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XPRESSÃO CULTURAL ERIFERICA


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Expressão Cultural Periférica, conhecido como ECP, foi criado em junho de 2012 e é um coletivo de comunicação e articulação sociocultural situado na região do Grajaú, Extremo Sul da cidade de São Paulo. Nosso objetivo é documentar e divulgar ações culturais e sociais que acontecem especialmente na região onde estamos localizados, e em outras periferias da cidade, como forma de registrar principalmente a cultura produzida nos territórios afastados do centro e ampliar o público que aprecia toda essa efervescência. Atuamos em quatro frentes: Em meio impresso com a Revista Expressão Cultural Periférica, com audiovisual produzindo matérias para nosso Canal no Youtube e para o Programa Periferias, transmitido ao vivo pela Internet, com o nosso blog e redes sociais, como forma de dinamizar o acesso a informação e sempre atingirmos o maior número de pessoas possível e com nossa Gráfica ECP, onde imprimimos nossa revista e fazemos parcerias com coletivos culturais e sociais para produzir material impresso com preços populares, como forma de auxiliar a produção artística das periferias em suas impressões.

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ECP não para um segundo! Muitas vezes é difícil acompanharmos tudo o que rola e ainda conciliar com nossos empregos, vidas particulares, filhos, casa, gatos e afins. No último mês o ECP esteve presente com Gi Barauna no lançamento da 7 edição da revista Vai da Pé, no Centro Cultural Grajaú. Foi enriquecedor, assim como todas ações das quais participamos. Estamos envolvidos também em uma ação com o coletivo Cidade Democrática para a construção de um APP para divulgar as ações culturais da região do Grajaú. Tem sido uma construção rica, junto com outros coletivos de comunicação aqui do nosso distrito: Periferia em Movimento, Quebramundo, Periferia Hacker, Jovens em Cena, dentre outras pessoas que tem comparecido. Essa mesma turma tem se reunido para trabalhar a economia solidária junto com Alex Barcellos, da Agencia Popular Solano Trindade. Aprendizado pesado com toda essa galera citada. A produção gráfica da revista tem se tornado um pouco mais rápida, estamos aprendendo a trabalhar me-lhor com os equipamentos, no entanto ainda é um desafio, levando-se em consideração nossa correria. Os parceiros nos ajudam demais nessa empreitada. A gráfica está funcionando, é fato, mas precisamos ainda articular com os coletivos pra tornar tudo isso uma realidade, o tempo e as mil ações que fazemos ainda não proporcionaram essa força tão grande na gráfica, é um caminho que será construido aos poucos, é muito aprendizado ao mesmo tempo, precisamos digerir tudo isso para as coisas funcionarem a todo vapor, com certeza os próximos anos serão cruciais para isso. Não contentes com tantos desafios resolvemos colocar o pé na estrada e ir até Machu Picchu de carro e trazer todo esse aprendizado pra quebrada. Serão 25 dias inesquecíveis que iremos registrar e compartilhar, pois só compartilhando crescemos. É isso, bora trabalhar!

Coletivo Expressão Cultural Periférica Gi Barauna, Larissa Araújo, Larissa Costa, Michelle Marques e Valéria Ribeiro Coordenação Editorial Valéria Ribeiro Redação Aécio Magalhães, João, Gi Barauna, Larissa Araújo, Larissa Costa, Wellington Neri, Michelle Marques, Thiago Borges e Valéria Ribeiro Colaboradores Aécio Magalhães, Carlinhos Costa, Eduardo Costa, Danila Costa, Edu Graja, Ivan Lima, Jaison Pongiluppi, Thiago Borges e William Mangraff Coletivos Parceiros Ateliê Daki, Casa Ecoativa, Jovens em Cena, Quebramundo, Periferia Hacker e Periferia em Movimento Foto de Capa: Alessa Melo Foto de Contra-Capa: Danila Costa Projeto Gráfico e Diagramação Valéria Ribeiro Impressão Gráfica ECP Tiragem: 500 Exemplares E-mail: ecperiferica@gmail.com Telefone: (11) 5939-5917 (Valéria Ribeiro) (11) 95854-6101 (Valéria Ribeiro) Espaço Cultural ECP/CJ: Rua Alba Valdez, 03 - Jardim Reimberg (Grajaú) - Cep 04845-200 - São Paulo-SP ECP Na Rede Blog: https://ecperiferica.blogspot.com.br/ Perfil ECP: facebook.com/coletivoecp Revista ECP: facebook.com/revistaecp Programa Periferias: facebook.com/periferiasecp Canal no Youtube: Expressão Cultural Periférica


CORAGEM DE QUERER MUDAR

A 7ª edição da Revista encerra o ciclo de ações do coletivo ECP para o ano de 2016. Finalizamos com muitas parcerias, escrevemos para a Revista ECP, gravamos e entrevistamos para o Programa Periferias. Agentes de cultura que tem coragem e querem mudar, não o mundo, e sim a visão de que na quebrada não tem cultura. Por diversas vezes anônimos, da comunidade, com maquiagem no rosto, outros por muitas vezes sem maquiagem, de pele nua, de peito aberto para mostrar sua arte, mostrar que com ela e para ela fazem a diferença. Foi um ano difícil para o país e a tendência é que seja mais ainda para o próximo, principalmente para nós que divulgamos e compartilhamos as ações culturais. Vivemos momentos de tensão, momentos duvidosos na cena política e ao mesmo tempo de excelência na militância cultural periférica desde aquele que luta pela Internet Livre até aqueles que lutam contra o genocídio e encarceramento em massa. Agentes que com maestria atuam na construção de patamares igualitários, de humanidade e solidariedade. A bagagem do Coletivo ECP esta mais pesada do que a de 2014, quando começamos com o Informativo, que foi para deixar registradas as poesias mais votadas no Sarau que realizávamos. Hoje, após tantas experiências gratificantes, gritamos para quem quiser ouvir.Nosso intuito é escrever, difundir, registrar, informar, vivenciar, amar e cada vez mais vibrar por eles, por ela, pela efervescência Cultural, Militante, Atuante do Grajaú. E o que vocês podem esperar para o trabalho do coletivo ECP para o próximo ano? Simples: Vivemos essa luta!!!!

