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JANEIRO A MARÇO

“Podemos mostrar se o ambiente precisa de interferência de políticas públicas” BICHOS INVISÍVEIS Logo que se transpõe as fluidas fronteiras entre o Araguaia e o rio dos Peixes, observa-se a diferença na tonalidade da água, aos poucos menos turva. Para chegar ao primeiro lago, de nome desconhecido, só com o auxílio do GPS. Contratempos surgem: não há passagem para o lago. O rádio comunicador, utilizado no contato com a outra equipe, está falhando. Nessas horas, mudar a estratégia é a alternativa. “Vamos para o próximo lago e aguardamos o pessoal lá”, sugere um dos integrantes. Ao olhar atentamente as margens do rio dos Peixes, além de árvores de troncos finos, uma pluralidade de espécies vegetais se evidencia, entre elas as cobiçadas macrófitas. Entretanto, a ausência de qualquer vestígio das plantas aquáticas no lago explorado desvia a atenção dos pesquisadores para os organismos planctônicos. Habituada à tarefa de capturá-los, a doutoranda em Ciências Ambientais Ana Caroline Alcântara aguarda a parada da embarcação para lançar ao fundo do lago uma mangueira ligada a uma motobomba.

Ana Caroline Alcântara

No Araguaia, a jovem pesquisadora dedica-se à obtenção de material para analisar os padrões de distribuição de espécies de zooplânctons e a influência das variáveis ambientais e espaciais nesse quesito. A expectativa é também encontrar sinais da ação humana sobre o rio. “A partir dessa abordagem de bioindicadores, podemos mostrar se esse ambiente precisa de interferência maior do estado em relação às políticas públicas”, prevê. Com sorriso discreto, quase coberto por seu longo chapéu, a moça calcula, no cronômetro, o tempo gasto para bombear 500 litros de água até uma grande rede de filtragem, utilizada para coletar os seres milimétricos. O período de espera para conclusão da etapa parece infindável. Especialmente quando se lida com percalços frequentes, como a obstrução do instrumento, o que obriga a pausa do processo até que o fluxo seja normalizado. Abatidos pelo cansaço já acumulado de outros dias, todos se calam. O barulho ensurdecedor da motobomba impossibilita qualquer descanso. Depois de quase dez minutos inquietantes submetidos ao zunido, finalmente os pesquisadores se dão por satisfeitos.

Doutorandos Ana Caroline Alcântara e Leonardo Gomes preparam equipamentos para capturar organismos planctônicos

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Darcy Nº 21  

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