que tem aprendido muito com todo o processo. “Desde os conhecimentos mais técnicos e artísticos, até a respeito do meu próprio bairro, sua história, as pessoas. É um momento de bastante troca de valores, conhecimento e de crescimento pessoal, além de conhecimento coletivo. O impacto que esperamos é o de mostrar ao público uma nova forma de levar informação, além de promover a reflexão sobre o tema do documentário.” Além do documentário o coletivo criou o curso audiovisual A-Gravando no Cedeca Interlagos, com intuito de oferecer a periferia linguagem audiovisual, ensinando fundamentos para criação de um filme, do roteiro a finalização. “Pensamos em uma educação que integra-se conceitos técnicos, artísticos e práticos através da criação de um curta metragem produzido pelos alunos”. O curso teve a duração de um mês de aulas teóricas, e continua no processo de gravação do curta-metragem sobre Jacira uma mulher negra, periférica e mãe. O filme fala das suas relações da vida cotidiana, em paralelo a vida

cedeca Interlagos: Rua Nossa Senhora de Nazaré, 51 cidade - São Paulo - Tel. (11) 5666-9861 www.cedecaonter.org.br

Foto: Keidson Oliveira

de um jovem rico, Cadu que lida com os dilemas e os tabus de ser homossexual. Para Matheus Oliveira o curso veio como um retorno que conseguiram dar a comunidade. “Difundir audiovisual na periferia e fazer com que as pessoas consigam contar sua própria história, é o que nos motiva, foi muito bom ver o brilho no olho dos alunos, o retorno foi positivo de cada pessoa que participou.” O projeto teve o apoio da EcoAtiva, Cedeca Interlagos e do Periferia em Movimento durante o processo, além de trabalhos em conjunto com o coletivo Quebramundo, e os educadores Natan Ribeiro, Aline Oliveira, Keidson Oliveira e Geovanni Santana.. O projeto será finalizado com o Festival A-GRAVANDO, que acontecerá em março no Cedeca Interlagos, com debates sobre moradia, meio ambiente e cinema independente. Haverá também mostra de curtas metragens de grupos e produtores independentes, finalização do curso de audiovisual com apresentação do curta-metragem e making off das gravações e por fim o documentário A-Gravando. “A expectativa para o festival é de que a nossa mensagem possa ser transmitida a todos, de forma descontraída ao mesmo tempo reflexiva” finaliza Matheus. 15


ANO NOVO, AMEAÇAS ANTIGAS Por: Mariana Caires

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ara 250 famílias do Jardim Lucélia, no Extremo Sul da cidade, 2017 começou com ordem de despejo. Estava marcada para o início de fevereiro a reintegração de posse do terreno do antigo Clube Aristocrata, onde a Prefeitura de São Paulo pretende construir um parque linear. Desde a chegada do aviso, em 18 de janeiro, moradores buscavam por todas as formas de resistência. As reuniões com a Prefeitura e Subprefeitura da Capela do Socorro (que assinou a ordem de reintegração de posse), não levaram a nenhum êxito. A primeira tentativa de ação movida pela Associação de Moradores (junto ao Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos) contra a reintegração de posse na Defensoria Pública foi negada. Faltando dois dias para o despejo, o movimento conseguiu uma liminar adiando a ação por 60 dias.

“Não foi oferecido nenhum tipo de moradia para as famílias. O espaço que eles querem para fazer um parque linear parece que vai continuar abandonado. Quanto mais puderem noticiar essa violação aos direitos humanos, das crianças e adolescentes, dos trabalhadores, das mulheres, agradecemos”, diz Eliude Araújo, um dos moradores e líderes locais. Em entrevista, moradores classificam as únicas propostas que a Prefeitura ofereceu como incabíveis. A Secretaria de Habitação chegou a sugerir em troca do terreno passagens de volta para as cidades de origem dos moradores. “Muitos vivem há 20 anos em São Paulo, porque teríamos que voltar para lá se fomos nós que construímos essa cidade?”, rebatem. “Após a passeata do MTST no dia 31 de janeiro, o prefeito João Dória falou com uma comissão e assegurou que não desocupariam mais ninguém em São Paulo. Assinaram um papel, mas não há nada de oficial”, contou Cíntia de Castilho, presidente da Associação Comunitária União Novo Aristocrata. No terreno, vivem mais de 500 pessoas. Desde o início, a forma de ocupação foi definida em assembleias. O terreno foi ocupado com lotes de mesma dimensão, deixando espaços para a entrada de carros e ambulâncias para a segurança de todos. Seguiram também as ordens da prefeitura de não construir no tijolo, e os barracos de madeira de alvenaria foram tomando forma. Encanamentos levam o esgoto para fora das casas, tudo improvisado já que a prefeitura nunca aceitou a área como legal. 16