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justo agradecer, desde já, a consideração e oportunidade de conviver com você, neste curto espaço da palavra. O que trago aqui, não é nenhuma novidade pra quem acha que já viu quase tudo, mas creio que transcender no dizer e no auscultar; ler e escrever não garante a compreensão dos fatos, mas a gente anda com fé, pois a mente costuma falhar. São várias as opiniões, difícil é estabelecer relação entre as coisas, o que alho tem a ver com bugalho? Por isto vou tentar ser curto e sensível o suficiente! Pra tudo tem critério, mesmo tudo estando na mais perfeita ordem, o sobrenatural serve para voar como anjos, fazer milagres, a alqui- mia da arte a servir o bem. Em tempos de consumo e ostentação, os Direitos do consumidor viram campanha politica, mas se faz muito importante sabermos e fazer valer o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, os direitos de quarta geração, os direitos de todos, os direitos difusos. Outra coisa que precisamos saber mais é sobre Economia, não da mais para sermos enganados por esta ideia de meritocracia, sabemos bem das Desigualdades e Perversidades, agora nossa Economia tem que ser Solidária. O rancor alimenta o ódio, não acredito no bem q ue isto possa fazer a alguém ou a nada, prefiro a inspiração na resiliência. A fé e a razão andam juntas, é normal ver a verdade por perto. É importante saber mais sobre Antrópos e Psiques, somos seres sócios históricos. Hip Hop é educação, eu também não vejo futuro da Arte, da Cultura se não com a Educação, e vice versa. Não há futuro para Educação se não for com a Cultura e a Arte. Demorei a perceber que o homem precisa se reinventar, não da mais para ser o que é, não só porque a mulher avança muito no seu jeito de ser no mundo, isto é bom e nos ensina muito, mas enquanto a gente não está entendendo nada, continuamos no ápice da escrotice e ainda justificando nossa carnificina. A violência de muitos e muitas que se dizem hétero mata e mata muuuito. Criança e adolescente é prioridade absoluta! Adoro esta frase do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente... temos que fazer valer, sem esquecer dos nossos idosos, vovôs e vovós . Já devo ter falado, mas vou repetir que adoro também os clichês: Salve, paz e bem! “Nossas crianças são quem vão fazer a diferença no futuro” Wellington Neri, Tim “O Amor é lindo mesmo” “ A união faz a força”


UM CIDADÃO ENRAIZADO NAS PERIFERIAS DE SÃO PAULO O JORNALISTA MOROU EM BAIRROS PERIFÉRICOS DE SÃO PAULO E CONHECE DE PERTO A REALIDADE DESSAS REGIÕES

Por Aécio Magalhães

Criminalidade,

carência e pobreza são alguns dos rótulos lançados pela grande mídia, na maioria das vezes, quando se trata dos bairros periféricos. Apesar da triste realidade é possível comemorar a grande diversidade pessoal, social e principalmente cultural contida nessas regiões mais afastadas dos centros urbanos. O fato é que, ninguém entenderá as ações realizadas na periferia se não estiver inserida nela. Prova disso é o jornalista Juca Guimarães que nasceu no bairro da Santa Cecília, região central de São Paulo e morou em outros bairros da zona sul, como Capão Redondo e Grajaú, esse profissional consegue discernir muito bem a realidade dessas áreas povoadas. Quando iniciou sua carreira jornalística em 1999, percebeu o quanto o meio de comunicação em que atuava pouco se falava das zonas mais afastadas dos centros: “A pe riferia de São Paulo é vista como uma coisa bem dublada, nunca foi protagonista de nada, há ênfase apenas para abordagens policiais e de violências”, conta o jornalista. Já em 2010, quando entrou para o Diário de São Paulo, Guimarães ficou responsável pelo caderno de economia, porém sugeriu uma coluna de Periferia, que englobasse teatro, cultura e educação. Teve carta branca e assim pôde publicar, em um jornal de grande porte, assuntos como: horta comunitária, o negro, os jovens e os gays da periferia, questões sociais e as diversas ações culturais promovidas por coletivos de vários bairros. “Na Pegada da Periferia”, esse foi o nome dado para a coluna que assinava em 2013, sempre aos domingos, o conteúdo abrangia todas as faixas etárias. As matérias exibidas possuíam alguns termos explicativos para que o leitor médio entendesse a linguagem das “quebradas”, e o jornalista buscava sempre fotos que emanassem felicidade, como pessoas sorrindo ou se abraçando, por exemplo, tal proeza reforçava que é possível haver harmonia e felicidade em qualquer lugar da cidade. Ter morado e estudado em regiões periféricas agregou muito para que Guimarães tivesse sucesso nos pontos de vista defendidos em sua coluna, pois conhecia muitas pessoas e sabia a direção certa para colher informações para suas reportagens que eram feitas com doses de entusiasmos: “O que faço é contar histórias, que é a base do jornalismo, meu diferencial é a compaixão e a paixão, é se colocar no lugar das 4

pessoas entrevistadas, é produzir um texto mostrando um problema e uma solução” enfatiza o jornalista E O GRAJAÚ? O jornalista Juca Guimarães morou aproximadamente nove anos no bairro do Grajaú e pôde perceber suas qualidades positivas: “O Grajaú é um bairro que gera muita cultura, grande parte dos moradores são nordestinos, que trouxeram consigo suas crenças, quem mora no Grajaú respeita a represa e está mais integrado à natureza”, diz. Além do Grajaú, Guimarães também frequenta outras regiões periféricas como Heliópolis e Paraisópolis, algumas vezes para trabalhar ou passear: “A minha relação com as comunidades é muito passional, de coração mesmo” vibra o jornalista. Atualmente Juca Guimarães integra o grupo de profissionais do Portal R7, da Rede Record e participa do coletivo Ponte.org, um site de jornalismo independente, em sua trajetória profissional Guimarães ganhou diversos prêmios importantes do jornalismo e já passou por diversos veículos de comunicação, dentre eles, a Gazeta Mercantil, TV Gazeta, Grupo Folha e Diário de São Paulo e soma hoje mais de treze anos de experiência nessa área. É um site que está no ar há quase dois anos e fala de temas como: direitos humanos, política e segurança pública, o projeto conta com aproximadamente 20 jornalistas de diversas partes do país e é comando por André Caramante, também formado na área de comunicação. O objetivo do portal é fazer um jornalismo mais independente, investigativo, sem anunciantes e criar um canal novo para abortar esses temas específicos. Há uma campanha de financiamento coletivo para arrecadação de fundos com o intuito de manter o site no ar. Mais informações acessem o portal: http://ponte.org/


