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JANEIRO A MARÇO

descobriram mecanismos extremamente adaptados para segurar água e sobreviver em ambiente com solo pobre em nutrientes. O emaranhado sistema de raízes também é responsável por abastecer os lençóis freáticos e aquíferos. “A adaptação do Cerrado é muito bem feita, determinadas espécies suportam o fogo intenso. Quando o incêndio passa e às vezes atinge temperaturas de 500ºC, dentro da casca permanece em torno de 20ºC. Esse fenômeno ajuda a preservar todo o sistema da planta”, explica Paulo Ernane. Isso porque as cascas de determinadas árvores são muito grossas, revestidas com uma camada de cortiça que promove o isolamento térmico. Embora incêndios florestais já ocorram antes da existência do homem na Terra, causados por fenômenos naturais, esses episódios têm se intensificado pela ação humana. “O maior problema do fogo está na frequência com que acontece. As plantas e a própria fauna precisam de um tempo para se readaptar e o que reduz a diversidade é a repetição desses incêndios”, adverte o engenheiro florestal. Outra característica das árvores do Cerrado é seu crescimento lento; algumas podem levar mais de 10 anos para frutificar. Por outro lado, o ciclo de vida é longo, duram centenas de anos. Com clima tropical sazonal, temperatura média de 23ºC, o inverno no Cerrado é muito seco, sendo justamente neste período que se concentra a florada de boa parte das plantas. Isso intrigou os botânicos, que identificaram outra adaptação dessa vegetação. As plantas gastam muita energia para florescer e elas soltam flores na época seca para ficar mais vistosas e atrair mais os polinizadores. Assim, os frutos dispersos nessa estação podem atingir distâncias maiores.

Americano, professor Donald Sawyer vive no Brasil desde 1968 e se dedica à pesquisa do Cerrado desde o começo dos anos 1990

MAIS SUSTENTABILIDADE Em meados da década de 1990, Donald Sawyer fundou o Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN), centro independente de pesquisa e documentação. Um dos programas do ISPN apoia mais de 500 projetos no Cerrado, oferecendo apoio e soluções práticas para comunidades locais, principalmente voltadas para iniciativas sustentáveis de preservação e manutenção das funções ecológicas da terra. “Estamos num dos países mais importantes do mundo em termos ambientais e as pesquisas podem contribuir para a formação e constituição de políticas públicas. O uso sustentável da biodiversidade é uma das formas de viabilizar a permanência desses povos e agricultores familiares no campo”, assegura Sawyer.

Ilustração Marcos Silva-Ferraz/NicBio UnB

UM GRITO DE ALERTA

Um estudo publicado em 2017 na revista científica Nature Ecology & Evolution apontou que, se a devastação continuar avançando, até 2050 o Cerrado pode perder até 34% do que ainda resta, o que levaria à extinção de 1.140 espécies endêmicas, que são aquelas que ocorrem exclusivamente em uma determinada região geográfica. O número é oito vezes maior que a quantidade oficial de plantas extintas em todo o mundo desde o ano de 1500, quando começaram os registros. A organização não governamental Conservação Internacional (CI) mobilizou um Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, da sigla em inglês) que envolve financiadores internacionais: Agência Francesa de Desenvolvimento, União Europeia, governo do Japão, Banco Mundial, Fundação McArthur e Fundo Mundial para o Meio Ambiente. Na primeira década do século XXI, a CI investiu na Mata Atlântica. O Cerrado não foi contemplado. Em 2012, o pesquisador Donald Sawyer foi à sede da organização em Washington e, em 2014, foi convidado a coordenar o perfil ecossistêmico do Cerrado. Com mais de 500 páginas, o documento foi lançado em 2016 e contribuiu para o financiamento de 8 milhões de reais em projetos voltados à preservação da região.

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Darcy Nº 21  

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