Foto: Periferia em movimento

O problema da moradia

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pós o antigo Clube Aristocrata deixar de pagar impostos, o terreno passou para o comando da Prefeitura, que realizou obras com o intuito de tornar a área um parque linear, mas deixou o local abandonado depois disso. Em julho de 2013, o terreno foi ocupado por pessoas da região do Grajaú. Entre os moradores, muitas crianças e idosos. Em uma região marcada pelo descaso do serviço público, moradores sugerem que, ao invés de retirar os moradores do local, a Prefeitura deveria pensar em obras para melhorias na região. “No terreno caberia um postinho, uma escola, é tudo questão de planejamento”, diz Fabrício Silva dos Santos, 32. A ideia não é morar de graça nos custos da prefeitura. Os moradores estão ali como uma forma provisória e esperam que a prefeitura encontre políticas de habitação para que a cidade garanta o direito à moradia a todos os cidadãos. Uma política de habitação para a periferia, explica o militante do movimento Nós da Sul Bruno Magalhães, significa “privilegiar os moradores da periferia em detrimento do mercado imobiliário”. A principal pauta dos movimentos por moradia é que se construam unidades de moradia popular a preço acessível para que todos possam pagar. Leia esse e outros assuntos no site: www.periferiaemmovimento.com.br Curta a página: facebook/periferiaemmovimento


Fotos: Acervo pessoal

UM PALCO PARA UM ARTISTA NEGRO

Cloddoaldo Dias luta para vencer preconceitos e fazer arte

Por Danila Costa loddoaldo Dias é um artista negro e homossexual, em sua trajetória artística de mais de vinte cinco anos passou e passa por diversas dificuldades, principalmente por conta dos preconceitos sociais. Hoje, aos 40 anos, é engajado na causa negra e continua a lutar para estar nos palcos. Nascido em Itapetininga, cidade do interior de São Paulo, o então adolescente de 14 anos foi convidado pela Escola Coronel Fernando Prestes para fazer teatro. Eles precisavam de atores para agregar a um espetáculo que pretendiam encenar. O rapaz, que era muito tímido, resolveu aceitar a empreitada.

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essa época trabalhar com teatro era uma coisa que não era muito comum em Itapetininga, pois as pessoas costumavam se envolver mais com os esportes. Começaram os ensaios para a peça “Semiópera Introitus”, foi quando começou a ganhar conhecimento sobre atuação, produção e dicção. Na peça atuou em sete personagens entre homens e mulheres. A repercussão foi tamanha que até o jornalista Mauricio Kubrusly fez uma matéria sobre o espetáculo. Continuou no palco nos anos seguintes, mas até 1998 não havia se profissionalizado, foi quando ficou sabendo de um vestibular que haveria em São Paulo para o teatro escola Célia Helena, onde conseguiu ingressar e estudou durante 3 anos até se formar ator. Antes disso cursou direito durante dois anos em Itapetininga, mas largou antes de ir para São Paulo. Trabalhou em diversos espetáculos como “Ensaio Sobre a Cegueira”, “A alma boa de Setsuan”, “Camino Real” e no musical “Nos Campos de Piratininga”, dentre outros. Esteve em cartaz em vários teatros de São Paulo como o antigo TBC, Teatro Satyros e Centro Cultural São Paulo. Viver de arte no Brasil não é nada fácil e houve momentos em que teve de largar completamente os palcos e trabalhar em outras áreas como comércio e telemarketing. Iniciou um curso de gastronomia, mas teve de abandonar por não conseguir pagar. No entanto o palco lhe chamava e voltou a fazer alguns trabalhos. Artista negro, militante das causas homo afetivas... Cloddoaldo Dias luta até hoje para se manter na área das artes cênicas. Ainda sonha em trabalhar com a televisão, o cinema nacional e ser reconhecido. Atualmente trabalha como coach na agência de modelo HDA Models, ministra treinamento para modelos aspirantes a atores com aulas de teatro, soltura, relaxamento, assim os alunos tem maior desenvoltura em frente às câmeras. Deseja cada vez mais se conectar a grupos que trabalhem as questões afros. Quer resistir e fazer do mundo seu palco e que sua cor de pele não seja barreira para nenhum de nós. Contato: w w w. fa ce b o o k . co m / cloddoaldo.dias 17


Fotos: Acervo pessoal

A CAPACIDADE DA ARTE EM SALVAR VIDAS Fabiano Nunes, o “APCE”, enfrentou diversos problemas familiares e com as drogas, e sua superação veio por meio da arte do grafite e hoje atua no Grajaú Por Aécio Magalhães

