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REPORTAGEM

europeus, muito menos pelas crenças cristãs. Os povos originários também têm ritos, como é o caso da comunidade indígena sanöma, subgrupo dos Yanomami que vive na fronteira entre Brasil e Venezuela e é estudado pela professora de Antropologia da UnB Sílvia Guimarães. Estima-se que existam cerca de 6 mil índios sanöma (a pronúncia é sanâma), metade distribuída por 28 comunidades no lado brasileiro, e metade no país vizinho. O grupo encara a morte como um evento que envolve toda a aldeia e possui uma ritualística cuidadosa. A ideia é deixar o caminho livre de pendências para que a alma do falecido consiga fazer a “transformação” e seguir para o outro destino que o espera. MAIS PERTO DO ALTAR, MAIS PRÓXIMO DE DEUS

No período colonial estudado pela historiadora Loyanne Rocha, a sociedade estava preocupada com o destino e a salvação da alma. Em um Brasil imerso no cristianismo importado da Europa, as preocupações sobre o destino da alma do morto implicavam rituais — e dinheiro. Neste contexto, a pesquisadora estava interessada em estudar como a população não branca (mestiços e africanos) se relacionava com os padrões fúnebres da sociedade europeia aplicados na colônia. Durante a dissertação, contudo, descobriu que o objeto de estudo era mais um híbrido entre práticas cristã-europeias e afro-religiosas. Para garantir a salvação da alma, o local do enterro desempenhava papel fundamental, tanto que havia disputa pelos melhores lugares. Era comum sepultar as pessoas dentro das igrejas católicas. Nem o terreno sagrado ficava livre de distinções hierárquicas. Quanto mais perto do altar central, por exemplo, mais próxima a alma estaria dos santos e de Deus. Riqueza (ou falta dela) também influíam na localização geográfica do corpo. Os mais ricos, em geral, ficavam com os melhores lugares na igreja, perto do altar. Já aos menos afortunados eram destinados locais de menor prestígio, próximos à porta ou bem na entrada do templo. As vestimentas do morto demandavam cuidado especial no dia do enterro. “Em Minas Gerais, as famílias se preocupavam em usar mortalhas ligadas às irmandades”, observou Loyanne, explicando que as irmandades eram associações ligadas à Igreja Católica, geralmente ao culto de um santo específico. Funcionavam como extensão da igreja, cuja presença oficial no Brasil não estava muito bem estabelecida. A roupa de São Francisco era uma

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das preferidas, por representar a pobreza e humildade cristãs, virtudes apreciadas pelos fiéis. A escolha certa, acreditavam, poderia ajudar o morto a ter a alma salva. Para os sanöma, a lógica é outra: é necessário “botar fim à existência para liberar a pessoa para o mundo dos mortos”, comenta Sílvia Guimarães. Assim, tudo relacionado ao morto deve ser pulverizado. “Tudo que a pessoa mexeu, seus ossos, o que a lembra, os índios queimam. Eles pulverizam porque acreditam que fica uma parte da corporeidade da pessoa nas coisas.” Só assim a pessoa estaria livre para seguir caminho. Nas Minas Gerais em pleno Brasil colonial, o roteiro das tarefas para garantir o bom destino da alma ainda exigia seguir os rituais de morte da época: lavagem do corpo, preparação com a roupa especial e acompanhamento do cortejo fúnebre. “Quanto mais pessoas, melhor. A morte era uma experiência coletiva e não individualizada. O cortejo era importante porque nele as pessoas mostravam sua posição social, o status dentro da sociedade”, descreve Loyanne. O envolvimento da comunidade nos rituais fúnebres também é identificável nas práticas dos sanöma. A antropóloga Sílvia Guimarães conta que as cerimônias para esses indígenas se transformam em grandes festas, talvez comparáveis àquelas feitas pelos mexicanos no Dia dos Mortos. Sílvia descreve os rituais, que geralmente ocorrem na época da seca, como reuniões entre as comunidades vizinhas, com muita caça, comida, e itens para troca. “Os rituais são ancestrais

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Darcy Nº 21  

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