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FOTO: DIVULGAÇÃO

portadores de algumas doenças paradigmáticas de sua época (hanseníase, malária, tuberculose, varíola, ofidismo e algumas doenças psiquiátricas) teve uma imensa influência sobre seu pensamento e sua criação literária. Eugênio nos conta o valor individual de cada uma dessas doenças e sintetiza brilhantemente o “conjunto das influências” no último capítulo, “à guisa de considerações derradeiras”. O segundo sabor especial a ser degustado é mais sutil e tem profundas implicações na vida dos médicos: a percepção (pouco comentada) que Guimarães Rosa teve de que a prática médica não era “a sua praia”. Como leitor privilegiado da realidade, ele desvela um aspecto pouco discutido da Medicina: para a maioria, o núcleo da Medicina é o corpo de conhecimento teórico que a fundamenta, e são poucos os que percebem que, apesar dessa enorme e indispensável base teórica, o ato médico é, a exemplo do trabalho de um ator, um destilado puro de performance, na

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Escrito pelo ambientalista e professor Eugênio Marcos Andrade Goulart (foto), do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenador de Publicações Científicas e Literárias do Projeto Manuelzão e membro do Instituto Biotrópicos, o livro é uma homenagem a João Guimarães Rosa, o médico-escritor. João Rosa, como era conhecido nos tempos de juventude, foi aluno da Faculdade de Medicina da UFMG, nos anos de 1925 a 1930. Inicialmente clinicou em pequenas cidades do interior mineiro e posteriormente dedicou-se à diplomacia brasileira e à arte de escrever. Teve sua obra literária reconhecida internacionalmente, quando passou a ser o consagrado Guimarães Rosa. Entretanto, nunca abandonou suas raízes médicas.

FOTO: ALFEU TRANCOSO

“Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte...”

mais precisa e profunda acepção do termo: exercício de atuar, de desempenhar. A percepção da concomitância dessas duas faces da Medicina - a massa teórica e a performance - é sutil, mas radical. Como revelado neste livro, Guimarães Rosa percebeu o tenso ponto de contato entre elas:

Não nasci para isso, penso [...] Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material - só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez - nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou o futebol... Seria ótimo que essas vertentes fossem consideradas numa espécie de “exame periódico de consciência” que os médicos deveriam fazer em sua vida profissional; talvez isso contribuísse para melhorar a qualidade da relação médico-paciente, tão em baixa nestes tempos pós-modernos. Fará muito bem aos médicos ler “O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa”. É o que a Revista Ecológico irá mostrar a partir desta edição. Acompanhe! (*) Professor da Faculdade de Medicina da UFMG.

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MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  35

Revista Ecológico - Edição 105  

Confira a Revista Ecológico Ed. 105 > O Grande Sertão: Médico de Guimarães Rosa > Ecológico nas Escolas: Veja por que o Brasil é o campeão m...

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