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- “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” [...] Ao se referir ao compadre Quelemém, Riobaldo diz que aceita de bom grado suas preces, doutrina de “Cardéque”, e recomenda que o interlocutor, certamente também o próprio Guimarães Rosa, o conheça: O senhor vai ver pessoa de tal rareza, como perto dele todo-o-mundo pára sossegado, e sorridente, bondoso... Da época de juventude na Faculdade de Medicina ficou a amizade com o colega Aurélio Caciquinho Ferreira, vínculo que resistiria à distância e ao tempo. De família enraizada no norte de Minas, em especial em torno de Januária, o Dr. Aurélio, que foi médico nessa cidade por longo período, trocou correspondência frequente e constante com Rosa, que sempre lhe solicitava casos de jagunços e fatos pitorescos da vida de médico do interior. A família Ferreira era adversária jurada do jagunço Antônio Dó, famoso por sua crueldade e poderio, que foi morto em 1929. Ricas memórias dos tempos antigos do sertão é que certamente não faltavam. Lamentavelmente, em 1979, uma excepcional cheia do Rio São Francisco inundou Januária, atingindo a casa e a biblioteca do Dr. Aurélio. Todas as cartas de Guimarães Rosa ao amigo foram destruídas pelas águas barrentas, segundo informação pessoal de

FOTO - REPRODUÇÃO: RICARDO BARBOSA / ALMG

conto “A Estória de Lélio e Lina” também apresentava sinais de miopia: A Chica apertava muito os olhos, muito azuis, para enxergar melhor as pessoas, e sempre em si sorria. No livro “Grande Sertão: Veredas”, o personagem principal Riobaldo seria, em muitos aspectos, o próprio Guimarães Rosa, conforme reconheceu o autor em algumas entrevistas. Como em todo ser humano, existe nele uma mistura de coragem e medo, de certezas e incertezas, de amor e ódio, e uma luta permanente do bem contra o mal. Em uma frase carregada de poesia, Riobaldo relembra uma crise passageira de depressão durante sua juventude, em um momento de conflito íntimo, quando não via um sentido maior para a sua existência, e assim se expressou: Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo [...] Ainda no “Grande Sertão: Veredas”, tudo indica que Seu Nequinha, de Itaguara - ou seja, Manoel Rodrigues de Carvalho - raizeiro, que professava a religião espírita, influenciou o personagem compadre Quelemém, que também era espírita e teve grande ascendência sobre Riobaldo. No texto, é quem o aconselha sobre seus muitos dilemas existenciais:

Em 1952, numa volta às origens, realizou uma grande cavalgada pelo sertão mineiro, tangendo uma boiada. Saiu das margens do Rio São Francisco em direção a Cordisburgo, sua cidade natal. Nessa viagem conheceu o vaqueiro Manuelzão, que viraria um importante personagem de sua literatura sua filha Sônia Ferreira. Rosa vivenciou significativas mudanças na prática médica entre as décadas de 1920 e 1960. Nesse período, em que pesem os avanços cirúrgicos, os antibióticos e outros medicamentos, e a sofisticação dos exames complementares, antigas doenças persistiram em infligir sofrimentos à humanidade. Assim, dezenas de enfermidades e situações de convívio médico/paciente são sempre relatadas poeticamente em sua literatura. Essa, portanto, é a justificativa para este livro: realizar mais uma abordagem, até agora pouco explorada, sobre a obra do médico e escritor João Guimarães Rosa.  Confira, na próxima edição, o segundo capítulo da série. APOIO CULTURAL:

MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  41

Revista Ecológico - Edição 105  

Confira a Revista Ecológico Ed. 105 > O Grande Sertão: Médico de Guimarães Rosa > Ecológico nas Escolas: Veja por que o Brasil é o campeão m...

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