Por Gi Barauna

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ncontro agradável nascido numa quinta-feira”; essa é a tradução para a Língua Portuguesa do nome em Yorubá “Abayomi Aba”, grupo que nasceu numa quinta feira do ano de 2012 em um dos encontros do famoso Sarau Quinta em Movimento, que é realizado em Parelheiros. É a união de diversos coletivos atuantes da Região de Parelheiros, bairro do Extremo Sul da cidade de São Paulo. Em encontros, que também discutiam fatos recorrentes na região, discussões estas que até pensavam ser diferentes para cada coletivo e neste encontro agradável avaliaram que as preocupações eram mais comuns entre os grupos do que pensavam, temas como racismo, questões de identidade, de gênero, feminicídio, discriminação racial, social e tantas outras violências que atingem a periferia era pauta de todos, era um assunto comum entre todos. Segundo Will Ferreira, integrante do coletivo desde 2015, “Quando vamos discutir

dentro da questão de gênero o feminicídio, a gente já está falando de genocídio, e quem morre é quem é pobre, preto e periférico. E, essa é a chave do Abayomi”. O coletivo atua fortemente na Região de Parelheiros, junto com o Cedeca Interlagos, a Biblioteca Carolina de Jesus do CEU Parelheiros, os Escritureiros, militantes negros e periféricos da região e com o Coletivo Rusha Montsho, juventude politizada de Parelheiros. Existem três datas pontuais no qual o Abayomi Aba discute a questão do genocídio, que são: o 13 de Maio “Abolição da Escravatura”, 25 de Julho, dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e o 20 de Novembro, dia da Consciência Negra. Iniciam em Maio discutindo questões que envolvem a “Abolição da Escravatura”, trazendo por vezes contextos históricos em que é questionável essa abolição, levando aos jovens informações que os fazem refletir e questionar a veracidade dos fatos.

Foto tirada em evento realizado no dia 26/11

Nos eventos datados realiza oficinas temáticas como as de turbantes, de bonecas Abayomi, para fortalecer o reconhecimento da ancestralidade e para que a mulher e os jovens atendidos se apoderem de seu poder, que eles possa se colocar perante a sociedade, que tenham voz, a força e a militância da Mulher e da juventude Negra. Só que se engana quem acredita que quem luta na periferia consegue atuar somente em três datas pontuais. Como descreveu Will nesta entrevista, eles atuam diariamente na luta e na defesa do preto, pobre e periférico. A todo minuto há um assassinato na periferia, a todo instante há uma vítima de violência doméstica, sem contar o encarceramento em massa em nossas cadeias. O coletivo quer ouvir, apoiar, atender aos que vivenciam essa violência, querem orientar as famílias, os que são julgados e que deveriam ser acolhidos. O Abayomi Aba também realiza atividades nas escolas, propõe a discussão de ações coletivas, se o equipamento escolar não dá conta de discutir a questão do genocídio o Abayomi dá. Não dá para fechar os olhos e fingir que é mais um número no índice de assassinato populacional da periferia e sim discutir o contexto, discutir toda a questão familiar, toda uma massa de situações que não entra no âmbito escolar. Para encerrar essa breve descrição que não chegou nem perto do que é a militância desses jovens, deixo aqui uma frase do Will Ferreira, educador social, ativista, militante contra o genocídio e pela juventude negra viva. “É muito difícil você ter que se fazer de inocente, sendo inocente. Porque para eles você é sempre culpado, porque a sua estética te denúncia. Você tem que provar sua inocência... sendo inocente”. Fica aí a reflexão, o que estão fazendo com os nossos jovens? O Abayomi Aba se reuni todo 1º sábado de cada mês às 10h na Biblioteca Carolina Maria de Jesus do CEU Parelheiros ou no Espaço da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura e estão sempre com as portas abertas para quem quiser somar nessa luta. Facebook: www.facebook.com/abayomiabajnv/ Site: https://abayomiabajnv.wordpress.com/

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Por Valéria Ribeiro

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PROMOVE AÇÕES DE CULTURA E SUSTENTABILIDADE NA ILHA DO BORORÉ

distrito do Grajaú é cheio de surpresas, os desavisados que ainda não conhecem a região podem ficar surpresos ao saber que existe uma balsa no final da famosa Avenida Dona Belmira Marin, que atravessa para a Ilha do Bororé. A ilha, que na verdade é uma península, é lugar cheio de natureza, com jeitinho de cidade do interior, com a capela de São Sebastião, do início do século XX e onde ainda se vive da terra, tudo isso inserido na maior metrópole da América Latina, e é nesse lugar riquíssimo que está a Casa Ecoativa, um centro eco-cultural localizado às margens da Represa Billings. A Ecoativa é um projeto que reúne diversos coletivos e que promove o acesso à cultura e a práticas de sustentabilidade. A proposta é manter a Casa aberta todos os fins de semana, com diversas atividades. Foi em um desses finais de semana que a Revista ECP foi visitar o espaço. O sábado estava cinzento, com aquela garoa típica de São Paulo e aquele friozinho, mas havia uma galera que não estava muito preocupada com o tempo, de pés no barro, “dançavam” dando consistência ao que seria a matéria prima do banheiro seco que estavam construindo, de pau a pique, como algumas casas que ainda vemos no interior de algumas cidades brasileiras. Diogo Menezes,26, permacultor e um dos fundadores do permaperifa, orienta um grupo pequeno, mas bastante rico. Três nacionalidades diferentes ali presentes, pessoas jovens e experientes, da comunidade e forasteiros, todos ensinavam e todos aprendiam. Aprendendo juntas a construir uma sociedade melhor, buscando deixar um legado para os próximos que por ali passarem. Participavam de uma imersão de dois dias no tema permacultura e sustentabilidade. Acamparam na Ilha para intensificar a vivência em meio a natureza. Para completar essa movimentação o canal de TV a cabo, HBO, estava filmando a vida de Jaison Pongiluppi Lara, o Jay, de 24 anos, que vive na Ilha do Bororé e foi selecionado dentre outros jovens por sua atuação para participar de um do- cumentário internacional sobre o ativismo da juventude brasileira e em como é ser jovem no Brasil de hoje. Jaison é um dos que está a frente dessa grande família

