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ecossistemas mais abertos. A pesquisa está mudando isso: mostra-nos a grande beleza paisagística, cênica, a relevância do Cerrado nos serviços ambientais, no suprimento de água e na regulação do clima. Por outro lado, desde o início, a ocupação do território tinha como objetivo a extração dos recursos minerais e, mais recentemente, a pecuária extensiva e, na última etapa, a agricultura intensiva, com pouca valorização do que a vegetação nativa poderia fornecer. O Cerrado sempre foi visto como área de expansão da fronteira agropecuária. Tudo isso contribui para o processo de degradação e desmatamento desse bioma. Darcy – Todo mundo fala na redução dos índices de desmatamento na Amazônia, mas quase nada se sabe sobre as perdas na região antigamente coberta por Cerrado. Qual a situação hoje? MB – Ele já perdeu 50% da cobertura vegetal original e é pouquíssimo protegido. Na região conhecida como Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — observamos a expansão rápida do desmatamento, do mesmo jeito que vimos acontecer na parte Sul do bioma, com a chamada fronteira agropecuária. Estamos repetindo a história numa nova fronteira que está sendo aberta. Precisamos avançar muito nas pesquisas e repensar o modelo de agricultura, que gerou um passivo ambiental de áreas degradadas. Num mundo em que as variações climáticas estão se acentuando — começamos a nos perguntar por que está chovendo mais, ou menos, por que a estação chuvosa demora a chegar —, volta-se a atenção ao Cerrado no sentido de conservação da água. Qual é a atividade mais dependente de água? Sem dúvida nenhuma, a agricultura. O problema é mudar a consciência com a velocidade e urgência necessárias. Potenciais econômicos sustentáveis foram sendo deixados para trás. Em vez de abrir novas áreas, o correto seria recuperar e utilizar as áreas degradadas para novas finalidades. Esse é um passivo a ser resolvido. Darcy – No Cerrado encontram-se as nascentes de grandes bacias hidrográficas do país, que abastecem 70% das águas das regiões Norte (bacia Araguaia-Tocantins), Sul-Sudeste (Paraná) e Nordeste (São Francisco). O que podemos dizer de nossas reservas hídricas? MB – O Brasil também precisa avançar muito no cuidado de seus recursos hídricos. Tratamos muito mal nossas águas superficiais e subterrâneas. O Cerrado é como se fosse uma esponja, garantindo a lenta infiltração de líquido que vai abastecer os depósitos mais profundos. Imagine a vegetação como se fosse uma interface: o sistema radicular e as folhas conectam o solo e a atmosfera e regulam as trocas entre esses dois compartimentos. Às vezes se separa água superficial e água profunda, porém, todas pertencem ao mesmo sistema. Se se remove a cobertura, reduz-se a infiltração. Quando os aquíferos se tornam superficiais, dão origem aos nossos cursos d’água. A ocupação gera um processo de poluição do solo e pode haver contaminação das águas subterrâneas. Hoje, no Brasil, pelo menos 200 municípios utilizam a água do aquífero Guarani. Esses municípios dependem do abastecimento profundo, de poços artesianos, porque têm menos disponibilidade de retirada de águas superficiais. Existe uma relação forte entre o que acontece na atmosfera, a vegetação e os processos de armazenamento no subsolo. Se eu retiro o elo de ligação, se o terreno fica degradado ou parcialmente descoberto, isso vai afetar todo o sistema. Não podemos explorar mais água do que a capacidade de recarga do sistema. É a Ciência que mostra as conexões. Darcy – O que é o Aquífero Guarani? MB – O Aquífero Guarani tem importância grande pelo volume que representa: são 1,2 milhão de quilômetros quadrados de uma

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Darcy Nº 21  

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