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CARTA DA EDITORA

URGÊNCIA E NECESSIDADE DA PESQUISA CIENTÍFICA Thaïs de Mendonça Jorge, editora

Ilustração Marcos Silva-Ferraz/NicBio UnB

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á 10 anos a revista Darcy fez um Dossiê sobre o Cerrado (Darcy 2, set-out. 2009). Na edição, os ambientalistas já constatavam que a velocidade do desmatamento no Cerrado era maior que a da Amazônia e que a destruição avançava a um ritmo superior a 10 mil km2 ao ano (2009-2010). Entre 2010 e 2017, o bioma de 2.039.386 km2 perdeu 80.114 km2, área que equivale a 14 vezes o território do Distrito Federal. Estima-se que apenas 50% da área original do bioma ainda conservem a cobertura vegetal nativa. A perda, entretanto, não se mede apenas em metros quadrados de uma vegetação que, até bem pouco tempo, era considerada de pouca serventia e desprovida de atrativos. O Cerrado abriga 12 mil espécies de plantas, 267 de répteis, 209 de anfíbios, 850 de pássaros, 1.300 de peixes, além de ser refúgio para 13% das borboletas, 35% das abelhas e 23% dos cupins dos trópicos. Apenas uma parte desse imenso território foi pesquisada até hoje, embora se saiba que 901 espécies do Cerrado estão ameaçadas de extinção: 266 animais e 635 vegetais. Em 2002 foi realizado o primeiro monitoramento oficial do bioma que se estende por 12 Estados brasileiros. A revista Darcy apontou que a expansão agrícola avançava Cerrado adentro, empurrando a cana-de-açúcar, as lavouras de soja e outros grãos sobre a vegetação nativa – queimada para alimentar siderúrgicas, degradada pelo pisoteio do gado ou afastada para a construção das cidades. Enquanto a exigência do Cadastro Ambiental Rural (obrigatório para todos os imóveis rurais do país e primeiro passo para a regularização ambiental) progride lentamente, nem mesmo a exigência de que os fazendeiros mantenham de 35% a 20% de floresta natural em suas áreas é fiscalizada. E existem as populações que sobrevivem no meio ambiente duro, muitas vezes inóspito, sem ajuda oficial, sem estradas, com poucos recursos para produzir. São indígenas, quilombolas, geraizeiros, sertanejos, os quais, apesar dos pesares, ainda mantêm a cultura e as tradições dos nossos antepassados. Se o Brasil possui uma das maiores riquezas em espécies do planeta, o Cerrado, um dos seis importantes biomas brasileiros, é um território que demanda um olhar especial de nossos representantes. Há 25 anos está parada no Congresso Nacional a proposta de emenda constitucional para incluir o ecossistema como patrimônio nacional. A Darcy 21 tenta recontar toda essa história, pelas mãos e vivências de seus repórteres, redatores, designers, enfim, toda a equipe da Secretaria de Comunicação da UnB, os mesmos profissionais que, dia a dia, descobrem e registram em imagens e textos, fatos cotidianos ou eventos científicos, itens inusitados ou curiosos, e alimentam o Portal da Universidade. A Universidade de Brasília é uma atriz importante no cenário. Como polo irradiador de pesquisas, a UnB tem concentrado os estudos na região, formado estudiosos, estimulado a descoberta de novos veios de investigação e instigado as autoridades. Casa de educação, a Universidade cumpre o papel de desvelar uma realidade amarga, de um lado – o da falta de respeito com o ecossistema – e doce, de outro, com a grande possibilidade de exploração sustentável das riquezas frutíferas e vegetais do Cerrado, além de uma pecuária mais profícua. A revista Darcy traz ainda matérias sobre as novas pesquisas acerca do genoma do papagaio-brasileiro; o segredo das impressoras em terceira dimensão; e os rituais de morte em distintas culturas. Na seção Última Flor defendemos e mostramos como o vocativo, forma de uma pessoa se dirigir a outra, está sendo esquecido pelos usuários da língua portuguesa.

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Darcy Nº 21  

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