que compõe a Casa Ecoativa. O local é referência no Grajaú, seja por suas ações de sustentabilidade, seja pelo Sarau de Cordas que acontece todo 3º sábado do mês e que reúne diversas pessoas. A casa é um local de muita troca, e a 1ª balsa é como um portal para outra cidade, outra forma de interagir entre as pessoas, sai do cimento e voltando pra natureza, pro barro. Jaison explica que a Casa Ecoativa é um projeto que chama as pessoas para desenvolverem o bairro de forma coletiva, por meio de vivências, trocas com outros projetos e cursos que eles preparam. Dentre essas vivências houve a construção da Cisterna, da fossa seca, que é uma Bacia de Evapotranspiração, uma fossa ecológica. Para ele “as revoluções acontecem diariamente”, com ação. O almoço coletivo desse dia foi feito com alimento orgânico, colhido na região, trazendo o hábito da alimentação saudável. Tudo preparado por Kim Marques, 22 anos, que cuida da alimentação da galera na casa. Influenciada pela mãe, Kim gosta de cozinhar e criar na alimentação. Vegetariana, ela costuma aproveitar muito bem os alimentos. No dia do evento fez uma panqueca de beterraba deliciosa! A Casa Ecoativa é um projeto que funciona desde o final dos anos 90, quando a comunidade se organizou com a associação de moradores, AMIB, e em 2000 começaram a acontecer as atividades. Desde essa época acontece a parceria com a Escola Adrião Bernades, que ainda hoje faz diversas ações em conjunto com a Casa. Eduardo Freire, que hoje não está mais no projeto, foi um dos que estavam a frente das ações nesse período inicial. De 2000 a 2006 rolou várias iniciativas e diversas pessoas tocaram na casa, dentre elas Salloma Salomão e Pacto Latino, onde tocavam Drezz, do Xemalami, e Criolo. Aos poucos as atividades começaram a diminuir, Eduardo Freire foi para o Rio Grande do Sul e a comunidade pouco a pouco deixou de tocar o espaço. A casa ficou praticamente fechada de 2006 a 2013, acontecendo de vez em quando atividades esporádicas realizadas pelo Cedeca Interlagos e pelo coletivo Imargem. Em 2013 os artistas voltam a se articular e ocupar a casa.


Por John, coletivo Midiart

O que é Hip Hop?

Pessoas como o próprio Jaison e Vanilson Silva, o Fifo, que

participaram das atividades de antigamente hoje ajudam a administrar essa retomada, que conseguiu levantar o local e tornar um polo cultural e turístico. Contemplados com os editais do Programa VAI, Agente Comunitário de Cultura, com o Fifo, e agora no final de 2016 com o Fomento a Periferia e o Proac o projeto só tende a crescer e se consolidar mais e mais. Hoje a casa possui três frentes de atividades que são o carro chefe: Ecologia, com a permacultura, Produção Cultural, com o Sarau de Cordas, o Grafite e a produção de eventos, e o Turismo. Existe a parte pedagógica também que é muito forte. Todos que participam das ações são arte-educadores. A Ecoativa também possui parcerias com o Sesc e busca a sustentabilidade do projeto e das pessoas que participam nele por meio de diversas ações de economia solidária e empreendedorismo, participam de feiras, vendem processos e pacotes de serviços dentro de sua área de atuação. Fizeram o “Fundo da Casa”, com o qual conseguem manter o local e pagar aqueles que estão a frente das diversas atividades. A casa ecoativa tem um recurso fundamental para toda essa efervescência, são as pessoas que dela participam ativamente e colocam suas energias nas coisas boas que acontecem. São diversos coletivos e artistas. Existe um núcleo que se reúne semanalmente, de doze a quinze pessoas, dentre eles Robert Holanda, Jean Gonçalves e Zigra Zi, dos Retirante, Maia Maiah, artesã, Bárbara Terra, Wellington Neri, o Tim, Paolo Cézar, Gabriela Galvão, Amanda Bispo, Marco Lunar, Edson Kenji, o Edy, e os já citados Jaison, Fifo e Kim, dentre outros que participam. A ecoativa é um dos lugares mais antigos no distrito do Grajaú que propõe espaços de convivência, muitos grupos saem da ecoativa e muita gente que hoje participa da cena cultural do Grajaú é fruto desse espaço. É um espaço que segue contribuindo com a formação de pessoas, fala Jaison. Para Fifo a Ecoativa é um conceito de vida.

Hip Hop é uma cultura popular que surgiu entre as comunidades afro-americanas do subúrbio de Nova York na década de 1970.A música é a principal manifestação artística do hip hop, que também tem na dança e no grafite forte representação. Dos Estados Unidos, a cultura hip hop se espalhou pelo mundo. No Brasil, a cidade de São Paulo é aquela com maior número de adeptos e com uma relevante produção artística. Embora existam algumas traduções da expressão hip hop como balançar dos quadris, neste caso o vocábulo hip em inglês tem a conotação de “o que está na moda, acontecendo neste momento”.

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lá! Eu sou o João, mas todos me chamam de John, faço trabalho voluntário nas escolas, Maria Luiza, Washington e Adrião Bernardes. (No distrito do Grajaú) Sinto a importância de trabalhos voluntários nas escolas, porque quantas mães e pais de alunos podem pagar uma aula de dança para seus filhos? Claro que são poucos, e é um espaço bom para eu ensinar o que sei para outros que querem aprender e nossa perifa precisa disso, para ajudar os jovens a sair do mundo do crime e das drogas e esse é meu trabalho e me orgulho disso e amo minha perifa e meus alunos.

João, 15 anos, participa do coletivo Midiart e faz várias atividades com a Casa Ecoativa na Ilha do Bororé

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COM UM ESPETÁCULO INTENSO E CHEIO DE ENERGIA CIA HUMBALADA CONTA A HISTÓRIA DE UM POVO

Foto: Cláudia Adorno

Por Valéria Ribeiro e Larissa Costa

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Cena do ônibus no espetáculo que conta a vida no Grajaú

a chegada ao galpão Humbalada, localizado próximo a dois locais que são referencia no bairro, o Terminal Grajaú e uma igreja evangélica. Era dia de apresentação e o elenco estava reunido ensaiando algumas das diversas músicas que estão no espetáculo. Ao fim do ensaio o culto começa, enquanto os ônibus passam, as pessoas correm pra casa, ou fogem de casa, assim é o Grajaú. Em meio a essa agitação a Revista ECP conversa com Bruno César, Vanessa Rosa e Tatiana Monte, atores e fundadores da Cia Humbalada de teatro. Com 13 anos de caminhada a Cia apresenta o espetáculo “Grajaú Conta Dandaras, Grajaú Conta Zumbis” inspirado no teatro de Arena, Arena Conta Zumbi. A ideia é contar a história dos Zumbis daqui, das Dandaras daqui, nossos antepassados daqui, a ideia não é reproduzir a história literal de zumbi dos Palmares, mas reproduzir a história do Grajaú, fala a diretora Tatiana. Baseado em histórias verídicas o espetáculo reúne um elenco que conta com a participação de outros grupos e atores da região; o Grupo Identidade Oculta, Zero Onze, Putz Vai dar Merda, Enchendo Laje & Soltando Pipa, Razallfaya, Carmen Soares e Cristiane Rosa.