Seu primeiro ato na rua com lata de spray foi em 1998, mais tarde, em 2005 encontrou o Enivo (Marcus Vinícius Teixeira), um artista com mais de 15 anos de estrada, que lhe apresentou o grafite e o Hip Hop, através da Fundação Gol de letra, na zona norte. Já em 2016, no Rio de Janeiro, seu amigo Enivo lhe sugeriu o apelido de APCE, com significado de ser o ponto mais alto de tudo que executasse. O artista APCE mais tarde ingressou, ainda nos anos 2000, em um trabalho formal, que não gostava, conheceu as drogas, teve

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graffite é uma forma de manifestação artística realizada na maioria das vezes em locais públicos, e está ligado a vários movimentos, o principal deles é o Hip Hop. Este tipo de arte surgiu na década de 70, em Nova York, nos Estados Unidos e chegou ao Brasil na mesma década. Hoje segue presente em todas as partes do mundo. Fabiano Nunes, um cidadão com 28 anos de idade é um artista que mostrou que a palavra superação está presente em seu cotidiano. Nasceu e cresceu no bairro da Vila Albertina, zona norte da capital paulista, e desde muito cedo já tinha em mente o que queria para o futuro: ser desenhista. E foi aos 10 anos de idade que começou a despertar interesse pela arte, através de rabiscos que sempre fazia nas carteiras da escola em que estudava. 18

conflitos familiares, desilusões amorosas e cada vez mais ia se afundando nas drogas, seu ponto de fuga desse período sombrio. “Nessa época parei de desenhar, parei de ser artista, eu era apenas mais um ser humano nos hábitos da cidade” nos conta. Depois de quatro anos tentando fugir do mundo das drogas, foi trabalhar com tatuagens, no litoral paulista, e a partir dai decidiu que se tornaria de fato um artista, e conseguiu. Buscou ajuda novamente do Enivo, que lhe apresentou o Tinho, Walter Nomura, um dos grandes nomes da arte de rua brasileira. “Esse cara, eu tenho muito respeito, o considero como um pai, me ensinou muito. Hoje eu agradeço minha vida ao Tinho e ao meu amigo Enivo”, enfati-

za, o artista.

Fincou raízes no Grajaú

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PCE, ao longo de seus trabalhos artísticos, conheceu sua companheira, Carolina Pires, e estão juntos há quase um ano. Mudou-se para o Grajaú e diz ter ficado encantado com esse distrito de São Paulo: “Tenho gostado muito do Grajaú, me sinto em casa, todos os lugares que passo sou muito bem recebido, tudo aqui é novo, bem diferente da minha quebrada” comenta. Hoje Fabiano Nunes vive exclusivamente da arte e aos poucos busca se aperfeiçoar cada vez mais em seus trabalhos, estuda as tendências de cores e está sempre em busca de novos projetos. A falta de apoio familiar o fez retratar em suas pinturas expressões como o abandono, a adoção, a exclusão familiar, algo que viveu, e ainda vive, mas sente orgulho de cada mancha deixada em sua roupa, em cada expressão de sorriso, em cada incômodo causado pelos seus trabalhos, é gratificante, sem sombra de dúvidas. No futuro pretende implantar um projeto social em sua quebrada, na Vila Albertina e ensinar arte também para as crianças. Superação é a palavra que hoje está inserida na primeira página do dicionário do APCE: “A arte salva” finaliza o artista.


O trabalho do artista Paolo Vieira é inspirado na arte colonial. Registra portões antigos, produzindo edição ou efeito nas imagens a partir de um celular. Trabalha em P&B, mostrando uma modelagem artesanal feita pelas famílias ferreiras. #FOTOMOLDURA #FOTOTEXTURA #FOTORELEVO

Paolo Vieira, 23, faz parte do coletivo audiovisual Quebramundo, mora na Ilha do Bororé há 5 anos e contribui na Casa Ecoativa, que é uma ocupação artística de arte e sustentabilidade. Faz parte da ONG Mensageiros da Alegria, na qual atua levando alegria para as crianças em tratamento contra o câncer. Sua inserção no mundo artístico e político vieram por conta da liberdade assistida da Fundação Casa, onde conheceu melhor o trabalho de seu padrinho, o educador Jerry Batista. Fez alguns trabalhos de áudio visual com Jerry e a Terra Oca Filmes, foi quando despertou para a expressão artística por meio da escrita e da fotografia. Fez teatro na Cia Humbalada e oficina de Palhaço. “Desde então venho fazendo palhaçada e levando meus sentimentos e expressão ao mundo”

POEtiZAcao O poeta, poetisa, a poesia! Para protesta, pelas pessoas. Prejudicadas, pelos perigos! ProliferadoS pela polItica e pela polIcia. 19


Atravesse as pontes, supere os medos, expanda seus horizontes.

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PARCEIROS Associação Amigos do Jd. Reimberg CJ

Revista Expressão Cultural Periférica ED 8  
Revista Expressão Cultural Periférica ED 8  
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