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CARTA ABERTA AOS PARLAMENTARES BRASILEIROS Quando, no primeiro dia de fevereiro de 1987 se convocou a quinta assembleia nacional constituinte o brasileiro acreditou que teria, enfim, uma república democrática nos moldes do primeiro mundo, livre de ditaduras e tiranias, como a que todos acreditavam estar finalizando. Infelizmente, de costas para o futuro, e com olhos para o recente passado, promulgou-se a constituição do ódio contra a Polícia Civil, porque ela, através dos Departamentos de Ordem Política e Social, houvera servido a dois governos de exceção. Por isso, atividades e instrumentos próprios da investigação, como a busca e apreensão, a prisão temporária para investigação e o processo sumaríssimo das infrações de trânsito e contravenções penais foram retirados da esfera de domínio do Delegado de Polícia e entregues ao Juiz de Direito. Não bastasse, ainda se deu ao acusador oficial o poder de exercer o controle externo da atividade policial, acreditando assim que as forças policiais estariam sob controle de instituições isentas e virtuosas. Ocorre que as instituições são feitas de homens, e homens com poder são projetos de tiranos. Conseguimos, afinal, substituir a ditadura da farda pela ditadura da toga! Como a história tem mostrado incansavelmente ao longo dos tempos, nenhuma ditadura consegue se impor e se manter sem um braço armado e uma 26

propaganda massiva, delirante, capaz de confundir o povo e fazê-lo pensar que vive no melhor dos mundos, pois o povo acordado e consciente é perigosamente dono do poder. Não tendo conseguido dobrar a polícia civil a seus propósitos, consciente que esta estava de ter sido usada e abusada pelos ditadores militares, os togados iniciaram um namoro profícuo com as milícias estaduais, repletas de homens e vazias de objetivos, que prontamente aceitaram a simbiose para ganhar existência no pós-vida do militarismo ainda insepulto. Tendo na mão a grande imprensa brasileira, cujas maiores empresas foram gestadas e embaladas no seio e no colo da ditadura anterior, no que se afeiçoaram à promiscuidade com o poder, a recéminstalada ditadura da toga passou a desacreditar publicamente a instituição Polícia Civil. Tanto em novelas televisivas de gosto duvidoso, quanto em noticiários espetaculares e faculdades de direito, onde alunos, na exata acepção etimológica da palavra, recebem os delírios de professores comprometidos como se fosse a revelação do oráculo, o inquérito policial passou a ser achincalhado de “mero procedimento administrativo” e o Delegado de Polícia passou a ser vendido como analfabeto e truculento. Assim, desconstruindo a instância investigativa, a quem interessa sobretudo a

Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de Minas Gerais

Revista dos Delegados de Polícia nº 22  
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