Bruno, Tatiana e Vanessa estão no Humbalada desde o início, Malu Chrisostomo, que está na produção e Diego F.F. Soares, que está na luz, compõe a Cia de teatro. Subverter a ordem, é uma das mensagens desse grupo que possui 13 anos de estudos, espetáculos, crescimentos coletivos e pessoais. O espetáculo é vibrante, forte, e para os moradores do Grajaú e até mesmo de outras periferias é contar sua trajetória. A encenação inicia com os catadores de reciclagem do lado de fora do Galpão, cantando e dançando, chamando a atenção dos que passam, causando uma pequena confusão no trânsito, assim como o Grajaú, de trânsito caótico. A referência africana é muito presente, principalmente na música. É uma homenagem aos pais, que construíram um bairro, praticamente uma cidade, e hoje esses filhos tem o dever de continuar esse legado, contar sua história, esse é o espetáculo “Grajaú Conta Dandaras, Grajaú Conta Zumbis”. Quando os atores e atrizes começam a falar os nomes de seus pais é muito forte, o público lembra de seus pais, também construtores.


Foto: Paulo Henrique Sant’Anna Bruno, Tatiana e Vanessa em cena no espetáculo A Margem O espetáculo teve direção musical de Luciano Carvalho. A criação musical foi feita junto com a criação do espetáculo. Tem uma música do Arena, no qual o projeto foi inspirado, tem umas três músicas do Carlos Lourenço, que participa do projeto atuando. As músicas dão uma força descomunal a essa história. Traz uma vibração difícil de descrever, só estando lá para sentir a energia. É praticamente um musical, é um musical. O público é levado a percorrer as vielas da quebrada, pular na represa e morrer afogado e assassinado. As histórias contadas ali fazem parte do cotidiano de milhares de pessoas que aqui travam sua batalha diária. É possível sentir o genocídio na pele, todos são pretos, pobres, periféricos, indígenas, gays, lésbicas, nordestinos, mulheres e homens que dão o sangue na luta diária. A cena do banho tenta limpar toda essa carga, pra continuar a luta. A luta continua, a vida continua e a arte que acontece na periferia continua a contar nossas histórias com maestria. As arquibancadas compõe o espetáculo de forma incrível. Com várias cenas espalhadas pelo galpão tiveram de bolar uma estratégia para que o público pudesse acompanhar de todos os ângulos, então foram feitas arquibancadas móveis, que são empurradas pelos atores durante a peça. Isso traz o público pra mais perto da obra, sendo empurrado para a cena. O público inicia rindo e parte para a interiorização frente aos problemas do Grajaú. É um espetáculo longo, 2h30, mas que é tão intenso que não vemos o tempo passar. A peça é um manifesto cênico, o personagem está falando o que eu quero falar, diz Bruno. É um espetáculo muito vivo, onde você sente que o ator quer realmente estar em cena. Para Carmen Soares esse projeto é resultado de muita resistência dos artistas da periferia, que tem criado cada vez mais formas de produção, onde ainda é possível sonhar. O processo criativo durou oito meses, o convite para o pessoal foi feito ano passado, para afinar as agendas e iniciaram esse ano. Ensaiavam segunda, terça e sexta, fizeram vários treinamentos juntos, dança afro, a parte corporal era com a Vanessa, trabalhando diversos elementos, que se misturaram na composição do espetáculo. Esse processo foi sendo permeado com as provocações da direção. Para Janaína Soares, do Grupo Identidade Oculta, participar desse processo tem sido grandioso, tem tido

muitas emoções misturadas, foi um processo de se adentrar em si mesmo, ...teve momentos de muita crise, e momentos de muito amor, de muito carinho, de muito cuidado. É um processo de muitas camadas. Pra mim está sendo de verdade, um respiro e um presente do universo. O Humbalada começou a fazer teatro dentro da Casa de Cultura de interlagos, em 2004, com o teatro vocacional. Hoje Bruno e Tatiana tem 29 anos, Vanessa 26, eram muito jovens quando começaram. Foi ali que o Humbalada nasceu, com uma turma de iniciantes de um projeto público que falava sobre experimentação artística, diz Tatiana Monte. Vanessa ressalta que o grupo sempre acompanha essa questão cultural política, pois sempre se propõe a experimentações, e essas questões sociais de território, passando pelas culturas públicas e pela força dos teatros das periferias. Cesar fala do deslumbramento que tinham com a arte, no início, quando eram muito jovens. A arte era libertadora, no sentindo do corpo liberto, poder ser o que a gente é”. Para ele hoje está cada vez mais difícil fazer arte nessa sociedade conservadora, individualista, “não é porque a gente é grupo de teatro que está liberto das coisas que estão acontecendo”. Está tudo organizado para que a gente não tenha experiências coletivas. O processo do espetáculo é uma utopia do Humbalada, de criar uma experiência coletiva, por isso ela extrapola o grupo e abarca outras pessoas. Não é necessário ter um consenso, mas é necessário continuar dialogando, fala Tatiana, fazendo referencia a esquerda política. “Cada vez mais as coisas estão organizadas para que o diálogo seja interrompido, quanto mais o diálogo é interrompido menos estamos juntos, e mais fragmentados somos mais fracos, e ai a gente vai se enfiando nas ondas que vem de cima pra baixo, afinal o patrão está no poder.” reflete Tatiana. Nós temos um modelo muito europeu de se fazer teatro, os espetáculos das periferias meio que quebram isso. A gente não tem fome só de pão, a gente tem fome de outras coisas”, finaliza Vanessa. Galpão Cultural Humbalada Av. Grande São Paulo, 282 - Grajaú Próximo ao Terminal Grajaú TEL:(11) 5661-6534 ciahumbaladadeteatro@gmail.com

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TELECATCH MADE IN PARAISÓPOLIS

PORMICHELLE MICHELLE MARQUES POR MARQUES LUTA-LIVRE AO ESTILO TEATRAL AOS POUCOS CONQUISTA CRIANÇAS E JOVENS DA QUEBRADA.

Um sonho de menino que começa a se tornar realidade” é o que sente o lutador Marcelo Furtado quando fala sobre o projeto que seu filho, o também praticante da modalidade de luta-livre, Freddy Furtado de 19 anos, está à frente na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O jovem conta que desde de pequeno, seu pai o levava juntamente com seus irmãos para apresentações de telecatch, uma mistura de golpes e quedas planejados, mesclados com movimentos teatrais e circenses e o uso de máscaras características ajudava a criar mais interesse por cada personagem. Pai de cinco filhos, Marcelo, conheceu a modalidade quando criança pela tv, onde acompanhava fascinado nomes consagrados como Ted Boy Marino entre outros, mas sempre soube do alto custo que seria trazer este tipo de esporte/arte para a juventude da periferia. No ano de 2016, contemplados pelo VAI, fomento à cultura administrado pela prefeitura de SP, conseguiu verba para iniciar os trabalhos na unidade do CEU Paraisópolis. Hoje, essa comunidade tem o posto de 2ª maior favela da cidade, com aproximadamente 42 826 moradores conforme Censo de 2010. Esta realidade contrasta com os condomínios de luxo e escolas de elite situados no entorno do local e foi justamente pensando nesta disparidade que pai e filho apostaram na luta teatral para propiciar às crianças e jovens uma atividade que lhes desse acesso à cultura “Nós disputamos esses meninos com o tráfico, minha vontade é deixar pra eles a mensagem de que existe sim opção de não se envolver com esse tipo de coisa”, finaliza Furtado. Inspirados pela tradição mexicana de luta-livre, onde cada lutador assume um apelido e representa um tipo de personagem, Freddy comenta que o início foi bastante difícil.

“No primeiro dia, não veio ninguém, nem no segundo e terceiro, foi quando comecei a convidar pessoalmente os meninos do judô e agora o pessoal está começando a se achegar”. Já existem alguns talentos promissores na turma como Clayton e Vagner, conhecido como “Tigre”. Dentre todos os praticantes há apenas uma menina, mas a dupla Furtado, deseja investir cada vez mais na participação das mulheres no esporte, inclusive com a construção de um

ringue rosa para desmistificar de vez o preconceito. Todos os alunos têm aulas de teatro para aprender interpretar um personagem e com isso estimular o público a participar e sorrir com cada provocação que os lutadores fazem um ao outro. Um trabalho de resistência e perseverança, onde se busca levar o esporte e a arte até as bordas da cidade. A atividade não tem limite de idade e ocorre semanalmente no CEU Paraisópolis, (Rua: Dr. José Augusto de Souza e Silva, s/n – Jd. Parque Morumbi), de sexta a domingo, sempre a partir das 14:00. Não é necessária inscrição prévia.


Periferias seguem sangrando... … mas as barreiras do silêncio estão sendo rompidas. Nossos mortos têm voz! Por Thiago Borges SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2016. ERA PRA SER SÓ MAIS UM DIA DE FOLGA PARA JOVENS DA PERIFERIA DE SÃO PAULO. MAS COMO SABER QUANDO VOCÊ PODE SE TORNAR ALVO DAS ESTATÍSTICAS?

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universitário Matheus Santos de Freitas, um jovem negro de 24 anos, e outros três amigos pularam o muro da Escola Estadual Tancredo de Almeida Neves, no Jardim Novo Horizonte (Grajaú, Extremo Sul de São Paulo). Sem áreas de lazer na região, a comunidade utiliza a quadra do colégio para jogar bola, entre outras atividades, tanto na semana à noite quanto nos finais de semana. A direção da escola não embaça porque tá ligada. Nunca teve problema. Geralmente, Matheus e os amigos colavam na quadra pra jogar basquete. Mas naquela noite só queriam trocar uma ideia, mesmo. Conversa vai e vem, por volta das 21h eles foram surpreendidos por três policiais à paisana que estavam dentro da escola para resguardar as urnas eletrônicas utilizadas nas eleições municipais. Um dos policiais abordou os quatro jovens dizendo que não poderiam permanecer por ali e disparou contra eles, que vazaram assustados. Matheus foi baleado, conseguiu pular uma das grades mas caiu pouco depois. Dois dias depois, Matheus morreu no Hospital Grajaú. Filho de pais evangélicos, Matheus foi aluno da EE Tancredo Neves, lutava jiu-jitsu e deixou o emprego no setor financeiro para se dedicar ao último ano da faculdade de Economia no Centro Universitário Nove de Julho. Tinha planos de investir na Bolsa de Valores e muitas ideias para melhorar o próprio bairro. Inconformados com a situação, dezenas de amigos e conhecidos de Matheus protestaram contra a ação da Polícia Militar. Com faixas, cartazes e gritos de ordem contra a PM, eles ocuparam a pista da avenida Paulo Guilguer Reimberg, mas foram duramente reprimidos pela Força Tática, que lançou bombas de gás tóxico e balas de borracha contra a multidão – incluindo crianças de colo, pessoas idosas e trabalhadores que tentavam chegar em casa. Se você está vivo, corre o risco de ser assassinado. E se protesta contra isso, é reprimido pelo Estado. Até quando suportaremos esse silenciamento? Em todo o Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. Anualmente, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são mortos. A taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes a verificada entre os brancos, o que reforça a tese de que está em curso um genocídio da população negra segundo constatações do próprio Senado Federal no relatório final da CPI sobre o Assassinato de Jovens encerrada neste ano. Ainda em outubro, cinco jovens negros da Zona Leste desapareceram após saírem para uma suposta festa. Os corpos foram encontrados no dia 06 de novembro, em um matagal em Mogi das Cruzes. Os principais suspeitos são policiais e guardas civis municipais de Santo André. No dia 10 de novembro, algumas centenas de pessoas ligadas ou não a movimentos negros, periféricos e de luta

por direitos humanos romperam uma pequena barreira policial e ocuparam o saguão da SSP, Secretaria de Segurança Pública. “Eu acredito friamente que foi a Polícia que matou eles. Eu acredito também que eles não são os últimos a morrer. Dói quando a gente olha algo de longe, quando um jovem morre. Mas quando bate na nossa porta, na porta do vizinho, a gente reconhece e entende que isso realmente existe. Era meu irmão de favela, meu irmão de quebrada”, disse a amiga de uma das vítimas. Quando o secretário Mágino Alves apareceu, prometeu receber uma comissão de quatro manifestantes para protocolar reivindicações enquanto os demais sairiam do prédio em segurança, mas descumpriu o acordo pouco tempo depois. Cercado de policiais militares, forçou manifestantes para a rua, onde falou apenas com a imprensa e entrou novamente no prédio por uma porta lateral enquanto a da frente era cercada. Os movimentos protocolaram representação no Ministério Público com pedido de providências em caráter de urgência para reparar as famílias dos cinco jovens, além de acompanhar as ações requeridas pelo Condepe. O documento chama atenção ainda às chacinas e casos de morte de jovens negros que se sucedem no Estado e à dor constante nas periferias, denuncia o racismo, a tortura e a violação de direitos humanos. Por fim, reivindica que o MP monitore a apuração e denúncia dos policiais suspeitos de envolvimento no caso e a responsabilização do Estado de São Paulo, na figura do governador Geraldo Alckmin e do secretário Mágino. Uma semana depois, o movimento independente Mães de Maio lançou um livro contando a história de resistência de mães de vítimas da violência do Estado e a campanha internacional #BlackBraziliansMatter, que assim como a versão norte-americana #BlackLivesMatter pretende denunciar em todo o mundo o genocídio negro que acontece por aqui. Dois dias depois, o Tribunal Popular realizado por movimentos e organizações no Jardim Ângela condenou o Estado brasileiro pelo genocídio negro e dos povos indígenas, dos pobres e periféricos. Contra o sangramento, as vozes estão se levantando. E são cada vez mais vozes, e cada vez mais fortes. “Tentam nos enterrar, mas somos sementes”. Leia mais sobre esse e outros assuntos no site: www.periferiaemmovimento.com.br Curta nossa página: 11 fb.com/PeriferiaEmMovimento


S DE SOLIDARIEDADE A instituição de promoção social Venha Conosco, desde 1986 luta em sua trajetória dentro de comunidades carentes na região do Jardim Primavera. Com o intuito de promover melhores condições aos moradores, abre suas portas para crianças e adultos, onde trás a todos oportunidades de ter acesso a cursos de complemento curricular como, administração, inglês, espanhol, panificação, libras, dança, artesanato, violão e karatê. Além dos cursos há também assistência psicológica e atendimento jurídico. Os cursos oferecidos são aplicados por profissionais voluntários, que se dividem em horários acessíveis durante toda a semana, assim conseguindo atender todo o público. Independente dos cursos, a unidade administrativa dispõe do espaço, recebendo moradores a qualquer momento. Cláudio Mingarelli, o fundador da instituição, trabalha com todos seus companheiros para que os espaços sociais possam ser frequentados por todos da comunidade, assim conscientizando pais e filhos do bem comunitário. Não perdendo a essência do fundador, os integrantes da casa de oportunidades enfatizam os frequentadores de que toda a conquista é para o bem estar de todos. O intuito é continuar com a programação de cursos, incluindo as assistências disponíveis, projetar creche para idosos e ampliar cada dia mais. Conscientizar, contribuir, acreditar e transformar a vida de todo cidadão periférico, sem estereotipar idade, pois o despertar é entender que somos um só. 12

Sede Social e Cultural: Rua Benedito Vieira da Silva, 98 - Jardim São Benedito Fone (11) 5662-2111 e 5661-5861 e-mail: venhaconosco@uol.com.br facebook/nucleovenhaconosco


ESPAÇO CULTURAL NA ZONA SUL DE SÃO PAULO, FUNCIONA DESDE 2014 COMO LAR E OFICINA DE ARTISTAS QUE QUEREM UM LUGAR PARA TRABALHAR A CRIATIVIDADE.

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história começa com Ayco e Dimas Samid produzindo em um ateliê em sua própria casa. A ideia de se juntarem em um único espaço, o atual, veio juntamente com o restante do time: Gelson Those, Ricardo Negro, Harry Borges, William Mangraff e Recassio. Alguns deles, inclusive, moram até hoje no ateliê. Vários nomes são citados como Mano Money’s, Tigone, Roger, Jefferson Leal, entre outros, que também fizeram parte, em algum momento, da caminhada. Antes fechado, agora, o espaço está à disposição de todos que precisarem de apoio para trabalhos, atividades, exposições e até bate papos. “A galera começou a vir, então a gente foi abraçando a ideia de fazer eventos e coisas que deixassem o ateliê aberto” nos conta, Ayco, artista e atual residente do ateliê. O espaço já foi utilizado pelo sarau ECP, coletivo periférico, e levou exposições como Cidadelas, Univer5os, Virada Sustentável, entre outras, e oficinas que começaram a dar vida ao lugar. O horário de funcionamento é de segunda a sábado, das 8h às 21h, agora, com a intenção de atingir não somente o público que já vem do meio artístico, mas também, toda a comunidade que mora ao redor, e, segundo eles, graças a isso as pessoas vêm conhecendo mais e se interessando, desde mães procurando oficinas pros filhos a crianças vindo depois da escola. A pretenção é que as exposições tenham uma rotatividade mensal e desde que iniciada, a proposta já vem com sua nona edição. A próxima exposição está fechada, se chama Miragem e tem passagem por diversos lugares do Brasil como Ceará, Minas Gerais, Bahia e outros. Ano que vem ela fará abertura do ciclo na casa mas eles nos deixam bem ansiosos quanto ao seu conteúdo. O processo das exposições passa por uma curadoria, onde são pensados os artistas, quais trabalhos conversam entre si e o porque de trazer isso ao público. A galera do ateliê conta com parcerias que, juntas, pretendem trazer exposições de galerias da Vl. Madalena, Pinheiros, e artistas conceituados como o caso do Nave Mãe, que está na Terrorismo e Distorção, atual exposição que vai até o início de dezembro. “A galera do Grajaú às vezes vem porque não tem como ir lá prestigiar onde ele expõe, então por que ele não pode trazer pro pessoal daqui, né?!” Levanta a questão, Dimas, artista e também morador do ateliê. “A galera que a gente traz tem

Por Larissa Araújo a mesma linha de pensamento que a gente, que a arte é pra todos, e precisa também na periferia.” Continua. Todo o processo de montagem é feito pelos artistas da casa e segundo eles, a correria é grande. As mudanças são feitas de acordo com a exposição, cores ao redor, locais expostos e a faixada são características que também ficam ao critério do artista expositor. As obras ficam à venda durante a exposição, e disponíveis ainda no mês seguinte. Um catálogo está sendo criado, para o ateliê atuar com o papel de galeria também, fazendo a ponte entre público e artista. “Conforme o percurso que você vai fazendo, você vai amadurecendo, né, por que quando o ateliê começou ele era um espaço de produção, depois virou para exposição, e agora também traz essa convivência. São construções.”Explica Dimas. Com o pensamento de que arte tem que causar reflexões, os meninos seguem trazendo excelentes exposições e levando um tipo de educação artística, pra mostrar que arte está presente em lugares impensáveis. O ateliê está aberto, trazendo a referencia para o lado de cá, e segue agregando às pessoas cultura, arte, beleza e inclusão à periferia. “Vamos agregar, vamos somar.” O convite também fica aberto.

Ateliê Daki: Rua Rogério Fernandes, 20 - Jd. Reimberg 13

- Grajaú - facebook/ateliedaki


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PROJETO GRAJAÚ-MACHU PICCHU SERÁ LANÇADO DIA 22 DE DEZEMBRO NO ESPAÇO CULTURAL ECP Por Valéria Ribeiro

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projeto do coletivo Expressão Cultural Periférica, o ECP, é uma grande viagem, literalmente, uma Expedição do distrito do Grajaú, zona sul de São Paulo, até a cidade Machu Picchu, no Peru!. O grupo resolveu unir a paixão pelas viagens com as ações culturais que realiza e quer compartilhar essa grande expedição com o maior número de pessoas possível. O grupo vai percorrer mais de 10.000 KM abordo de um Fiat Doblo, saindo do Grajaú no dia 26/12/2016 e retornando no dia 19/01/2017, totalizando 25 dias de estrada, percorrendo sete estados brasileiros, três regiões e três países. O ponto de retorno será a cidade histórica peruana de Machu Picchu, construída pela civilização Inca. A intenção é envolver as pessoas por meio de interação pela Internet, um aplicativo de celular, que será criado especialmente para a Expedição, fotografias, vídeos e um diário de bordo. As pessoas poderão acompanhar e interagir com o grupo, que irá fazer sorteios de coisas compradas ao longo da viagem. O grupo partirá do Grajaú em direção a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, de lá vai para Corumbá, na fronteira com a Bolívia, atravessando sentido a cidade de Santa Cruz de La Sierra, seguindo em direção a capital La Paz. A Expedição vai passar pelo lago mais alto do mundo, o Titicaca, na fronteira com o Peru, de lá seguirá para Cusco e por fim Machu Picchu. Para voltar ao Brasil optaram entrar pelo estado do Acre, para conhecer melhor o norte do país, local onde ne-nhum dos participantes da expedição estiveram antes. Do Acre passarão por Porto Velho, em Rondônia, seguindo para Cuiabá, no Mato Grosso e na região da Chapada dos Guimarães, uma das maravilhas do Brasil, de lá seguem rumo a Goiás e querem passar em Brasília, se der tempo, seguindo para Uberaba, já em Minas Gerais, seguindo na direção de Ribeirão Preto, já em São Paulo. O projeto quer fazer parcerias com pessoas físicas e jurídicas, com o propósito de compartilhar toda a vivência por meio de palestras, oficinas, uma exposição fotográfica, um documentário e uma edição especial da Revista Expressão Cultural Periférica que abordará o dia a dia da expedição. A revista será distribuída em escolas públicas e projetos do distrito do Grajaú. No total será um ano de projeto, que tem como um de seus objetivos, além das ações já mencionadas, incentivar as pessoas a viajarem, saírem da zona de conforto e buscar novas experiências que enriquecem imensamente cada pessoa envolvida. A Doblo, que comporta 7 passageiros sairá do Grajaú com seis aventureiros, são eles: Gi Barauna, letróloga e coordenadora da ONG Venha Conosco, e que está a frente do coletivo ECP desenvolvendo diversas atividades juntamente com Valéria Ribeiro, jornalista, ativista cultural e educadora

de Informática na Associação Amigos do Jardim Reimberg. Ambas fizeram uma viagem parecida para a Argentina e Uruguai, entre 2014 e 2015, junto com Susy Neves, pedagoga e educadora da ONG Brascri Associação Suíço-Brasileira de Ajuda à Criança. Nessa viagem foram somente as três mulheres, que desbravaram o sul do continente percorrendo 7.000 km em 21 dias. Ricardo Negro, um dos fundadores do ECP, esteve na estrada com o grupo entre 2013 e 2014, quando foram até a Paraíba, percorrendo 7 estados, 20 dias e 8000 km rodados. Desde então o coletivo não consegue mais ficar parado e nesse novo projeto encontrou uma forma de compartilhar com as pessoas essas experiências tão ricas. Juntaram-se ao grupo nesse novo desafio Denise Araújo, pedagoga e educadora em escola pública e Thiago Paixão, tecnólogo, educador de informática e ativista de software livre. O ECP está em busca de apoiadores para o projeto, pois os custos são elevados, principalmente com o combustível e com reparos no carro para que fique em boas condições para a viagem. Tem também a hospedagem, um custo alto, mas o grupo pretende se hospedar em hostels, que são dormitórios compartilhados e onde podem cozinhar, diminuindo os custos, além de acampar, e trocar serviços por hospedagens. Outro custo é a alimentação, por isso pretendem levar fogão para que possam cozinhar e poupar dinheiro. De qualquer forma o grupo quer gastar o menos possível e fazer uma planilha de custos, dicas de roteiros e lugares onde se hospedarem, para que possam compartilhar e incentivar outros viajantes. Além disso todo o apoio terá como contrapartida as oficinas em 8 escolas ou projetos sociais mais os materiais já citados compartilhados com a comunidade. Todos que apoiarem ao projeto concorrerão a viagens pela agência Mundo Afora Viagens e Passeios. Lançamento do projeto e sorteio dos prêmios: Dia 22/12/2016 às 19h - Espaço Cultural ECP/CJ - Rua Alba Valdez, 03 - Jardim Reimberg Ao lado da Escola Lourival Brandão


LARISSA ARAÚJO, STELA SILVA E LARISSA COSTA NO PROGRAMA PERIFERIAS DE NOVEMBRO

MULHERES ORGULHANDO MULHERES, FAZENDO POR MULHERES, VIVENDO POR MULHERES, SORRINDO POR MULHERES, LUTANDO POR MULHERES E ACREDITANDO NAS MULHERES NOIX POR NOIX, PARA NOIX E DONAS DE NOIX POR LARISSA COSTA

PATROCÍNIO

PARCEIROS Associação Amigos do Jd. Reimberg CJ

Revista Expressão Cultural Periférica ED 7  
Revista Expressão Cultural Periférica ED 7  
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